"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 16 de janeiro de 2016

Poema do poeta palestino condenado à morte na Arábia Saudita por "renunciar ao islã"



PETRÓLEO




1
o petróleo é inofensivo, exceto pelo rasto de pobreza que deixa atrás de si
naquele dia, quando as faces daqueles que irão descobrir mais um poço de petróleo enegrecerem,
quando a vida for insuflada no teu coração de modo a extrair mais um poço de petróleo da tua alma
para usufruto público...
isto... é... a promessa de petróleo, uma verdadeira promessa.
O fim.

2
foi dito: assentem aqui..
mas alguns de vocês são inimigos para todos
portanto saiam agora
contemplem-se desde o fundo do rio;
aqueles de vós no topo deveriam ter alguma piedade para com aqueles cá em baixo...
os deslocados são inúteis,
como sangue que ninguém quer comprar no mercado petrolífero.

3
desculpa-me, perdoa-me,
por ser incapaz de extrair mais lágrimas para ti
por não murmurar o teu nome em nostalgia.
direcionei a minha face para o calor dos teus braços
não tenho amor para ti, para ti apenas, e sou o primeiro dos que te buscam

4
noite
tu és inexperiente no Tempo
faltam-te gotas de chuva
que possam lavar tudo o que resta do teu passado
e libertar-te daquilo a que chamaste piedade...
desse coração... capaz de amar,
de brincar,
e de interagir com a tua desistência obscena dessa flácida religião
a partir desse falso Tanzil*
de deuses que perderam o seu orgulho...

5
arrotas, mais do que aquilo a que estavas habituado...
à medida que as barras abençoam os seus visitantes
com récitas e danças sedutoras...
acompanhando o DJ
recitas as tuas alucinações
e as tuas orações para esses corpos que se balançam nos versos** do exílio.

6
contudo, ele não tem direito a caminhar,
contudo não tem direito a cantar, contudo não tem direito a chorar.
ele não tem direito a abrir a janela da sua alma
a renovar o seu ar, o seu desperdício, as suas lágrimas...
também tu tendes a esquecer
que és um pedaço de pão

7
no dia em que são banidos, eles erguem-se nus,
enquanto tu nadas nos canos de esgoto enferrujados, de pés descalços...
isto poderia ser saudável para os pés
mas não para a terra

8
os profetas reformaram-se
portanto não esperes que os teus venham ter contigo
e para ti,
para ti os monitores trazem o seu relatório diário
e recebem os seus salários elevados...
como é importante o dinheiro
para uma vida com dignidade

9
o meu avô ergue-se nu todos os dias
sem decretos a banirem-no, sem criações divinas...
eu já fui ressuscitado sem um sopro divino na minha imagem.
sou a experiência do inferno na terra...
a terra
é o inferno preparado para os refugiados

10
o teu sangue emudecido não irá falar
enquanto te orgulhares na morte
enquanto continuares a anunciar – secretamente – que depositaste a tua alma
nas mãos daqueles que não sabem mais***...
perder a tua alma levará tempo
muito mais do que o que leva a acalmar
os teus olhos que choraram lágrimas de petróleo



Ashraf Fayadh


Petição da Anistia Internacional que pede a liberdade de Ashraf: https://www.amnesty.org.uk/actions/free-ashraf-fayadh-saudi-arabia-palestinian-poetry-apostasy-execution#.VlyGQVzFfoY.twitter

O declínio da produtividade na OCDE

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“You can see the computer age everywhere except in the productivity statistics.”
(Robert Solow, 1987)

160115

A produtividade é um jargão econômico associado à eficiência e, em geral, o crescimento continuado da produtividade é o motor que leva a padrões de vida mais elevados. Rotineiramente, a produtividade está associada aos avanços tecnológicos (a máquina a vapor, a eletricidade, o telefone, a Internet), aos níveis de concorrência (empresas mais fortes deslocam rivais mais fracas) e aos trabalhadores mais educados (podendo lidar com tarefas mais complexas).
O relatório “The Future of Productivity” (2015) da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostra que a produtividade diminuiu na maioria dos países da OCDE, mesmo antes da crise. A redução da acumulação de capital baseada no conhecimento e o declínio das empresas tipo start-ups contribuíram para a desaceleração estrutural no crescimento da produtividade.
O relatório faz um recorte a partir de três tipos de empresas: 1) as empresas globalmente mais produtivos, 2) as empresas mais avançadas a nível nacional e 3) as empresas retardatárias. O crescimento da produtividade das primeiras permaneceu relativamente robusto no século 21, apesar da desaceleração no crescimento médio da produtividade. Por exemplo, a produtividade do trabalho nas empresas globais aumentou a uma taxa média anual de 3,5% na indústria de transformação ao longo dos anos 2000, em comparação com um crescimento médio da produtividade do trabalho de apenas 0,5% para as empresas retardatárias, sendo que esta lacuna é ainda mais pronunciada no setor de serviços.
Porém, a desaceleração é geral e o fosso de produtividade entre os diferentes tipos de empresas pode prejudicar o desempenho econômico dos países da OCDE. O relatório indica uma série de políticas para sustentar o crescimento da produtividade, tais como a melhoria no financiamento público para a pesquisa básica, um ambiente de negócios competitivo e aberto, políticas de inovação tecnológica, etc.
No período 1950-1972 a produtividade do trabalho crescia a uma taxa anual de 7% no Japão, a 5,5% na Alemanha e 5% na França, caindo para menos de 1% nos três países entre 2004 e 2013. Na Itália a queda foi maior, passando de 5,5% para praticamente zero no mesmo período.
Nos Estados Unidos, a produtividade do trabalho caiu de 2,3% entre 1948-2007 para 0,7% depois de 2010. O menor crescimento da produtividade significa menor crescimento econômico, padrão de vida estagnado e déficits públicos diante do descompasso entre as despesas e as receitas públicas. Alguns economistas – como Robert Gordon, da Universidade Northwestern e Tyler Cowen da George Mason University – atribuem a queda de produtividade a um declínio na inovação tecnológica. os ganhos de produtividade da Internet não estão sendo suficientes para elevar a produtividade geral.
O estudo da OCDE considera que o processo de inovação continua forte em empresas avançadas, mas há um abrandamento do ritmo em que as inovações se espalham por toda a economia. A queda nas taxas de investimento é sem dúvida um dos motivos da menor produtividade. O perigo é o mundo todo entrar em um círculo vicioso, com a baixa produtividade reduzindo as taxas de investimento e inovação e os menores investimentos contribuindo para a estagnação da produtividade.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 15/01/2016

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Manuel Castells: "a comunicação em rede está revitalizando a democracia"

Manuel Castells (foto: Greg Salibian/Fronteiras do Pensamento)
O sociólogo espanhol Manuel Castells é um pioneiro quando se trata de pesquisar os reflexos da sociedade em rede na economia e na convivência social em todo o mundo a partir do fenômeno da internet. Desde 1979, na Universidade da Califórnia e, portanto, vizinho há décadas do Vale do Silício, é um tradutor sofisticado das transformações do mundo proporcionadas pela web. Em entrevista ao Correio da Bahia, ele fala de suas impressões sobre o Brasil e os últimos movimentos sociais no país: 


Como observador dos grandes protestos ocorridos no mundo nessa segunda década do Século XXI, da Primavera Árabe ao Ocuppy Wall Street, passando pelas manifestações de rua em Londres, Paris até os protestos nas metrópoles no Brasil e as marchas dos trabalhadores sem terra, o senhor identifica alguma marca em comum entre estes movimentos?

Manuel Castells: Todos eles são protestos sociais, porque as pessoas protestam contra as muitas injustiças em todos os âmbitos. Mas há movimentos específicos, que eu chamo de movimentos em rede, que têm características similares em todo o mundo. Meu livro é sobre isso: identifico os traços característicos dos movimentos sociais da sociedade em rede, movimentos que articulam a presença na internet com a presença espontânea nas ruas e praças, movimentos descentralizados, que surgem espontaneamente da indignação contra a injustiça, sem organização partidária e sem liderança centralizada. Seus temas e origens são muito diversos, mas repetem as mesmas formas e em todos eles o espaço de autonomia que a rede representa é essencial.

Uma das obras seminais sobre a sociedade em rede é a sua trilogia A era da informação, produzida nos últimos anos da última década do século XX. Diante da velocidade da tecnologia, das possibilidades de suas redes e conexões e consequentes intervenções na sociabilidade global, quais os aspectos que, hoje, ao revisitar sua própria obra, o senhor identifica?


Manuel Castells: Já os identifiquei nos seis livros que publiquei depois, em particular Comunicação e poder eA galáxia da internet. O essencial é que agora todo o planeta está conectado. Existem sete bilhões de números de telefones celulares no mundo e 50% da população adulta do planeta tem um smartphone. O percentual será de 75% em 2020. Consequentemente, a rede é uma realidade generalizada para a vida cotidiana, as empresas, o trabalho, a cultura, a política e os meios de comunicação. Entramos plenamente numa sociedade digital (não o futuro, mas o presente) e teremos que reexaminar tudo o que sabíamos sobre a sociedade industrial, porque estamos em outro contexto.


Um dos maiores desafios que se apresentam para os governos, a sociedade global de modo geral e os atores sociais interessados na garantia dos direitos humanos são as células de intolerância que se multiplicam e se aparelharam economicamente e belicamente em diversas partes do planeta. Há, em sua avaliação, alguma estratégia em curto prazo, em se tratando de discursos morais tão distintos em cena, passível de ser usada no enfrentamento à intolerância e ao fundamentalismo? Se sim, qual? Se não, como os governantes de diversos países do mundo podem agir, se não para eliminar, mas para reduzir os tentáculos dos grupos terroristas em seus territórios e fronteiras?


Manuel Castells - Não se pode vencer o fanatismo apenas com a ação policial e militar. A violência alimenta a violência. Essa onda de terror foi provocada pelo ocidente invadindo, sem razão, Iraque e Afeganistão, em vez de fazer como Obama fez, posteriormente: liquidar Bin Laden e os responsáveis pelo bárbaro atentado cometido contra Nova Iorque. Na Europa, as minorias muçulmanas sofrem diariamente humilhação e discriminação, que é o que alimenta o Estado Islâmico. Os fundadores do Estado Islâmico se radicalizaram nos cárceres estadunidenses no Iraque. E Israel continua negando aos palestinos o direito de um Estado próprio. O Ocidente não poderá conter um milhão e quinhentos de muçulmanos raivosos com ações policiais. Porém, o fanatismo religioso se acentua por outras razões, porque também se dá entre Sunitas e Xiitas, de forma cada vez mais atroz. Deter esse horror requer diálogo inter-religioso e um compromisso da ONU, com o apoio de todos os poderes para ir eliminando as guerras religiosas como forma de autodestruição da humanidade.


Qual a contribuição, em sua avaliação, das conexões em rede para o fortalecimento da democracia? As manifestações convocadas pelas redes sociais e com ampla reverberação nesses espaços virtuais seriam a tradução das manifestações do passado apenas organizadas a partir de novas estratégias para chamar aliados ou representam um novo modo de participação política e social? Em que elas se diferenciam, ou seja, as de antes e as de agora?


Manuel Castells - Como disse, os movimentos em rede são de um novo tipo e se formam a partir de ideologias diferentes e com diferentes motivações. São um sintoma da crise da democracia representativa atual, dominada por partidos a serviço deles mesmos e não dos cidadãos, eleições controladas por dinheiro e meios de comunicação, corrupção sistêmica de todos os partidos políticos e em quase todos os países. Se houvesse vontade de participação política e democrática por parte das elites, a comunicação em rede oferece enormes possibilidade de incrementar a participação cidadã ao invés de reduzir a democracia a um voto midiatizado a cada quatro anos. E como há canais institucionais, a sociedade se expressa através de suas formas autônomas de debate, organização e manifestação, online e nas ruas. Nesse sentido, a comunicação em rede está revitalizando a democracia mediante a crítica aos partidos burocratizados e aos políticos corruptos.


O século XXI configura-se como o século das grandes metrópoles e dos desafios econômicos representados pela complexidade que é garantir a subsistência, a mobilidade, a convivência e a sustentabilidade do meio ambiente de milhões de pessoas habitando os mesmos espaços e com necessidades tão similares. Como o urbanismo contemporâneo pode se beneficiar das novas tecnologias para tornar a vida nas cidades mais humana, evitando a divisão em castas de classes sociais que não se toleram e são apenas obrigadas a dividir os menos espaços, permeado de intolerância, ódio social e racial e preconceitos?


Manuel Castells - A tecnologia em si pouco pode fazer, se a utilizam para acentuar a dominação política e a exploração comercial das pessoas. Os urbanistas sabem utilizar o potencial tecnológico atual para melhorar transporte, qualidade de vida, saúde, educação, meio ambiente. Mas as empresas só se ocupam de suas ganâncias e os políticos se dedicam prioritariamente a manter seu poder. Dessa forma, ainda que estejamos conectados, estamos cada vez mais desconectados do poder que delegamos e da riqueza que produzimos com nosso trabalho.


Até onde pode ir a galáxia da internet, tema de uma de suas obras mais importantes? Na escala de desenvolvimento tecnológico, no que a economia da web ainda pode transformar a vida das pessoas?


Manuel Castells - Não sou futurólogo, mas o mais importante é que todos nós já vivemos hibridamente em presença física e presença virtual na rede. Em um mundo assim, a educação é decisiva para aproveitar as imensas oportunidades que a conexão permanente e o acesso a bases de dados oferecem. Isso pode se aplicar a todos os âmbitos da economia e da vida cotidiana. Mas essa mesma educação tem que mudar, isso é o mais importante, pelo fato de a educação ser, talvez, a instituição mais atrasada e conservadora em todos os países. Não se trata de educar só pela internet. Trata-se de uma educação que forme pessoas com capacidade mental autônoma de processar informação e aplicá-la a cada tarefa e projeto de vida.


Qual o futuro da política diante das novas tecnologias? Quais as principais alterações que a sociedade em rede e on line provocou nas estruturas políticas tradicionais?


Manuel Castells - As formas de controle tradicionais estão se dissolvendo, por isso o sistema político atual está em uma crise profunda de legitimidade e representatividade, no Brasil, na Espanha e em muitos outros países. Ao mesmo tempo, a vigilância eletrônica e o controle social mediante a tecnologia estão aumentando as capacidades do estado autoritário de utilizar a fundo a tecnologia para contrariar as mobilizações democráticas e a demanda de transparência, ou seja, para reforçar o domínio e limitar a democracia.

Nessas primeiras duas décadas do século XXI, qual o acontecimento que o senhor apontaria como a principal marca dessa nova sociedade, descrita em seus livros como a sociedade em rede da era da informação?


Manuel Castells - Precisamente, eu diria que se construiu por completo a estrutura social que eu conceituei como sociedade global em rede e que, ainda que de forma desigual, estendeu sua lógica pelo conjunto do planeta. Não substituiu o capitalismo, que está mais onipresente do que nunca, mas constitui a trama social e tecnológica em que vivemos, em todas as dimensões e em todas as práticas. Por isso eu não falei da sociedade da informação, e sim de sociedade em rede, uma nova estrutura social cujo funcionamento depende de tecnologias digitais de informação e comunicação.


Como pesquisador e com um olhar distanciado de um analista social, qual a visão que o senhor tem hoje do Brasil, imerso em um momento político e econômico delicado?


Manuel Castells - Acho que o modelo colaborador, extrator e exportador para novos mercados se esgotou. O sistema político está esgotado: os cidadãos querem democracia, mas não essa. A corrupção política e policial chegou a um extremo intolerável. E as elites são cada vez mais cínicas e egoístas. Como a rua está mobilizada e é autônoma em sua comunicação e organização, é bem possível que o Brasil entre em uma situação altamente conflituosa. Nessas condições, seria essencial a construção de uma liderança ética, mais que política.

por Malu Fontes/Correio da Bahia

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

América Latina e Caribe podem descarbonizar economias

Declaração foi feita pela chefe da Cepal durante Fórum Internacional de Investimento, no Chile; Alicia Bárcena afirmou que países podem aproveitar investimentos estrangeiros para expandir PIB.
Alicia Bárcena. Foto: Cepal/Carlos Vera
Edgard Júnior, da Rádio ONU em Nova York.
A chefe da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, Cepal, Alicia Bárcena, afirmou que a região tem uma ótima oportunidade para "descarbonizar" suas economias.
Bárcena fez a declaração durante o Fórum Internacional de Investimento, realizado no Chile.
PIB
Segundo a secretária-executiva da Comissão, os países devem aproveitar os investimentos estrangeiros para reduzir a quantidade de carbono produzida por suas economias.
Ela declarou que isso permitirá que essas nações possam expandir o produto interno bruto, PIB e reduzir os impactos do desenvolvimento sobre o meio ambiente.
No discurso, Bárcena analisou as mudanças globais, desde a reorganização da economia mundial em blocos comerciais até a ameaça do clima passando pela revolução tecnológica e a transição demográfica, especificamente, a urbanização.
Recuperação
Os últimos dados divulgados pela Cepal mostram que a economia da região registrou uma retração de 0,4% em 2015. Para esse ano, a agência prevê uma recuperação, com um leve crescimento de 0,2%.
Além disso, as exportações regionais caíram 14% no ano passado e o investimento estrangeiro direto teve uma queda de 21% somente nos primeiros seis meses de 2015.
Bárcena afirmou que os países da região precisam de entradas de divisas líquidas, criação de emprego direto e indireto e equilíbrio entre as estratégias do setor privado e os objetivos de desenvolvimento nacionais.
A chefe da Cepal falou ainda sobre a importância de os países da América Latina e do Caribe de potencializarem o comércio intra-regional e a integração das cadeias de valor.
Ela deu como exemplo a agroindústria, produtos de metais e energia renovável no comércio entre a América Central e o México. No caso da América do Sul, Bárcena citou a indústria química e também a agroindústria e os produtos de metais.

Vai a China afundar o mundo?


por Michael Roberts

Os mercados de ações do mundo estão em espiral negativa. O mercado de ações dos EUA caiu 10% no último mês, um número que é chamado de uma "correção" na terminologia dos investidores. Isso ainda não é um acidente ou "bear market", normalmente medido como uma queda de 20%. Mas está indo nesta direção.
Os mercados de ações estão mergulhando, pois parece que os grandes investidores, bancos e instituições financeiras a nível mundial, estão preocupados que a China está a implodir e planejamento para desvalorizar sua moeda imensamente, assim dirigindo para baixo o resto das economias emergentes, muitas das quais já estão em recessão (Brasil , Rússia, África do Sul etc) e assim vai puxar para baixo o resto do mundo, as principais economias avançadas, em uma recessão global.
Os economistas de muitos bancos de investimento, anteriormente confiantes de recuperação econômica e louvando o "milagre" do grande mercado emergente, estão agora em um desalento de desespero. Por exemplo, os analistas do banco do Reino Unido, o Royal Bank of Scotland (RBS) disse que os clientes "vendem tudo", como os mercados de ações poderiam cair mais de um quinto, enquanto o petróleo e outras commodities podem cair para um décimo de onde eles estavam apenas um ano atrás. RBS tem notado um "cocktail desagradável 'de deflação nos preços das commodities, as economias em emergentes em recessão, a fuga de capitais por parte dos investidores e cidadãos ricos da China e de outras economias emergentes e a perspectiva de maiores custos de serviço da dívida em dólar na medida em que a Reserva Federal dos EUA realizou um planejado aumento em sua taxa política de juros este ano.
Eu levantei a perspectiva de uma crise dos mercados emergentes, há dois anos e, em seguida, novamente no verão passado e o risco de que aumentos do Fed poderiam induzir uma nova recessão econômica global. Agora a economia ortodoxa travou sobre e está aconselhando seus clientes (investidores ricos) para sair do mercado. Mas o otimismo exagerado tem oscilado para o seu oposto. É um colapso econômico e financeiro mundial realmente iminente?
A maior parte do concentrado pessimimo em que vêem o núcleo de uma crise global: a China. O RBS afirma que "a China desencadeou uma correção maior e vai criar uma bola de neve... o epicentro do estresse global é a China, onde a expansão orientada por dívida atingiu a saturação. O país agora enfrenta uma onda de fuga de capitais e precisa de uma moeda "drasticamente menor". "Albert Edwards em Societe Generale vem prevendo uma recessão deflacionária nos últimos cinco anos de recuperação econômica global. Agora, ele está convencido de que a crise chinesa vai levar para uma recessão global. "O setor de manufatura ocidental vai engasgar sob este torniquete deflacionário importado", diz Edwards.
Mas isso é certo? Não há dúvida de que a economia chinesa está em apuros. O crescimento econômico abrandou de crescimento de dois dígitos de volta em 2010-11 para menos de 7% nas estimativas oficiais em 2015. Muitos calculam que este número oficial é um absurdo e, olhando para o ritmo de consumo de energia elétrica e os gastos, o crescimento econômico é provavelmente mais como 4%, o que em termos chineses é quase uma recessão.
Quando a Grande Recessão estourou, o governo chinês reagiu a um sério declínio na demanda global por suas exportações ao lançar um grande programa de gastos do governo para construir pontes, cidades, estradas e ferrovias. Isso manteve a economia chinesa crescendo. As taxas de juros foram reduzidas e as autoridades locais foram autorizadas a contrair empréstimos para gastar em habitação e outros projetos. Houve um grande boom de crédito. Como resultado, a dívida não financeira chinesa subiu de cerca de 100 por cento para cerca de 250 por cento do PIB. O total de Financiamento social, uma ampla medida de criação de crédito mensal, agora está crescendo em quase três vezes a taxa de crescimento do PIB de dinheiro oficialmente registrado, ou mais, se você não acredita nos dados oficiais do PIB.
O governo foi influenciado por economistas pró-capitalistas em suas fileiras que têm continuamente argumentando que o governo deve "abrir" a economia ao capital estrangeiro e empresas privadas. O governo deveria privatizar as grandes empresas e bancos estatais, controles de capital final e permitir que o yuan chinês se torne uma moeda livremente flutuante, argumentou-se. Na verdade, pouco antes de o mercado de ações e a queda do valor da moeda chineses começar, o governo empurrou e obteve que o yuan fosse incluído na cesta de moeda de reserva internacional do FMI para o chamado SDR. Com efeito, a moeda chinesa era agora cada vez mais sujeita às leis dos mercados cambiais internacionais e a economia estava cada vez mais influenciada pela lei do valor.
Mais da dívida, o crescimento mais lento e uma moeda sobrevalorizada, agora sujeita à especulação, engendrou um crash do mercado de ações e agora ricos investidores chineses e estrangeiros estão a tentar obter seu dinheiro fora da China ou o yuan e convertê-lo em dólares no exterior. A fuga de capitais, como é chamado, está sendo executada em mais de US $ 100 bilhões por mês, ou cerca de US $ 1.2trn ao ano. Dado que as reservas em dólares chinesas são cerca de US $ 3.3trn e ao redor é necessário metade disso para cobrir as importações, se a fuga de capitais continuar no ritmo atual, as reservas em dólares chinesas serão esgotadas em cerca de 18 meses.
China FX
As autoridades chinesas têm sido incapazes de lidar com esta crise financeira. Ao abrir sua economia para a moeda e especulação financeira, eles criaram um Frankenstein que agora está tentando matá-los. Primeiro, eles tentaram enfraquecer o yuan frente ao dólar para impulsionar as exportações. Mas uma moeda mais fraca somente incentivou ricas empresas chinesas e chineses para mudar ainda mais em dólares, por métodos legais e ilegais. Em seguida, eles tentaram sustentar o mercado de ações com crédito extra e fazendo os bancos estatais comprar ações. Mas isso só alimentou ainda mais a dívida. Em seguida, eles inverteram estas políticas, causando um crash do mercado de ações e aperto de crédito.
China yuan
A incompetência aparente das autoridades chinesas e a fuga de capitais continuada já convenceu muitos economistas capitalistas ocidentais que a China vai sofrer uma "aterragem dura" ou crise econômica, de estilo capitalista, e isso vai adicionar ao já mergulho economias emergentes e conduzir o mundo à queda.
Mas será que um colapso no mercado acionário chinês e a queda no valor do yuan significa uma recessão econômica na China? A China não é uma economia capitalista 'normal'. O poder do Estado continua a ser dominante na indústria, no setor financeiro e no investimento. Sim, as autoridades chinesas abriram a economia para as forças do valor capitalista, em particular dos fluxos de comércio e de capitais, e ao fazê-lo fizeram da China muito mais vulnerável a crises. Isso é algo que eu previ em 2012: "se a estrada capitalista é adotada e a lei do valor torna-se dominante, ele vai expor o povo chinês à instabilidade econômica crônica (booms e recessões), a insegurança de emprego e renda e maiores desigualdades. "E este tem sido o resultado de líderes chineses sucumbirem às pressões do Banco Mundial e outros para" liberalizar "o setor financeiro e tornar-se parte da" comunidade "internacional financeira.
Sim, o mundo está a abrandar. A Grande Depressão, como a descrevi, ainda está em funcionamento. Só na semana passada, o Banco Mundial apontou que as economias em desenvolvimento cresceram apenas 3,7 por cento em 2015, o mais lento desde 2001 e dois pontos percentuais abaixo da média de 6,3 por cento de crescimento durante os anos de boom entre 2000 e 2008. E a chefe do FMI, Christine Lagarde, falou que os países em desenvolvimento enfrentam "nova realidade" de menor crescimento. "As taxas de crescimento são para baixo, e as forças conjunturais e estruturais têm minado o paradigma de crescimento tradicional. Nas atuais expectativas, o mundo emergente irá convergir para os níveis de renda da economia avançada a menos de dois terços o ritmo que havia previsto há apenas uma década. Isso é motivo de preocupação. "Uma desaceleração de 1 por cento nos mercados emergentes causaria crescimento já fraco nos países avançados para diminuir em cerca de 0,2 pontos percentuais, disse Lagarde.
IP global
Mas será que a desaceleração na China e as quedas nas principais economias emergentes derrubarão o mundo? O argumento para que isso aconteça é baseado, em parte, na alegação de que as economias emergentes são agora os motores da economia mundial. As economias emergentes são 57% do PIB mundial e superaram as economias capitalistas avançadas, de acordo com dados do FMI. Mas este é um exagero, porque o FMI usa o que é chamado de uma medida de paridade do poder de compra (PPP). Este mede o que se pode gastar ou investir em moeda local em qualquer país. Que exagera a produção nacional de economias emergentes em comparação com a medição do PIB em dólares, como é necessário no comércio mundial e nos investimentos.
Em dólares, as economias emergentes têm apenas 40% do PIB mundial. Claro, que a participação duplicou desde 2002, mas ainda é o caso que apenas as sete principais economias capitalistas têm uma parcela maior do que todas as economias emergentes, com 46%. E nos últimos dois anos, essa participação tenha se estabilizado. Enquanto que a percentagem do PIB chinês no PIB mundial em dólares  disparou de apenas 4% em 2002 para 15% agora, ainda é muito menor do que a parcela do PIB mundial para os EUA. Que caiu de 32% em 2002 para 24% agora.
As percentagens do PIB mundial
Estes números mostram a enorme expansão da economia chinesa. Mas eles também mostram que os EUA continuam a economia de equilíbrio de uma crise capitalista global, particularmente no que domina nos setores financeiros e de tecnologia. Em 1998, as economias emergentes tiveram uma grave crise econômica e financeira, mas não levou a uma queda global. Em 2008, os EUA tinham uma maior queda na sua história econômica do pós-guerra e isso levou a uma recessão global, a Grande Recessão. Em minha opinião, esta ponderação ainda se aplica.
Eu discuti as perspectivas de uma nova recessão econômica dos EUA em vários posts anteriores. O que importa não é o nível das taxas de juro, se elas são muito altas ou muito baixas em relação a algum 'taxa natural de equilíbrio de interesses "que os principais economistas estão agora discutindo sobre (mais sobre isso em um post futuro), mas o que está acontecendo aos lucros e investimentos corporativos. Unidades de investimento emprego e os rendimentos e o crescimento econômico.
Eu tenho apresentado evidências de minha pesquisa e de outros que a rentabilidade do capital e os lucros corporativos geralmente levam o investimento empresarial com uma defasagem de 12-18 meses, para cima e para baixo. Os lucros das empresas (uma média ponderada global atualmente nos EUA, Reino Unido, Alemanha, Japão e China) tem se tornado negativo e os lucros corporativos na América estão agora também em queda (numa base anual). Isso sugere que o investimento empresarial, que foi se expandindo a uma taxa de cerca de 5% nos EUA, vai começar a cair também dentro de um ano. Se isso acontecer, então os EUA provavelmente vai entrar em recessão. Mas não será a China ou as economias emergentes, que serão decisivas.
Lucros corporativos globais

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Pirâmide da ‘Solidão’ no Brasil e na América Latina

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves


Pirâmide da 'Solidão' no Brasil e na América Latina

Um fato universalmente identificado na demografia é o desequilíbrio na razão de sexo ao nascer. Em todos os países nascem mais homens do que mulheres. Na média mundial, a razão de sexo ao nascer varia entre 3% e 5% a favor dos homens. Números muito acima desta média, podem indicar alguma forma de preferência pelos filhos do sexo masculino ou a prática de “femicído” ou “fetocídio”, como ocorre na China.
A razão de sexo ao nascer na América Latina e Caribe (ALC) é de 1,05 crianças do sexo masculino para cada 1 criança do sexo feminino. Contudo, a razão de sexo vai se invertendo com o avançar das idades. Existem em alguns países da região uma enorme sobremortalidade masculina nas idades jovens em decorrência, principalmente, dos homicídios e dos acidentes de trânsito. O Brasil e, especialmente, El Salvador são países com alta incidência de sobremortalidade masculina de jovens. Juntando-se a isto a sobremortalidade masculina por causas “naturais” no topo da distribuição de sexo e idade da população, percebemos que a ALC apresenta um grande excedente de mulheres na parte superior da estrutura de idades.
Na China há muitos mais homens do que mulheres na população total e o sexo masculino predomina em todos os grupos etários até 69 anos. As mulheres são maioria somente nos grupos acima de 70 anos. Na média da América Latina e Caribe as mulheres superam os homens após os 50 anos. No Brasil as mulheres superam os homens a partir dos 25 anos. Porém, o país com maior superávit feminino é El Salvador que tem taxas de mortalidade masculina muito altas em decorrência da violência e dos homicídios. Reduzir a sobremortalidade masculina jovem é fundamental para diminuir o desequilíbrio de sexos na pirâmide etária.
Contudo, todos os países possuem um superávit de mulheres nas partes altas da pirâmide populacional. A especificidade da América Latina é que o superávit feminino ocorre precocemente nos grupos etários. Quanto menor é a razão de sexo, maior é a proporção de mulheres idosas morando sozinhas nos domicílios particulares. Na literatura demográfica, especialmente a partir dos estudos da doutora Elza Berquó, esse fenômeno foi denominado de “pirâmide da solidão”, indicando a existência de um crescente número de mulheres idosas sem cônjuges no topo da estrutura etária.
Lendo os trabalhos de Berquó e trabalhando com a ideia de “capital marital”, a antropóloga Mirian Goldenberg disse: “Pela primeira vez percebi que a frase tão exaustivamente repetida pelas brasileiras – ‘falta homem no mercado’ – é uma realidade demográfica bastante cruel, sobretudo para as mulheres mais velhas”.
De fato, o excedente feminino cresce nos grupos etários da parte superior da pirâmide. Todavia, a atuação requerida da sociedade brasileira e latino-americana é no sentido de reduzir a sobremortalidade masculina em idades jovens, o que ajudaria a diminuir os desequilíbrios no “mercado matrimonial”. Há também o questionamento da necessidade de um par conjugal, como o exigido no modelo de família tradicional.
Mulheres sem cônjuge no século XXI constitui um fenômeno muito diferente daquele formado pelas chamadas “solteironas” ou “titias” do passado. Mulher morando sozinha não é sinônimo de pessoa solitária. Domicílios unipessoais femininos não devem ser vistos como uma anomalia social. Em qualquer situação, há sempre a possibilidade de se fortalecer o “capital pessoal” e o “capital social”, independentemente do grupo etário e da quantidade de pessoas existentes nas moradias particulares. Vidas no singular podem ser vividas, para além do espaço domiciliar, de maneira positiva e feliz.
Referências:
BERQUÓ, Elza. Pirâmide da solidão. Campinas: Núcleo de Estudos de População/UNICAMP, 1986. (Mimeo)
GOLDENBERG, Mirian. Por que somos infiéis? Inteligência. Out/dez 2010
ALVES, JED, CAVENAGHI, S. Família brasileira: plural, complexa e diversa, IHU, 2012

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 13/01/2016

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Número de migrantes internacionais chegou a 244 milhões

Relatório da ONU sobre Tendências de Migração Internacional mostrou que houve um aumento de mais de 40% em relação ao ano 2000; quase dois terços deles estão na Europa e Ásia.
Número de migrantes aumentou em 2015. Foto: Acnur/Olivier Laban-Mattei
Edgard Júnior, da Rádio ONU em Nova York.
A ONU afirmou que o número de migrantes internacionais, que são pessoas que vivem em um país diferente de onde nasceram, atingiu 244 milhões em 2015.
O vice-secretário-geral das Nações Unidas, Jan Eliasson, participou, esta terça-feira, do lançamento do relatório sobre Tendências de Migração Internacional preparado pelo Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais, Desa.
Eliasson disse a jornalistas na sede da ONU que "o número de migrantes internacionais no mundo continua aumentando. Em 2000 foram 173 milhões, em 2010 foram 222 milhões e no ano passado 244 milhões
O relatório mostra que houve um aumento de 41% em relação ao ano 2000. Dois terços do total vivem na Europa e na Ásia, com 76 milhões e 75 milhões respectivamente. A América do Norte abriga 54 milhões de migrantes internacionais seguida pela África, América Latina e o Caribe e a Oceania.
Detalhes
O documento tenta mostrar não só os movimentos migratórios mas também dar detalhes sobre as pessoas que deixam seus países de origem para viver em outras nações.
O relatório mostrou que o país que abriga mais migrantes internacionais é o Estados Unidos, com 47 milhões, seguido pela Alemanha, Rússia, Arábia Saudita, Reino Unido e os Emirados Árabes.
Segundo o Desa, a Ásia é o continente de onde saíram a maioria dos migrantes internacionais, 104 milhões, seguida pela Europa, América Latina e Caribe, América do Norte e Oceania.
Indianos
O relatório mostra ainda que os indianos são os que mais migraram para outros países no ano passado. Foram, no total, 16 milhões, seguidos pelos mexicanos, com 12 milhões, russo com 11 milhões e chineses com 10 milhões.
Os homens representam 52% dos migrantes internacionais e as mulheres 48%. A maioria nasceu na Ásia. A idade média desse grupo é de 39 anos e 15% do total tem menos de 20 anos.
Brasil
No caso do Brasil, o relatório calcula que o país abrigue 713 mil migrantes internacionais, um pouco mais do que os 684 mil registrados no ano 2000. Isso representa apenas 0,3% da população brasileira.
Mais de 90% dos que chegam ao Brasil estão em dois grupos de idade, de zero a 19 e de 20 até 64 anos. A média de idade do primeiro grupo é de 14 anos e a do segundo de 52.
Em comparação, a Argentina abriga mais de 2 milhões de migrantes internacionais e a Venezuela 1,4 milhão. O México abriga um pouco menos, 1,1 milhão.
Entre os países lusófonos, Portugal lidera a lista com 837 mil, mais do que o Brasil, seguido por Moçambique com 222 mil migrantes internacionais, Angola 106 mil, depois Guiné-Bissau 22,3 mil, Cabo Verde 14,9 mil, Timor Leste 10,8 mil, São Tomé e Príncipe 2,4 mil.

O índice Big Mac e a contradição das desvalorizações competitivas


por Marco Antonio Moreno
Este fim de semana a revista The Economist publicou o seu habitual Índice Big Mac, um indicador que se tornou um oráculo para alguns economistas porque permite comparar em termos simples, o poder de compra em diferentes países. Este indicador foi desenvolvido pela primeira vez em 1986 e usa o preço de um Big Mac do McDonald (expresso em dólares norte-americanos) em países ao redor do mundo para medir o poder de compra dos consumidores e tornar a teoria da taxa de câmbio um pouco mais digerível .
O Índice Big Mac é baseado na teoria da paridade do poder aquisitivo, segundo a qual a taxa de câmbio deve ser igual ao preço de um cesta de bens em diferentes países. Este índice, em vez de cestas de alimentos, tomar o hambúrguer produzido pelo McDonalds em todos os lugares. Segundo a medição de janeiro deste ano, a Suíça tem o mais caro Big Mac no mundo, com $ 6,44, enquanto a Venezuela tem o mais barato a US $ 0,66. 

O custo do Big Mac nos EUA é $ 4,93 . Se na conversão da moeda local em dólares o preço estiver abaixo deste nível, então a moeda está desvalorizada. Como resultado, em janeiro de 2016, a Suíça, a Suécia e a Noruega têm o Big Mac "mais caro" do que nos Estados Unidos. A maioria das moedas são subvalorizadas em relação ao dólar e o Big Mac é "mais barato" (em dólares americanos) nos outros países da lista. De acordo com The Economist isso é devido à decisão do Federal Reserve de elevar os juros em dezembro passado, enquanto os bancos centrais do Japão e da zona do euro continuam a enfraquecer suas moedas com uma política monetária frouxa. A decisão do Fed reforçou o dólar e o euro está desvalorizado em 19% em relação ao dólar, enquanto o iene está subvalorizado em 37%.


Um fator a se considerar no enfraquecimento das moedas é o contínuo declínio dos preços das commodities desde meados de 2014. A redução na demanda da China e o excesso de oferta de commodities têm reduzido drasticamente o valor das exportações da Austrália, do Brasil e do Canadá, entre outros países, fazendo com que suas moedas se enfraqueçam. Isto mergulhou o valor de suas moedas em 24%, 32% e 16%, respectivamente, provocando preços mais elevados para as importações e estimulando a inflação. Em teoria, o aumento do custo das importações deveria incentivar os consumidores a mudar para produtos nacionais e incentivar a produção local. Ao mesmo tempo, uma moeda enfraquecida como resultado de desvalorizações competitivas deve impulsionar as exportações.

No entanto, a profunda desvalorização dos últimos quatro anos, superior a 10 por cento, em média, somente têm aumentado as exportações em apenas 1,5 por cento no longo prazo. E a maior parte da melhoria foi produzida no primeiro ano.

Este ponto fornece um fato fundamental: as desvalorizações atuais não levaram a um aumento das exportações. Por exemplo, o Big Mac no Japão em 2013 foi 20% mais barato do que nos Estados Unidos e agora está 37% mais barato, o que mostra a depreciação do iene. No entanto, o volume de exportações japonesas não mudou e permanece o mesmo, apesar da queda da moeda. O FMI reconhece que as exportações japonesas será de cerca de 20% menos do que o que seria esperado com a queda do iene. A desvalorização em outros países, incluindo a África do Sul e a Turquia, também se mostrou decepcionante.

A contração mundial do comércio em termos de dólares está a destruir todas as vantagens das desvalorizações competitivas. Na crise atual a debilidade das moedas não implica uma oportunidade para aumentar as suas exportações. Em outras palavras, o conceito de desvalorizações competitivas está obsoleto.
Isso ocorre porque o declínio do comércio mundial simplesmente é mais forte e não importa o quão baixo os preços estejam. Um exemplo é o petróleo: é o menor preço dos últimos 12 anos, mas sua demanda, como a maioria das commodities, não decola. A estagnação econômica e o declínio no comércio mundial está apagando noções econômicas que pareciam firmemente enraizadas. Agora vemos que não têm aderência.
A crise atual nos faz questionar 250 anos de uma teoria econômica errônea. Agora vemos que a demanda e a oferta podem correr por caminhos diferentes. As duas lâminas da tesoura de Alfred Marshall poderim nunca  se encontrar.