"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 5 de março de 2016

Oriente Médio: O Califado aproxima-se do fim? (1ª Parte)

A guerra na Síria e no Iraque produziu dois novos Estados de fato nos últimos cinco anos – o Estado Islâmico e Rojava - e permitiu a um terceiro quase-Estado – o Governo Regional do Curdistão - ampliar substancialmente o seu território e poder. 

Artigo de Patrick Cockburn. A segunda parte deste artigo será publicada este domingo, dia 6 de março.

Foto da wikimedia.


Os dois novos Estados, ainda que não reconhecidos internacionalmente, são mais fortes militar e politicamente do que a maioria dos membros da ONU. Um deles é o Estado Islâmico (EI), que estabeleceu o seu Califado no este da Síria e no oeste do Iraque no verão de 2014 após capturar Mossul e derrotar o exército iraquiano. O segundo é Rojava, designação dada pelos curdos sírios à zona que controlam desde que o exército sírio se retirou em 2012, e que agora, graças a uma série de vitórias sobre o EI, se estende pelo norte da Síria entre o Tigre e o Eufrates. No Iraque, o Governo Regional do Curdistão (GRK), já muito autônomo, aproveitou a destruição, por parte do EI, da autoridade de Bagdá no norte do Iraque para expandir o seu território em 40 por cento, assumindo o controle de áreas há muito disputadas com Bagdá, incluindo os campos petrolíferos de Kirkuk e alguns distritos mistos curdo-árabes.
A pergunta é se estas mudanças radicais na geografia política do Oriente Médio persistirão - ou até que ponto persistirão - quando o atual conflito terminar. É provável que o Estado Islâmico acabe por ser destruído, tal é a pressão dos seus desunidos mas numerosos inimigos, ainda que os seus militantes continuem a ser uma força no Iraque, Síria e no resto do mundo islâmico. Os curdos encontram-se numa posição mais forte, beneficiando do apoio dos Estados Unidos, mas esse apoio só existe porque os curdos proporcionam cerca de 120.000 tropas terrestres, que, em cooperação com as forças aéreas da coligação liderada pelos Estados Unidos, demonstraram ser uma forma eficaz e politicamente aceitável de luta contra o EI. Os curdos temem que este apoio desapareça se e quando o EI for derrotado e receiam ficar à mercê dos governos centrais ressurgidos no Iraque e na Síria, bem como da Turquia e Arábia Saudita. "Não queremos que nos utilizem como carne de canhão para tomar Raqqa", disse-me um líder curdo sírio em Rojava no ano passado. Ouvi o mesmo este mês a cerca de 805 quilômetros a este, no território do GRK,perto de Halabja na fronteira iraniana, de Muhammad Haji Mahmud, um comandante Peshmergaveterano e secretário geral do Partido Socialista, que liderou um milhar de combatentes na defesa de Kirkuk contra o EI em 2014. O seu filho Atta morreu na batalha. Preocupa-lhe que "uma vez que Mossul seja libertado e o EI derrotado, os curdos não tenham o mesmo valor a nível internacional". Sem este apoio, o GRK seria incapaz de manter-se nos territórios em disputa.
A expansão dos estados curdos não agrada nenhum dos países da região, ainda que alguns - incluindo os governos de Bagdá e Damasco – considerem que este desenvolvimento os favorece temporariamente e, em todo caso, são demasiado débeis para se oporem. No entanto, a Turquia ficou profundamente horrorizada ao descobrir que a revolta síria de 2011, que esperava que marcasse o início de uma era de grande influência turca em todo o Médio Oriente, produziu, em seu lugar, um estado curdo que controla metade do lado sírio da fronteira turca a sul (de 885 quilômetros). Pior ainda, o partido no poder em Rojava é o Partido da União Democrática (PYD), que é em tudo menos na designação, o ramo sírio do Partido dos Trabalhadores do Curdistão(PKK), contra o qual Ancara tem vindo a travar uma guerra de guerrilha desde 1984. O PYD nega a relação, mas em todos os escritórios do PYD há uma foto na parede do líder do PKK, Abdullah Ocalan, que está numa prisão turca desde 1999. No decurso do ano que se seguiu à derrota do EI no cerco da cidade sírio-curda de Kobani, Rojava expandiu-se territorialmente em todas as direções, com os seus líderes a ignorar constantemente as ameaças da Turquia de uma intervenção militar. Em junho passado, as Unidades de Proteção Popular (YPG) sírio-curdas tomaram Tal Abyad, um importante ponto de passagem na fronteira com a Turquia a norte de Raqqa, permitindo que o PYD unisse dois dos seus três enclaves principais, próximo das cidades de Kobani e Qamishli; agora está a tentar unir o terceiro enclave, mais a oeste, em Afrin. Estes avanços rápidos apenas são possíveis porque as forças curdas estão a operar sob a proteção aérea liderada pelos Estados Unidos, que multiplica massivamente o seu poder de fogo. Eu estava a este de Tal Abyad pouco antes do ataque final das YPG e os aviões da coligação passavam continuamente por cima. Tanto na Síria como no Iraque, os curdos identificam os alvos, chamam os ataques aéreos e depois atuam como uma 'força de limpeza'. Onde o EI resiste e combate, sofre muitas baixas. No cerco de Kobani, que durou quatro meses e meio, 2.200 combatentes do EI pereceram, a sua maioria pelos ataques aéreos dos Estados Unidos.
Ancara advertiu várias vezes que se os curdos se moverem para oeste na direção de Afrin, o exército turco intervirá. Em concreto, estipulou que as YPG não devem cruzar o Eufrates: esta é uma "linha vermelha" para a Turquia. Mas quando em dezembro as YPG enviaram as suas milícias árabes, as Forças Democráticas da Síria (SDF), através do Eufrates pela barragem de Tishrin, os turcos não fizeram nada - em parte porque o avanço foi apoiado em diferentes fases por ataques aéreos norte americanos e russos contra alvos do EI. As objeções turcas tornaram-se cada vez mais descontroladas desde o início do ano, na medida em que as YPG e o exército sírio, ainda que a sua colaboração ativa não tenha sido comprovada, puseram em marcha o equivalente a um movimento de pinçai contra as linhas de abastecimento mais importantes do EI e da oposição síria, que passam por um estreito corredor entre a fronteira turca e Aleppo, outrora a maior cidade síria.A 2 de fevereiro, o exército sírio, apoiado por ataques aéreos russos, cortou o principal caminho para Aleppo e uma semana mais tarde o SDF conquistou a base aérea de Menagh da célula da Al-Qaeda na Síria, a Frente al-Nusra, que a Turquia tem vindo a ser acusada de apoiar de forma encoberta no passado. A 14 de fevereiro, a artilharia turca começou a disparar projeteis contra as forças que tinham capturado a base e a exigir a sua retirada. A complexa combinação de milícias, exércitos e grupos étnicos que lutam pelo controlo desta pequena mas vital área a norte de Aleppo faz com que os combates sejam confusos, mesmo para os padrões sírios. Mas se a oposição não tiver qualquer comunicação com a Turquia por algum tempo ficará seriamente, se não fatalmente, debilitada. Os estados sunitas - concretamente a Turquia, Arábia Saudita e Qatar – fracassarão na sua longa campanha para derrotar Bashar al-Assad. A Turquia enfrentará a perspetiva de um pequeno Estado hostil controlado pelo PKK ao longo do seu flanco sul, o que torna mais difícil sufocar a insurreição de nível reduzido mas de longa duração dirigida pelo PKK entre a minoria curda de 17 milhões existente no país.
Diz-se que Erdogan queria que a Turquia interviesse militarmente na Síria desde maio do ano passado, mas até agora foi travado pelos comandantes do exército. Eles argumentam que a Turquia estaria a entrar numa guerra muito complicada, na qual se oporia aos EUA, Rússia, Irão,ao exército sírio, ao PYD e EI, enquanto os seus únicos aliados seriam a Arábia Saudita e algumas das monarquias do Golfo. A participação na guerra da Síria seria, sem dúvida, um grande risco para a Turquia, que, apesar de todas as suas estrondosas denúncias do PYD e das YPG como "terroristas", se limitou em grande parte a pequenos atos de retaliação vingativa. Ao turco Ersin Umut Güler, um ator e diretor curdo em Istambul, foi negada autorização para levar para casa o corpo do seu irmão Aziz para ser enterrado, que tinha morrido a lutar contra o EI na Síria. Antes de pisar uma mina terrestre, Aziz tinha estado com as YPG, mas era um cidadão turco e pertencia a um partido radical socialista turco - não ao PKK. 'É como Antígona,' diz Ersin. O seu pai viajou para a Síria e nega-se a regressar sem o corpo, mas as autoridades turcas não cedem.
A resposta da Turquia à ascensão de Rojava é beligerante no tom, mas ambivalente na prática. Num dia, um ministro ameaça com uma invasão terrestre em grande escala e, no seguinte, outro responsável descarta essa hipótese ou condiciona-a à participação dos Estados Unidos, o que é pouco provável. A Turquia culpou as YPG pelo ataque com um carro bomba em Ancara que matou 28 pessoas a 17 de fevereiro, o que poderia aumentar as hipóteses de intervenção, mas, nos últimos tempos, as ações turcas foram incoerentes e contraproducentes. Quando, a 24 de novembro, um F-16 turco derrubou um bombardeiro russo, no que parece ter sido um ataque cuidadosamente planeado, o resultado previsível foi o envio, por parte da Rússia, de aviões de combate sofisticados e de sistemas de mísseis anti aéreos para garantir a sua supremacia aérea sobre o norte da Síria. Isto significa que se a Turquia lançasse uma invasão por terra, teria desfazê-lo sem cobertura aérea e as suas tropas ver-se-iam expostas aos bombardeamentos dos aviões russos e sírios. Muitos líderes políticos curdos argumentam que uma invasão militar turca é pouco provável: Fuad Hussein, chefe de gabinete do presidente do GRK, disse-me em Erbil no mês passado que "se a Turquia fosse intervir, tê-lo-ia feito antes de derrubar o bombardeiro russo” - ainda que isto pressuponha, certamente, que a Turquia sabe atuar em defesa dos seus próprios interesses. Ele argumenta que o conflito será decidido por dois fatores: quem está a ganhar no campo de batalha e a cooperação entre os EUA e a Rússia. "Para solucionar a crise”, referiu, “terá de ser através de um acordo entre as super potências” - e, pelo menos no Oriente Médio, a Rússia recuperou o status de super potência. A nova aliança flexível entre os EUA e a Rússia, ainda que interrompida por episódios de rivalidade ao estilo da Guerra Fria, resultou num acordo em Munique a 12 de fevereiro no sentido de fazer chegar ajuda a povos e cidades sitiadosda Síria e de um 'cessar de hostilidades' seguido por um cessar fogo mais formal. Será difícilalcançar uma inversão da escalada da crise, mas o facto de os EUA e a Rússia copresidirem ao grupo de trabalho que supervisiona este processo mostra até que ponto estão a substituir os poderes locais e regionais enquanto entidades decisoras na Síria.
A segunda parte deste artigo será publicada este domingo, dia 6 de março.

Artigo publicado no Counter Punch.
Tradução de Mariana Carneiro para o Esquerda.net.

i Manobra militar na qual os flancos do exército oponente são atacados simultaneamente por duas alas defensivas que se movimentam como braços de uma pinça.

Ocupação e nível educacional: o desperdício do bônus demográfico feminino


Artigo de José Eustáquio Diniz Alves
160304a

O data de 08 de março deveria ser motivo de comemoração do Dia Internacional da Mulher. Porém, a crise do mercado de trabalho feminino no Brasil não oferece motivos para festa. É mais um dia de luto, pois a luta histórica das mulheres está sendo derrotada pela falta de dinamismo da economia, especialmente, nos últimos 4 anos. O percentual de mulheres de 10 anos e mais ocupadas na semana de referência subiu de 40% para quase 48% entre janeiro de 2003 a dezembro de 2012, segundo a Pesquisa Mensal de Emprego, do IBGE, que cobre as seis principais regiões metropolitanas do Brasil (SP, RJ, BH, PoA, Salvador e Recife). O aumento ocorreu em função da mudança de composição, em decorrência da elevação do número de mulheres com níveis educacionais mais elevados, que possuem maior taxa de ocupação. No ritmo de 2003 a 2012, a taxa de ocupação poderia chegar entre 55% e 60%, nível necessário para aproveitar o bônus demográfico feminino. Porém, a partir de 2013, a taxa começou a cair e chegou a 43,2% em janeiro de 2016. Isto significa um grande desperdício da força de trabalho feminina e o desperdício do bônus demográfico.
Os últimos dados contrastam com o otimismo em relação ao que ocorreu entre 1950 e 2010. Durante 60 anos houve aumento das taxas de atividades femininas no Brasil. Neste período, a PEA masculina cresceu 3,6 vezes, enquanto a PEA feminina cresceu 16 vezes. As taxas de atividade masculinas caíram de 80,8% em 1950 para 67,1% em 2010, enquanto a taxa de atividade feminina passou de 13,6%, em 1950, para 48,9%, em 2010, segundo dados dos censos demográficos, do IBGE. Ou seja, as mulheres foram a locomotiva do crescimento do mercado de trabalho brasileiro e deram uma contribuição inestimável ao desenvolvimento do país. E o mais importante, foram as mulheres com maiores níveis educacionais que apresentaram as maiores taxas de atividade. Assim, uma enorme quantidade de mulheres qualificadas ajudaram o progresso civilizacional do Brasil.
Mas estas tendências de longo prazo foram interrompidas, especialmente nos últimos 3 anos e o colapso do mercado de trabalho ameaça jogar por terra conquistas históricas. O problema é que a atual estagflação não parece ser conjuntural, mas estrutural. A perda desta oportunidade única pode contribuir para o desempoderamento das mulheres brasileiras. Incrível que isto esteja acontecendo no momento em que o país apresentou diversos avanços nas relações de gênero.
O gráfico abaixo mostra que a taxa de ocupação, tanto para homens quanto para mulheres, cresce com o nível educacional. Porém, o crescimento é muito maior para o caso do sexo feminino. As mulheres com curso superior tinham taxas de ocupação (76,1%) muito próximas das taxas masculinas (85,6%), segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do IBGE. Este fato é encarado como um vetor de otimismo, pois significa que, no longo prazo, o aumento dos níveis de escolaridade das mulheres tende a elevar também as taxas de ocupação feminina no mercado de trabalho.

160304b

Contudo, as taxas de ocupação das mulheres com curso superior que estavam em torno de 80% até 2009, caíram para menos de 77% depois de 2010. Isto significa que os ganhos educacionais estão tendo um menor efeito sobre a inserção feminina no mercado de trabalho. Significa também um desperdício do potencial produtiva das mulheres com curso superior. No passado existia muita oferta de empregos para mulheres com curso superior e como o número de mulheres com curso universitário era relativamente pequeno, os salários eram altos e serviam de incentivo para a entrada da mulher no mercado de trabalho.

160304c

O número de mulheres com 25 anos ou mais passou de 48,7 milhões em 2002 para 66,8 milhões em 2014. O número de mulheres com curso superior no Brasil passou de 3,87 milhões em 2002 (8%) para 9,7 milhões em 2014 (14,5%). A percentagem de mulheres de 25 anos e mais com 15 anos ou mais de estudo passou de 8% em 2002 para 15% em 2014. Porém, a percentagem de mulheres de 15 anos e mais de estudo que estavam na População Economicamente Ativa (PEA) caiu de 82,6% em 2002 para 79,6% em 2014. E a percentagem de mulheres com curso superior fora da PEA subiu de 17,4% para 20,4% no período.

160304d

Portanto, o efeito do maior nível educacional sobre a taxa de participação da mulher no mercado de trabalho está diminuindo. Hoje em dia, a oferta de força de trabalho feminina com curso superior é maior do que a demanda. Com isto os salários e a qualidade dos novos postos caem, o que desincentiva a entrada da mulher na força de trabalho. Há ainda questão que muitas mulheres com curso superior, que entraram no mercado de trabalho nas décadas de 1970 e 1980 estão se aposentando e contribuindo para a queda da taxa de atividade. A queda da taxa de atividade das mulheres com curso superior é preocupante, pois significa que o efeito positivo, de longo prazo, do aumento do nível de educação das mulheres deve perder fôlego, prejudicando os ganhos no âmbito das famílias e da economia brasileira.
Além de tudo, os dados de 2015 e as estimativas para 2016 apontam para um agravamento do desemprego feminino, especialmente das mulheres mais escolarizadas. Nas 6 regiões metropolitanas da PME o desemprego feminino passou de 745 mil em dezembro de 2010 para mais de um milhão em janeiro de 2016. Já na PNAD contínua que cobre todo o Brasil, o desemprego aberto feminino, no final de 2015, ultrapassou a cifra de 5 milhões, sem contar o subemprego, o desalento e o desemprego oculto.
Os efeitos deletérios da estagflação de 2015 e 2016 podem ir muito além do espaço conjuntural. Há vários estudos mostrando que, além do sexênio perdido (2011-2016) o Brasil caminha para uma segunda década perdida. Assim, a taxa de atividade feminina deve continuar abaixo daquela alcançada em 2010, interrompendo os ganhos ocorridos entre 1950 e 2010. Como a razão de dependência demográfica continua caindo, isto significa que o Brasil está desperdiçando as últimas oportunidades do bônus demográfico feminino que, como vimos, foi fundamental para melhorar as condições de vida da população brasileira. Como as mulheres brasileiras possuem maiores níveis educacionais do que os homens, o não crescimento das taxas de ocupação feminina significa uma perda de uma oportunidade preciosa, podendo representar o fim do desenvolvimento, pois eram as mulheres com maior nível educacional que puxavam para cima o bônus demográfico brasileiro. Não é uma boa notícia para o Dia Internacional da Mulher.
Referências:
ALVES, JED. O precoce fim do bônus demográfico no Brasil. Ecodebate, RJ, 27/03/2015
ALVES, JED. Dilma: a presidenta exterminadora de empregos. Ecodebate, RJ, 02/09/2015
ALVES, JED. O sexênio (2011-16) perdido e a crise fiscal. Ecodebate, RJ, 03/02/2015

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 04/03/2016

sexta-feira, 4 de março de 2016

Wallerstein: A diminuição da demanda: se está rastejando com a realidade


por Immanuel Wallerstein

A ideologia neoliberal tem dominado o discurso mundial durante os primeiros quinze anos do século XXI. O mantra tem sido que a única política viável para os governos e movimentos sociais foi dar prioridade a uma coisa chamada mercado. A resistência a esta crença tornou-se mínima, já que até mesmo os partidos e movimentos que se diziam de esquerda ou, pelo menos, à esquerda do centro abandonou sua tradicional ênfase sobre as medidas de bem-estar social e aceitaram a validade desta posição orientada para o mercado. Eles argumentaram que, no máximo, se poderia suavizar seu impacto ao manter uma pequena parte das redes de segurança históricos que os Estados tinham construído ao longo de mais de 150 anos.

A política resultante era uma que reduziu o nível de tributação radicalmente sobre os mais ricos setores da população e, assim, aumentou a diferença de renda entre o setor mais rico e o resto da população. As empresas, especialmente as grandes empresas, foram capazes de aumentar seus níveis de lucro através da redução e/ou terceirização de empregos.

A justificação dada pelos seus proponentes foi a de que esta política, com o tempo recriaria os empregos que haviam sido perdidos e que haveria algum efeito trickle-down do aumento do valor que seria criado, permitindo que ao "mercado" prevalecer. Claro, permitindo ao mercado prevalecer na verdade exigiu ação política ao nível dos Estados. O chamado mercado nunca foi uma força independente da política. Mas essa verdade elementar foi diligentemente despercebida ou, se alguma vez discutida, ferozmente negada.

É que ao longo do dia? Existe o que um recente artigo no Le Monde chamou de retorno "tímido" pelas instituições do stableshiment a preocupação com a sustentação da demanda? Há pelo menos dois sinais disto, tanto de peso considerável. O Fundo Monetário Internacional (FMI) tinha sido o pilar mais forte da ideologia neoliberal, impondo as suas exigências a todos os governos que procuraram empréstimos a partir dele. No entanto, em um memorando divulgado em 24 de fevereiro de 2016, o FMI preocupado abertamente sobre como a demanda mundial que se tinha tornado anêmica. Pediu que os ministros das Finanças do G-20 movimentassem além das políticas monetárias para estimular os investimentos, em vez de poupança, a fim de sustentar a demanda pela criação de postos de trabalho. Este foi um giro para o FMI.

Mais ou menos ao mesmo tempo (18 de Fevereiro), a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), um segundo pilar importante da ideologia neoliberal, divulgou um memorando que anunciou um semelhante giro. Disse que era urgente se envolver "coletivamente" em ações que sustentam a demanda mundial.

Então, minha pergunta, está a realidade rastejando? Bem, sim, se apenas timidamente. O fato é que, em todo o mundo, o prometido "crescimento" na produção de valor acrescentado falhou a ocorrer. Naturalmente, o declínio é desigual. A China ainda está "crescendo", a um ritmo muito reduzido, que corre o risco de diminuir ainda mais. Os Estados Unidos ainda parece estar "em crescimento", em grande parte porque o dólar ainda parece ser o lugar relativamente seguro para os governos e os ricos para estacionar seu dinheiro. Mas a deflação parece ter se tornado a realidade dominante da maior parte da Europa e na maioria das chamadas economias emergentes do Sul global.

Estamos todos agora em um jogo de espera. Será que os tímidos movimentos recomendadas pelo FMI e pela OCDE estancarão a realidade do declínio da demanda mundial? Será que o dólar será capaz de resistir a uma maior perda de confiança na sua capacidade de ser um repositório estável de valor? Ou será que estamos caminhando para uma outra muito mais grave oscilação, selvagem no chamado mercado, com todas as consequências políticas, que sem dúvida, implica?

A diminuição da procura mundial é a consequência direta do declínio do emprego mundial. Nos passados 200, até 500 anos, cada vez que tem havido alguma mudança tecnológica que acabou com empregos em algum setor produtivo, esta foi rejeitada pelos trabalhadores que estavam perdendo. Os resistentes envolvidos na chamadas demandas Ludditas para manter a tecnologia anterior.

Politicamente, a resistência Luddita sempre provou ser bem-sucedida. As forças do estabelecimento sempre disseram que os novos empregos seriam criados para substituir os perdidos, e o crescimento seria renovado. Eles estavam certos. Novos postos de trabalho foram, de fato criados - mas não entre os chamados trabalhadores de colarinho azul. Em vez dos novos empregos foram nos chamados empregos de colarinho branco. Como resultado, a longo prazo, a economia-mundo viu uma redução de empregos de colarinho azul em todo o mundo e um aumento significativo da percentagem de trabalhadores de colarinho branco.

Foi sempre assumido que empregos de colarinho branco estavam isentos de eliminação. Estes trabalhos presumivelmente requerem um ser humano interagindo com outros seres humanos. Pensava-se que não havia máquinas que poderiam substituir o trabalhador humano. Bem, isso não é mais assim.

Tem havido um grande avanço tecnológico que permite que máquinas se envolvam em cálculos de enormes quantidades de dados até então no domínio de consultores financeiros de nível inferior. Na verdade, essas máquinas podem calcular dados que levaria muitas vidas de um indivíduo para calcular. O resultado é que essas máquinas estão em processo de eliminar os tais postos de trabalho de nível inferior "de colarinho branco". Para ter certeza, este ainda não tenha afetado o que poderia ser chamado de nível superior ou posições de supervisão. Mas pode-se ver onde o vento está soprando.

Quando posições "de colarinho branco" foram eliminadas ou reduzidas em número, elas eram de fato substituídas por novas posições "de colarinho branco". Quando, no entanto, hoje em dia, as posições "de colarinho branco" desaparecem, onde está o recipiente de novos postos de trabalho a ser criados? E se não puder ser localizado, o efeito geral é diminuir a demanda severamente eficaz.

Demanda efetiva, porém, é a condição sine qua non do capitalismo como um sistema histórico. Sem demanda efetiva, não pode haver acumulação de capital. Esta é a realidade que parece estar rastejando. Não é nenhuma surpresa então que a preocupação está sendo expressa. Não é provável, contudo, que as tentativas "tímidas" para lidar com esta nova realidade possam de fato fazer a diferença. A crise estrutural do nosso sistema está em plena floração. A grande questão não é como reparar o sistema, mas com o que substituí-lo.

Rompe-se a barragem, diga-se República

O Brasil está ingovernável! A república depende agora de decisões judiciais; esta sexta-feira 4 de março de 2016 marca o início do fim definitivo do modelo padrão seguido pela República de 1988, mais particularmente, depois do impeachment de Collor; o que ainda se tentava levar por argumentos conciliatórios agora serão resolvidos unicamente via embates.

Acaba-se uma república que tanto prometera e terminou morrendo numa mega operação jurídico-policial; não há parâmetro de comparação; muitos remetem ao impeachment de Fernando Collor de Mello, ora Collor fora eleito num PRN, apenas uma sigla de fumaça, numa eleição ultra polarizada com 32 candidaturas em primeiro turno.

O Brasil entra na incerteza; nunca nas últimas décadas uma república gigante como esta passou por tamanha crise de legitimidade; a opinião pública está dividida, caminhando para o confronto violento; a economia sem rumo em virtude de não se poder saber o que acontecerá na próxima manhã.

Não há soluções simplistas; e o que é pior não há estadistas de nenhuma forma; os líderes do governo e da oposição, se é que existem, não passam de idiotas; idiotas que sequer sabem dimensionar o que pode acontecer à nação; idiotas que ainda pensam que se trata de mera questão de transição; idiotas com discursos acusatórios, mas sem nenhuma confiança pública.

Quem se expressa é lixado, a nação se digladia nas ruas virtuais prenunciando graves crises nas ruas urbanas. Uma República sem voz oficial.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Bresser-Pereira: Diante de um mal maior

Por Luiz Carlos Bresser-Pereira

Em novembro do ano passado a nação descobriu, surpresa, que o senador Delcídio Amaral estava diretamente envolvido na corrupção envolvendo a Petrobrás e tentara impedir as investigações. Foi preso, e ficou desmoralizado. Hoje, no quadro do sistema infame de "vazamentos" promovidos pela operação Lava Jato, uma revista transcreve trechos de uma delação premiada desse senhor com acusações pesadas contra Dilma e Lula. Desta maneira, ele tenta reduzir a pena que certamente lhe será infligida pela Justiça. Como a cidadania deve olhar esse vazamento e seu conteúdo? A meu ver, com indignação.
Mas as elites brasileiras e, em particular, as elites rentistas e financistas, estão confusas. Deram uma guinada para a direita e colocaram como seu objetivo maior "salvar o Brasil" do PT, de Dilma e de Lula. Um pouco, devido aos erros que cometeram; muito, porque eles não se deixaram cooptar. Dado esse objetivo, que é transparente, essa elite é receptiva a qualquer acusação, a qualquer suspeita, que, imediatamente, faz a Bolsa de Valores cair, como caiu ontem. Delcídio sabe disto, e, para ter sua delação aceita pelo Judiciário, resolveu jogar tudo contra a presidente e o ex-presidente. Ele, hoje, desautorizou a revista, porque "o combinado" era que a delação só se tornaria pública seis meses mais tarde. Tornada pública agora, não vejo como o Congresso não cassará seu mandato.
Vivemos um momento em que promotores e um juiz parecem querer não deixar pedra sobre pedra no Brasil em nome de um moralismo radical. Contando com o apoio de uma classe média que guinou para direita e trocou a política pelo ódio. E com o apoio de políticos oportunistas e irresponsáveis, como Aécio Neves e Eduardo Cunha. Neste quadro, o único poder que está incólume é o do STF. Que provavelmente não homologará essa delação. O Executivo e o Legislativo estão sendo violentamente atacados. O Legislativo está especialmente vulnerável. Mas não devemos subestimar a qualidade cívica dos brasileiros e de seus políticos, e sua capacidade de reagir ao que está ocorrendo.
A operação Lava Jato está indo longe demais. Está violentando os direitos civis dos cidadãos - de políticos e empresários - ao promover o vazamentos de meras suspeitas que são transformadas em denúncias, e ao realizar prisões preventivas sem que haja necessidade - apenas para forçar delações. A Constituição brasileira afirma que "ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória". Este é um princípio fundamental que está sendo violentado pela combinação de ódio, moralismo e oportunismo.
Toda essa violência, além de implicar grandes prejuízos cívicos, implica prejuízos econômicos. Como é possível enfrentar os problemas econômicos graves que o Brasil enfrenta neste quadro institucional e político? Muitos querem derrubar o governo para "resolver" o problema. Mas não é através da violência e do desrespeito ao sistema constitucional de governo que existe no Brasil que se resolverá a violência que estamos vivendo.
Diante da crise econômica e moral, é preciso que nos unamos. Que se leve adiante o julgamento dos réus já definidos pela Operação Lava Jato, mas que se encerrem os vazamentos e as denúncias irresponsáveis. Diante da crise econômica, é preciso que os brasileiros deixem de lado o ódio e se voltem para a política; é preciso que deixem de se tratar como inimigos e se tratem como adversários, que, diante de um mal maior, provam serem capazes de se somar para enfrentá-lo e resolvê-lo

A crise fiscal e política e a explosão da dívida pública

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

160302a
Depois da crise econômica, nacional e internacional, de 2009, o governo brasileiro aumentou o gasto público para tentar estimular a economia, adotando uma política tipo keynesiana para elevar a demanda agregada. Porém, os resultados não foram positivos, pois o gasto público aumentou muito e a economia cresceu pouco (algo em torno de 2% ao ano) entre 2011 e 2014.
Mas o que estava ruim entre 2011 e 2014, piorou muito, pois o ano de 2015 foi de colapso geral da economia. O Produto Interno Bruto (PIB) teve a maior queda do século, enquanto a inflação e o desemprego subiram muito, contrariando, inclusive, o que é definido na “curva de Phillips”. Como consequência o Brasil entrou em estagflação.
O Brasil tem um grande déficit nominal, pois tem uma grande dívida pública e juros muito elevados. Para evitar que esta dívida aumentasse muito rapidamente foram gerados superavit primários (aquele sem contar o pagamento de juros) de cerca de 3% do PIB entre 2002 e 2008, ainda no governo Lula. Em 2011, o superavit primário foi de 3,1% do PIB e contribuiu para reduzir a dívida bruta do governo geral para 51,3% do PIB. Porém, o quadro se deteriorou rapidamente nos anos seguintes e entrou em colapso em 2014 e 2015.
Em 2014, o déficit primário foi de R$ 32,5 bilhões, representando -0,6% do PIB. Em 2015, o déficit explodiu para R$ 111,2 bilhões, representando 1,9% do PIB. Desta forma, a Dívida bruta do governo geral que estava em R$ 2 trilhões em dezembro de 2010, passou para R$ 2,7 trilhões em dezembro de 2013, para R$ 3,3 trilhões em dezembro de 2014 e R$ 3,9 trilhões em dezembro de 2015. Isto é uma trajetória explosiva, pois a dívida bruta absoluta cresce enquanto o PIB diminui.
160302b
Diante deste quadro seria preciso que o governo tomasse medidas urgentes para evitar que a situação piorasse em 2016. Porém, não é o que está acontecendo. Ao contrário, o PT – partido que está na Presidência da República – colocou a culpa do fracasso de 2015 na conta do ex-ministro Joaquim Levy, dizendo que o “austericídio” estava afundando a economia. Mas como os dados do Banco Central mostram, não houve cortes de gastos no ano passado, mas sim o maior déficit primário da história recente.
Como consequência da deterioração das contas públicas, a Standard and Poor’s (S&P) rebaixou novamente a nota de crédito soberano do Brasil no dia 17 de fevereiro, cinco meses após o país perder o selo de bom pagador pela mesma agência. O rating, que é usado como referência para os investidores estrangeiros aplicarem recursos no Brasil, foi cortado em um nível, passando de BB+ para BB, com perspectiva negativa.
Como resposta ao pessimismo das agências de avaliação de risco, no dia 19 de fevereiro, o ministro do Planejamento, Valdir Simão, anunciou cortes de mais de 23 bilhões (0,4% do PIB) no orçamento federal de 2016. Mas o ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, informou que neste ano o governo vai propor uma meta fiscal flexível. Que pode variar de um superavit de 24 bilhões até um deficit de cerca de 60 bilhões de reais nas contas públicas.
Na prática, o governo está dizendo que pode ter um déficit primário de cerca de 1% do PIB. Como a atividade econômica deve cair em torno de 4% em 2016, a dívida vai aumentar rapidamente, complicando muito o quadro da economia brasileira. Por exemplo, o governo diz que existe um grande déficit corrente e atuarial na previdência. Mas o PT e as centrais sindicais dizem que a previdência social é superavitária, pois os recursos constitucionais previstos estão sendo desviados para outras rubricas. Ou seja, existe um déficit e o déficit é crescente. Mas há discordância onde este déficit se encontra, pois caso não esteja na previdência, com certeza está em outro lugar, pois o orçamento não fecha.
Para agravar o desequilíbrio, o rombo acumulado dos quatro principais fundos de pensão de estatais — Correios (Postalis), Petrobras (Petros), Caixa Econômica Federal (Funcef) e Banco do Brasil (Previ) é monstruoso (estimativas apontam para mais de R$ 50 bilhões em 2015). Um estudo do pesquisador Marcelo Caetano, do Ipea, sobre os sistemas previdenciários de servidores dos estados, para deixar preocupado qualquer cidadão brasileiro, aponta para um déficit atuarial de R$ 2,4 trilhões. O rombo equivale a 43,9% do PIB e não dá para ser ignorado e a conta vai ser cobrada nas próximas décadas.
Além do mais, o Brasil terá dificuldade para aumentar impostos para lidar com estes déficits, pois já possui uma das maiores cargas tributárias do mundo (especialmente comparado com a qualidade dos serviços oferecidos). A carga tributária brasileira estava em torno de 20% do PIB no começo da Nova República e encontra-se atualmente em 35% do PIB. Por isso, a opinião pública prefere que se corte gastos ineficientes e se combata a corrupção, do que adotar a alternativa de aumentar impostos.
160302c
Segundo dados do DIEESE/SEADE a taxa de desemprego na região metropolitana de São Paulo atingiu 14% em janeiro de 2016. Enquanto isso, as crises fiscal e política se aprofundam e a credibilidade das instituições continua baixa. Segundo o CAGED, o número de empregos formais perdidos em janeiro de 2016 foi de praticamente 100 mil vagas. As projeções indicam uma redução de 2 milhões de empregos com carteira assinada em 2016. Em dois anos, desaparecerão 3,5 milhões de empregos formais e isto está atingindo a população mais escolarizada.
Em entrevista para o Estadão (21/02/2016), o economista-chefe do Itaú, Ilan Goldfajn, disse que o Brasil já caiu para a 2ª divisão e está no Z4 (zona de rebaixamento) rumo a 3ª divisão do campeonato econômico mundial. Ele vê um grande problema fiscal-político na cena nacional: “Neste momento, o País tem vulnerabilidade fiscal num momento de fragmentação política. A trajetória mais difícil é da dívida pública. A trajetória da inflação eu consigo ver caindo, e a de juros também consigo ver caindo. Também não acho que vai haver recessão para sempre. A trajetória da dívida me preocupa mais porque, com o déficit primário, vamos acabar tendo um déficit nominal grande. E a trajetória da dívida deve passar de 70% em direção a 80% em 2018”.
A temperatura política que estava amena entre o natal e o carnaval, aqueceu rapidamente depois da folia do Rei Momo. No dia 20 de fevereiro, o senador Delcídio do Amaral saiu da cadeia para a prisão domiciliar e o palco das intrigas no Congresso. No dia 22 de fevereiro, o marqueteiro das campanhas de Dilma, João Santana (e esposa), foi preso acusado de recebimento de propinas vindas do escândalo do petrolão. No dia 23, o programa partidário do PT foi recebido com um panelaço em todo o país (Dilma não participou do programa do seu partido). No dia 24 de fevereiro, a agência de classificação de risco Moody’s anunciou o rebaixamento da nota de crédito do país, significando que o Brasil perdeu o último selo de bom pagador que detinha em agências de risco. A Moody´s cortou a nota brasileira em dois degraus e colocou o viés negativo.
No encontro de comemoração dos 36 anos do PT – sem a presença da presidenta Dilma – O PT atacou o ajuste fiscal do ministro Nelson Barbosa e propôs um “programa nacional de emergência” para mudar a política econômica. O documento, aprovado pelo diretório nacional do partido, pede a redução dos juros, o aumento do gasto público e o uso das reservas cambiais para financiar obras. Defende um reajuste de 20% no Bolsa Família e a elevação de impostos sobre os mais ricos. E os petistas reclamaram do aval do Planalto às mudanças na lei do pré-sal. Há quem diga que o PT quer romper com Dilma e preparar a campanha presidencial de Lula, caso haja o impeachment da presidenta, seja no Congresso ou no TSE. Mas no sábado, dia 27/02, no encontro do PT, Lula disse: “Por mais que possamos ter divergências com qualquer pessoa do governo, esse governo é nosso e temos responsabilidade de fazer dar certo. A gente tem que ter claro e a Dilma tem que ter certeza é que o lado dela é esse, e ela precisa de nós para sobreviver aos ataques que vem sofrendo no Congresso”.
Na 130ª Pesquisa CNT/MDA, o governo Dilma Rousseff chegou a apenas 11% de aprovação, retomando uma leve tendência de alta de popularidade desde o fundo do poço (8%) em julho de 2015. Em detalhes, Dilma teve 1,7% de ótimo, 9,7% de bom, 25,2% de regular, 17% de ruim e 44,7% de péssimo na pesquisa. Mesmo com a pequena melhora, no geral, a avaliação é desencorajadora.
160302d
O governo se mostra sem força política para resolver os problemas econômicos e estes agravam as dificuldades políticas. As receitas públicas caem e os gastos aumentam. Os pilares do edifício estão rompendo e não há governança capaz de promover reformas e equilibrar a construção. O fato é que a dívida pública brasileira está ficando inadministrável, o que pode piorar ainda mais o quadro político depois dos dois anos da maior recessão, para um biênio, na história republicana. Também o atual sexênio (2011-2016) é o pior da história brasileira. O povo brasileiro já está suportando o insuportável. Será que o país aguentará o agravamento da situação em 2017 e 2018? Ou haverá uma grande ruptura e desestruturação ainda em 2016? O Brasil precisa, urgentemente, de uma saída consensual para o bem geral!

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 02/03/2016

STJ define data de entrada em vigor do NCPC

Rafael Alvim e Felipe Moreira


Interpretando o art. 1.045 do NCPC, o Pleno do Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu na data de ontem, 02/03/2016, por unanimidade, estabelecer o dia 18 de março de 2016 como marco inicial da vigência do Novo Código (Clique aqui e veja o texto na íntegra).

Melhor seria que o próprio legislador, por cautela, tivesse determinado a data exata da entrada em vigor do NCPC, a fim de evitar toda essa celeuma que se desencadeou em torno de uma questão que deveria ser muito direta e objetiva, uma vez que, em última análise, traduz-se de aspectos ligados à própria segurança jurídica.

Portanto, o Pleno do STJ fez bem em dar o norte necessário para a discussão, com a finalidade de colocar uma pá de cal no assunto e evitar diversos percalços de ordem prática.

Continue acompanhando conosco essas e outras novidades relacionadas ao NCPC. Nosso curso completo de 60 horas-aula sobre o Novo Código agora conta com uma aula exclusiva da Professora Teresa Arruda Alvim Wambier sobre as alterações trazidas pela Lei Federal nº 13.256/2016.


Governo se rende à Samarco (VALE/BHP Billiton)

O acordo realizado entre governo federal e Samarco (Vale/BHP Billiton) para a suposta reconstrução do rio Doce representa a rendição ao criminoso. Realizado em gabinetes e sem participação nenhuma das vítimas que foram atingidas, acordo cede ao réu todos os poderes para decidir sobre o futuro de uma região que ele mesmo destruiu.
Através de uma fundação privada, a mineradora administrará todos os recursos destinados à mitigação dos danos incalculáveis causados pelo rompimento da barragem do Fundão. No meio destes termos, não há nenhuma linha que garanta a participação dos atingidos. Ou seja, as principais vítimas dessa tragédia foram totalmente excluídas no processo de construção do acordo e também não terão o direito de opinar sobre a reconstrução de suas próprias vidas. Na verdade, as vítimas não terão o direito nem mesmo de se declararem como tal, porque este poder será exclusivo à própria Samarco.
As vítimas terão que provar que são atingidos e os agressores terão o poder de decidir quem é atingido e o que deve ser a reparação. Uma total violação de direitos que agora terá conivência dos governos e do judiciário.
Este fato demonstra a submissão dos governos, federal e estaduais, à Vale e à BHP Billiton. Este acordo é a constatação das promíscuas relações que se estabelecem mediante os financiamentos privados de campanha que, como já é sabido, decidem quais são os candidatos que ganham as eleições.
Em nenhum momento o governo se mostrou disposto a nos consultar sobre qualquer acordo. O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), enquanto principal movimento social de atingidos por barragens no Brasil, foi completamente ignorado. Fomos informados desse acordo pela própria imprensa, nacional e internacional, que nos ligaram a partir da denúncia realizada pela Agência Pública.
Todavia, esse acordo não é um fato consumado. Nesse mês de março, que marca a data de luta internacional de resistência contra as barragens, atingidos e atingidas de todo o Brasil sairão às ruas para denunciar e exigir o nosso direito de participação. Convocamos todos/as aqueles/as que queiram se somar nessa marcha.
Minério, água e energia não são mercadorias!
São Paulo, 2 de março.
Coordenação Nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens. 

quarta-feira, 2 de março de 2016

Quase 16 milhões de meninas nunca terão a chance de ir à escola

Total é o dobro na comparação com os meninos; atlas sobre desigualdade na educação é lançado em antecipação ao Dia Internacional da Mulher; maiores índices de disparidades estão nos países árabes e na África Subsaariana.
Quase 16 milhões de meninas entre seis e 11 anos de idade nunca terão a oportunidade de ir à escola. Foto: Unicef Cuba
Leda Letra, da Rádio ONU em Nova York.
Quase 16 milhões de meninas entre seis e 11 anos de idade nunca terão a chance de aprender a ler ou a escrever. Se a tendência atual continuar, 8 milhões de meninos não terão a oportunidade.
Este é o principal dado de um atlas sobre desigualdade de gênero na educação, lançado esta quarta-feira pela Unesco, em antecipação ao Dia Internacional da Mulher.
Africanas e Árabes
Segundo a agência da ONU para Educação, Ciência e Cultura, as meninas continuam sendo as primeiras a terem seu acesso à educação negado, apesar de todos os esforços e progressos feitos nos últimos 20 anos.
Os índices mais altos de disparidades são vistos em países árabes, na África Subsaariana e no sul e no oeste da Ásia. Na África Subsaariana, por exemplo, 9,5 milhões de meninas nunca pisarão em uma sala de aula, quase o dobro do total de meninos que não terão essa chance.
ODS
Mais de 30 milhões de crianças da região já estão fora da escola. Já no sul e no oeste da Ásia, 80% das meninas que não estão na escola nunca terão a oportunidade, comparado com 16% dos meninos. O problema afeta 4 milhões de garotas asiáticas e menos de 1 milhão de garotos.
A Unesco destaca que conflitos nos países árabes impedem que sejam feitas estimativas precisas sobre a situação, mas garante que as meninas são maioria das milhões de crianças excluídas das escolas.
A diretora-geral da agência afirmou que os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável nunca serão alcançados sem que haja o fim da discriminação e da pobreza que afeta a vida de tantas mulheres e meninas.
Irina Bokova pede mais trabalho dos líderes globais, para que a igualdade e a inclusão estejam no centro de políticas públicas, garantindo assim que todas as meninas consigam frequentar a escola.

América Latina e Caribe estão no caminho para erradicar fome e pobreza

Declaração foi feita pelo chefe da agência da ONU durante reunião no México; José Graziano da Silva afirmou que o mundo entrou na era dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
José Graziano da Silva discursa em conferência no México. Foto: FAO
Edgard Júnior, da Rádio ONU em Nova York.
O diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, FAO, José Graziano da Silva, afirmou que a América Latina e o Caribe estão seguindo o caminho para erradicar a fome e a pobreza.
Durante conferência regional da agência da ONU, que está sendo realizada no México, Graziano da Silva disse que "o mundo entrou numa nova era, a era dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável".
Ambiciosos
O chefe da FAO declarou que os dois primeiros objetivos, erradicar a pobreza e a fome até 2030, são os mais ambiciosos e importantes na história dos compromissos das Nações Unidas".
Para ele, a região da América Latina e do Caribe pode ser a primeira a atingir essa meta.
Graziano da Silva citou como exemplo que, em 1990, 14,7% da população dessa área sofria por causa da fome, com mais de 66 milhões de pessoas sem ter comida suficiente para comer.
O diretor-geral afirmou que a situação hoje é diferente. Atualmente o número de pessoas que passam fome caiu para 34 milhões, o que representa 5% da população.
2025
O chefe da FAO disse que a América Latina e o Caribe foi a única região no mundo que atingiu as metas de redução da fome estabelecidas pelos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, durante a Conferência Mundial de Alimentos, em 1996.
Aproveitando esse sucesso, os governos da área se comprometeram em acabar com a fome até 2025, cinco anos antes do prazo proposto pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, aprovados no ano passado durante conferência na sede da ONU, em Nova York.
Graziano da Silva explicou que para isso ser alcançado, os países estão implementando acordos regionais e nacionais para combater o problema, como a iniciativa "livre da fome" e a "segurança alimentar", da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e do Caribe, Celac.
Segundo a FAO, apesar de a fome e a pobreza terem diminuído na região, 7,1% das crianças com menos de cinco anos estão acima do peso e 22% dos adultos estão obesos.
O chefe da agência da ONU disse que "a situação das mulheres é particularmente preocupante porque a taxa de obesidade do grupo chega a 29% comparada com os 18% dos homens".

terça-feira, 1 de março de 2016

O filme "A grande aposta" ou como quebrar a banca com seu próprio veneno

por Marco Antonio Moreno



"A grande aposta" versão cinematográfica do livro de Michael Lewis The Big Short, foi o vencedor do Oscar de Melhor Roteiro adaptado na cerimônia de premiação no domingo. O filme segue a história de quatro personagens que previram a bolha imobiliária nos o Estados Unidos em meados da última década e é um dos filmes mais fortes sobre a crise financeira global. Adam McKay, diretor e co-roteirista escreveu com Charles Randolph, fez um trabalho notável para transmitir conceitos financeiros que são complexos e de difícil compreensão para o público de massa. O filme, como o romance de pesquisa Lewis incide sobre esses quatro personagens que, separadamente, consultam a podridão do sistema financeiro e tentam ganhar dinheiro apostando na queda.
Este livro-pesquisa descreve vários dos autores-chave na criação de swaps de crédito (Credit Default Swaps) e foi um best-seller quando foi publicado em 2010. O roteiro é bastante fiel ao do livro na sua nitidez e sagacidade, e centra-se sobre os mesmos personagens, apesar de terem sido renomeados. Michael Burry (Christian Bale) foi realmente um investidor de ações em Scion Capital, tirava os sapatos e ouvia a thrash metal em seu escritório. Mark Baum (Steve Carell) representa o gestor de fundos hedge Steve Eisman. Jared Vennett (Ryan Gosling) personifica o executivo e vendedor de bônus do Deutsche Bank, Greg Lippmann, enquanto Ben Rickert (Brad Pitt) é o operador de títulos Ben Hockett. Separadamente, esses quatro personagens detectaram em 2005, que havia um problema grave com títulos hipotecários e obrigações de dívida colateral (CDOs). Os não-pagamentos vão aumentando transformando em resíduos tóxicos o que foi validado com triplo A (ativo100% de certeza) por agências qualificadoras. Ninguém mais percebeu isso e para esses personagens a manipulação é evidente, percebendo que a desregulamentação financeira tem sido um fracasso. O sistema, que desde os anos 80 viveu uma desregulamentação total, foi completamente descarrilhado. O colapso é iminente, mas ambas as agências de rating, como bancos centrais asseguram que "tudo está bem".
Nos finais dos anos 70 e início dos anos 80, para os corretores e agentes financeiros "o mercado imobiliário é o mais sólido no mundo", como dizia Lewis Ranieri na origem de obrigações de dívida colateral (CDOs). Ranieri é quem promove a ideia de embalagem de milhares de hipotecas para ser vendidas como pão quente e impulsionar o mercado financeiro para as nuvens. Com a sua ideia seduz banqueiros para sacudir o torpor e ganhar dinheiro, um monte, um monte de dinheiro, transformando completamente o mercado ... "Qual é a classificação de crédito dessas obrigações de dívida colateral? Pergunte Ranieri o CEO do Salomon Brothers . "Triplo A" , Ranieri responde ..."Porque Ninguém nunca deixa de pagar sua hipoteca" . "isso é o que precisamos , "responde o banqueiro. E começam as apostas que vão impulsionar a economia por duas décadas. Duas décadas de armadilhas, enganos e manipulação.

As mentiras de um sistema desequilibrado

O filme é preciso no curso histórico dos acontecimentos. Por um lado, estes quatro personagens detectam falhas em um sistema que se tornou totalmente fraudulento e, por outro, a voz da corrente dominante, liderada pelo presidente da Reserva Federal, Alan Greenspan, dizendo que "a economia está saudável e que não há nenhuma bolha à vista." Depois das palavras de Greenspan os mercados de ações disparam e a bolha segue inchando.
A grande aposta está focada nas personalidades destes atores diretamente envolvidos no sistema financeiro, apostando contra ele quando eles sentem que tudo é uma grande decepção. Os níveis surpreendentes de negação e ocultação entre os reguladores, agências de rating e banqueiros, encorajados pela ganância, que até o último minuto repetindo as palavras de Greenspan de que "o mercado imobiliário é sólido como uma rocha" . Eles apostam contra o sistema e em muitos casos são acusados de estar "apostando contra o país." A segurança e a convicção de que estão enfrentando o colapso dá-lhes longas horas amargas quando o mercado em vez de dar continua encumbrando como eles acumulam perda após a perda. Eles têm de passar mais de dois anos para que a intuição destes quatro personagens se torna verdadeira e do sistema financeiro colapse.
Michael Burry é um dos primeiros a detectar o mecanismo de transmissão da crise no início. Se a inadimplência das hipotecas continua a subir o que poderia ser uma correção no mercado imobiliário vai se tornar uma crise financeira global em toda a linha. Apostar contra, assim como permitir que os CDS o façam, é uma maneira segura de fazê-los cair em sua própria armadilha. Os bancos optaram pela solvência desses valores e o mais leve movimento inverso pode levar à insolvência todo o sistema. Na verdade, tão certo era essa noção de que, desde o início da crise, em agosto de 2007, o mercado de crédito congelou para sempre. A existência de taxas negativas cobradas pelos bancos centrais, desde 2014, é o badalar da morte do sistema financeiro.
Enquanto para Michael Lewis estes quatro personagens são os que  "detectaram a bolha imobiliária", deve ser notado que nas alturas de 2005, a bolha imobiliária era iminente e vários artigos em The Economist e The New York Times, assim como os escritos formidáveis ​​de Steve Keen entre muitos outros, perceberam uma bolha prestes a estourar. Que Alan Greenspan e outros banqueiros tenham sido responsáveis ​​por negar isso por tanto tempo, apenas confirma a realidade desses personagens que não foram capazes de ver o que estava acontecendo debaixo dos seus narizes.