"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 16 de julho de 2016

Do sistema de liberdade do homem

Paul Henri D’Holbach
Tradução e adaptação de Vítor João Oliveira - Crítica na Rede

Quem afirma que a alma é distinta do corpo, que é imaterial, que extrai as ideias de si própria e que age de acordo com a sua própria energia e sem o auxílio de objetos externos, afasta a alma, em virtude do seu próprio sistema, daquelas leis físicas segundo as quais todos os seres conhecidos estão obrigados a atuar. Quem afirma tal coisa acredita que a alma é senhora da sua própria conduta, que é capaz de regular as suas operações peculiares, que tem a faculdade de determinar a sua vontade segundo uma energia própria; por outras palavras, defende que o ser humano é um agente livre.

Já foi suficientemente provado que a alma não é mais que o corpo considerado a partir de algumas das suas funções, sendo que umas estão mais escondidas do que outras; mostrou-se que a alma, mesmo quando a supomos imaterial, é continuamente modificada com o corpo, está sujeita a todo o seu movimento, sem o qual seria inerte e morta; que, em consequência, está sujeita à influência daquelas causas materiais e físicas que dão impulso ao corpo; sendo que o modo de existência do corpo, constante ou transitório, depende dos elementos materiais que o rodeiam, que formam a sua textura, constituem o seu temperamento, entrando nele através dos alimentos, penetrando-o de modo subtil. As faculdades, designadas de intelectuais, e as qualidades, entendidas como morais, foram explicadas de forma estritamente física e natural. Ficou demonstrado que todas as ideias, todos os sistemas, todas as afecções, todas as opiniões verdadeiras ou falsas, que o homem constrói de si próprio, devem ser atribuídas aos seus sentidos físicos e naturais. O ser humano é estritamente físico e, independentemente da forma como é considerado, está ligado à Natureza universal, está submetido às leis necessárias e imutáveis que esta impõe a todos os seres que estão sob o seu domínio, em função das suas essências particulares ou das suas respectivas propriedades, que ela atribuiu a cada espécie particular, sem a consultar. A vida do homem é uma linha que a Natureza ordena que ele cumpra na superfície da terra, sem que seja alguma vez capaz de se desviar, nem que seja por um instante. Nasceu sem o seu consentimento; o modo como se organiza é independente dele; os seus hábitos dependem daqueles que o obrigaram a aceitá-los; é incessantemente modificado por causas, visíveis ou invisíveis, que escapam ao seu controle, que regulam necessariamente o seu modo de existência, que moldam o seu pensamento e determinam a sua forma de agir. É bom ou mau, feliz ou miserável, sábio ou idiota, razoável ou irracional, sem que a sua vontade importe para esses diferentes estados. Ainda assim, e apesar das grilhetas que o prendem, há quem defenda que o ser humano é um agente livre, ou que, independentemente das causas que o movem, determina a sua própria vontade e regula a sua condição.

Todos os Sonhos do Mundo

Ainda que o fundamento desta posição seja precário, uma vez que todos os sinais indicam que está errada, é comum aceitá-la hoje como verdade incontestável por muitas pessoas bastante esclarecidas; é a base da religião, que, supondo existir relações entre o homem e um ser desconhecido superior a ele, tem sido incapaz de imaginar como pode o homem merecer recompensa ou punição pelo que é, a não ser que se suponha ser um agente livre. A sociedade tem mostrado interesse em acreditar neste sistema, porque se tornou comum a ideia de que se todas as ações do homem forem encaradas como necessárias, o direito de punir aqueles que prejudicam os seus semelhantes deixará de existir. A imensa vaidade humana conduziu à hipótese de que o homem é inquestionavelmente superior a todos os outros seres físicos, pois tem o privilégio especial de escapar totalmente às outras causas. Contudo, basta apenas um pouco de reflexão para demonstrar que isso é impossível.

[…]

A vontade, como afirmamos noutro lado, é uma modificação do cérebro, através da qual este se dispõe à ação ou se prepara para usar os órgãos. Esta vontade é necessariamente determinada pelas qualidades, boas ou más, agradáveis ou desagradáveis, do objeto ou motivo que afeta os seus sentidos, ou através da ideia que permanece nele e que a sua memória evoca. Consequentemente, ele age de forma necessária e a sua ação é o resultado do impulso que recebe do motivo ou do objecto, ou da recordação que foi modificada no seu cérebro ou que influenciou a sua vontade. Quando não age de acordo com este impulso é porque novas causas surgiram, ou novos motivos, ou novas recordações, que modificam o seu cérebro de forma diversa, dando-lhe um novo impulso para agir, determinando a sua vontade de outra forma, e suspendendo o anterior impulso; nessa altura, ver o novo objeto agradável ou a sua recordação, determina a sua vontade com vista a realizar uma ação para a alcançar; mas se um novo objeto ou recordação o atrair de forma mais poderosa, a sua vontade recebe uma nova direção, aniquilando o efeito da anterior e impedindo a sua procura. Este é o modo através do qual a reflexão, a experiência, a razão, capta ou suspende necessariamente a ação da vontade do homem: sem isto, ele seguiria necessariamente o impulso anterior que o empurrava para o anterior objeto de desejo. Mas ele age sempre em função de leis necessárias, relativamente às quais não tem o poder de emancipação.

Será que quando o homem é atormentado por uma sede violenta e representa para si próprio a ideia de uma fonte ou vê realmente uma, cuja água límpida e fresca pode acalmar o seu desejo intenso, tem suficiente domínio de si para desejar ou não desejar o objecto adequado para satisfazer o seu tão vivo desejo? Não levanta qualquer tipo de dúvida que é impossível que ele não esteja desejoso de satisfazer a sua sede; mas dir-se-á que se nesta altura for informado que a água que tão ardentemente deseja está envenenada, se absterá de a beber, apesar da sua profunda sede; o que levará à conclusão errada de que é um agente livre. Contudo, o motivo é, em ambos os casos, o mesmo: a sua própria preservação. A necessidade que o levou a beber antes de saber que a água era prejudicial, é também a que o determina a não beber depois dessa descoberta; o desejo de preservação aniquila ou suspende o anterior impulso; o segundo motivo torna-se mais forte que o anterior, quer dizer, o medo de morrer ou o desejo de preservação, sobrepõem-se necessariamente à sensação dolorosa causada pela sua avidez de beber; mas poder-se-á dizer que se a sede for insuportável, um homem imprudente arriscará beber a água sem considerar o perigo. Nada se ganha com esta observação: neste caso, é o primeiro impulso que ganha ascendente; ele convence-se que possivelmente a vida se prolongará mais ou que usufruirá de um bem maior bebendo a água envenenada do que prolongando o tormento, o qual, segundo a sua mente, o ameaça de dissolução imediata: portanto, o primeiro impulso torna-se o mais forte, levando-o necessariamente a agir. Ainda assim, em ambos os casos, quer beba ou não a água, a acção será determinada; será o efeito do motivo que se apresenta como mais forte, e que, em consequência, exerce maior coacção sobre a sua vontade.

Este exemplo serve para explicar todo o fenómeno da vontade humana. Esta, ou melhor o cérebro, encontra-se na mesma situação de uma bola que apesar de ter recebido o impulso para realizar um movimento em linha recta, vê o seu percurso interrompido por uma força superior à do primeiro impulso e que a obriga a alterar a direcção. O homem que bebe a água envenenada parece louco, mas as acções dos loucos são tão determinadas como as dos indivíduos mais prudentes. Os motivos que determinam os voluptuosos e os debochados a arriscar a sua saúde são tão poderosos e as suas acções são tão necessárias, como as dos homens sábios. Mas, insistir-se-á, os debochados podem ser levados a alterar a sua conduta: mas isso não significa que sejam agentes livres; significa que os motivos podem ser suficientemente fortes para aniquilar ou efeitos dos motivos que antes o influenciavam; então estes novos motivos determinam a sua vontade levando-os a adoptar um modo de conduta tão necessário como o anterior.

Diz-se que o homem delibera quando suspende a acção da vontade; isto acontece quando dois motivos opostos actuam alternadamente sobre ele. Deliberar é amar e odiar alternadamente, é ser ora atraído ora repelido; é ser umas vezes dirigido por um motivo e outras por outro. O homem apenas delibera quando não vê distintamente a qualidade dos objectos que o afectam ou quando a experiência não possibilita uma avaliação adequada dos efeitos que a acção, mais ou menos remotamente, produzirá. Quer sair para apanhar ar, mas o tempo está incerto; ele delibera então em conformidade; pesa os diferentes motivos que o levam a querer sair ou a ficar em casa; será determinado pelo motivo que parece mais provável, o que removerá a sua indecisão, que necessariamente fixará a sua vontade ou para ficar ou para sair: o seu motivo é sempre ou a vantagem ou a desvantagem imediata que encontra ou pensa ter encontrado no curso de acção que considerou mais convincente.

A vontade do homem oscila frequentemente entre dois objectos, cuja representação ou presença física o influencia de forma alternativa; espera até ter contemplado os objectos ou as representações que estes deixaram no seu cérebro e que o levam a diferentes acções; compara depois estes objectos ou representações; mas mesmo na altura do homem deliberar, durante a comparação, ponderando as alternativas de amor e ódio que se sucedem, por vezes a grande velocidade, não é nem sequer por um instante um agente livre; o bom ou o mau que ele acredita pertencerem sucessivamente aos objectos, são os motivos necessários dessas vontades momentâneas; do movimento rápido do desejo ou do medo, que o homem vive à medida que as suas incertezas continuam. Por isso, parece óbvio que a deliberação é necessária, que a incerteza é necessária, e que, seja qual for a parte que tome, em razão da sua deliberação, será necessariamente aquela que considerou, bem ou mal, como provavelmente a mais vantajosa.

Quando alma é assaltada por dois motivos que a afectam alternadamente ou que a modificam sucessivamente, delibera; o cérebro está num certo tipo de equilíbrio, acompanhado por oscilações perpétuas, por vezes em direcção a um objecto, por vezes em direcção a outro, até o mais forte o arrastar até ao ponto concreto de resolução do impasse em que consiste a indecisão da sua vontade. Mas quando o cérebro é simultaneamente assaltado por causas igualmente fortes que o puxam em direcções opostas, em conformidade com a lei geral que se aplica a todos os corpos quando sofrem a acção de forças contrárias, pára, fica em nisu; não é capaz de escolher nem de agir; e espera até uma destas causas obter uma força tal que se sobreponha à outra, para determinar a sua vontade, para a atrair de uma tal maneira que possa sobrepor-se aos efeitos da outra causa.

Este mecanismo, tão simples, tão natural, é suficiente para demonstrar por que a incerteza é dolorosa e por que o impasse é sempre um estado violento para o homem. O cérebro, um órgão tão delicado e tão mutável, vive modificações tão rápidas que são cansativas; e, quando é forçado a seguir em direcções diferentes por causas igualmente poderosas, sofre uma espécie de compressão, prevenindo a actividade adequada à preservação do todo e necessária para procurar o que é vantajoso para a sua existência. Este mecanismo também explicará a irregularidade, a indecisão, a inconstância do homem e tornará compreensível a conduta que frequentemente aparece como um mistério inexplicável, e que é, de facto, o efeito do sistema que recebe. Ao consultar a experiência, descobrir-se-á que a alma está sujeita às mesmas leis físicas que o corpo. Se a vontade de cada indivíduo, durante um dado período de tempo, é movida por uma única causa ou paixão, nada será mais fácil do que prever as suas acções; mas o seu coração é frequentemente assaltado por forças contrárias, por motivos adversos, que actuam sobre ele de forma simultânea ou sucessiva; então o seu cérebro, atraído em direcções contrárias, ou fica cansado ou fica atormentado por um estado de compressão, que o priva de actividade. Umas vezes por causa de um estado de inacção incómoda; outras em resultado dos choques alternados que sofre. Este é, sem dúvida, o estado em que se encontra o homem que vive entre a paixão forte que o arrasta para cometer um crime e o sentimento de medo por causa do perigo que o aguarda; tal é igualmente a condição de quem sente remorsos pela acção constante da uma alma desleixada, que o impede de extrair prazer dos objectos que obteve de forma criminosa.

[…]

A capacidade de escolher não prova de forma alguma que o homem é livre: ele apenas delibera quando ainda não sabe o que escolher de entre os objectos que o atraem e vive, por isso, uma situação de embaraço, que só termina quando a sua vontade vier a escolher o objecto ou a acção que acredita ser mais vantajosa. Donde se pode ver que a escolha é necessária porque ele não se decidiria por um objecto ou acção se não acreditasse que lhe traz alguma vantagem directa. Para que o homem pudesse agir livremente seria necessário que pudesse ter vontade ou escolher sem motivo, ou que pudesse impedir que os motivos coagissem a sua vontade. Sendo a acção sempre o efeito da sua vontade determinada e como ela não pode ser determinada senão por motivos sobre os quais não tem poder, segue-se que nunca é determinador da sua vontade particular e que, consequentemente, nunca se comporta como agente livre. Tem-se acreditado que o homem é um agente livre porque tem uma vontade com o poder de escolher; mas não tem sido dada atenção ao facto de que a sua vontade é determinada por causas independentes dele próprio, devido ao que é inerente à sua própria organização ou ao que pertence à natureza dos seres que actuam sobre ele. […] Será que é senhor da vontade de não tirar a mão do fogo quando tem medo de se queimar? Ou será que tem o poder de afastar do fogo a propriedade que provoca o medo? Será que é senhor da decisão de não escolher um prato de carne, que sabe ser agradável ou familiar ao seu paladar, ou ao preferir aquilo que sabe ser desagradável e perigoso? É sempre em conformidade com as suas sensações, com a sua experiência peculiar, ou com as suas suposições, que julga as coisas, bem ou mal; mas seja qual for o seu julgamento, depende necessariamente do seu modo de sentir, habitual ou acidental, e das qualidades que ele encontra nas causas que o influenciam e que existem independentemente dele próprio.

[…]

Quando se diz que o homem não é um agente livre, não se está a compará-lo a um corpo que se move unicamente por um simples impulso causal: o homem contém nele próprio causas inerentes à sua existência; é movido por um órgão interno, que obedece a leis particulares e que é necessariamente determinado pelas representações que ele forma a partir das percepções que resultam das sensações que recebe dos objectos externos. Dado que desconhece o mecanismo destas sensações, destas percepções e do modo como as representações são gravadas no seu cérebro, e porque é incapaz de decifrar estes movimentos, por não ver a cadeia de operações na sua alma, ou o motivo principal que actua sobre ele, vê-se a si próprio como agente livre, o que, em tradução literal, significa que se move a si mesmo por si mesmo, que se determina sem causa, quando deveria dizer que ignora como e por que motivo age como age. É verdade que a alma goza de uma actividade peculiar para si mesma, mas é igualmente certo que esta actividade nunca seria visível se algum motivo ou causa não estivesse na sua origem; pelo menos, não se pretenderá que a alma possa amar ou odiar sem motivo, sem conhecimento dos objectos, sem alguma ideia acerca das suas qualidades. A pólvora tem inquestionavelmente uma actividade particular, mas esta nunca se exibirá por si mesma, a não ser que se aplique fogo, o que imediatamente a colocará em movimento.

É a grande complicação do movimento no homem, é a diversidade da sua acção, é a multiplicidade das causas que o movem, simultânea ou sucessivamente, que o persuade de que é um agente livre; se todos os seus movimentos fossem simples, se as causas que o movem se não confundissem entre si, se fossem distintas, se a sua máquina fosse menos complicada, compreenderia que todas as suas acções são necessárias, porque seria incapaz de regredir instantaneamente à causa que o fez agir. Um homem que está sempre obrigado a dirigir-se para oeste, irá sempre para esse lado; mas sentirá que ao fazê-lo nunca será um agente livre; se visse os seus sentidos, como as suas acções ou os seus movimentos, aumentados para seis, seria mais diverso e mais complexo, pelo que teria ainda mais razões para acreditar ser um agente mais livre do que com cincos sentidos.

É então por querer regredir às causas que o movem, por causa de ser capaz de analisar, por não ser competente para decompor os movimentos complexos da sua máquina, que o homem acredita ser um agente livre. É apenas sobre a sua própria ignorância que ele encontra a noção profunda, mas enganadora de que é um agente livre; que constrói aquelas opiniões que apresenta como provas irrefutáveis da sua pretensa liberdade de acção. Se, por um curto período de tempo, cada homem fosse capaz de examinar as suas acções particulares, de procurar os verdadeiros motivos para descobrir a sua conexão, ficaria convencido de que o sentimento que tem de ser naturalmente um agente livre não é mais do que uma quimera que a experiência deve rapidamente destruir.

Ainda assim, deve reconhecer-se que a multiplicidade e a diversidade de causas que actuam continuamente sobre o homem, frequentemente sem o seu conhecimento, tornam impossível ou pelo menos extraordinariamente difícil para ele remontar aos verdadeiros princípios das suas acções peculiares, quanto mais às dos outros; frequentemente dependem de causas tão fugazes, tão remotas relativamente aos seus efeitos, que, quando são superficialmente examinadas, parecem tão pouco aparentadas, com tão pouca relação entre si, que seria necessária uma sagacidade bastante singular para as esclarecer. É isto que torna o estudo do homem moral uma tarefa tão complexa; é esta a razão pela qual o seu coração é um abismo, no qual lhe é frequentemente impossível sondar a profundidade. Está então obrigado a contentar-se com o conhecimento das leis necessárias e gerais que regulam o coração humano; para os indivíduos da sua própria espécie estas leis são quase as mesmas, variando apenas em consequência da organização que é específica de cada indivíduo e da modificação que sofre; isto, contudo, não pode ser rigorosamente idêntico em quaisquer dois indivíduos. É suficiente saber que, em razão da sua essência, o homem tende a preservar-se e a tornar a sua existência feliz; garantido isto, sejam quais forem as suas acções, se recuar até ao primeiro princípio, até essa tendência geral e necessária da sua vontade, nunca poderá iludir-se relativamente aos seus motivos.

Paul Henri D’Holbach

Excerto do Capítulo 11 (“Du Systême de la Liberté de l’Homme”) da Parte 1 de Système de la Nature ou des Loix du Monde Physique et du Monde Moral (1770). Retirado de “Of the System of Man’s Free Agency” in Pojman, Louis P., Philosophy: The Quest for Truth (6.ª ed. Nova Iorque: Oxford University Press, 2006), pp. 350–354

Realismo político

Alexander Moseley

Tradução de Álvaro Nunes - Crítica na rede

O realismo político é uma teoria de filosofia política que tenta explicar, modelar e prescrever as relações políticas. Parte do pressuposto que o poder é (ou deve ser) o fim primeiro da acção política, seja na arena doméstica seja na arena internacional. Na arena doméstica, a teoria afirma que os políticos lutam, ou devem fazê-lo, para maximizar o seu poder, enquanto que no palco internacional, os estados-nação são vistos como os agentes básicos que maximizam, ou devem maximizar, o seu poder. A teoria tem, portanto, de ser examinada ou como uma prescrição do que deve ser ou acontecer, isto é, as nações e os políticos devem procurar o poder ou os seus próprios interesses, ou como uma descrição do corrente estado de coisas — que as nações e os políticos apenas procuram (e talvez possam apenas procurar) o poder ou o interesse próprio.

Em essência, o realismo político reduz-se ao princípio ético-político do poder do mais forte. [...] O realismo político pressupõe que os interesses devem ser mantidos pelo exercício do poder e que o mundo se caracteriza por centros de poder em competição. Na política internacional, a maior parte dos teóricos políticos enfatizam o estado-nação como o agente relevante, enquanto os marxistas se concentram nas classes. [...] O realismo político nacionalista [...] estendeu-se às teorias geopolíticas, que consideram que o mundo se divide em culturas supra-nacionais, como o Este e o Oeste, o Norte e o Sul, o Velho Mundo e o Novo Mundo, ou que se concentram nas aspirações continentais pan-nacionais da África, da Ásia, etc. [...] [E]m geral os realistas políticos concentraram-se na necessidade ou na ética de garantir que o agente relevante (o político, a nação, a cultura) assegure a sua própria sobrevivência defendendo as suas próprias necessidades e interesses antes de olhar para as necessidades dos outros.

Todos os Sonhos do Mundo

Para explorar as várias matizes e implicações da teoria, vamos examinar a sua aplicação às relações internacionais.

O realismo político descritivo normalmente sustenta que a comunidade internacional se caracteriza pela anarquia, uma vez que não há um governo mundial supremo que imponha um código de regras comum. Apesar de esta anarquia não ter de ser caótica, pois vários estados membros da comunidade internacional podem envolver-se em tratados ou em padrões de comércio que originem uma espécie de ordem, a maior parte dos teóricos conclui que a lei ou a moralidade não se aplicam para lá dos limites da nação. [...] Consequentemente, sem um poder ou um tribunal internacional supremo, os estados vêem-se uns aos outros com receio e hostilidade, e o conflito, ou sua a ameaça, é endémica ao sistema.

Outra proposição é que uma nação só pode promover os seus interesses contra os interesses de outras nações; isto implica que o meio internacional é inerentemente instável. Qualquer que seja a ordem existente, ela desfaz-se quando, por exemplo, as nações competem pelos mesmos recursos, e pode seguir-se a guerra. Em tal ambiente, argumentam os realistas, uma nação depende apenas de si própria.

O realismo político descritivo é verdadeiro ou falso. Mesmo que seja verdadeiro, não se segue, contudo, que a moralidade não se deva aplicar às relações internacionais: nem sempre o que deve ser se segue do que é. Uma forma de realismo político forte sustenta que as nações são necessariamente egoístas, que podem apenas formular a política externa em termos do que a nação pode ganhar, e não podem, pela sua própria natureza, pôr de lado os seus próprios interesses. Contudo, para que o realismo descritivo seja sustentado, tem de ser como uma teoria fechada, o que significa que pode refutar todos as provas contrafactuais nos seus próprios termos (por exemplo, a prova de que uma nação oferece apoio a um vizinho como um acto ostensivo de altruísmo é refutada apontando algum motivo egoísta que a nação dadora presumivelmente tem — aumentará o comércio, ganhará um aliado importante, sentir-se-á culpada se não o fizer, e por aí adiante), pelo que qualquer tentativa para introduzir a moralidade nas relações internacionais se revelaria fútil. [...] Logicamente, a natureza fechada do realismo político implica que uma proposição contrária, segundo a qual as nações não servem quaisquer interesses ou podem servir apenas os interesses de outras, pode ser igualmente válida. A validade lógica das três teorias resultantes sugere que preferir uma posição a outra é uma decisão arbitrária — isto é, uma suposição que pode ser ou não sustentada. Isto nega a solidez do realismo descritivo; não é uma descrição verdadeira ou falsa das relações internacionais mas reduz-se a uma suposição arbitrária. As suposições podem ser testadas com provas, mas em si mesmas não se pode provar que são verdadeiras ou falsas. Por fim, o que é de dada maneira não necessita de o ser, nem necessita de dever sê-lo.

É uma descrição aceitável que a arena internacional actual de estados é caracterizada pela falta de um poder dominante. [...] O estado de coisas aparentemente anárquico levou alguns pensadores a fazer comparações com a anarquia doméstica, quando um governo não existe para regular e dirigir uma nação. Sem um poder mundial, podem eles pensar, a guerra, o conflito, a tensão, e a insegurança foram o estado de coisas normal; eles podem então concluir que tal como um governo doméstico elimina a luta interna e pune o crime local, também um governo mundial deve dirigir as actividades dos estados individuais [...]. Contudo, a ‘analogia doméstica’ presume que as relações entre os indivíduos e entre os estados são as mesmas. [...] Tal argumento implica a colectivização dos indivíduos e/ou a personificação dos estados: o realismo pode descrever as nações como indivíduos agindo na cena internacional para promover os seus interesses, mas por detrás do conceito de ‘França’ ou de ‘África do Sul’ existem milhões de indivíduos únicos, que podem ou não concordar com as exigências de promover o interesse nacional. Alguns [...] alegam que as relações entre os estados e os seus cidadãos são muito diferentes das relações entre os estados-nação, uma vez que os indivíduos podem ter crenças e podem sofrer, ao contrário dos estados. [...]

Para lá das proposições descritivas do realismo político, o realismo político prescritivo defende que qualquer que seja o estado actual das relações internacionais, as nações devem procurar os seus próprios interesses. Esta teoria assume várias matizes dependendo daquilo que se declara ser o padrão do interesse nacional e da permissividade moral de empregar vários meios para os fins desejados. Podemos oferecer várias definições do que deve incluir o interesse nacional: a maior parte das vezes as afirmações invocam a necessidade de ser económica e politicamente auto-suficiente, reduzindo desse modo a dependência de nações nas quais não se pode confiar.

O argumento que suporta a primazia da auto-suficiência na formulação do interesse nacional tem uma longa história: tanto Platão como Aristóteles argumentaram a favor da auto-suficiência económica com base na necessidade de assegurar o poder de uma nação — as nações, pensam ambos, devem apenas importar mercadoria não necessária. O poder desta doutrina económica foi frequentemente usado para apoiar o realismo político: no século XVIII, em especial, os teóricos políticos e os mercantilistas defenderam que o poder político poderia apenas ser sustentado e aumentado reduzindo as importações de uma nação e aumentando as suas exportações. O denominador comum entre as duas posições é a proposição que uma nação só pode enriquecer à custa das outras. Se a riqueza da Inglaterra aumenta, concomitantemente a da França diminui. Este influente chão que suporta o realismo político não é, contudo, sólido. O comércio não é necessariamente benéfico exclusivamente para uma das partes: frequentemente é mutuamente benéfico. Os economistas Adam Smith e David Ricardo explicaram as vantagens que resultam para ambas as partes do comércio livre e sem entraves. O realista pode, não obstante, admitir isto e responder que apesar das vantagens do comércio, as nações não devem confiar noutras para o seu sustento, ou que o comércio livre não deve ser apoiado uma vez que frequentemente implica alterações culturais que são indesejadas. A esse respeito, os interesses das nações são definidos como estando para lá de quaisquer benefícios materiais que possam resultar da colaboração e da cooperação internacionais. [...]

Os realistas políticos são frequentemente caracterizados como amoralistas, que afirmam que quaisquer meios devem ser usados para sustentar o interesse nacional, mas uma crítica mordaz é que a definição de moralidade está a ser distorcida para pressupor que agir no seu próprio interesse ou no interesse da sua nação é imoral ou na melhor das hipóteses amoral. Esta é uma alegação injusta contra servir o interesse da sua nação, tal como é injusto afirmar que qualquer acção egoísta é necessariamente imoral ao nível pessoal. A discussão invoca a ética da imparcialidade; aqueles que acreditam num código ético universal sustentam que uma acção egoísta que não pode ser universalizada é imoral. Contudo, o universalismo não é o único padrão das acções éticas. Pode-se alegar que a parcialidade deve ter um papel nas decisões éticas; os parcialistas consideram absurdo que os funcionários do estado não devam dar à sua nação um maior peso moral que às outras nações, tal como seria absurdo que os pais considerassem de igual modo as suas crianças e as crianças dos outros. Mas se a moralidade é empregue no sentido de ser altruísta ou, pelo menos, universalista, então os realistas políticos admitiriam correctamente que tentar ser moral seria prejudicial para o interesse nacional ou para o mundo como um todo e que, portanto, a moralidade deve ser ignorada. Mas se a moralidade aceita a validade de pelo menos algumas acções egoístas, então ipso facto o realismo político pode ser uma doutrina política moral.

Alexander Moseley

Excerto de “Political Realism”, The Internet Encyclopedia of Philosophy.

Dia da Bastilha: Presente ultra-confuso da França

por Immanuel Wallerstein

Todos os anos, a França celebra no dia 14 de julho, a queda da Bastilha em 1789, a principal prisão em Paris. A celebração é para marcar o fim do chamado Ancien Régime. Unificou o país em torno do que são referidos hoje como valores republicanos.

A primeira vez que houve uma tal celebração foi no ano seguinte, em 1790, que foi dedicado à paz e à unidade nacional. Dia da Bastilha, no entanto, não se tornou uma celebração anual até 1880, quando o legislador da Terceira República proclamou 14 de julho a nationale fête (festa nacional), que se mantêm até hoje. Mas este ano, a República não está nada unificada, o seu futuro imediato não poderia ser mais incerto, e há muito debate sobre o que exatamente constitui valores republicanos.

A atual Constituição é quase-presidencial, fazendo a escolha de um presidente politicamente crucial. No entanto, ao mesmo tempo, estabelece um sistema no qual há duas rodadas de votação, a menos que alguém receba uma clara maioria no primeiro turno. No segundo turno há apenas dois candidatos, os dois com as maiores votações na primeira rodada.

O objetivo deste sistema é permitir que para cada agrupamento político mostrar sua força na primeira rodada e depois votar na segunda rodada para um dos dois partidos principais (centro-direita contra o centro-esquerda). O problema é que este sistema funciona se houver apenas dois partidos principais. Se existem três de força eleitoral aproximadamente iguais (uma vez que existem no presente), o sistema é transformado. Neste caso, os três principais partidos devem permanecer unidos no primeiro turno e exortar os partidos mais pequenos para fazer um voto "útil" na primeira rodada de modo a que o seu partido de segunda rodada preferido vai ser realmente na cédula de segunda rodada.

O resultado é confusão e caos, em primeiro lugar dentro dos três principais partidos e, em seguida, dentro das tendências políticas menores. Cada um dos atuais três principais partidos - os socialistas (centro-esquerda), os republicanos (centro-direita) e a Frente Nacional (extrema direita) - está tendo uma luta interna sobre a estratégia e cada um arrisca secessões. Ao mesmo tempo, os partidos menores estão dividindo-se precisamente sobre se eles deveriam votar "útil" na primeira rodada ou não. O maior deles relativo ao prosseguimento da esquerda caiu distante sobre esta questão.

Uma das questões substantivas em debate é a construção da Europa, incluindo o euro como moeda, a liberdade de circulação na União Europeia (UE), e a recepção e tratamento de imigrantes de fora da UE. Este é, naturalmente, um grande debate em toda a UE. A posição da França está em algum lugar no meio da gama de pontos de vista europeus, tanto a dos governos e da opinião pública.

Além disso, a França teve uma preocupação de longa data com a manutenção e aumentando o seu papel tanto no sistema-mundo como um todo e na Europa. Um dos seus pontos fortes até agora tem sido o arranjo de fato que teve com a Alemanha para constituir um duo cujas acordadas preferências se tornaram a base das políticas coletivas da Europa. Isso funcionou enquanto a Alemanha foi dividida em duas e França foi o país com armas nucleares e um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Mas, nos últimos vinte anos, a Alemanha tornou-se tão comparativamente forte economicamente que elae precisa muito menos da legitimação que uma aliança franco-alemão oferece à Alemanha. A dupla já não faz regras e políticas da UE.

As relações da França com os Estados Unidos também tem sido um problema desde pelo menos 1945. Por um lado, os Estados Unidos e, particularmente, o Congresso dos EUA, têm sido muito crítico do que eles consideravam atitude muito complacente da França em direção primeiro à União Soviética e agora Rússia. Por outro lado, a França tem sido muito crítica do que considerava o abandono dos EUA de defesa dos direitos humanos (como por exemplo, na Síria).

A votação recente da Grã-Bretanha a deixar a UE forneceu ainda mais incerteza na França. É este um mais ou menos para a França? A França está a tentar apresentar-se como um bom refúgio para as empresas (e estruturas especialmente financeiras) que pode ser que procuram um ambiente mais calmo, menos inseguro. Mas a França também está preocupada com o repatriamento forçado dos cidadãos franceses agora residentes e a trabalhar na Grã-Bretanha. Nas próximas negociações da Grã-Bretanha e da UE, a França não tem certeza se ela deve empurrar para os esforços para manter a Grã-Bretanha ainda ligados à UE, de alguma forma, ou não. A nomeação de Boris Johnson como o ministro do Exterior britânico enfraquece qualquer sentimento favorável à Grã-Bretanha.

Então, a confusão nos leva de volta para as próximas eleições presidenciais. A Frente Nacional tem procurado tirar votos dos dois partidos centristas clássicos minimizando sua linguagem racista e realmente expulsando os membros que se recusam a fazer isso. Nomeadamente, a sua líder Marine Le Pen expurgou seu pai e líder de longa data da Frente Nacional, Jean-Marie LePen, por se recusar a fazer isso. Mas isso corre o risco de perder alguns dos seus apoiantes anteriores para partidos separatistas ou as abstenções.

O Partido Republicano de centro-direita, liderada pelo ex-presidente Nicolas Sarkozy, está tentando captar votos da Frente Nacional, mudando sua retórica em sua direção. Este é fortemente contestada por outros dois candidatos na próxima primária do partido, Alain Juppé e François Fillon. Se Sarkozy vence, Fillon pode retirar o apoio do partido. Juppé geralmente é pensado para ser o mais provável para ganhar a eleição no segundo round nacional por causa de suas visões mais "moderadas" sobre as questões principais. Mas para ser na segunda rodada, ele deve ganhar a nomeação do partido em seu primário, e para isso ele mudou sua retórica para a direita.

Finalmente, o atual presidente François Hollande está na posição mais difícil de todas. O Partido Socialista está sob pressão para participar de uma primária que é um primária de toda a esquerda francesa. Hollande não quer um primária "aberta", como ele parece bastante provável de perdê-la. Então, ele está empurrando para uma decisão a ser tomada pela convenção do partido em uma plataforma mais para a direita que ele acredita que irá permitir-lhe ganhar o segundo turno. Ele tem, assim, empurrado através de nova legislação que enfraquece os direitos sindicais. Este é impopular tanto com a esquerda do partido que estão resmungando e com dois de seus próprios aliados presumidos, Ministro da Economia Emmanuel Macron e o primeiro-ministro Manuel Valls, ambos os quais estão manobrando para se tornar o candidato socialista, se não em 2017, em seguida, em 2022. Macron sente que Hollande não está indo bem o suficiente.

As múltiplas incertezas dentro dos partidos na França fazem a recente esfaqueamento dentro do Partido Conservador britânico pálido em comparação. Dado que a economia da França também está em estado lamentável, de 2016, é quase um momento para celebrar as festividades nacionais com base nos valores republicanos comuns.

A última supercentenária viva nascida em 1899

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

160715a

No início de 2016 havia duas supercentenárias vivas nascidas no século XIX. Mas Susannah Mushatt Jones (06/07/1899), a mulher mais velha do mundo, morreu aos 116 anos no dia 12 de maio de 2016, no Brooklyn, em Nova Iorque. Ela era uma das duas supercentenárias nascidas nos anos de 1800.
À semelhança de outras supercentenários (pessoas com idade de 110 anos ou mais), Susannah, que era filha de meeiros e neta de escravos, tinha sua própria explicação para sua longevidade: “mais de 10 horas de sono por noite e abstinência ao longo da vida de álcool e cigarros”. Sua sobrinha, Lois Judge, disse no ano passado que a tia se beneficiou de uma alimentação à base frutas e legumes que ela selecionava na fazenda onde cresceu perto de Montgomery, Alabama.

160715b

Atualmente, a pessoa mais velha do globo é Emma Morano, também de 116 anos. Morano, que nasceu quatro meses e meio depois de Jones em 28 de novembro de 1899, vive em Verbania, noroeste da Itália, e já viu 11 papas passarem pelo Vaticano.
Morano atribui sua longevidade a comer três ovos crus por dia, desde que era adolescente, para afastar a anemia. Morano se separou de seu marido em 1938, e nunca mais se casou. “Eu não queria ser dominada por qualquer pessoa”, ela disse ao New York Times. Ela compartilha algumas semelhanças com Susannah, que só foi casada por alguns anos
No entanto, o prof. Karen Glaser, do instituto da gerontologia e diretor do centro de envelhecimento global da Kings College de Londres, disse: “100 anos de pesquisa mostram que as pessoas casadas são mais propensas a viver mais tempo do que as solteiras”.

160715c

Passar dos 110 anos é uma probabilidade rara. Passar dos 115 anos é um privilégio raríssimo. A pessoa mais longeva de todos os tempos foi a francesa Jeanne Calment que viveu 122 anos e meio (44.724 dias). Este é o recorde absoluto e a única pessoa do mundo, comprovadamente, a ultrapassar os 120 anos. O Brasil nunca teve uma pessoa que, comprovadamente, tenha vivido mais de 115 anos.
A tabela acima mostra a lista das 10 pessoas mais longevas de todos os tempos. Todas são mulheres, o que comprova que o sexo feminino tem menor probabilidade de morte do que o sexo masculino.
A italiana Emma Morano é a única pessoa viva, comprovadamente, nascida no século XIX (anos 1800). Que ela continue “morano” neste mundo por longo tempo!

Veja os vídeos de Emma Morano:
Italia: Emma Morano, la última persona en el mundo nacida en el siglo XIX


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 15/07/2016

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Crise de Identidade

por Michel Wieviorka


A ordem social e econômico da Europa mudou fundamentalmente com o fim da era industrial na década de 1970. As tensões resultantes levou a uma crise de identidade, quando as minorias procuraram abordar injustiças e  os nacionalistas se agitaram contra a diversidade cultural e religiosa. É o multiculturalismo agora destinado ao fracasso?
Ao longo do último meio século, em todo o mundo, a questão da identidade substituiu questões sociais no debate público. A nação, as diferenças culturais, a etnia e mesmo a raça e a religião e as paixões, especialmente o Islã - alimentaram tensões terríveis dentro de vários países, entre os Estados-nação, e em uma escala global. Enquanto isso, falamos muito menos sobre a exploração social dos trabalhadores ou a luta de classes.
Na Europa, e particularmente na França, essa mudança, como o antropólogo Marcel Mauss diria, é um fato social total. Ela estabelece os parâmetros para o debate público e restringe a maneira como pensamos sobre quase todo hoje, o social, a política, ou mesmo a questão econômica. A fim de entender como esse fato social total domina a sociedade, de forma quase coerciva, temos que entender os fatores de fundo em primeiro lugar.
A ordem social e econômica mudou fundamentalmente desde o início da década de 1970. A era industrial acabou, assim como as suas formas de gestão e métodos de organização dos trabalhadores - que começam com o taylorismo e o conflito estrutural opondo o movimento dos trabalhadores e os donos do trabalho da oficina para a fábrica.
A principal consequência destas mudanças foi a necessidade em declínio em indústrias pesadas da Europa para trabalho não-qualificado, muitos dos quais na época eram trabalhadores migrantes originalmente de países muçulmanos árabes e muitas vezes viviam na França, Bélgica e Alemanha (onde eles foram chamados Gastarbeiter, "trabalhadores convidados"). Como resultado, muitos desses trabalhadores, que foram chamados a permanecer na Europa, juntamente com suas esposas e filhos e se integrar na sociedade, foram confrontados por grandes dificuldades: desemprego, diversas formas de insegurança e exclusão social, o racismo, a discriminação, a desestabilização da família e os pobres, a educação de seus filhos. Dentro destas populações desenvolveu-se uma nova ênfase na religião, na maioria das vezes o Islã, mas também, por vezes, variantes do protestantismo.
O crescimento do islamismo na Europa é, essencialmente, o resultado de povos excluídos à procura de um lugar em seus novos países. Eles desejam ter uma vida digna, educar os seus filhos, e obter um grau de mobilidade social. Mas esta forma de identidade religiosa pode assumir aspectos radicais e sectários. Além disso, a opção da religião - reanimada por um Islã nas terras cristãs - tem sido capaz de seduzir, e continuará a seduzir, jovens à procura de significado, mesmo que eles não sejam de origem imigrante ou muçulmanos de origem. Isto é como o terrorismo ligado ao islamismo radical obteve moeda na Europa, e por isso inclui tanto aqueles que vêm de origem imigrante e não têm sido capazes de encontrar o seu lugar na sociedade, e outros que querem dar algum sentido à sua vida. Essas pessoas estão prontas para se juntar à luta contra os regimes ditatoriais em países estrangeiros e servir uma causa que, no início, eles percebem como humanitária.
A referência a uma identidade coletiva é o resultado da viagem, e um processo de subjetivação individual de-subjetivação, e re-subjetivação. Que a identidade não é necessariamente lá para começar. Atores não participam de uma comunidade de vida e pré-existente a que pertencem, mas referem-se a uma comunidade imaginada, cuja natureza torna-se evidente, para eles, ao longo do caminho. Radicalização, como o cientista político Olivier Roy tem mostrado, pode vir antes de islamização. E ao contrário da percepção popular, o fenômeno se deve mais ao individualismo moderno do que pertence a uma coletividade. Atores fazem a escolha, em um momento ou outro, para fazer parte da comunidade, e esta escolha é pessoal, singular, e que de um indivíduo.
No entanto, o crescimento de questões de identidade na Europa, e especialmente na França, não afecta apenas os jovens de origem imigrante. Trata-se de muitos tipos de grupos minoritários que evoluíram ou foram se solidificando ao longo dos últimos cinquenta anos dentro das sociedades ocidentais. Desde o final dos anos 1960, os movimentos, às vezes regionalistas separatistas desenvolvidos dentro dos países como na Espanha (na região basca e na Catalunha), Irlanda do Norte, Itália (na Sardenha, e mais tarde Liga do Norte do país), Bélgica (partido nacionalista de extrema direita Vlaams Blok na Flandres, que se tornou Vlaams Belang em 2004) e França (a Breton, Occitan, e os movimentos da Córsega, entre outros). Estes movimentos minoritários conectados, e em alguns casos ainda conectando, sua identidade com um território que pretendem emancipar ou libertar.
Outros atores, que operam no mesmo contexto histórico, apresentaram pedidos decorrentes de um passado coletivo, e exigiu o reconhecimento de sua identidade, independentemente de quaisquer questões territoriais. Na França, as populações de judeus e armênios com memórias dolorosas têm exigido, desde 1970, o reconhecimento dos seus sofrimentos históricos, incluindo o papel do Estado francês na deportação de judeus, ou o fato de que os armênios foram vítimas de genocídio (e assassinatos não apenas de massa, como autoridades turcas afirmam). Mais tarde, uma diversidade de movimentos entre as pessoas de origem Africana negra apresentou uma identidade pós-colonial destacando as injustiças da era colonial: escravidão, racismo e exploração dos colonizados.
Consequentemente, os diferentes grupos de novas minorias e comunidades de imigrantes de idade, e outras populações minoritárias que reivindicam um longo passado na Europa, seja real ou mítico - abriu um processo no final dos anos 1960 e início dos anos 1970 que tem posto em dúvida a capacidade da nação europeia estados de integração e assimilação.
Na época, esses desafios políticos aconteceu em um contexto de forte crescimento econômico, quase pleno emprego e confiança no progresso e na ciência. Eles ocorreram em um nível doméstico, e não foram internacional ou "global", mesmo que surgiram mais ou menos ao mesmo tempo de forma relativamente semelhante, e às vezes tinha ligações com outros (especialmente da diáspora) movimentos.
Começando principalmente na década de 1980, um terceiro tipo de política de identidade ressurgiu na cena: partidos nacionalistas, que apesar de não desaparecer completamente após a Segunda Guerra Mundial até então tinha sido extremamente marginais.
A ideia histórica da nação começa, nos tempos modernos, no século XVII, se não antes. Em alguns momentos ela tem acompanhado movimentos emancipatórios progressivos, nomeadamente durante a "primavera dos povos", em 1848, as revoltas nacionalistas que espalham esperança em toda a Europa. Mas, nas últimas décadas do século XX, a ideia nacionalista tornou-se o quase monopólio das forças políticas que balançam entre a extrema direita e o populismo. Alguns pesquisadores rotulam essas formações políticas "populismo nacionalista", que apela para o auto-isolamento das sociedades e desenvolve uma imagem de homogeneidade nacional, isto é, mais ou menos, racista, xenófobo e anti-semita. A identidade é a base para sua ação política, que em alguns casos é abertamente violenta, como acontece com Golden Dawn na Grécia.
Outros atores preferem desenvolver uma estratégia trazendo-lhes o acesso democrático ao poder através de eleições. Nestes casos, como a National Front - violência da França vem de uma extrema direita que a Frente Nacional é incapaz de controlar e é dominado por neonazistas e skinheads, por exemplo, que apenas por existir no espaço público ganham uma certa legitimidade para agir.
Falha do multiculturalismo?
Uma consequência importante do crescente poder da direita radical-nacionalista e nacionalista-populista é a mudança que impõe na paisagem política mais ampla. Por um lado, grandes segmentos da direita tradicional e conservadora estão se movendo em sintonia com os radicais, pelo menos ideologicamente, se não politicamente. Isso é como a identidade nacional se tornou um elemento central no debate público. A direita tradicional, e até mesmo a esquerda, propõe ou compromete políticas para promover a identidade nacional, geralmente em uma segmentação, aberta ou implicitamente, os imigrantes, árabes, muçulmanos, e na ocasião ciganos ou negros. Juntamente com tensões culturais, mesmo religiosas e raciais, de fragmentação, sociais e políticos mudaram-se a questão da identidade para a vanguarda na França, como em toda a Europa.

Essas tensões influenciam muitos aspectos diferentes do debate público. Em certa medida, o debate opõe dois lados: por um lado, aqueles que apoiam uma sociedade aberta que não têm medo da alteridade e o mundo mais amplo, e favorecem o projeto europeu (o que o sociólogo Ulrich Beck chama de "cosmopolitismo metodológico"). Por outro, os partidários de uma nação fechada, anti-europeia, "soberanista", geralmente hostil para com a diversidade cultural e religiosa, e mais ou menos racista - o que Beck chama de "nacionalistas metodológicos".
Mas o debate não pode ser reduzido inteiramente a uma justaposição tão elementar. Ele também assume a forma de um conflito entre os apoiantes do regime multiculturalismo-institucional que reconhecem, em certa medida, diferentes identidades - e culturais adversários que só desejam reconhecer "indivíduos" dentro do espaço público. O acampamento multiculturalista encontrou sucesso limitado na década de 1990, mas tornou-se mais e mais fraco desde o início da década de 2000, especialmente após os ataques terroristas em Londres (Julho de 2005) e em Paris (janeiro e novembro de 2015). O multiculturalismo é agora acusado de ter "favorecido" comunidades muçulmanas e, portanto, ter permitido a difusão de um Islã radical que produz, ou parece vir com o terrorismo.
No espaço de algumas semanas em 2011, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, a chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente francês, Nicolas Sarkozy usaram quase as mesmas palavras para anunciar o fracasso do modelo multicultural. Para a maior parte, eles estavam se referindo aos muçulmanos e imigrantes, que traíram uma imprecisão semântica terrível da sua parte. O Islã é uma religião e não uma cultura e a maioria dos imigrantes se definem principalmente como pessoas que deixaram seu país para viver em outro. Para eles, as questões culturais e religiosas vêm em segundo lugar. Sem essas duas questões - o papel da religião e políticas para migrantes muçulmanos - o famoso discurso em torno do "multiculturalismo" cai por terra. Não haveria mais nada a discutir, além de questões em torno de identidades sexuais (e homossexuais).
Hoje, as ansiedades mais profundas sobre o centro de identidade sobre o Islã, que é em si uma identidade, e os migrantes, que não contam como um. O debate coloca aqueles que imaginam um lugar respeitável para os muçulmanos na sociedade europeia ao lado da religião cristã dominante, contra aqueles que desejam enfraquecer o Islã, impedi-lo de florescer, e mantê-lo em "seu lugar".
Qual é a natureza do Islã e da identidade muçulmana? O debate aqui se opõe, sobretudo, os que creem na replicação de uma identidade existente e imutável, e aqueles vendo que a identidade como uma invenção, como um processo contínuo por meio do qual a religião se renova. No nosso mundo globalizado dominado por algumas grandes religiões, o Islã na Europa está em constante suspeita de ser dependente dos estrangeiros, e devido demais para o apoio político dos Estados como a Arábia Saudita, Argélia, Tunísia e Marrocos, e seu papel nos imãs de treinamento ou pagar para a construção de novas mesquitas. Como resultado, a identidade religiosa dos muçulmanos é percebida como uma ameaça para o grupo de identidade maioral e sua cultura, língua, tradições e religião, mesmo a totalidade do seu ser cultural e histórico.
Em um momento de graves dificuldades na Europa, quando o continente está sofrendo de uma crise financeira e econômica, os movimentos anti-União Europeia em países como a Grécia e Reino Unido, e a crise os migrantes há um enorme risco de que os países comecem o fechamento em si mesmos, convidando a "nação" e, simultaneamente, denunciando ou fundição suspeitas sobre outras identidades como subverter as suas identidades "nacionais" e culturas. Não é mais clara, num contexto tão tempestuoso, se as questões religiosas e culturais surgem independente das sociais, ou se eles são empurradas para a frente, quando ninguém sabe mais como resolver a desigualdade social, o desemprego, bem como a repartição do crescimento econômico.
Os debates de identidade são um sinal de uma nova era, onde essas questões tornaram-se, mais uma vez, inevitáveis. A Europa não se esqueceu de suas guerras de religião, ou os maiores conflitos militares e nacionalistas de séculos passados; o ressurgimento de questões de identidade expressa a impotência do continente em face de seus males sociais e econômicos.
Michel Wieviorka, publicado em Trouble in Europe Cairo review No. 21, junho 2016

Prosperidade e decrescimento demoeconômico no Japão

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“I only went out for a walk, and finally concluded to stay out till sundown,
for going out, I found, was really going in”
John Muir

participação do PIB do Japão no PIB mundial: 1980-2020

A presença humana no Japão aconteceu há 35 mil anos, quando os povos do leste da Ásia chegaram ao arquipélago japonês. A população cresceu e a cultura se desenvolveu com grande influência da China e da filosofia de Confúcio. A religião xintoísta se expandiu a partir da influência do taoísmo. O budismo (original da Índia) chegou ao Japão no ano de 552 trazido por sacerdotes da China e da Coreia. Os portugueses chegaram a ter influência no Japão no século XVI e conseguiram converter muitos japoneses ao catolicismo. Neste período o Japão, com cerca de 26 milhões de habitantes, era uma sociedade feudal relativamente bem desenvolvida com tecnologia pré-industrial. No início do século XVII, O Xogum Tokugawa unificou o país e expulsou os portugueses, fechando o país aos estrangeiros por cerca de 250 anos.
Mas em 1854, os navios da Marinha dos Estados Unidos, liderados por Matthew C. Perry, forçaram a abertura do país ao comércio internacional, enfraquecendo o xogunato Tokugawa. Em 1868, houve a chamada restauração Meiji, quando o poder foi centralizado nas mãos do imperador Mutsuhito. Reconhecendo que o Japão estava atrasado em relação aos países ocidentais a revolução Meiji iniciou um processo acelerado de desenvolvimento econômico e fortalecimento do poderio japonês para fazer frente às ameaças externas. O Japão surpreendeu o mundo ao vencer a Rússia na guerra de 1904-1905. Mas em seguida optou pelo empoderamento militar e conquistou a Coreia, Taiwan e a ilha de Sacalina. Nos anos 1930 invadiu a Manchúria, na China, cometendo uma série de barbaridades e se aliou ao Eixo fascista/nazista na Segunda Guerra Mundial. Em 7 de dezembro de 1941, o Japão atacou a base naval de Pearl Harbor e declarou guerra aos Estados Unidos. Somente depois dos bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki, em 1945, o Japão concordou com a rendição incondicional de suas forças em 15 de agosto de 1945. A derrota na Segunda Guerra obrigou o Japão a seguir um caminho de paz e a ocupação americana proibiu a formação de um exército ofensivo e o uso de armas nucleares.
Portanto, o Japão não tinha outra alternativa senão buscar uma solução de paz e de desenvolvimento de tecnologia civil para sair da situação de destruição e de pobreza deixada pela herança militarista. Os grandes conglomerados japoneses – que participaram da aventura do imperialismo de guerra e de colonização – passaram a atuar para a conquista mercados para a crescente indústria de bens e serviços. O setor produtivo do Japão aperfeiçoou suas vantagens comparativas e buscou todas as oportunidades possíveis para vender seus produtos e garantir divisas para comprar alimentos e matérias-primas para as quais o país era carente.
De 1945 até 1990 o Japão foi o país que apresentou as maiores taxas de crescimento per capita do mundo e soube investir em educação, saúde e infraestrutura, transformando-se na segunda economia mais poderosa do Planeta, atrás apenas dos Estados Unidos. Em 1980, o Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos (em poder de paridade de compra) era de 2,8 trilhões de dólares, o do Japão era de 1 trilhão de dólares, da Alemanha de 866 bilhões e o PIB da China era somente de 303 bilhões de dólares. O Japão passou a ser o primeiro país não ocidental (ou de cultura ocidental) a chegar no topo da liderança da comunidade internacional de nações. Na década de 1980, os produtos “made in Japan” conquistavam o mundo e o modo de produção e a cultura japonesa passaram a ter grande influência global. O Japão passou a ter as menores taxas de mortalidade infantil, a maior esperança de vida e excelentes níveis de escolaridade.
O Japão tornou-se uma nação rica e próspera. O crescimento do PIB do Japão foi espetacular entre 1945 e 1990. Mas tudo mudou depois de 1990 e o país iniciou um processo de decrescimento na participação mundial, processo que continua até hoje e deve prosseguir no restante do século. O PIB japonês representava quase 9% do PIB mundial em 1991, chegou a 4,3% em 2015 e deve ficar abaixo de 4% em 2020. Contudo, o decrescimento tem ocorrido sem que o Japão tenha perdido a prosperidade e o alto padrão de vida de sua população.
Mas a despeito da perda de posição relativa na economia internacional, a renda per capita do Japão continua crescendo e inclusive melhora em relação à renda per capita brasileira. Em 1980, a renda per capita do Japão (em ppp) era de US$ 8,5 mil e a do Brasil US$ 4,8 mil (1,8 vezes maior). Em 2015, a renda per capita do Japão passou para US$ 38,7 mil e a do Brasil US$ 15 mil (2,6 vezes maior). O menor crescimento econômico do Japão não inviabilizou a melhoria do poder de compra da população. Em relação ao Brasil, a renda per capita japonesa está aumentando e os níveis de violência e problemas sociais são infinitamente menores.

renda per capita do Japão e do Brasil: 1980-2020

O baixo crescimento econômico do Japão não gerou redução da renda per capita porque houve decrescimento demográfico no país. A população em idade de trabalhar (15 a 64 anos) começou a diminuir quando atingiu o pico de 87 milhões de habitantes em 1994. A população total atingiu o pico de 127,4 milhões em 2009, começando a diminuir a partir de então. Para 2100, a população de 15-64 anos deve cair para 43 milhões de pessoas e a população total deve cair para 83 milhões de habitantes.

população total e população em idade ativa no Japão: 1950-2100

O decrescimento demoeconômico já tem um impacto positivo sobre o meio ambiente, com redução da poluição e a diminuição das áreas ecúmenas. A pegada ecológica do Japão cresceu até meados dos anos de 1990 e começou a cair em seguida, enquanto a biocapacidade começou a subir a partir de 2009. Sem dúvida, o Japão tem um déficit ecológico muito grande, mas que deve diminuir nos próximos anos.

pegada ecológica e biocapacidade no Japão: 1961-2012

Com o decrescimento demoeconômico as emissões de carbono começaram a diminuir. O pico das emissões aconteceu em 2007, sendo que as emissões de 2014 estão abaixo das emissões de 2007 e de 1996. Se o Japão cumprir as Contribuições Voluntárias Nacionalmente Determinadas (INDCs) prometidas na COP-21 haverá uma redução ainda maior das emissões de CO2. O Japão é um dos países com maior cobertura florestal.

emissões de CO2 no Japão: 1960-2014

O Japão foi um dos países que mais cresceram depois da Segunda Guerra Mundial e se transformou em uma nação com alto nível de prosperidade e com excelente padrão de vida para sua população. O país do “sol nascente” está em processo de decrescimento demográfico e de estagnação econômica, com alto nível de endividamento. Mas ao contrário de aumentar os conflitos sociais, o Japão parece estar conseguindo decrescer mantendo um certo padrão de prosperidade e melhorando as condições ambientais. Enquanto existem analistas que pregam o aumento da natalidade e das imigrações para manter o crescimento econômico indefinido, o Japão dá um bom exemplo para o mundo de como ter um “declínio próspero” (na expressão de H. T. Odum), evitando a ideologia do poderio nacional e imperialista, podendo, ao contrário, curtir paisagens como essa abaixo.

160713f

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 13/07/2016

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Do Brexit ao futuro

A agenda neoliberal das últimas quatro décadas pode ter sido boa para o 1% superior, mas não para o resto. Digerir todas as implicações do referendo sobre o Brexit levará muito tempo ao Reino Unido, à Europa e ao mundo. 

Por Joseph E. Stiglitz.

As consequências mais profundas dependerão, claro, das respostas da União Europeia (UE) à saída do Reino Unido. A maioria das pessoas assume inicialmente que a União Europeia não iria “cortar o nariz para melhorar o seu rosto”: além disso, um divórcio amigável parece ser do interesse de todos. Mas o divórcio, como acontece muitas vezes, pode ser atribulado.

Os benefícios do comércio e da integração económica entre o Reino Unido e a União Europeia são mútuos e se a UE levou a sério a sua crença de que a integração económica é melhor, os seus líderes procurariam assegurar as ligações mais estreitas possíveis dentro das circunstâncias. Mas Jean-Claude Juncker, o arquiteto do massivo esquema de evasão fiscal das empresas no Luxemburgo e, agora, presidente da Comissão Europeia, está a assumir uma linha dura; “Fora significa fora”, disse.

A reação intempestiva talvez seja compreensível, dado que Juncker pode vir a ser lembrado como aquele que presidiu aos estágios iniciais de dissolução da União Europeia. Ele argumenta que, para deter outros países de também deixar a UE, ela precisa de estar descompromissada, oferecendo ao Reino Unido pouco mais daquilo que já é garantido pela Organização do Mundial do Comércio.

Por outras palavras, a Europa não será mantida unida pelos seus benefícios, que superam os seus custos largamente. Prosperidade econômica, o senso de solidariedade e o orgulho de ser europeu não são suficientes, de acordo com Juncker. Não, a Europa deverá manter-se junta por ameaças, intimidação e medo.

Essa posição ignora a lição tanto do voto pelo Brexit, como das primárias do Partido Republicano nos Estados Unidos: uma larga proporção da população não está bem. A agenda neoliberal das últimas quatro décadas pode ter sido boa para o 1 % superior, mas não para o resto. Eu previ há muito tempo que essa estagnação teria, eventualmente, consequências políticas. Esse dia chegou agora.

Dos dois lados do Atlântico, cidadãos tomam os acordos de comércio como a fonte dos seus infortúnios. Apesar de ser uma reação muito simplista, ela é compreensível. Os acordos comerciais são negociados secretamente, com os interesses das corporações bem representados, mas com os cidadãos comuns e os trabalhadores totalmente excluídos. Não surpreende que os resultados fossem unilaterais: a capacidade de negociar com os trabalhadores ainda mais enfraquecidos a que se somam aos efeitos de uma legislação que mina os sindicatos e os direitos dos empregados.

Os acordos de comércio e o aumento das desigualdades

Enquanto os acordos de comércio jogam um papel na criação de desigualdades, outros fatores contribuem para inclinar a balança para o capital. As regras sobre propriedade intelectual, por exemplo, têm aumentado o poder das indústrias farmacêuticas para aumentar os preços. Mas qualquer aumento no poder de mercado das empresas é de facto uma baixa no salário real – uma elevação da desigualdade que se tornou uma característica da maioria dos países que hoje estão no patamar mais avançado.

Em muitos setores, a concentração industrial está a aumentar – e, assim, o seu poder de mercado. Os efeitos da estagnação e dos salários reais em declínio combinaram-se com os efeitos da austeridade, ameaçando cortes nos serviços públicos de que dependem muitos trabalhadores de baixos ou médios rendimentos.

A consequente insegurança econômica dos trabalhadores, quando combinada com a migração, criou uma mistura tóxica. Muitos refugiados são vítimas de guerras e opressão, para os quais o Ocidente contribuiu. Oferecer ajuda é uma responsabilidade moral de todos, mas especialmente das antigas potências coloniais. Entretanto, enquanto muitos podem negar um aumento na oferta de trabalho pouco qualificado leva a uma degradação do equilíbrio salarial – contanto que haja curvas de demanda normais de inclinação negativa. E, quando os salários não podem ou não são diminuídos, o desemprego aumenta. Esta é a maior preocupação nos países em que a má gestão já levou ao aumento do desemprego geral. A Europa, especialmente na Eurozona, tem sido pessimamente administrada nas décadas recentes, a ponto de o desemprego médio já estar no nível do dígito duplo.

Imigração livre dentro da Europa significa que países que realizaram um trabalho melhor reduzindo o desemprego terão uma quota maior de refugiados. Os trabalhadores nesses países sofrerão o custo de salários deprimidos e maior desemprego, enquanto os empregadores beneficiam dos baixos salários. O peso dos refugiados cai, sem qualquer surpresa, naqueles menos aptos a suportá-lo.

Naturalmente, há muita conversa sobre os benefícios líquidos da imigração. Para um país que oferece pouco grau de benefícios garantidos – proteção social, educação, saúde etc. – para todos os cidadãos, esse é o caso. Mas para os países que não oferecem uma rede de proteção social decente, o oposto é verdadeiro.

Promessas que ficam por cumprir

O resultado da pressão para baixo nos salários e dos cortes nos serviços públicos têm esventrado as classes médias, com consequências similares nos dois lados do Atlântico. As famílias das classes trabalhadoras e das classes médias não têm beneficiado do crescimento econômico. Eles compreendem que os bancos causaram a crise de 2008. Mas, daí, eles vêm milhares de milhões que são destinados aos bancos e pouco para salvar as suas casas e os seus empregos. Com a renda mediana real (corrigida pela inflação) para um trabalhador masculino em tempo integral nos Estados Unidos menor do que era há quatro décadas atrás, um eleitorado irritado não pode ser visto como uma surpresa.

Além disso, políticos que prometem mudanças não entregam o que se aguardou. Os cidadãos comuns sabem que o sistema era injusto, mas passaram a vê-lo ainda pior do que pensavam, perdendo a pouca confiança que tinham na capacidade dos políticos do “establishment” de o corrigir. Isso também é compreensível: os novos políticos participaram da visão daqueles que prometeram que a globalização iria beneficiar a todos.

Mas votar com raiva não resolve os problemas e pode trazer uma situação econômica e política ainda pior. O mesmo é verdade ao responder com um voto “de raiva”. Deixar que o passado seja passado é um princípio básico na economia. Nos dois lados do Canal da Mancha, a política poderia estar a ser usada para entender como, numa democracia, o “establishment” político pode ter feito tão pouco para responder às preocupações de tantos cidadãos. Todos o governo da União Europeia precisam, agora, de considerar a melhoria do bem estar dos cidadãos comuns como o seu primeiro objetivo. Mais ideologia neoliberal não ajudará. E devemos parar de confundir meios e fins. Por exemplo, livre comércio, se bem administrado, poderia trazer mais prosperidade compartilhada, mas se não o for, poderá baixar o padrão de vida de muitos – possivelmente a maioria – dos cidadãos. Há alternativas para os atuais mecanismos que gerariam maior distribuição da prosperidade, assim como há alternativas que poderiam provocar ainda maior dano, como a proposta do Presidente norte americano Barack Obama do Acordo de Investimento e Comércio Transatlântico (TPP). O desafio hoje é aprender com o passado para que se abrace a primeira e se evite a segunda.



(Publicado inicialmente em inglês em Project Syndicated)