"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 2 de julho de 2016

A face jovial da operação Lava-jato

A Operação Lava-jato de alguma forma decorre das manifestações multifacetadas de 2013; pode-se argumentar ser reflexo do clamor popular advindo dos protestos contra corrupção presentes desde 2010 pelo menos ou, então, aquilo que sucedeu a 2013; o certo é a existência de uma inspiração republicana.

Os procuradores do MPF de Curitiba, à frente da Lava-Jato, são jovens, indicando ser uma nova geração de "operadores" do judiciário fora da troca de favores, fruto do patronalismo brasileiro; esse se real virá a ser a maior "herança" da Lava-Jato.

Mas não basta os procuradores, terá que surgir uma geração de eleitores que vote livre; a mentalidade do leitor tradicional brasileiro é a daquele que quer receber algo. Republicanizar o Brasil é o dever desta geração, desde que o Brasil se tornou Brasil homens de espírito público trataram de interpretar as moléstias políticas do país, o próprio imperador D. Pedro II tinha essa noção, dizia: "eleição no Brasil sempre é um problema".

O Brasil é disforme, ele foi estruturalmente organizado de uma forma com a qual sua sociedade nunca pactuou, isso não foi de todo negativo, formamos uma grande nação num grande território, quanto mais gente melhor; munidos de todo o acervo estamos diante do momento exato de formar a República no Brasil, não como regime, mas sim como forma de vida na cidade.

Cooperativas empregam mais de 12,5 milhões de pessoas em todo o planeta

De acordo com as Nações Unidas, US$ 3 trilhões por ano são gerados pelo tipo de sociedades; 2,6 milhões de associações juntam cooperativistas no mundo; Dia Internacional das Cooperativas destaca ação por um futuro sustentável.
Dia Internacional das Cooperativas. Foto: Banco Mundial/Dominic Chavez
Eleutério Guevane, da Rádio ONU em Nova Iorque.
Celebra-se este sábado, 2 de junho, o Dia Internacional das Cooperativas sob o lema “Cooperativas: o poder de agir para um futuro sustentável”.
O secretário-geral da ONU disse que o tipo de sociedades oferece resiliência económica, social e ambiental. Em mensagem, Ban Ki-moon destaca ainda o potencial da contribuição destas associações para o desenvolvimento sustentável.
Igualdade
O chefe da ONU disse acreditar que as cooperativas possam fazer “contribuições significativas para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável,  ODS” em desafios como emprego, pobreza, fome e igualdade.
A Rádio ONU conversou com presidente da Organização de Cooperativas da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, em São Paulo. Márcio Lopes de Freita, que lidera o movimento cooperativista no Brasil, disse que há afinidades no bloco.
Cooperativas
"Considerando-se que Portugal e Brasil já têm por algumas questões específicas um cooperativismo mais desenvolvido, percebemos que na África e em Timor-Leste um cooperativismo ainda muito novo que a gente podia chamar até um pré-cooperativismo neste primeiro momento. É importante que a gente consiga desenvolver ações utilizando das nossas questões em comum que possam diminuir este distanciamento e fazer com que as cooperativas se integram e se desenvolvam nesses países."
As Nações Unidas estimam que uma em cada seis pessoas é membro ou cliente nas cerca de 2,6 milhões de cooperativas que empregam 12,6 milhões de pessoas. Estas acumulam bens no valor de US$ 20 trilhões produzindo uma receita anual que “chega a US$ 3 trilhões”.
Ban defende haver semelhanças entre o grupo de associações com os ODS por serem centradas nas pessoas.
Bem Público
A mensagem destaca o compromisso com deste tipo de sociedades com as comunidades e que as cooperativas sociais podem ser importantes quando o bem público diminui ou é mínimo.
De acordo com o chefe da ONU, as cooperativas atendem a mais de 857 milhões de pessoas no setor financeiro que incluem “dezenas de milhões” de beneficiários que vivem na pobreza.
Foto: Banco Mundial
Crise
Após a crise global de 2007 e 2008, as cooperativas de crédito provaram ter força e valor. Ban revela que estas têm bom crédito além do aumento dos ativos, do volume de negócios e dos números de membros e clientes.
O apelo aos governos é que criem um ambiente propício para que o tipo de associações prospere e que seja aproveitado o poder das cooperativas para atingir os ODSs para “um mundo de dignidade e oportunidade para todos”.
População Ativa
De acordo com o diretor da Organização Internacional do Trabalho, OIT, o mundo precisa criar mais de 600 milhões de novos postos de trabalho até 2030 para acompanhar o crescimento da população ativa.
Guy Ryder destacou que as cooperativas e as micro, pequenas e médias empresas vão continuar a ser fundamentais para oferecer empregos decentes para todos, incluindo os jovens.
O representante disse que o tipo de sociedades oferece menos barreiras para o acesso ao empreendedorismo e que o seu papel é essencial na formalização do trabalho numa economia informal.

As quatro grandes fases da modernidade capitalista

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves


Assim como no século XIX a modernização dissolveu a esclerosada sociedade agrária estamental e, ao depurá-la, extraiu a imagem estrutural da sociedade industrial, hoje a modernização dissolve os contornos da sociedade industrial e, na continuidade da modernidade, surge uma outra configuração social” (Ulrich Beck)
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Não é fácil definir o que é modernidade, pois este fenômeno é impreciso no seu começo, mutante no seu conteúdo e incerto nos seus desdobramentos. De modo geral podemos dizer que a modernidade começa com o fim do período medieval, com as grandes navegações e a globalização daí decorrente, o fortalecimento do Estado-nação, além da superação da forma de organização social e do pensamento tradicional.
Segundo Giddens: “Como uma primeira aproximação, digamos simplesmente o seguinte: modernidade refere-se a estilo, costume de vida ou organização social que emergiram na Europa a partir do século XVII e que ulteriormente se tornaram mais ou menos mundiais em sua influência”.
Segundo Alan Touraine: “Modernidade, na sua forma mais ambiciosa, foi a afirmação de que o homem é o que ele faz, e que, portanto, deve existir uma correspondência cada vez mais estreita entre a produção, tornada mais eficaz pela ciência, a tecnologia ou a administração, a organização da sociedade, regulada pela lei e a vida pessoal, animada pelo interesse, mas também pela vontade de se libertar de todas as opressões”. Ele continua: “Modernidade como relação, carregada de tensões, entre Razão e Sujeito, racionalização e objetivação, espírito da Renascença e espírito da reforma, ciência e liberdade
O fato é que a modernidade é um processo em movimento, nem sempre para a frente, que acontece em vários âmbitos: social, geográfico, econômico, político, ideológico, cultural e pedagógico. Como revolução econômica, a modernidade marca a superação da economia agrária e rural, para iniciar a construção de uma economia de intercâmbio baseada na mercadoria, no dinheiro, na capitalização, no investimento, na produtividade e na organização urbana-industrial.
Como revolução política, a Modernidade gira em torno do Estado Moderno, centralizado, controlado pelo poder soberano (absoluto ou democrático), organizado segundo critérios racionais de eficiência e voltado para o progresso econômico e social. O sistema de controle passa pelo fortalecimento de uma burocracia que busca o consenso e o controle da sociedade via uma série de instituições. A Modernidade promove a formação de uma nova classe hegemônica, a burguesia, que nasce nas cidades e promove o processo econômico capitalista, assim como delineia, no geral, uma concepção de mundo laica e racionalista.
O sistema capitalista coloca em primeiro lugar o cálculo econômico eficiente e tem como meta a geração de riqueza (bens e serviços) via exploração do trabalho, o avanço tecnológico e energético e a dominação e a exploração da natureza. Para Marx, o motor da modernidade é a luta de classes, levada ao extremo entre burguesia e proletariado. Para Durkheim e Weber, o motor da modernidade é a divisão social do trabalho, a racionalidade e o industrialismo. Para os clássicos da sociologia, as Revoluções Industriais eram a chave do progresso e da modernização.
Para efeitos didáticos, vamos separar a modernidade em quatro fases: baixa modernidade (1776/1789-1889); média modernidade (1889-1989); alta modernidade (1989-2009) e pós-modernidade ou modernidade em crise (2009 – +). Estas fases correspondem à 1ª Revolução Industrial; 2ª Revolução Industrial; 3ª Revolução Industrial; 4ª Revolução Industrial ou Estagnação Secular.
  1. Baixa Modernidade e 1ª Revolução Industrial (1776/1789-1889)
Vamos considerar o começo da modernidade e da 1ª Revolução Industrial e Energética como o período 1776-1789. O ano de 1776 foi marcante devido à conjugação de três acontecimentos históricos: a Independência dos Estados Unidos; O lançamento do livro “A riqueza das nações” de Adam Smith e a entrada em funcionamento da máquina a vapor aperfeiçoada por James Watt que deu início à utilização dos combustíveis fósseis em larga escala. O ano de 1789 foi marcado pela Revolução Francesa que teve grande impacto nos séculos seguintes.
A 1ª Revolução Industrial e Energética se caracterizou pelos seguintes elementos: energia a vapor, indústria do ferro, revolução têxtil, bens de consumo corrente, navegação e ferrovia a vapor, telégrafo com fio, início do saneamento básico, etc. Abaixo as principais características desse período, do capitalismo concorrencial:
  • Predominância setor primário
  • Baixa intervenção estatal
  • Exportação de mercadorias
  • Predominância capital industrial
  • Manufatura e indústria
  • Moeda fiduciária
  • Ausência da organização “científica” do trabalho
  • Colonização da África, ALC e Ásia
  • Autoritarismo e Absolutismo
  • Predominância britânica 1815-1914
  • Altas taxas de mortalidade e natalidade
  • Exclusão da cidadania feminina
  • Ausência de políticas públicas
  • Superação do pré-moderno
  1. Média Modernidade e 2ª Revolução Industrial (1889-1945)
O ano de 1889 está sendo tomado como uma data de referência de várias coisas que aconteceram na época, como o desenvolvimento do motor a combustão e do automóvel a partir das invenções de Karl Benz, James Atkinson Edward Butler, Gottlieb Daimler, Rudolf Diesel. Em 1889, Félix Millet desenvolveu o primeiro veículo impulsionado por um motor rotativo na história do transporte. Foi também em 1889 que é aberta a Torre Eiffel, nos 100 anos da Revolução Francesa, feita a primeira Constituição da Era Meiji e a República no Brasil. Mas o mais importante foi o desenvolvimento da 2ª Revolução Industrial e Energética que se inicia.
Capitalismo monopolista – 1ª fase da 2ª Revolução Industrial (1889-1945)
Avanço da energia elétrica, petróleo, motor a combustão interna, aço, telefone, telégrafo sem fio, rádio, automóveis, linha de montagem, tratores, avião, bens de consumo duráveis, geladeira, máquina de escrever, fotografia, cinema, ampliação do saneamento básico, etc. Abaixo as principais características desse período:
  • Fortalecimento do setor secundário
  • Média intervenção estatal
  • Exportação de mercadoria e capital
  • Formação do capital financeiro
  • Grande indústria
  • Taylorismo e Fordismo
  • Colonização
  • Autoritarismo, fascismo e nazismo.
  • Disputa inter-imperialista
  • Queda da mortalidade
  • Conquista do voto feminino
  • Início das políticas públicas
  • Modernidade sólida
Capitalismo monopolista – 2ª fase da 2ª Revolução Industrial (1945-1989)
Avanço da energia nuclear, sociedade de consumo de massas, avião à jato, helicóptero, antibióticos, ver. Microeletrônica, satélites, televisão, telecomunicações, computadores (mainframes), defensivos e fertilizantes, “revolução verde”, conquista espacial etc. Abaixo as principais características desse período:
  • Predominância do setor secundário
  • Alta intervenção estatal (keynesianismo) e estatismo
  • Internacionalização da produção e do capital
  • Ampliação do capital financeiro
  • Conglomerado integrado/holding
  • Crise do taylorismo- fordismo e administração científica de empresas
  • Descolonização dos países da África e Ásia
  • Democracias e ditaduras
  • Conflito Leste X Oeste (Guerra Fria)
  • Queda das taxas de fecundidade nos países em desenvolvimento e renda média
  • Revolução sexual e luta contra as discriminações de gênero
  • Crescimento das lutas pelos direitos da diversidade e de identidade
  • Estado de Bem-estar social (Welfare State)
  • Sociedade do consumo de massa
  • Hegemonia Americana
  • Modernidade reflexiva
  1. Alta Modernidade e 3ª Revolução Industrial (1989-2009)
Nos anos 1970 e 1980 o modelo fordista, taylorista e até keynesiano entraram em crise. Há o aumento do preço do petróleo a partir de 1973, um agravamento da crise ambiental e uma crise do sistema de Bretton Woods. A produção padronizada fordista passou a ser superada pela produção flexível e o surgimento do computador pessoal deu início a novas possibilidades de produção e de inserção do indivíduo na sociedade da informação. O ano de 1989 foi marcado pela queda do Muro de Berlim, que foi seguido pelo fim da URSS, em 1991, assim como o fim da Guerra Fria que prevaleceu no período anterior.
Esta fase foi marcada pela globalização neoliberal, pela Sociedade em Rede e pela Revolução científica e tecnológica, caracterizada por: Telemática, Computador Pessoal, Internet, TV digital, fibra ótica, novos materiais, engenharia genética, genoma, clonagem, química fina, automação, telefone celular, leitura ótica, avanço espacial, trabalho intelectual coletivo, sociedade do conhecimento, etc. Abaixo as principais características desse período:
  • Predominância do setor terciário
  • Neoliberalismo
  • Transnacionalização da produção e do capital
  • Financeirização da economia
  • Capitais cruzados – Economia em rede
  • Produção flexível, reengenharia, downsizing, reestruturação produtiva etc.
  • Formação dos blocos econômicos
  • Predominância das democracias formais (crise de representatividade)
  • Crise da hegemonia americana e emergência da China
  • Baixas taxas de mortalidade e natalidade e fosso demográfico entre ricos e pobres
  • Empoderamento das mulheres e equidade de gênero
  • Privatização do Welfare State
  • Modernidade líquida
  1. Pós-Modernidade: 4ª Revolução Industrial ou Estagnação Secular (2009 – +)
Atualmente, existe uma convicção generalizada de que a modernidade está em crise. Depois da quebra do banco Lehman Brothers em 2008 e da crise econômica financeira de 2009, a economia internacional está enfrentando grandes dificuldades e o baixo crescimento ocorre em função de alto endividamento e da baixa produtividade. O período 1989 a 2009 foi marcado por um crescimento econômico maior do que na década de 1980 e houve redução da pobreza e a emergência dos dois países mais populosos do mundo: China e Índia. Mas a pobreza voltou a crescer na América Latina a partir de 2014 e a África já não avança como nos anos anteriores. A desigualdade de renda aumenta e relatório da Oxfam, apresentado no Fórum Econômico de Davos, em janeiro de 2016, mostrou que 1% da população global detém mesma riqueza dos 99% restantes. A crise ambiental é a maior da história e tende a se agravar.
Evidentemente, ninguém pode prever com certeza o futuro. Diante da crise atual existem duas perspectivas opostas: uma otimista e outra pessimista. No mês de janeiro de 2016 foram lançados, de forma independente, dois livros que discutem as possibilidades e as limitações que a tecnologia teve no passado e terá no futuro no sentido de avançar com as forças produtivas rumo à estagnação ou ao progresso e à melhoria das condições de vida da humanidade.
O livro “The fourth industrial revolution”, de Klaus Schwab, foi lançado durante o Fórum Econômico Mundial, de Davos e serviu de tema central para o encontro que reúne a elite da economia mundial. O livro diz que estamos à beira de uma revolução tecnológica que irá alterar fundamentalmente a maneira como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos uns com os outros. A “Quarta Revolução Industrial, em sua escala, escopo e complexidade, será diferente de tudo que a humanidade já experimentou antes”, como diz o autor.
A Quarta Revolução Industrial deve ampliar a revolução digital que vinha ocorrendo desde meados do século passado, mas, segundo Klaus, ela traz um grande potencial devido a sua natureza hiperconectada, em tempo real, por causa da internet. O livro aponta três vetores propulsores: fatores físicos, digitais e biológicos. Dentre os físicos, como o desenvolvimento de novos materiais, destaca-se o aperfeiçoamento do grafeno, que é 200 vezes mais resistente que o aço e milhares de vezes mais fino que um fio de cabelo, tendo potencial de mudar a indústria e a infraestrutura. Os celulares conectados à internet provocaram uma reorganização de diversos aspectos da vida, como na educação, saúde e no transporte urbano. A biotecnologia, poderá erradicar doenças e até mesmo retardar o envelhecimento das pessoas. Além das mudanças nos sistemas de produção e consumo e amplo uso de inteligência artificial, ela também traria o desenvolvimento de energias verdes.
Portanto, Klaus considera que as transformações de hoje não representam apenas um prolongamento da Terceira Revolução Industrial, mas sim a chegada de um quarto e distinto período, em função: “da velocidade, do alcance e dos sistemas de impacto, pois a velocidade dos avanços atuais não tem precedente histórico, quando comparado com as revoluções industriais anteriores”. A Quarta Revolução avança em ritmo exponencial em vez de linear. Além disso, está envolvendo quase todos os setores em todos os países do mundo. A amplitude e a profundidade dessas mudanças anunciam a transformação dos sistemas inteiros de produção, gestão e governança. Assim, para o autor, bilhões de pessoas conectadas por dispositivos móveis, com um poder sem precedentes de processamento, capacidade de armazenamento e acesso ao conhecimento, oferecem possibilidades ilimitadas. Essas possibilidades poderão ser multiplicadas por avanços tecnológicos emergentes em áreas como inteligência artificial, robótica, a Internet das Coisas, veículos autônomos, a impressão 3-D, nanotecnologia, biotecnologia, ciência de materiais, armazenamento de energia e computação quântica.
Ainda no raciocínio do autor, a Quarta Revolução Industrial, assim com as revoluções anteriores, tem o potencial de elevar os níveis de renda global e melhorar a qualidade de vida das populações em todo o mundo. A inovação tecnológica também pode levar a um milagre do lado da oferta, com ganhos a longo prazo em termos de eficiência e produtividade. Transporte e comunicação a custos baixos tornariam as cadeias de fornecimento globais e a logística mais eficazes, abrindo novos mercados, impulsionando o crescimento econômico. Não menos importante, a Quarta Revolução Industrial, segundo o autor, pode aperfeiçoar a democracia. Como os mundos físico, digital e biológicas continuam a convergir, novas tecnologias e plataformas vão permitir que os cidadãos participem da gestão governamental, exprimindo suas opiniões, juntando esforços na implementação de políticas públicas e supervisionando as autoridades constituídas. Simultaneamente, os governos ganharão novos poderes tecnológicos, com base em sistemas de vigilância e capacidade de controlar a infraestrutura digital, aumentando a concorrência, a redistribuição das funções e a descentralização do poder.
Evidentemente, toda esta visão cornucopiana e de redenção tecnológica soa como música aos ouvidos da elite econômica que frequenta o Fórum Econômico Mundial. Para Klaus, a Quarta Revolução Industrial seria a prova de que o capitalismo é um sistema não só eficiente, mas que pode ser também justo e democrático. Em sua quarta reedição, a revolução capitalista universalizaria o progresso econômico, social e ambiental. O artigo “Bem-vindos à quarta Revolução Industrial”, de Paulo Afonso da Mata Machado, publicado aqui no Ecodebate (17/06/2016) faz eco ao delírio tecnófilo cornucopiano de Klaus Schwab. Se fosse verdade, seria o triunfo da abundância do paraíso na Terra.
Contudo, esse tipo de delírio tecnológico é contestado no livro “The Rise and Fall of American Growth: The U.S. Standard of Living since the Civil War” do professor da Universidade Northwestern, Robert J. Gordon. Há muito tempo o autor tem criticado o tecno-otimismo e as afirmações, de forte cunho ideológico, de que estamos em meio a uma mudança tecnológica revolucionária. Por exemplo, em relação à apologia feita às TICs (Tecnologia de Informação e Comunicação), Gordon argumenta que elas são menos importantes do que qualquer uma das cinco grandes invenções que alimentou o crescimento econômico entre 1870-1970: eletricidade, saneamento urbano, químicos e farmacêuticos, o motor de combustão interna e a comunicação moderna.
Gordon não discorda do papel histórico desempenhado pela tecnologia no passado. Ele recapitula os vínculos entre períodos de rápida expansão econômica e as inovações das três Revoluções Industriais (RI) precedentes: 1ª) a das ferrovias, energia a vapor (carvão mineral) e indústria têxtil, de 1750 a 1830; 2ª) a da eletricidade, motor de explosão, água encanada, banheiros e aquecimento dentro de casa, petróleo e gás, farmacêuticos, plásticos, telefone, de 1870 a 1900; 3ª) a dos computadores, internet, celulares, de 1960 até hoje. Segundo Gordon, a segunda RI teria sido mais importante em termos de acelerar o crescimento econômico, garantindo 100 anos de acelerado avanço na produtividade. Ele argumenta que este evento excepcional é único no tempo e não vai se repetir novamente.
Ele dá exemplo da velocidade do transporte (que é confirmada pelo fracasso do Boeing 787 Dreamliner): “Até 1830, a velocidade de tráfego de passageiros e de mercadorias era limitado pelo ‘casco e vela’, mas aumentou de forma constante até a introdução do Boeing 707, em 1958. Desde então, não houve nenhuma mudança na velocidade e, de fato, os aviões voam mais lento agora do que em 1958 por causa da necessidade de economizar combustível e normas de segurança”.
Outro exemplo se dá pelo engarrafamento das grandes cidades e a crise da mobilidade urbana. Uma carroça puxada por dois cavalos trafegava a 26 km/hora, mas nossos potentes carros atuais não trafegam a 20 km/hora no horário de pico das metrópoles. Nas estradas é grande o número de acidentes e mortes. Desastres e restrições à mobilidade urbana significam perda de eficiência econômica e pressão sobre a qualidade de vida. Nas grandes cidades brasileiras é comum os moradores da periferia gastarem 2 horas da casa para o serviço e mais 2 horas de volta.
A soma do aumento do custo da extração dos combustíveis fósseis e a perda dos ganhos de produtividade pode funcionar como freio ao crescimento econômico. Considerando a economia dos Estados Unidos da América (EUA), Gordon argumenta que existem seis “ventos contrários” (headwinds) que devem desacelerar o crescimento americano: 1) aumento das desigualdades sociais, 2) educação deteriorada; 3) degradação ambiental; 4) maior competição provocada pela globalização; 5) envelhecimento populacional; e 6) o peso dos déficits e do endividamento privado e público.
O autor sugere que estes “ventos contrários” não estão atingindo apenas os EUA, mas todas as economias avançadas, o que deve provocar taxas de crescimento econômico abaixo de 1% nas próximas décadas. Para as sociedades emergentes, os “ventos contrários” também existem, mas sopram com menos intensidade, por enquanto. Mas, numa economia cada vez mais internacionalizada, é difícil imaginar que os países em desenvolvimento possam manter altas taxas de crescimento econômico sem contar com uma dinâmica parecida nos países desenvolvidos.
Evidentemente, a tecnologia contribui para o progresso e o bem-estar da população. O avanço das tecnologias de higiene e de saneamento básico reduziram a mortalidade infantil e aumentaram a esperança de vida, contribuindo para tornar as pessoas mais longevas, mais educadas e mais produtivas. Aliás, a revista britânica The Economist, com base nos estudos de Robert Gordon, fez uma capa (12/01/2013) mostrando que toda a força do pensamento tecnológico recente foi incapaz de inventar uma coisa mais útil e de maior impacto na saúde dos povos do que o vaso sanitário. Os efeitos positivos de uma invenção tão simples desmistificam a apologia das tecnologias mirabolantes.
A tecnologia pode ser aliada do desenvolvimento humano e ambiental, mas também pode ser fonte de dominação, exploração e de auto-engano. O livro de Robert Gordon, portanto, não rejeita a tecnologia, mas apresenta um forte argumento sobre seus limites. Também reforça a tese da “estagnação secular” e do baixo crescimento econômico no restante do atual século. Neste início de ano, enquanto o FMI prevê um crescimento de 2,4% para o PIB dos EUA em 2016, diversos outros estudos apontam um crescimento abaixo de 2% ou mesmo uma recessão. Tudo indica que a Era do alto crescimento econômico é coisa do passado. A América Latina, por exemplo, vai ter dois anos de recessão e sem uma recuperação forte a vista.
Ninguém sabe com certeza como será o futuro. Neste segundo quindênio (2015-2030) do século XXI, quando a agenda global da ONU está centrada nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e no Acordo de Paris, aprovado na COP-21, o monitoramento mundial da agenda pós-2015 deveria contrabalançar a atenção entre o oba-oba da Quarta Revolução Industrial, de Klaus Schwab e a crítica realista dos limites tecnológicos feitas por Robert Gordon. A sociedade afluente ainda é um sonho distante para a maioria da população mundial. Mas uma coisa que une problematicamente as 4 fases do capitalismo é o aumento do consumo e da exploração da natureza.
Desta forma, o mundo está em uma encruzilhada. Alguns veem um futuro brilhante com o avanço da 4ª Revolução Industrial e Energética e o aumento do bem-estar global. Outros veem que a modernidade está em crise e enfrenta diversos problemas, como o aumento das desigualdades sociais, a perda de produtividade, a estagnação secular da economia e uma grande crise ambiental e climática. Joseph Tainter mostra que sociedades complexas colapsam quando não conseguem simplificar seu modo de produção e de vida. O progresso pode virar regresso.
Para Ulrich Beck, no livro “Sociedade de Risco”, vivemos em uma sociedade de risco, sendo que: “a sociedade de risco designa uma época em que os aspectos negativos do progresso determinam cada vez mais a natureza das controvérsias que animam a sociedade. O que inicialmente ninguém via e, sobretudo, desejava, a saber, colocar a si mesmo em perigo e a destruição da natureza, está cada vez mais se tornando o motor da história”.
O fato é que o motor da história não é uma máquina, monotonicamente linear, rumo à uma evolução infinita. As histórias de fracasso e colapso são muitas. Certamente o Brexit vai no sentido de rebaixar o processo de globalização e significa um recuo da história. A modernidade pode falhar em função do seu próprio “sucesso” e da sua ampliação, no espaço e no tempo, até atingir um mundo antropicamente cheio que sufoca os ecossistemas. Como mostra a medicina, o remédio, em altas doses, pode virar veneno. Os riscos são crescentes. O futuro está aberto e pode não ser nada brilhante.
Referências:
ALVES, JED. Quarta revolução industrial ou estagnação secular? Ecodebate, RJ, 17/02/2016
ALVES, JED. A crise do capital no século XXI: choque ambiental e choque marxista. Salvador, Revista Dialética Edição 7, vol 6, ano 5, junho de 2015http://revistadialetica.com.br/wp-content/uploads/2016/04/005-a-crise-do-capital-no-seculo-xxi.pdf
Beck, Ulrich. Sociedade de Risco. Rumo a uma Outra Modernidade. São Paulo: Editora 34, 2010.
Giddens, Anthony. As Consequências da Modernidade. São Paulo, Ed. Unesp, 1991
Touraine, Alan. Crítica da Modernidade. Petrópolis, Vozes, 1994
Klaus Schwab. The fourth industrial revolution, World Economic Forum, Switzerland, 2016
Robert J. Gordon. The Rise and Fall of American Growth: The U.S. Standard of Living since the Civil War (The Princeton Economic History of the Western World), January 2016
Collapse of Complex Societies by Dr. Joseph Tainter (1 of 7)

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 01/07/2016

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Arábia Saudita: o próximo "cisne negro" da economia global

por Marcello Minenna

Marcello MinennaApenas duas semanas atrás, o governo saudita anunciou que em setembro vai atingir os mercados internacionais de obrigações com uma emissão em dólaresNa história do Reino, esta é a primeira emissão de dívida externa. Por incrível que possa parecer, os xeques, os detentores de maiores reservas de petróleo do mundo, aparecem sedentos de dinheiro. A monarquia saudita que em 2011 foi alcançar um surpreendente excedente fiscal de 20% do PIB, com a dívida pública zero e sentando-se em mais de US$ 700 bilhões em reservas estrangeiras, viu claramente as suas fortunas entrar em reverso desde o colapso do preço do petróleo em meados de 2014. Em 2015, o superávit se transformou em um desagradável déficit de até 16% do PIB, a dívida pública subiu para 10%, enquanto as reservas em moeda diminuiu para abaixo de US$ 600 bilhões. O Reino promulgou até mesmo alguns cortes nos gastos públicos, uma medida inédita na terra de um emprego vitalício garantido no setor governamental.
Nos círculos bem informados, a teoria tem sido que o declínio repentino no preço do petróleo foi uma estratégia deliberada orquestrada pelos sauditas, para chutar os produtores de "óleo de xisto" fora do mercado. Uma vez que os produtores norte-americanos confiam pesadamente em dívida e operam a perda quando o preço do petróleo desliza abaixo de US $ 60 o barril, esse plano poderia ter funcionado. Mas isso não aconteceu: com as taxas de juros cravas pelo Fed em torno de zero, os bancos e os fundos de investimento continuaram a financiar os perfuradores, que por sua vez, reduziram a produção e cortaram custos. O resultado é que alguns perfuradores foram efetivamente empurrados para fora do mercado.
Agora, a estratégia de Arábia é frustrada e os grandes tubarões da especulação financeira estão afiando os dentes. A meta é a taxa de câmbio fixa entre o dólar e o Rial (moeda saudita). Esta convenção monetária entre os dois governos já dura mais de 30 anos. A economia norte-americana e as elites da Arábia Saudita beneficiaram imensamente disso, com este último a acumular valores absolutos de riqueza financeira.
O sistema "Petrodollar" funcionou da seguinte maneira: os importadores norte-americanos estabeleceram compras de petróleo apenas em dólares a uma taxa de câmbio estável, favorável (por volta de 1986 fixado em 0,26 $ por 1 Rial). Por sua vez, a Arábia se comprometeu a reinvestir os lucros na economia dos EUA através da compra de Treasuries, com o benefício não negligenciável de a garantia de um guarda-chuva militar contínuo dos EUA. Todas as operações foram mantidas em sigilo por mais de 40 anos até maio de 2016: nem os EUA nem o Reino já lançaram informações detalhadas sobre o envolvimento dos sauditas no refinanciamento da dívida pública dos EUA.
Nos últimos anos, as rachaduras começaram a vir à tona no negócio aparentemente sólido. Graças ao gás de xisto, do lançamento e da quota de mercado crescente de petróleo iraquiano e iraniano, os EUA é menos dependente dos sauditas. O escudo de confidencialidade foi levantado e, finalmente, o Tesouro dos EUA revelou o montante da dívida nas mãos do Reino: $ 120 bilhões, e é razoável acreditar que, pelo menos, mais outros $ 100 milhões são discretamente jogados no marEnquanto isso, o Senado dos Estados Unidos permitiu que as vítimas de 9/11 de processar a Arábia Unido pela sua eventual responsabilidade pelos ataques. Todos estes movimentos podem ser interpretados como um arrefecimento progressivo da relação política EUA-Arábia Saudita.
Os números deste "crepúsculo no deserto" pode até parecer saudável, se comparado com as finanças públicas problemáticas da maior parte dos países da Zona Euro. Numa estimativa grosseira, as reservas cambiais ainda gigantescas do banco central saudita seria suficiente para resistir a um ataque especulativo global contra o Rial para até mais de 18 meses, se o preço do petróleo permanece preso a 50$/barril. No entanto, não é o montante em dívida das reservas que realmente importa e os especuladores estão bem cientes disso. Na verdade, a fim de defender a taxa de câmbio fixa com o dólar, o banco central precisa vender títulos americanos e comprar Rial ativos denominados. Isso equivale a uma política monetária restritiva, que reduz, por definição, a quantidade de dinheiro em circulação na economia e tem efeitos recessivos e deflacionistas substanciais. Além disso, o sistema bancário pode ser gravemente afetado pela política do banco central através de um aumento da morosidade e da inadimplência. Isso já está acontecendo: a base monetária e os depósitos dos bancos têm contratado pela primeira vez sob o limite de US $ 400 bilhões.
Não por acaso, os mercados estão apostando em um aumento da dívida pública de até 50% do PIB em apenas 4 anos e sobre um break-up da taxa de câmbio fixa. As expectativas dos mercados "podem ​​ser claramente inferidas por olhar para o diferencial entre o local e as taxas de câmbio a termo pelo qual os operadores liquidam as suas transações no mercado de derivativos. A probabilidade de uma desvalorização do Rial dentro de um ano implícita no diferencial na taxa paira agora em torno de 25%.
Se o preço do petróleo não retornar a um preço mais elevado estável, (pelo menos superior a 60 $ / barril), a monarquia saudita, já velha e instável, não teria, provavelmente, o risco de um aumento do desemprego e agitação social. Como já aconteceu na China em agosto de 2015, as autoridades monetárias preferiram abandonar a taxa de câmbio fixa com o dólar. A queda do regime Petrodollar pode potencialmente ter um enorme impacto sobre a economia global: o preço do petróleo certamente cairia para níveis baixos sem precedentes e as economias emergentes seriam severamente atingidos. Um cisne negro que espreita ao virar da esquina.
A Zona Euro seria, portanto, afetada por uma queda ainda maior no comércio exterior, enquanto a recessão iria ganhar terreno nos países em desenvolvimento. Claro, o preço mais baixo do petróleo iria dar alguma margem de manobra para os consumidores e as empresas de fabricação, mas o efeito líquido é provável que seja profundamente negativo. Para além destas questões econômicas graves, os mercados europeus seriam abalados em seus fundamentos pelo colapso de um outro regime de câmbio fixo. Isto não augura nada de bom para as perspectivas do euro como mais do que apenas um monte de câmbio-juros fixos, mas, como emerge o drama Brexit, ele está lutando para provar isso.

Marcello Minenna é Chefe da Unidade de Análise Quantitativa em Consob (o italiano Securities and Exchange Commission). Ele também ensinou Quantitative Finance na Universidade de Bocconi e na Graduate School de Londres de Matemática Financeira. Ele é um escritor regular para o The Wall Street Journal e para Corriere della Sera, bem como membro de um grupo consultivo que suporta a análise econômica do maior sindicato italiano.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Inovação não é suficiente

por Dani Rodrik

Dani RodrikParece que estamos vivendo em uma época acelerada de avanços tecnológicos revolucionários. Mal passa um dia sem o anúncio de algum novo e importante desenvolvimento na inteligência artificial, biotecnologia, digitalização ou automação. No entanto, aqueles que supõem supostamente saber onde tudo está levando-nos não podem fazer as suas mentes.
Em uma extremidade do espectro estão os tecno-optimistas, que acreditam que estamos à beira de uma nova era em que os padrões de vida do mundo vão subir mais rapidamente do que nunca. No outro extremo estão os tecno-pessimistas, que vêem estatísticas de produtividade decepcionantes e argumentam que os benefícios para toda a economia das novas tecnologias continuará a ser limitados. Depois, há aqueles - os tecno-preocupados? - Que concordam com os otimistas sobre a escala e o âmbito da inovação, mas se preocupam com as implicações negativas para o emprego ou a equidade.
O que distingue essas perspectivas umas das outras não é tanto o desacordo sobre a taxa de inovação tecnológica. Afinal, quem pode duvidar seriamente de que a inovação está progredindo rapidamente? O debate é sobre se estas inovações continuarão engarrafadas em alguns setores de tecnologia intensiva que empregam os profissionais mais bem qualificados e representam uma parcela relativamente pequena do PIB, ou se se espalharão para a maior parte da economia. As consequências de qualquer inovação para a produtividade, o emprego e a equidade em última análise, depende da rapidez com que se difunde através dos mercados de trabalho e do produto.
A difusão tecnológica pode ser limitada em ambos os lados da procura e da oferta da economia. Tome o lado da procura em primeiro lugar. Nas economias ricas, os consumidores gastam a maior parte de sua renda em serviços como saúde, educação, transporte, habitação e bens de varejo. A inovação tecnológica tem tido relativamente pouco impacto até hoje em muitos destes setores.
Considere alguns dos dados fornecidos pelo relatório recente do Instituto Global McKinsey  America DigitalOs dois setores nos Estados Unidos que têm experimentado o crescimento mais rápido da produtividade desde 2005 são as TIC (tecnologia da informação e comunicação) e indústrias de mídia, com uma quota do PIB combinado de menos de 10%. Por outro lado, os serviços públicos e de saúde, que, juntos, produzem mais de um quarto do PIB, não tiveram praticamente nenhum crescimento da produtividade.
Tecno-optimistas, como os autores da McKinsey, olham para esses números como uma oportunidade: Restam enormes ganhos de produtividade a ser tidos a partir da adoção de novas tecnologias nos setores mais atrasados. Os pessimistas, por outro lado, pensam que tais lacunas podem ser uma característica estrutural, com duração de economias de hoje.
Por exemplo, o historiador econômico Robert Gordon  argumenta  que as inovações de hoje empalidecem em contraste com revoluções tecnológicas anteriores, em termos de seu impacto em toda a economia provável. A eletricidade, o automóvel,  o avião, o ar condicionado e eletrodomésticos alteraram a maneira que as pessoas comuns vivem de forma fundamental. Eles fizeram incursões em todos os setores da economia. Talvez a revolução digital, impressionante como ela foi, não vai chegar tão longe.
Do lado da oferta, a questão chave é saber se o setor inovador tem acesso ao capital e as habilidades de que ele precisa expandir-se rapidamente e de forma contínua. Nos países avançados, nem restrição normalmente se liga muito. Mas quando a tecnologia requer altas habilidades - a mudança tecnológica é "skill-biased", na terminologia dos economistas - a sua adoção e difusão tenderá a aumentar o fosso entre os rendimentos dos trabalhadores de baixa e de alta habilidade. O crescimento econômico será acompanhado por aumento da desigualdade, como era na década de 1990.
O problema do lado da oferta enfrentado pelos países em desenvolvimento é mais debilitante. A força de trabalho é predominantemente de baixa qualificação. Historicamente, isso não tem sido uma desvantagem para industrializaram final, desde que consistiu a fabricação de operações de montagem de trabalho intensivo, tais como vestuário e automóveis. Camponeses poderiam ser transformados em trabalhadores de fábrica praticamente durante a noite, o que implica ganhos de produtividade significativos para a economia. A manufatura foi tradicionalmente uma rápida escada rolante para níveis de rendimento mais elevados.
Mas uma vez que as operações de fabricação se tornam robotizadas e requerem qualificações elevadas, os constrangimentos do lado da oferta começam a morder. Efetivamente, os países em desenvolvimento perdem a sua vantagem comparativa vis-à-vis os países ricos. Nós vemos as consequências na "desindustrialização prematura" do mundo em desenvolvimento hoje.
Em um mundo de desindustrialização prematura, alcançar um crescimento produtividade geral da economia que se torna muito mais difícil para os países de baixa renda. Não está claro se existem substitutos eficazes para a industrialização.
O economista Tyler Cowen tem  sugerido  que os países em desenvolvimento podem se beneficiar do trickle-down da inovação das economias avançadas: eles podem consumir um fluxo de novos produtos a preços baratos. Este é um modelo do que Cowen chama de "telefones celulares em vez de fábricas de automóveis." Mas a questão permanece: O que esses países produzem e exportam - além de produtos primários - para ser capazes de suportar os celulares importados?
Na América Latina, a produtividade de toda a economia estagnou, apesar de inovação significativa nas empresas mais bem administradas e setores de vanguarda. O aparente paradoxo é resolvido por referir que o crescimento da produtividade rápida nos bolsos de inovação tem sido desfeito por trabalhadores que se deslocam a partir do mais produtivo para as partes menos produtivas da economia - um fenômeno que os meus co-autores temos chamado "crescimento-redução da mudança estrutural".
Este resultado perverso se torna possível quando existe dualismo tecnológico grave na economia e as atividades mais produtivas não se expandem rapidamente o suficiente. Perturbadoramente, há  evidências  de que a mudança estrutural de redução de crescimento tem acontecido recentemente nos Estados Unidos também.
Em última análise, é as consequências da produtividade geral na economia da inovação tecnológica, não a inovação  per se, que eleva os padrões de vida. A inovação pode coexistir lado-a-lado com baixa produtividade (por outro lado, o crescimento da produtividade às vezes é possível na ausência de inovação, quando os recursos se deslocam para os setores mais produtivos). Tecno-pessimistas reconhecem isso; os otimistas podem não estar errados, mas para fazer o seu caso, eles precisam se concentrar em como os efeitos da tecnologia desempenham na economia como um todo.

Dani Rodrik é professor da Fundação Ford de Economia Política Internacional da Harvard Kennedy School.