"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

UMBERTO ECO FALECEU E A LITERATURA FICOU MAIS POBRE

O autor de "O Nome da Rosa", morreu ontem (19) aos 84 anos, em sua casa em Milão. Pensador, filósofo, ensaísta, romancista e crítico literário e figura de renome no meio acadêmico e referência em semiótica, Umberto Eco ganhou sucesso internacional com o romance "O Nome da Rosa", obra adaptada para o cinema em 1986 pelo diretor Jean-Jacques Annaud, com Sean Connery no papel principal. No enredo, ambientado em 1327, um monge franciscano tem a missão de descobrir as misteriosas mortes de sete monges em sete dias.
Ele nasceu em Alexandria, na Itália, no dia 5 de janeiro de 1932. Em 1988, fundou o Departamento de Comunicação da Universidade de San Marino. Desde 2008 era professor emérito e presidente da Escola Superior de Estudos Humanísticos da Universidade de Bolonha.
Formou-se em filosofia em 1954, na Universidade de Turim, defendendo uma tese sobre a estética de São Tomás de Aquino. Em 1956, Eco publicou seu primeiro livro, uma extensão de sua tese intitulada "O problema estético em São Tomás de Aquino".
Um dos semiólogos e intelectuais europeus mais importantes deste século, ele também escreveu obras como "O Pêndulo de Foucault" (1988) e "O Cemitério de Praga" (2010), além de ensaios "O Problema Estético" (1956), "O Sinal" (1973), "Tratado Geral de Semiótica" (1975) e "Apocalípticos e Integrados" (1964), referência nos cursos de comunicação em todo o mundo.
Crítico do papel das novas tecnologias no processo de disseminação de informação, Eco disse, em julho do ano passado, que as redes sociais dão o direito à palavra a uma "legião de imbecis" que antes falavam apenas "em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade". "Normalmente, eles [os imbecis] eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel", disse o intelectual durante um evento em que recebeu o título de doutor honoris causa em comunicação e cultura na Universidade de Turim, norte da Itália.
Em uma de suas últimas colunas publicada pelo UOL, em janeiro deste ano, Eco fala de sua visão sobre a humanidade. "Na medida em que envelheci, comecei a odiar a humanidade. Portanto, se eu tivesse um poder absoluto, deixaria que ela continuasse em seu caminho de autodestruição. Ela seria destruída e eu ficaria mais feliz. Pessoas como eu são intelectuais: nós fazemos o nosso trabalho, escrevemos artigos, temos maneiras de protestar, mas não podemos mudar o mundo. Tudo o que podemos fazer é apoiar a política de empatia", escreveu ele.
Aqui, indico cinco obras para se conhecer melhor o trabalho do italiano:
“O Nome da Rosa” – livro mais famoso de Eco, narra uma história que se passa em 1327 em um mosteiro franciscano na Itália. Um frei é enviado ao lugar para apurar supostos pecados cometidos por alguns monges. No entanto, uma série de misteriosos assassinatos leva o investigador a uma trama cheia de reviravoltas, marcada pelo mistério e pelo herege erotismo.
“O Pêndulo de Foucault” – dentre as obras de ficção, é a segunda mais conhecida de Eco. Publicada em 1988, segue fórmula semelhante àquela adotada em “O Nome da Rosa”. Na década de 1980, profissionais de uma editora encontram pistas de que, em 1312, haveria acontecido uma fraude na Ordem dos Templários que traria consequências até a realidade do século 20.
“Apocalípticos e Integrados” – Uma das principais características de Eco foi saber integrar o saber acadêmico com o universo pop. Neste livro de 1965 está presente “O Mito do Super-Homem”, ensaio no qual o autor equipara as histórias em quadrinhos com outras artes até então consagradas. O texto foi largamente reproduzido, integralmente ou parcialmente, em diversos artigos que enaltecem as HQs.
“Não Contem com o Fim do Livro” – outro traço fundamental na biografia de Eco é o amor aos livros. Aqui, em parceria com o francês Jean Claude-Carrière, outro célebre bibliófilo, o italiano recorre à história das publicações impressas para garantir em uma série de ensaios que, independente das inovações tecnológicas, os calhamaços feitos de papel não deixarão de existir.
“Número Zero” – lançado em 2015, é a última obra de ficção de Umberto Eco. Mesmo sendo um texto aquém de trabalhos anteriores – o próprio “O Nome da Rosa”, por exemplo -, a leitura é válida por abordar temas inerentes à sociedade atual, como a parcialidade da mídia e questões relacionadas ao poder político e aos interesses da sociedade.
Seu último livro, "Numero Zero", foi lançado no ano passado e critica o mau jornalismo, a mentira e a manipulação da história. Uma paródia sobre tempos convulsos, porque "essa é a função crítica do intelectual". "Essa é minha maneira de contribuir para esclarecer algumas coisas. O intelectual não pode fazer nada, não pode fazer a revolução. As revoluções feitas por intelectuais são sempre muito perigosas", explicou o autor na época à agência de notícias EFE.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Investimento, investimento, investimento

por Michael Roberts

Este blog martela continuamente a opinião de que se trata de investimento e não de consumo, a chave para o crescimento econômico. A s flutuações nos investimentos das empresas em uma economia predominantemente empresarial, com fins lucrativos decidem, em primeira análise, se a saída expande ou contrai; se existe um boom ou recessão. Esta visão é contrária à economia keynesiana, que embora pareça reconhecer que o investimento desempenha um papel importante, vê o investimento e gastos de consumo (demanda doméstica) como a condução de emprego, a produção e os rendimentos e os lucros - nessa ordem - e não vice-versa.
E os economistas keynesianos, muitas vezes esquecem o papel do investimento e falam como se tudo o que importa sejam os gastos de consumo. Este é também o ponto de vista da economia neoclássica, quando considera as grandes questões macro de crescimento ou queda (que eles raramente fazem). O consumidor é rei (ou rainha) e, uma vez que é o maior componente da produção ou despesa nacional, então ele decide.
No entanto, ser a maior componente da despesa nacional não faz do consumo o «fiel de balança' no crescimento. Isso é o investimento, em particular, o investimento empresarial.
Isso é algo que economistas socialistas esquecem também, com as honrosas exceções de Michael Burke no Reino Unido e John Ross com base na China. Ver últimos posts de Michael Burke e a última mensagem por John Ross, onde ele mostra a poderosa importância do investimento de capital (tanto no fixo e circulante capital constante) comparado a "inovação, design e gestão", como expresso no conceito nebuloso de "total dos fatores de produtividade'.
Também tenho mostrado empiricamente que o investimento (em especial o investimento empresarial), que é o fator de oscilação. Em todos as recessões econômicas norte-americanas desde 1945, foi o investimento que caiu um ano antes da queda no PIB começar, enquanto que em quase todos as recessões, os gastos de consumo continua (nas poucas exceções em que houve uma queda no consumo antes de uma recessão, era pequeno).
consumo dos EUA e do investimento
Em um recente artigo no Bloomberg, o lblogger keynesiana líder, Noah Smith, de repente notou o papel do investimento. Como ele diz: "Os Estados Unidos parece estar fora de ideias para o crescimento econômico. O principal argumento parece ser sobre a redistribuição - as taxas de imposto, o tamanho do estado de bem-estar, Universidade gratuita. O protecionismo também está fazendo um retorno; Bernie Sanders iria restringir o comércio e punir Wall Street, enquanto os candidatos republicanos iriam travar a imigração. Estes são principalmente os debates sobre o tamanho do bolo. Mas o que resta sobre o seu cultivo? "De fato, a concentração de economistas de todos os matizes, mainstreans e heterodoxos, tem sido a financeirização, as desigualdades de renda e riqueza e sobre" austeridade", e não sobre os motores do crescimento econômico.
investimento das empresas dos EUA
Ele continua: "Então, o que mais há? Olhando em volta, vejo o brilho de uma ideia nova em formação. Estou provisoriamente chamando-a de "Novo industrialismo." Suas fontes são variadas - que incluem grupos de reflexão liberais, Silicon Valley, líderes de pensamento e vários economistas. Mas a ideia central é a de reformar o sistema financeiro e a política do governo para impulsionar o investimento empresarial". Ele conclui que "O investimento das empresas -. Compra de equipamentos, a construção de edifícios, treinamento de funcionários, fazer pesquisas, etc. - é a chave para o crescimento. É também o componente mais volátil da economia, o que significa que quando há booms de investimento, tudo é bom. "Exatamente!
Smith, em seguida, considera a questão de por que "o investimento líquido das empresas dos EUA tem estado mais ou menos em declínio durante décadas". Smith não tem certeza porquê. Ele apresenta uma série de razões possíveis: "Isso pode estar acontecendo porque os investidores não veem muito futuro para as empresas americanas, e estão escolhendo, assim, para sair, enquanto a oferta é boa. Por outro lado, isso poderia significar que os investidores estão simplesmente pensando no curto prazo e estão mais interessados ​​em ganhar dinheiro rápido do que em empurrar as empresas a maximizar o seu valor a longo prazo". Ele conclui que, talvez, os governos precisem de forçar as empresas" a investir "utilizando políticas regulatórias, financeiras e fiscais para empurrar as empresas para um maior investimento real".
O problema com esta conclusão é que ele não consegue chegar ao coração do porquê de crescimento do investimento empresarial dos EUA tem vindo a diminuir. Há uma clara evidência fornecida por agências internacionais como o BCE, os bancos de investimento como JP Morgan e Goldman Sachs e por novos estudos econômicos tradicionais que o principal fator por trás da rotação do investimento empresarial é a rentabilidade e os lucros.
Por exemplo, a Comissão Europeia num relatório recente observou que o investimento não-residencial (que exclui famílias que compram casas) em percentagem do PIB e a razão principal era "um nível reduzido de rentabilidade." O relatório da UE faz com que o ponto-chave das "medidas de lucros corporativos tendam a ser estreitamente correlacionadas com o crescimento do investimento" e apenas as empresas que não precisam de pedir emprestado e são ricas em dinheiro podem investir e até mesmo elas estão relutantes. A Comissão verificou que a rentabilidade da Europa "tem ficado abaixo dos níveis pré-crise."
Da mesma forma, o Banco de Pagamentos Internacionais (BIS), a associação dos banqueiros centrais (e dominado pela economia austríaca), acredita que "há incerteza quanto às perspectivas econômicas e espera que os lucros desempenhem um papel fundamental na condução de investimento, enquanto o efeito das condições de financiamento é aparentemente pequeno." O BIS descarta a ideia consenso de que a causa do baixo crescimento e fraco investimento é a falta de financiamento barato de bancos ou a falta de injeções de bancos centrais de crédito. Em vez disso, o BIS olha para o que ele chama de uma "explicação aparentemente mais plausível para o crescimento lento na formação de capital", ou seja, "a falta de oportunidades de investimento rentáveis." De acordo com o BIS, as empresas estão descobrindo que os retornos de expandir seu estoque de capital "não excederá o custo ajustado ao risco de capital ou dos retornos que podem obter a partir de ativos financeiros mais líquidos." Então eles não vão comprometer a maior parte de seus lucros para o investimento produtivo tangível. "Mesmo se eles estão relativamente confiantes sobre o futuro das condições de demanda, as empresas podem estar relutantes em investir, se eles acreditam que os retornos sobre o capital adicional será baixo." De fato.
Um estudo empírico recente de economistas do mainstream, Kothari, Lewellen e Warner encontraram uma correlação causal estreita entre o movimento do investimento nos negócios nos EUA (Capx no gráfico abaixo) e a rentabilidade do negócio (NI no gráfico). Como os leitores sabem por este blog e em outros trabalhos por economistas marxistas, a taxa das empresas não financeiras dos EUA de lucro caiu secularmente da década de 1950, atingindo uma baixa em meados da década de 1980 e, em seguida, consolidando ou subindo um pouco depois disso. Os autores principais encontram o mesmo.
Capex e NI
Eles também acham que o crescimento do investimento é altamente previsível, até 1 ano e meio de antecedência, usando os lucros passados ​​e retornos das ações, mas tem pouca ligação com as taxas de juro, spreads de crédito, ou volatilidade das ações. Na verdade, lucros e retornos das ações inundam o poder preditivo de outras variáveis ​​propostas por outros como Noah Smith. Os lucros mostram um padrão de ciclo de negócios claro e uma clara correlação com o investimento. Os dados mostram que o investimento cresce rapidamente após lucros elevados e retornos consistentes de valores com praticamente qualquer modelo de empresa de investimento, mas pode levar até um ano e meio para se ajustar plenamente. Eles concluem que "nós não encontramos nenhuma evidência de que as gotas de investimento na sequência de um aumento na incerteza agregada, ao contrário das previsões de muitos modelos com investimento irreversível".
Finalmente, os autores verificaram que "pelo menos três quartos da queda de investimento na Grande Recessão pode ser pensado como uma gota historicamente típica dado o comportamento dos lucros. Problemas nos mercados de crédito podem ter desempenhado um papel, mas o impacto sobre o investimento das empresas é, sem dúvida pequeno em relação a um declínio nas oportunidades de investimento."
Assim, todas as explicações alternativas de crises oferecidos por monetaristas, keynesianos e pós-keynesianos não têm qualquer apoio empírico. O marxista do investimento é o único que está sendo impulsionado pelo o que a rentabilidade faz. Isto sugere que é a rentabilidade do capital que é decisiva para a recuperação ou de outra forma a partir de uma recessão econômica ou depressão. Se for esse o caso, então, tentar regular ou empresas fiscais poderão reduzir o investimento, se ele afeta a rentabilidade. Isto sugere que não há como escapar da solução capitalista: a massiva desvalorização do valor do capital (tanto em meios de produção e força de trabalho), através de uma recessão econômica ou recessão.

A esquerda e a Nação: ambiguidades não resolvidas


por Immanuel Wallerstein

O termo "nação" teve muitos significados diferentes ao longo dos séculos. Mas nestes dias, e desde a Revolução Francesa, mais ou menos, o termo tem sido associado ao Estado, como o "estado-nação." Neste uso, "nação" se refere àqueles que são membros de direito da comunidade que está localizado dentro de um Estado.

Se aqueles que formam uma nação dão lugar à criação de um Estado ou um Estado cria a categoria de uma nação e assim os seus direitos dentro do Estado é um debate de longa data. Eu, pessoalmente, acredito que os Estados criam nações e não o inverso.

A questão, porém, é por que os Estados criam nações, e qual deve ser a atitude da "esquerda" para o conceito de nação. Para alguns da esquerda, o conceito de nação é o grande equalizador. É uma afirmação de que todos (ou quase todos) tem o direito de participação plena e igualitária na tomada de decisões do Estado, em oposição aos direitos de apenas uma minoria (por exemplo, a aristocracia) à participação plena. Hoje em dia, muitas vezes chamamos esta uma visão jacobina de nação.

Jacobinismo dá lugar à categoria de cidadão. São cidadãos por direito de nascença e não porque tenham uma determinada origem "étnica" ou uma determinada religião ou qualquer outra característica que lhes é atribuída, por iniciativa própria ou por outros. Os cidadãos têm a qualificação (a partir de uma certa idade). Cada cidadão tem direito a um voto. Todos os cidadãos são, portanto, iguais perante a lei.

De acordo com essa percepção da cidadania, é crucial considerar todos os cidadãos como indivíduos. É crucial suprimir a ideia de que há grupos que podem ser intermediários entre o indivíduo e o Estado. Na verdade, como uma visão ainda mais rígida de nação pode sugerir, é ilegítimo para a existência de tais outros grupos: todos os cidadãos devem utilizar a língua da nação e nenhuma outra; nenhum grupo religioso pode ter suas próprias instituições; não há costumes que não sejam os da nação e não podem ser celebrados.

Na prática, é claro, as pessoas são parte de muitos, muitos grupos que constantemente afirmam suas exigências de participação e lealdade por parte dos seus membros. Na prática, também, e muitas vezes sob o disfarce de um tratamento igual a todos os indivíduos, existem inúmeras maneiras em que a igualdade de direitos de todos os cidadãos podem ser abreviados.

A ideia de cidadania pode chegar a ser definida principalmente como o sufrágio. E há várias limitações no acesso ao sufrágio. A mais óbvia e numericamente importante é o sexo. O sufrágio era limitado por lei aos homens. Ele foi muitas vezes limitado pela renda, se requer uma renda mínima para votar. Ele foi muitas vezes limitado pela raça, pela religião ou pela forma como muitas gerações de ancestrais tinham sido residentes no Estado. O resultado líquido foi que o que foi originalmente concebido como um grande equalizador na verdade, não abraçava a todos ou mesmo a maioria das pessoas. Muitas vezes abraçou um pequeno grupo.

Para os jacobinos que pensavam em si como da esquerda, a solução era lutar para a expansão do sufrágio. E ao longo do tempo, esse esforço deu algumas frutos. O sufrágio, de fato, se estendeu a mais e mais pessoas. De alguma forma, no entanto, esta não alcançou o objetivo de tornar todos os cidadãos, todos os membros da nação, tivessem a igualdade no acesso aos supostos benefícios da cidadania - educação, serviços de saúde, o emprego.

Perante esta realidade das desigualdades contínuas, surgiu uma visão anti-jacobina da esquerda. O ponto de vista anti-jacobino viu a nação não como o grande equalizador, mas como o grande magnetizador. A solução não era a luta para suprimir outros grupos, mas para incentivar todos os grupos para fazer valer o seu valor como modos de vida e modos de auto-consciência. As feministas insistiam que não só as mulheres devem obter o sufrágio, mas que as mulheres tinham o direito de suas próprias organizações e sua própria consciência. Assim como comunidades de grupos raciais e étnicos, as chamadas minorias.

O resultado tem vindo a ser que a esquerda não tem uma visão única de nação. Pelo contrário! A esquerda está dividida entre visões cada vez mais profundamente opostas de nação. Hoje vemos isso ocorrendo em muitas formas diferentes. Uma delas foi o caráter de explosão de demandas ligadas ao gênero, a construção social do que tinha sido uma vez pensado como fenômenos genéticos. Mas uma vez que estamos envolvidos em construção social, não há nenhum limite óbvio para os direitos das subcategorias, já definidas ou ainda para vir à existência social.

Se o gênero está explodindo, então é indianidade. Indigeneidade também é uma construção social. Ele se refere aos direitos de quem viveu em uma determinada área física mais cedo do que os outros ("migrantes"). Empurrado o suficiente, cada pessoa é um migrante. Discutido razoavelmente, existem hoje significativos grupos sociais que não se vêem como vivendo em grupos que são significativamente diferentes daqueles que exercem o poder no Estado e que desejam continuar a manter as suas comunidades em seus principais modos existentes de vida em vez de perder esses direitos nestes limites, porque a nação afirma os direitos de uma nação.

Uma última ambiguidade. É deixado de ser internacionalista, one-mundista, ou é deixado para ser nacionalista contra a intrusão de forças mundiais poderosas? É que deixou de ser para a abolição de todas as fronteiras ou para o reforço das fronteiras? É com consciência de classe se opor ao nacionalismo ou apoiar a resistência nacional ao imperialismo?

Pode-se tomar o caminho mais fácil de sair deste debate, sugerindo que a resposta varia de lugar para lugar, momento a momento, uma situação para outra. Mas isso é precisamente o problema. A esquerda mundial tem muita dificuldade para enfrentar os problemas diretamente e chegar a uma atitude fundamentada, politicamente significativa para o conceito da nação. Desde o nacionalismo é sem dúvida o mais forte compromisso emocional dos povos do mundo hoje, o fracasso da esquerda global para entrar em um debate interno coletivo de uma forma solidária mina a capacidade da esquerda global para ser um principal ator hoje no cenário mundial.

A Revolução Francesa deixou-nos com um conceito destinado a ser o grande equalizador. Será que lega-nos a todos uma pílula de veneno que pode destruir a esquerda global e, portanto, o grande equalizador? Uma reunificação intelectual, moral e política da esquerda global é muito urgente. Ele vai exigir um bom negócio mais de um sentido de dar e receber do que os principais atores têm mostrado. Ainda assim, não há nenhuma alternativa séria.

Demanda por minério de ferro caiu em 2015

Relatório da ONU mostra que resultado reflete fraco crescimento da produção de aço global; documento preparado pela Unctad mostra que em 2014, produção de minério de ferro no Brasil aumentou 2,1% chegando a 339 milhões de toneladas.
A demanda por minério de ferro diminuiu em 2015. Foto: ONU/B Wolff
Edgard Júnior, da Rádio ONU em Nova York.
Um relatório preparado pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, Unctad, afirma que a demanda por minério de ferro diminuiu em 2015.
Segundo o documento, o resultado é reflexo de um fraco crescimento na produção de aço.
Ano Difícil
A Unctad diz que o aumento contínuo da produção combinado com uma queda na demanda fez de 2015 um ano difícil para o mercado de minério de ferro.
O relatório cobre o ano de 2014 e fornece um panorama sobre a situação em 2015 e 2016.
Ele mostra que o fraco crescimento na produção de aço mundial significa que o setor de minério de ferro, matéria-prima principal para a fabricação do aço, entrou numa fase de crescimento lento, preços baixos e pequena margem de lucro para as companhias mineradoras.
Brasil
As três principais mineradoras do mundo são, a brasileira Vale e as multinacionais Rio Tinto e BHP Billiton.
Em 2014, a produção de minério de ferro global registrou uma alta de apenas 1,9% chegando a pouco mais de 2 bilhões de toneladas. O Brasil aumentou sua produção em 2,1% para 339 milhões de toneladas.
Na Austrália, a produção disparou 19% e a China seguiu o caminho inverso, com uma queda de 27%.
O relatório calcula que o mercado de minério de ferro será caracterizado por uma superprodução real ou potencial pelos próximos anos. Esse desempenho vai impedir o aumento dos preços acima de um certo nível e será determinado pelo que será necessário em investimento adicional para seguir adiante, principalmente pela gigante do setor, a brasileira Vale.
A Unctad acredita que a demanda da China por aço vai crescer consideravelmente mais devagar em comparação aos últimos 10 anos. Já a demanda do resto do mundo deve aumentar apesar de um fraco panorama econômico na zona do Euro.
Segundo o documento, a produção mundial de aço bruto no ano passado atingiu 1,3 bilhão de toneladas e a de minério de ferro 1,9 bilhão de toneladas. Os dois resultados foram menores do que os registrados em 2014.

Walden: mito da natureza intocada ou Ecologia Profunda?

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“Não me proponho escrever uma ode ao desânimo, mas gargantear com o vigor de um
galo matutino empertigado no poleiro, nem que seja apenas para acordar os vizinhos”
(Henry David Thoreau, 1817-1862)

160219

O crescimento das atividades antrópicas, no contexto do fluxo metabólico entrópico, está degradando a vida no Planeta, como mostra a escola da Economia Ecológica. O progresso humano tem ocorrido às custas do regresso ambiental. Existem várias análises e metodologias mostrando a gravidade da saúde geral da Terra: 1) a pegada ecológica global já ultrapassou em 50% a biocapacidade e a civilização humana vive da herança ecológica do passado, sendo que esta herança natural está sendo dilapidada rapidamente; 2) Estudo publicado na Revista Science (janeiro de 2015), do Stockholm Resilience Centre, mostra que quatro das nove fronteiras planetárias foram ultrapassadas. Duas delas, a Mudança climática e a Integridade da biosfera, são o que os cientistas chamam de “limites fundamentais” e tem o potencial para conduzir o sistema Terra a um novo estado que pode levar a civilização ao colapso; 3) a humanidade, na época do Antropoceno, está provocando a 6ª extinção em massa no Planeta, como mostra o livro da jornalista Elizabeth Kolbert, The Sixth Extinction; 4) O mundo está ficando mais quente e rompendo com a estabilidade climática do Holoceno, conforme mostram diversos estudos da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), da Nasa, que alertam para os riscos irreversíveis do aquecimento global e das mudanças climáticas (ALVES, 2014).
Diante da gravidade da situação do Planeta e da possibilidade da extinção da vida de milhões de espécies que vivem na Terra – muito antes da chegada do homo sapiens – fica difícil compreender como há pessoas que ainda fazem ginástica para justificar o antropocentrismo, a redução das áreas anecúmenas e a expansão das áreas ecúmenas. O livro “O Mito Moderno da Natureza Intocada” (primeira edição de 1994), de Antonio Carlos Santana Diegues, foi escrito para combater os ambientalistas que defendem a perspectiva ecocêntrica (ou biocêntrica) de defesa do meio ambiente. O livro de Diegues, direta ou indiretamente, reforça o que há de pior na relação assimbiótica entre o ser humano e a natureza. Também é incompreensível como alguém pode combater a iniciativa de criação do Parque Nacional de Yosemite – inaugurado em 1864 (com 3.100 km2) e do Parque Nacional de Yellowstone – inaugurado em 1872 (com 8.980 km2).
Num país, como o Brasil, que já destruiu 92% da Mata Atlântica, mais de 50% do Cerrado e mais de 20% da Amazônia – sem falar nos demais biomas como os mangues, as araucárias, os pampas, etc. que continuam a ser destruídos – fica difícil entender como um pesquisador possa fazer um livro para combater as “áreas naturais protegidas”. A tática utilizada por Diegues foi criar um mito para depois ridicularizá-lo, como se a origem da perspectiva ecocêntrica fosse fundada neste mito relatado pela concepção antropocêntrica do autor, que nas conclusões do seu livro diz o seguinte:
“As áreas naturais protegidas, sobretudo as de uso restritivo, mais do que uma estratégia governamental de conservação, refletem, de forma emblemática, um tipo de relação homem/natureza. A expansão da ideia de parques nacionais desabitados, surgida nos Estados Unidos em meados do século passado, retoma, de um lado, o mito de paraísos naturais intocados, à semelhança do Éden de onde foram expulsos Adão e Eva (…) A persistência da ideia de um mundo natural, selvagem, não tocado, tem força considerável, sobretudo entre populações urbanas e industriais que perderam, em grande parte, o contato quotidiano e de trabalho com o meio rural” (p. 157).
Na verdade, o que Antonio Diegues fez no livro “O Mito Moderno da Natureza Intocada” foi criar e ridicularizar um suposto mito, atribuindo a simplicidade dos seus fundamentos ao núcleo da argumentação dos pensadores ecocêntricos. Se, pelo menos, este truque fosse bem elaborado até poderia servir para um diálogo entre os defensores do antropocentrismo e do ecocentrismo. Mas Diegues não só desconsiderou obras fundamentais para o entendimento do assunto, como deturpou o pensamento de outros.
Por exemplo, a forma como Diegues tratou o pensamento de Henry Thoreau é não só incorreta, como inaceitável para os padrões acadêmicos, pois as citações de Thoreau foram feitas por “apud”, ou seja, Diegues não leu nenhum texto de Thoreau (embora todos deles estejam disponíveis na Web, inclusive vários em português), mas atribui ao autor de Walden concepções que não são verdadeiras. Diegues implica, particularmente, com a noção de wilderness (vida natural e selvagem). Ele diz:
“O movimento de criação de “áreas naturais” nos EUA foi influenciado por teóricos como Thoreau e Marsh. O primeiro estudou administração florestal e criticou a destruição das florestas para fins comerciais (…) A ideia de parque como área selvagem e desabitada, típica dos primeiros conservacionistas norte-americanos, pode ter suas origens nos mitos do “paraíso terrestre”, próprios do Cristianismo (…) Esse mito do paraíso perdido e de sua reconstrução parece estar na base da ideologia dos primeiros conservacionistas americanos. Assim, Thoreau escreveu em 1859: ‘o que nós chamamos de natureza selvagem é uma civilização diferente da nossa’ (apud Nash, 1989). Dessa forma, os primeiros conservacionistas pareciam recriar e reinterpretar o mito do paraíso terrestre mediante a criação (pp 26 e 27).
Acontece que Henry David Thoreau (1817-1862) foi um precursor de movimentos libertários nos Estados Unidos e no resto do mundo, defensor de uma vida simples, autossuficiente e em harmonia com a natureza, além de um rigoroso crítico do modelo de desenvolvimento consumista e degradador do meio ambiente. Aos 16 anos foi estudar Letras e Literatura na Universidade de Havard. Aprendeu grego, alemão e francês e se tornou grande conhecedor de textos clássicos das culturas grega, hindu e chinesa. Segundo o filósofo Ralph Waldo Emerson, amigo que influenciou a formação do autor de Walden, “Thoreau era celibatário e nunca foi à igreja”. Portanto, não tem nenhum sentido dizer que as concepções filosóficas de Thoreau foram influenciadas pelo cristianismo, pois é amplamente conhecido que Thoreau foi mais influenciado pela cultura clássica da Grécia e pelas filosofias orientais.
Em nenhuma página do livro “O Mito Moderno da Natureza Intocada” foi dito que Thoreau se opôs à Guerra dos Estados Unidos contra o México, à escravidão, ao genocídio dos índios americanos e à escravidão animal (ele era vegetariano). Não foi dito que Thoreau escreveu o famoso texto “A desobediência civil” (publicado em 1849) que se transformou numa grande referência da luta contra a opressão, a exploração, a injustiça e a discriminação em todas as suas formas. Thoreau foi a referência central para a atuação política de: a) Leon Tolstói (1828-1910), que passou a utilizar a ideia da desobediência civil no combate ao totalitarismo czarista na Rússia; b) Mohandas Gandhi que utilizou os mesmos princípios na luta contra a discriminação racial na África do Sul e na luta pacífica pela independência da Índia; c) foi com base em Thoreau que Martin Luther King organizou a luta não violenta contra a discriminação racial e pelos direitos civis nos Estados Unidos; d) o princípio da desobediência civil influenciou pensadores da ciência política como Hannah Arendt, John Rawls, etc.
Ao contrário do que disse Diegues, Thoreau não estudou “administração florestal”, mas construiu sozinho uma pequena cabana às margens do lago Walden, localizado nas florestas ao redor da cidade de Concord, onde viveu uma vida simples e autossuficiente por dois anos. Ele não só deu o exemplo pessoal, como fez uma defesa dos direitos ambientais e dos direitos das espécies vegetais e animais. De fato, o livro Walden faz uma defesa da natureza e da vida selvagem (wilderness). Mas isto nada tem a ver com a concepção de “paraíso perdido” do cristianismo e muito menos com concepções malthusianas ou neomalthusianas. O que existe é uma questão ética. Por conta disto, cada vez mais pessoas defendem o crescimento das áreas anecúmenas, como no livro de Caroline Fraser: Rewilding the World.
É lamentável que o livro “O Mito Moderno da Natureza Intocada” tem se valido de uma falsa dicotomia entre a preservação de áreas naturais e selvagens (wilderness) e os direitos das populações indígenas e tradicionais. Na realidade esta dicotomia não existe, mas serve para desqualificar a luta em defesa dos direitos da natureza e a manutenção de parques nacionais e áreas de proteção natural. Em pleno século XXI todos os biomas brasileiros estão ameaçados. Principalmente a Amazônia que tem sido alvo da sanha destruidora do agronegócio, das empreiteiras interessadas na construção de hidrelétricas na Amazônia e da indústria de combustíveis fósseis interessadas na exploração do petróleo, do gás natural e do gás de xisto. Recentemente, a Comissão de Minas e Energia rejeitou o Projeto de Decreto Legislativo (PDC) 2602/10, que susta os efeitos do Decreto 7.154/10, que estabelece procedimentos para autorizar e realizar estudos de aproveitamento de potenciais de energia hidrelétrica e de implantação de sistemas de transmissão e distribuição de energia elétrica no interior de unidades de conservação (UC).
Estudo da fundação da navegadora Ellen MacArthur e da consultoria McKinsey, divulgado durante o Fórum Econômico Mundial de Davos (WEF, 2016), mostra que os oceanos terão mais plásticos do que peixes em 2050. Segundo o documento, a proporção de toneladas de plástico para toneladas de peixes era de uma para cinco em 2014 que será de uma para três em 2025 e vai ultrapassar uma para uma em 2050. Portanto, mais do que nunca é preciso preservar as áreas naturais e os territórios anecúmenos. Não é hora de brincar com mitos de natureza intocada. Cabe lutar pela preservação do meio ambiente contra toda ganância humana assimbiótica, contra a geração crescente de luxo e lixo e contra os interesses egoísticos do processo de acumulação de capital.
Assim, por tudo isto, fica claro que a defesa de áreas naturais e selvagens e as concepções da Ecologia Profunda nada têm a ver com o “mito da natureza intocada”. O que o mundo precisa é realmente reforçar a concepção ecocêntrica e anti-antropocêntrica. Henry Thoreau está localizado no panteão dos grandes pensadores da humanidade. Felizmente sua influência e seu reconhecimento vão muito além de quaisquer detratores, populistas e demagogos de ocasião. O pensamento de Henry Thoreau continua vivo e cada vez mais presente nos movimentos libertários e no combate ao antropocentrismo. A defesa do meio ambiente é cada vez mais necessária no século XXI, para evitar o crescimento da pegada ecológica, o rompimento dos limites das fronteiras planetárias, a perda de biodiversidade e o agravamento do aquecimento global e dos efeitos desastrosos das mudanças climáticas.
Referências:
The Walden Woods Project: https://www.walden.org/

Planetary Boundaries 2.0 – new and improved, Stockholm Resilience Centre, Stockholm. Janeiro 2015
Thoreau, Henry David, Walden, ou, A vida nos bosques, São Paulo, Ground, 2007
THOREAU, Henry David. Desobedecendo: a desobediência civil e outros ensaios. Tradução de José Augusto Drummond. Rio de Janeiro, Rocco, 1984.
ALVES , J. E. D. População, desenvolvimento e sustentabilidade: perspectivas para a CIPD pós-2014. R. bras. Est. Pop., Rio de Janeiro, v. 31, n.1, p. 219-230, jan./jun. 2014
ALVES, JED. Sustentabilidade, Aquecimento Global e o Decrescimento Demo-Econômico, Revista Espinhaço, Diamantina. UFVJM, Revista Espinhaço, v. 3, n. 1, 2014.
ALVES, JED. Henry Thoreau, um revolucionário, Projeto Colabora, RJ, 20/01/2016

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 19/02/2016

Caatinga e Amazônia são os dois biomas brasileiros na lista negra do clima

Caatinga e Amazônia estão entre os ecossistemas mais sensíveis à variabilidade climática, segundo mapa global; além das condições naturais, pobreza aumenta riscos no Semiárido

A Caatinga e a Amazônia estão entre os biomas mais vulneráveis a variações climáticas no mundo, de acordo com um estudo publicado nesta quarta-feira (17). A pesquisa pode ajudar a prever o tamanho do impacto que a mudança climática deverá ter sobre ecossistemas no mundo inteiro e entender quais regiões podem sofrer extinções em massa e quais resistirão ao aquecimento. Também estão na lista dos vulneráveis a tundra, a floresta boreal, outras florestas tropicais e os campos temperados.
O mapa da vulnerabilidade dos ecossistemas à variabilidade climática foi realizado por um grupo de pesquisadores da Noruega e do Reino Unido e publicado no periódico Nature. Seus autores criaram um índice de sensibilidade da vegetação, baseado em séries de dados de satélites sobre cobertura vegetal durante 14 anos (de 2000 a 2013) e variáveis climáticas que influenciam na capacidade da vegetação de fazer fotossíntese: temperatura atmosférica, disponibilidade de água e cobertura de nuvens.

No período estudado, a Caatinga e a Amazônia responderam com maior sensibilidade à variabilidade climática em comparação com outras partes do mundo, apresentando, por exemplo, mudanças no aspecto da vegetação – menos verde, menos folhas novas e menos absorção de carbono do ar. É como se os dois biomas entrassem em depressão e suas plantas deixassem de funcionar direito.

O fator mais crítico para a Caatinga é a disponibilidade de água: apesar de ser adaptada à seca, a vegetação do Semiárido parece exagerar na resposta a crises hídricas prolongadas. A resposta pode ser consistente com a desertificação da região Nordeste num cenário de mudança climática e alto desmatamento, ou pode ser simplesmente a maneira como o bioma lida naturalmente com falta d’água. “Pode ser que as plantas na Caatinga sejam adaptadas à variabilidade do clima e tenham uma resposta grande, amplificada, que é própria da maneira daquele ecossistema de lidar com variabilidade”, disse ao OC Alistair Seddon, da Universidade de Bergen, Noruega, principal autor do estudo.

Seddon diz que o trabalho pode ser usado para orientar futuras pesquisas sobre as causas dessa sensibilidade, mas principalmente para melhorar futuras previsões dos efeitos da variabilidade nos ecossistemas, que impactam diretamente em biodiversidade, segurança alimentar e bem-estar da população que vive na região. Ele também afirma que é importante usar os resultados deste período para aprofundar estudos baseados em modelos climáticos, que dão a pista de como será o clima em médio e longo prazo. “Trata-se do próximo passo para compreender os mecanismos por trás desses padrões.”

Cada ecossistema responde às variações de forma diferente. Por exemplo, as florestas tropicais, como a Amazônia, apresentaram sensibilidade à combinação de nebulosidade e variações na temperatura, que juntas influenciam na taxa de crescimento da vegetação, provavelmente por causa de reduções de trocas gasosas sob temperaturas mais quentes – a floresta sufoca, mais ou menos literalmente. Os pesquisadores ressaltam que, apesar de não ser possível associar os dados de pouco mais de uma década diretamente às mudanças climáticas globais, causadas pela emissão de gases de efeito estufa, as descobertas podem ter implicações para o futuro dos ecossistemas.

“Dada a importância da identificação de áreas ecologicamente sensíveis para os serviços ecossistêmicos e redução da pobreza, há uma lacuna fundamental de conhecimento para identificar e, em seguida, priorizar as regiões que são mais sensíveis à variabilidade climática”, dizem os autores do estudo.

Para o biólogo Fabio Scarano, diretor-executivo da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável, o estudo revela a necessidade de mais projetos de restauração e atenção especial ao cumprimento do Código Florestal e efetividade do CAR (Cadastro Ambiental Rural) na região coberta pela Caatinga. “A aplicação da lei e a restauração nessa região devem ser prioritárias.” Um estudo de 2015 liderado pelo pesquisador do Inpe Gilberto Câmara mostra que, mesmo com o Código Florestal, o desmatamento na Caatinga pode continuar até depois de 2050 – seria o único bioma do Brasil no qual a devastação não se estabilizaria. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, a Caatinga já perdeu 46% de sua cobertura florestal original.

Scarano acredita que o plano climático apresentado pelo Brasil às Nações Unidas para o acordo do clima pode contribuir para políticas mais eficientes na região, embora só existam metas para restauração na Amazônia. O planejamento de restauração também não deve ser simples, uma vez que ainda não existem dados de monitoramento de desmatamento no bioma – que ocupa 11% do território nacional, mas só tem 7,5% de unidades de conservação, sendo que pouco mais de 1% delas são de proteção integral, de acordo com o Ministério do Meio Ambiente. Também de acordo com informações do ministério, as áreas de proteção ambiental têm baixo grau de implementação.

Câmara mostra-se preocupado com o mal que a confluência entre desmatamento, mudança climática e séculos de agricultura insustentável podem fazer com a sociedade no Semiárido. Ele menciona uma série de dados da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), que mostra quebras de safra expressivas no Ceará após 2010: à exceção de 2011, todos os anos até 2014 tiveram quebras maiores que um terço da produção agrícola.

“Num clima mais ameno do que o atual, a situação do Semiárido já era crítica. Qualquer mudança, mesmo moderada, no clima e na precipitação irá inviabilizar a agricultura da Caatinga”.



Observatório do Clima

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

A tecnologia como "recurso natural de riqueza"


No atual cenário de crise econômica e de transformação de muitos setores e indústrias, o abandono de uma economia baseada no uso de combustível fóssil para uma que prioriza a utilização de energias renováveis, está na tomada de uma mudança de paradigma. A queda do preço do petróleo e outros fatores geopolíticos que ocorrem durante 2015, levam a crer que este ano tem sido verdadeiramente um ponto de viragem nesta transição.


Desde que a crise econômica começou em 2008, devido às hipotecas subprime nos EUA e seu posterior contágio para a Europa e outros continentes, muitas vezes falamos regularmente da necessidade de uma mudança no modelo de produção que nos distancie de modelos econômicos especuladores que ameaçam a sustentabilidade e viabilidade do planeta. Estes desejos e anseios são continuamente impulsionados pela administração dos EUA e pela Comissão Europeia (principalmente, mas não exclusivamente) através de vários programas de investigação e desenvolvimento que visam aumentar a consciência, financiar e estimular a adoção de tecnologias e fontes de energia inovadoras, limpas e sustentáveis.
A maioria dos cidadãos muitas vezes permanecem céticos sobre essa mudança no modelo de produção, já que não se observa fatos tangíveis que confirmem estas transformações. Se a isso se somam escândalos que como o protagonizado por alguma multinacional automobilística nos últimos meses e o problema cada vez mais premente da percepção pública da situação parece mais do que justificada. Mas 2015 deixou alguns dados quando menos mas mais do que curiosos, e que nos faz sentir otimistas sobre a mudança de paradigma necessária para a viabilidade das nossas sociedades no planeta Terra.
Por um lado, o consumo de combustíveis fósseis têm experimentado uma queda significativa tanto em petróleo como em gás e carvãoEspecialmente revelador é o caso do primeiro, que tem registrado e está pronto para continuar a afundar, atingindo um número surpreendente. Este colapso dos preços dos combustíveis fósseis também traz consigo uma queda nos preços de commodities-chave da economia do petróleo, tais como ferro e carvãoEsta queda no preço do ouro negro carrega um declínio no preço de vários produtos, na dinamização da atividade de grandes multinacionais como a Procter & Gamble, Johnson & Johnson e Unilever, entre outras. E essas grandes empresas também têm acionistas que colocam sua confiança na forma de investimentos, para capitalizar essas empresas e confiar implicitamente o futuro e a viabilidade destas organizações ao longo do tempo.giant-economia-mundo-2015

Lista das principais empresas listadas no final de 2015 
Pois bem, esse 2015 também pode ir para a história como o ano em que as empresas da velha economia do petróleo dão lugar a outras empresas com base em fontes de energia renováveis ​​e, acima de tudo, baseiam seus modelos de negócios em plataformas de serviços tecnológicos em vez de comercialização de bens de consumo. Liderando esta lista das empresas mais negociadas no mundo Apple, Google e Microsoft estão localizados, mas é que no top 10, também aparecem surpreendentemente nomes como Amazon ou FacebookUma empresa que não vende qualquer produto tangível, mas conseguiu transformar um serviço de comunicação baseado no "efeito de rede" em um meio de massa que muitas empresas utilizam para promover e comercializar seus serviços e produtos. Nomes que não têm uma história de negócios de longa duração, mas foram capazes de gerar um grande percebida pelos vários investidores, em um período muito curto de valor de tempo. O que parece uma condição sine qua non para todas as empresas que desejam operar na chamada economia digital e que são caracterizados principalmente pelo fornecimento de um determinado tipo de serviço (embora alguns também vendem uma alta dispositivos de preços) ao invés de uma de oferta produtos tangíveis específicos.
Mas suas diferenças em relação às "empresas velhas" também são dadas pelo gasto intensiva em i+D+i fazendo, o que torna o gerenciamento de um grande número orçamental nesta seção e que a força de outras empresas estabelecidas, para aumentar o investimento neste sentido mantém-se. E ultimamenteatravés da utilização de fontes de energia renováveis​​, quando se trata de alimentar suas infra-estruturas e, especialmente, seus " data centers ". Estes centros de dados são realmente grandes propriedades que estão cheios de servidores, cabos e discos rígidos que hospedam grande parte das nossas identidades, preferências e interações que fazemos no espaço digital. Isto é, o combustível desta nova economia digital e que tem a forma de "Dados". A vantagem competitiva que também está começando a causar tumulto em um setor forte e tradicional.
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Imagem de um centro de dados do Google localizada em Hamina (Finlândia) - Fonte:Google
Este uso intensivo e aposta incondicional com a energia renovável é talvez uma das questões-chave para explicar como essas empresas estão mudando para as mais estabelecidas nestas taxas de contribuição. Claro, a produtividade e a eficiência de tais empresas que operam na economia digital são, talvez, a primeira ocasião da avaliação porque os recursos que eles precisam e profissionais empregados estão longe de ser as necessidades de outros setores. Mas a mudança de paradigma na utilização dos recursos energéticos da empresa e sua gestão eficiente, parece evidente. Essas novas empresas apostam nas energias limpas porque elas entendem que não podem basear as suas infra-estruturas em tecnologias tão pouco eficientes eficientes e sustentáveis, tais como combustíveis fósseis e porque seu negócio (tecnologia), tem pouco ou nada a ver com as fontes de energia que estimularam o desenvolvimento das economias de combustíveis fósseis.
Por isso, é importante enfatizar que na nova sociedade que entramos, a posse de certos recursos naturais não é um fator que terá muita importância econômica, como no passado. O colapso do preço das matérias-primas é um exemplo desta situação, mas talvez o mais importante para realçar o desenvolvimento de materiais, tais como grafenoO material mais resistente que o diamante, 200 vezes mais forte que o aço e 5 vezes mais leve do que o alumínio. Grafeno é obtido a partir de grafite (abundante na natureza), mas é um material "fabricado" no laboratório por meio da utilização da nanotecnologia (porque ainda não é produzido numa escala industrial). Este e outros novos nanomateriais prometem muitas aplicações e oportunidades, mas também postulam uma nova ordem geopolítica em que os recursos naturais podem ser substituídos por conhecimento, tecnologia e inovação. Algo que muitos países asiáticos já começaram a entender há anos, gerindo os recursos naturais de forma mais eficiente e investir em I + D + i.
Em um mundo onde parece que o futuro do trabalho será vinculado irremediavelmente a tecnologias que adivinham uma "quarta revolução industrial", adaptar os nossos sistemas de educação para responder a este desafio é a chave. Mais ainda, se considerarmos o atual, através de expatriação de graduados. Mas também temos de reformar as nossas estruturas legais e políticas, promover e facilitar a transição por parte das empresas, mais limpos e modelos sustentáveis ​​de energia, uma vez que por si só não será capaz. Não se esqueça que a grande maioria das empresas em nossa indústria são PME (cerca de 99%), o que implica uma fraqueza mais adicional contra as mudanças disruptivas e maior dependência de quadros de apoio do governo .
Neste paradigma que se começa a vislumbrar os países que estão comprometidos com conhecimento, tecnologia e inovação podem estar na fila da frente. E também pode que pela primeira vez na história , não dependem fortemente da extração de recursos naturais. Portanto, os países que têm acesso à luz do dia, marés, ventos e outros recursos, não podem perder tempo em aproveitar essas fontes abundantes de energia.



Quarta revolução industrial ou estagnação secular?

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“O otimista é um pessimista mal informado”
Ditado popular

“You can see the computer age everywhere except in the productivity statistics”
(Robert Solow, 1987)

livro “The fourth industrial revolution”, de Klaus Schwab

No mês de janeiro de 2016 foram lançados, de forma independente, dois livros que discutem as possibilidades e as limitações que a tecnologia teve no passado e terá no futuro no sentido de avançar com as forças produtivas rumo à estagnação ou ao progresso e à melhoria das condições de vida da humanidade. Um é otimista e o outro é pessimista.
O livro “The fourth industrial revolution”, de Klaus Schwab, foi lançado durante o Fórum Econômico Mundial, de Davos e serviu de tema central para o encontro que reúne a elite da economia mundial. Numa visão otimista, o livro diz que estamos à beira de uma revolução tecnológica que alterará fundamentalmente a maneira como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos uns com os outros. A “Quarta Revolução Industrial, em sua escala, escopo e complexidade, será diferente de tudo que a humanidade já experimentou antes”, como diz o autor. A Primeira Revolução Industrial começou no último quartel do século XVIII e teve como base o uso da água, do vapor (início dos combustíveis fósseis) e a mecanização de equipamentos para a produção de bens de consumo. A Segunda Revolução ampliou a divisão do trabalho e iniciou o uso da energia elétrica para criar a produção em massa. A Terceira Revolução utilizou a tecnologia da informação para automatizar a produção e ampliar a informação.
Agora, a Quarta Revolução Industrial deve ampliar a revolução digital que vinha ocorrendo desde meados do século passado, mas, segundo Klaus, ela traz um grande potencial devido a sua natureza hiperconectada, em tempo real, por causa da internet. O livro aponta três vetores propulsores: fatores físicos, digitais e biológicos. Dentre os físicos, como o desenvolvimento de novos materiais, destaca-se o aperfeiçoamento do grafeno, que é 200 vezes mais resistente que o aço e milhares de vezes mais fino que um fio de cabelo, tendo potencial de mudar a indústria e a infraestrutura. Os celulares conectados à internet provocaram uma reorganização de diversos aspectos da vida, como na educação, saúde e no transporte urbano. A biotecnologia, poderá erradicar doenças e até mesmo retardar o envelhecimento das pessoas. Além das mudanças nos sistemas de produção e consumo e amplo uso de inteligência artificial, ela também traria o desenvolvimento de energias verdes.
Portanto, Klaus considera que as transformações de hoje não representam apenas um prolongamento da Terceira Revolução Industrial, mas sim a chegada de um quarto e distinto período, em função: “da velocidade, do alcance e dos sistemas de impacto, pois a velocidade dos avanços atuais não tem precedente histórico, quando comparado com as revoluções industriais anteriores”. A Quarta Revolução avança em ritmo exponencial em vez de linear. Além disso, está envolvendo quase todos os setores em todos os países. A amplitude e a profundidade dessas mudanças anunciam a transformação dos sistemas inteiros de produção, gestão e governança. Assim, para o autor, bilhões de pessoas conectadas por dispositivos móveis, com um poder sem precedentes de processamento, capacidade de armazenamento e acesso ao conhecimento, oferecem possibilidades ilimitadas. Essas possibilidades poderão ser multiplicadas por avanços tecnológicos emergentes em áreas como inteligência artificial, robótica, a Internet das Coisas, veículos autônomos, a impressão 3-D, nanotecnologia, biotecnologia, ciência de materiais, armazenamento de energia e computação quântica.
Ainda no raciocínio do autor, a Quarta Revolução Industrial, assim com as revoluções anteriores, tem o potencial de elevar os níveis de renda global e melhorar a qualidade de vida das populações em todo o mundo. A inovação tecnológica também pode levar a um milagre do lado da oferta, com ganhos a longo prazo em termos de eficiência e produtividade. Transporte e comunicação a custos baixos tornariam as cadeias de fornecimento globais e a logística mais eficazes, abrindo novos mercados, impulsionando o crescimento econômico. Não menos importante, a Quarta Revolução Industrial, segundo o autor, pode aperfeiçoar a democracia. Como os mundos físico, digital e biológicas continuam a convergir, novas tecnologias e plataformas vão permitir que os cidadãos participem da gestão governamental, exprimindo suas opiniões, juntando esforços na implementação de políticas públicas e supervisionando as autoridades constituídas. Simultaneamente, os governos ganharão novos poderes tecnológicos, com base em sistemas de vigilância e capacidade de controlar a infra-estrutura digital, aumentando a concorrência, a redistribuição das funções e a descentralização do poder.
Para não dizer que tudo são flores, o autor reconhece que a Quarta Revolução Industrial poderia aumentar a desigualdade social, especialmente afetando os mercados de trabalho. Como a automação substitui o trabalho em toda a economia, o deslocamento líquido de trabalhadores por máquinas poderá agravar o fosso entre os retornos de capital e os retornos do trabalho (gerando uma crise de desemprego). O pior cenário seria aquele vislumbrado por Martin Ford (“Rise of Robots”) em que a ascensão dos robôs levaria a um futuro sem emprego. Mas Klaus aposta no efeito positivo, pois a tecnologia, em termos macroeconômicos, poderá não só trazer aumento líquido nos postos de trabalho, como também pode transformar as ocupações em atividades seguras e gratificantes.
Evidentemente, toda esta visão cornucopiana e de redenção tecnológica soa como música aos ouvidos da elite econômica que frequenta o Fórum Econômico Mundial. Para Klaus, a Quarta Revolução Industrial seria a prova de que o capitalismo é um sistema não só eficiente, mas que pode ser também justo e democrático. Em sua quarta reedição, a revolução capitalista universalizaria o progresso econômico, social e ambiental. Seria o triunfo da abundância do paraíso na Terra.
Contudo, esse tipo de delírio tecnológico é contestado no livro “The Rise and Fall of American Growth: The U.S. Standard of Living since the Civil War” do professor da Universidade Northwestern, Robert J. Gordon. Há muito tempo o autor tem criticado o tecno-otimismo e as afirmações, de forte cunho ideológico, de que estamos em meio a uma mudança tecnológica revolucionária. Por exemplo, em relação à apologia feita às TICs (Tecnologia de Informação e Comunicação), Gordon argumenta que elas são menos importante do que qualquer uma das cinco grandes invenções que alimentou o crescimento econômico entre 1870-1970: eletricidade, saneamento urbano, químicos e farmacêuticos, o motor de combustão interna e a comunicação moderna.

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Gordon não discorda do papel histórico desempenhado pela tecnologia no passado. Ele recapitula os vínculos entre períodos de rápida expansão econômica e as inovações das três Revoluções Industriais (RI) precedentes: 1ª) a das ferrovias, energia a vapor (carvão mineral) e indústria têxtil, de 1750 a 1830; 2ª) a da eletricidade, motor de explosão, água encanada, banheiros e aquecimento dentro de casa, petróleo e gás, farmacêuticos, plásticos, telefone, de 1870 a 1900; 3ª) a dos computadores, internet, celulares, de 1960 até hoje. Segundo Gordon, a segunda RI teria sido mais importante em termos de acelerar o crescimento econômico, garantindo 100 anos de acelerado avanço na produtividade. Ele argumenta que este evento excepcional é único no tempo e não vai se repetir.
Ele dá exemplo da velocidade do transporte (que é confirmada pelo fracasso do Boeing 787 Dreamliner): “Até 1830, a velocidade de tráfego de passageiros e de mercadorias era limitado pelo ‘casco e vela’, mas aumentou de forma constante até a introdução do Boeing 707, em 1958. Desde então, não houve nenhuma mudança na velocidade e, de fato, os aviões voam mais lento agora do que em 1958 por causa da necessidade de economizar combustível e normas de segurança”.
Outro exemplo se dá pelo engarrafamento das grandes cidades e a crise da mobilidade urbana. Uma carroça puxada por dois cavalos trafegava a 26 km/hora, mas nossos potentes carros atuais não trafegam a 20 km/hora no horário de pico das metrópoles. Nas estradas é grande o número de acidentes e mortes. Desastres e restrições à mobilidade urbana significam perda de eficiência econômica e pressão sobre a qualidade de vida. Nas grandes cidades brasileiras é comum os moradores da periferia gastarem 2 horas da casa para o serviço e mais 2 horas de volta.
A soma do aumento do custo da extração dos combustíveis fósseis e a perda dos ganhos de produtividade pode funcionar como freio ao crescimento econômico. Considerando a economia dos Estados Unidos da América (EUA), Gordon argumenta que existem seis “ventos contrários” (headwinds) que devem desacelerar o crescimento americano: 1) aumento das desigualdades sociais, 2) educação deteriorada; 3) degradação ambiental; 4) maior competição provocada pela globalização; 5) envelhecimento populacional; e 6) o peso dos déficits e do endividamento privado e público.
O autor sugere que estes “ventos contrários” não estão atingindo apenas os EUA, mas todas as economias avançadas, o que deve provocar taxas de crescimento econômico abaixo de 1% nas próximas décadas. Para as sociedades emergentes, os “ventos contrários” também existem, mas sopram com menos intensidade, por enquanto. Mas, numa economia cada vez mais internacionalizada, é difícil imaginar que os países em desenvolvimento possam manter altas taxas de crescimento econômico sem contar com uma dinâmica parecida nos países desenvolvidos.
Evidentemente, a tecnologia contribui para o progresso e o bem-estar da população. O avanço das tecnologias de higiene e de saneamento básico reduziram a mortalidade infantil e aumentaram a esperança de vida, contribuindo para tornar as pessoas mais longevas, mais educadas e mais produtivas. Aliás, a revista britânica The Economist, com base nos estudos de Robert Gordon, fez uma capa (12/01/2013) mostrando que toda a força do pensamento tecnológico recente foi incapaz de inventar uma coisa mais útil e de maior impacto na saúde dos povos do que o vaso sanitário. Os efeitos positivos de uma invenção tão simples desmistifica a apologia das tecnologias mirabolantes.
A tecnologia pode ser aliada do desenvolvimento humano e ambiental, mas também pode ser fonte de dominação, exploração e de auto-engano. O livro de Robert Gordon, portanto, não rejeita a tecnologia, mas apresenta um forte argumento sobre seus limites. Também reforça a tese da “estagnação secular” e do baixo crescimento econômico no restante do atual século. Neste início de ano, enquanto o FMI prevê um crescimento de 2,4% para o PIB dos EUA em 2016, diversos outros estudos apontam um crescimento abaixo de 2% ou mesmo uma recessão. Tudo indica que a Era do alto crescimento econômico é coisa do passado. A América Latina, por exemplo, vai ter dois anos de recessão e sem uma recuperação forte a vista.
A ideia de hiperprogresso e de avanço sem limite das forças produtivas é alimentada tanto por pensadores neoliberais, quanto marxistas, que acreditam na revolução científica e tecnológica. Por exemplo, a Singularidade tecnológica seria um evento histórico previsto para o futuro próximo no qual a humanidade atravessaria um estágio de colossal avanço tecnológico em um curtíssimo espaço de tempo. Os aceleracionistas, seguindo utopias de esquerda, sonham com um “tecnocapitalismo desterritorializado” e uma “infiltração tecnológica da agenda humana”. Mas como mostraram Danowski e Castro (2014), os chamados “tecnófilos cornucopianos” acreditam em um “capitalismo pós-industrial e vibrante”, mas desconsideram os limites colocados pelo Sistema Terra para viabilizar o grande salto adiante. O Paradoxo de Jevons mostra que os ganhos de eficiência provocados pela tecnologia podem reduzir o consumo de recursos naturais em termos microeconômicos, mas não em termos macroeconômicos. O mito da eficiência tecnológica é esclarecido no livro “The Jevons Paradox and the Myth of Resource Efficiency Improvements” dos autores John Polimeni, Kozo Mayumi, Mario Giampietro, & Blake Alcott (2007).
O próprio Painel Internacional de Recursos da ONU, que busca estabelecer políticas que possibilitem dissociar os efeitos do crescimento econômico do uso dos recursos naturais e dos seus impactos ambientais (decoupling), reconhece que, a despeito de todo avanço tecnológico, o uso global per capita de materiais continua crescendo, pois era de seis toneladas, em 1970, passou para oito toneladas, entre 1970 e 2000, chegando a dez toneladas, em 2010. Houve, portanto, aumento absoluto no uso dos materiais extraídos do meio ambiente. Mas também ocorreu crescimento relativo, pois a quantidade de material (kg) para produzir uma unidade de PIB (US$) passou de 1,2 kg, em 2000, para 1,4 kg, em 2010 (UNEP, 2015). Além disto, o nível de reciclagem é muito baixo e os ganhos microeconômicos são minimizados pela ampliação da demanda agregada. Desta forma, não custa lembrar o recado deixado por Mary Shelley, no livro Frankenstein, que já tinha alertado, em 1818, sobre os efeitos indesejados da tecnologia e da racionalidade, que em vez de gerar o progresso prometeico, pode gerar um monstro que assusta a raça humana.
Para quem faz apologia da tecnologia e acha que a ideia de desenvolvimento sustentável é o caminho para conciliar os avanços materiais e o meio ambiente, seria bom ler o livro de Ted Trainer: “Renewable Energy Cannot Sustain a Consumer Society”. Ele diz que a sociedade atual, assentada no triângulo indústria-riqueza-consumismo, é insustentável e injusta, envolvendo taxas de utilização de recursos per capita que são impossíveis de atingir e universalizar para toda a população. Ao contrário de um mundo de riquezas infinitas, ele propõe a simplicidade voluntária e o decrescimento. O sonho do desenvolvimento economicamente inclusivo, socialmente justo e ambientalmente sustentável virou um oxímoro e o tripé da sustentabilidade virou um trilema (Martine e Alves, 2015 e Alves, 2015).
Ninguém sabe, com certeza, como será o futuro. Neste segundo quindênio (2015-2030) do século XXI, quando a agenda global da ONU está centrada nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e no Acordo de Paris, aprovado na COP-21, o monitoramento mundial da agenda pós-2015 deveria contrabalançar a atenção entre o oba-oba da Quarta Revolução Industrial, de Klaus Schwab e a critica realista dos limites tecnológicos feitas por Robert Gordon. A sociedade afluente ainda é um sonho distante para a maioria da população mundial.
Referências:
Klaus Schwab. The fourth industrial revolution, World Economic Forum, Switzerland, 2016
Robert J. Gordon. The Rise and Fall of American Growth: The U.S. Standard of Living since the Civil War (The Princeton Economic History of the Western World), January 2016
DANOWSKI,D. CASTRO, E.V. Há um mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. Cultura e Barbárie, ISA. 2014
TRAINER, Ted. Renewable Energy Cannot Sustain a Consumer Society, Springer 2007
John Polimeni, Kozo Mayumi, Mario Giampietro, & Blake Alcott. The Jevons Paradox and the Myth of Resource Efficiency Improvements, Earthscan, 2007
UNEP. The International Resource Panel (IRP) United Nations Environment Programme, 2011.
MARTINE, G. ALVES, JED. Economia, sociedade e meio ambiente no século 21: tripé ou trilema da sustentabilidade? R. bras. Est. Pop. Rebep, n. 32, v. 3, Rio de Janeiro, 2015 (em portugues e em inglês)
ALVES, José Eustáquio Diniz. Os 70 anos da ONU e a agenda global para o segundo quindênio (2015-2030) do século XXI. Rev. bras. estud. popul. [online]. 2015, vol.32, n.3, pp. 587-598. ISSN 0102-3098.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 17/02/2016