"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 23 de julho de 2016

Medo e incerteza entre os cidadãos de Istambul

À medida que milhares de pessoas são despedidas, há muita preocupação com as consequências do golpe fracassado, incluindo confrontos entre grupos seculares e religiosos. 

Por Patrick Cockburn.


Manifestantes a favor de Erdogan na Ponte do Bósforo, a 21 de julho, um dia depois de ser declarado o estado de emergência. Foto de Sedat Suna/EPA/Lusa.


"Fui para a Praça Taksim, onde havia uma manifestação contra o golpe", diz Gokse, uma jornalista de 30 anos de idade e fotógrafa. "Estava tão assustada, porque todas as mulheres lá olharam para mim como se eu fosse um demônio. Os homens disseram que "se continuares a vestir-te assim, mereces morrer”. A maioria das pessoas tinha bandeiras turcas vermelhas, mas havia algumas bandeiras pretas com caracteres árabes, como se vê nos vídeos do Daesh".

Em Istambul, há um clima de apreensão na sequência do golpe fracassado, há manifestações exigindo que os golpistas sejam enforcados e foram detidos ou demitidos 60.000 soldados, juízes, professores e funcionários públicos. As pessoas sentem que estão a virar a esquina em direção a um futuro incerto sobre o qual nada sabem, mas suspeitam que será pior do que qualquer coisa que viveram até agora.

"Eu conheci três intervenções militares na minha vida, mas esta é diferente", diz Ayse Bugra, professora de economia política na Universidade Bogazici. A diferença é que desta vez a tentativa de golpe foi contestada e não simplesmente anunciada pela leitura de um comunicado do Alto Comando do exército na rádio, na manhã seguinte a ter ocorrido. "Não ter um exército sólido e estável não é tranquilizador", diz ela.

Por vezes, a tristeza presente e as expectativas de calamidade parecem ir muito além do que é racionalmente previsível, particularmente entre os intelectuais e a classe média educada. "As coisas podem estar mal, mas isto não é Bagdade ou Damasco", disse eu. "Mas isso faz com que seja ainda pior", respondeu a Professora Bugra. "Antes, a maioria sentia que a Turquia era uma ilha de estabilidade". Os turcos simplesmente não estão acostumados ao grau de violência, incerteza e medo a que os iraquianos e sírios se acostumaram ao longo dos últimos 50 anos.

A purga pós-golpe - tão extensa e radical que alguns turcos lhe chamam "contragolpe" - até agora levou à detenção de cerca de 10.000 pessoas, de acordo com o discurso do presidente Recep Tayyip Erdogan na noite de quarta-feira, quando introduziu um estado de emergência por três meses. Mas o número de pessoas afetadas pela repressão é muito maior do que isso, todos os 3,3 milhões de funcionários públicos foram proibidos de tirar férias, presumivelmente para que não estejam ausentes se forem investigados por ligações com o movimento liderado pelo auto-exilado clérigo Fethullah Gulen, alegadamente responsável pela tentativa de golpe. Ninguém sabe quem será implicado.

O Parlamento turco votou a aprovação do estado de emergência nacional na quinta-feira, dando a Erdogan a autoridade para prolongar os tempos de detenção de suspeitos e para publicar decretos que têm a força de uma lei, sem necessitarem de serem aprovados no parlamento, entre outros poderes.

A Turquia suspendeu temporariamente da Convenção Europeia dos Direitos Humanos, citando como precedente o facto de a França ter feito o mesmo em resposta a atentados terroristas. O objectivo destas ações parece legalizar o que o Estado já está a fazer, enquanto garante ao mundo exterior que a Turquia não se está a transformar em mais uma autocracia no Médio Oriente, sem lei ou prestação de contas, e em que qualquer dissidência é castigada como terrorismo. O Conselho da Europa disse que tinha sido informado da decisão da Turquia, e que a convenção ainda se aplica, mas que as exceções individuais serão avaliadas numa base casuística.

O vice Primeiro Ministro Mehmet Simsek, que trabalhou anteriormente em Wall Street, escreveu de forma tranquilizadora no Twitter na quinta-feira que "o estado de emergência na Turquia não irá incluir restrições de movimento, de reunião e imprensa livre, etc. Não é a lei marcial de 1990. Estou confiante que a Turquia vai sair disto com a democracia muito mais forte, uma economia de mercado que funcionará melhor e um clima de investimento reforçado"

Nem toda a gente está tão confiante, porque não se sabe por quanto tempo vai continuar a purga ou quão ampla vai ser. Alguns comparam-na às purgas bolcheviques depois de 1917, embora não às de Estaline na década de 1930. A professora Bugra disse que alguns dos seus colegas diziam a brincar que "têm de aprender a fazer compotas e picles", porque não se conseguem concentrar no seu trabalho no clima atual.

Os Gulenistas estiveram certamente no centro da tentativa de golpe, mas podem não ter agido sozinhos, mas eles só romperam com o Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP) em 2014. O AKP pode agora estar a acusar a Organização Terrorista Fethullah (FETO), mas durante anos foram aliados próximos e o movimento Gulen foi o instrumento escolhido pelo AKP para purgar dos serviços de segurança os seculares, através de detenções e julgamentos alegando a sua participação em conspirações inexistentes. Gulen e os seus apoiantes negam qualquer envolvimento na tentativa de golpe.

Os Gulenistas tiveram todas as oportunidades para introduzir os seus próprios quadros e militantes nas forças armadas, na polícia, na função pública e nas escolas. Alguns observadores turcos compararam o papel do grupo na obtenção de posições de influência para os seus membros com a organização católica Opus Dei, que foi acusada de ter tido ligações semelhantes com os governos de direita, como o do general Franco no Estado espanhol. Além de ter militantes comprometidos com a causa, considerava-se que os Gulenistas dominavam várias associações empresariais, apesar de estas serem frequentemente redes soltas, cujos membros podiam não ter muita ligação ao movimento.

O golpe também trouxe à tona um choque cultural de longa data entre os grupos seculares e o religiosos. Erdogan continua a convocar manifestações nas ruas para capitalizar o seu sucesso por ter derrotado o golpe – talvez seja também um sinal de que seu governo não está confiante de que não haverá mais ação armada contra ele. Essas multidões barulhentas gritando palavras de ordem nacionalistas e religiosas assustam os adversários do AKP. Um exemplo é Sayeste, uma mulher de alto grau de escolaridade, com 40 anos, que organiza os ensaios clínicos para as empresas farmacêuticas e está a pensar deixar o país por causa da islamização crescente da educação e cultura.
Ela diz que se ela tivesse que pensar apenas em si mesma iria ficar, mas está preocupada com sua filha sete anos Mira, que está a ser afetado pelo clima mais religioso e intolerante. Ela explica que Mira vai para uma escola primária "onde ela é a única a fazer música e natação, enquanto as outras meninas vão todas para a mesquita ouvir as leituras do Corão. Ela diz que gostaria de ir com as suas amigas". Sayeste tem medo que Mira fique isolada das outras crianças. Ela teme que seja afetada pelo grau de ódio para os outros expressa pelos diferentes lados, numa sociedade turca profundamente dividida. Por exemplo, ela lembra que há três anos, se juntou aos protestos para manter aberto o parque Gezi no centro de Istambul e que o governo "nos acusou a todos de sermos terroristas".
Publicado originalmente no The Independent

Victoria, a primeira candidata a presidente nos EUA

A história de Victoria Woodhull, a primeira mulher a candidatar-se à presidência dos Estados Unidos. Por Francisco Louçã.

Gravura representando Victoria Woodhull a tentar exercer o seu direito de voto em 1875.
Foi em 1872, pouco depois do fim da guerra civil, e Victoria nem tinha o direito de votar – mas aparentemente não estava excluída do direito de se candidatar. Sufragista, Victoria viveu uma vida escandalosa para o seu tempo, casou-se quatro vezes, viveu com um ex-marido de quem se tinha divorciado, lia Marx e Engels e fez fortuna como a primeira mulher a gerir investimentos na Bolsa, criou o seu próprio jornal, foi a segunda mulher a ser ouvida em audiência numa comissão do Congresso, reclamou o direito de voto para as mulheres e aproveitou a brecha legal para se candidatar. O seu slogan era “Progresso, livre pensamento”.
Três dias antes das eleições foi presa por uma acusação – mais tarde retirada – de difamação, por causa de um artigo escrito no seu jornal. Voltou depois a tentar exercer o seu direito de voto em 1875 (na imagem ao lado, como foi reproduzido na época) e foi de novo impedida de o fazer. Seria preciso esperar mais cinquenta anos para que esse direito fosse aceite no país.
E depois chegou Trump.
Publicado originalmente bo blog Tudo Menos Economia 

Demografia Rasa versus Demografia Profunda

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

Todos pensam em mudar o mundo, mas ninguém pensa em mudar a si mesmo”
Leon Tolstoi
Handle a book as a bee does a flower, extract its sweetness but do not damage it”
John Muir
160722
A palavra demografia é formada por dois vocábulos gregos: dámos (Demo) que quer dizer população e gráphein (grafia) que quer dizer ação de escrever, tratado ou estudo. O termo demografia foi utilizado pela primeira vez, em 1855, pelo pesquisador belga Achille Guillard e hoje faz parte do vocabulário de todo o mundo. A demografia estuda o tamanho de uma população, sua composição por sexo e idade e sua taxa de crescimento (positiva ou negativa). Alguns livros definem a demografia como o estudo das populações humanas, enquanto outros a definem como o estudo de qualquer população, sendo humana ou não humana. Nesta segunda perspectiva, encontra-se a citação abaixo de uma aula do demógrafo Joel Colhen:
Demography gives you the tools to address and to understand these problems. It’s the study of populations of humans and non-human species that includes viruses like influenza, the bacteria in your gut, plants that you eat, animals that you enjoy or that provide your domestic animals. And it includes non-living objects like light bulbs, and taxi cabs and buildings because these are also populations. And it includes the study of these populations in the past, present and future using quantitative data and mathematical models as tools of analysis. I see demography as a central subject related to economics, to human wellbeing as in material terms; related to the environment, to the wellbeing of the other species with which we share the planet; and the wellbeing and culture which affects our values and how we interact with one another” (Cohen, 2012).
Ir além do estudo das populações humanas não é apenas uma questão técnica. A demografia que fica limitada ao estudo dos seres humanos e às áreas ecúmenas é antropocêntrica. Enquanto a demografia que incorpora as populações não humanas, a biodiversidade e as áreas anecúmenas pode ser ou é ecocêntrica.
Neste segundo aspecto, a demografia se aproxima da “Ecologia Profunda”, que foi um termo proposto pelo filósofo norueguês Arne Naess (1973) que, inspirado em Thoreau, Muir e Leopold, sugeriu uma mudança do paradigma antropocêntrico dominante (chamada de “ecologia rasa”) para uma concepção biocêntrica. Naess critica o antropocentrismo que vê o ser humano acima da natureza e como a fonte essencial de todo o direito, atribuindo à natureza um valor meramente instrumental. A ecologia rasa vê os seres humanos como superiores aos demais seres vivos e o ambiente natural como um recurso a ser utilizado pelos humanos. A ecologia profunda, ao contrário, considera que a natureza tem valor intrínseco, com igualdade entre as diferentes espécies. Como disse Fritjof Capra (2006):
A ecologia rasa é antropocêntrica, ou centralizada no ser humano. Ele vê os seres humanos como situados acima ou fora da natureza, como a fonte de todos os valores, e atribui apenas um valor instrumental, ou de ‘uso’, à natureza. A ecologia profunda não separa seres humanos – ou qualquer outra coisa – do meio ambiente natural. Ela vê o mundo, não como uma coleção de objetos isolados, mas como uma rede de fenômenos que estão fundamentalmente interconectados e interdependentes. A ecologia profunda reconhece o valor intrínseco de todos os seres vivos e concebe os seres humanos apenas como um fio particular na teia da vida” (p. 16).
Desta forma, podemos dizer que a demografia rasa estuda apenas as populações humanas e as áreas ecúmenas, além de fazer recortes sobre o Classismo, o Sexismo, o Escravismo, o Racismo, o Xenofobismo e o Homofobismo. Para a demografia rasa os animais são apenas fontes de proteína que devem ser estudados na forma e na medida da dieta humana.
Mas a demografia profunda estuda não só as populações humanas, mas qualquer tipo de população, além das áreas ecúmenas e anecúmenas (não humanamente construídas) e não concilia com as absurdas desigualdades entre as espécies. Além de combater o Classismo, o Sexismo, o Escravismo, o Racismo, o Xenofobismo e o Homofobismo, a demografia profunda também luta contra o ESPECISMO, contra o Ecocídio, contra o holocausto biológico e a favor da libertação animal.
A demografia profunda também critica o crescimento demoeconômico ilimitado e defende o Estado Estacionário, na linha de pensamento do grande economista inglês John Stuart Mill. Combate ainda o holocausto ecológico e defende o abolicionismo animal. Como mostraram Luiz Carlos Susin e Gilmar Zampieri no livro “A vida dos outros: Ética e teologia da libertação animal” (São Paulo: Paulinas, 2015), a relação entre humanos e animais sempre foi cruel. Os autores concordam com “a analogia entre o holocausto humano perpetrado aos judeus na segunda guerra mundial, e o holocausto animal imposto, diariamente, pelo homem aos indefesos e inocentes animais. A conclusão é que o termo ‘campos de concentração’ é o que melhor define a nossa relação com os ‘outros’ animais. A primeira parte do livro se debruça sobre esses ‘campos de concentração’ (estimação, pesquisa, instrumentos, entretenimento, alimentação) mostrando como os animais, no atual estágio da indústria, são coisificados, sem consideração para com seus interesses e direitos” (IHU, 01/11/2015).
A demografia profunda tem similaridade com a economia ecológica que ensina que é impossível manter o crescimento das atividades antrópicas no cenário do fluxo metabólico entrópico. Segundo Nicholas Georgescu-Roegen (1971), com base na segunda lei da termodinâmica – lei do aumento da entropia – as transformações naturais ocorrem com o aumento de energia não utilizável para fazer trabalho. O andamento dos processos naturais resulta num constante aumento de energia não aproveitável e do aumento do grau de desordem do sistema. Isto é, há um constante aumento da entropia (e do caos) associado ao processo de produção de bens no metabolismo social ou no sistema “Extrai-Produz-Descarta” (Cavalcanti, 2012). Segundo Herman Daly (2015), o custo de oportunidade dos recursos naturais varia conforme o tamanho da presença humana no planeta, o que ele chama de “mundo vazio” e “mundo cheio”. No segundo caso, o crescimento fica deseconômico e a degradação da natureza atinge níveis alarmantes.
As diferenças entre demografia rasa e profunda não se restringem às diferenças entre conservação e preservação do meio ambiente. A demografia profunda é ecocêntrica e pensa na humanidade como parte da comunidade biótica e defende não só os direitos humanos, mas também os direitos ambientais, os direitos animais e os direitos do Planeta Terra.
Como disse o biólogo Sean Carroll: “Humanity cannot live in a world of polluted air and water, empty seas, vanishing wildlife, and denuded lands. The ecological challenges we now face are matters of public health and welfare, just as smallpox was. Our mission, whether we want to accept it or not, is to summon the collective will to halt our self-destruction”.
Um copo de vinho perde suas qualidades quando cai no esgoto. Mas um copo de esgoto continua esgoto quando se mistura ao vinho. A demografia não pode olhar apenas para o vinho que produz. Tem que se conscientizar do volume de esgoto gerado e do impacto negativo que as atividades antrópicas têm sobre os ecossistemas e a biodiversidade do Planeta. A natureza não depende da demografia, a demografia depende da natureza.
Referências:
Alves, JED. “A encíclica Laudato Si’: ecologia integral, gênero e ecologia profunda”, Belo Horizonte, Revista Horizonte, Dossiê: Relações de Gênero e Religião, Puc-MG, vol. 13, no. 39, Jul./Set. 2015
ALVES, JED. Dia Mundial pelo fim do Especismo: 22 de agosto. Ecodebate, RJ, 19/08/2015
ALVES, JED. Abolicionismo animal. Ecodebate, RJ, 06/11/2015
CAPRA, Fritjof. A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. Editora Cultrix, São Paulo, 2006
CAVALCANTI, Clóvis. Sustentabilidade: mantra ou escolha moral? Uma abordagem ecológico-econômica. SP, Estudos avançados 26 (74), 2012
DALY, Herman. Economics for a Full World, Great Transition Initiative, June 2015
GEORGESCU-ROEGEN, N. The entropy law and the economic process. Cambridge (EUA): Harvard University Press, 1971.
Por uma teologia da libertação animal. Entrevista especial com Luiz Carlos Susin e Gilmar Zampieri, IHU, 01/11/2015 http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/548501-por-uma-teologia-da-libertacao-animal-entrevista-especial-com-luiz-carlos-susin-e-gilmar-zampieri
SEAN B. CARROLL. Mission: Save the Environment, Project Syndicate, 15/07/2016
Joel Cohen. An Introduction to Demography (Malthus Miffed: Are People the Problem?), 2012

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 22/07/2016

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Economistas e oráculos

Alejandro Nadal



Os economistas foram durante muito tempo algo como os oráculos na antiga Delfos. Seus conselhos sobre a política econômica eram mensagens dos deuses: anúncios sagrados de eventos que o destino tinha marcado. De não seguir as receitas de política econômica que recomendavam recomendando, as consequências seriam desastrosas. Seus anúncios pareciam se desdobrar como se fossem o resultado do contato direto com os deuses.

Muito poucas pessoas contestavam a veracidade do seu conteúdo. E na própria disciplina, apenas uma minoria seguiu o curso do trabalho analítico crítico e sério para resolver as questões mais urgentes e relevantes. Um grupo minoritário que foi punido com ostracismo e marginalização.

Hoje a imagem dos economistas tem sido manchada e a credibilidade em seus oráculos esotéricos foi perdida. Seu desprestígio tem vindo a aumentar. As causas e evolução da crise financeira global não têm sido compreendidas pelos economistas mais renomados do mundo. Hoje alguns destes guardas anunciam uma nova era de estagnação secular. Mas, como os oráculos sibilinos, o mistério em torno de seus presságios e as raízes desta nova fase são desconhecidos no desenvolvimento do capitalismo mundial.

Os fatores que levam a uma maior desigualdade não acabam sendo bem analisados. O livro de Piketty serviu para alertar sobre a magnitude do fenômeno, mas muito pouco (quase nada) contribuiu para uma análise séria das forças que engendram.

As promessas sobre os benefícios que traria consigo a globalização ao estilo neoliberal foram refutadas por uma realidade teimosa como o destino que buscava adivinhar a Pitonisa em Delfos. Mas ainda hoje a economia ortodoxa continua a insistir sobre as vantagens do processo de globalização e a nova geração de acordos comerciais.

No interior da disciplina é ouvida a voz da confusão. Um exemplo é a lista de perguntas existenciais que publicou recentemente Mark Thoma, um macroeconomista respeitável na Universidade de Oregon (cujo blog sobre questões econômicas é o mais lido no mundo, economistsview.typepad.com). Thoma faz uma lista de perguntas que teriam que ter uma boa resposta. Duas questões se sobressaem. A primeira: quão tão robusto é o mecanismo econômico de auto-correção depois de uma recessão? A segunda: quais são os atritos sobre os quais devemos nos concentrar? São os preços e os salários ou o sistema financeiro?

Estas questões de Thoma são um indicador do estado de desordem mental na qual a teoria econômica se encontra. A combinação das idéias de auto-correção e atrito é revelador. Por trás dessas considerações fica o dogma central que todos domina a disciplina: o mecanismo econômico é animado por uma tendência de equilíbrio inexorável e a única coisa que dificulta essa propensão são os atritos que existem na formação de novos preços, especialmente em salários. Nós precisamos de mais humildade, diz Thoma, para mudar de opinião quando os dados estão em desacordo com o nosso modelo teórico favorito. Acho que precisamos de algo mais do que a humildade.

Este ponto de vista sobre a situação actual da disciplina é algo frívolo. Como ponto de partida se supõe que existe um mecanismo (econômico) que tem a capacidade de auto-regulação. Vestida em trajes diferentes essa ideia tem sido a espinha dorsal da teoria econômica dominante desde o nascimento do capitalismo. A busca de dados para corroborar e confirmar a sua veracidade foi revelada ao longo das décadas como um exercício inútil. Então se recorreu à construção de modelos matemáticos complexos que permitem demonstrar que o mecanismo econômico é fornecido com esta propriedade de auto-correção e apenas os atritos impedem o seu funcionamento adequado.

Mas o uso de modelos matemáticos falharam em mostrar que umas supostas forças de estabilização permitiram manter uma economia de mercado em um caminho de equilíbrio. Ao contrário, a única coisa que pode ser demonstrada foi que somente se introduzindo suposições arbitrárias nos modelos seria possível demonstrar que uma economia de mercado têm a propriedade de auto-correção. Estas condições arbitrárias não tem nada a ver com os dados cuja existência pressupõem as perguntas Thoma.

Talvez o vício de origem mais forte do pensamento econômico seja chamar desde o início, um programa de investigação que procurou justificar o capitalismo ao invés de compreender sua natureza. Assim se organizou a teoria econômica em torno de uma missão sagrada: demonstrar que o livre mercado sem regulamentação tinha propriedades benéficas para todos. Enquanto a forma analítica de uma ciência normal foi abandonada, a metáfora da mão invisível tornou-se o paradigma (no sentido de Kuhn) do pensamento econômico. Endereçar de alguma forma o caminho é o que busca o pensamento econômico heterodoxo, mas vai ser difícil convencer os oráculos de Delfos a abandonar suas velhas práticas de adivinhação.

Erdogan completa o seu golpe retomando o projeto da praça Taksim

Ainda mais do que as 50.000 pessoas detidas ou destituídas dos seus cargos na administração pública, a promessa de ressuscitar o “projeto Taksim” mostra até que ponto Erdogan está disposto a ir. 

Por Manuel Martorell.

Faixa que apela à pena de morte contra los “gulenistas” no Centro Cultural da praça Taksim, em Istambul - Foto Bianet
Faixa que apela à pena de morte contra los “gulenistas” no Centro Cultural da praça Taksim, em Istambul - Foto Bianet
Ainda mais do que as 50.000 pessoas detidas ou destituídas dos seus cargos nas forças armadas, no sistema judicial, no ensino ou na administração pública, a firme promessa realizada perante uma multidão de ressuscitar o “projeto Taksim” mostra até que ponto Tayip Erdogan está disposto a dirigir a Turquia com mão de ferro.
Por detrás da remodelação da praça Taksim, iniciada em junho de 2013, ocultava-se a tentativa de acabar com um verdadeiro ícone para as forças democráticas e progressistas da Turquia, já que é o epicentro da zona de Istambul mais laica e europeísta, além de tradicional lugar de concentração para as organizações de esquerda, especialmente durante as celebrações do 1º de Maio.
O citado projeto pressupunha acabar com a atual amplitude da praça voltando a erguer um antigo quartel de Artilharia, agora inexistente, nos jardins circundantes, construindo uma nova mesquita e substituindo o atual Centro Cultural Ataturk, aglutinador de numerosas atividades cívicas, por um grande Teatro da Ópera. Quando há três anos as escavadoras começaram a trabalhar, uma impressionante mobilização popular conseguiu paralisar o projeto, desencadeando atos de protesto por toda Turquia e, até à fracassada tentativa golpista, o Governo de Erdogan não se tinha atrevido a ressuscitar esta frustrada iniciativa urbana.
Agora, o presidente turco sente-se com suficiente força para assegurar que todas essas obras irão em frente, haja ou não oposição às mesmas, deixando bem claro que utilizará todas as medidas repressivas ao seu alcance para impedir qualquer novo movimento de oposição às suas decisões, incluindo a declaração de três meses de Estado de Emergência, como aprovaram, nesta quarta-feira 20 de julho de 2016, o Conselho de Segurança Nacional e o Governo de Ancara.
O desafio a quem esteja a pensar contradizer a sua forma de governar só é equiparável ao desprezo que mostrou pela União Europeia nessa alocução perante os seus seguidores, quando se comprometeu a reinstaurar a pena de morte, apesar das explícitas advertências de Bruxelas de que em nenhum país membro ou que deseje pertencer à UE pode existir a pena capital.
Poder-se-ia dizer, portanto, que a reativação do “projeto Taksim” coroa a demonstração de força que Erdogan está a realizar com uma depuração generalizada em todas as estruturas do Estado turco, sem respeitar sequer a independência do Poder Judicial ou a necessária autonomia que deve ter qualquer sistema universitário num país democrático.
50.000 pessoas presas ou afastadas
De acordo com as diferentes informações divulgadas pela imprensa turca, o número de pessoas detidas, depurações, processos ou pessoas investigadas aproxima-se já dos 50.000, afetando todos os setores da administração pública, mas especialmente o Exército, a Polícia, a Justiça e o sistema educativo. De acordo com estes dados, as pessoas afetadas distribuir-se-ão da seguinte forma:
  • Exército: 6.000 militares, entre os quais 118 generais e almirantes, e 262 juízes militares.
  • Ministério do Interior: 9.000 (incluindo mais de 8.000 polícias e gendarmes, 30 governadores provinciais e 47 governadores de distrito).
  • Gabinete do Primeiro-Ministro: 257 funcionários.
  • Sistema judicial: 3.000 juízes e procuradores.
  • Sistema educativo: 15.200 professores.
  • Universidade: 4 reitores (das universidades Gazi, Dicle, Yalova e Politécnica de Yelci) e 1.577 decanos (1.176 de estabelecimentos públicos e 401 privados).
  • Ministério das Finanças: 1.500 funcionários públicos.
  • Meios de Comunicação: 24 cadeias de televisão e rádio encerradas; retirada do cartão de imprensa a 34 jornalistas.
  • Ministério da Família e Assuntos Sociais: 393 funcionários públicos.
  • Direção de Assuntos Religiosos: 492 empregados, entre os quais váriosmuftis (responsáveis religiosos) provinciais.
Cemitério dos traidores”
Acontece que, entre os depurados, se encontra Huseyin Avni Mutlu, que era precisamente o governador de Istambul quando se desencadeou a Revolta de Taksim no ano de 2013. Depois desta grave crise, Avni foi afastado de cargos públicos com capacidade executiva e colocado em funções puramente burocráticas.
Não é menos significativa a faixa gigantesca cartaz empunhada pelos seguidores de Erdogan tapando a fachada do Centro Cultural desta praça. Segundo divulgou a rede de notícias alternativa Bianet, na faixa pode ler-se: “FETO, cão do Diabo: Vamos pendurar-vos e aos vossos cães com os vossas próprias coleiras. Com a autorização de Alá, ondearemos a bandeira da democracia nos céus”.
A sigla FETO corresponde a Organização Terrorista Fethullhahista, o nome dado agora aos seguidores de Fethullah Gulen, antigo aliado de Erdogan e líder de uma corrente mais pragmática do islão, a qual Tayip Erdogan considera responsável pela intentona golpista, ainda que, na realidade, a depuração se está a realizar contra todos os setores que se opõem à política do atual presidente turco.
No meio desta paranóia, o Governo proibiu a saída do país aos funcionários públicos e a pessoa que quiser viajar para o estrangeiro deve fornecer previamente os seus dados pessoais para ver se existe alguma acusação contra ela. Até a Direção de Assuntos Religiosos nega-se a celebrar funerais aos golpistas mortos durante a intentona, vários municípios negam-se a enterrá-los, como está a ocorrer em Istambul, onde o presidente do município, segundo informa o jornal Turkish Daily News, está a preparar uma parcela separada que já tem o nome de “Cemitério dos traidores”.
Artigo de Manuel Martorell, publicado em cuartopoder.es

Os riscos ambientais e a queda da natalidade

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“Certo ar de falência, certa estrela
na testa, certa sorte bifronte, certos
objetos entesourados
no fundo de uma mala, certa mágoa
ambígua, o som de certos ambientes, a
impressão incerta de estar numa
travessia sem freios, a defesa
de certos itens na lembrança
caolha, certos
calafrios sem causa, o grau
de inocência e tristeza em certas horas
sombrias, a importância de certos
detalhes, a pergunta não-feita e sua certa
resposta incerta, o brilho
anterior a certos sinais dados
pela palavra espanto”
Leonardo Fróes

160720

O sociólogo Ulrich Beck, no livro “Sociedade de Risco: rumo a uma outra modernidade” (Editora 34, 2010) faz uma distinção entre a “modernidade clássica” (ou primeira modernidade) e a modernidade tardia (ou segunda modernidade). No primeiro caso, quando prevalecia a “sociedade industrial” ou “sociedade de classes” a dinâmica econômica e demográfica girava em torno da questão de como a riqueza socialmente produzida poderia ser distribuída de forma socialmente desigual e ao mesmo tempo “legítima”: “O pensamento e a ação das pessoas eram dominados pela evidência da carência material, pela ‘ditadura da escassez’” (p. 24).
Mas na modernidade tardia surge um novo paradigma da sociedade de risco. Assim como no século XIX a modernização dissolveu a esclerosada sociedade agrária estamental e, ao depurá-la, extraiu a imagem estrutural da sociedade industrial, hoje a modernização dissolve os contornos da sociedade industrial e, na continuidade da modernidade, surge uma outra configuração social.
Beck diz: “Enquanto na sociedade industrial, a ‘lógica’ da produção de riquezas domina a ‘lógica’ da produção de riscos, na sociedade de risco, essa relação se inverte”. Na reflexividade dos processos de modernização, as forças produtivas perderam a inocência. O acúmulo de poder do progresso tecnológico-econômico é cada vez mais ofuscado pela produção de riscos” (p. 15). Entre os principais riscos da modernidade radicalizada estão a degradação ambiental e o aquecimento global. Nesses novos conflitos ecológicos, o que está em jogo são negatividades: “perdas, devastação e ameaças”.
Faço a revisão acima, para refletir sobre a questão populacional no quadro atual da modernidade tardia e da sociedade de risco. Em especial, pretendo questionar a validade do bordão “O desenvolvimento é o melhor contraceptivo” lançado na Conferência Mundial de População, ocorrida em 1974, na cidade de Bucareste. Como se sabe, este bordão foi lançado para combater as visões neomalthusianas que defendiam uma aceleração da transição da fecundidade no mundo e para marcar a defesa do desenvolvimentismo como forma de solucionar os problemas da pobreza e do engrandecimento das nações do “Terceiro Mundo”.
Os dois países mais populosos do mundo (China e Índia), com apoio do demais países do movimento dos “não-alinhados” (inclusive Brasil) colocaram o crescimento econômico como prioridade da agenda nacional e internacional. O que a Conferência de População de Bucareste fez foi reforçar a intenção de mimetizar o processo de desenvolvimento da sociedade industrial do “Primeiro Mundo”, como se o modelo da primeira modernidade fosse um evento positivo (a la Augusto Comte) que mereceria ser globalizado, generalizado e absorvido por todos os países do Planeta. O desenvolvimento é encarado como a utopia da grandeza econômica, nacional, cultural, religiosa, militar, etc.
A ideologia desenvolvimentista no campo de população e da acumulação de capital, em geral, ignora ou subestima os riscos ambientais globais e minimiza os desafios do crescimento demoeconômico em nome da escalada do progresso industrial e do avanço das forças produtivas capazes de dominar e controlar a natureza. Ou seja, a Conferência de Bucareste (e de certa forma o ODM, do ano 2000 e o ODS, da agenda 2015-2030) estabeleceu uma prioridade em relação à transição da economia agrária e rural para a economia urbano-industrial em detrimento da transição demográfica. Como disse o Papa Paulo VI, no espírito da encíclica Humanae Vitae, com seus princípios natalistas e populacionistas: “Precisamos aumentar o banquete e não diminuir os comensais”.
Mas em 1960, o mundo tinha uma população de 3 bilhões de habitantes. Em 2016 já são 7,4 bilhões de habitantes. Um aumento de 4,4 bilhões em apenas 56 anos. A projeção média para o final do século é de 11,2 bilhões de habitantes em 2100. Serão, portanto, acrescidos outros 4 bilhões. Se fosse na lógica da segurança da “modernidade sólida” (expressão de Bauman) a questão central seria como produzir riquezas e como repartir os seus frutos. Mas na lógica da sociedade de riscos, este crescimento populacional pode simplesmente estar colocando pessoas no mundo para sofrer com as inseguranças da modernidade tardia e colocar ainda mais estresse sobre o meio ambiente. Na primeira modernidade cada indivíduo era uma fonte de capital humano e um potencial consumidor. Na segunda modernidade, cada nova pessoa é fonte de risco para si e para o planeta, pois os riscos são globalizados e não possuem fronteiras.
Como mostra Herman Daly (2014), a primeira modernidade avançou sobre um mundo antropicamente vazio, em que a escala de produção de bens e serviços era pequena, o elemento escasso ou fator limitante da produção era o capital manufaturado, enquanto os recursos naturais e ambientais (capital natural) eram abundantes. Havia milhões de rios e florestas e nenhum assentamento humano próximo a eles; assim, o custo de oportunidade do uso desses rios era praticamente zero e o conceito de externalidade negativa tinha pouca importância.
Mas no mundo cheio – superpovoado, superconsumista e superexplorador da natureza – em que o tamanho da economia passa a sufocar a capacidade de sobrevivência do capital natural fica difícil gerar os serviços ambientais necessários para o bem-estar humano. O custo de oportunidade no uso dos recursos naturais é alto e o conceito de externalidade negativa adquire importância elevada. Não por acaso, neste mundo, os novos projetos precisam demonstrar que geram muito mais benefícios que custos. No mundo cheio há excesso, e não escassez, tanto de capital manufaturado como de mão-de-obra. Nele, o fator limitante da produção material passou a ser o capital natural, tanto no que se refere à disponibilidade de recursos naturais e de serviços ambientais (sources) como em capacidade de acúmulo e absorção de resíduos (sinks).
O panorama descrito acima mostra que as condições econômicas, sociais, demográficas e ambientais do século XXI são muito diferentes das condições existentes nos séculos anteriores. A humanidade já provocou grandes danos nos ecossistemas do Planeta. Desmatou florestas para explorar a agricultura e a pecuária; represou rios, drenou pântanos, alterou a paisagem natural e está provocando a 6ª extinção em massa de espécies. Revolveu a terra para extrair minérios, foi buscar petróleo no fundo do subsolo e emitiu gases de efeito estufa que alteram a química da atmosfera, provocando o aquecimento global e a acidificação dos solos e das águas. A degradação da biodiversidade e o aquecimento global são os grandes riscos colocados à civilização e à vida na Terra.
Desta forma, é preciso repensar o crescimento populacional na sociedade de risco, de Ulrich Beck, e no mundo cheio, de Herman Daly. Não faz mais sentido manter taxas positivas de crescimento demográfico, quando as condições ambientais apresentam taxas negativas e o colapso ambiental está desenhado no horizonte. Ou seja, não dá para manter o progresso humano às custas do regresso ambiental. Existe um sobrecarga da Terra que nos alertam as metodologias da Pegada Ecológica e das Fronteiras Planetárias, que mostram que a humanidade já ultrapassou os limites da sustentabilidade da capacidade de carga Terra. Não dá para continuar com o crescimento demoeconômico às custas do empobrecimento e da degradação da biocapacidade do meio ambiente.
A questão demográfica deve ser estudada, atualmente, dentro deste contexto da sociedade de risco e do mundo cheio, ou seja, numa situação global de déficit ambiental. Nascem, nos dias atuais, 140 milhões de bebês todos os anos no mundo. Se este número ficar estável e a esperança de vida ao nascer alcançar 80 anos, então a população mundial chegaria a 11,2 bilhões de habitantes (140 milhões vezes 80), em 2100, e ficaria estável em torno deste número se a natalidade e a esperança de vida permanecessem nesses patamares durante as próximas décadas. Isto significaria que a população mundial de 6 bilhões de habitantes, em 1999, teria um acréscimo de 5,2 bilhões de pessoas no século XXI.
Acontece que a pegada ecológica já superava a biocapacidade da Terra em 64% em 2012 (a humanidade está utilizando 1,64 planetas). No ritmo das últimas décadas chegaríamos em 2100 consumindo mais de 5 planetas. Seria uma coisa totalmente insustentável, o que poderia levar a civilização e os ecossistemas ao colapso. O déficit ambiental ocorre devido ao aumento do consumo médio (pegada ecológica) dos habitantes do globo e da diminuição da biocapacidade (devido ao aumento da população). Evidentemente, são as parcelas mais ricas da população mundial que mais contribuem para o aumento do consumo. Mas mesmo que houvesse uma hipotética distribuição justa do consumo, assim mesmo o déficit permaneceria elevado e os riscos teriam efeitos globais.
Portanto, é preciso diminuir o consumo e a população. Acontece que a população vai continuar crescendo devido à inercia demográfica. Por conta disto, há quem diga que só dá para mexer no consumo e não na população. Mas essa visão é fruto de um equívoco. Realmente não dá para diminuir o tamanho da população imediatamente, mas dá para reduzir desde já o ritmo de crescimento e determinar, no presente, a queda futura do decrescimento demográfico.
Portanto, mesmo não dando para diminuir a população imediatamente, dá para reduzir o ritmo de crescimento. Basta reduzir a natalidade mundial. Ao invés do nascimento de 140 milhões de bebês todos os anos, poderia haver uma diminuição da natalidade para 130, 120, 110 ou 100 milhões de nascimentos. Por exemplo, se a natalidade mundial diminuir para 100 milhões de bebês até 2030 (e ficar neste patamar) e a esperança de vida subir para 80 anos, então teríamos uma população estável de 8 bilhões ao invés de 11,2 bilhões de habitantes no mundo.
O gráfico acima mostra que o número de nascimentos no mundo passou de 97 milhões de bebês, na média do quinquênio 1950-55, para 140 milhões na média do quinquênio 2015-20. A projeção média da ONU indica que este número de nascimentos deve se manter aproximadamente neste nível até o final do século, gerando uma população de 11,2 bilhões em 2100.
Porém, na hipótese de uma queda mais rápida da natalidade, o número de nascimentos poderia cair para 70 milhões de bebês até 2100. Se este número ficar estável e a esperança de vida ficar em 80 anos, então a população poderia se estabilizar em 5,6 bilhões ao invés dos 11,2 bilhões de habitantes. O número de pessoas sujeitas aos riscos ecológicos se reduziria pela metade.
Além do mais, a queda da natalidade poderia gerar outros efeitos benéficos. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que existem mais de 220 milhões de mulheres em período reprodutivo sem acesso aos métodos de regulação da fecundidade. O número de gravidez indesejada é alto. A meta # 5B dos ODMs dizia: “Alcançar, até 2015, o acesso universal à saúde reprodutiva”. Esta meta não foi alcançada. Agora, os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) também colocam como meta a universalização dos serviços de saúde sexual e reprodutiva até 2030. Evidentemente, esta procrastinação não é boa para a saúde das mulheres e nem para os bebês que nascem de uma gravidez indesejada e vão correr riscos cada vez maiores diante dos desafios econômicos, sociais e ambientais. Por exemplo, o surto dos casos de microcefalia, diante da epidemia de zika, poderia ser evitado se houvesse bons serviços de saúde reprodutiva no país.
Segundo o International Food Policy Research Institute (IFPRI), o Índice Global da Fome (IGF) apresenta as categorias alarmante e extremamente alarmante, especialmente naqueles países onde existem altas taxas de fecundidade. Também as taxas de mortalidade materna são mais altas onde é menor o acesso aos direitos sexuais e reprodutivos. Além disto, muitas mulheres são vítimas de violência sexual e da segregação de gênero, o que impede que elas tenham autonomia social e capacidade de autodeterminação reprodutiva. Além disto, alta dependência demográfica nas famílias aumenta a competição por alimento entre os filhos, o que prejudica os mais fracos e necessitados. O fim da gravidez indesejada ajudaria a reduzir a fome, reduziria os níveis de mortalidade materna e fortaleceria o bônus demográfico feminino.
Para Beck, a natureza não pode mais ser concebida sem a sociedade e a sociedade (e a população) não mais sem a natureza. A destruição da natureza passa “a ser elemento constitutivo da dinâmica social, econômica e política. O imprevisto efeito colateral da socialização da natureza é a socialização das destruições e ameaças incidentes sobre a natureza” (p. 98). Ou seja, a humanidade já ultrapassou a capacidade de carga e está explorando o meio ambiente a uma taxa mais alta do que a capacidade de regeneração. O crescimento ficou deseconômico, como mostra Herman Daly e o mundo caminha para uma estagnação secular, como mostra Larry Summers. Neste quadro, seria irresponsabilidade as políticas públicas continuar apoiando o crescimento demoeconômico.
O mundo precisa de decrescimento pois já ultrapassou a capacidade de carga do Planeta. Mesmo, em uma situação hipotética em que houvesse uma justa distribuição de renda no mundo, ainda assim nosso modelo de produção e consumo seria insustentável. Portanto, não basta combater a desigualdade é preciso decrescer o tamanho da economia e do impacto humano sobre o Planeta, pois o problema não é simplesmente o consumo dos ricos, mas sim o volume do consumo global (Alves, 29/08/2014; Mantilla, 07/07/2016).
Estas ideias não são novas e já foram antecipadas no livro “O Declínio Próspero” de H. T. Odum, conforme pode ser consultado em Ortega (2015). Diante da possibilidade do colapso das condições que sustentam a Economia, a População e o Meio Ambiente em escala planetária, “o livro coloca a possibilidade de um declínio com prosperidade apesar das condições desfavoráveis existentes, e oferece ideias para promover a sustentabilidade e, ao mesmo tempo, cuidar da mitigação das mudanças climáticas e das mazelas sociais”.
Como escrevi em um outro artigo (Alves, 11/07/2016): “A natureza não depende da sociedade, a sociedade depende da natureza. O lema do debate sobre população e desenvolvimento no século XXI deveria ser: menos gente, menos consumo, menor desigualdade social e maior qualidade de vida humana e ambiental”. Os direitos humanos devem estar em sintonia com os direitos ambientais e o bem-estar das espécies não humanas.
Portanto, pode-se considerar o debate entre população, economia e ambiente com parâmetros diferentes daqueles estabelecidos na velha dicotomia entre controlismo versus natalismo. Numa perspectiva que integre os direitos humanos com os direitos ambientais, a queda da natalidade pode ser vista como uma forma de evitar o aumento do sofrimento humano na sociedade de risco e uma forma de reduzir a degradação ambiental e a perda de biodiversidade.
Assim, avançar na implementação dos direitos sexuais e reprodutivos é uma forma de melhorar a qualidade de vida do ser humano, especialmente para as mulheres que mais sofrem com as relações patriarcais, diminuir os riscos e a população em risco, e evitar uma catástrofe ecológica nos tempos do acirramento das externalidades negativas do “mundo cheio” da hipermodernidade.
Referências:
ALVES, JED. Dia Mundial de População, #Colabora, RJ, 11/07/2016
ALVES, JED. Mundo cheio e decrescimento, RJ, Ecodebate, 03/06/2016
BECK, Ulrich. Sociedade de Risco. Rumo a uma Outra Modernidade. São Paulo: Editora 34, 2010.
DALY, Herman. Economics for a full world, 2014
Diego Mantilla. Equality and Sustainability: can we have both? Resilience, 07/07/2016
Enrique Ortega. “O Declínio Próspero: Princípios e Políticas” de Howard e Elisabeth Odum, Laboratório de Engenharia Ecológica da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp, 2015

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 20/07/2016

quinta-feira, 21 de julho de 2016

A "nova política econômica" no Brasil

por Wagner Torres

O Banco Central mantém a mais alta taxa de juro real do planeta e o governo Temer concede aumento de 41% para o Judiciário e demais servidores públicos do Poder Executivo impacto de R$ 60 bilhões de 2016 a 2018.

Por outro lado, a incompetência do Banco Central é escancarada com o setor privado pagando despesa de juros em R$ 623,1 bilhões em 2015 e estimativa de atingir R$ 700 bilhões em 2016.

Há quatorze meses seguidos o consumo entrou em trajetória de colapso e para reduzir ainda mais a dinâmica da pressão inflacionária o dólar de R$ 4,04 em 31 de janeiro reduziu para R$ 3,25 efeito expectativa do impeachment de Dilma e mesmo assim o Banco Central não consegue reduzir a taxa de juros.

Inflação no Brasil nunca foi de demanda, mas resultado de um sistema de financiamento de corrupção da dívida pública retroalimentada pela dinâmica do crescimento explosivo do gasto público em % do PIB.

Junho: o mais quente da história

Dados da Nasa mostram que o primeiro semestre teve temperatura 1,3 grau Celsius mais alta do que no fim do século 19, praticamente garantindo o recorde de 2016 como ano mais quente de todos. 

Por Observatório do Clima

Mapa global de temperaturas em junho. Imagem: Nasa
Mapa global de temperaturas em junho. Imagem: Nasa
Duas agências do governo americano divulgaram nesta terça-feira, 19 de julho, dados sobre temperaturas globais em junho. Sem surpresa, ambas mostram que o mês passado foi o junho mais quente de todos os tempos desde o início dos registos, em 1880. Segundo a Noaa (Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera), foi o 14º mês consecutivo a bater recordes absolutos de temperatura, o que praticamente garante o lugar de 2016 na história como o ano mais quente de todos os tempos.
De acordo com a Noaa, a temperatura da superfície terrestre e dos oceanos no mês foi 0,90ºC superior à média para junho no século 20, ultrapassando 2015 – o recordista anterior – em 0,02ºC. Na média do ano até aqui, a temperatura global foi 1,05ºC mais alta que a média do século 20, ultrapassando o recorde de 2015 em 0,2ºC. Segundo o comunicado divulgado pela agência americana, a fila de meses consecutivos com recordes de temperatura é a maior em 137 anos de registo. O último mês com temperaturas abaixo da média do século 20 foi dezembro de 1984.
Nasa mostrou a mesma tendência, mas usando uma “régua” diferente. A agência espacial americana calcula as chamadas “anomalias de temperatura” (ou seja, o quanto um determinado mês é mais quente ou mais frio do que a média histórica para esse mesmo mês) em relação ao período 1951-1980. Por essa conta, junho de 2016 foi 0,79ºC mais quente que a média, superando junho de 2015 também em 0,02ºC. Segundo a metodologia da Nasa, o último mês com temperaturas abaixo da média foi julho de 1985. Para a agência espacial, a temperatura do primeiro semestre foi 1,3ºC mais alta do que a média do fim do século 19.
“Embora o El Niño no Pacífico tenha dado um impulso às temperaturas globais a partir de outubro, é a tendência subjacente [de aquecimento global] que está produzindo essas cifras recorde”, disse Gavin Schmidt, diretor do Centro Goddard de Estudos Espaciais, da Nasa.
Mais uma vez, eventos climáticos extremos campearam mundo afora. A América do Norte teve seu junho mais quente, e condições de temperatura extrema também predominaram na Amazónia, no Nordeste do Brasil e na África. O gelo marinho no Ártico teve a menor extensão registada para aquele mês – 11,8% abaixo da média, devido ao calor extremo no semestre sobre a região polar.
“O recorde de temperaturas globais já dura mais de um ano, mas as altas temperaturas no Ártico têm sido ainda mais extremas”, afirmou Walt Meier, também da Nasa.
Tempestades atingiram a Europa e a Austrália, onde choveu mais do que o dobro da média em junho. A região centro-sul da América do Sul, porém, viu temperaturas 1oC mais baixas do que a média – resultado da onda de frio que atingiu o Sul e o Sudeste do Brasil, o Paraguai e parte da Bolívia naquele mês.
Artigo publicado em Observatório do Clima

quarta-feira, 20 de julho de 2016

FMI adverte elevados riscos de crises financeiras nos mercados emergentes

Marco Antonio Moreno



A Diretora-Geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, alertou que as economias insulares e os mercados emergentes estão em um risco crescente de uma crise financeira. De acordo com Lagarde, regulamentações onerosas e preferências comerciais estão forçando os bancos ocidentais a encerrar ou suspender as suas relações bancárias com jurisdições estrangeiras menores. 

Em um texto escrito para um evento do Federal Reserve Bank of New York, a funcionário apontou que os grandes bancos mundiais estão "repensando seus respectivos modelos bancários com países menores" em vista dos regulamentos após a crise financeira e normas para combater a lavagem de dinheiro. Lagarde explicou que "alguns bancos têm cortado seus laços com os países que carregam um risco muito grande ou que não são rentáveis." 

"A perda de relações bancárias subsidiárias nos países em desenvolvimento, enquanto os grandes bancos procuram limitar sua exposição ao risco pode marginalizar as pequenas economias e causar o rompimento "sistêmico" aos mercados financeiros".... "Os reguladores tanto em países com grandes centros financeiros como em pequenos países precisam fazer mais para ajudar os bancos a manter essas relações , "disse Lagarde.


A situação já atingiu vários países do Caribe, onde até maio de pelo menos 16 bancos em cinco países tinham perdido toda ou parte das suas relações bancárias subsidiárias. De acordo com um relatório da Reuters na semana passada, o problema é particularmente grave em Belize. De acordo com Lagarde esses países são particularmente vulneráveis ​​porque muitas vezes dependem de remessas de trabalhadores no exterior e no melhor dos casos, têm acesso mínimo a serviços financeiros. "Mesmo que até agora não sejam visíveis as implicações destes distúrbios, podem se tornar sistêmicos se não forem controlados, " disse ela. 

Parte da retirada dos grandes bancos é uma reação a um aumento dos requisitos de capital após a crise financeira de 2008- 2009, que tornou menos atraentes os negócios com retornos mais baixos, como a banca subsidiária. Os países afetados precisam melhorar as suas estruturas de regulação e supervisão para assegurar o cumprimento das normas internacionais, especialmente na área de combate à lavagem de dinheiro e combate ao financiamento do terrorismo. "Pese as implicações globais destas interrupções não são visíveis, por agora, podem se tornar sistêmicas se não forem tomadas, " disse Lagarde. 

As relações bancárias correspondentes permitem que o dinheiro se mova a nível nacional ou através das fronteiras entre os emitentes e receptores de dinheiro que usam diferentes bancos, tipos de contas e várias moedas.

O colapso da Venezuela e a maldição do petróleo

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

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A Venezuela é um dos membros fundadores da OPEP e possui uma das maiores reservas de petróleo do planeta (quase 300 bilhões de barris). Porém, mesmo com toda essa riqueza mineral, o país está passando pela maior crise econômica e social de sua história. O mito do “Eldorado negro” virou a realidade da “maldição do petróleo”. Nem sempre achar hidrocarbonetos é uma boa notícia. Depende dos custos de extração e da forma como a produção e o consumo deste recurso mineral é administrado. A dependência do “ouro negro” foi uma constante na história recente da Venezuela, mas foi agravada durante o superciclo das commodities, que manteve o preço do barril de petróleo acima de US$ 100 durante um bom período.
Quase 90% das exportações venezuelanas são relacionadas ao setor petrolífero e o país se deu ao luxo de realizar várias bondades como vender o petróleo abaixo do preço de mercado a treze nações caribenhas e manter o preço interno da gasolina abaixo de 50 centavos de dólar, reduzindo as receitas da PDVSA. Viciada na receita fácil das exportações de combustíveis fósseis, a Venezuela não incentivou a economia interna e importa 70% dos bens que consome, muitos de primeira necessidade como comida, remédios, matérias primas industriais e agrícolas. O orçamento do governo também depende das receitas do petróleo.
Uma série de políticas internas equivocadas, baixa produtividade dos fatores de produção, intrincados problemas econômicos, crise cambial, má administração, persistente corrupção em todos os escalões, inflação galopante, altos níveis de violência e crise política, fizeram a Venezuela entrar em situação falimentar. Para agravar o que já estava ruim, uma crise ambiental gerou uma seca prolongada que esvaziou os reservatórios das usinas hidrelétricas provocando uma escassez de energética sem precedentes. O país ficou praticamente parado. Há relatos de cidadãos bem-vestidos procurando comida no lixo. A fome e a desnutrição se espalharam feito praga. A situação é de calamidade pública.
O gráfico acima mostra que a Venezuela tinha uma renda per capita (em ppp) bem acima da renda per capita do Brasil e da Costa Rica nas décadas de 1980 e 1990, segundo dados do FMI. No ano de 1980, a renda per capita da Venezuela era de US$ 7,9 mil, bem acima da renda do Brasil de US$ 4,8 mil e da Costa Rica com US$ 3,4 mil. Ou seja, os venezuelanos tinham uma renda mais de duas vezes maior do que os costarricenses. Mas nos anos 2000 esta diferença foi se reduzindo e, em 2015, a Costa Rica ultrapassou a Venezuela e o Brasil, sendo que a renda dos brasileiros, mesmo em recessão, deve ultrapassar a renda dos venezuelanos em 2017.
Para 2020, a Costa Rica terá uma renda média mais de 30% superior do que a Venezuela. O incrível é que a Costa Rica não tem petróleo. E o fantástico é que a Costa Rica também não tem exército e é um dos países que mais investem no meio ambiente, além de ser uma democracia com paz social e baixos níveis de violência.
O gráfico abaixo mostra que a presença da Venezuela na economia internacional vem diminuindo nas últimas 4 décadas. Antes do período em que de Hugo Chávez ficou no poder (1999-2013) a percentagem da economia venezuelana no PIB mundial já vinha caindo e passou de 0,9% para 0,6%. Durante o superciclo das commodities houve uma recuperação até 2008, mas voltou a cair e despencou no período do presidente Nicolas Maduro. Em 40 anos a participação da Venezuela na economia internacional vai se reduzir por um múltiplo de três. É uma das maiores quedas do mundo e a maior para um país petroleiro.

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O gráfico seguinte mostra a variação anual do PIB venezuelano na atual década. Nota-se que houve crescimento somente entre 2011 e 2013 e uma grande queda em 2014, 2015 e 2016. As projeções do FMI indicam que a queda vai continuar. A Venezuela vai ter uma década perdida com redução da renda per capita e grande sofrimento da população.

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Toda a crise econômica e social se reflete sobre as condições demográficas. O próximo gráfico mostra que, em 1950, a Venezuela tinha um valor da esperança de vida ao nascer próximo do valor da Costa Rica e cerca de 5 anos acima do Brasil. Mas enquanto a Costa Rica alcançou uma esperança de vida de 80 anos no atual quinquênio, a Venezuela ficou com um nível abaixo do brasileiro. Certamente o alto número de homicídios e as mortes por causa externa contribuem para reduzir a esperança de vida no Brasil e, em especial, na Venezuela.

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Por fim, a figura abaixo mostra a deterioração das condições ambientais da Venezuela. A Pegada Ecológica ultrapassou a Biocapacidade a partir de 2007 e os venezuelanos agora vivem em déficit ambiental. Não é por acaso que houve uma grande crise hídrica que provocou escassez de água potável, escassez de alimentos e escassez de energia.

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O fato é que a Venezuela não está em crise sozinha, mas está também puxando para a América Latina para a recessão. O sonho de uma Venezuela com alto padrão de vida, sem violência e sem pobreza está, infelizmente, cada vez mais distante.
Para o economista Víctor Álvarez, ex-ministro de Indústrias Básicas e ex-diretor da estatal petrolífera PDVSA no governo chavista, a crise atual da Venezuela é fruto da continuação de um processo extrativista iniciado no século XX e não rompido pelo governo de Hugo Chávez. Baseado no rentismo petroleiro, o modelo econômico, que no passado permitiu a acumulação capitalista, na Revolução Bolivariana foi usado para financiar programas sociais e obter apoio regional. Segundo Álvarez trata-se de um “neorrentismo socialista” que se manteve dependente do extrativismo do petróleo. Para ele, o desafio atual da Venezuela não é voltar ao “capitalismo rentista”, muito menos dar continuidade ao “neorrentismo socialista”, mas sim, construir um novo modelo menos dependente da economia extrativista. A derrocada da Venezuela também arrasta Cuba a um novo período de crise econômica.
No dia 10 de julho de 2016, mais de 35.000 venezuelanos que cruzaram a fronteira entre a Venezuela e a Colômbia (Cúcuta) no domingo com o único objetivo de fazer compras de produtos básicos nesta cidade do nordeste colombiano: papel higiênico, óleo, açúcar, farinha pão, café, leite, etc. Elas não sabem quando poderão voltar a passar pela ponte binacional, pois, há quase um ano esperavam por esse dia, desde que o presidente Nicolás Maduro decretou estado de exceção e fechou o seu lado da fronteira. As cenas mostram a situação de penúria que vive a Venezuela.
Frente a crise de abastecimento e à generalização da violência e da barbárie, cresce a pressão para fazer valer o dispositivo constitucional do referendo revogatório para encurtar o mandato do presidente Nicolás Maduro. Novas eleições só seriam convocadas se a consulta ocorresse (e o “sim” vencesse) ainda em 2016. Caso contrário, o vice de Maduro, Aristóbulo Istúriz, completaria o mandato, que expira em 2019. A oposição, com o apoio da maioria da opinião pública, deseja que o referendo seja realizado este ano. Mas as forças bolivarianas, evidentemente, desejam que seja realizado no ano que vem. Porém, a experiência brasileira está mostrando que não basta mudar o governo para que a crise seja sanada. Os desafios são muito maiores, pois trata-se de uma encruzilhada histórica e de um ponto de inflexão na possibilidade de desenvolvimento do país.
A Venezuela precisa superar o novo extrativismo e a maldição do petróleo e criar novas alternativas políticas. Como escreveu Eduardo Gudynas, no artigo “O esgotamento de um modelo” (Correio da Cidadania, 08/01/2016): “O esgotamento progressista, por um lado, permite maiores opções de reorganização da política conservadora, mas, por outro, cria cenários às vezes muito limitantes na busca da repotencialização de uma esquerda democrática e independente que possa retomar a tarefa da transformação. Este é possivelmente o problema mais crucial que se abre diante de nós todos no futuro imediato”.
Crescem os perigos da “sociedade de risco”. A falência da Venezuela vem se somar à falência e às guerras do Afeganistão, Iraque, Iêmen, Líbia, Síria, Sudão do Sul, República do Congo, Ucrânia, etc. O Brexit e Donald Trump são exemplos de que o mundo desenvolvido vai mal. A China constrói ilhas artificiais para ampliar o seu mar territorial e aumentar a presença militar, ameaçando os países vizinhos. A Coreia do Norte vive blefando com armas nucleares. Crescem os atentados terroristas, sendo que o massacre em Nice, no 14 de julho francês, é apenas o mais recente evento, mas certamente (e infelizmente) não será o último. Um atentado terrorista nas Olim-piadas do Rio seria mais uma tragédia a se somar à própria trama que tem sido a organização deste megaevento da sociedade do espetáculo e do lucro e que se soma à já crítica violência e falência do Rio de Janeiro.
Por fim, o golpe na Turquia coloca o mundo em grande estado de apreensão diante da instabilidade política, da barbárie e do crescimento das forças fundamentalistas e antidemocráticas. O Oriente Médio é o estopim, mas o mundo parece mais um barril de pólvora pronto para entrar em combustão. Talvez a Venezuela esteja apenas antecipando (e dramatizando por erros próprios) uma crise que pode se espalhar pelos diversos continentes.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 18/07/2016