"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 10 de setembro de 2016

Os países com as maiores e as menores rendas per capita em 2016

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

lista dos 40 países com maior renda per capita em poder de paridade de compra (ppp)

O gráfico acima mostra a lista dos 40 países com maior renda per capita em poder de paridade de compra (ppp). O Qatar fica em primeiro lugar pois é um país que tem muito petróleo e pouca gente. Com isto a renda per capita é muito alta e mais de duas vezes maior do que a renda per capita dos Estados Unidos (EUA).
Luxemburgo aparece em segundo lugar e Macau e Hong Kong (duas províncias da China), que são cidades-estado, aparecem no topo da lista com 3º e 12º lugares. Singapura fica em 4º lugar e ganha destaque especialmente porque era um país pobre que foi colônia inglesa, foi invadido pelo Japão e fazia parte da Malásia até 1965, mas iniciou uma rota de sucesso e conseguiu ser um dos países de maior renda do mundo e maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).
Os tigres asiáticos, Taiwan e Coreia do Sul, são outros exemplos de sucesso. Taiwan é uma “província rebelde” da China, mas tem uma renda per capita 3 vezes maior do que a da China continental.
Da América Latina, Porto Rico e Trinidad e Tobago aparecem entre os 40 países com maior renda per capita. Mas Porto Rico é um país quebrado e com uma dívida monstruosa.
Provavelmente vai sair da lista dos mais riscos nos próximos anos. Trinidad e Tobago é um país pouco populoso e exportador de petróleo e também enfrenta dificuldades com a queda do preço dos combustíveis fósseis.
Mas estes dois países da América Latina e Caribe (ALC) estão muito melhor do que a Argentina que fica em 60º lugar e o Brasil que aparece em 86º lugar em uma lista de 191 países.
Entre os países mais pobres, com menos de US$ 2 mil estão principalmente os países da África Subsaariana, sendo República Centro-Africana, República do Congo, Burundi, Libéria, etc. O Haiti também está entre os países mais pobres do mundo, sendo o mais pobre da ALC.

países com os menores níveis de renda per capita, 2016

Como se nota nos dois gráficos apresentados, a diferença entre o pais com maior renda per capita (Qatar = US$ 130 mil) e o país com menor renda per capita (República Centro-Africana = US$ 660) é de quase 200 vezes.
O caminho para um mundo mais justo e com maior igualdade de renda e de condições de vida ainda está longe da realidade. Nas metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) a redução das desigualdades entre os países está colocada. Mas dificilmente o mundo terá um quadro mais promissor até 2030.
José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
in EcoDebate, 09/09/2016

Seca Se Intensifica Com Alto Risco Para Cerca De 90 Municípios Do Semiárido Brasileiro

A avaliação do Percentil para os últimos 90 dias (período entre os dias 03 de junho a 31 de agosto) indica áreas que apresentam a condição de “Muito Seco” principalmente na zona da mata. Ressalta-se que a quadra chuvosa desta região foi encerrada no mês de julho.

As chuvas de setembro a novembro devem se tornar mais escassas na Zona da Mata dos Estados de Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Há poucas chances de reversão do quadro crítico dos municípios impactados pela seca, conforme o Relatório da Seca no Semiárido Brasileiro e Impactos divulgado, ontem, pelo Cemaden
O período chuvoso, entre abril e julho, apresentou um déficit pluviométrico, agravado no mês de agosto, com o registro de acumulados de chuva inferiores a 60 mm nos municípios da maior parte da região Nordeste. Esses municípios, principalmente na zona da mata, foram caracterizados por condições de “ Muito Seco”.
A avaliação do risco agroclimático (balanço hídrico) para o ano hidrológico 2015/2016 – referente ao período de outubro de 2015 a 31 de agosto de 2016- indicou que cerca de 90 municípios foram classificados como de risco “Alto”, aos que apresentaram entre 60 a 75 dias com déficit hídrico e de “Muito Alto”, para os municípios com mais de 75 dias com o déficit hídrico.
O trimestre agosto-setembro-outubro de 2016 pode marcar a transição para um episódio de La Niña, provavelmente com fraca intensidade. A evolução climatológica (histórica) das precipitações no trimestre Setembro-Outubro-Novembro/2016 indica que as chuvas devem se tornar mais escassas na Zona da Mata dos Estados de Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Portanto, para os municípios impactados pela seca, nestes Estados, há poucas chances de reversão do quadro crítico.
“A intensidade dos impactos da seca atingem as atividades agrícolas e/ou pastagens. A situação de seca intensificou-se, principalmente, na parte leste da Região Semiárida, atingindo os municípios inseridos nos estados do Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco.”, destaca o coordenador-geral do Cemaden, meteorologista Marcelo Seluchi. Ele explica que essa seca é o reflexo dos acumulados de chuva inferiores a média dos meses da estação chuvosa- entre os meses de abril a julho – conforme o sensoriamento remoto com base no índice de suprimento de água para a vegetação (VSWI).
Essa análise foi divulgada, ontem, no Boletim da Seca e Impactos no Semiárido Brasileiro de Agosto 2016, elaborado pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.
No relatório, de acordo com o índice de suprimento de água para a vegetação (VSWI), 981 municípios apresentaram pelo menos 50% de suas áreas impactadas no mês de agosto de 2016. “ A estação chuvosa foi encerrada no ultimo mês de julho e, em razão disso, o estresse vegetativo atual é esperado.”, explica Seluchi. Considerando as poucas regiões onde o calendário de plantio se estende até o mês de junho, o ciclo fenológico pode ainda estar em curso nos municípios inseridos no Estado de Alagoas, região leste da Bahia, Pernambuco e Sergipe. Nessa região, as áreas impactadas pela seca somam cerca de 9 milhões de hectares.
As previsões em escala de médio prazo (até 21 de agosto) indicam condições favoráveis para a ocorrência de precipitações no litoral da Bahia, ao sul de Salvador. A previsão climática sazonal de chuva (MCTIC) para setembro-outubro e novembro de 2016 mostra, para toda a região Nordeste do País, uma previsão na qual os três cenários (acima-dentro-abaixo da média) são igualmente prováveis, indicando a incerteza associada a esta previsão.
Fonte: Cemaden
in EcoDebate, 09/09/2016

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Da China para Marte

por Michael Roberts

A reunião final de semana dos chefes de Estado das 20 maiores economias do mundo (G20) na cidadeChinesa de Hangzou concluiu que a economia global ainda está em apuros. O FMI calculou que 2016 seria o quinto ano consecutivo em que o crescimento global será abaixo da média de 3,7% registrada no período de 1990 a 2007.
E pouco antes da cúpula do G20, o FMI divulgou um relatório prevendo um crescimento ainda mais lento do que a média. "Pontos de alta frequência de dados para o crescimento mais suave este ano, especialmente no G-20, economias avançadas, enquanto o desempenho dos mercados emergentes é mais confuso". E continuou: "A perspectiva global permanece moderada, com dinâmica de crescimento desfavoráveis ​​a longo prazo e as disparidades domésticas de renda somando-se aos desafios enfrentados pelos formuladores de políticas. Desenvolvimentos, incluindo recente inflação muito baixa, juntamente com a desaceleração do crescimento do investimento e do comércio, confirmam amplamente o ritmo modesto da atividade global. O declínio do investimento, exacerbado por saliências da dívida do setor privado e questões de saldo do setor financeiro destaca em muitos países, as tendências de baixo crescimento da produtividade, e fatores demográficos pesam sobre as perspectivas de crescimento a longo prazo, reduzindo ainda mais incentivos para o investimento, apesar de as taxas de juros terem recorde de baixa. Um período de baixo crescimento que tem ignorado muitas pessoas com baixos rendimentos aumentou a ansiedade sobre a globalização e piorou o clima político para a reforma. Os riscos descendentes ainda dominam. "
FMI 1
A Chefe do FMI, Christine Lagarde, também blogou que "o crescimento global fraco que interage com o aumento da desigualdade está alimentando um clima político em que as reformas param e os países recorrem às políticas introvertidas. Em um amplo leque de economias avançadas, os rendimentos para os 10 por cento aumentou em cerca de 40 por cento nos últimos 20 anos, enquanto crescendo apenas modestamente na parte inferior. A desigualdade também tem aumentado em muitas economias emergentes, embora o impacto sobre os pobres, por vezes, tem sido compensado pelo crescimento da renda geral sólida".
FMI-2
Baixo crescimento, elevada dívida, fraca produtividade e aumento da desigualdade: essa é a história da economia mundial desde o fim da Grande Recessão em 2009.
O que o FMI e os líderes do G20 sugerem como forma de sair desta atividade deprimida? Em primeiro lugar, mais apoio à "procura". Mas a política monetária (taxas de juros zero ou negativas e impressão de dinheiro) não estava funcionando. Assim que era "hora de aumentar o investimento público e melhorar a infra-estrutura". Mas o mundo precisa de mais "reformas estruturais" do tipo neoliberal, como a desregulamentação dos mercados de trabalho e de produção, reduzindo os regimes de pensões, etc, a fim de aumentar a rentabilidade. Mas há também deve ser menor a desigualdade através de maiores benefícios básicos e aumento da educação para os salários mais baixos. Então, precisamos de mais globalização, o comércio mundial, as reformas neoliberais e menos desigualdade. Reconciliar os!
Uma ideia que dominou a reunião do G20 foi a necessidade de impulsionar o comércio mundial e apoiar a "globalização". Como este blog tem relatado muitas vezes, o crescimento do comércio mundial tem sido decepcionantes e é uma grande característica do Longa Depressão desde 2009.
Comércio mundial
Mas o pior para o capitalismo global, e o imperialismo americano em particular, tem havido uma tendência crescente de distância da "globalização" (livre comércio de bens, serviços e fluxos de capital para as grandes empresas). Os acordos comerciais da Organização Mundial do Comércio têm parado e as mega-ofertas regionais como TTP e TTIP estão em sério risco. Em todos os lugares, os governos estão sob pressão para bloquear novas ofertas e até mesmo revertê-las (por exemplo Trump na NAFTA). Então, Lagarde pediu o apoio renovado para a globalização e a era neo-liberal agora sob ataque.
Os chineses ficaram particularmente preocupados porque o crescimento do comércio mundial é vital para a sua exportação, modelo econômico liderado pelo investimento. O presidente chinês, Xi Jinping foi vocal em uma chamada para uma maior comércio e investimento. "Devemos transformar o grupo G20 em uma equipe de ação, em vez de uma loja de conversa",disse ele.
Enquanto isso, o otimismo de que a recuperação adequada da economia mundial permanece. Gavyn Davies na FT recentemente afirmou que a sua agência de previsão Fulcrum vai encontrar um mundo econômico pick-upNo entanto, neste fim de semana, ele foi um pouco menos otimista"Em agosto, não recebi nenhuma confirmação de que uma recuperação cíclica está ganhando força. Mas nem houve um declínio significativo na atividade: o debate ainda está aberto ".
No início do ano, muitos economistas consideravam que a China e outras economias "emergentes" estavam indo para o sul e iria arrastar o resto do mundo para baixo com eles. Eu discordei no momento. O otimismo para a recuperação depois mudou para os EUA e mesmo da Europa.
No entanto, como nos movemos para a última parte de 2016, tornou-se claro que a economia dos EUA abrandou ainda mais e na Europa atingiu praticamente qualquer pick-up em tudo. Então agora o otimismo tem oscilado de volta para as principais economias emergentes. Como empresa de contabilidade Deloitte e economistas do Reino Unido colocaram hoje: "A tendência de queda para a atividade de mercados emergentes parece ter o seu curso. Crescimento é amplamente esperado para acelerar em 2017. Índia deve crescer 7,6% no próximo ano, a maior taxa de crescimento entre as grandes economias. Brasil e Rússia são susceptíveis de emergir da recessão. O crescimento chinês é esperado para aliviar, mas, em uma previsão de 6,2% em 2017, ainda seria muito maior do que as médias globais. Essencialmente, o risco de uma "aterragem dura" chinesa diminuiu. "
Então ele está de volta para o futuro com os chamados BRICs liderando o caminho para sair da depressão. Veremos.
Falando de volta para o futuro, uma das maiores chamadas políticas de economistas tem sido para os governos para lançar mais gastos de infra-estrutura (construção de estradas, ferroviárias, pontes, centrais elétricas, telecomunicações etc) para obter movimento nas economias. Até agora, esta tem sido amplamente ignorado pelos governos que tentam cortar os déficits orçamentais, com reduções nos gastos de investimento do governo, ou que enfrentam altos níveis de dívida pública.
A última chamada nesta frente veio dos economistas da empresa investimento australiano, Macquarie. Por que não colonizar Marte? "Não é tão louco quanto parece", escreveu Viktor Shvets e Chetan Seth do Macquarie equipe de ações globais."Um programa de colonização de Marte gigante criaria uma indústria vasta, de capital intensivo que abrangem todo o globo, criando empregos e resolvendo o problema de produtividade da economia global."  
Você vê, a economia mundial não está crescendo a uma taxa suficiente porque há "declínio dos retornos sobre o investimento". Então, o que precisamos fazer é começar um programa do governo enorme para colonizar Marte, semelhante ao programa espacial da década de 1960 sob Kennedy, que levou à aterragem na Lua.
NASA
Curiosamente, os economistas Macquarie não estão interessados ​​em um programa de investimento global para ajudar os mais pobres do mundo a desenvolver; para ajudar a resolver o desastre ambiental global ou para impulsionar a educação, saúde e infra-estrutura básica nos países mais pobres do planeta. Não, isso não é tão útil (rentáveis) como investir em outro planeta para obter retorno sobre o investimento se.
A solução Macquarie é a última palavra em matéria de política econômica keynesiana (abreviação de "guerra keynesiana'). É a ideia de que há uma abundância de capital disponível, mas apenas não "oportunidades de investimento" devido à falta de demanda. Assim, a guerra ou o espaço pode oferecer uma saída.
Os economistas Macquarie pensam que a enorme injeção de dinheiro e crédito em ativos financeiros, que tem impulsionado as taxas de juros para zero ou abaixo é o que criou baixos retornos. Mas baixos retornos sobre o capital, gerados pelo excesso de capital, é uma teoria marginalista neoclássica (que Keynes realizada a). É confuso capital "fictício" com o capital produtivo.
A visão marxista é diferente. Investimento produtivo não está ocorrendo por causa de 'muito capital e baixa demanda", mas por causa da pouca valia ou rentabilidade de capital produtivo. E baixa rentabilidade não será melhorada pelos gastos do governo em um programa espacial. Pelo contrário. Na década de 1960, o programa espacial era acessível por causa da alta (não baixo) a rentabilidade do sector capitalista. Então despesas improdutivas, que sem dúvida fez desenvolver novas tecnologias e emprego para muitos, era acessível. Isto é o oposto agora. Não há nenhuma maneira para fora através de Marte.

As 13 Maiores Economias Do Mundo Em 2016

Artigo De José Eustáquio Diniz Alves


As 13 maiores economias do mundo em 2016
O gráfico acima mostra as 13 maiores economias do mundo, em 2016, em dólar corrente, segundo dados do FMI. Nesta medida, os Estados Unidos (EUA) são a maior economia do mundo, com um valor superior a US$ 18 trilhões. A China vem em segundo lugar com pouco menos de US$ 12 trilhões. Em seguida aparecem Japão, Alemanha, Reino Unido e França, todos do G7, os sete maiores países capitalistas. A Índia aparece em sétimo lugar, refletindo o alto crescimento econômico indiano das duas últimas décadas. O Brasil aparece como a 9ª economia do mundo, muito longe da meta, apresentada pelo ex-ministro Guido Mantega, de ser a quarta ou quinta economia do mundo. O Canadá com uma população 6 vezes menor do que o Brasil tem um PIB quase do mesmo tamanho. A Coreia do Sul, também com uma população pequena (cerca de 50 milhões de habitantes) aparece em 11º lugar. E por fim, aparece Rússia e Indonésia.
Mas a medida do PIB em dólar corrente é muito influenciada pela taxa de câmbio e não reflete bem o padrão de vida de cada país. Uma outra medida, utilizada pelo FMI e que evita os efeitos das variações cambiais, é o dólar internacional em capacidade de poder de compra (ppp na sigla em inglês).
O gráfico abaixo mostra as 13 maiores economias do mundo em poder de paridade de compra (ppp). Diferentemente da medida anterior, a China aparece como a maior economia e os EUA vindo em segundo lugar. A Índia aparece como a terceira economia, vindo logo em seguida Japão e Alemanha. Em ppp, a Rússia aparece como a sexta economia e o Brasil como a sétima. A Indonésia, que tem a quarta maior população do mundo, aparece como a oitava economia global. Reino Unido, França e Itália, todas do G7, aparecem na nona, décima e décima-primeira posição, respectivamente. A Coreia do Sul fica em 12º e o Canadá em 13º lugar.
As 13 maiores economias do mundo em 2016
Os três países com maior população do mundo são também as 3 maiores economias (em ppp). A Indonésia, em quarto lugar no número de habitantes, tende a ganhar posição no ranking das maiores economias. Mas o Brasil, passando por uma grande recessão, não deve apresentar ganhos nos próximos anos. Em um próximo artigo veremos o ranking dos países considerando a renda per capita em dólares correntes e em poder de paridade de compra.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 08/09/2016

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Desemprego, Recessão E Redução Da Massa Salarial No Brasil

Artigo De José Eustáquio Diniz Alves

160905a

A crise econômica brasileira está longe de ser resolvida e o resultado negativo mais visível aparece no mercado de trabalho. O IBGE divulgou os resultados trimestrais de mar-jun-jul de 2016, da PNAD Contínua.
A população desocupada no trimestre móvel encerrado em julho de 2016 ficou em quase 12 milhões de trabalhadores (11,8 milhões de pessoas), número que cresceu 3,8% na comparação com o trimestre fevereiro-abril (11,4 milhões), um acréscimo absoluto de 436 mil pessoas. No confronto com igual trimestre do ano passado, o desemprego subiu 37,4%, significando um aumento de 3,2 milhões de pessoas desocupadas em um ano.
A taxa de desocupação ficou em 11,6% no trimestre móvel encerrado em julho de 2016, ficando 0,4% acima da observada no trimestre móvel que vai de fevereiro a abril (11,2%). Na comparação com o mesmo trimestre do ano anterior, quando a taxa de desocupação estava estimada em 8,6%, o quadro também foi de elevação (3% mais elevada).
Já a população ocupada (90,5 milhões) ficou estável quando comparada com o trimestre de fevereiro a abril de 2016. Em comparação com igual trimestre do ano passado, quando o total de ocupados era de 92,2 milhões de pessoas, o declínio foi de 1,8%, significando uma redução de 1,7 milhão na população ocupada. Como o Brasil tem mais de 206 milhões de habitantes, a percentagem de pessoas ocupadas está bem abaixo de 50%.
O número de empregados com carteira assinada (34,3 milhões) não apresentou grande variação em comparação com trimestre de fevereiro a abril de 2016. Contudo, frente ao trimestre de maio a julho de 2015, houve queda de 3,9%, uma perda de 1,4 milhão de pessoas com carteira assinada, significando uma redução da taxa de formalização do emprego, indo ao contrário do ideal indicado pela OIT na meta de pleno emprego e trabalho decente.
O aumento da desocupação e a falta de dinamismo do mercado de trabalho se reflete na queda do poder de compra. O rendimento médio real habitualmente recebido em todos os trabalhos (R$ 1.985) não se alterou frente ao trimestre de fevereiro a abril de 2016 (R$ 1.997), mas apresentou um declínio de 3,0% em relação ao mesmo trimestre do ano anterior (R$ 2.048).
Assim, a massa de rendimento real habitualmente recebida em todos os trabalhos no trimestre mai-jun-jul de 2016 ficou em R$ 175,3 bilhões, abaixo do valor de R$ 175,4 bilhões no trimestre mar-abr-mai de 2013. Ou seja, o montante de dinheiro na mão dos trabalhadores é hoje em dia menor do que aquele existente 3 anos atrás.
Em relação ao pico de 2014, quando a massa salarial atingiu R$ 186,2 bilhões a situação atual é que o Brasil tem um montante de 11 bilhões a menos por mês circulando na economia e seria urgente retomar o crescimento do emprego e a capacidade de geração de renda, para que a economia sai da recessão.
Os dados das Contas Nacionais do IBGE também mostram que o Brasil está em recessão desde o segundo trimestre de 2014 e vive atualmente a sua mais longa e profunda crise econômica. Isto mostra que o país está em uma fase submergente.

160905b

Tudo isto agrava o déficit público e faz crescer a dívida pública. O Brasil registrou um rombo de R$ 12,8 bilhões em julho de 2016 já que a União, estados, municípios e empresas estatais gastaram muito mais do que arrecadaram. Foi o pior resultado para o mês já visto desde quando o Banco Central passou a registrar os dados, em 2001. Nos sete primeiros meses do ano, o país está no vermelho em R$ 36,6 bilhões, também o maior déficit primário registrado no período. Por causa desse descontrole das finanças públicas, a dívida pública brasileira já está próxima de 70% do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos pelo país em um ano). Como o Banco Central decidiu manter, por unanimidade, os juros básicos em 14,25% ao ano, durante a nona vez que o Comitê de Política Monetária (Copom), o pagamento de juros vai agravar o endividamento e pode colocar o
Brasil no mesmo caminho da Grécia.

A queda da atividade econômica, o endividamento e perda do poder de compra dos trabalhadores acirra a crise social e agrava os problemas fiscais do governo. Não há como fazer política social sem uma base econômica sólida. Inclusão social não se faz no vácuo. No quadro atual, as perspectivas de uma retomada robusta ficam mais distantes e mais difíceis. O Brasil passa por um triste momento e, apesar da festa olímpica, há um sofrimento imenso da população.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 05/09/2016

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

A austeridade e a ascensão do populismo


por Frances Coppola


Este post foi fermentado por um longo tempo. Ele reflete a minha tentativa de fazer sentido da crescente confusão política e caos no mundo de hoje. O poema de William Butler Yeats A Segunda Vinda expressa bem o que eu vejo: 
As coisas se desfazem; o centro não pode segurar; 
Mera anarquia está solta no mundo, 
Solta a maré de sangue turva, afoga-se 
A cerimônia da inocência é afogada; 
Aos melhores falta toda convicção, enquanto os piores 
Estão cheios de intensidade apaixonada.
Mas como temos vindo a este passe - e para onde vamos? 

Pânico pós-crise 

No profunda recessão que atingiu o mundo ocidental após a crise financeira de 2008, a dívida pública construída à medida que sociedades financeiras e outros foram socorridos, as receitas fiscais caíram e o subsídio de desemprego aumentou. A dívida pública é geralmente citada em relação ao PIB: a recessão fez um enorme buraco no PIB de muitos países ocidentais, inflando a relação dívida/PIB. 

De repente, os países que tinham anteriormente paradigmas da retidão fiscal pareciam encontraram-se com o aumento da dívida pública/PIB e os déficits fiscais teimosamente elevados. Outros, mais frágeis antes da crise (embora não necessariamente pior gerenciados), precisaram da ajuda do FMI. As economias avançadas de repente pareciam pelo menos tão arriscadas como mercados emergentes. Os investidores levantaram voo, forçando os governos ocidentais a apoiar os preços dos ativos com medidas extraordinárias, como QE. 

Dentro deste caldeirão, alguém arremessou um trabalho de pesquisa pretendendo mostrar que a dívida pública/PIB acima de 90% é um desastre escrito. O trabalho acabou por ser fatalmente falho: mas essa informação não veio à luz até alguns anos mais tarde. 

Outros trabalhos de pesquisa foram adicionados à mistura tóxica. Entre eles, os modelos inteligentes de Alesina e Ardagna supostamente provaram que a consolidação fiscal pode restaurar o crescimento. A evidência empírica apresentada em apoio a esta alegação foi mostrado mais tarde a ser seriamente inadequado, baseando-se em dados imprecisos e omitindo fatores importantes. Mas em meio ao caos e ao pânico do mundo pós-crise, qualquer prescrição era melhor do que nenhuma. Pelo menos eles tinham um plano de tratamento. 

O ingrediente final foi a crise da dívida grega. Ela assustou o mundo. De repente, elevados déficits orçamentais e dívida foram coisas terríveis. Tivemos que levá-los sob controle. Isso significava cortes profundos nos gastos do governo, se necessário, incluindo aumento de impostos e corte de benefícios para os mais vulneráveis ​​na sociedade. Governo após governo no mundo desenvolvido, e especialmente na Europa, aceitaram este medicamento duro. Afinal de contas, foi-nos dito, Alesina e Ardagna tinham prometido, que iria-se restaurar o crescimento. 

Uma mudança de paradigma político 

Para ser justo, o próprio Alesina nunca reivindicou que houve forte evidência empírica para sua teoria, e não empurrou-a como uma solução para a crise pós-crise. O impulso parece ter sido político. Iyanatul Islam e Anis Chowdhury se perguntaram se a teoria involuntariamente deslocava-se a uma ideologia política de pequeno-Estado: 

Uma resposta plausível reside na ignorância coletiva e voluntária impulsionada por uma aversão ideológica à política fiscal contra-cíclica, porque intervenções fiscais são vistas como uma ampliação e avanço do Estado sobre o funcionamento do setor privado. Como Simon Wren-Lewis (2011) aponta, e, como Romer (2011) concorda, pode-se encontrar eminentes economistas se opondo à política fiscal contra-cíclica com base em tendências ideológicas, mesmo que tais economistas apoiem a ideia de usar a política monetária para estabilizar negócios cíclicos.
Mas a questão é, por que estava uma ideologia política de Pequeno-Estado de repente em ascensão? Não tinha sido, antes da crise. De alguma forma, a própria crise tinha mudado o paradigma político. 

É fácil ver como isso poderia acontecer. No rescaldo de uma crise monetária, as pessoas estão zangadas com aqueles que acreditam que a causou e com medo de perder o seu dinheiro e bens. Eles rejeitam o regime político existente em favor de um que promete segurança. Eles vão aceitar dureza no curto prazo se forem suficientemente convencidos de que isso acabará por trazer de volta a prosperidade. Liam Byrne declarou em nota que a entrada do chanceler do Reino Unido George Osborne capturou o clima político: "Eu tenho medo que não haja dinheiro", disse ele. 

"Não há dinheiro" é o enquadramento psicológico de ambos Reinhart & Rogoff do papel falso, e a teoria de Alesina e Ardagna. O modelo é um de escassez. Nenhum dinheiro está disponível, por isso temos de gerir sem. Apertar o cinto está em ordem. Juntos, esses dois artigos não só apoiam a ideologia do Pequeno-Estado do chanceler conservador do Reino Unido, mas justifica o aperto fiscal extremo na Zona Euro. O artigo de Reinhart e Rogoff cria a justificação para cortes e aumentos de impostos: Alesina e Ardagna prometem as "ensolaradas terras altas" necessárias para as pessoas aceitarem o medicamento duro. 

Mas a receita acabou por ser voodoo. Sete anos depois, a prosperidade não voltou: muitos países na Europa ainda estão atolados em austeridade, alguns estão profundamente deprimidos, a dívida pública é maior do que nunca e o desemprego ainda é dolorosamente elevado, insuficiência de medidas de austeridade para entregar a prosperidade prometida é tóxica: a raiva e o medo populares são os combustíveis da ascensão de políticos populistas. Rudi Dornbusch, em um trabalho maravilhoso sobre crises de dívida e populismo na América Latina, observou que as raízes da populismo na austeridade, geralmente impostas por um agente externo, como o FMI. As  medidas de austeridade do chanceler Brüning na Grande Depressão Alemã, destinadas a acabar com a crise da dívida da Alemanha e restaurar a confiança externa, levou à ascensão de Hitler. 

O ciclo de prodigalidade-austeridade 

Nós infinitamente vamos de um ciclo de prodigalidade à austeridade e de volta, A mudança de desregramento ("o dinheiro nunca vai acabar") com a austeridade ("não há  dinheiro") é desencadeada por uma crise monetária de algum tipo: a austeridade é imposta pela tecnocratas. E a mudança de austeridade para a prodigalidade é desencadeada por uma crise política alimentada pelo descontentamento popular: o esbanjamento é reintroduzido por políticos populistas. 

Em 2008, a crise monetária que provocou a mudança para a austeridade era o rebentamento abrupto de uma bolha de dívida, levando a salvamentos bancários impopulares e uma recessão profunda e prolongada. No início de 1970, foi o colapso do sistema de câmbio fixo de Bretton Woods. 

Após a queda de Bretton Woods, o aumento dos preços do petróleo e uma recessão global alimentou o aumento da inflação. No Reino Unido, os sucessivos governos impuseram cortes de gastos e aumentos de taxas de juros para tentar deter a queda da libra esterlina e obter a inflação sob controle. A resposta a isso foi agitação popular liderado pelos grandes sindicatos, com ataques contínuos causando mais prejuízos econômicos. O Reino Unido foi dependente do carvão para geração de eletricidade, fato explorado pelos sindicatos dos mineiros no seu pedido de grandes aumentos salariais: greves causaram cortes de energia danosos. Para a população do Reino Unido, a inflação que corroeu os pacotes de remuneração, a estagnação econômica e o aumento do desemprego causado miséria - e raiva crescente. 

Em 1976, Dennis Healey chamado no FMI: a condição para o empréstimo foi ainda mais contenção fiscal, embora o empréstimo não fosse totalmente desenhado. A consolidação orçamental contribuiu para o famoso "inverno do descontentamento", quando o país foi dividido por greve após greve em oposição a limitar os pagamentos do governo. 

Em 1979, o povo do Reino Unido tinha o suficiente. O partido conservador  lanços os famosos cartazes com fotos de filas de desempregados e o slogan "Trabalhismo não está funcionando" tocou um nervo. A marca da política populista de Margaret Thatcher assegurou que o partido conservador vencesse a eleição de 1979 - e manteve o Trabalhismo fora do poder até 1997. 

A política populista funciona direcionando a ira popular no sentido de um "inimigo", que pode ser responsabilizado por problemas das pessoas. O inimigo deve ser capaz de capturar a imaginação do público, de modo geral, é um grupo definido de pessoas que podem ser escalados para o papel de bode expiatório. Culpar o "outro" é uma maneira poderosa de criar um senso de propósito comum. Muitas vezes, o "inimigo" é externo: há inúmeros exemplos ao longo da história de políticos populistas que distraem a atenção dos problemas domésticos, iniciando uma guerra. No caso de Thatcher, no entanto, o inimigo era interno, pelo menos para começar. Ela foi eleita em um mandato para quebrar o poder dos sindicatos - e, em particular, o poder dos sindicatos dos mineiros. 

O governo de Thatcher é amplamente lembrado pelas medidas anti-inflação duras, recessão profunda e muito elevado desemprego no início de 1980. Mas as pessoas vão aceitar a austeridade, a curto prazo, sob a promessa de que ela vai trazer prosperidade. O truque é entregar a prosperidade - e isso significa libertinagem, mas voltado para aqueles que apoiam o regime populista. E para garantir que o regime não seja culpado pela austeridade anterior, o "outro" deve ser quebrado. 

Assim, os sindicatos foram derrotados pelo policiamento de mão pesada na sequência de legislação anti-sindical extensa. Quebrar os sindicatos também envolvidos no desmantelamento da indústria do carvão do Reino Unido e grande parte de sua indústria pesada: as áreas mais dependentes dessas indústrias nunca se recuperaram. Thatcher é odiada até hoje nas antigas áreas industriais da Midlands, no Norte e South Wales. Mas não devemos esquecer que, em outras áreas, especialmente no Sudeste e Londres, ela foi imensamente popular. Os políticos populistas são divisores. 

A destruição da política industrial de Thatcher foi acoplado com o retorno de prodigalidade. O esquema do direito de comprar habitação social foi extraordinariamente caro. Assim também foi a Guerra das Malvinas. Como as taxas de juros caíram, a economia do Reino Unido tem um grande impulso fiscal - e o resultado foi o "Lawson Boom", que finalmente terminou no acidente de propriedade de 1990. Prosperidade para "nós", a destruição para "eles" .... que é o objetivo do populismo. 

Desde a crise financeira, os "banqueiros" têm sido o "outro" na mente popular - mas tem "parasitas e preguiçosos", que são vistos como tirando dinheiro muito necessário a partir de "povo trabalhador". Em uma entrevista para o Guardian, o ex-vice-primeiro-ministro Nick Clegg disse que George Osborne deliberadamente tem como um alvo os pobres e vulneráveis ​​para cortes, porque isso seria popular com eleitores conservadores. Este é o populismo no seu pior. E como Thatcher antes dele, Osborne combina dureza para com o "outro" com generosidade para com apoiantes, especialmente o velho e o bem-off. A recuperação do Reino Unido nos últimos anos tem sido impulsionada principalmente pelo apoio perdulário do mercado imobiliário. 

Um novo paradigma político 

A Grécia foi o arquétipo para o pós-crise no paradigma "não há dinheiro". Esse paradigma ainda se mantém - mas está começando a fratura. Um novo paradigma, mais escuro está começando a emergir. O novo paradigma é o nacionalismo ("retomar o controle"). E o arquétipo para o novo paradigma será o meu próprio país, o Reino Unido. Eu nunca, nunca pensei que isso poderia acontecer aqui ..... 

A mudança de paradigma populista começou com o referendo da UE. Desta vez, o inimigo era externo. A UE foi difamada como o "outro" por ativistas a favor da saída. Deixar a UE, todos os seus problemas serão mais .... Esta é uma falsa promessa, é claro. Deixando a UE é susceptível de causar pelo menos tantos problemas quanto os que resolve. Temo por aqueles que prometeram prosperidade pelos vendedores de óleo de cobra. Vai ser um longo tempo antes de vê-lo - e, como muitos são antigos, eles nunca poderão vê-lo em tudo. 

Mas não é a rejeição da UE que me horroriza: muitas pessoas votaram em Brexit por boas razões. Não, é o surgimento de uma tendência ao pequeno", a mentalidade da Grã-Bretanha para os britânicos", juntamente com o discurso do ódio e até mesmo ataques físicos a minorias étnicas e religiosas que são vistos como "estranhos". Se Brexit não entregar as fronteiras fechadas e a supressão de imigrantes que essas pessoas querem, o que eles vão fazer? 

Vimos o lado obscuro do nacionalismo antes, é claro, embora tenha sido escondido sob uma rocha por um longo tempo. As opiniões racistas não são amplamente aceitas, mas não há muito tóxico "outros" ao longo das linhas de "Eu não sou racista, mas eu odeio muçulmanos/ Poloneses/ lituanos/ sírios/ imigrantes [escolher como muitos como você gosta]". Alguns grupos são demonizados: refugiados, por exemplo, que são frequentemente descritos como estupradores e assassinos, apesar da falta de qualquer evidência convincente. 

A criação de grupos de "outros" que podem ser demonizados é a essência do nacionalismo tóxico. Para seu crédito, o atual governo do Reino Unido está a tentar carimbar sobre esse comportamento desagradável. Mas eles estão tentando conter a maré. Penso que esta é a manifestação da quebra de um ciclo político e econômico a longo prazo - a liberação de raiva e frustração reprimida construída ao longo de décadas. E não será limitada ao Reino Unido. forças nacionalistas estão a aumentar em todo o mundo. 

A "idade de ouro" da globalização 

A geração de políticos populistas de Thatcher descartou o grande Estado, modelo "keynesiano", que tinha dominado desde a Segunda Guerra Mundial. Eles substituíram inicialmente com a austeridade (para quebrar o poder dos sindicatos e derrotar a inflação). Mas em qualquer democracia, a austeridade é de curta duração, a menos que se possa encontrar uma maneira de convencer os seus apoiantes, quer que eles não estão realmente sofrendo (de modo a proteger as pessoas que vão votar em você) ou que os bons tempos voltarão "a qualquer momento". A geração de Thatcher - ou talvez mais corretamente, a geração de Reagan, uma vez que esta vem do pensamento econômico dos EUA - prometeu que a globalização traria prosperidade para todos. Poderíamos dizer que eles substituíram um modelo de "Estado grande", com um "Grande Mundo". O livre comércio, a livre circulação de pessoas, livre circulação de capitais; estes foram os pilares sobre os quais a nova Idade de Ouro seria construída. 

E de ouro que era, para muitos. Branko Milanovic mostrou como, juntamente com o top 1% que sempre se beneficia de tudo, a classe média asiática em ascensão se beneficiaram da globalização. As últimas três décadas têm visto mais pessoas retiradas da pobreza do que nunca. 

Mas as classes médias ocidentais não viram nenhum benefício. Para eles, a globalização trouxe estagnação e declínio, como os seus postos de trabalho foram perdidos e seus salários caíram para a média global. Sua prosperidade acabou por ser uma ilusão, construída sobre uma bolha de dívida insubstancial. A promessa feita a eles nos anos Reagan foi exposta como uma mentira. E eles estão com raiva. A globalização falhou - agora é hora de "retomar o controle". 

Tal como acontece com todas as mudanças de paradigma de ciclo longo, poucos viram isso acontecer. Somos criaturas de vida curta, e nós vemos apenas a nossa própria pequena parte da teia de tempo. E assim como na mudança de paradigma da década de 1980 as teorias econômicas do passado foram descartadas em favor de algo novo e inexperiente, então agora a economia mainstream dos últimos 30 anos está sob ataque, e não apenas daqueles que querem reformá-lo, mas também daqueles que querem rejeitá-la inteiramente. "Eu acho que as pessoas deste país estão fartos de especialistas", disse Michael Gove. 

Rejeitando "especialistas" já existentes é uma característica de políticos populistas. Mas ao contrário de 1980, quando os políticos populistas podia reivindicar a obra de Milton Friedman e Friedrich Hayek como uma alternativa para Keynes, desta vez não há nada para substituí-los. Poucos economistas, geral ou heterodoxos, apoiariam o retorno de capital geral e controles de câmbio, tarifas e barreiras não-tarifárias ao comércio e restrições significativas sobre a circulação de pessoas, e muito menos as versões injustamente enviesadas destes que os novos nacionalistas parecem querer ("nós esperamos exportar para você tarifa livre, mas vamos impor tarifas sobre as importações de você", "nós podemos viver e trabalhar no seu país mas não se pode viver e trabalhar no nosso": "quando nós desvalorizar a nossa moeda que é política monetária, mas se você fizer o mesmo você é um manipulador da moeda corrente "). Assim, embora, após seis anos de dolorosa busca da alma, mainstream e economistas heterodoxos agora parecem estar cantando da mesma folha do hino em muitos aspectos, as pessoas já não estão ouvindo. Os políticos populistas ridicularizam "especialistas", e prosseguem políticas divisionistas destinadas a atrair grupos de eleitores protegidos. 

A terrível lição da história 

Historicamente, o nacionalismo ressurgente sempre levou à guerra. Eu não vejo nenhuma razão para que este tempo deva ser diferente. Nós assustados se estabeleceu no final da Segunda Guerra Mundial: a memória de Hiroshima tem mantido o mundo em uma paz inquieta (embora com inúmeras violações locais) desde então. Mas como a memória desaparece, e as antigas lealdades tribais reafirmam-se, o mundo entra em uma fase nova e perigosa. 

Há uma linha fina entre o nacionalismo e o imperialismo, e em algum momento, alguém vai cruzar essa linha. Eu não sei quem, ou onde, o que será. Mas quando o fazem, não haverá guerra. 

domingo, 4 de setembro de 2016

E agora, Brasil?

por Carlos Fino

Foto: Facebook
A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, Brasil?
A célebre auto-reflexão de Drummond em forma de poema talvez se aplique hoje, mais do que nunca, ao próprio país.
Terminado o processo de impeachment, que manteve este Estado-continente no limbo durante nove meses, ao longo dos quais tudo se agravou, o Brasil vive agora uma espécie de stress pós-traumático, em que se mesclam as paixões políticas de cada um dos lados em confronto.
`A direita, respira-se de alívio, esperando que seja finalmente possível “virar a página” e começar a enfrentar os graves problemas deixados pelo executivo de Dilma Rousseff – inflação acima da meta, juros estratosféricos, desemprego em alta...
Esse é o sentimento dos opositores do PT de sempre - as forças conservadoras e neoliberais, agora, de novo, no poder - e também de muitos daqueles que, embora mais ao centro, começaram por apoiar Lula e depois se desiludiram com o aparelhamento do Estado e sobretudo com os escândalos de corrupção.
Para a grande maioria dessa vertente política, o petismo, mesmo na sua versão mais soft e em aliança espúria com parte da direita, sempre foi um estranho no ninho e por isso, o seu afastamento do governo ao cabo de 13 anos, significa pura e simplesmente um regresso `a normalidade, ao business as usual.
`A esquerda, pelo contrário, e enquanto não chegam as avaliações autocríticas, há um gosto amargo a traição, misturado com um sentimento de injustiça pelo afastamento da primeira mulher a chegar `a chefia do Estado por parte de um Congresso que, embora invocando para a afastar os mais nobres princípios e a defesa do mais estrito rigor financeiro, está ele próprio – com pelo menos um terço dos seus membros implicados em processos - longe de ser um exemplo de acerto e probidade.
O centro, como sempre divide-se, embora esteja hoje majoritariamente com a direita.
Se a sala de espera do meu dentista, aqui em Brasília, é em alguma medida representativa do estado da opinião pública, o diálogo a que aí assistimos há dias é bem significativo.
`A exceção de mim próprio e de uma senhora que permaneceu em silêncio do princípio ao fim, todos se pronunciavam contra o PT, considerando que nunca tinha havido tanto roubo e desgoverno... Uma ideia que vem dos comentadores da direita, não está necessariamente comprovada, mas fez o seu caminho, acabando por transformar-se em lugar comum genericamente aceite. O sentimento palpável dos comentários era de verdadeiro ódio político.

CLASSES ME´DIAS VOLTAM COSTAS AO PT
Na sequência do mensalão, em 2005, ainda no primeiro governo Lula, e enfrentando sempre uma imprensa hostil, o PT foi progressivamente perdendo o apoio das classes médias, que tinha sido decisivo para a sua chegada ao poder. O petismo – recorde-se - nasceu com as grandes greves do proletariado de São Paulo, nos anos 80, mas só o apoio dos setores mais progressistas da Igreja Católica e a defesa intransigente de princípios morais, a par da aceitação das regras de mercado – expressa na célebre Carta aos Brasileiros, lhe conferiram legitimidade para governar.
Com o tempo e o envolvimento em escândalos, o PT foi perdendo cada vez mais essa legitimidade moral inicial. E o desencanto trouxe para as ruas, já em 2013, uma grande parcela das classes médias, sobretudo das camadas mais jovens, insatisfeitas com o atraso do país – apesar dos avanços sociais da era petista - e sobretudo indignados com a corrupção.
Foi esse mesmo sentimento de desencanto que se avolumou em 2015, permitindo aos sectores mais conservadores, agora com o apoio de um partido de centro-esquerda como o PSDB, que expressa os interesses e a psicologia de boa parte das classes médias, mobilizarem em seu favor algumas das mais expressivas manifestações de rua jamais realizadas no Brasil. A partir daí, o governo de Dilma nunca mais recuperou.

AMARGA IRONIA
Mas se a indignação contra a corrupção foi a razão maior que afastou muita gente do PT, todas essas pessoas não podem agora deixar de se interrogar se o resultado obtido era de fato aquilo que queriam.
Afinal, a ascensão de Michel Temer `a presidência traz para a chefia do Estado um partido – o PMDB – que há muito tempo é considerado “uma das forças mais fisiológicas da política brasileira”. Agrupamento de caciques e interesses locais diversos, o PMDM não tem propriamente ideologia, limitando-se a conservar e negociar posições no aparelho de Estado ao sabor das conveniências.
O afastamento de Dilma, mais do que uma viragem decisiva para abrir caminhos de futuro, parece assim ter sido o resultado de uma convergência momentânea de forças heterogéneas cuja consistência ainda está por provar.
Nessa convergência há um pouco de tudo – desde o velho e fisiológico PMDB, aos liberais, passando pelo centrista PSDB, todos fazendo os seus cálculos com os olhos postos nas eleições de 2018. Como nas intrigas florentinas, em cada manga pode haver um punhal... ou, mais modernamente, um gravador...
Conseguirá Temer superar estas contradições? O PT promete oposição dura. Mas, mais do que o PT, desmoralizado e em crise, com o próprio Lula ameaçado pela Lava Jato, as principais dificuldades para o novo presidente podem vir da sua própria base política.
Terá ele a capacidade de diálogo e o jogo de cintura que Dilma não teve? Como garantir, nestas condições, que haverá espaço para as reformas que se impõem, a começar pela reforma da Previdência e a terminar na reforma política?
A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, Brasil?