"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 20 de agosto de 2016

As mulheres nas Olimpíadas do Rio 2016

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

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As mulheres ficaram de fora da primeira Olimpíada da era moderna, que aconteceu em Atenas, em 1896. Mas o tempo não para, o mundo gira e a realidade foi mudando nos jogos seguintes. O percentual de países que enviaram atletas do sexo feminino passou para 2% em Paris (1900), chegou a 9% nas Olimpíadas de Londres (1908), a 45% nas Olimpíadas de Antuérpia (1920), a 54% em Amsterdã (1928), a 70% em Montreal (1976), a 85% em Atlanta (1996), a 96% em Pequim (2008) e finalmente chegou a praticamente 100% em Londres (2012) e no Rio (2016)
Mas o caminho da inclusão feminina não foi fácil. Foi sob pressão recente do Comitê Olímpico Internacional que três países muçulmanos que resistiram à inclusão feminina cederam e enviaram mulheres aos jogos de 2012 e 2016. Foi o resultado de um esforço de um século para reduzir o hiato de gênero, que esteve presente desde o início do movimento olímpico moderno.
Mas o percentual de mulheres ainda não atingiu a paridade, embora falte relativamente pouco. Entre 1900 e 1920 o percentual de atletas do sexo feminino no total de atletas dos jogos ficou entre 1% e 2%. Atingiu o percentual de 10% em 1920, ultrapassou 20% em 1976, 34% em 1996, chegou a 42% em Pequim (2008), alcançou 44% em 2012 e ficou praticamente em 45% no Rio de Janeiro em 2016, conforme mostra o gráfico acima. Em Londres havia 10.774 atletas, sendo 6.098 homens e 4.676 mulheres (44% do total). No Rio de Janeiro, em 2016, foram 11.549 atletas, sendo 6.364 homens e 5185 mulheres (45% do total).

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Os Estados Unidos, que lideram o quadro de medalhas das Olimpíadas modernas, trouxeram para o Rio 292 mulheres, 52,6% da equipe. A grande novidade da delegação americana em 2016 é a ginasta negra Simone Biles, de 1,45 m de altura, que tem sido considerada uma atleta quase perfeita na ginástica olímpica.
A China, que tem disputado a liderança do quadro de medalhas e que tem uma população predominantemente masculina, trouxe uma delegação ainda mais feminina, com 160 homens, 256 mulheres (representando 61% da delegação). Sem dúvida, as mulheres têm sido fundamentais para os dois países líderes do quadro de medalhas ficarem no topo do ranking internacional.
As Olimpíadas tem sido um megaevento da sociedade do espetáculo que visa muito mais o lucro das grandes empresas que promovem os jogos do que um evento de paz, solidariedade e confraternização entre os atletas e as nações. É grande o nacionalismo, o bairrismo, o racismo e a disputa acirrada pela projeção das medalhas de ouro. Existem diversas denúncias de corrupção no COI, no COB e em todo o processo de preparação dos jogos. Os escândalos de doping se multiplicam e o caso da Rússia é apenas o mais evidente. Além da poluição, da imobilidade urbana e das filas, houve roubo de técnicos, atletas e turistas, morte do soldado brasileiro que entrou por engano em uma favela e alteração na cor das piscinas, dentre outros eventos indesejáveis.
O número de turistas ficou abaixo do esperado e muitas arenas ficaram vazias durante as competições. Como legado para o Rio, os jogos 2016 vão deixar uma montanha de dívidas e “elefantes brancos” que terão de ser pagos pelo povo brasileiro. Com toda a fortuna gasta para fomentar o nacionalismo, o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) pretendia colocar o Brasil no top 10 do ranking olímpico, mas, por enquanto, o Brasil não está nem entre os 15 países com mais medalhas. No quadro de medalhas, o Brasil, mesmo disputando em casa, deve ficar atrás da Nova Zelândia, que tem menos de 5 milhões de habitantes (menor que a população da cidade do Rio de Janeiro). Também, pode ficar atrás até mesmo da Jamaica – que é um país pobre de menos de 3 milhões de habitantes. Talvez teremos um dos piores resultados de um país-sede de Olimpíada.

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Mas o lado positivo é que as Olimpíadas estão reduzindo o hiato de gênero e o número de atletas de ambos os sexos caminha para a paridade. Pela primeira vez, uma equipe de refugiados disputa Olimpíada. As atletas muçulmanas Doaa Elgobashy e Nada Meawad disputaram o vôlei de praia com calças, mangas compridas e véu, mesmo com as adversárias usando o tradicional biquíni. Também ganhou repercussão a atitude da gerente do estádio em Deodoro, Marjorie Enya, 28, que publicamente pediu em casamento a atleta brasileira Isadora Cerullo, 25, que, chorando, disse “sim”, além da presença da modelo transgênero Lea T à frente da delegação brasileira na cerimônia de abertura.
Portanto, há maior diversidade de gênero e as mulheres estão participando cada vez mais dos jogos olímpicos, mostrando tolerância e sendo protagonistas de um novo estilo de vida e de comportamento.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 19/08/2016

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Falácias sobre o ajuste fiscal

Escrito por Fernando de Aquino Fonseca Neto (*)



Nestes tempos de aguda polarização política, o elevado valor alcançado pelo deficit público é irrefletidamente, ou maliciosamente, denunciado como culpa, unicamente, do governo afastado (falácia 1).

Falácias sobre o ajuste fiscal
O ajuste fiscal é uma necessidade que se autoalimenta - quanto mais é alardeado, menos os agentes econômicos compram, menos é produzido, mais trabalhadores são demitidos, menos é arrecadado e mais o deficit aumenta.


Na realidade, antes de todo esse alarde por parte dos opositores ao governo eleito, o deficit mantinha-se em magnitudes controláveis, sem maiores transtornos.

Atualmente, quando medidas mais fortes se tornaram necessárias, insiste-se em outras falácias. Por exemplo: é mais justo e benéfico para a economia que o Estado "corte na própria carne", pois foi ele quem gastou o que não tinha, por isso não deve mandar a conta para a população (falácia 2).

O Estado nada mais é do que uma ficção jurídica. Não tem "carne para cortar", apenas transfere recursos, para realizar serviços e investimentos públicos ou para agentes econômicos. Assim, importa avaliar quem o ajuste fiscal irá afetar.

Nesse contexto, nada tem sido mais odioso nas discussões de possíveis ajustes previdenciários no Brasil do que o argumento de que os benefícios precisam ser totalmente financiados pelas contribuições dos trabalhadores e empregadores (falácia 3).

Não importa se tal critério possa ser pertinente em economias mais avançadas. Num país com tamanhas injustiças sociais e desigualdades de oportunidades, os próprios benefícios previdenciários precisam ser entendidos de modo mais amplo, similar à ideia de imposto de renda negativo, por isso com fontes de financiamento adicionais.

A propósito, o próprio sistema tributário nacional vigente já contempla outras fontes de financiamento dos benefícios previdenciários, como a Cofins e a CSLL.

Elevação na idade mínima para aposentadoria seria equivalente a postergar e, portanto, diminuir o tempo de recebimento de um bônus destinado aos que recebem as menores rendas, disfarçado de sustentabilidade do sistema previdenciário público.

E o que dizer do aumento de impostos? A opinião mais difundida é que o contribuinte, no Brasil, não aguenta mais tantos impostos, a maior carga tributária entre os países emergentes, superando a de vários países desenvolvidos, e ainda assim os serviços públicos prestados pelo Estado são ruins (falácia 4).

Claro que é uma opinião bastante sedutora, dado que ninguém gosta de gastar seu dinheiro com impostos. Diversos estudos, porém, mostram que a carga tributária no Brasil é menor entre os mais ricos, o que é mascarado pela carga média geral, utilizada nos argumentos contrários a qualquer aumento de tributos.

A forma com que venha a ser implementado não é menos importante que o próprio ajuste. Nesse sentido, dois fatores precisam ser considerados: a regressividade e a recessividade das medidas escolhidas.

Medidas que venham a onerar os pobres e a classe média são desfavoráveis tanto em termos de justiça e bem-estar, considerando que eles dependem mais de suas rendas disponíveis, quanto do ponto de vista da sustentação da demanda agregada, pois os mais ricos não precisarão reduzir seus gastos para pagarem mais tributos, uma vez que os recursos podem vir de suas poupanças.

(*) Doutor em economia pela UnB (Universidade de Brasília), conselheiro do Conselho Federal de Economia. Artigo publicado originalmente na Folha de S. Paulo.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Turquia: jornal pró curdo e contra Erdogan encerrado, jornalistas presos violentamente

Ozgur Gundem, jornal turco que defende os direitos da população curda e se opõe a Tayyip Erdogan, foi a última vítima da campanha generalizada de limpeza da oposição na Turquia. Bases de dados foram confiscadas, jornalistas presos e cartunista com dupla nacionalidade espanhola preso e espancado violentamente. 

Artigo de Manuel Martorell.

Dogan Guzel, de camisa rasgada, sendo conduzido à carrinha da polícia após o encerramento do jornal Ozgur Gundem. Foto de Firat News.
Dogan Guzel é um dos melhores cartunistas na Turquia. Oriundo da cidade de Diyarbakir, capital do Curdistão turco, vive entre Istambul e Sevilha, onde tem residência oficial, uma vez que durante a última década viveu em Espanha tendo nacionalidade e passaporte espanhol. Terça feira, foi preso na redação do jornal Ozgur Gundem, no qual publicava as suas atrevidas e incisivas vinhetas, quando unidades especiais da polícia antiterrorista se apresentaram para fechar o jornal e o espancaram quando exigiu à polícia a autorização judicial.
Ozgur Gundem, o único jornal que defende claramente os direitos da população curda e que se opõe à escalada autoritária de Tayyip Erdogan, foi a última vítima da campanha generalizada de purgas e limpeza da oposição na Turquia, aproveitando o clima de tensão causada pelo golpe de Estado de 15 de Julho.
Com este motivo já foram encerrados dezenas de meios de comunicação e quase uma centena de jornalistas foram detidos pela aplicação dos poderes extraordinárioios concedidos ao governo pelo estado de emergência aprovado no Parlamento, tenham ou não esses meios de comunicação a ver com o golpe militar.
O jornal agora encerrado sob a acusação de "propaganda terrorista" está entre os poucos que se tinham posicionado tanto contra o golpe militar como contra o contragolpe liberticida desencadeado pelo Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP) do governo. Na verdade, por causa da sua defesa dos direitos da população curda, Ozgur Gundem foi considerado "inimigo" tanto pelos partidários do golpe como do contra-golpe.
É neste sentido mais que significativo que muitos dos generais agora detidos estivessem à frente de unidades deslocadas para o Curdistão para implementar a política de repressão na região, sendo vários deles diretamente responsáveis ​​pelos crimes, incluindo massacres de civis, nesta guerra não declarada, seguindo exatamente as indicações do governo islamista de Erdogan.
Devido à sua linha política, esta terça feira, segundo a descrição de pessoas ligadas diretamente ao jornal Ozgur Gundem, unidades especiais normalmente envolvidas em operações de contraterrorismo apareceram no jornal, confiscando as bases de dados documentais e informáticas e prendendo os jornalistas que estavam no escritório central em Istambul.
Entre eles estava Dogan Guzel, que se atreveu a reivindicar o mandato judicial que permitisse confiscar e encerrar as instalações do jornal. Estas mesmas fontes afirmam que, nesse momento, o conhecido cartunista foi brutalmente espancado ao ponto de a sua camisa se rasgar, como se pode ver nas fotografias divulgadas nas redes sociais, nas quais se vê um agente a levar Dogan para uma carrinha da polícia.
O trabalho artístico abundante de Dogan, do qual se destacam personagens simpáticos que representam as crianças de rua da sua cidade, Diyarbakir, vivendo no meio de abandono e pobreza dentro dos limites do crime e da militância política. No passado 21 de março, celebrou o Newroz, “Dia Novo", o dia nacional dos curdos em castelhano e em curdo desenhando uma dessas figuras prestes a acender uma fogueira, como é habitual nessa festividade e nas noites de São João em Espanha.
Ao todo, só nesta atuação foram presos 24 jornalistas, incluindo um operador de câmara do canal de televisão IMC Gökhan Çetin, que conseguiu gravar alguns minutos da intervenção policial, até que um dos polícias à paisana detectou a sua presença e o obrigou a parar gravação.
A abvogada Eren Keskin, à direita, durante um protesto exigindo o reconhecimento do genocidio arménio. Foto de IHD.










A polícia também se deslocou às casas daqueles que legalmente estão à frente do jornal, destacando a figura de Eren Keskin, uma prestigiada advogada turca, vice-presidente da Associação dos Direitos Humanos (IHD) que recebeu vários prémios internacionais pela sua coragem na defesa mulheres que foram agredidas sexualmente, mesmo violadas em esquadras, quartéis ou prisões, por defender os direitos políticos e culturais dos curdos e por exigir o reconhecimento oficial do genocídio arménio.
O encerramento do jornal pró-curdo é parte de uma campanha mais vasta que também está a afetar o Partido Democrático dos Povos (HDP), o terceiro grupo parlamentar na Assembleia Nacional turca, cujos líderes foram presos às dezenas em várias cidades e cuja sede foi invadida pela polícia, ao abrigo do estado de emergência adotado depois do golpe.
Artigo publicado originalmente no Cuarto Poder

Exportações americanas, crises internas e o mito da Grande Potência

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“Eu admiro aqueles que conseguem sorrir com os problemas, reunir forças na angústia, e ganhar coragem na reflexão. É coisa de pequenas mentes encolher-se, mas aquele
cujo coração é firme, e cuja consciência aprova sua conduta perseguirá
seus princípios até a morte” Thomas Paine (1737-1809)

saldo da balança comercial: China e Estados Unidos

Os Estados Unidos da América (EUA) estão perdendo espaço na economia mundial e no comércio internacional. A economia dos EUA representava cerca de 27% do PIB mundial em 1950, caiu para 22% em 1980, ficou em 15,8% em 2015 e deve cair a 14,6% em 2021, segundo dados do FMI. O PIB da China (em poder de paridade de compra – ppp) era de 2,3% em 1980, passou para 17% da economia global em 2015 e deve ficar em torno de 20% em 2021.
O quadro não é diferente no comércio mundial. Em 1975 foi o último ano em que os Estados Unidos da América (EUA) tiveram saldo positivo na balança comercial. Sendo que as exportações americanas representavam 16% do total global. De lá para cá o déficit comercial tem sido crescente. No segundo governo George W. Bush, de 2005 a 2008, o déficit comercial dos EUA ultrapassou US$ 800 bilhões anuais. Neste período, a participação das exportações americanas no comércio mundial caiu para 8% (metade da percentagem de 1950). Os dados do primeiro semestre de 2016 mostram que as exportações americanas continuam caindo.
No outro lado do mundo, a China tinha uma percentagem de somente 1% no comércio internacional em 1950 e chegou a 14% em 2015. Até o início do século XX, o saldo comercial da China era baixo, mas ultrapassou US$ 200 bilhões em 2007 e 2008, reduziu um pouco entre 2009 e 2011 e voltou para os patamares acima de US$ 200 bilhões e alcançou a impressionante cifra de US$ 600 bilhões de superávit comercial. Nunca houve no mundo um superávit tão grande.
Os EUA só conseguiram manter déficits comerciais tão grandes porque possuem o privilégio de possuir a moeda aceita internacionalmente. Isto quer dizer que a dívida externa americana é lastreada em dólares e, em última instância, pode ser paga com a emissão de moedas (embora esta alternativa possa levar ao estouro da inflação e ao colapso do sistema financeiro internacional criado em Bretton Woods). Mas o fato de os EUA conseguirem financiar os seus déficits gêmeos (fiscal e externo) não significa que a economia vá bem. Ao contrário, as condições de vida da população americana estão se deteriorando e agravando as desigualdades.

Participação da China e dos EUA nas exportações mundiais

Esta perda de competitividade da economia dos EUA tem feito os principais candidatos às eleições presidências se manifestarem contra os acordos comerciais e em defesa de políticas protecionistas. Isto ocorre porque há uma grande insatisfação por parte de grandes segmentos da sociedade com o baixo dinamismo da economia e a falta de mobilidade social ascendente.
No dia 29 de junho, o senador Bernie Sanders (pré-candidato derrotado nas primárias do partido Democrata) publicou artigo no jornal New York Times, onde relacionou alguns dos principais problemas do país. Ele mostra que nos últimos 15 anos, cerca de 60.000 fábricas foram fechadas, e mais de 4,8 milhões de empregos industriais bem pagos desapareceram.
Com a estagnação da produtividade e o aumento da desigualdade, o trabalhador do sexo masculino está ganhando hoje, em termos reais, US$ 726 dólares a menos do que ganhava em 1973, enquanto o trabalhador do sexo feminino está ganhando US$ 1.154 menos do que ganhava em 2007. Quase 47 milhões de americanos vivem na pobreza. Estima-se que 28 milhões não têm seguro de saúde, enquanto muitos outros possuem seguros insuficientes. Milhões de pessoas estão lutando com os níveis ultrajantes de débito estudantil. Talvez pela primeira vez na história moderna, a geração mais jovem, provavelmente, terá um padrão de vida mais baixo do que seus pais. Assustadoramente, milhões de americanos de menor nível educacional poderão ter redução na esperança de vida ao nascer, enquanto sucumbem ao desespero, às drogas e ao álcool.
Enquanto isso, no topo de um décimo de 1 por cento da elite dos EUA agora possui quase tanta riqueza quanto a parte inferior dos 90% mais pobres. Cinquenta e oito por cento de todos os novos rendimentos estão indo para o topo dos 1% mais ricos. O setor financeiro de Wall Street e os bilionários, através de seus “super PACs”, influenciam os rumos das eleições americanas. A maioria vota, mas a democracia não deixa de ser um processo influenciado por uma pequena elite.
Porém, não vai ser fácil mudar o panorama da economia americana que tem um nível de endividamento muito alto e baixos níveis de poupança. Neste quadro, a infraestrutura fica atrás de outros países desenvolvidos e reverter o declínio da produtividade se torna uma tarefa quase impossível. O mais provável é que os EUA continuem em seu processo de declínio e o nível da campanha eleitoral reflete a situação do país que vive uma crise da democracia. O que aconteceu no Reino Unido (Brexit) pode ser um sinal de alerta para os Estados Unidos.
O senador Bernie Sanders fez uma campanha à esquerda dizendo que não basta derrotar o candidato das elites bilionárias – Donald Trump – mas o partido Democrata precisaria ter um programa para alcançar o pleno emprego e o trabalho decente, universalizar a cobertura social, médica e previdenciária, além de combater as desigualdades e a degradação ambiental.
Na convenção republicana de 18 a 21 de julho, em Cleveland (Ohio), Donald Trump pintou um quadro catastrófico da economia americana. Dentre outras coisas ele disse que “quase 40% das crianças afro-americanas estão vivendo na pobreza, enquanto 58% dos jovens afro-americanos não são empregados; mais de dois milhões de latinos estão na pobreza hoje do que há 8 anos; mais de 14 milhões de pessoas deixaram a força de trabalho; os rendimentos das famílias caíram mais de US$ 4.000 desde o ano de 2000; o déficit comercial anual está em US$ 800 bilhões; o presidente Obama duplicou a dívida nacional, que passou de US$ 19 trilhões, e continua crescendo; as estradas e pontes estão caindo aos pedaços, os aeroportos estão em condições de Terceiro Mundo, e quarenta e três milhões de americanos estão vivendo de cupons de alimentos”.
É claro que Trump “torturou” os dados para mostrar que a culpa é exclusivamente do presidente Obama e do partido democrata. Mas o quadro catastrófico da economia americana não deixa de apresentar uma certa verdade, especialmente se consideramos os erros de política econômica adotada pelo partido republicano desde Ronald Reagan. Além do mais, o discurso de Donald Trump está cheio de propostas populistas de direita, além de ser egocêntrico e narcisista, especialmente quando ele diz que vai “consertar a América” sozinho. O inusitado foi que a mulher de Donald, Melania Trump, fez um belo discurso em Cleveland, mas várias partes foram plagiados do discurso de Michelle Obama de 2008.
O fato é que o discurso conservador de “lei e ordem” (semelhante ao nosso “ordem e progresso”), do bilionário Trump, conseguiu satisfazer grande parte do eleitorado americano e as pesquisas realizadas logo após a convenção de Cleveland mostraram uma liderança na corrida presidencial. Para os setores angustiados e irados da sociedade americana o candidato Trump aparece como um “salvador da pátria”.
Os democratas, ao contrário, dizem que os EUA sempre foram grandes e continuam a maior potência econômica do planeta. Isto é uma meia verdade, pois se olharmos os dados do FMI em poder de paridade de compra, a China já é a principal economia do mundo. Mesmo considerando que os EUA continuam a maior potência mundial (em dólares correntes), não dá para esconder o fato de que se trata de uma potência em declínio relativo. O sonho do excepcionalismo americano tem se tornado um pesadelo para amplas camadas da população que não conseguem obter o mesmo padrão de vida de seus ascendentes. É grande o sentimento de insegurança e fraqueza entre os 99% da população americana.
Na semana de 25 a 28 de julho, foi a vez da convenção democrata realizada na Filadélfia (Pensilvânia). A convenção começou com uma forte divisão entre os partidários de Hillary Clinton e Bernie Sanders. Mas no final parece que o partido democrata conseguiu uma unidade interna e se mostra mais unido do que o partido Republicano. O ponto alto da Convenção foram os discursos de Michelle Obama, de Tim Kaine (candidato a vice-presidente), Michael Bloomberg (ex-prefeito republicano de Nova York), Bill Clinton, etc. O discurso final de Hillary não foi tão inspirado quanto o de seus principais apoiadores, mas ela tentou passar uma boa imagem do partido e dos EUA.
A campanha de Donald Trump carrega nas tintas pessimistas, critica fortemente o presidente Obama e o partido democrata e promete fazer a “América” grande novamente. A campanha de Hillary Clinton diz que a “América” continua sendo grande, defende o legado de Obama e promete trabalhar em conjunto com as minorias para fazer a “América” boa e próspera. Há quem diga que é o pessimismo exagerado contra o otimismo sem fundamento.
Os dados das pesquisas eleitorais mostram que, antes das convenções partidárias, Hillary estava à frente da corrida presidencial com cerca de 41% das intenções de voto, Trump com 37%, Gary Jonhson com 8% e Jill Stein com 4%. Durante a convenção republicana e logo após a sua exposição na mídia, Donald Trump conseguiu o empate nas intenções de voto e chegou a ultrapassar a candidata democrata por uma pequena margem e por um breve período. Porém, a candidata Hillary voltou a abrir uma vantagem após a convenção democrata e ampliou a margem depois de duas semanas de declarações desastrosas de Donald Trump.
Como mostra o gráfico abaixo, a vantagem de Hillary Clinton nunca foi tão grande. Em meados de agosto ela em torno de 44% das intenções de voto, Donald Trump tinha 37,6%, Gary Johnson 8,3% e Jill Stein 3%. Hillary liderava com 6 a 7 pontos na frente de Trump

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A chapa Gary Johnson e William Weld (dois homens brancos), do partido libertário, está em terceiro lugar nas pesquisas e já ultrapassou a barreira histórica de 10% das intenções de voto em algumas pesquisas. O Partido Libertário surgiu como uma dissidência do republicano em 1971 e defende um papel mínimo do governo federal na economia, além do respeito ao individualismo e à possibilidade de escolha em temas como aborto, direitos dos homossexuais e legalização da maconha. Por isso, mesmo com um histórico próximo à direita, o candidato também pode ganhar algum apoio entre os eleitores da esquerda por sua conduta moderada e mais aberta em assuntos polêmicos. Mas a tendência é que a chapa Johnson-Weld seja uma alternativa para os republicanos que estão descontentes com a candidatura de Donald Trump.
A chapa Jill Stein e Cornel West (uma mulher branca e um homem negro), do partido verde, está em quarto lugar e tem um claro programa progressista, ambientalista e anti-neoliberal. A chapa pode ser um depositório do eleitorado mais à esquerda e descontente com o establishment do partido democrata. Muitos eleitores de Bernie Sanders devem votar nesta quarta alternativa e o crescimento desta chapa vai capitalizar os votos que iriam para Hillary Clinton.
O partido Libertário e o partido Verde entraram na justiça contra a exclusão de seus candidatos dos debates eleitorais que vão começar em setembro. Mas um juiz Federal considerou válido a regra de que os candidatos pequenos devem ser chamados para os debates apenas se atingirem 15% das intenções de voto. Ou seja, continua valendo a regra do duopólio (Democratas vs Republicanos) e a eleição vai ser vencida pelo/a candidato/a que tiver o menor índice de rejeição e não por aquele/a que conquistar o coração dos eleitores.
Ainda há a candidatura independente de Evan McMullin, de 40 anos, um ex-agente da CIA, ex-empregado da Goldman Sachs e que era até há pouco tempo um assessor parlamentar do grupo republicano na Câmara de Representantes. Por influência do movimento #NeverTrump, ele se lançou como candidato independente à eleição presidencial americana de novembro, para tentar impedir a vitória do candidato oficial de seu partido, Donald Trump, que continua sendo questionado por uma grande parte dos conservadores.
O eleitorado americano está sem uma boa candidatura e há um grande desgaste dos partidos. Somente 12% aprovam o trabalho do Congresso e 79% desaprovam. Os gráficos abaixo mostram que as candidaturas dos dois grandes partidos possuem índices de rejeição maiores do que os de aprovação. Assim, a eleição vai ser decidida por quem tiver a menor rejeição.

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Como bem mostrou Richard Heinberg (02/08/2016), no artigo “You Can’t Handle the Truth!”, no site Resilience, nenhum dos dois candidatos à presidência dos EUA conseguem dar respostas satisfatórias para os desafios atuais do país e do mundo: “The times call for a candidate more in the mold of Winston Churchill, who famously promised only “blood, toil, tears, and sweat” in enlisting his people in a great, protracted struggle in which all would be called upon to work tirelessly and set aside personal wants and expectations. The candidates we have instead bode ill for the immediate future. Given the absence of helpful leadership at the national level, our main opportunity for effective preparation and response to the wolf at our doorstep appears to lie in local community resilience building”.

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O fato é que os EUA possuem muitos problemas econômicos, sociais e ambientais e são uma potência em declínio relativo e nenhum discurso, por melhor que seja, será capaz de esconder esta verdade. Ganhe Donald Trump ou Hillary Clinton, o vencedor terá que enfrentar uma nação dividida e fraturada politicamente, em um contexto de redução do crescimento econômico, crescentes déficits externos (comercial e transações correntes) e interno (grande dívida pública) e a tendência à estagnação secular e o aprofundamento da “guerra civil” existente hoje no país. Não será fácil gerir os Estados (des)Unidos da América no período 2017-2020.

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Na realidade a economia americana apresenta desempenho econômico cada vez mais descepcionante. O gráfico abaixo mostra que, nos períodos de recuperação após uma recessão, há uma perda de dinamismo. Na década de 1980, no governo Regan, a recuperação ficou em 4,5% ao ano. Na década de 1990, no governo Bill Clinton, a recuperação ficou em 4,2% ao ano. Na primeira década do século XXI, no governo Bush filho, a recuperação ficou em 2,8% ao ano. Na segunda década, no governo Obama, a recuperação está em apenas 2,1% ao ano. Mas em 2016, o crescimento do primeiro semestre ficou em apenas 1%. Parece que a fraqueza veio para ficar.

recuperação depois de uma recessão

Embora a criação em emprego em junho e julho de 2016 tenha ficado acima de 250 mil postos gerados mesalmente, no conjunto, a criação de emprego tem sido modesta, comparada com os períodos anteriores. No período 1991 a 2000 a geração de emprego ficou em 20%, no período 2000 a 2008 ficou em 4,3% e no período 2008 a 2016 está em 3,5%. Em parte, isto reflete o envelhecimento populacional, mas também a perda de produtividade e competitividade da economia americana.

empregos urbanos nos Estados Unidos

Tudo isto reforça as teses do economista Robert Gordon que argumenta que as novas tecnologias e a chamada 4ª Revolução Industrial não conseguem vencer os ventos contrários da economia. Assim, os indícios apontam para o fato inevitável de que a economia americana caminha para a estagnação secular.
Neste ambiente adverso, líderes populistas prometendo soluções simples, abastecidas por uma retórica raivosa sobre imigrantes e o establishment, podem sair vitoriosos, como foi no caso do Brexit. Os EUA estão passando por um momento de prestação de contas. Provavelmente, será impossível conter o declínio relativo da economia americana, assim como parece impossível manter em alto nível o debate da atual campanha eleitoral. O declínio relativo da economia e da democracia pode se transformar em retrocesso e barbárie.
Indicações de leituras:

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 17/08/2016

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

China fica entre líderes mundiais em inovação; Brasil perde para latino-americanos

Um novo relatório publicado pela Organização Mundial de Propriedade Intelectual (OMPI) mostrou que pela primeira vez, um país de renda média, a China, uniu-se às economias desenvolvidas entre os líderes globais em inovação. O Brasil, no entanto, ficou atrás mesmo de outros países da América Latina como Chile, México e Uruguai

Relatório publicado pela Organização Mundial de Propriedade Intelectual (OMPI) mostrou que pela primeira vez, um país de renda média, a China, uniu-se às economias desenvolvidas entre os líderes globais em inovação.

“O progresso da China refletiu a melhora do desempenho de inovação do país, assim como mudanças metodológicas como melhores métricas de inovação do GII (Índice Global de Inovação)”, disse a OMPI em comunicado nesta terça-feira (16). A China ficou no 25º posto, enquanto Hong Kong, em 14º.

Apesar do avanço da China, a organização lembrou que a desigualdade persiste entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, de acordo com o Índice de Inovação Global 2016, divulgado pela OMPI, a Universidade de Cornell e a escola de negócios INSEAD.

A Suíça emergiu como líder global entre economias inovadoras seguida por Suécia, Reino Unido, Estados Unidos e Finlândia. A Suíça também ficou em primeiro no ranking de 2015.

A organização afirmou que as conclusões de 2016 mostraram aumento das políticas públicas no sentido de impulsionar a inovação como algo crucial para uma economia vibrante e competitiva.

“Investir em inovação é crucial para elevar o crescimento econômico de longo prazo”, disse o diretor-geral da OMPI, Francis Gurry. “No clima econômico atual, descortinar novas fontes de crescimento e ampliar as oportunidades levantadas pela inovação global são prioridades para todos os atores”, acrescentou.

A agência disse ainda que a inovação requer investimento contínuo. Antes da crise de 2009, os gastos com pesquisa e desenvolvimento cresciam a um ritmo anual de cerca de 7%. Em 2014, esse ritmo já havia caído para 4%.

“Isso foi resultado de uma desaceleração das economias emergentes e de orçamentos menores para pesquisa e desenvolvimento nas economias mais ricas. Essa questão permanece como uma fonte de preocupação”, salientou.

De acordo com a OMPI, entre os líderes do índice deste ano, quatro economias — Japão, EUA, Reino Unido e Alemanha — destacam-se pela “qualidade inovativa”, um indicador que avalia o nível das universidades, o número de publicações científicas e de registro de patentes.

América Latina e Caribe
O Chile é o país mais bem classificado (44º) na região da América Latina e Caribe, obtendo bons indicadores para instituições, infraestrutura e sofisticação de negócios, seguido por Costa Rica (45º), México (61º), Uruguai (62º) e Colômbia (63º).

O Brasil está na 69ª posição, com indicadores favoráveis em pesquisa e desenvolvimento e qualidade de suas publicações científicas, mas com fraquezas em seu ambiente de negócios e capacidade de gerar inovação e criação de novos negócios.

O relatório sugere que enquanto a América Latina, especialmente o Brasil, entrou em um momento de turbulência econômica, é importante superar restrições políticas e econômicas de curto prazo e redobrar seus compromissos com a inovação no longo prazo.

ONU

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Política tributária e cambial

por Júlio Miragaya – Presidente do Conselho Federal de Economia; na Página do Conselho Federal de Economia (COFECOM)


Reproduzo neste artigo recente posicionamento do Cofecon sobre Políticas Tributária e Cambial. “O Cofecon entende que a posição do governo interino sobre Política Tributária não traz nenhuma alteração em relação a do governo Dilma. Discute-se a possibilidade de retorno da CPMF, redução das isenções e desonerações concedidas e acena com uma reforma tributária genérica e imprecisa, sem alterar fundamentalmente a estrutura de financiamento do Estado.

O Brasil precisa, de fato, de uma mudança em seu modelo tributário, fortemente regressivo, com 72% da arrecadação de tributos se dando sobre o consumo (56%) e sobre a renda do trabalho (16%), ficando a tributação sobre a renda do capital e a riqueza com apenas 28%, na contramão do restante do mundo. Na média dos países da OCDE, por exemplo, a tributação sobre a renda do capital representa 67% do total dos tributos arrecadados, restando apenas 33% sobre consumo e renda do trabalho.

Quanto à Política Cambial, um dos aspectos mais preocupantes da atual conjuntura relaciona-se à trajetória da taxa de câmbio. A rápida valorização observada nas últimas semanas é funcional para a queda da inflação, mas novamente deverá colocar em cheque a indústria doméstica, dificultando a reversão do elevado desemprego. 

O regime de câmbio flutuante puro não se adequa à economia brasileira. Em um cenário de elevadas taxas de juros reais e queda acentuada do déficit de transações correntes, estão dadas as condições para uma indesejável sobrevalorização do câmbio, que favorecerá o retorno de grandes desequilíbrios externos e volatilidade na taxa de câmbio em futuro não muito distante.

O Cofecon chama a atenção para a necessidade de praticar uma política cambial ativa, que propicie melhores condições para a expansão das exportações e da produção doméstica de bens comercializáveis, em linha com a retomada do crescimento econômico e a reversão do processo de desindustrialização do País”.

Estudo revelam que país da América Latina tem melhor salário mínimo



A diferença entre o maior e o menor salário mínimo na região é de US $ 324. O primeiro lugar vai para a Argentina, onde os trabalhadores ganham 476 dólares por mês, pelo menos. Enquanto a última posição é do México, onde os funcionários recebem US $ 152 por mês. No Uruguai, o salário mínimo é de US $ 373, e no ​​Chile é de 346. Seguem Colômbia (US $ 307,9), Brasil (US $ 306,8) e o Peru, com US $ 268. Isso foi demonstrado pelo estudo "Trabalho Decente América Latina", da Rede Latino-americana de Pesquisa sobre Empresas multinacionais (Redlat). 

Sem embargo, nem todos os trabalhadores chegam a receber o salário mínimo. No Peru, por exemplo, 50,1% dos trabalhadores têm rendimentos abaixo do mínimo. Seguido pela Colômbia, onde 48,3% ganham menos dinheiro do que o piso estabelecido. A mesma situação acontece com 28,8% dos trabalhadores na Argentina, no Brasil 25,4%, 20,2% no México e 21,1% dos trabalhadores chilenos. O melhor resultado a este respeito é para o Uruguai, onde apenas 8,5% da população ativa não atinge o salário mínimo. Outro fato que emerge do trabalho do Redlat é que a diferença de remuneração entre homens e mulheres continua a ser muito alta na região, com uma clara vantagem para os homens. 

O país com a maior diferença é o Peru, onde os homens podem ganhar até 43,8% a mais do que as mulheres. O próximo país mais desigual a este respeito é a Argentina, onde pessoas do sexo masculino obtêm 34% salário mais do que as fêmeas. No Chile, a desigualdade é repetida com 29,7% a mais para os homens. No Brasil, com 25,5%, enquanto que na Colômbia o desequilíbrio favorece 20,2% para os ganhos do sexo masculino. No México, essa diferença é de 18,5%. Finalmente, o Uruguai é o país onde menos se evidencia a discriminação por sexo. Lá, os homens recebem salários 5,9% vezes maior do que as mulheres.

por Marco Antonio Moreno

Turquia: A "caça às bruxas" chega à cultura

Concertos da cantora Sila Gencoglu cancelados por ela ter criticado o comício de apoio a Erdogan. 6.792 professores universitários perseguidos ou afastados dos cargos. Sedes do HDP assaltadas e dirigentes ameaçados de duras penas de prisão. 

Por Manuel Martorell.

O professor Candan Badem, investigado por ter nas suas estantes um livro de Gulen
Sila Gencoglu, censurada por questionar o comício de apoio a Erdogan, num dos seus concertos








Sila Gencoglu é uma das cantoras pop mais populares da Turquia e os seus concertos atraem milhares de jovens em cada verão. Perguntaram a Sila, quando foi convocado o comício em Istambul contra o golpe de Estado e a favor da democracia, se tinha intenção de ir. A estrela do pop turco disse que, sem dúvida, estava contra o golpe de Estado, mas que preferia “ficar à margem de semelhante show”. Em poucas horas, começou a receber um monte de insultos nas redes sociais e quase de forma imediata foram cancelados concertos seus programados para Ancara, Kayseri, Bursa, Istambul…
De acordo com o comunicado emitido pela Câmara de Istambul, a simples comparação da concentração popular contra o golpe de Estado com um show já era motivo mais que suficiente para romper o contrato com Sila Gencoglu; em termos muito semelhantes expressava-se, segundo informa a rede Bianet, a “Fundação para a Cultura, as Artes e o Turismo” de Bursa, dependente deste importante município, com quase dois milhões de habitantes e situado, tal como Istambul, junto ao mar de Mármara.
Sila, depois do cancelamento dos concertos, disse estar em “estado de choque” porque tinha deixado bem clara a sua oposição ao golpe, mas também à manipulação política dos sentimentos populares, convertendo uma concentração de apoio à democracia num acto de adesão à política autoritária do presidente Tayip Erdogan.
O caso de Sila é só um exemplo, ainda que o mais marcante, devido à popularidade da cantora, do clima de “caça às bruxas” que se vive na Turquia depois da intentona golpista de 15 de julho. Nenhum setor crítico da política de Erdogan está livre da campanha de neutralizaçãode qualquer forma de oposição, agora com a desculpa de limpar o aparelho de Estado de qualquer vestígio gulenista, movimento islamista moderado dirigido por Fethullah Gülenque é acusado pelo Governo de Erdogan de ter instigado a intentona golpista.
6.792 professores universitários perseguidos
O Conselho do Ensino Superior acaba de anunciar que o número de professores universitários investigados ou afastados dos seus postos por estarazão ascende a 6.792. Em alguns casos, uma entrevista, uma conversa telefónica com Fethullah Gülen ou ter livros seus é motivo suficiente para ser incluído nas purgas.
O professor Candan Badem, investigado por ter nas suas estantes um livro de Gulen
O professor Candan Badem, investigado por ter nas suas estantes um livro de Gulen














Por exemplo, Candan Badem, do Departamento de História da Universidade de Tunceli, está a ser perseguido por ter um livro de Gülen nas suas estantes, onde tinha também numerosas obras sobre comunismo, marxismo e anarquismo. Segundo explicou Candan à rede Bianet, esse único livro de Fethullah Gülen tinha-o utilizado precisamente para fazer trabalhos críticos contra o movimento deste antigo aliado de Erdogan, atualmente exilado nos Estados Unidos e para o qual a Turquia pediu a prisão preventiva durante o processo de extradição solicitado por Ancara.
Os Professores pela Paz, centenas dos quais já tinham sido expulsos da Universidade antes da intentona golpista, recordam que a escalada autoritária de Erdogan e as depurações na Universidade vêm de longe e que agora apenas se deu um salto mais amplo na mesma direcção.
Alguns destes professores, que propunham acabar de forma negociada com a guerra no Curdistão, já foram processados por graves delitos, como ocorreu com Mustafa Sener, professor de Ciências Políticas da Universidade de Mersin, acusado de propaganda terrorista, incitamento ao ódio e manifestação ilegal. Mustafa Sener, como muitos outros professores, não só ficou sem trabalho, vetado indefinidamente em todas as universidades da Turquia, como enfrenta um pedido da acusação pública de 14 anos de prisão. Só na sua universidade há outra vintena de professores em situação semelhante.
HDP: Dirigentes perseguidos, sedes assaltadas
Sede do HDP assaltada pela polícia
Sede do HDP assaltada pela polícia


Com um Partido Republicano do Povo (CHP, social-democrata e kemalista) amordaçado e atemorizado pelas massas que Erdogan lançou na rua e com um Partido da Ação Nacional (MHP, extrema-direita) cada vez em maior sintonia com o nacionalismo de Erdogan, agora quem é o alvo é o pró-curdo Partido Democrático dos Povos (HDP), o terceiro grupo dentro da Assembleia Nacional Turca (parlamento), ao qual começou a ser aplicada a nova lei que permite levantar a imunidade parlamentar dos deputados.
Os primeiros da lista foramSelahattin Demirtaş, copresidente e líder indiscutível do HDP, e o conhecido parlamentar por Ancara Sırrı Süreyya Önder, um dos que iniciou o movimento da praça Taksim. Para ambos são pedidos cinco anos de prisão por “propaganda de organização terrorista”, ainda que contra Demirtaş existam outros 93 processos com dois pedidos de prisão perpétua e mais 500 anos de prisão por vários delitos.
Dezenas de sedes do HDP foram assaltadas pela polícia numa clara tentativa de amedrontar o único partido parlamentar que não se dobrou a Erdogan e que denunciou, tanto o golpe de Estado, como o contragolpe do Governo. As sedes foram arrasadas sem qualquer mandato judicial, destruindo mobiliário, instalações e bibliotecas, como ocorreu na sede do distrito de Beyoglu, onde todos os livros, com exceção da grandeEnciclopédia da História Otomana, foram atirados para o chão, numa forma de atuar que lembra demasiado a “noite dos cristais” do nazismo hitleriano.
Artigo de Manuel Martorellpublicado em cuartopoder.e
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