"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 9 de janeiro de 2016

Os mercados de ações completam o seu pior início de ano devido acidente chinês


Por Marco Antonio Moreno



Os mercados de ações completaram ontem um dos piores início de ano da história bursátil com perdas generalizadas. Os índices norte-americanos acumularam uma perda semanal de pelo menos 6% em seus principais indicadores. O Dow Jones caiu 6,2%, o seletivo S&P500 5,96% e o índice composto do Nasdaq 7,3%. Com esses declínios o Dow Jones perdeu a marca de 17.000 pontos, o S&P500 de 2.000 inteiros e o Nasdaq de 5.000 unidades, três níveis, com que tinha fechado Wall Street em 2015. A primeira semana do ano foi a pior desde 2011, e é um dos piores início do ano que os mercados de ações têm sido dilacerados pelo estouro da bolha chinesa que tornou-se insustentável.

As turbulências originadas no gigante asiático e a progressiva queda nos preços do petróleo e matérias-primas estão por trás desses declínios: Os temores de incubação de uma nova crise financeira que eclodiu em 2008 estão latentes e, embora a jornada desta sexta-feira tenha se apresentado positiva no início, pouco a pouco foram caindo as expectativas e nas últimas horas se renderam ao pessimismo generalizado pela deterioração da economia global. Indicadores europeus também sofreram declínios: Bolsa de Frankfurt terminou com uma queda de -1,31%; a Paris com -1,59%, -0,70% o em Londres e Madrid em -1,66%, elevando o Ibex 35 perdeu a marca de 9.000 pontos. 

Na semana, o DAX 30 de Frankfurt foi o indicador que obteve o pior resultado desde 2011, com uma queda de -8,32%, seguido do IBEX 35 que acumulou uma queda de -6,65% e o CAC francês com uma queda de -6,54 %. Foi a pior semana dos últimos 12 meses, como foi apontando para este ano do macaco. Os não eram esperadas perdas nos mercados asiáticos. O Shanghai Composite perdeu 10% na primeira semana do ano, enquanto em Hong Kong a perda foi de -6,7%.


A China enfrenta uma crise financeira iminente e é isso que gerou todo o medo no mercado. Até agora, a situação se manteve moderada porque a China era o último bastião do crescimento e pra lá foram dirigidos muitos investimentos que facilitaram os bancos centrais do Ocidente com as suas taxas de juros de zero por cento. No final desta estrada descobriu-se que não haverá o crescimento esperado as perdas são inevitáveis. O panorama para 2016 é  complexo e não há possibilidade de um rápido reequilíbrio do poder por enormes desequilíbrios criados no período de inchaço de bolhas especulativas. Estes desequilíbrios têm afundado a produtividade e esta hoje está com os motores desligados. A expansão econômica que geram as bolhas especulativas cedo ou tarde implodem e quando não há um crescimento real que a sustente se desencadeia um tipo de reação em cadeia tipo efeito dominó. A queda do gigante asiático será o grande tumor da economia neste 2016 que está apenas começando.

Mercados em modo pânico aceleram turbulências financeiras ante estagnação global


por Marco Antonio Moreno

Os mercados estão convulsionados ante o jogo geopolítico no Oriente Médio e a debilidade da economia global. Enquanto o preço do petróleo continua a diminuir e as relações entre a Arábia Saudita e o Irã chegam a um ponto de ebulição, a Coreia do Norte lança uma nova bomba nuclear colocando o planeta em um ponto de eclosão. Aparentemente, não foi o suficiente uma longa crise de sete anos que deixou milhões no desemprego, mas que se busca mais: terminar e arrasar com todo o planeta.
Os mercados estão em queda livre percebendo que todo o alarde dos bancos centrais era um mero engodo para mascarar o colapso iminente. O mundo não pode continuar como está e precisa de mudanças. No entanto, cada mudança gerida pela cúpula financeira resultada pior e assim mostram os resultados: o aumento do desemprego global e a estagnação é generalizada. Enquanto o Banco Mundial diz que a economia vai crescer 2,7 por cento em 2016, parece uma piada amarga quando a desaceleração global está às portas. 

A crise da Arábia Saudita e Irã têm sido o novo condimento para os especuladores. Agora, a premissa fundamental é quando a terceira guerra mundial vai começar, embora esteja em pleno andamento com a guerra cambial mortal no qual todos os países, da China aos Estados Unidos, procuram desvalorizar suas moedas para evitar a perda de quota de mercado. O petróleo continua a cair e agora está cotado a US$ 30 o barril pulverizando o cartel do petróleo da OPEP.

Claramente, as quedas são insustentáveis, ​​dado que o petróleo em US$ 30 implica a falência dos países produtores. Mas os casinos financeiros apostam por um valor ainda mais baixo, mas esta tensão pode ser revertida drasticamente, a ponto de sufocar a economia global. O ponto de viragem pode sucumbir países inteiros e puni-los com o drama da dívida, a única que tem crescido e se consolidado desde o início da crise em 2008.

Tarde perceberam os bancos centrais que o período prolongado de baixas taxas de juros só incubou a dívida dos mais pobres. À medida que esta tendência se consolida temos um futuro escravizado à dívida. É o novo feudalismo que Karl Marx não previu quando ele supunha que a sociedade iria evoluir para um capitalismo industrial. O mundo realmente regrediu e retornou à escravidão do novo feudalismo incorporado ao capitalismo financeiro.

Se até agora tínhamos considerado a China como o epicentro da próxima crise financeira, a luta pelo poder no Oriente Médio ameaça tornar-se o novo foco de uma crise que se aprofunda a cada dia e não para. A recessão global é inevitável com a China, Japão, Europa e Estados Unidos em deterioração aberta e os países emergentes em declínio, como é o caso do Brasil. As quedas dos mercados de ações hoje, ontem e amanhã nos anuncia que uma nova recessão está em andamento.

O envelhecimento brasileiro por grupos quinquenais até 2050



Artigo de José Eustáquio Diniz Alves
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A população brasileira está passando por uma grande transformação de sua estrutura de sexo e idade, com a redução da base da pirâmide e o alargamento do topo. Mas o processo de envelhecimento não se dá de maneira homogênea entre os diversos grupos quinquenais. O ritmo de crescimento é maior nas idades mais avançadas. Ou seja, o envelhecimento da população brasileira ocorre, simultaneamente, ao envelhecimento da população idosa. O Brasil terá não só mais pessoas na terceira idade, mas idosos mais idosos (avanço da quarta idade).
Segundo a Divisão de População da ONU, a população brasileira de 60 anos e + era de 14,2 milhões de pessoas em 2000, representando 8,1% da população total, sendo que, em 2050, a população idosa deve chegar a 66,9 milhões, representando 29% do total populacional do país. Enquanto a população brasileira como um todo vai crescer 1,3 vezes (30%), a população de 60 anos e + deve crescer 4,7 vezes. O envelhecimento é, desta forma, um processo inquestionável e irreversível, podendo estar sujeito a pequenas mudanças de ritmo em função das taxas de fecundidade e da migração internacional.
Mas se a estrutura etária brasileira vai envelhecer, indubitavelmente, haverá também um envelhecimento dentro do grupo de idosos, pois quanto mais avançado na idade for o grupo quinquenal, maior será o ritmo de crescimento do mesmo, conforme mostra o gráfico. Os novos idosos (60-80 anos) vão crescer em termos absolutos, mas vão diminuir em termos relativos.
O grupo etário de 60-64 anos vai passar de 4,6 milhões para 14,9 milhões de pessoas, um aumento de 3,2 vezes entre 2000 e 2050. Já o grupo 65-69 anos vai passar de 3,4 milhões para 14,6 milhões, um aumento de 4,2 vezes no mesmo período. Na primeira metade do século XXI, o grupo etário 70-74 anos vai ser multiplicado por 4,5 vezes; o grupo etário 75-80 anos crescerá 5,5 vezes e o grupo seguinte 7,2 vezes. O grupo etário 85-90 anos vai passar de 500 mil pessoas para 4,9 milhões, acréscimo de 9,8 vezes. Os dois grupos seguintes vão ter seus tamanhos aumentados em 13 e 19 vezes, respectivamente. O grupo dos centenários vai passar de 12 mil pessoas em 2000 para 320 mil pessoas em 2050, uma pulo de 27 vezes. Portanto, os idosos acima de 80 anos vão passar de 1% da população total em 2000, para cerca de 7% em 2050.
Os idosos com mais de 80 anos atualmente são aqueles que nasceram antes de 1935, época em que as taxas de fecundidade estavam altas, as famílias eram grandes e havia pouca mobilidade espacial dos filhos. Em geral, podem contar com o suporte familiar.
Mas a maioria dos idosos da segunda metade do século XXI será formada por aquelas pessoas nascidas depois de 1980, quando as taxas de fecundidade já estavam reduzidas, assim como o tamanho das familias e o aumento da proporção de domicílios com “ninho vazio”. O suporte familiar vai ficar restrito.
Portanto, o cuidado com os idosos (80 anos e +) deverá ser pensado para além do apoio familiar. Será economicamente e socialmente inviável manter todos os idosos na sua moradia particular, tal como prega a ideologia individualista. A sociedade vai precisar encontrar alternativas criativas. Soluções coletivas, como condomínios geriátricos e moradias solidárias, devem ganhar destaque, assim como a cooperação geracional entre os próprios idosos.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 08/01/2016

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Brasil está enfrentando sua pior e mais longa recessão em 115 anos


Por Marco Antonio Moreno
A economia do Brasil está caminhando para a sua pior recessão em mais de cem anos à medida que a atividade econômica se enfraquece e os preços das commodities continuam a cair. A maior economia latino-americana entrou em recessão em 2015 e pode permanecer no vermelho até 2017. No ano passado, a economia brasileira teve uma contração de quase 4 por cento ao ano e em 2016 se espera uma queda de 3,5 por cento e de 1 por cento em 2017. De acordo com a pesquisa semanal do Banco Central brasileiro revisada pela Bloomberg, tudo vai mal para o Brasil e a atual recessão vai durar pelo menos 6 outros trimestres. Será a mais longa recessão no gigante latino-americano desde que há estatísticas econômicas, ou seja, desde 1901.
Os principais motores da crise brasileira tem sido a queda dos preços das matérias-primas, a desaceleração da demanda da China, o fortalecimento do dólar no mercado mundial, a desvalorização do yuan e, é claro, a crise política interna. Como resultado, a sétima maior economia enfrenta uma inflação de dois dígitos, o aumento do desemprego e uma queda na demanda doméstica golpeia todos os setores. Como o consumo foi responsável por 50 por cento do PIB nos últimos 10 anos, a inflação está corroendo o poder de compra e ampliando o declínio na atividade econômica. O Brasil enfrenta uma situação muito complexa, porque todos os seus trunfos despencaram.
Em seus quase 200 anos de história (tornou-se independente de Portugal em 1822), o Brasil passou por profundos ciclos de altos e baixos. Mas a transformação econômica foi realizada na década de 1940 com o processo de industrialização que marcou a decolagem brasileira. Em 1940 apenas 30 por cento dos 42 milhões de pessoas viviam em cidades. Em 1992, quase 80 por cento dos 150 milhões de pessoas vivem em áreas urbanas. Além disso, o setor primário em 1945 era responsável por um terço do PIB, e passou a representar 10 por cento em meados dos anos 90. No mesmo período: 1945-1995, a contribuição da indústria subiu de 17 por cento para 42 por cento. O setor industrial brasileiro se consolidou como o mais importante da América Latina, exportando máquinas e bens de capital. Sua indústria automobilística também foi destacada como uma das mais importantes na área, mas nunca, pela pesada herança colonial, conseguiu se destacar com modelos próprios. Nisto o Brasil perdeu terreno para a indústria asiática da Coréia, da Malásia e da Tailândia, excluindo a Índia e a China.
Do sonho à pesadelo
Brasil é o quinto maior país do mundo pela sua massa de terra e sua população. As suas reservas de petróleo no mar incluem as maiores descobertas desde 1976. Ele tem a segunda maior reserva de ferro do mundo; É o segundo maior produtor de soja do mundo e o terceiro maior produtor de milho. No entanto, a distribuição da riqueza continua a ser uma das mais desiguais do mundo. O boom econômico do início do século XXI e  o governo de Luis Inácio Lula da Silva gerou dinheiro para fortalecer os programas de bem-estar social. Enquanto o Brasil resistiu com êxito aos estragos da crise global de 2007/2008 pela demanda chinesa e pela alta dos preços das commodities, a desaceleração que desde 2014 e China vem sofrendo, e a queda que isso significou para os preços das commodities, têm convertido o sonho de Brasil em um pesadelo.
A queda imparável dos preços e do valor das exportações provocou uma desvalorização do real de 60 por cento. Isto forçou o banco central a elevar a taxa de juros para 14,25 por cento, para conter a inflação, que atingiu 2 dígitos no final do ano passado. Como de costume, as altas taxas de juros têm gerado retornos lucrativos para o setor financeiro, mas reduziu a renda dos brasileiros pelo alto custo do crédito. Esta tem sido a principal causa da diminuição do consumo interno que acelera o processo de contração econômica. Além disso, enquanto a dívida pública do Brasil chega a 66 por cento do PIB e é comparativamente muito longe da dívida pública da Grécia (180 por cento do PIB) e Japão (230 por cento do PIB), são as altas taxas de juros pagas pelo Brasil o que o mergulha em uma depressão escura.
O círculo virtuoso armadilha
A bonança do período dos preços elevados das matérias-primas produziram no Brasil níveis recordes de emprego que, como um círculo virtuoso, aumentaram a procura e dos salários. Nos últimos dez anos, os salários cresceram mais rapidamente do que o PIB, o que permitiu aos consumidores endividarem-se mais, o que incentivou mais gastos e impulsionou o processo virtuoso de mais emprego > maior consumo > maior salário. Agora, o círculo virtuoso tornou-se um círculo vicioso e os salários e o emprego irão se reverter enquanto os juros de dívidas continuam a crescer. Quanto mais se tensiona a  situação aumenta a taxa de desemprego, inadimplência e inadimplência. O círculo virtuoso que inclui uma armadilha mortal é detectado somente quando a contagem regressiva começa.

Círculos virtuosos também têm uma vida curta em comparação com a longevidade dos círculos viciosos. A economia do Brasil, que nas primeiras décadas deste século cresceu a taxas de 5 a 7 por cento, começou sua desaceleração em 2011 e não parou. Pelo contrário, cada vez se aprofundou mais. O Real perdeu 60 por cento de seu valor nos últimos quatro anos e os níveis de negócios e a confiança do consumidor estão nos níveis mais baixos da história. A Petrobras perdeu 70 por cento de seu valor de mercado desde 2007.
A forte desvalorização sofrida pelo real frente ao dólar vai significar mais inflação pelo encarecimento das importações. Esse efeito é acentuado pela desvalorização do yuan, o que retira valor das exportações brasileiras e aumenta o déficit da balança comercial. As exportações foram o principal motor do crescimento no Brasil e cinco países que disputam quase a metade da produção total brasileira: China, Estados Unidos, Argentina, Holanda e Alemanha. O abrandamento da procura global e, especialmente, a queda nos preços das matérias-primas colocam hoje o Brasil em sua pior crise em 115 anos.
A última vez que o Brasil tinha dois anos de recessão contínua foi entre 1930 e 1931. Mas ele nunca teve uma crise tão profunda como está sofrendo agora, que pode durar até 2017. De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisa econômica, o IPEA,  esta seria a mais longa recessão desde 1901.

As reportagens sudestinas sobre a seca do Nordeste


Artigo de Roberto Malvezzi (Gogó)

É duro ter que ler ou assistir as reportagens da mídia sudestina sobre a seca do Nordeste. Só mesmo pelos ossos do ofício.
De fato, a seca não muda. Ela só se agrava, ainda mais com as mudanças climáticas. Afinal, esse é o erro mortal de todas as reportagens: aqui não é a Mata Atlântica, a Amazônia ou o Pantanal, mas é o Semiárido. Aqui seca é normal, seja a anual de seis ou sete meses, seja essa mais severa que acontece em períodos mais prolongados, já previstos pelos climatologistas.

Esse é o ABC do Semiárido, que repetimos exaustivamente: “ninguém acaba com as secas, assim como não se acaba com a neve. É preciso aprender a viver no ambiente que estamos”.

A mídia sudestina é mestra em confundir o fenômeno natural das secas com as tragédias sociais e humanitárias que as acompanhavam até pouco tempo. Sem esse discernimento o erro é fatal.

A caatinga é inteligente, quando falta água ela adormece, não morre. Então, é preciso avisar aos repórteres do Sul – e até daqui mesmo – que árvores secas e retorcidas aqui são normais, não sinais de tragédia, muito menos a social e humanitária.

Algumas reportagens dizem que nada mudou – ou quase nada – nessa região no último século. Estão falando do ambiente natural ou das tragédias sociais e humanitárias?

Como nada mudou se já não temos migrações em massa? Se já não temos mais saques de famélicos nas cidades? Se já não precisamos das famigeradas frentes de emergência? Se a mortalidade infantil que era de 120 por mil na seca de 1982 agora não passa de 16 por mil, encaixando-se no padrão aceito internacionalmente pela ONU?

Por que será que Fortaleza precisou fazer campos de concentração de famélicos no século passado e hoje ninguém sequer sabe que eles existiram? Exatamente porque seca e desgraças humanitárias não são sinônimos.

Tânia Bacelar fez um estudo e constatou que a região que mais cresceu no Brasil nos últimos anos, que mais elevou seu IDH, foi justamente o meio rural do Semiárido. Foi preciso pouco dinheiro, mas investido com inteligência e acuidade, obra da sociedade civil (ASA), além dos programas sociais do governo federal e alguns estaduais. Mas, Dilma, sem visão absolutamente nenhuma, como qualquer sudestina, cortou os recursos dos programas da ASA que deram certo aqui nessa região.

As cisternas para beber e produzir, algumas adutoras – tão necessárias! – a agroecologia, a criação de pequenos animais adaptados ao clima, a apicultura, a expansão da energia elétrica, da telefonia, da internet, das estradas, da motorização da população, das faculdades, das tecnologias de convivência com o Semiárido, além dos programas sociais, tudo contribuiu para mudar a face do Semiárido. Essa seca é a pior de muitas décadas em termos de pluviosidade, entretanto, a tragédia social e humanitária que as acompanhava já não existe mais, a não ser em casos pontuais, não como fenômeno social.

Poderíamos e deveríamos avançar muito mais, com a produção de energia solar descentralizada, gerando renda para as famílias. Por que não podemos ser produtores de energia, se temos 12 horas de sol por dia, durante 360 dias ao ano, se já temos as tecnologias de conversão para despejar diretamente na rede nacional?

Sim, temos muito que avançar. Mas, o caminho novo está aberto. É o que chamamos de “paradigma de convivência com o Semiárido”. Basta aprofundar e investir nesse novo paradigma.

O Nordeste – particularmente o Semiárido – mudou, e muito, e para melhor.

O que não muda é a abordagem da mídia sudestina sobre o Nordeste.

Roberto Malvezzi (Gogó), Articulista do Portal EcoDebate, possui formação em Filosofia, Teologia e Estudos Sociais. Atua na Equipe CPP/CPT do São Francisco.

A população nos 200 anos da independência (1822-2022) do Brasil


Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

População brasileira entre 1822 e 2022
População brasileira entre 1822 e 2022
Fonte: IBGE e Divisão de população da ONU

A população brasileira deve apresentar um crescimento por volta de 48 vezes nos 200 anos da independência do Brasil. Em 1822, a população brasileira estava em torno de 4,6 milhões de habitantes, subiu para 9,9 milhões 50 anos depois (1872), quando foi realizado o primeiro censo demográfico do Brasil. Chegou a 17,4 milhões em 1900. Multiplicou praticamente por 10 vezes no século XX, chegando a 170 milhões de habitantes na virada do milênio. Para o ano de 2022 as projeções variam. As projeções do IBGE (revisão 2013) apontam para uma população de 215 milhões, enquanto as projeções da ONU (revisão 2015) apontam para 219 milhões de habitantes. O próximo censo a ser realizado em 2020 deve apresentar números mais precisos.

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Entre 1822 e 1872 o crescimento anual ficou na casa de 1,6% ao ano. Com as restrições ao “tráfico negreiro” e o fim da escravidão em 1888, houve um aumento das imigrações e o ritmo de crescimento demográfico ficou em torno de 2,0% entre 1872 e 1900. Com a crise econômica dos países europeus e a Primeira Guerra Mundial o ritmo de imigrações se acelerou e a população brasileira cresceu a 2,9% entre 1900 e 1920. Mas entre 1920 e 1940 o ritmo de imigração diminuiu e o crescimento demográfico brasileiro ficou em 1,7% ao ano. Na década de 1940 o ritmo de crescimento se elevou para 2,4% aa. Mas foi entre 1950 e 1970 que o crescimento vegetativo atingiu o pico de 3% ao ano, devido à redução da mortalidade infantil, em um quadro de manutenção de altas taxas de fecundidade.
A partir da década de 1970 a população brasileira continuou crescendo, mas a ritmo decrescente. Nos anos 1990 o crescimento demográfico ficou abaixo de 2%. A partir de 2010 o crescimento se reduziu para um ritmo abaixo de 1% ao ano. Até 2050 o crescimento zero deve ser alcançado. Na segunda metade do século XXI deve haver decrescimento da população brasileira.
Entre 1822 e 2014 houve uma melhora nas condições de vida da população brasileira. A esperança de vida ao nascer, por exemplo, era de cerca de 25 anos em 1822 e chegou na casa dos 75 anos em 2014. Houve também melhoria das condições habitacionais, educacionais e sociais. De modo geral, houve progresso humano no país (embora tenha havido regresso ambiental).
Todavia, a crise econômica de 2015 e 2016 está interrompendo uma longa sequência de ganhos sociais. No biênio 2015-16 haverá queda da renda per capita, aumento do desemprego, redução da população ocupada e aumento da violência e da pobreza. Não se sabe como será os oito anos seguintes até 2022. Mas tudo indica que o quadro mudou e o Brasil está entrando em um processo de regressão econômica, com graves consequências para o futuro do país.
Referência:

ALVES, JED. O desperdício do bônus demográfico e o fim do desenvolvimento do Brasil, apresentação realizada no NEPO/UNICAMP em 19 de outubro, SCRIBD, 05/11/2015

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 06/01/2016

A ironia do nosso modelo de corrupção no Brasil


por Wagner Torres

No livro Desafios Fiscais eu comparo Brasil e Alemanha e mostro que enquanto o ajuste fiscal na Alemanha é sólido impedindo o efeito das altas vinculações e, portanto garantindo que carga tributária não crescesse para financiar despesa corrente, No Brasil, após a falácia da promulgação da Constituição de 88 evidenciamos que o sistema de hiper vinculação resultou no aumento da despesa corrente bem superior ao incremento do PIB e o reflexo foi o nosso sistema endógeno de corrupção, o qual resultou no super faturamento na aquisição de serviços e materiais principalmente na Educação e Saúde. Nesse contexto, o reflexo mais perverso foi o acréscimo da dívida pública resultando no nosso sistema de corrupção sofisticado com despesa de juros no montante de R$ 500 bilhões efeito do populismo fiscal e cambial do governo Dilma reflexo do modelo de insustentabilidade da política fiscal (alta vinculação da receita a despesa) e a insensatez da política de valorização do salário mínimo vinculada ao crescimento do PIB e ao IPCA.

O hilário desse modelo é que por anos efeito do modelo de alta vinculação da receita a despesa a despesa com Saúde e Educação cresceu e agora com o cenário de abismo fiscal os Estados resolveram renegociar os contratos com os fornecedores como ocorre atualmente no Estado do Rio de Janeiro com dívida de R$ 1 bilhão a solução é reduzir o valor dos contratos, entretanto a diferença é que o custo de aquisição não vai ser reduzido constantemente, pois o custo de produção continua subindo efeito das consequências do modelo do populismo fiscal e cambial.

Confirma-se que o Brasil está saindo da crise

Luiz Carlos Bresser-Pereira

Enquanto os economistas ortodoxos ficam tolamente indignados porque o ajuste fiscal "não é suficiente para tirar o país da crise" e os economistas da esquerda igualmente ficam também tolamente indignados porque "o ajuste fiscal está aprofundando a crise", eu tenho insistido que o ajuste principal o mercado (a lei da oferta e da procura) já fez - o da taxa de câmbio - e tenho previsto que logo a economia brasileira estará saindo da recessão. O pessimismo de um lado e de outro é mera incompetência. Pois bem, afinal as notícias começam a confirmar minha previsão. O superávit comercial de 2015 foi "supreendentemente" maior do que se esperava. E hoje o Valor informa que os bens industrializados voltaram a liderar as exportações depois de um longo inverno de liderança das commodities. Um dia ortodoxos e a esquerda conseguirão revogar a lei da oferta e da procura, mas enquanto isto não acontecer vamos tratar de ver o que acontece com os preços macroeconômicos, principalmente com o mais estratégico (e mais esquecido porque mais temido) de todos: a taxa de câmbio. Ela já está além do equilíbrio competitivo, que estimo ser hoje de cerca de R# 3,80 por dólar, as as boas empresas brasileiras voltaram a ser competitivas.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Mercados caem como um castelo de cartas devido desaceleração e estagnação mundial


Por Marco Antonio Moreno
O pior início de ano para os mercados de ações ao redor do mundo não faz mais do que dar conta dos desafios econômicos difíceis que estarão presentes neste 2016, de volatilidades e turbulências que colocam os mercados em pânico. O ano começou com a queda da bolsa na China e foi seguido por Japão, Coréia do Sul, Hong Kong, Europa, EUA e América Latina. Espirros da bolsa de Xangai se espalhou para o resto do mundo, mostrando que o nervosismo dos mercados vai ficar. Esta nova fase da crise que começou no verão passado com o colapso da China se intensifica. O que estamos vendo é a implosão de todas as bolhas inchadas como parte dos excessos financeiros sem precedentes durante o período de euforia e descontrole. Como os riscos começaram a se tornar visíveis e que a estagnação é consolidada, o pânico se apodera dos mercados.
Este esquema básico de Dorian Gray que parecia oferecer a eterna juventude, é responsável pela euforia permanente que inflava bolhas e elevava o valor dos ativos. A nova realidade deflacionária instalada em 2015 está colocando em suspensão os pilares fundamentais do modelo capitalista. O nervosismo relatado em março do ano passado em O que vai acender a centelha da próxima crise financeira, aumentou com o surgimento de potenciais bordas de choque: a partir das ações do Estado islâmico e as da Arábia Saudita, através do colapso de matérias-primas, a desaceleração da China e do colapso do petróleo. 

A segunda-feira negra de ontem mergulhou a Bolsa de Xanga em 7 por cento e se espalhou como fogo através do resto do mundo mostrando que se vive momentos de medo e fragilidade. A economia ainda está atolada na ressaca pós-crise e os planos de ajuda apenas aliviaram o sistema financeiro, o coração do problema. Este fanfarra tem escondido que a economia ainda não consegue sair do choque sofrido em 2008 após décadas de consumo e desperdício começados no final dos anos 80. Uma festa que terminou com o paradoxo de ter taxas de juros para baixo e ao mesmo tempo quedas das taxas de investimento. Hoje ninguém investe porque a deflação é o futuro e tanto a queda da demanda quanto a queda dos preços não são mai do que um reflexo da queda geral no consumo.

Apenas uma piscadela para os mercados

Assim, a rotação do Federal Reserve ao elevar os juros depois de quase uma década é uma faca de dois gumes. A euforia do aumento anunciado por Janet Yellen, em dezembro, não conseguiu durar duas horas. Os mercados de ações, que vêm em baixa desque que a China confirmou a bolha, em agosto do ano passado, fez um leve aceno para subir e, em seguida, continuar caindo. As ações fecharam em 2015 seu pior ano desde 2008. O Ibex 35 perdeu 7,5 por cento.
O de Janet Yellen não foi mais do que uma saudação à bandeira para acalmar os mercados e conhecer a tão anunciada "mudança de tendência" após oito anos de taxas de zero por cento. Embora os dados de emprego e de crescimento do PIB pudessem justificar essa decisão, há um indicador que é mais relevante para as perspectivas de longo prazo nos Estados Unidos e é a produtividade.
A produtividade dos EUA permanece persistentemente fraca e nos últimos cinco anos o crescimento da produtividade tem uma média de apenas 0,6 por cento. Além disso, a previsão de consenso sugere mais do mesmo nos próximos 12 meses. Isto está longe de ser a produtividade média desde o tempo do pós-guerra que era em torno de 2,4 por cento. A produtividade dos últimos cinco anos é apenas um quarto da média das últimas cinco décadas.
Esta nova normalidade de baixa é muito alarmante para uma população que envelhece e começa a ver que o nível de vida não é melhor do que a de seus pais. Esse é o verdadeiro giro da crise: as gerações futuras terão um nível de vido pior do que as gerações passadas. É o resultado mais claro e mais brutal da estagnação econômica prolongada que desencadeou a crise de 2008 como um dos seus principais derivados. E por que ainda estamos em crise e ainda sem ver a luz no fim do túnel. Pode-se imaginar onde podemos chegar com um par de décadas de estagnação?

Chacina na Arábia Saudita

As execuções foram sem dúvida uma forma sem precedentes de dar as boas-vindas ao Ano Novo – mesmo que não tenham sido tão espetaculares quanto a exibição de fogos de artifício no Dubai, que se realizou ao mesmo tempo que ardia um dos melhores hotéis do emirado. Por Robert Fisk.

O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, com o príncipe herdeiro Muhammad bin Nayef à chegada ao Ministério do Interior, em Riade. Foto do Departamento de Estado dos EUA, em domínio público.
O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, com o príncipe herdeiro Muhammad bin Nayef à chegada ao Ministério do Interior, em Riade. Foto do Departamento de Estado dos EUA, em domínio público.
A orgia de decapitações na Arábia Saudita – 47 ao todo, entre elas a do erudito clérigo xiita sheik Nimr Baqr al-Nimr, seguida de uma justificação corânica das execuções – foi digna do Estado Islâmico. Talvez fosse essa a ideia.
Porque este extraordinário banho de sangue na terra da monarquia muçulmana sunita Al-Saud – cuja intenção foi claramente enfurecer os iranianos e todo o mundo xiita – voltou a sectarizar um conflito religioso que o EI tanto se esforçou por promover.
Só faltou o vídeo das decapitações, ainda que as 158 execuções no ano passado, naquele reino, estavam perfeitamente de acordo com os ensinamentos wahabitas do Estado Islâmico. A frase de Macbeth “o sangue chama sangue” aplica-se sem dúvida aos sauditas, cuja “guerra contra o terror”, ao que parece, justifica agora qualquer banho de sangue, seja sunita ou xiita.
Mas com que frequência os anjos de Deus misericordioso aparecem ao ministro saudita do Interior, o príncipe herdeiro Muhammad bin Nayef?
Com que frequência os anjos de Deus misericordioso aparecem ao ministro saudita do Interior, o príncipe herdeiro Muhammad bin Nayef?
Porque o sheik Nimr não era apenas um velho sagrado. Passou anos como erudito em Teerão e na Síria, era um reverenciado líder xiita das orações de sexta-feira na província saudita do oriente e uma personalidade que se mantinha à margem dos partidos políticos, mas que exigia eleições livres e por isso era detido e torturado com regularidade – segundo o seu relato – por se opor ao governo saudita, de orientação sunita wahabita.
O sheik Nimr dizia que as palavras eram mais poderosas que a violência. A sugestão das autoridades de que não houve nada de sectário no banho de sangue deste sábado – com o argumento de que decapitaram sunitas e xiitas por igual – foi um exemplo clássico da retórica do EI.
No final das contas, o EI corta a cabeça a apóstatas sunitas sírios e a soldados iraquianos com o mesmo empenho com que massacra xiitas. O sheik Nimr teria recebido dos esbirros do Estado Islâmico exatamente o mesmo tratamento que teve dos sauditas – sem passar pela farsa de um julgamento pseudolegal que provocou a queixa da Amnistia Internacional.
Mas a chacina deste sábado representa bem mais que o ódio saudita para com um clérigo que se alegrou com a morte do ex-ministro do Interior Nayef Abdul-Aziz Al-Saud, pai de Muhammad bin Nayef.
A execução do sheik Nimr vai revigorar a rebelião houthi no Iémen, país que os sauditas invadiram e bombardearam, ano passado, numa tentativa de destruir o poder xiita local. Enfureceu a maioria xiita no Bahrein, governado pelos sunitas. E os próprios clérigos iranianos afirmaram que a decapitação causará a derrocada da família real saudita.
Também apresentará ao Ocidente o mais vergonhoso dos problemas do Médio Oriente: a persistente necessidade de humilhar-se com servilismo diante dos ricos autocratas do Golfo ao mesmo tempo que expressa inquietação pela grotesca carnificina. Se o EI tivesse cortado a cabeça a sunitas e xiitas em Raqqa – em especial a de um sacerdote xiita problemático como o sheik Nimr – é certo que David Cameron teria twitado o seu desgosto perante um ato tão odioso. Mas o homem que mandou pôr a bandeira britânica a meia-haste para chorar a morte do último rei do risível estado wahabita vai usar evasivas quando abordar este episódio de cabeças cortadas.
A questão será colocada tanto em Washington quanto em capitais europeias: propõem-se os sauditas destruir o acordo nuclear iraniano obrigando os seus aliados ocidentais a apoiar até mesmo este escândalo recente? 
Por muitos homens sunitas da Al-Qaeda que também tenham perdido a cabeça, literalmente, diante de verdugos sauditas, a questão será colocada tanto em Washington quanto em capitais europeias: propõem-se os sauditas destruir o acordo nuclear iraniano obrigando os seus aliados ocidentais a apoiar até mesmo este escândalo recente? No mundo obtuso onde vivem – no qual o jovem ministro da Defesa que invadiu o Iémen detesta o ministro do Interior –, os sauditas ainda glorificam a coligação antiterrorista de 34 nações na sua maioria sunitas que supostamente formam uma legião de muçulmanos que se opõem ao terror.
As execuções foram sem dúvida uma forma sem precedentes de dar as boas-vindas ao Ano Novo – mesmo que não tenham sido tão publicamente espetaculares quanto a exibição de fogos de artifício no Dubai, que se realizou ao mesmo tempo que ardia um dos melhores hotéis do emirado. Contudo, fora dos envolvimentos políticos, existe uma pergunta óbvia a colocar – no próprio mundo árabe – sobre a casa de Saud, na sua luta por se perpetuar no poder: será que os governantes do reino ficaram chanfrados?
Publicado no The Independent e no La Jornada

Previsões para 2016


Por Michael Roberts

Enquanto escrevo, os mercados acionários globais começam 2016 mergulhando, tanto é assim no caso da China em que a troca do mercado de ações foi fechado para parar de vender. A queda foi motivada por todos os aspectos das pesquisas decepcionantes de atividade de negócios na China, na Índia, nos EUA e em partes da Europa.
US Markit
De fato, até o final de 2015, a maioria dos mercados de ações tiveram seus piores resultados anuais desde a Grande Recessão em 2009 Claramente, os investidores ricos e instituições financeiras estão ficando preocupados que a economia global, longe de pegar ritmo, está a abrandar ainda mais.
Passaram oito anos de que eu chamei de uma longa depressão desde a Grande Recessão que começou em janeiro de 2008. (Veja o meu artigo apresentado no ASSA 2016 esta semana: recessões, depressões e recuperações 071.215).
A cada ano, os principais economistas e instituições internacionais como o FMI e a OCDE preveem um incremento no crescimento real do PIB, do emprego e da renda real, e cada vez que eles têm sido provados como errados. Esta tem sido a mais fraca recuperação pós-guerra de todas.
vindo upshort
Mas mesmo em uma base per capita, o PIB real dos EUA cresceu apenas 9% vs. 18,8% para a recuperação média. Essa é a mais baixa de qualquer recuperação pós-1960. O desemprego oficial de pouco mais de 5% hoje é baixo. Mas isso é porque 94 milhões de pessoas na América com idade superior a 16 anos não estão na força de trabalho. Se o crescimento do emprego tinha sido o mesmo que na recuperação média, teríamos mais de 5,9 milhões de trabalhadores americanos.
fim do crescimento
Os economistas tradicionais, como haviam feito todos os anos desde 2009, quer do FMI ou da OCDE ou os economistas dos bancos Wall Street, preveem um crescimento mais rápido em 2015 sobre 2014. Isso não aconteceu -. Ao contrário o crescimento econômico global estava em seu menor nível desde o fim da Grande Recessão como a China abrandou para menos de 7% de crescimento real do PIB e as economias de recursos de commodities do Brasil, Rússia e até mesmo no Canadá entraram em recessão, enquanto o Japão mancando ao longo de um estado ainda pior do que em 2014, enquanto a Europa da modesta recuperação foi muito modesta, de fato. Apenas o Reino Unido e os EUA das sete principais economias avançadas alcançaram taxas de crescimento acima de 2%, mas em ambos os casos mostrou sinais de escorregar para trás em direção ao final do ano passado. O comércio global foi fraco e a produção industrial desacelerou para menor taxa desde 2009.
Mas a esperança morre dura. Ao anunciar uma caminhada em sua taxa de juro de política pela primeira vez em quase 10 anos, Janet Yellen, o chefe do Federal Reserve Bank, calculou que a economia dos EUA estava "no caminho da melhoria sustentável."
Outros não têm tanta certeza. Em sua pesquisa de fim de ano, o banco de investimento Goldman Sachs, com todos aqueles economistas ricamente pagos, admitiram que tinham entendido errado sobre a economia dos EUA: "decepção crescimento deste ano é o décimo terceiro até ao momento nos dezesseis anos desde 2000. A impacto cumulativo dessas faltas de previsão tem sido uma falta 3.3pp desvantagem no nível do PIB real desde 2011 e uma senhorita inconveniente 14.9pp desvantagem desde 2000. "Agora Goldman tornara-se mais pessimista sobre 2016." Tanto a nossa própria estimativa de crescimento potencial de longo prazo e a (o Fed dos EUA) do FOMC estão abaixo do consenso de 1,75% e 2%, respectivamente, e nós suspeitamos que as estimativas do consenso poderiam cair ainda mais se o crescimento continua a desiludir. "
De acordo com Gavyn Davies, ex-economista-chefe do Goldman Sachs e agora blogger no FT, o nível de produção global em 2016 permanecerá abaixo da tendência em ambos os mundos desenvolvidos e emergentes.
Gavyn Davies
Claro, não é fácil prever o que vai acontecer, seja na vida, tempo ou economias, mas isso não significa que não devemos tentar. Verificar se as previsões que vêm à direita é um medidor da validade de uma teoria ou lei, como a física sempre fez. Quanto melhor for a teoria, melhor ela se encaixa nos fatos e melhor a previsão do que vai acontecer. É apenas que as teorias tradicionais de como funciona a economia capitalista são tão defeituosas que suas previsões são quase sempre erradas.
Então, como foi que a explicação marxista levantou-se em previsões? Bem, desta vez no ano passado, eu disse que "a economia global continua em um rastreamento e irá fazê-lo em 2015". Por que digo isso? Eu não vou passar por cima dos argumentos porque depois do ano passado contém todos eles e pouco mudou.
Quanto a 2016, eu espero que da mesma forma como 2015, mas com um risco muito maior de nova recessão global aparecendo. Afinal, recessão econômica ou quedas parecem vir em torno das principais economias a cada 8-10 anos e a última começou em 2008. Temos estado nesta Longa Depressão, porque não houve aumento do investimento empresarial para impulsionar a renda, emprego e saída para cima. E isso é porque a rentabilidade do capital permanece globalmente abaixo dos níveis do final dos anos 1990 e já atingiu o pico desde a Grande Recessão e está caindo.
Como resultado, o capex (investimento empresarial) permanece estagnado com a probabilidade de uma queda trás este ano.
capex
O risco de uma nova recessão está aumentando. Primeiro, as economias, com vários grandes emergentes já em recessão, enfrentam custos mais elevados de dívida como a Reserva Federal dos EUA implementou seu programa para elevar os juros.
crédito em
Os economistas do JPMorgan afirmam que as economias emergentes sofrerão desalavancagem do endividamento excessivo e que poderiam reduzir o crescimento do PIB no mundo emergente por 2 a 3 pontos percentuais ao longo dos próximos três anos, ou ainda mais se houver crises graves de confiança financeira. Isso seria o suficiente para desacelerar o crescimento do PIB global de 1 a 1,5 pontos percentuais. No limite inferior do intervalo, uma recessão global se tornaria provável.
Como resultado, os economistas do JP Morgan calculam que o risco de uma recessão nos Estados Unidos ao longo de um horizonte de dois a três anos tem "aumentado significativamente". Na verdade, eles acham que há uma chance de três-em-quatro que haverá uma recessão nos próximos três anos, apesar de descartá-la para este ano. Mas, mesmo sem uma nova recessão, o crescimento global será não mais do que 2,6%.
O Federal Reserve Bank (Atlanta) avalia que a probabilidade de uma nova recessão não é muito longe de onde ele foi no final de 2007, pouco antes da Grande Recessão chegou.
recessão prov
Mesmo se uma nova crise global for evitada este ano, que poderia ser o último ano isso é.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Machado de Assis: A Opinião Pública


É que não há outra classe mais numerosa no Brasil. Divide-se essa classe em diversas seções: políticos por vocação, políticos por interesse, políticos por desfastio, políticos por não terem nada que fazer. Imagino daqui o imenso trabalho que há de ter V.Ex.a em escolher os bons e úteis dentre tantos. E esse é o meu desejo, essa é a necessidade do país. Mande-nos V.Ex.a uma câmara inteligente, generosa, honesta, sinceramente dedicada aos interesses públicos, uma câmara que ponha de parte as sutilezas e os sofismas, e entre de frente nas magnas questões do dia, que são as grandes necessidades do futuro, de que depende a grandeza, ia quase dizer a existência do corpo social.

Rio, 05 de março de 1867

Dizem alguns que V. Ex.a não existe; outros afirmam o contrário. Mas estes são em maior número, e a força do número, que é a suprema razão moderna, resolvem as dúvidas que eu porventura possa ter. Creio que V. Exa existe, em que pese aos mofinos caluniadores de V. Exa. Se não existisse, como se falaria tanto em seu nome, na tribuna, na imprensa, nos meetings, na praça do comércio, na rua do Ouvidor? Das criações fabulosas não se fala com tanta insistência e generalidade, salvo se houvesse uma conspiração para asseverar aquilo que não é, e isto repugna-me acreditar.
Também por muito tempo se duvidou da existência de Mr. Hume, aquele célebre mágico que transformava os ovos em carvão, mas, se bem me lembro, apareceu um dia o dito mágico, e daí em diante ninguém duvidou dele. O mesmo há de acontecer com o judeu errante, de quem falam todos, e que eu creio que existe, sem ser o cholera-morbus, e que há de aparecer mais dia menos dia, tenho essa esperança.
É a maioria da gente que tem razão, e quando falo em maioria suponho ter produzido um desses argumentos invulneráveis, até mesmo no calcanhar, apesar de quanto possa ter dito o visconde de Albuquerque.
Assentado isto, receba V. Exa . esta carta  que é a primeira da série com que eu pretendo estrear na imprensa.
É costume entre a gente trocar os bilhetes de visita a primeira vez que se encontra. Na Europa, ao menos, é tão necessário trazer um maço de bilhetes, como trazer um lenço. V. Exa. terá desejo de saber quem sou. Di-lo-ei em poucas palavras.
Se a velhice quer dizer cabelos brancos, se a mocidade quer dizer ilusões fracas, não sou moço nem velho. Realizo literalmente a expressão francesa: Un homme entre deux âges. Estou tão longe da infância como da decrepitude; não anseio pelo futuro, mas também não choro pelo passado. Nisto sou exceção dos outros homens que, de ordinário, diz um romancista, passam a primeira metade da vida a desejar a segunda, e a segunda a ter saudades da primeira.
Não sou alto nem baixo estou entre Thiers e Dumas, entre o finado marquês de Abrantes e o visconde de Camaragibe. Cito os dois últimos para dar cor local à comparação, e ficar logo às boas com a crítica literária. Além disso, há um ponto de contato entre o orador francês e o orador brasileiro; ambos obtiveram um apelido quase idêntico pela semelhança da eloqüência parlamentar. Onde não há nenhum ponto de contato é entre os dois: nem o Sr. Camaragibe  faz romance, nem Alexandre Dumas faz política, e creio que ambos se dão bem com esta abstenção. 
Não sou votante nem eleitor, o que me priva da visita de algumas pessoas de consideração em certos dias, gozando, aliás, da  estima deles no resto do ano, o que me é sobremaneira agradável. Ao mesmo tempo poupo-me às lutas da igreja e às corrupções da sacristia.
Não privo com as musas, mas gosto delas. Leio por instruir-me; às vezes por consolar-me. Creio nos livros e adoro-os. Aos domingos leio asSantas Escrituras; os outros dias são divididos por meia dúzia de poetas e prosadores da minha predileção; consagro a sexta-feira à Constituição do Brasil e o sábado aos manuscritos que me dão para ler. Quer tudo isto dizer que à sexta-feira admiro os nossos maiores, e aos sábados durmo a sono solto. No tempo das câmaras leio com freqüência o padre Vieira e o padre Bernardes, dois grandes mestres.
Quanto às minhas opiniões públicas, tenho duas, uma impossível, outra realizada. A impossível é a república de Platão. A realizada é o sistema representativo. É sobretudo como brasileiro que me agrada esta uma última opinião, e eu peço aos deuses (também creio nos deuses) que afastem do Brasil o sistema republicano, porque esse dia seria o do nascimento da mais insolente aristocracia que o sol jamais iluminou...
Não freqüento o paço, mas gosto do imperador. Tem as duas qualidades essenciais ao chefe de uma nação: é esclarecido e honesto. Ama o seu país e acha que ele merece todos os sacrifícios.
Aqui estão os principais traços da minha pessoa. Não direi a V.Ex.a se tomo sorvetes nem se fumo charutos de Havana; são ridiculezas que não devem entrar no espírito da opinião pública.
Agora que me conhece, perguntará V.Ex.a por que motivo esta primeira carta é dirigida à sua pessoa, e que lhe quero dizer com esta dedicatória. Nada mais simples. Entrando numa sala, cumprimenta-se logo a dona de casa; entrando na imprensa, dirijo-me a V.Ex.a que é dona dela segundo dizem as gazetas e eu creio no que as gazetas dizem.
Consinta V.Ex.a que eu não lhe faça corte. De todas as pessoas deste mundo é V.Ex.a a mais cortejada desde que um italiano escreveu estas célebres palavras: ― de l’opinione, Regina del mondo, talvez para contrabalançar o título que as ladainhas da Igreja dão à Virgem Maria,Regina angelorum. Não será V.Ex.a igual à Virgem Maria, mas creio poder compará-la a Santa Bárbara, e realmente é uma Santa Bárbara, que a maior parte da gente invoca na hora do temporal e esquece na hora da bonança. Eu serei o mesmo em todas as fases do tempo, e se vier a cortejá-la algum dia, será em silêncio, silentium loquens, como dizia S. Jerônimo, outro advogado contra as borrascas.
Terá V.Ex.a a indiscrição de pedir-me um programa? Acho que este uso parlamentar não pode ter aceitação nos domínios da musa epistolar, que é toda incerta, caprichosa, fugitiva. Demais, sei eu acaso o que há de acontecer amanhã? Posso criar uma norma aos acontecimentos? Deixe que os dias passem, e os sucessos com ele, os sucessos imprevistos, as coisas inesperadas, e a respeito de todos direi francamente a minha opinião.   
Ou, se quiser absolutamente um programa, dir-lhe-ei que prometo escrever com pena e tinta todas as minhas cartas, imitando deste modo o programa daquele ministério que consistia em executar as leis e economizar os dinheiros públicos. Profunda política que toda a gente compreendeu de um lance. Perdoe-me V. Ex.a, creio que V.Ex.a apoiou esse ministério; ao menos assim dizem os amigos dele; e creio que também lhe fez oposição; ao menos, diziam-no os parlamentares oposicionistas. Coisas de V.Ex.ª.
É nisto que ninguém pode vencê-la. O dom de ubiqüidade é V.Ex.a quem o tem de uma maneira prodigiosa. Agora, por exemplo, não anda V.Ex.a de um lado trajando sedas e agitando guizos, alegre e descuidada, pulando uma valsa de Strauss, dando a mão à tísica dos pulmões e à tísica das algibeiras, e de outro lado, envergando uma casaca preta, e distribuindo pelos candidatos políticos a palma eleitoral? Ajuizada e louca, grave e risonha, entre uma urna e um calix de champanhe, na esquerda o tirso da bacante, na direita o estilo do escritor, olhar de Cícero, calva de Anacreonte, eis aí V.Ex.a, a quem todos adoram, os velhos e os mancebos, os boêmios e os candidatos.
A verdade é que V.Ex.a tem às vezes caprichos singulares; gosta da cor vermelha, e a pretexto de eleição, inspira não sei que maus ímpetos ao leão popular, que a tudo investe e tudo desfaz. Nessas ocasiões V.Ex.a não tem um cetro, como rainha que é, tem um cacete, que é um teorema infalível. Mas nem assim perde o caráter de opinião: é esse o parecer dos seus escolhidos.
Enfim, são ímpetos. O pior é quando, em vez de ímpetos, apenas se emprega o meio da corrupção das urnas, da sedução do volante, da intervenção do fósforo, ― pasmoso invento que eu coloco entre a obra de Fulton e a obra de Gusmão, vulgo Montgolfier. ― Isto é que é pior. Francamente, eu creio que V.Ex.a desconhece todos esses meios, e os condena, e se acaso os sofre é por honra da firma. Em todo caso, por que não protesta V.Ex.a? É deste silêncio que algumas pessoas tiram a conclusão de que V. Ex.a não existe.
É amanhã que V.Ex.a tem de escolher definitivamente os deputados; começam duas quaresmas, uma religiosa, outra política. Amanhã os católicos e os candidatos vão receber a cinza, e todos recebem a cinza, ― ainda os que não forem eleitos, ― uns na testa, outros nos olhos. Alegrias e decepções, dores e flores, todas as exaltações, todos os abatimentos, todos os contrastes. Eu creio que há em todo o império uma soma de políticos capaz de formar cinco ou seis câmaras. É que não há outra classe mais numerosa no Brasil. Divide-se essa classe em diversas seções: políticos por vocação, políticos por interesse, políticos por desfastio, políticos por não terem nada que fazer. Imagino daqui o imenso trabalho que há de ter V.Ex.a em escolher os bons e úteis dentre tantos. E esse é o meu desejo, essa é a necessidade do país. Mande-nos V.Ex.uma câmara inteligente, generosa, honesta, sinceramente dedicada aos interesses públicos, uma câmara que ponha de parte as sutilezas e os sofismas, e entre de frente nas magnas questões do dia, que são as grandes necessidades do futuro, de que depende a grandeza, ia quase dizer a existência do corpo social.
Mas eu que falo assim obscuro e rude, quem sou eu para dar conselhos à opinião, regina del mondoPerdoê-me V.Ex.aÉ natural nos homens, e eu sou homem, homo sum. Ao menos veja nisto a minha boa vontade e o grande amor que lhe tenho.
Creio que esta carta vai longa; tenho-lhe roubado demasiado tempo. Vou pôr aqui o ponto final, e recolher-me ao silêncio a fim de pensar nos diversos assuntos com que hei de ocupar, se Deus me der vida e saúde.
Devia ir vê-la hoje divertindo-se e pulando, mas não posso. Consagro o dia de hoje a S. Francisco de Sales, apropriado à estação de penitência que começa amanhã. Preparo assim o meu espírito à meditação. Além de que, o bom do santo é um dos melhores amigos que a gente pode ter: não fala mal nem dá conselhos inúteis. Se V.Ex.cuida que é um homem de carne e osso, engana-se; é um maço de folhas de papel metidos numa capa de couro; mas dentro do couro e do papel fulge e palpita uma bela alma.
                                                                                            Job.

O forró eletrônico é a maior "indústria" do Nordeste


por Luiz Rodrigues - editor-chefe

O título é apenas uma suposição em termo numéricos-estatísticos, pois, não disponho de cifras comparativas entre diferentes setores da economia regional, no entanto a abrangência "societal", por se tratar de uma indústria em grande parte simbólica, ou seja, destituída de materialidade e com influência maciça nas vidas das pessoas pertinente tal categorização.

Uma região com um litoral propício ao turismo fez da chamada indústria do entretenimento o negócio mais rentável; proveniente da mentalidade oportunista (sem sentido deturpador) às situações de negócios do empresário Emanoel, que percebeu uma chance clara de lucro com esse tipo de atividade, adaptou a música regional, eminentemente rural, e a deu estilo urbano com a cara do fim do século XX e tornou uma mega indústria cultural no sentido frankfurtiano.

Genuinamente o Forró eletrônico é uma indústria, não há outra classificação, nem se trata de ressentimento; não há outra forma de entendê-lo. A crítica da escola de Frankfurt é de que a arte tornada mercadoria deixa de ser arte e passa a ser apenas uma mercadoria, perdendo, assim, as qualidades artísticas.Agora, se se fizer a análise pelo sentido puramente econômico, se elogiará o forró eletrônico com uma fonte de rendas sem precedentes. A questão moral: se é válido ou não fazer da arte uma mercadoria, essa não responderei aqui, deixo para outro momento, e para a consciência de cada um.

Um dos grandes símbolos do Forró eletrônico é a rede de rádios SomZoom Sat, a primeira emissora sediada em uma cidade nordestina a transmitir em rede nacional, daí pra ver a força econômica derivada dessa indústria, aliás o grupo SomZoom prepara agora uma emissora de TV que certamente deve seguir o caminho da rádio. A SomZoom parte de uma produtora e funciona como elemento difundidor do "discurso" do forró eletrônico, veja-se: é uma indústria com estratégias comerciais.

Por toda a região os cartazes ficam fixados em paredes e muros pelas cidades do interior e nas capitais, festas passadas e futuras, vaquejadas; é como se o Nordeste fosse um grande clube para exploração dos empresários do forró eletrônico. A vida das pessoas conflui em torno dos eventos que vão se sucedendo nas diferentes regiões.

A difusão midiática é algo impressionante, além da SomZoom, a grande lançadora de novos "produtos", todas as rádios da região têm em suas grades a maior fatia da programação musical com este gênero. Não há no Nordeste quem não ouça Forró eletrônico, quer goste quer não, não há liberdade neste sentido. Não dar, por outro lado, para negar sua inafastabilidade quando se pretende estudar sociologicamente o Nordeste.

A economia moderna em todos os países diminui a participação da indústria no PIB, passando a ocupar o posto de maior componente o setor de serviços; aqui não há uma transição, já que a região não seguiu a industrialização do Brasil, concentrada no Sudeste.Os municípios, emancipados em demasia via populismo municipalesco, são deficitários, mal estruturados, amesquinhados politicamente (como diria Victor Nunes Leal) ao extremo e, onde, os problemas da modernidade doentia brasileira vão se assomando. Uma indústria onde a crise sequer se avizinha é a do Forró eletrônico...

O racismo dos intelectuais, por Alain Badiou

A importância do voto em Marine Le Pen envergonha e surpreende. Procuram-se explicações. A minha tese é que é preciso apontar dois grandes culpados: os sucessivos responsáveis pelo poder de Estado, tanto de esquerda quanto de direita, e um número significativo de intelectuais. Por Alain Badiou

Foto de Die Linke. Landesverband Baden-Württemberg/flickr
A importância do voto em Marine Le Pen envergonha e surpreende. Procuram-se explicações. O pessoal político recorre à sociologia portátil: a França dos de baixo, dos provincianos perdidos, dos operários, dos sub-educados, assustada pela mundialização, pelo recuo do poder de compra, pela desestruturação dos territórios, pela presença à sua porta de estranhos estrangeiros, quer recuar para o nacionalismo e a xenofobia. Já é, aliás, essa França“retardatária” que foi acusada de ter votado "não" no referendo ao projeto de Constituição europeia. Opunha-se às classes médias urbanas educadas e modernas, que constituem o sal social da nossa bem temperada democracia.
Dizemos que esta França dos de baixo é de qualquer forma, nestas circunstâncias, o burro da fábula, o pelado e sarnento “populista” de onde nos vem todo o mal lepenista. É estranho este ressentimento político-mediático contra o “populismo”. O poder democrático, de que nos orgulhamos tanto, será alérgico ao que preocupa o povo? Trata-se da opinião desse povo, em qualquer caso, e cada vez mais. À pergunta “os responsáveis políticos preocupam-se com o que pensam as pessoas como vós?”, a resposta totalmente negativa “de forma nenhuma” passou de 15% em 1978 para 42% em 2010! Quanto ao total das respostas positivas (“muito” ou “bastante”), passou de 35% para 17% (consulte-se, para esta indicação estatística e outras de grande interesse, o número especial da revista La Pensée com o título “O povo, a crise e a política” de Guy Michelat e Michel Simon). A relação entre o povo e o Estado não é feita de confiança, é o mínimo que podemos dizer.
Devemos concluir que o nosso Estado não tem o povo que merece e que o sombrio voto lepenista atesta essa insuficiência popular? Seria então preciso, para reforçar a democracia, mudar o povo, como ironicamente propunha Brecht...
A minha tese é que em vez disso é preciso apontar dois outros grandes culpados: os sucessivos responsáveis pelo poder de Estado, tanto de esquerda quanto de direita, e um número significativo de intelectuais.
Decididamente, não foram os pobres das nossas províncias que decidiram limitar tanto quanto possível o elementar direito de um operário deste país, qualquer que seja a sua nacionalidade de origem, a viver aqui com a sua mulher e os seus filhos. Foi um ministro socialista e todos os de direita que se lhe seguiram que se lançaram nesse caminho. Não foi um campesinato sub-educado que proclamou, em 1983, que os grevistas da Renault – de facto, maioritariamente argelinos ou marroquinos – eram “trabalhadores imigrados (…) agitados por grupos religiosos e políticos que se determinam em função de critérios que têm pouco a ver com as realidades sociais francesas”.
Foi um primeiro ministro socialista, certamente para grande gáudio dos seus “inimigos” da direita. Quem teve a bela ideia de declarar que Le Pen levantava problemas reais? Um militante alsaciano da Frente Nacional? Não, foi um primeiro-ministro de François Mitterrand. Não foram subdesenvolvidos do interior que criaram os centros de detenção para lá aprisionar, fora de qualquer direito, as pessoas a quem se privava também a possibilidade de adquirir os documentos legais da sua presença.
Não foram, de forma alguma, pessoas dos guetos exasperadas que ordenaram, por todo o lado, que só fossem emitidos vistos para a França a conta-gotas, enquanto se fixava aqui quotas de expulsões que deviam a todo o custo ser cumpridas pela polícia. A sucessão de leis restritivas, atacando, sob o pretexto de serem estrangeiros, a liberdade e a igualdade de milhões de pessoas que vivem e trabalham aqui, não é obra de “populistas” irritados.
Na manobra destas perversidades legais encontra-se o Estado, muito simplesmente. Encontram-se todos os sucessivos governos, desde François Mitterrand, e implacavelmente depois. Nesta matéria, e são apenas dois exemplos, o socialista Lionel Jospin fez saber desde a sua chegada ao poder que não queria abolir as leis xenófobas de Charles Pasqua; o socialista François Hollande fez saber que decidiria, sobre a regularização das pessoas indocumentadas durante a sua presidência, da mesma forma que Nicolas Sarkozy. A continuidade nesta direção é clara. É este encorajamento obstinado do Estado à torpeza que molda a opinião reativa e racialista e não o contrário.
Não creio ser suspeito de ignorar que Nicolas Sarkozy e a sua clique usaram constantemente o racismo cultural, levantando bem alto a bandeira da “superioridade” da nossa querida civilização ocidental e fazendo votar uma interminável sucessão de leis discriminatórias cuja perfídia nos consterna.
Mas enfim, não vimos que a esquerda se tenha levantado para se opor a isso com a força exigida por um tal furor reacionário. Muitas vezes ela fez saber que “compreendia” este pedido de “segurança” e votou sem escrúpulos decisões persecutórias flagrantes, como as que visam expulsar do espaço público esta ou aquela mulher sob o pretexto de que cobre os cabelos ou esconde o seu corpo.
Os seus candidatos anunciam por todo o lado que travarão uma luta sem quartel, não tanto contra as prevaricações capitalistas e a ditadura dos orçamentos ascéticos, mas contra os operários sem papéis e os menores reincidentes, sobretudo se forem negros ou árabes. Neste terreno, direita e esquerda pisaram juntas todos os princípios. Foi e é, para aqueles que são privados de documentos, não o Estado de direito, mas o Estado de exceção, o Estado de não-direito. São eles que estão em estado de insegurança, e não os nacionais. Se fosse preciso, que Deus nos livre, resignarmo-nos a expulsar pessoas, era preferível que se escolhesse os nossos governantes em vez dos respeitáveis operários marroquinos ou malianos.
E por detrás de tudo isto, há muito, há mais de vinte anos, quem encontramos? Quem são os gloriosos inventores do “perigo islâmico”, a um passo segundo eles de desintegrar a nossa bela sociedade ocidental e francesa? Não são intelectuais, que consagram a esta tarefa infame editoriais inflamados, livros tortuosos, “pesquisas sociológicas” manipuladas? Foi um grupo de provincianos reformados e operários de pequenas cidades desindustrializadas que montou pacientemente todo este argumento do “conflito das civilizações”, da defesa do “pacto republicano”, das ameaças à nossa magnífica “laicidade”, do “feminismo” ultrajado pela vida quotidiana das senhoras árabes?
Não é lamentável que se procure responsáveis unicamente na extrema-direita – que de facto tira as castanhas do lume – sem nunca pôr a nu a responsabilidade esmagadora daqueles, que frequentemente se dizendo “de esquerda”, onde figuravam mais professores de “filosofia” que caixas de supermercado, e que apaixonadamente sustentaram que os árabes e os negros, especialmente os jovens, corrompiam o nosso sistema educativo, pervertiam os nossos bairros sociais, ofendiam as nossas liberdades e ultrajavam as nossas mulheres? Ou que eram “muito numerosos” nas nossas equipas de futebol? Exatamente como se dizia ainda há pouco tempo dos judeus e dos “metecos” que por causa deles a França eterna estava ameaçada de morte.
Houve, sem dúvida, a aparição de grupúsculos fascistas que se reclamam do islão. Mas também houve movimentos fascistas que se reclamam do Ocidente e do Cristo-Rei. Isto não impede nenhum intelectual islamofóbico de vangloriar ao extremo a nossa superior identidade “ocidental” e de conseguir alojar as nossas admiráveis “raízes cristãs” no culto de uma laicidade que Marine Le Pen, que se tornou uma das mais ferozes praticantes deste culto, revela enfim em que madeira política ela se aquece.
Na verdade, foram intelectuais que inventaram a violência antipopular, particularmente dirigida contra os jovens das grandes cidades, que é o verdadeiro segredo da islamofobia. E foram os governos incapazes de construir uma sociedade de paz civil e de justiça que entregaram os estrangeiros, e em primeiro lugar os operários árabes e as suas famílias, como forragem a clientelas eleitorais desorientadas e temerosas. Como sempre, a ideia, mesmo a criminosa, precede o poder, que por sua vez molda a opinião de que necessita. O intelectual, mesmo deplorável, precede o ministro, que constrói os seus seguidores.
O livro, mesmo para deitar fora, vem antes da imagem propagandística, a qual induz em erro em vez de instruir. E trinta anos de esforços pacientes na escrita, nas invetivas e na competição eleitoral sem ideias encontram a sinistra recompensa nas consciências fatigadas assim como no voto de rebanho.
Que vergonha para os sucessivos governos, que rivalizaram nos temas conjugados da segurança e do “problema dos imigrantes”, para que não fosse muito visível que serviam acima de tudo os interesses da oligarquia económica! Que vergonha para os intelectuais do neorracialismo e do nacionalismo escondido, que pacientemente cobriram o vazio deixado no povo pelo eclipse provisório da hipótese comunista com um manto de inépcias sobre o perigo islâmico e a ruína dos nossos “valores”!
São estes que hoje devem prestar contas sobre a ascensão de um fascismo desenfreado, de que eles encorajaram implacavelmente o desenvolvimento mental.

Artigo de Alain Badiou, filósofo e escritor francês, publicado em Le Monde a 5 de dezembro de 2015. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net, revisão de Luís Leiria.