"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 17 de setembro de 2016

Será o fim do fenômeno Trump?

Sete em cada dez norte-americanos não se sentiriam “orgulhosos” em tê-lo como presidente, e somente 43% o consideram “qualificado”. 

Artigo de Ignácio Ramonet.

Foto do site Carta Maior
Segundo as pesquisas, embora faltem dois meses para as eleições presidenciais de 8 de novembro, as coisas parecem já estar claras no que diz respeito ao resultado: a candidata do Partido Democrata Hillary Clinton seria eleita, vencendo também uma chuva de preconceitos e ataques machistas, e tornar-se-ia, assim, a primeira mulher a governar os destinos da principal potência mundial do nosso tempo.
A pergunta é: o que aconteceu com o candidato do Partido Republicano, o tão “irresistível” e midiático Donald Trump?
Por que é que, de repente, o magnata desabou nas pesquisas? Sete de cada dez norte-americanos não se sentiriam “orgulhosos” em tê-lo como presidente, e somente 43% o consideram “qualificado” para se sentar na mesa do Salão Oval – enquanto 65% acha que Clinton sim é qualificada.
Vale recordar que as eleições presidenciais nos Estados Unidos não são nacionais, nem diretas. Trata-se de um conjunto de cinquenta eleições locais, uma por Estado, que determinam um número pré estabelecido de 538 grandes eleitores, e são eles, na verdade, os que escolhem o chefe(a) do Estado. Portanto, as pesquisas de âmbito nacional têm apenas um valor indicativo, e relativo.
Em meados de agosto, diante de pesquisas tão negativas, o candidato republicano remodelou a sua equipe de trabalho, e nomeou um novo chefe de campanha, Steve Bannon, diretor do ultraconservador Breitbart News Network. Também modificou seu discurso direcionados a dois grupos de eleitores decisivos, os afro-americanos e os latinos.
Será suficiente para Trump inverter a tendência e impor-se na reta final da campanha? Não se pode descartar. Porque este personagem atípico, com suas propostas grotescas e as suas ideias sensacionalistas, tem superado até agora todos os prognósticos. Venceu os pesos pesados republicanos, como Jeb Bush, Marco Rubio e Ted Cruz, que contavam com o apoio firme do establishment do partido. Eram poucos os que apostavam nele nas primárias, mas mesmo assim, ele carbonizou os seus adversários, reduziu-os a cinzas.
Para entender o fenómeno, é importante considerar que desde a crise financeira de 2008 – de que ainda não saímos – nada mais é como era antes, em lugar nenhum do mundo.
Os cidadãos estão profundamente desencantados. A própria democracia, como modelo, vem perdendo credibilidade. Os sistemas políticos foram sacudidos até as raízes. Na Europa, por exemplo, estão a multiplicar-se os terramotos eleitorais – entre eles, o brexit. Os grandes partidos tradicionais estão em crise. E em todas as partes percebemos o avanço das alianças de extrema direita (França, Áustria e países nórdicos) ou de partidos antissistema e anticorrupção (Itália e Espanha). A paisagem política foi radicalmente transformada.
"Sismo político"
Esse fenómeno chegou também aos Estados Unidos, um país que já conheceu, em 2010, uma onda populista devastadora, então encarnada pelo Tea Party. A ascensão do multimilionário Donald Trump na corrida à Casa Branca é como um prolongamento daquele fenómeno, e constitui uma revolução eleitoral que nenhum analista soube prever. Embora persista, aparentemente, a velha dicotomia entre democratas e republicanos, a ascensão de um candidato tão heterodoxo como Trump sugere um verdadeiro sismo político. O seu estilo direto, o seu discurso maniqueísta e reducionista, apelando ao populismo e aos instintos básicos de certos setores da sociedade, muito diferente do tom habitual dos políticos norte-americanos, conferiu-lhe um caráter de autenticidade aos olhos do setor mais decepcionado do eleitorado da direita. Para muitos eleitores irritados pelo “politicamente correto”, que acreditam que já não se pode dizer o que se pensa, sob pena de ser acusado de racista, a “palavra livre” de Trump sobre os latinos, os imigrantes ou os muçulmanos é entendida como um autêntico alívio.
O candidato republicano tem sabido interpretar o que poderíamos chamar de “rebelião das bases”. Melhor que ninguém, ele percebeu a fratura cada vez mais ampla entre as elites políticas, económicas, intelectuais e mediáticas, por um lado, e a base do eleitorado conservador, por outro. O seu violento discurso anti-Washington e anti-Wall Street seduziu particularmente os eleitores brancos, pouco cultos e empobrecidos pelos efeitos da globalização económica.
Precisemos também que o discurso de Trump não é semelhante ao de um partido neofascista europeu. Não é um ultradireitista convencional. Ele mesmo se define-se como um “conservador com bom senso” e a sua posição, no leque da política, situar-se-ia mais exatamente na direita da direita.
Empresário multimilionário e superestrela da tele realidade, Trump não é um antissistema, e obviamente, tão pouco é um revolucionário. Ele não censura o modelo político em si, mas sim os políticos que o estão pilotando. O seu discurso é emocional e espontâneo. Apela aos instintos, às tripas, não ao cérebro ou à razão. Fala para essa parte do povo norte-americano entre a qual vem crescendo o desânimo e a insatisfação. Dirige-se aos que estão cansados da velha política, da “casta”. E promete injetar honestidade no sistema, renovar nomes, rostos e atitudes.
Os meios de comunicação vem dando grande repercussão a algumas de suas declarações e propostas mais odiosas e surrealistas. Recordemos, por exemplo, a sua afirmação de que todos os imigrantes ilegais mexicanos são “corruptos, delinquentes e estupradores”. Ou o seu projeto de expulsar 11 milhões de imigrantes ilegais latinos, colocando-os em autocarros e levando-os de volta ao México. Ou a sua promessa inspirada na série Game of Thrones, de construir um muro fronteiriço de 3 mil quilómetros no sul do país, passando por vales, montanhas e desertos, para impedir a entrada de imigrantes latino-americanos, cujo orçamento seria de 21 mil milhões de dólares – os quais seriam financiados pelo governo do México. Nesse mesmo estilo, também anunciou que proibiria a entrada do todos os imigrantes muçulmanos, e criticou com veemência os pais de um militar norte-americano de fé muçulmana, Humayun Khan, morto em combate em 2004, no Iraque.
Catálogo de disparates
Também fazem parte do seu show afirmações sobre o matrimónio tradicional, formado por um homem e uma mulher – segundo ele, “a base de uma sociedade livre” –, junto com uma crítica à decisão do Tribunal Supremo de considerar que o matrimónio entre pessoas do mesmo sexo é um direito constitucional. Trump apoia as chamadas “leis de liberdade religiosa”, impulsionadas pelos conservadores em vários Estados, para justificar os que se negam a prestar serviços a pessoas LGTB. E não nos esqueçamos de suas declarações sobre o aquecimento global, que Trump considera uma “farsa”, um conceito “criado por e para os chineses, para fazer com que o setor de manufaturas norte-americano perda competitividade”.
Este catálogo de horripilantes e detestáveis disparates têm sido massivamente difundidos pelos meios dominantes, não só nos Estados Unidos como no resto do mundo. E a principal pergunta que muita gente se faz é: como é possível que um personagem com tão lamentáveis ideias consiga uma audiência tão considerável entre os eleitores norte-americanos – que, obviamente, não podem estar todos lobotomizados? Alguma coisa está fora da ordem.
Para responder a esta pergunta, é preciso discernir conceitos em relação à muralha informativa, e analisar mais de perto o programa completo do candidato republicano, para descobrir os sete pontos fundamentais que ele defende, silenciados pelos grandes meios.
1) Os jornalistas não lhe perdoam, em primeiro lugar, os seus ataques frontais ao poder mediático. Criticam o fato dele estimular constantemente o público nos seus comícios a vaiar os repórteres ou a chamar os meios de comunicação social de “desonestos”. Trump costuma afirmar: “não estou competindo contra Hillary Clinton, estou competindo contra os corruptos meios de comunicação”. Num mensagem recente por twitter, ele escreveu: “se os repugnantes e corruptos meios de comunicação me cobrissem de forma honesta, e não injetassem significados falsos às palavras que digo, eu estaria vencendo a Hillary por uns 20% de vantagem”.
Por considerar a cobertura mediática injusta ou parcializada, o candidato republicano não duvidou em retirar as credenciais de imprensa de vários meios importantes que cobriam a sua campanha, entre eles o Washington Post, o Huffington Post e o BuzzFeed. Inclusive atreveu-se a atacar a Fox News, a grande cadeia de televisão caracterizada por seu direitismo panfletário, apesar dela o apoiar claramente como candidato favorito…
2) Outra razão pela qual os grandes meios atacam Trump é porque ele denuncia a globalização económica, convencido de que ela está a acabar com a classe média. Segundo ele, a economia globalizada está falhar cada vez nos benefícios às pessoas, e lembra que, nos últimos quinze anos, nos Estados Unidos, mais de 60 mil fábricas tiveram que fechar, e quase cinco milhões de empregos industriais bem pagos desapareceram.
3) Trump é um fervoroso defensor do protecionismo. A sua proposta visa aumentar as taxas sobre todos os produtos importados. “Vamos recuperar o controle do país, faremos com que os Estados Unidos voltem a ser um grande país”, costuma afirmar, retomando o seu slogan de campanha.
Partidário do brexit, Donald Trump revelou que se for presidente tentará retirar os Estados Unidos do Tratado de Livre Comércio de América do Norte (NAFTA, na sigla em inglês). Também criticou as propostas de Acordo Transpacífico (TPP, na sigla em inglês), assegurando que também retirará o país do projeto assim que chegar à Casa Branca: “o TPP seria um golpe mortal para a indústria de manufaturas dos Estados Unidos”.
Em regiões como a do “cinturão do óxido”, no nordeste do país, onde o encerramento das fábricas de manufaturas tem provocado altos níveis de desemprego e pobreza, esta promessa de Trump tem tido grande efeito.
4) Também está a causar grande resistência, pelo menos no discurso, os cortes neoliberais em matéria de segurança social. Muitos eleitores republicanos, vítimas da crise económica de 2008, ou maiores de 65 anos, necessitam do benefício da segurança social e do seguro de saúde desenvolvido pelo presidente Barack Obama, e que outros líderes republicanos desejam suprimir.
Trump prometeu não tocar nestes avanços sociais, baixar o preço dos medicamentos, ajudar a resolver os problemas dos “sem abrigo”, reformar a dinâmica tributária, especialmente no que diz respeito à fiscalização dos pequenos contribuintes, e acabar com o imposto federal que afeta 73 milhões de lares modestos.
5) Contra a arrogância de Wall Street, Trump propõe aumentar significativamente os impostos dos corretores das bolsas, que ganham fortunas, e apoia o restabelecimento da Ley Glass-Steagall, a mesma que foi aprovada em 1933, em plena Grande Depressão, e que separou a banca tradicional da banca de investimentos, com o objetivo de evitar que a primeira pudesse fazer investimento de alto risco. Obviamente, todo o setor financeiro se opõe absolutamente ao restabelecimento desta medida.
6) Em termos de política internacional, Trump quer estabelecer uma aliança estratégica com a Rússia, para combater com eficácia o Estado Islâmico, mesmo que, para isso, Washington tenha que reconhecer a anexação da Crimeia por Moscou.
7) Também declarou, na direção contrária em relação a muitos líderes do seu partido, estar de acordo com o restabelecimento das relações entre Estados Unidos e Cuba.
Todas estas propostas não invalidam as inaceitáveis e odiosas declarações do candidato republicano, difundidas com pompa e circunstância pelos grandes meios dominantes. Mas sim explicam melhor o porquê do seu sucesso entre amplos setores do eleitorado norte-americano.
Artigo de Ignacio Ramonet, para o Le Monde Diplomatique

Nietzsche sobre o Estado

Assim Falou Zaratustra

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Do Novo Ídolo


Nalguns lugares ainda há povos e rebanhos, mas não entre nós, meus irmãos: entre nós há Estados.

Estados? O que é isso? Vamos! Apurai os ouvidos, porque agora vou falar-vos da morte dos povos.

Estado é o nome do mais frio de todos os monstros gelados. Aliás, ele mente de uma maneira fria e a mentira que sai da sua boca é esta: “Eu o Estado sou o Povo.”

Mentira! Eram criadores aqueles que criaram os povos e por cima deles suspenderam uma fé e um amor: deste modo serviam a vida.

São destruidores aqueles que armam ciladas à multidão e chamam a isso Estado: suspenderam por cima deles uma espada e cem cobiças.

No lugar onde ainda existe um povo, este não tolera o Estado e odeia-o como um mau-olhado, como um pecado contra os costumes e o direito.

Dou-vos este sinal: cada povo fala a sua língua acerca do bem e do mal: o vizinho não a compreende. Inventou a sua linguagem nos costumes e no direito.

Mas o Estado mente em todas as línguas acerca do bem e do mal; tudo o que ele diga é mentira - tudo o que ele tenha é roubo.

Nele tudo é falso: morde com dentes roubados, o cão malvado. Até as suas entranhas são falsas.

Confusão das línguas do bem e do mal: dou-vos este sinal como sinal do estado. Na verdade, este sinal quer dizer vontade de morte! Na verdade, ele chama os pregadores da morte!

Demasiados homens vêm ao mundo: o Estado foi inventado para os supérfluos!

Vede, pois, como os atrai, àqueles que estão a mais! Como ele os engole, os mastiga e os rumina!

Nada há maior do que eu sobre a terra: sou o dedo soberano de Deus - assim ruge o monstro. E não são unicamente os de grandes orelhas e de vista curta que se põem de joelhos!

Oh! Também a vós, almas grandes, ele murmura sombrias mentiras! Oh! Como ele adivinha os corações ricos que gostam de fazer prodigalidades!

Até mesmo a vós vos adivinha vencedores do velho deus! O combate fatigou-vos e agora essa fadiga serve para o novo ídolo!

Esse novo ídolo desejaria rodear-se de heróis e de homens honrados! Gostava de se aquecer ao sol da boa consciência- o frio monstro!

O novo ídolo dar-vos-á tudo se vós o adorais: é desse modo que compra o brilho da vossa virtude e o vosso olhar altivo.

Através de vós quer atrair aqueles que estão a mais! Trata-se da invenção duma marcha infernal, dum cavalo de batalha da morte tilintando sob os arreios das honras divinas!

De facto, é a invenção duma morte para a maioria, duma morte que se vangloria a si própria de ser a vida: na realidade, um serviço prestado a todos os pregadores da morte!

Dou o nome de Estado ao lugar em que todos, bons e maus, gostam de veneno: Estado, o lugar em que todos, bons e maus, se perdem a si mesmos; Estado, o lugar em que o lento suicídio de todos se chama “a vida”.

Vede, pois, esses que estão a mais! Apropriam-se das obras dos inventores e dos tesouros dos sábios. Chamam ao seu roubo cultura e tudo para eles se torna em doença e males.

Vede, pois, esses que estão a mais! Estão sempre doentes, vomitam a sua bílis, e a isso chamam jornal. Devoram-se uns aos outros e nem sequer se podem digerir.

Vede, pois, esses que estão a mais! Adquirem riquezas e só conseguem tornar-se mais pobres. Esses impotentes querem o poder e, antes de tudo o resto, a alavanca do poder, ou seja, muito dinheiro!

Vede-os trepar ágeis macacos! Sobem uns por cima dos outros e empurram-se para a lama e para o abismo.

Querem aproximar-se todos do trono: é essa a sua loucura- como se a felicidade estivesse no trono! Muitas vezes é a lama que está no trono ou então é o trono que assenta na lama. Aos meus olhos, são todos loucos, macacos trepadores e pessoas febris. O monstro frio, o seu ídolo, cheira mal: todos esses idólatras cheiram mal.

Quereis sufocar no meio das exalações das suas gargantas e dos seus apetites, meus irmãos? Mais vale quebrardes as janelas e saltardes para fora.

Evitai o mau cheiro! Afastai-vos da idolatria dos supérfluos!

Evitai o mau cheiro! Afastai-vos do fumo desses sacrifícios humanos!

Apesar de tudo, a terra agora ainda está livre para as grandes almas. Há ainda muitos lugares vazios para aqueles que estão sozinhos ou que têm a sua solidão a dois, lugares onde sopra o odor dos mares silenciosos.

Há ainda uma vida livre para as grandes almas. Na verdade, quem pouco possui também é pouco possuído: abençoada seja a pequena pobreza!

Precisamente onde termina o Estado começa o homem que não é supérfluo: aí começa o cântico dos que são necessários, a melodia única e incomparável.

Olhai bem, portanto, meus irmãos, para onde termina o Estado! Não vedes o arco-íris e a ponte do Super-Homem?

Assim falava Zaratustra.


“Assim Falou Zaratustra” Cap. “Do Novo Ídolo”

Estagnação secular, ou é pior?

por Immanuel Wallerstein

Os economistas do mundo estão lutando com algo que eles têm encontrado difícil de explicar. Por que é que os preços do mercado de ações continuaram a subir, apesar do fato de que algo chamado de crescimento parece estar estagnado? Na teoria econômica mainstream, não se supõe que funcione dessa forma. Se não há crescimento, os preços de mercado devem diminuir, estimulando assim o crescimento. E quando o crescimento se recuperar, então os preços de mercado sobem novamente.

Aqueles que são fiéis a esta teoria dizem que a anomalia é uma aberração momentânea. Alguns até mesmo negam que seja verdade. Mas há outros que consideram a anomalia a ser um importante desafio para a teoria mainstream. Eles procuram rever a teorização de levar em conta o que muitos estão chamando agora "estagnação secular." Os críticos incluem várias pessoas de destaque, alguns deles laureados com o Prêmio Nobel. Eles incluem pensadores diferentes como Amartya Sen, Joseph Stiglitz, Paul Krugman, e Stephen Roach.

Embora cada uma dessas personalidades tenham uma linha diferente de argumento, eles compartilham algumas crenças. Todos acreditam que o que os Estados fazem tem um grande impacto sobre o que acontece. Todos acreditam que a situação atual não é saudável para a economia como um todo e tem contribuído para um aumento significativo na polarização da renda real. Todos acreditam que eles deveriam tentar mobilizar a opinião pública para exercer pressão sobre as autoridades governamentais a agir de maneiras específicas. E todos eles acreditam que, mesmo que a atual situação insalubre e anômala pode durar por algum tempo ainda, não existem políticas estatais apropriadas para viabilizar uma economia menos polarizada e insalubre.

Em suma, e este é o meu ponto principal aqui, nenhum dos críticos estão prontos para ir mais longe e aceitar o argumento de que o sistema capitalista como tal, entrou numa fase de declínio inevitável. Isso significa que não existe qualquer política governamental que irá restaurar o funcionamento do capitalismo como um sistema viável.

Não há muito tempo, a estagnação secular era um termo usado por muitos analistas, principalmente para descrever o estado da economia japonesa no início dos anos 1990. Mas, desde 2008, o uso do conceito foi aplicado a diversas áreas - membros da Zona Euro como a Grécia, Itália e Irlanda; países ricos em petróleo como a Rússia, Venezuela e Brasil; Recentemente, os Estados Unidos também; e, potencialmente, tais anteriormente fortes agentes econômicos como a China e a Alemanha.

Um dos problemas para aqueles que procuram compreender o que tem acontecido é que diferentes analistas usam diferentes áreas geográficas e diferentes calendários. Alguns estão falando da situação por Estados, e alguns estão tentando avaliar a situação na economia-mundo como um todo. Alguns veem o começo da estagnação secular em 2008, outros na década de 1990, outros ainda a partir de final dos anos 1960, e alguns como de ainda mais cedo.

Deixe-me propor uma vez mais, uma outra maneira de ver a estagnação secular. A economia-mundo capitalista tem existido em partes do mundo desde o século XVI. Eu chamo isso de sistema-mundo moderno. Ele foi lentamente se expandindo geograficamente, finalmente, englobando todo o mundo desde meados do século XIX. Foi um sistema muito bem sucedido em termos de seu princípio orientador, a acumulação interminável de capital. Ou seja, em busca de acumular capital a fim de acumular ainda mais capital.

O moderno sistema-mundo, como todos os sistemas, flutua. Ele também tem mecanismos que limitam as flutuações e empurram o sistema de volta ao equilíbrio. Este parece ser um ciclo de altos e baixos. O único problema é que as baixas nunca mais voltam ao ponto mínimo anterior, mas sim um pouco mais elevado. Isto porque, no padrão institucional complexo, há resistência a ir até o fim. A forma real dos ritmos cíclicos é de dois degraus e um passo para baixo. O ponto de equilíbrio é, portanto, mover-se. Além dos ritmos cíclicos, existem tendências temporais.

Se alguém mede a abscissa das tendências, elas se movem em direção a uma assíntota de 100%, o que é claro que não podem atravessar. Um pouco antes desse ponto (digamos, cerca de 80%), as curvas começam a flutuar descontroladamente. Este é o sinal de que se mudaram para a crise estrutural do sistema. Se bifurca, o que significa que existem duas diferentes, quase opostas, maneiras de escolher o sistema (s) sucessor. A única coisa que não é possível é fazer com que o sistema atual opere em sua forma previamente normal.

Considerando que, antes desse ponto, grandes esforços para transformar o sistema resultou em pouca mudança, agora o oposto é verdadeiro. Cada pequeno esforço para mudar o sistema tem grande impacto. É o meu argumento de que o moderno sistema-mundo entrou em crise estrutural por volta de 1970 e permanecerá por mais 20-40 anos. Se quisermos avaliar a ação útil, precisamos ter em mente duas temporalidades diferentes, a curto prazo (três anos no máximo) e a duração média.

No curto prazo, o que podemos fazer é minimizar a dor das pessoas mais afetadas negativamente pela crescente polarização de renda que está ocorrendo. As pessoas reais vivem no curto prazo e precisam de algum alívio imediato. Tal relevo, no entanto, não irá alterar o sistema. A mudança pode vir no prazo médio como as que favorecem um ou outro tipo de sistema sucessor obter força suficiente para inclinar a bifurcação na direção dele.

Aqui está o perigo de não ir suficientemente longe na análise crítica do sistema. Só se ver claramente que não há maneira de sair da estagnação persistente se pode, de fato, tornar-se forte o suficiente para vencer a luta moral e política. Uma ponta do garfo significa a substituição do capitalismo por outro sistema que vai ser tão ruim ou pior ainda, mantendo as características cruciais da hierarquia, exploração e polarização. A outra ponta representa um novo sistema que é relativamente igualitário e relativamente democrático.

Nos próximos anos, pode haver períodos de recuperação que pareçam indicar que o sistema está funcionando novamente. Mesmo o nível de emprego no sistema como um todo, a principal medida do estado do sistema, pode subir. Mas esse aumento não pode durar muito tempo porque a situação global é muito caótica. E o caos paralisa a prontidão dos dois empresários poderosos e pessoas simples que gastam o seu capital remanescente de formas que correrá o risco de perda e, por conseguinte, a sua sobrevivência.

Estamos em um passeio selvagem e muito desagradável. Se estamos a comportar-se de forma sensata, a clareza de análise é o primeiro requisito, seguido de escolha moral e julgamento político. A linha inferior é que estamos muito além do ponto em que não há nenhuma maneira que o capitalismo como um sistema histórico possa sobreviver.

A produção de carros elétricos dispara e a China assume a liderança

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

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A produção global de veículos elétricos plug-in (cuja bateria utilizada para alimentar o motor elétrico pode ser carregada diretamente por meio de uma tomada) aumentou mais de 10 vezes entre 2011 e 2015, passando de cerca de 50 mil unidades para mais de 500 mil unidades. A China que estava atrás dos Estados Unidos, União Europeia e Japão, assumiu a liderança em 2015 e tende a responder por mais da metade da produção mundial nos próximos anos.
A China já é líder na produção de energia eólica e solar. Depois de se tornarem a número 1 na produção e venda de veículos elétricos no ano passado, o governo chinês está planejando um aumento de mais de 1.000% nas vendas até 2025. Para tanto, está oferecendo subsídios que podem totalizar 60% do preço de etiqueta de cada modelo, como mostra artigo de Joe Romm, no site Think Progress (03/09/2016).
A China considera que os Veículos Elétricos (EV em inglês) são a tecnologia fundamental para o transporte de baixo carbono, além de incentivar a penetração das energias renováveis na rede elétrica. Dois vetores aceleram a indústria de EV na China: 1) os altos níveis de poluição nas cidades; 2) o desejo de liderar e criar um mercado de exportação de produtos de uma indústria que, segundo a Agência Internacional de Energia, deve ser hegemônica até 2050.
Segundo a Bloomberg New Energy Finance (BNEF) um terço de todos os carros vendidos no mundo até 2040 serão elétricos, pois os preços das baterias estão caindo tão rapidamente que em meados da década de 2020, os EVs competirão com os carros movidos a gasolina diretamente no preço de etiqueta (e sem subsídios).
Ironicamente, a China saltou para a liderança global nesta tecnologia, essencial para o processo de descarbonização da economia, a partir do desafio lançado por Elon Musk, que em 2006, disse pretender tornar a Tesla Motors na líder mundial na produção de carros e baterias elétricas. Como mostrei em artigo anterior (Alves, 31/08/2016), existem dúvidas se Elon Musk vai conseguir efetivar todos os seus planos de produção. Além do mais, no dia 01 de setembro um foguete Falcon 9, da empresa SpaceX, também de Musk, explodiu antes do lançamento em Cabo Canaveral (Flórida, EUA), destruindo o satélite Amos 6 que fazia parte da Internet.org, em parceria com o Facebook e custava cerca de US$ 95 milhões. A explosão do foguete da SpaceX fez a fortuna de Musk encolher US$ 779 milhões em apenas um dia.
Enquanto isto, a China avança na mudança da matriz energética, com sua imensa capacidade de produção, sua montanha de dólares em reservas internacionais e a grande capacidade de subsídio do governo. Além reduzir os impostos, a China está exigindo que os carros elétricos respondam por pelo menos 30% do total de veículos comprados pelo governo até o final de 2016.
Existem, no “Império do Meio”, cerca de 200 startups de Veículos Elétricos (EV). Enquanto Tesla planeja a venda de 400.000 unidades de seu principal modelo, a firma chinesa, BYD (fabricante de automóveis com sede em Shenzhen) já vendeu mais EVs do que a Tesla, a GM e a Nissan juntas. A empresa (na qual a Berkshire Hathaway, de Warren Buffett, tem uma fatia de 9% das ações) tem 18% de participação no mercado de veículos de novas energias da China. No salão de Pequim, a BYD comercializará seu novo SUV, chamado The Yuan, que será vendido de forma competitiva a partir de US$ 32 mil.
Portanto, o governo chinês está promovendo o que considera um setor estratégico para seu projeto de potência mundial. O plano é superar 3 milhões de unidades por ano em 2025, contra cerca de 300 mil em 2015. Em fevereiro, o premiê Li Keqiang exortou o governo local e os operadores do setor a acelerarem a construção de instalações de recarga para acomodar 5 milhões de veículos elétricos em 2020. Sair da produção de carvão mineral e dos motores a combustão é a alternativa para evitar o “arpocalipse” e reduzir as mortes por problemas respiratórios, especialmente nas megacidades.
Sem dúvida, há uma revolução em curso no sentido de avançar com as energias renováveis e diminuir a dependência dos combustíveis fósseis. Carros elétricos vão avançar rapidamente. A Bloomberg New Energy Finance estima que as vendas de veículos elétricos devem chegar a 41 milhões de unidades em 2040, representando 35% do total de cerca de 120 milhões de veículos novos.

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Infelizmente, os últimos governos brasileiros resolveram investir centenas de bilhões de dólares em refinarias de petróleo (inacabadas) e no chamado “bilhete premiado” do pré-sal, jogando o Brasil no fundo do poço de uma tecnologia ultrapassada, cara, poluidora e emissora de gases de efeito estufa. O Brasil está bastante atrasado na produção de energias renováveis, lento na transição para a nova matriz de energia mais limpa (eólica, solar, etc.) e totalmente distante da produção de veículos elétricos, quando comparado com Estados Unidos, União Europeia, China, Coreia do Sul, etc.
Mas, como escrevi no outro artigo, embora chegar a 100% de energia renovável seja fundamental, nenhuma revolução energética, por si só, será capaz de sustentar uma sociedade consumista em constante crescimento, que degrada o meio ambiente e destrói os ecossistemas. Assim, não basta avançar com a produção de veículos elétricos, pois isto apenas encheria de carros as vias públicas das cidades, congestionando as ruas e agravando a imobilidade urbana.
O mundo precisa democratizar e socializar a energia solar e a produção de veículos elétricos, ampliando a democracia em todos os seus aspectos, no sentido de melhor o padrão de vida da coletividade e da simplicidade voluntária, evitando o egoísmo e a ganância do individualismo.
Referências:
ALVES, JED. Elon Musk: carro elétrico, bateria e o telhado solar, Ecodebate, RJ, 31/08/2016
Di Wua, Dionysios C. Aliprantisb. Modeling light-duty plug-in electric vehicles for national energy and transportation planning. Energy Policy, Volume 63, 419–432, December 2013

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 16/09/2016

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Olímpicas correlações: o ouro do Séc. XXI é o conhecimento

Com o mote dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos, os economistas Luiz Alberto Machado e Paulo Galvão Júnior correlacionam desempenho esportivo e indicadores socioeconômicos.
boltNo dia cinco de agosto de 2016 o avião "14 BIS" de Santos Dumont voou em pleno Maracanã ao som do “Samba do Avião" de Tom Jobim. Foi linda e emocionante a abertura dos Jogos Olímpicos 2016 no Rio de Janeiro. O espírito olímpico contagiou o Brasil e o mundo por 17 dias consecutivos. 
O importante não é vencer, mas competir e com dignidade!”, este era o lema adotado pelo educador francês, Pierre de Frédy (1868-1937), o famoso Barão de Coubertin, o Pai dos Jogos Olímpicos da Era Moderna. Muito bem incorporado pelo atleta brasileiro Vanderlei Cordeiro de Lima que acendeu a moderna pira olímpica no Rio de Janeiro. Vanderlei foi o maratonista brasileiro que conquistou a medalha de bronze em Atenas no ano de 2004, sendo aplaudindo de pé e ovacionado ao fazer um “aviãozinho” com os braços, após ser agarrado pelo ex-padre irlandês Cornelius “Neil” Horan, quando liderava a prova mais famosa das Olimpíadas, a Maratona, em plena Grécia, berço dos Jogos Olímpicos. 
Atualmente, o Brasil é a nona economia do mundo, com o Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 1,77 trilhão no ano de 2015, mas é um dos países onde menos se lê, em média, quatro livros por ano, e onde menos se compra livros no planeta, em média, 1,7 livro vendido por ano. 
O ouro do século XXI é o conhecimento. O conhecimento é o recurso mais valioso do mundo. O conhecimento é fundamental para um futuro promissor num país lusófono como o Brasil. Precisamos ler, reler e reler livros nas escolas e nas universidades. A biblioteca é a mina de ouro. 
Às vésperas do início dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, destacamos um artigo intitulado Olímpicas expectativas, no qual o autor aborda diversos aspectos relacionados ao evento que estava em vias de se iniciar. No referido artigo, eram tratados, entre outros aspectos, o legado olímpico, fatores políticos, econômicos e de sustentabilidade, questões relacionadas à segurança e, também, as perspectivas do Brasil em termos de desempenho esportivo:

Por fim, quanto ao desempenho dos atletas brasileiros, não vejo nenhum motivo para otimismo. Mesmo que o número de medalhas supere o de edições anteriores – o que é mais do que esperado por se tratar do país que sedia as competições – não aconteceu qualquer mudança estrutural que propiciasse uma perspectiva mais favorável a longo prazo.

Há 32 anos, escrevi um artigo com o título Poucos esportistas...poucas medalhas. Foi logo após o encerramento dos Jogos Olímpicos de Los Angeles, quando o Brasil conquistou apenas 8 medalhas[1]. Passados todos esses anos, a base do nosso esporte continua a residir nos clubes esportivos, de acesso extremamente restrito. Enquanto em quase todas as potências olímpicas a base está nas escolas e universidades, com acesso quase universal, aqui dependemos do investimento de alguns clubes poliesportivos que permanecem por décadas formando ou aperfeiçoando atletas de alto rendimento, como são os casos do Pinheiros, em São Paulo, e do Minas Tênis, em Belo Horizonte. Enquanto isso, as competições colegiais e universitárias ocorrem com pouquíssimo apoio quer das autoridades esportivas quer da imprensa especializada. (Machado (2016)

Concluídos os Jogos Olímpicos do Rio, em 21 de agosto, reconhecemos que o saldo foi extremamente positivo em quesitos como, por exemplo, organização e segurança. O Brasil saiu com sua imagem fortalecida, demonstrando ser capaz de promover um evento dessa magnitude com competência, além de ter dado um show à parte na capacidade de receber bem todos os que foram ao Rio de Janeiro, atletas, técnicos, dirigentes, jornalistas, além de turistas estrangeiros e brasileiros. 
No que se refere ao desempenho dos nossos atletas, no entanto, somos de opinião que o saldo não merece maiores comemorações, uma vez que, embora o Brasil tenha conquistado o maior número de medalhas de sua história, a evolução em relação aos Jogos de Londres foi muito pequena e, a nosso juízo, aquém das expectativas de um país que sedia as competições. 
O presente artigo tenta estabelecer algumas correlações entre desempenho esportivo nos Jogos Olímpicos e alguns indicadores socioeconômicos. Para justificar nossa opinião e também para explorar possíveis correlações, elaboramos a Tabela 1 que considera a classificação dos países pelo número de medalhas conquistadas nos Jogos Olímpicos de Verão de 2016, o número de medalhas, o ranking dos países por seu PIB, pelo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), pela população total de cada país e, por fim, pelo número de modalidades em que cada país conquistou medalhas de ouro, de prata ou de bronze.
Tabela 1. Jogos Olímpicos e Indicadores Socioeconômicos na Atualidade

Classificação nos Jogos Olímpicos Rio 2016[2]
Número de Medalhas
Ranking
Mundial do PIB[3]
Ranking Mundial do IDH[4]
Ranking Mundial da População
Modalidades com medalhas olímpicas
1º EUA
121
   1º
    8º
   3º
25
2º Grã-Bretanha
67
   5º
15º
22º
22
3º China
70
    2º
90º
   1º
20
4º Rússia
56
12º
51º
    9º
19
5º Alemanha
42
    4º
    6º
16º
19
6º Japão
41
    3º
20º
10º
11
7º França
42
    6º
22º
20º
17
8º Coreia do Sul
21
11º
17º
27º
9
9º Itália
28
    8º
27º
23º
13
10º Austrália
29
13º
    2º
52º
13
11º Holanda
19
17º
    5º
65º
12
12º Hungria
15
58º
44º
88º
4
13º Brasil
19
    9º
75º
    5º
12
14º Espanha
17
14º
26º
29º
11
15º Quênia
13
72º
145º
30º
1
16º Jamaica
11
117º
99º
143º
1
17º Croácia
10
82º
47º
127º
5
18º Cuba
11
63º
67º
78º
4
19º Nova Zelândia
18
55º
10º
124º
5
20º Canadá
22
10º
    9º
37º
11
Fonte: Elaborado pelos autores com base nos dados do FMI, PNUD e COI

Por se tratar de um artigo que não possui maiores pretensões, limitamo-nos a fazer algumas reflexões e tentar estabelecer algumas correlações. O extraordinário desenvolvimento de novas áreas de pesquisa, como Big Data, Teoria da Complexidade e Teoria de Redes abre amplas perspectivas para uma análise mais profunda e abrangente das reflexões constantes neste artigo. Fica, portanto, como indicação para detentores de expertise nesses campos. 
Tomando por base a correlação entre desempenho olímpico e PIB, verifica-se uma forte correlação quando se observa a performance de países como Estados Unidos da América (EUA), Grã-Bretanha, China, Rússia, Alemanha, Japão, França, Itália, Austrália, Coreia do Sul, Holanda, Brasil, Espanha e Canadá. Esses 14 países, que estiveram entre os 20 maiores conquistadores de medalhas, encontram-se, também, entre os 20 países com maior PIB na economia mundial. 
Quando se considera a correlação desempenho olímpico e IDH, verifica-se uma redução, já que apenas 9 dos maiores conquistadores de medalhas (EUA, Grã-Bretanha, Alemanha, Japão, Coreia do Sul, Austrália, Holanda, Nova Zelândia e Canadá) estão entre os 20 países com mais elevado IDH. Ressaltamos que Noruega (1° lugar no ranking mundial do IDH), Dinamarca (4° lugar), Irlanda (7° lugar), Singapura (11° lugar), Hong Kong (12° lugar), Liechtenstein (13° lugar), Suécia (14° lugar), Islândia (16° lugar), Israel (18° lugar) e Luxemburgo (19° lugar) não se destacaram nos Jogos Olímpicos 2016. 
Antes de partir para as considerações mais gerais, estendemos a correlação para o número de habitantes de cada país. Nesse particular, observa-se uma redução ainda maior da correlação, pois apenas 7 dos “papões” de medalhas olímpicas encontram-se entre os países mais populosos do mundo. Portanto, 13 dos 20 países mais populosos do planeta, Índia (2 medalhas olímpicas), Indonésia (3), Paquistão (0), Bangladesh (0), Nigéria (1), México (5), Filipinas (1), Vietnã (2), Etiópia (8), Egito (3), Irã (8), Turquia (8) e República Democrática do Congo (0) possuem desempenho olímpico medíocre.
Apontadas essas correlações, seguem-se algumas observações com o objetivo de estimular toda e qualquer reflexão crítica sobre o presente artigo, elaborado a quatro mãos, que totalizam vinte dedos, e com dois cérebros, que totalizam 172 bilhões de neurônios. 
  1. 1.Desempenho dos EUA: Para usarmos uma expressão que se tornou conhecida graças a um programa popular de TV, “tiro o chapéu” para o desempenho histórico dos EUA em sucessivas edições dos Jogos Olímpicos. Destacamos, nesse particular, que esse extraordinário desempenho dos norte-americanos se explica em grande parte pelo elevado número de praticantes das diversas modalidades esportivas, o que só é possível em razão de uma visão cultural que valoriza amplamente a prática de esportes nos colégios e nas universidades, celeiro dos atletas olímpicos de alto rendimento. Acrescento a esse dado, o fato de não haver ministério específico no país, e de ser irrisório – senão inexistente – o aporte de recursos públicos para o Comitê Olímpico Americano, cujo financiamento é quase integralmente constituído de recursos da iniciativa privada. Por último, mas não menos importante, fazemos questão de realçar o espírito apresentado pelos atletas norte-americanos e o orgulho que demonstram na defesa das cores da bandeira de seu país nas quadras, pistas, piscinas, ringues, tatames etc. Um bom exemplo disso foi dado pelas seleções masculina e feminina de voleibol no Rio de Janeiro. Apesar de serem consideradas favoritas à conquista da medalha de ouro antes do início da competição, ambas foram derrotadas na semifinal, tendo, portanto, que disputar a medalha de bronze. Ao contrário do que se vê em alguns casos, em que atletas mostram-se desmotivados para a disputa da medalha de bronze, os integrantes das seleções de voleibol dos EUA empenharam-se ao máximo em suas partidas, buscando a medalha de bronze com a mesma determinação que teriam se estivessem disputando a medalha de ouro. Ousamos afirmar que tal espírito explica-se, em boa parte, pelo excepcionalismo dos EUA, muito bem explicado no recém-lançado livro As ideias importam, da Profª Fernanda Magnotta, coordenadora do curso de Relações Internacionais da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), de São Paulo.

  1. 2.Desempenho da Grã-Bretanha: A exemplo do que já havia ocorrido com outros países que tiveram cidades que sediaram os Jogos Olímpicos, a Grã-Bretanha registrou uma considerável evolução na edição de 2012, realizada em Londres, ficando, naquela ocasião, em terceiro lugar no quadro de medalhas, abaixo apenas dos EUA e da China. Ao ficar no segundo lugar no quadro de medalhas na edição de 2016, no Rio de Janeiro, com 67 medalhas olímpicas, a Grã-Bretanha, formada por quatro países, Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte, dá uma demonstração de que o avanço verificado em 2012 não foi pontual, uma vez que o desempenho de quatro anos depois foi até superior ao verificado nos Jogos de Londres. Conquistando medalhas em 22 modalidades diferentes, verifica-se que o esforço para melhorar o desempenho olímpico da Grã-Bretanha foi bastante diversificado, não ficando restrito a apenas poucas modalidades esportivas. Se de um lado é inegável o mérito evidenciado pela evolução da Grã-Bretanha, sentimo-nos na obrigação de fazer um registro quanto a uma das práticas que permitiram tal evolução e que, a nosso juízo, contraria o chamado espírito olímpico, qual seja, o fato de a Grã-Bretanha ter naturalizado nos anos que antecederam a realização dos Jogos de Londres atletas de diversas modalidades, muitos dos quais mal falavam o idioma da terra de William Shakespeare ou conheciam o hino britânico ao receberem suas medalhas olímpicas. Vale frisar que tal prática é permitida em algumas modalidades e não em outras, dependendo do regulamento seguido pela respectiva confederação internacional.

  1. 3.Desempenho da China: A evolução do desempenho da China nas últimas edições dos Jogos Olímpicos revela consistência, ainda que tenha se acelerado por ocasião da realização dos Jogos de Pequim, em 2008. Como acontece com a Grã-Bretanha, o esforço empreendido para que essa evolução ocorresse foi bastante diversificado, visto que os atletas chineses conquistaram no Rio de Janeiro 70 medalhas olímpicas em 20 modalidades diferentes.

  1. 4.Fraco desempenho de países com IDH muito elevado: Chamou nossa atenção o fraco desempenho olímpico de países que se encontram nas vinte primeiras posições do ranking mundial do IDH, entre os quais destacamos, Noruega (1º lugar no ranking e 4 medalhas olímpicas), Suíça (3º lugar no ranking e 7 medalhas) Dinamarca (4º lugar no ranking e 15 medalhas), Irlanda (7º lugar no ranking e 2 medalhas), Singapura (11º lugar no ranking e 1 medalha), Hong Kong (12º lugar no ranking e nenhuma medalha), Liechtenstein (13º lugar no ranking e nenhuma medalha), Suécia (14º lugar no ranking e 11 medalhas), Islândia (16º lugar no ranking e nenhuma medalha), Israel (18º lugar no ranking e 2 medalhas) e Luxemburgo (19º lugar no ranking e nenhuma medalha). Esses países, assim como a Áustria e a Finlândia, que também possuem IDH muito alto, tiveram desempenho nos Jogos do Rio de Janeiro que pode ser considerado medíocre. Vale destacar que alguns desses países, situados no Hemisfério Norte, costumam apresentar excelente desempenho nos Jogos Olímpicos de Inverno, o que se explica pelo fato de que suas populações vivem por vários meses do ano em clima frio, praticando sistematicamente os chamados esportes de inverno.

  1. 5.Destacado desempenho da Hungria: Registrarmos o bom desempenho da Hungria, país situado na Europa Central, que ficou na 12ª posição no quadro de medalhas, com 15 medalhas olímpicas, embora ostente posições intermediárias nos rankings mundiais do PIB (58º), IDH (44º) e População (88º). A título complementar, registramos também que a Hungria conquistou medalhas em 4 modalidades, ficando à frente do Brasil porque conquistou 8 medalhas de ouro e o Brasil apenas 7 medalhas. A Hungria, com 93.024 km², é menor do que o estado de Santa Catarina, com 95.736 km². A população total da Hungria é de 9,9 milhões de habitantes, menor, portanto, do que a do estado do Paraná, que é de 11,0 milhões de habitantes.

  1. 6.Desempenho de Quênia e Jamaica: Não podemos deixar de realçar o excepcional desempenho de Quênia e Jamaica, respectivamente na 15ª e na 16ª posições no quadro de medalhas, ambas com 6 medalhas de ouro, e que não se encontram em posições destacadas nos rankings globais do PIB, do IDH e da População. O mesmo pode ser dito com relação ao desempenho de Croácia (17ª) e Cuba (18ª), ambas com 5 medalhas de ouro. A diferença fundamental é que os dois últimos conquistaram medalhas em 5 e 4 modalidades, respectivamente, ao passo que os dois primeiros em apenas uma: Quênia em provas de atletismo de média e longa distâncias e Jamaica em provas de curta distância, com destaque para Usain Bolt, verdadeiro ícone do esporte mundial, com três medalhas de ouro e com o inédito tricampeonato olímpico nos 100 metros, nos 200 metros e no revezamento 4 x 100 metros.
 
Deixamos para o final um comentário sobre o desempenho do Brasil que, como já afirmamos, embora tenha sido superior ao de edições anteriores, foi decepcionante, não apenas por ficar abaixo da expectativa do próprio Comitê Olímpico Brasileiro (COB), mas, também, por não corresponder a um salto quantitativo esperado de países que sediam os Jogos Olímpicos. Além disso, o que se verifica é que não houve alteração de relevo na estrutura organizacional do esporte no Brasil, o que poderia indicar perspectivas mais favoráveis para o futuro. Por essa razão, acreditamos que continuamos dependendo de boas surpresas (casos da medalha de ouro conquistada por Thiago Braz, no salto com vara masculino, da medalha de prata de Felipe Wu, no tiro ao alvo, ou da medalha de bronze de Maicon Andrade, no tae-kwon-do), ou do esporádico aparecimento de fenômenos como Isaquias de Queiroz, que conquistou três medalhas na canoagem (duas pratas e um bronze) numa mesma edição, algo inédito na história olímpica do Brasil. 
Como afirmamos no início, acreditamos que, mais do que de recursos, o Brasil necessita de uma ampla reestruturação, com a elaboração de um Plano Nacional que considere as escolas e universidades como a base da formação de nossos atletas. Só assim ampliaremos a quantidade de praticantes de esporte no País, primeiro passo para a obtenção de um significativo aumento da qualidade.
Referências bibliográficas e webgráficas 
FRANCO, Gustavo. O legado conceitual. O Estado de S. Paulo, 28 de agosto de 2016, p. B 4. 
MACHADO, Luiz Alberto. Poucos esportistas...poucas medalhas. Correio Popular, Campinas, 29 de agosto de 1984. 

_______________Olímpicas expectativas. Disponível em http://www.portalcafebrasil.com.br/iscas-intelectuais/olimpicas-expectativas/. 

MAGNOTTA, Fernanda Petená. As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência. Curitiba: Appris, 2016. 
SALVADOR, Alexandre. A performance da casa. Veja, 31 de agosto de 2016, pp. 72-76.



1) Economista pela Universidade Mackenzie, mestre em Criatividade e Inovação pela Universidade Fernando Pessoa (Portugal), vice-diretor da Faculdade de Economia da FAAP, conselheiro efetivo do Conselho Federal de Economia e assessor da Fundação Espaço Democrático. 
2) Economista pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), especialista em Gestão de RH pela Faculdade de Tecnologia Internacional (Paraná) e professor de Economia e de Economia Brasileira no IESP Faculdades.
[3] Uma de ouro (no atletismo, com Joaquim Cruz, nos 800 metros); 5 de prata (uma na natação, com Ricardo Prado, nos 400 metros medley, uma no iatismo, com Torben Grael, Daniel Adler e Ronaldo Senft, na classe Soling, uma no judô, com Daniel Vieira, uma no futebol e uma no voleibol masculino, com a chamada “geração de prata”; e 2 de bronze (ambas no judô, com Luiz Onmura e Walter Carmona). 
[4] Não há uma classificação oficial nos Jogos Olímpicos. Nesse sentido, o que se costuma fazer é classificar os países em função do número de medalhas de ouro conquistadas, cabendo eventuais desempates pelo número de medalhas de prata obtidas pelos países com o mesmo número de medalhas de ouro. Caso o empate persista, considera-se o maior número de medalhas de bronze conquistadas. 
[5] Lista do FMI para o ano de 2015. 
[6] Lista do PNUD para o ano de 2014.



Escrito por Luiz Alberto Machado(1) e Paulo Galvão Júnior (2)