"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 12 de dezembro de 2015

Colapso do aço e do petróleo, as consequências não advertidas do acidente chinês


por Marco Antonio Moreno
Não é nenhum segredo que as matérias-primas tiveram um horrendo 2015. A combinação desagradável de uma fonte transbordante e a demanda fraca está causando danos graves nos países produtores. Todos os preços caíram: desde o petróleo aos metais industriais, tais como alumínio, aço, cobre, platina e paládio. Na China, a indústria siderúrgica enfrenta seu pior momento após o boom que levou o gigante asiático a ser o maior produtor e consumidor do metal. O preço do aço caiu 30,6%  este ano depois de cair por quatro anos consecutivos: de 7,8% em 2011; 11,6% em 2010; 7,6% em 2013 e 16% em 2014, segundo os dados citados pelos Diário do Povo da China.
Ainda assim, as siderúrgicas chinesas não detiveram a produção e passaram a produzir 881 milhões de toneladas em 2011, para 951 milhões de toneladas em 2012, 1.7 bilhões de toneladas em 2013 e 1,13 bilhões de toneladas em 2014, criando uma superabundância sem precedentes no mesmo ritmo do estouro de sua bolha imobiliária. Agora que a construção caiu 20 por cento e tanto a indústria automobilística como a indústria naval definham, o aço, como o petróleo, se acumula nos estoques  causando uma enorme dor financeira.
Como indica o Diário do Povo, o índice PMI da produção industrial chinesa caiu em 37 em novembro, para seu valor mais baixo em sete anos. Uma cifra abaixo de 50 indica que a indústria está se contraindo. Como grande parte das siderúrgicas são estatais, ao manter a produção impulsionam o PIB local, mas isso cria enormes desequilíbrios financeiros. Esse sangramento está gerando uma seqüência interminável de perdas para o gigante asiático, com o declínio de suas reservas de dólares e aumento da fuga de capitais em novembro atingiu 113 bilhões de dólares, em comparação com 37 bilhões em Outubro.
Se o aço é a principal dor da China, os países mineradores chineses e os produtores de petróleo também vivem momentos amargos. O petróleo deslizou abaixo US$ 37 o barril nesta terça-feira pela primeira vez desde fevereiro de 2009. A situação é tão ruim que esta semana o índice de commodities de Bloomberg, que segue uma ampla faixa de produtos básicos, caiu para o menor nível desde junho de 1999. É o pior declínio desde a eclosão da crise financeira em 2008 e é um indicador que fica pior a cada dia.
Novo drama para o emprego
Novas evidências de estresse financeiro da mineradora Anglo American são esmagadoras. A gigante mineradora disse que vai suspender seu dividendo e vai vender 60% de seus ativos, o que poderia levar a uma redução de 85.000 postos de trabalho. A queda nos preços tem um impacto sobre o valor das ações. Principais índices de ações não param sua queda: o Dow Jones, o Ibex 35, o Dax e FTSE não param a sua queda.
Isto levanta preocupações sobre o estado da economia global. Os mercados estão em modo de pânico e a queda da demanda global acelera o colapso geral de preços. México, Brasil, Austrália, Nigéria reduziram drasticamente sua atividade econômica nos últimos trimestres. Que empurra para baixo os preços das commodities.
A crise nos países produtores de petróleo está gerando numerosos incumprimentos e falências por falta de liquidez. Ao mesmo tempo, a própria crise que vivem os países europeus ou o Japão não lhes permite aproveitar os benefícios destes preços baixos. A economia europeia está claramente estancada e assim o confirmam os índices de produção industrial. A desaceleração econômica diluiu o otimismo que prevaleceu no início deste ano, quando se anunciou uma forte recuperação. Esse otimismo foi o que acelerou a concessão de créditos que não podem ser pagos. A incapacidade de medir as consequências da desaceleração na China tem o mundo novamente enfrentando uma tempestade perfeita.

Trilema energético


Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

Trilema energético

O relatório “Trilema da Energia Mundial 2015” tem o objetivo de discutir as dificuldades do setor energético e contribuir para o debate dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) – aprovados na Assembléia da ONU de setembro de 2015 – e com as discussões da 21ª Conferência das Partes (COP21) de dezembro de 2015.
Tendo em vista a necessidade de acelerar o processo de transição para uma economia global de energia limpa e de baixo carbono, o Conselho Mundial de Energia propõe medidas e estudos para garantir os os três pilares do trilema da energia: segurança energética, equidade energética e sustentabilidade ambiental. Equilibrar estes três pilares é uma tarefa de alta complexidade.
Trilema é um termo utilizado quando se tem uma proposição formada de três lemas contraditórios ou que reúnem uma escolha difícil entre três opções conflitantes. O relatório identifica cinco pontos chave para lidar com o trilema energético:
1. Enfrentar as barreiras à transferência de tecnologia, tais como as tarifas sobre bens e serviços ambientais, ou a falta de proteção dos direitos de propriedade intelectual.
2. A definição de um preço global sobre o carbono, estabelecendo um sinal claro para o mercado e para os investidores no sentido de reorientar os investimentos para projetos de baixo carbono.
3. Enviar sinais corretas para incentivar políticas de financiamento para o setor, apoiando um acordo de transição para energia limpa, atraindo mais capital privado e demais projetos.
4. Melhorar a gestão da demanda de energia, bem como o fornecimento e a eficiência energética.
5. Priorizar investimentos em inovação de energia, especialmente em relação às energias renováveis e tecnologias de eficiência.
O relatório reconhece que conciliar segurança energética, equidade e sustentabilidade ambiental não é uma tarefa simples, especialmente se for para conseguir fazer igual progresso em todas as três áreas ao mesmo tempo.
O interessante é que a indústria energética está buscando formas de enfrentar os três desafios e garantir um diálogo global com os atores que participam dos acordos internacionais sobre o desenvolvimento sustentável (ODS) e as conferências do clima. Porém, é preciso incluir a sociedade civil neste diálogo, pois a democratização e a descentralização da produção de energia é uma tarefa essencial para o processo de transição para uma economia de baixo carbono.
Oliver Wyman. World Energy Trilemma report: Priority actions on climate change and how to balance the trilemma, 2015 https://www.worldenergy.org/publications/2015/world-energy-trilemma-2015-priority-actions-on-climate-change-and-how-to-balance-the-trilemma/

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 11/12/2015

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

China: triunfo do setor financeiro

O FMI decidiu incorporar a moeda chinesa no cabaz de moedas que aquela organização internacional usa como referência. Esta decisão do FMI coincide com um verdadeiro vendaval de más notícias sobre o desempenho da economia chinesa

Por Alejandro Nadal

Christine Lagarde e XI Jinping, Foto de International Monetary Fund/flickr
Enquanto o mundo estremecia com a notícia dos atentados em Paris, na sede do Fundo Monetário Internacional tomava-se uma decisão importante sobre o sistema monetário internacional. A moeda chinesa, o yuan, era incorporada no grupo de divisas usadas como referência para determinar o valor dos direitos especiais de saque (DES).
Os DES foram criados em 1969 para proporcionar maior flexibilidade em caso de emergência da balança de pagamentos. Hoje os DES têm pouca importância na estrutura e dinâmica do sistema internacional de pagamentos, mas fazer parte do cabaz de moedas que se utiliza para fixar o seu valor tem implicações significativas para essas divisas. Esse cabaz de moedas inclui o dólar, o euro, a libra esterlina, o iene japonês e agora o yuan.
O FMI justificou a sua decisão assinalando que a moeda chinesa é de livre disposição, querendo dizer com isto que se trata de uma moeda que se utiliza numa proporção significativa de transações internacionais.
Desde há muito que Pequim tem procurado este estatuto especial para o yuan. Pertencer ao seleto grupo de moedas escolhidas pelo FMI estimula o uso da moeda chinesa como meio de pagamento internacional e que mais bancos centrais recorram a ela no momento de constituir as suas reservas internacionais. Tudo isto, por sua vez, constitui um poderoso incentivo para que grandes operadores e administradores do setor financeiro (fundos de pensões e de cobertura, fundos soberanos, por exemplo) transfiram parte dos seus ativos para títulos denominados em yuan.
A decisão do FMI surpreende por duas razões. Por um lado, até há pouco tempo um setor importante nos Estados Unidos acusou as autoridades monetárias da China de manter o yuan sistematicamente subavaliado para fortalecer a competitividade dos produtos chineses nos mercados internacionais.
A batalha de vários comités do congresso norte-americano para que o executivo imponha sanções sobre a China é uma velha história. No último episódio, vários candidatos republicanos à presidência declararam que se ganhassem as eleições designariam a China como um país “manipulador da taxa de câmbio” e aplicariam sanções, desde o primeiro dia da sua administração. A verdade é que nos últimos anos o yuan tem passado por etapas de subavaliação, seguidos por fases de uma apreciação importante.
Por outro lado, o uso da moeda chinesa em transações internacionais e como reserva é ainda muito limitado. Por exemplo, há apenas quatro meses um relatório do FMI determinou que o yuan ocupava o sétimo lugar no ranking de moedas usadas como reserva internacional. Superavam-na as quatro divisas usadas no regime dos DES e, também, o dólar canadiano e o australiano. Além disso, o yuan ainda não figura entre as cinco divisas mais utilizadas no mercado mundial de divisas. Algo semelhante acontece no caso de títulos de dívida denominados na divisa chinesa.
Finalmente, a decisão do FMI coincide com um verdadeiro vendaval de más notícias sobre o desempenho da economia chinesa. A queda na taxa de crescimento é o sintoma mais conhecido, mas há outros indicadores como o colapso das importações chinesas que já atinge magnitude semelhante à de 2009. Talvez o mais grave é que a síndrome da deflação parece ter-se consolidado na China: o índice de preços ao produtor caiu 5,9 por cento em outubro, o quadragésimo mês em que o dito indicador se mantém em queda.
Além disso, o crédito mal-parado no sistema bancário chinês supera hoje 20 por cento do crédito total. Pior ainda, a expansão do crédito na China continua a superar em quase 200 por cento o crescimento do PIB. Há fortes indícios de que os empréstimos correntes na China superam em 40 por cento as necessidades de crédito dessa economia. E agora o pior de tudo: as bolsas de valores não estão ligadas à economia real. Em muitos casos os empréstimos de capital que os bancos concederam às empresas foram investidos nas bolsas. E quando as bolsas têm mau desempenho (como no verão passado) os sintomas de uma crise generalizada sentem-se por todo o lado.
A decisão do FMI pode estar mais relacionada com a intenção de travar o aprofundamento da crise na China. Em especial, espera-se que modere a saída de divisas que já afeta a China e, se for possível, inverta a fuga de capitais. Muitos bancos centrais procurarão manter parte das suas reservas em yuan e não poucos operadores de fundos de pensões transferirão recursos para títulos denominados na divisa chinesa.
Em troca da medida do FMI espera-se que o espaço económico chinês se abra por completo aos caprichos do sistema financeiro. À data subsistem na China controlos sobre os movimentos de capitais e a decisão do Fundo destina-se a acelerar o desmantelamento deste tipo de barreiras no gigante asiático. O mais delicado será o fortalecimento da economia de casino que acarreta o triunfo do setor financeiro na China.
Artigo de Alejandro Nadal, publicado no jornal mexicano La Jornada, em 9 de dezembro de 2015. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

Pesquisadores fundam Sociedade Científica do Semiárido Brasileiro


Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), Instituto Nacional do Semiárido (Insa) e Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) são as instituições fundadoras



Representantes de três instituições de educação, pesquisa e extensão se reuniram em Serra Talhada (PE) para a primeira assembleia geral voltada à criação da Sociedade Científica do Semiárido Brasileiro (SCSB). Estiveram presentes 18 sócios fundadores, da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), do Instituto Nacional do Semiárido (Insa/MCTI) e da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), representada pela Unidade Acadêmica de Serra Talhada (Uast) e pela Unidade Acadêmica de Garanhuns (UAG).
A SCSB será estruturada como entidade civil, sem fins lucrativos ou posição político-partidária, voltada para a defesa do avanço científico e tecnológico, bem como do desenvolvimento educacional, da região semiárida. O Insa integra o Conselho Consultivo da entidade, que também contará com pontos focais nos estados do Semiárido e congregará pesquisadores que atuam nas mais diversas áreas.
A intenção é fortalecer a rede com o ingresso de outras instituições de ciência, tecnologia e inovação (CT&I) e atrair o interesse social e político, nacional e internacional, ampliando as possibilidades de financiamento para pesquisa e extensão no Semiárido. Inicialmente, as atividades focarão a temática de produção vegetal, trabalhando para consolidar novos grupos de pesquisa, ampliar as linhas de fomento destinadas à atividade científica e aumentar a qualidade das trabalhos desenvolvidos, bem como a difusão das tecnologias geradas para a comunidade rural.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Agassiz Almeida: A noite dos fariseus

Palavras dirigidas ao ex-presidente Lula da Silva:

A sua subserviência não aplaca a ira do poder punitivo.
Se lhe falta a grandeza da solidariedade ao companheiro que tomba,cale-se.
“Imbecil” não é aquele que cai, mas o que covardemente o apedreja.
Respeite a sua história com a eloquência do silêncio.





Nos últimos dias, a nação assiste pelos meios de comunicação a um teatrão de marionetes.

Para onde vamos? Pergunta angustiado o povo brasileiro. Não tem resposta. As corporações se plantam nas suas “Torres de Marfim” e os poderosos grupos econômicos e financeiros sangram a nação. Desfecha-se este episódio. O poder julgador lança petardo no Senado que se queda estonteado. Este cenário lembra os carneiros de Panúrgio, personagem de Rabelais, os quais frente ao predador que os tenta devorar apenas berram.

Na célebre obra “A noite dos generais”, de Meirelles Passos, personagens se movem em meio à trama traiçoeira e se debatem entre o medo e o remorso. Na noite dos fariseus agitados e temerosos senadores levam a cabeça do colega ao altar de Júpiter, poderoso justiceiro.

Oh, tempora!  Oh mores!, brada Rui Barbosa da sua tumba. 

Há mais de 2.000 anos, senadores mancomunados com Brutus apunhalam Júlio César no Senado romano que nos estertores da morte ao tombar, solta estas palavras: “Até tu Brutus!”. Na capital do Brasil, senadores transvertidos de “Catões” do moralismo e hermeneutas das leis aceitam um flagrante montado e um delito tipificado como continuado.

Que execrável decisão! Golpearam mortalmente a independência da instituição. Ecos da poesia de Pablo Neruda envolvem a noite dos fariseus.

“Nas noites do Atacama o voo do albatroz, ave oceânica, cruza os espaços prenunciando tempestades. No solo, aves de rapina devoram uma gazela.”

Eis o contraditório fenômeno da vida. Nas horas de tempestade os medíocres se irmanam e levam o justo ao cadafalso.

Paremos um pouco! Passos de Mefistófeles ouvem-se na noite dos fariseus. Este vulto traz uma nota indecente excretada pela chefia do Partido dos Trabalhadores. Para servir ao senhor do chicote o lacaio pratica qualquer tipo de patifaria.

Que documento é este? Nota infame e oportunista atinge letalmente um senador que até poucas horas atrás era o líder do Governo e homem de confiança da cúpula do PT.

Que sabugisse inominável! Aos primeiros estremecimentos da deusa Themis o lançaram ao calvário.

Naquela noite, em que os tartufos vomitaram ira fabricada e alguns despejaram bravatas, um episódio histórico com a mesma conotação me salta à mente.Quando em 1 de abril de 1964, o golpe militar desabou sobre a nação, a Assembleia Legislativa da Paraíba cassou o meu mandato e de mais três deputados. 

“Oh,coveira apressada”! Que ato de tamanha fraqueza e o oportunismo praticou! Ofereceram de bandeja as nossas cabeças ao vitorioso e truculento general Justino Alves Bastos, comandante do IV exército.

Na consciência dos homens livres desata-se esta interrogação: Que força aterrorizou aqueles senadores a esfarraparem o instituto da imunidade, 

conquista histórica e secular que vem das lutas do parlamento britânico contra o absolutismo do rei, desde o século XVII? Com a espada de Dâmocles sobre as suas cabeças produziram aquela excrescente e covarde decisão.

Oh, melancólica noite em que a altivez cede lugar ao oportunismo!

Obs.: Mefistófeles é personagem da obra Fausto, de Goethe e representa o demônio.




Nota: Agassiz Almeida é escritor e ativista dos direitos humanos, autor de obras clássicas da literatura brasileira. Em 2001, sob a presidência do deputado Carlos Dunga a Assembleia Legislativa da Paraíba em sessão histórica resgatou os mandatos dos parlamentares cassados em abril de 1964. A história repele a covardia.

Argentina: integração subordinada


por Luiz Carlos Bresser-Pereira


O presidente liberal Mauricio Macri assumiu hoje a Presidência da República argentina, substituindo uma presidente desenvolvimentista, Cristina Kirchner. Seu primeiro objetivo é "integrar-se ao sistema internacional", do qual a Argentina se desvinculou no plano financeiro ao ter negociado com sucesso a reestruturação de sua dívida externa.

Luiz Carlos Bresser-PereiraMas o que significa essa integração? Será uma integração soberana, ou será uma integração subordinada, como é a regra definida pelo Oeste imperial? “Não se trata disso, nos dirá o economista liberal e cosmopolita, queremos apenas recuperar o crédito internacional da Argentina, que, assim, poderá se endividar em moeda estrangeira para crescer”. Ora, essa forma de integrar-se – endividando-se em moeda estrangeira e para com as empresas multinacionais – que é a forma subordinada. A Argentina, hoje, não tem dívida externa, e, como existe uma relação direta entre o déficit em conta-corrente, e como este é praticamente zero porque a Argentina não tem crédito internacional, a taxa de câmbio não está fortemente apreciada e a economia argentina continua relativamente equilibrada – em uma situação bem melhor do que a situação da economia brasileira. Se o governo dos Kirchner não tivessem usado o câmbio para segurar a inflação, a taxa de câmbio estaria plenamente competitiva, e o país estaria crescendo muito mais.

Agora, a partir do momento em que o governo promova a liberalização geral e retire a retenção sobre as commodities exportadas, a Argentina recuperará seu crédito internacional ao mesmo tempo que haverá uma desvalorização do peso. Parece bom, mas não é. Essa depreciação durará pouco tempo. Com a abertura da economia e a recuperação do crédito, entrarão capitais, e o peso voltará a se apreciar, mas agora sem o limite imposto pela impossibilidade de o país obter crédito no exterior. Em pouco tempo o déficit em conta-corrente se tornar grande, e teremos lá o que temos aqui no Brasil: uma integração subordinada, baseada no endividamento externo e na busca de crédito.

Agora, um Oeste feliz estará transferindo seus capitais para a Argentina, e o peso se apreciará em termos reais bem mais do que hoje já está apreciado. Em consequência, as empresas industriais e as de serviços sofisticados deixarão de ser competitivas, o processo de sofisticação produtiva, que, primeiro, o presidente Eduardo Duahalde (2002-03), e depois, os dois Kirchner (2003-2015) tentaram reconstruir na Argentina terminará, e o país ficará semelhante ao Brasil: integrado subordinadamente ao Oeste e, por isso e pelo populismo interno, sem perspectivas de crescer e fazer o catching up ou alcançamento dos níveis de renda dos países centrais.

Por que o Brasil está no buraco efeito da insustentabilidade do regime fiscal federativo?



por Wagner Torres

• Baixa motivação para crescimento regional – Estados beneficiados com transferência de recursos federais possuem pouco incentivo para aumentar suas taxas de crescimento e/ou coletar mais impostos. Ao aumentar sua arrecadação, podem tornar-se independentes, deixando de receber recursos do sistema de equalização fiscal e, ainda, passando a transferir receita própria para esse sistema. 

• Orçamentos em perigo financeiro grave – altos níveis da dívida refletem a falta de políticas para limitar empréstimos dos Estados. Como os Governos estaduais não possuem autonomia tributária e a flexibilidade do gasto é limitada, os déficits são a opção mais rápida e fácil ou para ganhar flexibilidade fiscal ou para reagir a uma crise súbita. 

• Muitos orçamentos são inconstitucionais – se o déficit anual de um Estado exceder o investimento anual líquido, seu orçamento é considerado inconstitucional, mas, na maioria dos casos, o processo judicial que julga a inconstitucionalidade leva mais de um ano, tempo superior à vigência do próprio orçamento.

• Gastos predeterminados dos Estados – a grande maioria do gasto dos Estados é, de uma maneira ou de outra, predeterminada pelas leis federais que tendem a não considerar características regionais. Gastos predeterminados limitam o poder das ordens de governo regional de aplicar recursos de acordo com suas necessidades específicas.

ONU afirma que economia global vai crescer apenas 2,4% em 2015

Relatório "Situação Econômica Mundial e Perspectivas" mostra previsão modesta de melhora para 2016 e 2017; documento afirma que economia do Brasil vai retrair 2,5% neste ano e 0,8% em 2016.
O relatório destaca que a inflação global atingiu o nível mais baixo desde 2009. Foto: Unctad
Edgard Júnior, da Rádio ONU em Nova York.
A ONU alerta que a economia mundial tropeçou em 2015 e vai crescer apenas 2,4% neste ano, 0,4% a menos do que a última previsão feita há seis meses.
O resultado consta do Relatório "Situação Econômica Mundial e Perspectivas 2016", Wesp, pela sigla em inglês, divulgado esta quinta-feira. O documento foi preparado pelo Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas, Desa.
Brasil
Segundo a ONU, a economia global deve crescer moderadamente nos próximos dois anos: 2,9% em 2016 e 3,2% em 2017.
Já o Brasil segue na linha oposta. O Desa afirmou que a economia brasileira deve retrair 2,5% neste ano e 0,8% no ano que vem. A situação deve melhorar em 2017, quando as projeções apontam para um crescimento de 2,3%.
O documento cita que a moeda brasileira foi uma das que mais perdeu valor, o país continua "atolado" numa grave crise econômica acompanhada de inflação alta.
Ao mesmo tempo, o Desa afirma que o governo brasileiro está "apertando a política fiscal, em parte cortando subsídios para reduzir o déficit público e para restaurar o grau de investimento do país".
Com a desaceleração da economia chinesa e o fraco desempenho das economias emergentes, como Brasil e Rússia, o relatório mostra que o ponto central do crescimento global está mudando para os países em desenvolvimento.
Problemas
O Desa alerta que a economia global enfrenta cinco problemas grandes. O primeiro são as incertezas macroeconômicas, seguidas pelos baixos preços das commodities e redução do fluxo de comércio.
Os outros problemas citados pelo relatório falam sobre o aumento da volatilidade dos câmbios e do fluxo de capitais, da estagnação de investimentos e do crescimento da produção e, por último, faz referência à contínua desconexão entre financiamento e os setores reais da economia.
O documento mostra ainda que o preço das commodities caíram mais de 20% desde julho de 2014, a queda no preço do barril de petróleo foi bem maior: 59,8%. Em contrapartida, a inflação global atingiu o nível mais baixo desde 2009.
Segundo a agência da ONU, políticas monetárias e fiscais menos restritivas devem dar o impulso necessário para o crescimento econômico global. As autoridade monetárias devem realizar um esforço conjunto para reduzir as incertezas e a volatilidade financeira.
Os técnicos do Desa afirmam que "estimular um crescimento inclusivo a curto prazo e fomentar um desenvolvimento sustentável de longo prazo vai exigir mais coordenação política".
Mercado de Trabalho
O fraco crescimento da economia global está tendo um impacto nos mercados de trabalho em muitos países. O documento mostra que o desemprego está aumentando, especialmente na América do Sul, ou continua num índice alto, como na África do Sul.
Os especialistas do Desa preveem que a recuperação das economias desenvolvidas deve ganhar força em 2016, superando a marca dos 2% desde 2010.
O relatório menciona sinais positivos em relação à sustentabilidade ambiental. As emissões de energia ligadas ao dióxido de carbono não aumentaram em 2014. É a primeira vez em que isso acontece em 20 anos, com exceção de 2009 quando a economia global sofreu uma queda por causa da crise.
Mundo
O Desa prevê que a economia americana deve passar de um crescimento de 2,4% neste ano para 2,6% e 2,8% em 2016 e 2017. O Japão terá um avanço bem mais modesto junto com a União Europeia.
Entre os emergentes, a Rússia deve ver sua economia retrair bem mais que a do Brasil este ano: 3,8%. Mas a situação deve começar a melhorar no ano que vem com um crescimento nulo e uma ligeira alta de 1,2% está prevista para 2017.
A desaceleração da China significa um crescimento de 6,8% para 2015 e de 6,4% e 6,5% para os próximos dois anos. A Índia apresenta o melhor resultado, com uma previsão de avanço entre 7,2% e 7,5% entre 2015 e 2017.
A África, como um todo, deve ver sua economia crescer entre 3,7% e 4,4% nestes próximos três anos.
Segundo as previsões do Desa, o grupo que representa os países menos desenvolvidos também deve registrar um bom desempenho com avanços de 4,5% para 2015 e 5,6% para 2016 e 2017.

Dias decisivos na COP 21

Estamos na semana decisiva. O esforço realizado durante os últimos quatro anos para construir a arquitetura legal de um novo tratado climático universal será colocado à prova e definirá o legado dos governos envolvidos. 

Por Diego Arguedas Ortiz, da IPS

A COP 21, organizada e presidida pela França, movimentou-se em passo veloz diante da pressão do governo anfitrião, com o objetivo de acordar um tratado climático universal, o chamado Acordo de Paris - Foto: Diego Arguedas Ortiz/IPS
Os ministros de 195 países iniciaram no dia 7, na capital francesa, as decisões deliberativas da segunda semana da 21ª Conferência das Partes (COP 21) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática (CMNUCC), após os negociadores criarem um rascunho que foi aprovado no dia 5.
É um rascunho com uma cara mais limpa do que as versões anteriores, mas ainda com muitos temas a serem resolvidos.“Poderíamos estar melhores. Mas o importante é que temos um texto, que queremos um acordo, e que todas as partes querem um acordo”, ressaltou a embaixadora para a mudança climática da França, Laurence Tubiana, no final das negociações técnicas.
Agora cabe aos ministros continuarem as discussões técnicas que os seus delegados desenvolveram, mas com o necessário cunho político para que os países possam tomar as complexas decisões económicas e de desenvolvimento necessárias para enfrentar a mudança climática.
Se o acordo for aprovado o mundo deverá distanciar-se da dependência dos combustíveis fósseis e mover-se rapidamente para uma economia baixa em carbono com cidades, comunidades e negócios mais resilientes, o que supõe um completo divórcio do modelo de desenvolvimento seguido durante o século 20. Para que isso ocorra, os Estados devem chegar a acordos sobre fortes reduções nas suas emissões de gases com efeito de estufa e financiamento para cumprirem os investimentos em energias verdes e adaptação aos impactos climáticos.
A COP 21 moveu-se relativamente a passo rápido e ainda se mantém dentro do calendário proposto pelo governo anfitrião. Segundo a sua proposta, a cimeira deve concluir um texto durante a noite do dia 9, para que os tradutores e a equipa legal possam preparar o documento em todos os idiomas das Nações Unidas. Mas antes é preciso chegar a esse ponto.
“O trabalho não está finalizado e temos que aplicar toda a inteligência, energia e vontade para chegarmos a acordos e todos os nossos esforços para chegarmos a um consenso. Nada está decidido até que tudo esteja decidido”, afirmou Tubiana. O modo como a presidência francesa e os seus assessores atuarem nos próximos dias decidirá o futuro do acordo, que pode levar a um tratado global para a redução de emissões, ou a outra decisão como na COP 15, realizada em Copenhaga em 2009.
“Avançamos no ritmo proposto pela presidência francesa. Há um texto de negociação para esta semana, mas não está tão limpo como gostaríamos”, afirmou o chefe da delegação da Guatemala, Dennis Castellanos. “O trabalho que resta ainda é bastante forte”, acrescentou. A Guatemala preside atualmente à Aliança Independente da América Latina e das Caraíbas, que reúne oito economias regionais com uma posição progressista, que funciona como um grupo negociador “ponte” entre as posições do Sul em desenvolvimento e os países industrializados.
“Como sempre, o financiamento é um dos temas mais quentes”, apontou Castellanos. O apoio financeiro dos países industrializados, e de modo mais incomum como produto da cooperação Sul-Sul, determinará a qualidade do acordo e as ferramentas que os países terão para implantar, medir e verificar as suas contribuições atuais. Este ainda se mantém como um dos elementos menos claros sobre a sua resolução.
A pressão sobre os delegados vem por duas vias: não só têm o mandato de produzir um acordo global e legalmente vinculante após duas semanas de negociações em Paris, como também este deve ser suficientemente ambicioso ao ponto de servir como uma solução de longo prazo para a mudança climática.
A última revisão das contribuições climáticas determinou que o aquecimento global tinha diminuído, mas ainda não o suficiente para prevenir os impactos catastróficos em todo o mundo.“Agora os ministros têm uma decisão pela frente: ou se focam de maneira significativa na insuficiência dos objetivos atuais ou assinam um acordo que levará o mundo para um catastrófico caminho com destino aos três graus Celsius de aquecimento”, disse em comunicado Wendel Trio, diretor da Rede Europa de Ação Climática.
Um tema fundamental ainda sem conclusão é qual deverá ser esse limite de temperatura procurado pelos países, um objetivo que apontou para os dois graus Celsius após uma decisão política na cimeira de Copenhaga, mas que foi fortemente questionado nos últimos anos por ser considerado ainda muito perigoso.
A revisão 2013-2015, uma análise científica da literatura científica existente e criada por um corpo subsidiário da CMNUCC, concluiu que, entre outros elementos, dois graus seria desastroso para as áreas costeiras em todo o mundo, especialmente para os pequenos Estados insulares. Este corpo apresentou uma revisão científica desenvolvida durante três anos que pode ter convencido as nações de que o objetivo de 1,5 graus era possível e necessário, mas a forte oposição de um país petrolífero fez com que se perdesse o último prazo para ser aprovado antes da semana final da COP.
Mais de cem países entre os menos desenvolvidos e os mais vulneráveis, mas também atores importantes, como Alemanha e França, apoiam esse objetivo mais ambicioso, para o qual seria necessária uma transição rápida para a energia renovável que, por sua vez, poderia detonar mais ações locais a partir do setor privado.
“Paris precisa enviar um claro sinal de que a era dos combustíveis fósseis está a chegar ao fim, de modo que os negócios possam planear um futuro livre de carbono. Por isto, a linguagem do acordo deve ser clara”, enfatizou em entrevista coletiva o diretor internacional de Políticas Climáticas do Greenpeace, Martin Kaiser. Como os delegados estão conscientes de que a contribuição voluntária será insuficiente para deter o aquecimento global, o ativista afirma que “o acordo necessita de uma maneira para chegar a esse ponto. Esse pode ser o mecanismo de ambição com prazo de cinco anos”.
Dessa forma corre a última semana rumo ao Acordo de Paris, que poderá coroar o processo como uma jogada de mestre desenvolvida durante anos, ou simplesmente indicar outro caminho que levará a humanidade a batalhar contra si mesma.
Artigo de Diego Arguedas Ortiz, publicado em Envolverde/IPS

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Não há trégua na guerra de preços e o petróleo cai ao seu nivel mais baixo em 7 anos


Por Marco Antonio Moreno

O massacre no mercado de petróleo ainda não acabou: o Brent e o WTI continuam a cair e atingiram o seu valor mais baixo dos últimos sete anos. A decisão da OPEP da última sexta-feira de aumentar a produção de petróleo de 30 milhões de barris para 31,5 milhões de barris por dia surpreendeu a todos e acelerou a guerra de preços. O cartel do petróleo está morto. Desde 1982 a OPEP tinha estabelecido metas de produção e em 2011 estabeleceu um limite máximo de produção de 30 milhões de barris por dia. A decisão de produzir mais em um momento em que o crudo é negociado no seu valor mais baixo desde 2009 só vai continuar afundando os preços.
Em apenas 16 meses o preço do petróleo caiu de US$ 110 por barril para pouco mais de US$ 40, levando a indústria do petróleo a uma verdadeira guerra de preços. Na segunda-feira o preço de referência do WTI quebrou a marca de US $ 38 por barril, um valor que trás sérios problemas para a indústria de petróleo dos EUA. Só no Texas, de acordo com o New York Times perderam-se 50.000 empregos. Globalmente, estima-se que este ano perderam seus empregos mais de 250 mil trabalhadores. 

A guerra criou uma superabundância de petróleo que continuará em pleno vigor apesar do encerramento de centenas de plataformas. Perfuradores de xisto têm muito pouco de bombeamento cortaram muito pouco e a produção no Golfo do México continua a subir. De acordo com os últimos dados disponíveis sobre a produção dos EUA atingiu 9,3 milhões de barris por dia, apenas 3 por cento abaixo de seu pico em abril. Este potencial pode até aumentar no próximo ano, os produtores têm contratos com fundos de hedge que pagam um preço mais alto pelo valor de mercado. No entanto, até este preço linha olha para trás de suas fronteiras.

Os preços dos contratos de longo prazo também entraram em colapso e um barril de WTI para entrega em dezembro de 2022, que até sexta-feira era negociado acima de US$ 60, afundou-se a menos do que essa cifra colocando em apuros a cobertura financeira. Aparentemente não há nenhuma esperança para uma rápida recuperação e o temido anúncio da Goldman Sachs de que o petróleo poderia chegar a US $ 20 o barril é possível a cada dia atrás.
A decisão incomum da OPEP
Dentro a série de fatores por trás dessa queda nos preços está o aumento da produção da indústria do petróleo nos Estados Unidos por meio de fracking, ou a incorporação do petróleo iraquiano e a desaceleração chinesa. A OPEP tradicionalmente produzia 40% da oferta mundial de petróleo, mas por 18 meses a produção aumentou prodigiosamente nos EUA e arrebatou uma quota de mercado. E também criou o excesso de oferta que mergulhou os preços.
Este surpreendente aumento na oferta vem em um momento de forte contração da procura global. Por isso resulta incomum a decisão da OPEP de não cortar a produção para sustentar os preços. Países da Opep, como Irã, Argélia, Venezuela e Equador estavam a cortar a produção, mas suas esperanças foram frustradas na sexta-feira quando a OPEP anunciou um movimento na direção oposta e a produção subiu para níveis recordes.
A estratégia liderada pela Arábia Saudita pretende retirar do mercado através a indústria petroleira americana de xisto. Mas nesta guerra não haverá vencedores, porque ninguém quer desistir de quota de mercado e todos optam por produzir mais em um momento de turbulência financeira imprudente. O excesso de oferta de petróleo barato é bom para a indústria química onde o petróleo é uma matéria-prima essencial, e para os consumidores. Mas os maiores perdedores são os países produtores, muitos dos quais não podem pagar um barril de petróleo abaixo de $40. A Venezuela, cujo orçamento depende fortemente das receitas do petróleo, têm sérios problemas financeiros e isso marcou a primeira derrota chavista nos últimos 17 anos nas eleições parlamentares de domingo passado.
Mas outro perdedor chave é o clima. A disponibilidade de petróleo barato e outros combustíveis fósseis, como o carvão e o gás pode inibir o desenvolvimento eo uso de energias alternativas em todo o mundo. A falta de inovação e investimento em energia renovável está resultando em um perigoso aumento das emissões de CO2 que poderia levar a uma catástrofe climática de dimensões desconhecidas. Isto é o que nós discutimos na cimeira de Paris sobre a mudança climática, Cop21. Os preços atuais do petróleo ameaçam dar ao aquecimento global uma aceleração irreversível. É o lado oculto e prejudicial que rodeia esta verdadeira guerra de preços.

Como a desigualdade mata


por Joseph Stiglitz
Esta semana,  Angus Deaton  receberá o Prêmio Nobel de Economia "por sua análise do consumo, da pobreza e do bem-estar." Merecidamente. De fato, logo após o prêmio ter sido anunciado em outubro, Deaton publicou um  trabalho surpreendente com Ann Case no  Proceedings da Academia Nacional de Ciências  - Pesquisa de que é pelo menos tão interessante como a cerimônia do Nobel.
Jospeh StiglitzAnalisando uma vasta quantidade de dados sobre saúde e mortes entre os americanos, Case e Deaton mostram o declínio da esperança de vida e saúde para os americanos brancos de meia-idade, especialmente aqueles com  ensino médio ou menos. Entre as causas foram suicídio, drogas e alcoolismo.
A América se orgulha de ser um dos países mais prósperos do mundo, e pode gabar-se que em todos os anos, exceto um recente (2009)  o PIB per capita aumentou. E um sinal de prosperidade é  suposto  ser uma boa saúde e longevidade. Mas, enquanto os EUA gastam mais dinheiro  per capita  em cuidados médicos do que qualquer outro país (e mais como uma percentagem do PIB), está longe de ser o topo do mundo em expectativa de vida. A França, por exemplo, gasta menos de 12% do seu PIB em cuidados médicos, em comparação com 17% em os EUA. No entanto, os americanos podem esperar viver três anos completos menos do que o francês.
Durante anos, muitos americanos explicaram esta lacuna. Os EUA são uma sociedade mais heterogênea, eles argumentaram, e a diferença supostamente refletia a enorme diferença na expectativa de vida média entre os afro-americanos e americanos brancos.
A diferença racial em saúde é, naturalmente, muito real. De acordo com um  estudo publicado em 2014, a expectativa de vida para os afro-americanos é cerca de quatro anos  menor para as mulheres e mais de cinco anos menor para os homens, em relação aos brancos. Esta disparidade, porém, é apenas um resultado quase inócuo de uma sociedade mais heterogênea. É um sintoma de desgraça da América: a discriminação generalizada contra os afro-americanos, que se reflete na renda familiar média que é inferior a 60% do que famílias brancas. Os efeitos da baixa renda são agravados pelo fato de que os EUA são o único país avançado a não reconhecer o acesso aos cuidados de saúde como um direito básico.
Alguns norte-americanos brancos, no entanto, tentou transferir a culpa para morrer mais jovem para os afro-americanos próprios, citando seus "estilos de vida". É verdade que talvez hábitos pouco saudáveis ​​são mais concentrados entre os pobres americanos, um número desproporcional dos quais são negros. Mas esses próprios hábitos são uma consequência das condições econômicas, para não mencionar as tensões de racismo.
Os resultados Case-Deaton mostram que tais teorias já não servem. A América está se tornando uma sociedade mais dividida - dividida não somente entre brancos e afro-americanos, mas também entre o 1% e o resto, e entre os altamente qualificados e os menos educados, independentemente da raça. E a diferença pode agora ser medida não apenas em salários, mas também em mortes precoces. Os americanos brancos, também, estão  morrendo mais cedo  como o seu declínio de rendimentos.
Esta evidência é quase um choque para aqueles de nós a estudar a desigualdade na América. A renda média de um trabalhador do sexo masculino em tempo integral é menor do que era há 40 anos. Salários dos diplomados do ensino médio machos caíram em cerca de 19% no período estudado por Case e Deaton.
Para se manter respirando, muitos americanos tomam empréstimos de bancos a taxas de juro usurárias. Em 2005, o governo do presidente George W. Bush tornou muito mais difícil para as famílias declarar falência e amortizar a dívida. Então veio a crise financeira, que custou a milhões de americanos seus empregos e casas. Quando o seguro-desemprego, projetado para ataques de curto prazo da taxa de desemprego em um mundo de pleno emprego, correu para fora, eles foram deixados à própria sorte, sem rede de segurança (além de vales-alimentação), enquanto o governo socorreu os bancos que causaram a crise.
Os pré-requisitos básicos de uma vida de classe média eram cada vez mais fora do alcance de uma parcela crescente de americanos. A Grande Recessão tinha mostrado a sua vulnerabilidade. Aqueles que tinham investido no mercado acionário viu muito de sua riqueza destruída; aqueles que tinham colocar seu dinheiro em títulos do governo seguras viu renda de aposentadoria diminuir para perto de zero, como o Fed implacavelmente dirigimos para baixo as taxas de juro de curto e longo prazo. Com a mensalidade da faculdade em alta, a única maneira de seus filhos poderiam obter a educação que proporcionasse um mínimo de esperança era para emprestar; mas, com empréstimos de educação praticamente  não  descartáveis, a dívida do estudante parecia ainda pior do que outras formas de dívida.
Não havia nenhuma maneira que a montagem desta pressão financeira não poderia ter colocado americanos de classe média e suas famílias sob maior stress. E não é de estranhar que esta tem-se reflectido em maiores taxas de abuso de drogas, alcoolismo e suicídio.
Eu era economista-chefe do Banco Mundial no final de 1990, quando começamos a receber semelhantes notícias deprimentes da Rússia. Nossos dados mostraram que o PIB tinha caído cerca de 30% desde o colapso da União Soviética. Mas não estávamos confiantes em nossas medições. Os dados que mostram que a expectativa de vida masculina estava em declínio, ao mesmo tempo que foi aumentando no resto do mundo, confirmou a impressão de que as coisas não estavam indo muito bem na Rússia, especialmente fora das grandes cidades.
A Comissão internacional para a Medição do Desempenho Econômico e do Progresso Social, que co-presidiu e em que Deaton serviu-me, já havia  enfatizado  que o PIB muitas vezes não é uma boa medida do bem-estar de uma sociedade. Estes novos dados sobre o estado de saúde em declínio americanos brancos "confirma esta conclusão. Do mundo sociedade de classe média por excelência está no caminho para se tornar o primeiro ex sociedade de classe média.
© Project Syndicate

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Uma mistura venenosa


por Michael Roberts

Os preços do petróleo atingiram o preço mais baixo em sete anos após a decisão da semana passada em Viena da Opep, o cartel do petróleo, de não colocar qualquer limite de produção de petróleo no próximo ano.
Preço do petróleo
A demanda por petróleo diminuiu de forma acentuada e as reservas de petróleo têm aumentado ao recorde de  3 bilhões de barris, enquanto navios porta-contentores de óleo circulam as águas em torno de refinarias na Europa e nos EUA incapazes de descarregar, porque não há demanda.
existências de petróleo
Ao mesmo tempo, os preços das matérias-primas importantes, como minério de ferro e de cobre batem novos mínimos. O transporte desses recursos em navios porta-contentores 'secos' tem colapsos, medida pelo chamado índice Baltic Dry, agora em um nível mais baixo de 30 anos.
Baltic seco
Como resultado, as grandes chamadas economias emergentes, como a Rússia, Brasil e África do Sul, onde as exportações são principalmente de petróleo e outras matérias-primas para as economias industriais e de consumo maduras do mundo capitalista, entrou em recessão econômica, com seus valores de moeda em colapso. O maior consumidor dessas matérias-primas era a China, mas que a economia tem visto um significativo abrandamento do crescimento real do PIB e está a acumular seu próprio aço, minério de ferro e cobre, ou tentar despejá-los no exterior a preços baixos.
Em um post anterior, eu localizei esta crise de crescimento para as economias emergentes 'previamente crescendo. Suas economias em expansão decolou através das exportações de matérias-primas e petróleo. Eles financiaram o boom por meio de empréstimos a preços muito baratos em dólares dos bancos do Ocidente. Mas agora, com o colapso de suas exportações e queda dos preços, essas dívidas vão se tornar muito mais difíceis de serem pagas.
As empresas financeiras das economias em desenvolvimento reembolsaram uma rede de $ 15 bilhões da dívida internacional no terceiro trimestre, enquanto as empresas não-financeiras emitiram apenas US $ 6 bilhões em novas dívidas. Ambos os valores foram os mais baixos desde o início de 2009, de acordo com um relatório do Banco de Compensações Internacionais (BIS). Empresas de mercados emergentes estão começando a inadimplência mais frequentemente do que os mutuários dos EUA, a primeira vez que isso acontece em anos.
Na próxima semana, o Federal Reserve dos Estados Unidos está planejando elevar sua taxa de juros, pela primeira vez em quase uma década. Assim, a dívida barata que as economias emergentes têm emprestado vai ficar como serviço mais caro. O valor nominal da dívida corporativa soberana dos denominados mercados emergentes triplicou desde o início de 2009, para US$ 1,7 trilhões, segundo dados do índice do Bank of America Merrill Lynch. Estas nações emergentes estão apenas começando a sentir o peso de sua montanha de dívidas.
O relatório do BIS estima que o custo dos empréstimos nessas economias emergentes é muito sensível às taxas de juros do Fed.
BIS e dívida
Quando em 2014, o Fed decidiu acabar com suas medidas de flexibilização quantitativa (impressão de dinheiro), isso causou o que foi chamado uma "birra' nas economias emergentes, onde ações e títulos mercados despencaram em valor. Agora, o BIS diz "Houve também sinais de que os rendimentos em moeda local são cada vez mais sensíveis à evolução nos Estados Unidos. A era pós-crise tem se caracterizado por fortes repercussões internacionais de rendibilidade das obrigações dos EUA para os mercados emergentes, mesmo quando esses países estavam em diferentes estágios do ciclo de negócios. E esse efeito parece ter fortalecido ao longo do tempo. A regressão de rolamento simples de um índice de títulosdos EUA em 10 anos os rendimentos do Tesouro sugere que o potencial de efeitos secundários é maior agora do que era durante a birra".
O BIS está preocupado que essas condições financeiras mais apertadas "também podem aumentar os riscos da estabilidade financeira". A média de crédito em relação ao PIB nos principais mercados emergentes aumentou em cerca de 25% desde 2010. "Apesar de baixas taxas de juros, o aumento dos níveis de dívida têm empurrado rácios do serviço da dívida para as famílias e empresas acima das respectivas médias de longo prazo, particularmente desde 2013, sinalizando aumento dos riscos de crises financeiras em economias emergentes. Coeficientes do serviço da dívida vão inevitavelmente aumentar ainda mais quando as taxas de empréstimo começar a subir. Qualquer outra apreciação do dólar seria adicionalmente testar a capacidade de serviço da dívida de empresas EME, muitos dos quais têm emprestado pesadamente em dólares norte-americanos nos últimos anos "
Se as economias emergentes entrarem em uma crise da dívida com as empresas faltosas e bancos falirem, as economias capitalistas maduras não vão evitar o impacto. Dessa forma, a dívida corporativa aumentou acentuadamente nos EUA e na Europa como as empresas não têm aproveitado empréstimos baratos para empilhar em dinheiro. Mas, como o crescimento do lucro das empresas diminuiu a um gotejamento no último ano, defaults corporativos e downgrades da dívida subiram, e isso é antes do Fed aumentar sua taxa.
Mais de US $ 1 bilhão nos EUA a dívida corporativa foi rebaixada este ano como a inadimplência subiu às alturas no pós-crise, sublinhando os temores dos investidores de que o ciclo de crédito tenha entrado em seus instantes finais. Grande parte do declínio nos "fundamentos" tem sido associada ao dispositivo significativo no preço das commodities, com falhas na energia e metais e indústrias de mineração que compõem uma parte relevante dos padrões registrados até o momento.
Downgrades dos EUA
Cerca de 102 empresas deixaram de pagar desde o início do ano, incluindo 63 dos EUA. Apenas três empresas no país mantiveram uma cobiçada classificação triplo A: ExxonMobil, Johnson & Johnson e Microsoft, com a principal petroleira em revisão para possível rebaixamento. Uma grande parte dos menores emissores de dívida de qualidade terá de enfrentar desafios de refinanciamento "graves" em 2018 como a geração de fluxo de caixa continua fraco, Matthew Mish, estrategista de crédito do UBS, observou.
Quando olhamos para a atividade global de negócios global, medida pelos chamados índices de gerentes de compras (PMIs), houve uma pequena pick-up em novembro, como economias emergentes (linha vermelha) deixaram de celebrar contratos (em média). Mas o mundo PMI (linha verde), enquanto mostra expansão, ainda é menor do que era no início de 2014.
PMIs novembro
E, claro, minha medida-chave do futuro da saúde da economia mundial, os lucros, continuam a pintar um quadro sombrio. Os lucros das empresas nas cinco principais economias: EUA, Japão, Alemanha, Reino Unido e Zona Euro, estão agora a contratação (em média), pela primeira vez desde a Grande Recessão.
Lucros corporativos globais
Outro fator desconcertante é que a economia mundial já poderia estar crescendo mais lentamente do que os números oficiais mostram. O FMI estima que o Produto Interno Bruto (PIB) global aumentou cerca de 3,1% em 2015. No entanto, quando os dados do FMI para o produto nacional bruto mundial (GWP), que inclui os ganhos de comércio exterior e renda, verifica-se a partir de dados do próprio FMI que a economia mundial contraiu em termos nominais em 5% este ano.
Estes dados contraditórios foram considerados em um artigo recente. Peter van Bergjik, o autor concluiu que algumas das divergências entre o PIB e o PNB do mundo poderia ser explicada por erros estatísticos e desvios de moeda de valor do dólar. Mas isso não seria suficiente para preencher a lacuna nos dados. Van Bergijk conclui "que as previsões oficiais do FMI para a verdadeira GPP são susceptíveis de ser muito otimistas como também foi o caso no passado. Analisando o histórico do FMI ao longo de um período de 20 anos, o Gabinete de Avaliação Independente (2014) relata que o crescimento econômico real foi superestimado, especialmente em períodos de crise global. Mais revisões em baixa da taxa de crescimento real da economia são, portanto, de se esperar. "
Eu comentei sobre a possibilidade de uma nova recessão global em posts anteriores. A minha opinião é que é devido e terá lugar no próximo um a três anos, no máximo. Alguns economistas estão agora prevendo uma chance mais do que 50% para 2016. Os economistas do Citibank calculam que há uma chance de 65% em 2016.
Probabilidade de recessão
Esta desgraça é rejeitada por outros. Bill McBride de Risco Calculado jogou na lixeira esses traficantes de recessão que pensam que é para o próximo ano. McBride diz: "Nos últimos 6 anos, tem havido um desfile interminável de chamadas recessões incorretas. O setor manufatureiro tem sido fraco, e contratado nos EUA em novembro devido a uma combinação de fraqueza no setor de petróleo, o dólar forte e alguma fraqueza global. Mas isso não significa que os EUA vão entrar em recessão. A última vez que o índice foi contratado em 2012 (sem recessão), e mostrou contração um número de vezes fora de uma recessão. Olhando para os dados econômicos, as chances de uma recessão em 2016 são muito baixos (extremamente improvável, na minha opinião). "
Talvez ela não seja em 2016. Mas os fatores para uma nova recessão são cada vez mais no lugar: queda da rentabilidade e lucros nas principais economias e uma dívida crescente de corporações em ambas as economias maduras e emergentes. E o Fed definido para aumentar o custo dos empréstimos em dólares. É uma mistura venenosa.