"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 12 de março de 2016

Balança mas não cai?

Ministério Público de S. Paulo pede a prisão do ex-presidente Lula da Silva, mas o pedido é tão desastrado que atrai críticas até do principal partido da oposição, o PSDB. Este fim de semana, ocorre nova manifestação pelo afastamento de Dilma Rousseff. Presidente garante que não renuncia e convida Lula para ministro do seu governo. 

Por Luis Leiria.

Até agora, Lula recusou entrar no governo, mas não esconde a pretensão de se candidatar em 2018
Até agora, Lula recusou entrar no governo, mas não esconde a pretensão de se candidatar em 2018
O pedido de prisão preventiva de Lula da Silva, apresentado a uma juíza criminal por três promotores do Ministério Público de S. Paulo, ganhou celebridade instantânea por dois motivos. O primeiro, pela dramaticidade da medida, inédita em relação a um ex-presidente. Acusado de ocultar património ao negar ser o proprietário de um apartamento na praia do Guarujá, Lula, alegam os promotores, deve ser preso preventivamente porque pode prejudicar a investigação, destruindo provas, e representar um perigo para a manutenção da ordem pública, insuflando a população contra o judiciário e tendo fácil acesso a meios de fuga. O segundo, pela falta de fundamentação concreta e pelos erros grosseiros do texto de 13 páginas, que procura mostrar erudição mas confunde Hegel com Engels e cita Nietzsche atribuindo-lhe a ideia de que “todos os seres humanos estão no mesmo plano".
Resultado: as redes sociais foram inundadas de posts humorísticos acerca da passagem do texto em que os promotores afirmam que as condutas de Lula “certamente deixariam Marx e Hegel envergonhados”, quando evidentemente queriam dizer Engels e não Hegel. De tal forma que o assunto “Marx e Hegel” entrou na lista dos trending topics do Twiter no Brasil. “É muito irónico que o Lula seja ofendido de burro por não ter ensino superior e o pedido de prisão para ele tenha um erro tipo Marx e Hegel” – este é apenas um exemplo das centenas de comentários twitados.
Até o líder do PSDB, o principal partido da oposição, no Senado, Cássio Cunha Lima, criticou os promotores, afirmando não haver fundamentos para autorizar a prisão preventiva de Lula
A juíza Maria Priscilla Veiga Oliveira, do Tribunal criminal de S. Paulo, ainda não decidiu se aceita ou não o pedido de prisão, mas avisou que a decisão "demandará algum tempo". Só que ainda antes do veredito, o requerimento dos três promotores está a conseguir o que parecia impossível: a quase unanimidade a condená-lo. Até o líder do PSDB, o principal partido da oposição, no Senado, Cássio Cunha Lima, o criticou, afirmando não haver fundamentos para autorizar a prisão preventiva de Lula.
“Não faz o menor sentido, a prisão preventiva em caso de perigo à ordem pública é usada quando a liberdade da pessoa gera algum tipo de risco difuso para a sociedade. Discordar das decisões judiciárias, dar coletiva de imprensa e pedir apoio da militância é liberdade de expressão, um direito constitucional. Ele não pode discordar do Ministério Público?”, argumentou o jurista Thiago Bottino ao El País Brasil.
O jornal Folha de S. Paulo, que não nutre qualquer simpatia pelo ex-presidente, resumiu em editorial: “[os promotores] obtiveram um quase absoluto consenso. Foi tamanha a inépcia de suas pretensões que, do governo à oposição, de defensores intransigentes do impeachment a convictos militantes petistas, não houve quem não criticasse a iniciativa”.
A ação do Ministério Público paulista está a ser vista como uma tentativa precipitada dos promotores Cassio Conserino, José Carlos Blat e Fernando Henrique Araújo ganharem protagonismo em tempos de judicialização da política, quando os magistrados se exibem com as vestes de justiceiros. Os promotores paulistas estariam antecipando-se ao juiz Sérgio Moro, de Curitiba, que dirige a Operação Lava Jato, e que também investiga o apartamento do Guarujá. Mas o tiro saiu pela culatra e os três promotores já estão a ser chamados de “os três patetas”.
O facto, porém, de as investigações sobre corrupção no Brasil se concentrarem agora sobre o ex-presidente Lula da Silva teve o efeito de regar com gasolina o incêndio da crise política brasileira, acirrando os ânimos e dando novo impulso ao movimento que pede o afastamento (impeachment) da presidente Dilma Rousseff.
Impeachment volta à ribalta
O movimento pelo afastamento da presidente Dilma Rousseff estava, até há pouco, claramente enfraquecido. Por um lado, os últimos protestos, em agosto, tiveram uma participação abaixo do esperado, e muito inferior aos de 15 de março do ano passado. Por outro, o principal aliado dos defensores do impeachment, o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, perdeu qualquer autoridade moral para levar adiante no Parlamento o processo legal de afastamento da presidente, por estar ele próprio envolvido até o pescoço na corrupção investigada pela Lava Jato.
Mas uma reportagem publicada na revista Isto É em 3 de março dando conta da existência de um depoimento do senador Delcídio do Amaral, ex-líder do governo no Senado, que envolveria tanto Dilma Rousseff quanto Lula da Silva no escândalo do “Petrolão”, veio reacender o ânimo dos defensores do impeachment. No dia seguinte, houve o episódio do interrogatório forçado de Lula, e agora o pedido de prisão do ex-presidente. Mesmo sendo certo que ambas as iniciativas foram desastradas e não tiveram o efeito pretendido, é igualmente verdade que reacenderam tensões e provavelmente deram um impulso às manifestações pelo impeachment de Dilma que já estavam marcadas para este domingo dia 13 de março.
Da dimensão das mobilizações pró-impeachment deste domingo pode depender em grande parte o futuro do governo de Dilma Rousseff
Da dimensão destas mobilizações, convocadas por movimentos cívicos de direita e também pelo PSDB, que fez anúncios na televisão a apelar à participação, dependerá em grande parte a possibilidade de Dilma Rousseff se manter na Presidência.
Outro acontecimento decisivo neste fim de semana é a convenção nacional do PMDB, partido do vice-presidente Michel Temer e principal aliado do PT no governo. O PMDB está dividido entre os que defendem a manutenção do compromisso com o governo (o partido tem sete ministérios) e os que pugnam pelo rompimento. Se o PMDB rompesse com o governo, este ficaria literalmente suspenso no ar, sem base parlamentar maioritária de qualquer tipo, nem na Câmara dos Deputados, nem no Senado. Mas o PMDB é o partido que procura sempre ficar por cima e, por isso, à cautela, e aguardando os próximos acontecimentos, fez um acordo interno entre as suas alas para adiar a decisão em relação ao governo por um prazo de pelo menos 30 dias.
Desorientação no PT
Do lado dos apoiantes do governo, parece reinar a desorientação. Desde que começou o mandato, Dilma Rousseff vem aplicando uma tática conciliadora com os partidos adversários, que consistiu em aplicar as principais bandeiras não do seu próprio programa, mas sim do programa dos adversários que perderam as eleições. Foi o caso do ajuste fiscal – medidas de cortes orçamentais e de benefícios sociais e de aumentos de impostos – levado a cabo pelo então ministro da Fazenda (Finanças) Joaquim Levy, um gestor que a presidente foi buscar à banca. Foi o caso da recentemente aprovada lei antiterrorista, que é acusada de servir para reprimir os movimentos sociais, e também das medidas que enfraquecem ainda mais a Petrobrás e entregam às multinacionais boa parte da exploração petrolífera do Pré-Sal. Todas estas medidas levaram à erosão da base social do governo, mas não foram suficientes para apaziguar a oposição.
Nos últimos dias, a presidente foi forçada a afirmar que não se demite e não se resigna com a situação, e terá convidado Lula a entrar no governo como ministro, no Ministério que ele quisesse. A entrada de Lula no governo permitir-lhe-ia escapar do assédio da Lava Jato, já que lhe daria o chamado foro privilegiado, que faria que ele só pudesse ser julgado pelo Supremo Tribunal. Por outro lado, a vinculação direta de Lula com o governo que atingiu o grau de popularidade mais baixo de sempre e no momento em que o país está mergulhado numa profunda recessão (-3,8% no ano passado) poderia comprometer seriamente as aspirações eleitorais do ex-presidente para as eleições de 2018, onde aparece bem colocado nas sondagens. Até agora, Lula recusou o convite.
Por lado, o PT decidiu cancelar uma manifestação de apoio a Dilma e a Lula convocada para o mesmo domingo para S. Paulo, devido ao risco de ocorrerem confrontos. Os defensores do governo de Dilma, agrupados na Frente Brasil Popular, estão a chamar manifestações nas capitais de estado, contra o golpe e em defesa da democracia, na sexta 18 de março. Na última vez que houve uma disputa nas ruas, a direita pró-impeachment mobilizou muito mais gente que os defensores do governo.
Outra manifestação, com objetivos mais abrangentes, é chamada pela Frente Povo Sem Medo para o dia 31 de março, em Brasília. Levanta bandeiras concretas como contra a anunciada Reforma da Previdência, a privatização da Petrobrás, a Lei Anti-terrorismo e a criminalização dos movimentos sociais, contra o ajuste fiscal e os cortes nos investimentos sociais, em defesa do emprego e dos direitos dos trabalhadores, pela saída de Eduardo Cunha da presidência da Câmara dos Deputados e contra o impeachment de Dilma Rousseff.

Novas regras para o pré-sal e o desinvestimento em combustíveis fósseis


Artigo de José Eustáquio Diniz Alves
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O sonho do Eldorado do pré-sal foi por água abaixo. Ou melhor, continua debaixo d’água, pois é difícil extrair lucro das riquezas localizadas abaixo dos cinco mil metros de profundidade de rochas que, por sua vez, estão debaixo de 2 mil metros de água do oceano Atlântico. Iludiu-se quem esperava rios de dinheiro do “ouro negro” abissal e dos royalties do pré-sal para a educação e a saúde.
O Brasil está pior hoje do que estava há 10 anos, antes da descoberta do pré-sal. A maldição do petróleo atingiu em cheio o país. Contando com o “ovo na cloaca da galinha”, o Brasil comprou fiado e disparou a comer omelete. Houve endividamento geral da Petrobras, dos estados e dos municípios. Benfeitorias foram pessimamente planejadas e viraram esqueletos de malfeitorias. O Brasil continua com pouco petróleo, mas com muita dívida, “elefantes brancos”, desemprego e muita sucata espalhada por cidades como Itaboraí, no Rio de Janeiro.
Reportagem do jornal El País constata o fracasso do polo petroquímico Comperj – que foi apresentado “como o maior empreendimento único da Petrobras e um dos maiores do mundo no setor”: “Quase uma década depois de seu anúncio, o Comperj é talvez a melhor ilustração da corrupção, das ineficiências e do intervencionismo político que gangrenam a Petrobras, a maior empresa do Brasil, guardiã das reservas de petróleo e até pouco tempo motivo de orgulho nacional. Como ponto forte de um longo decálogo de más práticas sobressai a redução drástica e súbita do Comperj original – inicialmente, a ideia era criar um polo petroquímico, mas agora tudo se resumirá a uma refinaria com capacidade diária para 165.000 barris –, sem que essa degradação tenha evitado, porém, que o custo orçamentário triplicasse, até os atuais 70 bilhões de reais. Uma cifra colossal à qual terão de ser adicionados alguns milhões mais para concluir as obras, hoje paradas, com 85% terminado”.
O Brasil continua um país importador líquido de petróleo (como mostra o gráfico acima), apesar de todo o dinheiro gasto e da enorme dívida que a Petrobras contraiu. O fato é que o consumo manteve-se sempre maior do que a produção e o sonho de país exportador líquido de petróleo ainda está distante.
O gráfico abaixo, apresentado no jornal Valor, por Fábio Pupo e Lucas Marchesini (Valor, 22/01/16) mostra que o déficit na balança comercial de petróleo do Brasil aumentou até 2013, quando atingiu a elevada soma de US$ 20,4 bilhões. Com a desaceleração da economia em 2014 o déficit caiu um pouco para US$ 17 bilhões. Mas foi com a grande recessão de 2015 que o déficit se reduziu para US$ 5,7 bilhões e talvez possa até ser zerado em 2016, com a nova queda do PIB. Ou seja, a redução do déficit está ocorrendo via “ajuste recessivo”, pois as exportações caem desde 2012.

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Diante da crise da Petrobras e das dificuldades para a exploração do pré-sal, o Senado Federal aprovou no dia 24/02/2016, por 40 votos favoráveis, 26 contrários e duas abstenções, o texto substitutivo do projeto de lei que altera as regras de exploração de petróleo do pré-sal. O projeto de autoria do senador José Serra (PSDB-SP) retira da Petrobras a exclusividade das atividades no pré-sal e acaba com a obrigação de a estatal a participar com pelo menos 30% dos investimentos em todos os consórcios de exploração da camada.
Segundo o jornalista Josias de Souza, o governo foi derrotado pela realidade: “Estruturado no governo Lula, o assalto à Petrobras deixou a companhia em petição de miséria. E o lema do governo —‘O pré-sal é nosso’— sofreu um envelhecimento precoce, tornado-se um anacronismo ideológico. Estabeleceu-se uma ilusão paralisante. Sem dinheiro, a Petrobras nem explora o pré-sal nem pode desocupar as reservas”.
É preciso ter claro que a proposta do senador do PSDB teve apoio da base aliada do governo e contou até com a concordância da Presidenta, como relata Souza: “Informada de que sua infantaria, liderada pelo PT, seria esmagada, a presidente deu meia-volta. Negociou com o relator Romero Jucá a inclusão da Presidência da República no processo decisório sobre os campos do pré-sal. A bancada petista no Senado decepcionou-se com a rendição de Dilma. Manifestantes de entidades como UNE e CUT, que faziam barulho nos corredores do Congresso, tornaram-se sócios da decepção. O projeto ainda será submetido ao crivo da Câmara. Mas Dilma já é vista como uma espécie de Vênus de Milo. Nos próximos dias, o petismo e seus adeptos travarão infindáveis debates sobre a forma como madame perdeu os braços”.
O site 247 informa que o Senador Roberto Requião (PMDB-PR) disse: “Dilma diz uma coisa e governo débil, frouxo e sem convicção tem outra prática. Se alia com Serra e entrega o pré sal. Despreza luta histórica”. E o Senador petista Lindbergh Farias criticou no mesmo dia: “A mudança de orientação do governo, durante a tarde de hoje, nos deixou perplexos e desarmou nossa luta, abrindo mão do enfrentamento em prol de um péssimo acordo com o PSDB que causa um prejuízo enorme ao Brasil”.
Outro elemento que complexifica a equação é a variável meio ambiente e a necessidade que o Brasil tem de cumprir o Acordo de Paris, que estabelece o objetivo de manter o aumento da temperatura média global abaixo de 2º C ou até mesmo abaixo de 1,5º C. Isso significa que a humanidade não poderá emitir mais do que 850 bilhões de toneladas de CO2 daqui para frente. Isto traz uma pressão para se manter as reservas no subsolo, para evitar o aumento da emissão dos gases de efeito estufa. Enquanto houver necessidade de reduzir as emissões, o risco do investimento no pré-sal se manterá alto. Assim, o futuro do pré-sal fica comprometido devido ao preço baixo do petróleo no mercado internacional e a necessidade de se enfrentar o aquecimento global

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O fato é que o pré-sal tem fracassado e, de certa forma, contribuiu para que o Brasil passe pela maior recessão de sua história. O sonho do Eldorado que forneceria recursos para a educação, a saúde e os municípios virou pesadelo. Em vez de industrialização liderada pelos combustíveis fósseis, temos uma grande desindustrialização do país e aumento das taxas de desemprego. Liberar a exclusividade da Petrobras é apenas mais um retrocesso da proposta de fortalecer os campeões nacionais e engrandecer o capital nacional. Há uma briga pelo espólio de um projeto que fracassou e que, até aqui, só trouxe ilusão e prejuízo ao povo brasileiro.
Mas o lado bom é que quanto mais petróleo e gás for deixado no subsolo menor será os efeitos negativos no aquecimento global. Para evitar o agravamento do aquecimento global, antes da COP-21, foi lançada a campanha pelo desinvestimento em energias fósseis visando reduzir o aumento da concentração de CO2 na atmosfera. A campanha pelo desinvestimento cobra de governos, empresas e instituições a retirada de recursos de combustíveis fósseis. O investimento em petrolíferas é um perigo tanto para o clima quanto para o capital dos investidores. Até mesmo a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC) aderiu às mobilizações globais pelo desinvestimento em combustíveis fósseis.
Agora em 2016 foi lançado o “Leap Manifesto”, que já conta com a assinatura de milhares de pessoas e organizações. No Brasil está marcado um evento no dia 1 de maio, nas Cataratas do Iguaçu, que pretende convocar a população para ajudar a manter o petróleo e o gás no solo. O mundo está em uma encruzilhada e o caminho alternativo está nas energias renováveis, na eficiência energética e na redução das atividades antrópicas.
Referências:
Josias de Souza. Derrotada pela realidade, Dilma cede no pré-sal. Blog, 24/02/2016

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 11/03/2016

sexta-feira, 11 de março de 2016

"Combate ao zika necessita de melhores serviços de água e saneamento"

Relator especial da ONU afirmou que essa é a melhor resposta contra o vírus; Léo Heller disse que "existe uma forte ligação entre sistemas de saneamento deficientes e o surto do mosquito Aedes Aegypt".
O relator da ONU declarou que "há uma forte ligação entre sistemas de saneamento deficientes e o surto do mosquito transmissor do zika vírus”. Foto: ONU/JC McIlwaine
Edgard Júnior, da Rádio ONU em Nova York.
O relator especial da ONU sobre os direitos humanos para água potável e saneamento, Léo Heller, afirmou que a melhor resposta para combater o zika vírus é através de um aprimoramento dos serviços de água e saneamento.
O professor Heller disse que "enquanto o mundo busca soluções de alta tecnologia para combater o vírus, não se pode esquecer do péssimo estado do acesso à água e ao saneamento pela população mais pobre".
Mosquitos Estéreis
Segundo ele, esse é um fator determinante no direito à saúde. O relator explicou que os cientistas podem criar mosquitos estéreis ou utilizar aplicações sofisticadas na internet para mapear os dados globais sobre a doença.
Mas Heller afirmou que centenas de milhões de pessoas na América Latina ainda não têm acesso a sistemas de saneamento e 70 milhões não têm água encanada em suas casas.
O relator da ONU declarou que "há uma forte ligação entre sistemas de saneamento deficientes e o surto do mosquito transmissor do zika vírus e também da dengue, da febre amarela e chikungunya".
Heller disse que a região da América Latina alcançou os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio em relação à água em 2010, mas os avanços ainda não atingiram todos os países.
Microcefalia e Guillain-Barré
Quanto ao saneamento, o relator afirmou que a meta ainda não foi alcançada e "3 milhões de pessoas ainda fazem suas necessidades a céu aberto".
Heller diz que na América Latina, os mais pobres e marginalizados são os que mais sofrem com o zika vírus, que têm ligações com a microcefalia e a síndrome Guillain-Barré, como também de outras doenças transmitidas por mosquitos.
Ele deixou claro que "os governos da região devem acelerar a melhora dos sistemas de abastecimento de água e saneamento, em particular, das populações consideradas mais vulneráveis".
Heller afirmou que, com isso, será possível salvar vidas em face à crise de saúde global que está se desenrolando no mundo.

quinta-feira, 10 de março de 2016

Os bancos centrais estão realmente sem munição? O que ocorre com o dinheiro de helicóptero

por Adair Turner
A economia global enfrenta um problema crônico de demanda nominal deficiente. O Japão está sofrendo de crescimento perto de zero e inflação mínima. A inflação da zona do euro, mais uma vez tornou-se negativa, e a inflação britânica é zero e o crescimento econômico está a abrandar. A economia dos EUA está um pouco mais robusto, mas mesmo aí a recuperação da crise financeira de 2008 continua a ser muito lenta, as taxas de emprego estão bem abaixo dos níveis de 2007, e a inflação anual não atingirá a meta do Federal Reserve de 2% por vários anos.
Adair TurnerMas o debate sobre quais políticas podem impulsionar a demanda continua a ser inadequado, evasivo, e confuso. Em Xangai, os chanceleres do G-20 comprometeram-se a usar todas as ferramentas disponíveis - estruturais, monetárias e fiscais - para aumentar as taxas de crescimento e evitar a deflação. Mas muitos dos principais jogadores estão mais dispostos a apontar o que eles não podem fazer do que o que podem.
Os bancos centrais freqüentemente salientam os limites de seus poderes, e lamentam a falta de progresso do governo em direção à "reforma estrutural" - uma frase utilizada para cobrir a liberalização do comércio, reformas laborais e do produto no mercado, e as medidas para enfrentar os desafios orçamentais de médio prazo, e as medidas aumentam a idade de aposentadoria. Mas enquanto alguns deles podem aumentar o crescimento potencial a longo prazo, quase nenhuma pode fazer qualquer diferença nas taxas de crescimento ou inflação ao longo dos próximos 1-3 anos.
De fato, algumas reformas estruturais, tais como o aumento da flexibilidade do mercado de trabalho (digamos, tornando mais fácil demitir trabalhadores), inicialmente pode ter um efeito negativo sobre a confiança do consumidor e o gasto. Vagas referências a "reforma estrutural" deve idealmente ser banidas, com todos obrigados a especificar quais reformas em particular que estão falando e o calendário de quaisquer benefícios que serão alcançados.
Se o problema central é a insuficiente demanda global, unicamente política monetária ou fiscal pode resolvê-lo. Mas os banqueiros centrais têm razão em salientar os limites do que a política monetária sozinha pode conseguir.
O Banco do Japão introduziu recentemente as taxas de juros negativas, e na próxima semana o Banco Central Europeu vai levar a sua própria taxa ainda mais em território negativo ou lançar flexibilização ainda mais quantitativa (QE). Mas essas alavancas podem fazer pouca diferença para o consumo real da economia e do investimento.
As taxas de juros negativas são destinadas a estimular a demanda de crédito entre as empresas e as famílias. Mas se os bancos não estão dispostos a impor taxas negativas sobre os depositantes, a consequência real e perversa poderia ser mais altas taxas de empréstimos que os bancos tentam manter as margens em face das perdas de funcionamento que agora eles fazem em suas reservas do banco central.
Como Mark Carney, governador do Banco de Inglaterra, tem  observado, as taxas de juros negativas devem ser usadas ​​apenas em formas que estimulam a demanda global em geral, ao invés de simplesmente mover a demanda de um país para outro através de desvalorização competitiva. Mas o logro de atingir esses estímulos via taxas de juros negativas pode ser impossível. O potencial para ainda mais QE para mudar o comportamento da economia real é igualmente claro.
Isto significa que a demanda nominal vai subir apenas se os governos implementarem a política fiscal para reduzir impostos ou aumentar as despesas públicas - por sua vez, a de Milton Friedman.  "No fluxo de renda", colocando nova demanda diretamente, mas o mundo está cheio de governos que se sentem incapazes de fazer isto.
O Ministério das Finanças do Japão está convencido de que deve reduzir o seu grande déficit fiscal através de aumentos no imposto sobre vendas em abril de 2017. As regras da Zona Euro significam que muitos países membros estão empenhados em reduzir os seus défices. A chanceler britânico do Tesouro, George Osborne, também está determinado a reduzir, e não aumentar, o déficit de seu país.
O mantra padrão oficial tornou-se assim que os países que ainda têm "espaço fiscal" deve usá-lo. Mas não há motivos para crer que os candidatos mais óbvios - como a Alemanha - vai realmente fazer alguma coisa. E não há certeza de que, mesmo se todos os países que têm espaço fiscal utilizem-no, o impulso para a demanda global seria suficiente.
Esses impasses têm alimentado medo crescente de que estamos "sem munição" para combater o crescimento inadequado e potencial deflação. Mas se o nosso problema é a demanda nominal inadequada, há uma política que irá funcionar sempre. Se os governos têm déficits fiscais maiores e financiam este não com dívida com juros, mas com o dinheiro do banco central - a demanda nominal, sem dúvida, aumenta, produzindo certa mistura de inflação mais elevada e maior produção real.
A opção do chamado "dinheiro de helicóptero" é, portanto,  cada vez mais discutidaMas o debate sobre o assunto está repleto de confusões.
Afirma-se frequentemente que a monetização dos déficits fiscais iria comprometer os bancos centrais a manter as taxas de juro baixas para sempre, uma abordagem que é obrigada a produzir a inflação excessiva. Argumenta-se, simultaneamente (às vezes até mesmo pelas mesmas pessoas), que o financiamento monetário não iria estimular a demanda porque as pessoas vão temer um futuro com "imposto inflacionário".
Ambas as afirmações não podem ser verdade; na realidade, nem é. Pequenos déficits de dinheiro-financiado produziria apenas um impacto mínimo sobre a demanda nominal: muito grandes iria produzir inflação alta. Em algum lugar no meio há uma política ótima - uma proposição de senso comum que é muitas vezes ausente do debate.
No meio da confusão, o realmente importante, a questão política, é ignorado: se podemos criar regras e alocar responsabilidades institucionais para garantir que o financiamento monetário seja usado apenas de forma adequada, moderada e disciplinada, ou se a tentação de usá-lo em excesso vai provar irresistível. Se irresponsabilidade política é inevitável, nós realmente estamos sem munição que possamos usar sem atingir a nós mesmos. Mas se, como eu acredito, o problema de disciplina pode ser resolvido, temos de começar a formular as regras e distribuição de responsabilidades certas.
Uma coisa é certa: Baseando-se em reformas estruturais, sobre as políticas puramente monetárias, ou nas políticas fiscais disponíveis para os governos que acreditam que todos os défices devem ser financiados com a dívida não irá reverter a deficiência crônica a nível mundial da demanda nominal.
Project Syndicate
Adair Turner, ex-presidente da Autoridade de Serviços Financeiros do Reino Unido, é um membro do Comitê de Política Financeira do Reino Unido e da Câmara dos Lordes. Ele também é presidente do INET.

Dívida global é de 200 trilhões de dólares

Desde a crise de 2007 e até 2014, a dívida a nível mundial aumentou cerca de 60 trilhões de dólares. Em 2014, o montante da dívida global era de 200 trilhões, quase o triplo do produto global.

Imagem de StockMonkeys.com, Chris Potter/flickr

No passado dia 22 de fevereiro a Bloomberg publicou um artigo, assinado por Matthew Philips, que tem como título “The World’s Debt is Alarmingly High. But is it Contagious?”. Na primeira parte desta nota, reproduzo o essencial do artigo publicado pela Bloomberg; em segundo lugar, acrescento mais informação; e por último, apresento algumas considerações.
Aumento de 60 biliões e stock de 200 biliões
Segundo Philips, desde a crise de 2007 e até 2014, a dívida a nível mundial aumentou em cerca de 60 trilhões de dólares. O stock de dívida atinge assim os 200 trilhões; é aproximadamente três vezes o tamanho da economia mundial. E falta acrescentar a dívida de 2015.
Depois de 2008, os investidores despejaram somas enormes na China, no Brasil e noutros mercados emergentes para lucrar com a subida dos preços das matérias primas e com o crescimento mais rápido destas economias. Os bancos abriram a torneira e deram uma onda de novos créditos a empresas e famílias. Assim, desde 2009, o nível médio de dívida privada nas economias emergentes subiu de 75% do PIB para 125%, de acordo com o Banco de Pagamentos Internacionais. Os níveis de dívida privada na China e no Brasil são agora do tamanho do dobro dessas economias. Neste momento, a preocupação concentra-se na dívida chinesa, que triplicou desde 2009, passando de 10 para 30 trilhões de dólares, segundo as últimas estimativas da McKinsey. Os maiores aumentos ocorreram no setor empresarial, onde as grandes empresas estatais receberam créditos dos bancos estatais. Kyle Bass, fundador do fundo de cobertura Hayman Capital Management, que previu a crise subprime de 2008, e fez uma fortuna com isso, informou os seus investidores que os bancos estatais da China poderão assumir perdas de até 3,5 trilhões de dólares, quatro vezes mais do que o que tiveram os bancos dos EUA durante a crise financeira de 2008 [Acrescento a este ponto: na carta enviada a 10 de fevereiro aos investidores, que tem como título “A experiência de 34 trilhões: O sistema bancário da China e o maior desequilíbrio macro do mundo”, Bass sustenta que o sistema bancário chinês tem semelhanças com o sistema bancário dos EUA anterior à mais recente crise –excessiva alavancagem e tomada de risco irresponsável].
No entanto, continua Philips, os empréstimos na China continuam a bater recordes. O problema é que independentemente do crédito que se acrescentar, a travagem da economia chinesa é inevitável. Por isso, acrescentar a alavancagem de um sistema já alavancado só pode fazer com que o ajustamento final seja mais penoso. Apesar de Philips afirmar que o perigo de contágio pode não ser alto, uma vez que a maior parte da dívida está em yuanes e esta moeda não é plenamente convertível. Mas isto não significa que o resto do mundo está a salvo dos riscos crescentes da bomba da dívida chinesa. Os perigos viram-se claramente quando as preocupações com um crescimento econômico que está a abrandar levaram a um início de ano, historicamente mau, nas ações. Por agora, não há perigo de implosão da dívida, enquanto o Governo dos EUA continuar a dar dinheiro para sustentar o sistema financeiro. Mas não gera crescimento. Além disso, durante décadas a China investiu os seus excedentes nos títulos do Tesouro dos EUA, mas agora este fluxo secou.
Relatório McKinsey Global 2015 sobre a dívida
Matthew Philips apoia-se, por sua vez, num relatório de fevereiro de 2015 do McKinsey Global Institute, elaborado por Richard Dobbs, Susan Lund, Jonathan Woetzel e Mina Mutafchieva, que tem como título “Debt and (not much) deleveraging”. Os autores baseiam-se em dados e estatísticas de BIS, FMI, Haver Analytics e McKinsey Global Institute.
Depois de assinalar que a dívida global aumentou em 57 trilhões de dólares e que nenhuma grande economia baixou o ratio dívida/PIB desde 2007, afirma que a dívida pública nas economias avançadas, o aumento da dívida das famílias e a rápida subida da dívida chinesa são áreas de potencial preocupação. A dívida global aumentou em 17 pontos percentuais do PIB, desde 2007.
A dívida pública aumentou, de 2007 a 2014, em 25 trilhões, e continuará a crescer em muitos países. Relativamente à dívida das famílias, a alavancagem baixou em EUA, Espanha, Irlanda e Grã-Bretanha; mas o racio dívida/rendimentos continuou a crescer em muitos outros países, superando em alguns casos os picos anteriores a 2008, entre eles, Canadá, Austrália, Dinamarca, Suécia, Holanda, Malásia, Coreia do Sul e Tailândia. E a dívida chinesa quadruplicou desde 2007, de 7 trilhões para 28 trilhões de dólares em 2014, representando 282% do PIB (um nível mais alto do que o dos EUA ou da Alemanha). Metade de todos os empréstimos estão ligados, direta ou indiretamente, com o sobre-expandido mercado imobiliário chinês. O setor bancário na sombra (shadow banking), que não está regulado, é responsável por aproximadamente metade dos novos empréstimos. E a dívida de muitos governos locais é possivelmente incontrolável.
Outros dados
FMI informou, em setembro de 2015, que os níveis de dívida das empresas nas economias dos mercados emergentes aumentou, particularmente na construção, petróleo e gás, devido às baixas taxas de juro nas economias avançadas e a outros fatores globais. A dívida das empresas não financeiras dos mercados emergentes aumentou fortemente, de aproximadamente 4 trilhões de dólares em 2004 para mais de 18 trilhões em 2014. O aumento da relação dívida/ativos, conhecida comummente como alavancagem, tem incluído com frequência uma porção maior de passivos em moeda estrangeira. A relação dívida empresarial dos mercados emergentes/PIB aumentou 26 pontos percentuais, ainda que com importantes diferenças entre os países. A alavancagem empresarial subiu marcadamente em China e Turquia, e em vários países de América Latina, por exemplo Chile, Brasil, México, Peru e Colômbia.
Por outro lado, segundo a Standard & Poor’s, o número de defaults empresariais a nível global em 2015 chegou a 102, o dobro de 2014 e o nível mais alto desde 2009. Um terço foi no setor do petróleo, gás e energia. A maior quantidade ocorreu nos EUA; nos países atrasados ou em desenvolvimento houve 19; na Europa 13, e o resto foi em países avançados como Japão ou Canadá. Para além de petróleo e gás, os setores mais afetados, por ordem decrescente, foram mineração, aço, produtores de bens de consumo e banca. A dívida das companhias globais que são qualificadas pela Standard & Poor’s atingiu, em 2015, o nível de três vezes as receitas antes de juros, impostos, depreciações e amortizações. É o mais alto desde 2003, e 2,8 vezes o de 2014.
Como resultado, os spreads dos títulos de alto rendimento nos EUA têm estado a aumentar desde junho de 2014, o que é um sinal de deterioração das condições nos mercados de crédito. Recordemos que os spreads de crédito e as margens de lucro são indicadores que antecipam recessões. À medida que caem os preços do petróleo, dos metais e de outras matérias primas, as empresas devem reavaliar os seus ativos, o que por sua vez piora as condições para tomar créditos. Isto é, o aumento de falências traduz-se no facto de os prestamistas exigirem taxas mais altas.
Por último, acrescento alguns dados retirados do 85º Relatório Anual do BPI (ou BIS na sigla em inglês). Depois da crise, aumentou consideravelmente a dívida pública detida pelo setor público. A maior parte concentrou-se nos bancos centrais emissores da sua própria moeda. Entre 2008 e 2014 a sua participação no volume de dívida pública em circulação cresceu de 6% até mais de 18%; isto é, de 1 trilhão de dólares para 5,7 trilhões (segundo os dados de EUA, Japão, Grã-Bretanha e zona euro). Além de adquirir dívida do Governo, as instituições oficiais compraram importantes volumes de outros títulos de dívida. Por exemplo, os emitidos por agências norte-americanas nas mãos da Reserva Federal aumentaram em mais de 1,7 trilhões de dólares entre 2008 e 2014. O BIS previa que a média do rácio dívida pública/PIB atingiria, em fins de 2015, os 120% nas economias avançadas, contra 75% antes da crise. No Japão, o rácio em 2015 era 234%, na Grécia 180% e em Itália 149%.
Algumas considerações
Tudo indica que este extraordinário crescimento da dívida é uma manifestação da debilidade da economia global, questão que temos tratado em textos anteriores. À quase estagnação da zona euro e do Japão, e aos retrocessos de Brasil e Rússia, soma-se a China. Ainda que a dívida chinesa esteja principalmente em yuanes, como assinala a nota da Bloomberg, uma falência no sistema bancário (isto é, uma desvalorização em massa de capital produto da crise de sobreacumulação) não deixará de se repercutir a nível mundial. Numa nota anterior escrevíamos:
“Se a bolha imobiliária esvazia, poderá desencadear um processo em espiral descendente de consequências importantes. ‘As instituições financeiras bancárias enfrentam desafios provenientes do aumento da volatilidade da liquidez de curto prazo e do aumento do risco do crédito, devido ao impacto do menor crescimento, ao ajustamento estrutural e aos esforços para reduzir o excesso de capacidade instalada’, diz um relatório da Associação Bancária Chinesa, de junho de 2014. Algumas publicações (por exemplo, The Economist) e analistas pensam, no entanto, que dadas as reservas chinesas, e o facto de a dívida estar denominada em yuanes, não haverá uma queda catastrófica como a ocorrida depois do afundamento do Lehman, em 2008. Mas ainda nesse cenário - e há razões para suspeitar que é demasiado otimista - afetaria a taxa de crescimento chinesa. O estouro da bolha poderá criar um cenário de falências de bancos e empresas financeiras, e forte desvalorização dos capitais. E a verdade é que todos os indicadores apontam que a bolha adquiriu consideráveis dimensões. Como assinala a Bloomberg (16/06/14), ‘cada vez mais economistas advertem que a China poderá estar a aproximar-se de um ‘momento Minsky’, quando um boom especulativo chega a um súbito e desagradável final, em que a acumulação de dívida supera o fluxo de caixa’.
É impossível pensar que, dadas as relações comerciais e os investimentos na China, não haveria repercussões nos mercados financeiros asiáticos, e daí para o resto do mundo; e sobre as economias de Austrália, Coreia do Sul, Hong Kong, Taiwan e Japão, em primeiro lugar. Assim como sobre as economias exportadoras de matérias primas, entre elas as latino-americanas” (aqui).
No que respeita à dívida global das empresas, não se pode prever se haverá uma crise num prazo próximo, mas o aumento das taxas pedidas pelos empréstimos às empresas com problemas põe maior pressão sobre a rentabilidade, afeta o mercado acionista e piora as condições gerais do crédito. A alavancagem das empresas atingiu o nível mais alto na última década, e cada vez mais empresas não estão a gerar o suficiente valor (ou mais-valia) sobre os seus investimentos que lhes permita cumprir com as dívidas. Apesar de as taxas de juro permanecerem baixas, num meio de pressões deflacionárias (nos EUA, na zona euro e no Japão a taxa de inflação está longe do objetivo de 2%), de sobrecapacidade e de sobreacumulação globais, as condições financeiras podem deteriorar-se rapidamente.
Tenhamos presente também que o quadro é uma situação de pletora de capital, isto é, abundância de capital dinheiro que não foi para investimento produtivo. Grande parte dos empréstimos tomados pelas empresas a taxas baixas foi utilizada em fusões e aquisições, que não ampliam a capacidade produtiva nem a procura. Outra parte destinou-se a recomprar ações ou pagar dividendos. O que aumenta os ganhos dos acionistas e potencia o capital fictício, mas também não aumenta a criação de valor. Numa altura em que a economia mundial está débil, os problemas de cumprimento dos encargos com estas dívidas agudizam-se. As empresas com qualificação de “grau de investimento” têm grandes montantes de cash, e podem resistir, por agora, à baixa nos mercados. Mas muitas estão muito comprometidas, e quando se desencadear um crash, costumam produzir-se movimentos de tipo dominó que afetam todos os sectores. Em 2015, a S&P baixou a qualificação de crédito a 863 empresas, o maior número desde 2009. A pressão sobre a rentabilidade das empresas é forte; e a queda da rentabilidade após o pagamento de juros tende a preceder as crises e a viragem para a recessão. Por isso, ao contrário do que ocorreu em 2007-9, desta vez o foco da crise financeira poderá estar no endividamento empresarial (que era baixo há uma década atrás) e não tanto nas famílias. Acrescentemos que as empresas de muitos países atrasados não só são altamente vulneráveis a um aumento das taxas de juro, mas também as desvalorizações das moedas dos países em que operam põem um peso adicional no serviço da dívida em dólares ou euros. Tudo isto com o horizonte da queda dos preços das matérias primas.
Quanto à dívida pública, o seu extraordinário aumento nos principais países capitalistas foi facilitado pelas taxas de juro extremamente baixas. Mas a despesa estatal não compensa a debilidade da acumulação. Só ajuda a sustentar a procura, via gasto improdutivo de mais-valia, sem dar solução ao problema de fundo, enquanto se acumula dívida. Por isso, no médio prazo não é sustentável manter a procura com base no défice público. Estas histórias terminam inevitavelmente com desvalorizações em massa de capital (um default é isso, uma desvalorização de capitais).
Além disso, desde o início da crise em 2007 os bancos centrais aumentaram os seus balanços ao comprarem principalmente dívida soberana e dívida de bancos. Estas compras foram financiadas com expansão da base monetária. Só entre 2007 e 2011 esta duplicou, em termos de percentagem do PIB. Enormes quantidades de títulos e empréstimos de duvidosa qualidade estão hoje nos ativos dos bancos centrais. Entre 2008 e 2016, os ativos somados da Reserva Federal, do Banco Central Europeu, do Banco de Japão e do Banco Popular da China passaram de aproximadamente 6,4 trilhões de dólares para 16 trilhões. Deste total, 4,5 trilhões correspondem à FED (http://www.yardeni.com/pub/peacockfedecbassets.pdf). Trata-se de uma imensa massa de capital fictício, que não tem contrapartida na riqueza nem no capital real, e que por si mesma não tem conseguido, nem conseguirá, tirar as economias da estagnação.
Em conclusão, estes dados parecem indicar que por agora continuará o crescimento global débil e vacilante, enquanto se acumulam pressões que podem terminar num crash e na desvalorização abrupta de gigantescas somas do capital. Com as consequências penosas que estas “revoluções do valor” têm para as massas trabalhadoras de todo o mundo.
Artigo de Rolando Astarita, professor de economia da Universidade de Buenos Aires, publicado no seu blogue. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

Mesmo com recessão, comércio global de bens culturais dobrou em 10 anos

Balanço feito pela Unesco mostra que em 2013, o comércio de jóias, esculturas, pinturas, música e livros totalizou US$ 212 bilhões; participação do Brasil nesse mercado está crescendo; exportação de jornais e revistas caiu 9%.

Leda Letra, da Rádio ONU em Nova York.

O comércio de bens culturais gerou US$ 212,8 bilhões em 2013, o dobro dos números registrados em 2004, segundo novo relatório da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, Unesco.
O bom desempenho ocorreu mesmo com a recessão global e com o aumento do consumo de vídeos e de música pela internet. O comércio de jóias, principalmente as de ouro, aumentou 271% no mundo, movimentando mais de US$ 100 bilhões.
Brasil
Outros bens que estão sendo comercializados cada vez mais são: esculturas (+ 180%), pinturas (+ 80%) e artesanato (+ 57%). O relatório aponta o Brasil como um participante cada vez mais ativo na exportação de quadros movimentando US$ 80 milhões no período de 10 anos.
Com a digitalização de notícias, filmes e músicas, o comércio global desses bens culturais caiu bastante entre 2004 e 2013. O documento nota que crescem cada vez mais as assinaturas online desses serviços, por isso o impacto negativo do comércio foi forte nessas indústrias.
Era Digital
A exportação de bens cinematrográficos diminuiu 88%, a de bens musicais caiu 27% e a exportação de jornais e de revistas foi 9% menor. Por outro lado, o mercado de videogames viu seu comércio subir 140% e o de livros, 20%.
A China é o país líder na exportação de bens culturais, totalizando mais de US$ 60 bilhões em 2013. Na sequência estão os Estados Unidos, que gerou receitas de US$ 27,9 bilhões.
Com a transição cada vez maior dos bens culturais para o mundo digital, o relatório nota que está cada vez mais difícil obter dados precisos sobre este tipo de comércio.
A recomendação é para maior cooperação entre organizações internacionais, especialmente na promoção das estatísticas sobre o comércio cultural.

O PIB brasileiro: anuênio, biênio, triênio, quadriênio, quinquênio, sexênio, septênio, octênio, novênio e decênio

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

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O IBGE divulgou os dados das Contas Nacionais, dia 03 de março, apontando uma queda do Produto Interno Bruto de 3,8% em 2015, em relação a 2014. A queda do PIB resultou do recuo de 3,3% do valor adicionado a preços básicos e da contração de 7,3% nos impostos sobre produtos. a Agropecuária (1,8%) apresentou expansão de 1,8%, e a Indústria retração de -6,2% e os Serviços -2,7%. Em 2015, o PIB brasileiro totalizou R$ 5,9 trilhões (valores correntes). O PIB per capita ficou em R$ 28.876 em 2015, com queda de 4,6%, em volume, em relação ao ano anterior.

O Brasil, na segunda década do século XXI, está mal na fita do crescimento econômico de longo prazo, qualquer que seja o espaço temporal analisado. O IPEADATA disponibiliza uma série histórica do crescimento do PIB desde 1901. No presente artigo, utilizamos a série do IPEA, atualizada pela nova metodologia de cálculo das Contas Nacionais, divulgada pelo IBGE, em março de 2015. Os novos critérios utilizados elevaram o crescimento do PIB, especialmente entre 2010 e 2014. Mas no conjunto – mesmo com as mudanças metodológicas – a série é bastante ilustrativa do comportamento da economia brasileira no longo prazo. No dia 03 de março o IBGE divulgou os dados de 2015, quando o PIB brasileiro variou para baixo em -3,8%. O FMI projeta queda de 4% em 2016.

Nas contas apresentadas pelo IBGE, o investimento caiu fortemente em 2015 e acumulou retração de 14,1% em um ano. No quarto trimestre, frente ao mesmo período de 2014, a queda foi de 18,5%. Isso tem carregado automaticamente uma recessão para 2016. Houve também queda do emprego e do rendimento dos trabalhadores. Com a queda da massa salarial, os empresários olham o cenário e enxergam oportunidades para expandir suas estruturas de produção. Assim, as perspectivas de recuperação ficam cada vez mais distantes.

O primeiro gráfico (Anuênio) mostra as taxas anuais de crescimento do PIB no Brasil entre 1901 e 2016. Nota-se que somente em 6 anos o Brasil teve queda do produto acima de 3%, sendo duas vezes no governo Dilma. No segundo gráfico, apresentamos as mesmas taxas anuais de variação do PIB, mas também a média móvel de dois anos (Biênio). Somente duas vezes na história o PIB caiu em dois anos consecutivos, em 1930-31 e 2015-16. Mas o biênio atual marca a pior recessão da história brasileira do período. Os demais gráficos mostram os triênios, quadriênios, quinquênios, sexênios, septênios, octênios, novênios e decênios. Qualquer que seja o período analisado, o momento atual está entre o pior ou o segundo pior, como pode ser visto abaixo:

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Os dados acima não deixam dúvidas de que a economia brasileira está entrando em um período de baixo crescimento e que a segunda década do século XXI pode ser pior do que a década perdida dos anos de 1980. Em termos econômicos o Brasil está em retrocesso. Se este quadro não mudar rapidamente a crise vai se espalhar para todas as áreas e o país pode passar por uma situação de implosão social.
Autores como Michael Snyder já falam em colapso da economia brasileira e latinoamericana. O gráfico abaixo mostra que a variação trimestral foi de -5,9% no quarto trimestre de 2015 em relação ao quarto trimestre de 2014. Ou seja, a economia não chegou no fundo do poço. Ao contrário, a recessão está caminhando para uma depressão. É necessário uma grande e urgente mudança de rumo.
Referências:

SNYDER, Michael. The Economic Collapse Of South America Is Well Underway, Blog, 03/03/2016

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 09/03/2016



quarta-feira, 9 de março de 2016

57% da população mundial não tem acesso à Internet

Por Manuel Moreno em Cuarto Poder

Infografia do relatório “Estado da conectividade 2015"




Embora o desenvolvimento da Internet e das novas tecnologias em nossa sociedade nos façam pensar que vivemos em um mundo 100% conectado, a realidade é muito diferente: no planeta Terra são ainda é maioria as pessoas que não têm acesso à World Wide Web e que não conhecem muitos dos avanços tecnológicos que nos países ocidentais estão na ordem do dia. 

Por exemplo, relógios inteligentes - com conexão à Internet - são conhecidos por menos do que 15% da população mundial, enquanto as redes de ligação de alta velocidade - o chamado 4G - ainda não está disponível nem para 10% do planeta e isso, embora existam territórios onde já se começou a experimentar conexões 5G.

Estes são alguns dos exemplos do denominado "fosso digital" que, longe de ser reduzida é acentuada ao longo dos anos. Assim mostra o "estudo Estado de Conectividade 2015: Relatório sobre a Internet global" realizado por Internet.org, uma organização não governamental criada por Mark Zuckerberg (fundador do Facebook) e tem como um dos seus objetivos principais levar a Internet para todas as partes do globo.

A associação tem muito trabalho ainda pela frente. O relatório afirma que ainda há 4.1 bilhões de pessoas no mundo que não têm acesso à Internet . Ou seja, 57% da população do mundo, mais de metade, está ainda desligada da World Wide Web.

O número de utilizadores da Internet é atualmente de cerca de 3.2 bilhões de pessoas em todo o mundo. Embora seja verdade que há apenas um ano foi de 2.9 bilhões e que o crescimento tem sido espetacular nos últimos 12 meses, ainda há muito para conseguir conectar toda a população mundial adulta (mais de 7.5 bilhões de pessoas).

Entre as razões que apenas 43% da população mundial esteja conectada à Internet destaca que mais de 1.6 bilhões de pessoas ainda vivem em áreas onde não há nenhuma cobertura móvel de qualquer tipo, nem mesmo com bandas 2G ou 3G.

Outro problema que limita o acesso dos cidadãos à Internet é o custo dos dados. Enquanto nos países ocidentais o preço do GB é de cerca de 6 euros, nos territórios mais desfavorecidas e com piores conexões à rede o custo da Internet aumenta consideravelmente. Isso faz com que 43% da população mundial não possa se dar ao luxo de contratar uma conexão de 500 MB para a Internet com um operador local. Sua renda mensal é inferior ao custo de um mínimo de conexão de rede.

Adicionado a isso é que muitos lugares difíceis do planeta não chegam conexões de Internet terrestres. Na verdade, 2.7 bilhões de pessoas dependem de redes móveis para ter acesso à World Wide Web e isso significa que eles têm que fazer um maior esforço financeiro para estarem on-line . Estima-se que os indivíduos que devem conectar-se à Internet via telefone pagam até três vezes mais para a mesma largura de banda do que aqueles que o fazem por meio de linhas terrestres.

Junto com as outras limitações técnicas e econômicas são impostas outras séries de razões, tais como a falta de conteúdo relevante on-line em alguns idiomas. Aqui outra falsa percepção ocorre: enquanto o espanhol é a segunda língua mais usada na Internet (apenas atrás de Inglês e à frente do Chinês), existem mais de 55 idiomas que não têm nem 100.000 artigos publicados na rede.

58% da população do mundo fala um desses idiomas como língua materna, o que significa que, mesmo que ele pudesse acessar a Internet, o conhecimento a que  teria acesso seria muito limitado.

Entre outros fatores que influenciam o aumento da exclusão digital ainda é o fato de que 1. bilhão de pessoas em todo o mundo não sabe ler ou escrever. Ademais, como curiosidade, nos países em desenvolvimento as mulheres têm 25% menos oportunidades do que os homens para se conectar à Internet.

Finalmente, cabe destacar que cerca de 60% dos 4.1 bilhões de pessoas que não têm acesso à rede é capaz de entender o que significa Internet nem sabe para quê é usada.

A lama da Samarco na energia elétrica

Pode parecer informação do Sensacionalista, mas não é: a Samarco, apesar de consumir o equivalente a 20% do que é consumido pela população de Minas Gerais, lucrou mais de R$ 400 milhões com energia elétrica no ano passado.



por Gilberto Cervinski*

Dificilmente você viu alguma imagem na televisão, mas milhares de atingidas por barragens saíram às ruas dos cinco cantos do Brasil nesta terça-feira (8), Dia Internacional da Mulher, para denunciar a responsabilidade da Samarco, Vale e BHP Billiton pelo assassinato de 19 pessoas e pela destruição da bacia hidrográfica do rio Doce.  

Além disso, as mulheres denunciaram as abusivas tarifas de energia elétrica. E essa não é uma luta apenas das atingidas, mas de 70 milhões de residências brasileiras, que pagam uma das contas de luz mais caras do mundo.

Todavia, os aumentos verificados nos últimos anos em todo o país afetam especialmente as mulheres, pois são elas que, na nossa sociedade patriarcal, arcam com o desligamento da máquina de lavar roupa ou de outros eletrodomésticos.

Mas nessa "crise", sabemos que um lado perde e outro lado ganha: é a regra do jogo capitalista. A Samarco, por exemplo, recebe energia elétrica a um preço muito mais barato que o povo brasileiro.  A mineradora é abastecida de eletricidade pela CEMIG por um valor oito vezes menor que a população mineira, devido a um contrato livre de oito anos (2014 à 2022) com a estatal.

O consumo anual de energia elétrica da Samarco equivale ao consumo anual de 1,22 milhão de residências. Ou seja, semelhante ao consumo de 20% das residências do estado de Minas Gerais ou de toda população residencial do Espírito Santo.

Recentemente, realizamos um levantamento das tarifas que a população de Minas Gerais paga mensalmente: é uma das maiores do Brasil. Contando todos os custos, uma residência chega a pagar R$ 990 por cada 1.000 kWh consumidos.

Agora vejamos o privilégio da Samarco. O gasto com energia em um ano foi de R$ 305 milhões, o equivalente a uma tarifa em torno de R$ 127 por 1.000 kWh. Ou seja, oito vezes menor que a cobrada da população "comum".

Porém, a lama é mais suja do que se imagina. Parte da energia barata que a mineradora recebe da CEMIG foi revendida (em 2014), como excedente (uma energia que "sobrou"), aos chamados consumidores cativos (residências) a um preço médio de R$ 767,00 por 1.000 kWh, por meio do "Preço de Liquidação das Diferenças". Posteriormente, este alto custo foi repassado ao povo em aumentos nas contas de luz.

A própria empresa admite que, com esta estratégia de revender parte da energia, faturou um total de R$ 405,2 milhões. Portanto, com essa energia revendida, provavelmente vinda da própria Cemig, ela conseguiu pagar todo o custo da energia e ainda gerou dividendo aos acionistas.

Desta forma, utilizando-se da energia elétrica da população de Minas Gerais, produziu os cerca de 25 milhões de toneladas de minério no ano passado, com custo de energia zerado, ou melhor, positivo.

Por um lado, qualquer família brasileira, além de ter que pagar uma das tarifas mais altas do mundo, se não conseguir pagar a conta de luz em um mês sua energia é cortada. Por outro lado, a Samarco, e todos os demais "consumidores livres", pagam energia praticamente a preço de custo, seus contratos são sigilosos e a lama encobre toda a sujeira.

Este é o modelo energético privatizado, que privilegia os mais ricos e penaliza as trabalhadoras e os trabalhadores brasileiros. Por isso, a luta das mulheres contra os altos preços da energia é uma luta de todo povo brasileiro. Viva a luta de todas as mulheres trabalhadoras deste país.

*Gilberto Cervinski é integrante da coordenação nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).