"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 1 de outubro de 2016

Cortina de fumaça

O presidente do Cofecon analisa enquete realizada com os maiores empresários brasileiros. Segundo Miragaya, a maior preocupação está no corte de gastos sociais.

por Júlio Miragaya


Qual deve ser a principal preocupação do governo Temer? Grande parte dos brasileiros responderia “crescimento econômico”, “educação”, “acabar com a corrupção” ou “saúde”. No entanto, enquete realizada por um grande jornal com 199 entre os 1.000 maiores empresários brasileiros mostrou que apenas 2% deles defendem como prioridade o combate à corrupção, enquanto educação e crescimento econômico mereceram a preocupação de 1%. O que de fato esperam é a aprovação do congelamento de gastos com saúde e educação (47%) e das reformas previdenciária (22%) e trabalhista (10%). Para 80%, portanto, Temer deve cortar gastos e direitos sociais.

A enquete explica muito do que se passa hoje no Brasil. Dilma não foi deposta pelas supostas “pedaladas” e tampouco por corrupção. O real motivo foi a incapacidade de promover o ajuste fiscal na escala e intensidade que a elite desejava. Ela até tentou, mas sua base social se rebelou, ela titubeou, e aí não teve perdão. O roteiro elaborado pela elite econômica prevê que o governo Temer, impopular e destituído de legitimidade, deva cumprir este papel e preparar o terreno para 2018. Mas aí mora o perigo: Lula lidera as pesquisas para presidente em 2018 e ele expressaria toda a resistência da população ao ajuste. Isso implica que ele deve ser apeado da disputa.

Daí advém o patético indiciamento do ex-presidente Lula, acusado de ser o “chefe máximo” do esquema de corrupção no País. Como alguém comanda um esquema de propina de R$ 30 bilhões e puxa para si tão somente as reformas de um apartamento e de uma chácara, que nem a ele pertencem, e que somam meros R$ 3 milhões? Como o “chefe supremo” do esquema fica com um décimo de milésimo do total desviado quando teve gerente da Petrobrás (indicado pelo PMDB) levando 200 milhões de dólares, duzentas vezes mais. É triste ver tão patética acusação ser cinicamente endossada por cientistas políticos ou um ou outro jornalista adocicado (ou azedo). É muito escárnio com a inteligência do brasileiro.



* Presidente do Conselho Federal de Economia.

Economia brasileira: a raiz da primavera


por Humberto Dalsasso

O economista Humberto Dalsasso defende que a economia brasileira passa por um momento em que as subterrâneas raízes da corrupção estouram do solo.

IMG 1824Quando se fala em primavera logo vem à mente as lindas e diversificadas flores que embelezam o panorama.  Então, por que a “Raiz da Primavera” e não “As Flores da Primavera”? É porque estamos falando do momento atual da economia brasileira. Mas, com os profundos e intragáveis problemas da atual economia brasileira, por que associar a economia à primavera?

Certa vez, ao visitar, com outro colega, uma linda fazenda no nordeste brasileiro, onde estavam cultivadas plantas frutíferas, irrigadas por canos instalados que jorravam gotas d`água alternadas – para o lado direito e para o lado esquerdo – automaticamente, mentalizei aquela alternância e iria perguntar ao proprietário por que alternar. Mas, antes que eu perguntasse, meu colega opinou ao dono da fazenda: “Tenho uma observação a fazer: aqui na região, em que a água não é abundante, é preciso economizar, e não fazer o gotejamento alternado”.

Enquanto eu iria perguntar “por que”, meu colega, considerando-se “o dono da verdade”, já julgou. O fazendeiro respondeu: “Doutor, se for gotejado para apenas um dos lados, as raízes crescerão só para aquele lado, a planta cairá e se destruirá, e não teremos frutas nem a beleza da primavera”.

Voltando ao tema, estamos na primavera e, embora a economia brasileira não esteja no panorama de flores mas na emergência de brutais e indesejáveis atos de corrupção generalizada, enraizadas (corrupção sistêmica), o momento é muito importante para o futuro. A roubalheira aflorou.

É vergonhoso e inaceitável que, enquanto faltam recursos para investimentos em saúde, educação, segurança, infraestrutura e outros, são bilhões e bilhões desviados por governantes e seus aliados (no executivo, no legislativo e outros) por corrupção.

Felizmente, ainda há exceções e bons exemplos de correção, cabendo destaque a postura do juiz Sérgio Moro, fazendo com que as subterrâneas raízes da corrupção estourem o solo, se tornem perceptíveis e merecedoras de severas punições.

Desta forma, a emergência dessas raízes, não só assustará os corruptos, levando-os a pensar mais antes de praticar novos atos, bem como levando-os a severas punições e restituição dos valores roubados.

Isto nos leva à esperança de que, a partir do próximo ano, tenhamos uma gestão pública mais eficaz e a condução da economia às belezas da primavera.  Além do papel das autoridades públicas, as instituições, organizações e as pessoas têm a incumbência de acompanhar, auxiliar/contribuir e agir para que o panorama se   torne realidade.

A racionalização das contas públicas é fundamental. Alguns itens como: 
1)    Redução dos gastos e da dívida pública (é preciso reduzir o tamanho do governo e melhorar a eficácia. Não há razão para o tamanho da Câmara dos Deputados(531) e seus servidores. É possível reduzir em 40 ou 50% o número de deputados e suas equipes. Que cada deputado tenha uma pequena equipe e que se tenha uma equipe básica que atenda a todos os deputados. Ao reduzir a dívida pública e a corrupção, reduzem-se bastante os gastos. 
2)    Com a redução dos gastos (desperdícios) poder-se-á melhorar a atenção à saúde, à educação, à segurança e aos investimentos em infraestrutura.



(*)  Economista e Consultor Empresarial de Alta Gestão.

Estado máximo

por Júlio Miragaya*

O presidente do Cofecon, Júlio Miragaya, defende que por trás da tese liberal do Estado Mínimo (para os mais pobres) está a tese do Estado Máximo para o topo da pirâmide social.

poderEm todo período de reação, de ofensiva política conservadora, os liberais fazem ecoar as trombetas do Estado Mínimo, cuja definição depende da classe social do interessado. Para a burguesia, é o Estado diminuindo a carga de impostos (dos ricos) e reduzindo ao mínimo possível o acesso aos direitos sociais, abrindo, com isso, espaço para a privatização de vastas áreas dos serviços públicos, antes ofertados pelo Estado. Para os trabalhadores e grande parte da classe média, é o Estado abdicando da universalização do acesso aos direitos sociais básicos que todo cidadão tem direito.

O fato é que por trás da tese liberal do Estado Mínimo (para os mais pobres) está a tese do Estado Máximo para a turma no topo da pirâmide social. Foi assim na reação conservadora no início da década de 1980, com a ascensão de Reagan nos EUA e de Thatcher na Grã-Bretanha, com a redução de impostos para os ricos e o corte nos programas sociais para a turma de baixo na pirâmide, e com o desmonte do modelo do Welfare State, construído essencialmente nas décadas de 1950 e 1960.

A quem serve o Estado? No sistema capitalista, evidentemente à burguesia. No Brasil, embora os ganhos de capital tenham uma contribuição reduzida para a carga tributária, são os ricos que mais dela reclamam. E quanto à sua distribuição, se queixam descaradamente do Estado destinar R$ 27 bilhões anuais a 40 milhões de miseráveis atendidos pelo Bolsa Família e se locupletam com os R$ 500 bilhões anuais que embolsam na forma de juros da dívida pública, além de outras centenas de bilhões na forma de subsídio, isenção, desoneração e sonegação.

Os conservadores no Brasil sempre exerceram muito bem o que Gramsci chamou de “hegemonia cultural”, mas sem abdicar de seus instrumentos mais diretos de exercício do poder, como o aparelho judicial e policial, condição oportunisticamente ignorada pelos que apostaram na conciliação de classes e que hoje pagam um alto preço. 

* Presidente do Conselho Federal de Economia.

Por que O índice de preço dos alimentos da FAO caiu?

Artigo De José Eustáquio Diniz Alves

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O índice de preço dos alimentos da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, FAO (Food and Agriculture Organization) atingiu um máximo da série, no valor de 240,1 pontos, em fevereiro de 2011 e caiu para algo em torno de 149 pontos em janeiro e fevereiro de 2016 (considerando 100 = a média de 2002-2004). Agora em agosto de 2016 o índice subiu um pouco e chegou a 165,6 pontos em agosto de 2016. Mesmo assim, muito abaixo da média do ano de 2011.
Qual é o principal fator de flutuação do preço dos alimentos?
Não há dúvida de que o preço da comida varia com o aumento do preço da energia. Existe uma alta correlação entre o preço do petróleo e o preço dos alimentos. Quando o preço da energia sobe, em geral, aumenta também o preço dos alimentos e, quando cai, puxa o preço dos alimentos para baixo.
Ao longo do século XX o preço dos combustíveis fósseis caiu e rebaixou o preço médio da comida. Houve alguns momentos de inflação da energia e dos alimentos, como na década de 1970 (devido a guerra do Yom Kippur) e início dos anos de 1980 devido à guerra Irã-Iraque. Mas no final da década de 1990 os preços das commodities fósseis estavam em seus níveis mais baixos do século, assim como o índice de preços da FAO. Por exemplo, em janeiro de 2002, o preço nominal do barril do petróleo estava em US$ 19,6 e o índice de preços da FAO estava em 90 pontos.
Tudo mudou nos anos seguintes. Os preços do petróleo subiram e puxaram para cima o preço dos alimentos. O ano de 2008 foi de aumento generalizado dos combustíveis fósseis e da comida. A crise econômica de 2009 jogou os preços para baixo. A retomada de 2010 e 2011 voltou a jogar os preços para cima. O índice da FAO variou entre 240 pontos em fevereiro de 2011 e 217 pontos em abril de 2013. Mas desde de então o preço dos alimentos caiu acompanhando a queda do preço do petróleo.
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Um relatório do NECSI (New England Complex Systems Institute) publicado em 2011, mostra que há uma correlação importante entre o aumento do preço dos alimentos, calculados pela FAO (agência da ONU para a agricultura) e a ocorrência de protestos em todo o mundo. Sempre que o índice da FAO sobe, ocorrem mais manifestações.
Agora em 2016, o preço do petróleo subiu entre janeiro e agosto de 2016, puxando o preço dos alimentos para cima. Mas, no geral, o preço dos combustíveis fósseis e dos alimentos encontram-se em patamares baixos.
Contudo, esta trégua não deve durar para sempre. O mais provável é que o preço do petróleo e dos alimentos volte a subir. E como mostra o relatório do NECSI, preços altos de energia e de comida levam à ocorrência de manifestações populares e períodos revolucionários.
José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 30/09/2016

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Vicenç Navarro: A crise da social-democracia na Europa

Este artigo analisa a queda da social-democracia (tanto em apoio eleitoral como no número de membros) na União Europeia, questionando algumas das razões que foram dadas para explicar tal queda. O artigo mostra que, nos casos mais evidentes, esta queda deve-se à substituição do ideário socialista pelo social-liberalismo responsável por políticas impopulares entre as bases eleitorais de tais partidos.

Por Vicenç Navarro, no Informação Alternativa

A social-democracia na Europa está imersa numa crise profunda. Passou de governar na maioria dos países na União Europeia a estar numa minoria muito pequena. A sua crise reflecte-se, não apenas em derrotas eleitorais, mas também em quedas muito acentuadas dos seus filiados: todos os maiores partidos social-democratas europeus experimentaram uma enorme queda dos membros em tais partidos. 

Uma das explicações que os dirigentes de tais partidos deram para esta queda (além da suposta falta de comunicação – argumento sempre utilizado por tais dirigentes) foi o êxito das suas políticas. Assume-se que o grande bem-estar que a social-democracia trouxe à Europa transformou as suas bases eleitorais – a classe trabalhadora – em classes médias, que se foram tornando mais conservadoras. Alguns destes dirigentes chegam inclusive a postular que as classes trabalhadoras estão a desaparecer, substituídas pelas classes médias, que se transformaram nos setores sociais para os quais tais partidos orientam as suas ofertas eleitorais. 

Na realidade, muitos destes partidos abandonaram uma narrativa que inclua o conceito de classe social no seu discurso, excepto na sua referência às sempre presentes classes médias, e dentro de uma estrutura social que se redefine, limitando-se a falar de ricos, classe média e pobres, ou classe alta, média e baixa.

Este argumento ignora, no entanto, vários fatos. Um deles é que na maioria dos países da UE há mais pessoas que se definem como pertencentes à classe trabalhadora que à classe média, sendo nos países nórdicos escandinavos (que têm o maior nível de riqueza da Europa) onde tais percentagens são maiores. 

Quanto maior a cultura social-democrata num país (tal como ocorre na maioria dos países escandinavos), maior é a propensão da população para definir-se como membro da classe trabalhadora. E, pelo contrário, quanto maior a cultura conservadora e/ou liberal num país, maior é a percepção de que as classes perderam o seu valor definitório, considerando-se a classe média como a classe maioritária por antonomásia naquele país. O caso dos EUA e do Sul da Europa são exemplos disso. 

As causas da queda da social-democracia não podem atribuir-se, pois, ao seu sucesso, ou a mudanças da estrutura social dos seus países. Há que procurar as causas em outras áreas e territórios de análises, incluindo as mudanças muito substanciais que seguiram na sua cultura política e no desenvolvimento das suas políticas públicas.

A necessidade de uma inexistente autocrítica por parte de muitos partidos social-democratas europeus

O êxito da social-democracia na Europa foi a sua identificação com o estabelecimento do estado de bem-estar (baseado na universalização dos direitos sociais e laborais, financiado com políticas fiscais progressistas), e um aumento da capacidade aquisitiva da população, através de um aumento dos rendimentos do trabalho como motor de políticas expansivas de carácter keynesiano, que exigiam um intervencionismo público não só em gasto, mas também na regulação (e/ou a nacionalização) de atividades chaves para o labor econômico, a fim de garantir a existência e acessibilidade de recursos básicos (tais como o crédito). 

A época dourada do capitalismo (1900 -1980) baseou-se nestas políticas, que foram e continuam a ser enormemente populares, não só entre as bases tradicionais de tais partidos – a classe trabalhadora –, mas em outros setores das classes populares (incluindo a classe média). Esta aliança de classes – classe trabalhadora com classe média – foi central no desenvolvimento do estado de bem-estar.

Este tinha que ser de elevada qualidade para responder às expectativas da classe média, o que requeria uma carga fiscal elevada mediante uma fiscalidade progressiva, cujo objetivo era (além de conseguir fundos para o estado) a correção das desigualdades sociais. 

O declive da social-democracia baseou-se primordialmente no distanciamento e/ou renúncia de muitos partidos social-democratas a estas políticas. Foi a partir dos anos 1970 e 1980 que grande número de tais partidos se foram afastando de tais políticas, adaptando-se aos princípios do neoliberalismo, que se transformou na ideologia dominante na construção da União Europeia.

O argumento mais utilizado por aqueles partidos políticos, na justificativa do seu abandono das políticas social-democratas, foi que a globalização impossibilitava o desenvolvimento de tais políticas. Anthony Giddens, entre outros, repetiu esta argumentação em todos os seus trabalhos. Tal globalização – era-nos dito – tornava impossível a continuação daquelas políticas social-democratas. O keynesianismo, por exemplo, era já impossível. 

Os estados perdiam poder face à globalização e não podiam ser seguidas políticas expansivas. Este argumento, que encontrou grandes caixas de ressonância nos meios de comunicação próximos do capital financeiro e do mundo empresarial, ignorava que os países onde a tradição social-democrata estava mais desenvolvida eram os países escandinavos, países profundamente globalizados, pois, ao serem pequenos, a soma das suas importações e exportações representava a percentagem do PIB mais alta da UE. Os dados mostravam que um país podia estar muito globalizado e, ao mesmo tempo, continuar a desenvolver políticas social-democratas.

A origem do social-liberalismo: a administração Clinton

O social-liberalismo (a incorporação do neoliberalismo nos partidos progressistas e social-democratas) iniciou-se nos EUA. A derrota do presidente Carter, consequência do seu conservadorismo e neoliberalismo, criou uma rebelião nas bases do Partido Democrata, liderada por Jesse Jackson, cuja candidatura conseguiu 40% de todos os delegados do Congresso do Partido Democrata no Congresso de tal Partido em Atlanta em 1988 (no final do processo das primárias naquele partido). 

O programa de Jesse Jackson era o mais progressista que o Partido Democrata tinha proposto desde o New Deal. Alarmou o aparelho de tal Partido, que não fez seu tal programa. Mas, em 1992, o candidato Clinton – que se tinha oposto a Jesse Jackson – adotou parte daquelas propostas, apresentando-se com um programa que o Financial Times (um tanto preocupado) definiu como inspirado na social-democracia sueca. 

O seu programa incluía as promessas de universalizar o acesso à previdência naquele país e desenvolver políticas expansivas de despesa pública, acrescentando medidas protecionistas ao tratado de livre comércio, Nafta (inicialmente proposto pela Administração Bush pai), tais como exigir o estabelecimento de normas laborais e ambientais nos países participantes em tal tratado: EUA, Canadá e México.

Uma vez ganhas as eleições, o presidente Clinton não cumpriu nenhuma destas promessas. Tornando-se no presidente do Partido Democrata mais próximo do capital financeiro que existiu nos EUA (tal como indicou o seu Ministro do Trabalho Robert Reich), pôs os interesses do capital financeiro no centro das suas políticas públicas, reduzindo a despesa pública e favorecendo o capital financeiro, chegando a eliminar a Lei Glass Steagall (que, aprovada pelo presidente Roosevelt em 1933, tinha proibido que os bancos comerciais pudessem também ser de investimento), abrindo assim a porta à especulação e à crise financeira atual. 

A derrota do Partido Democrata nas eleições para o Senado e para o Congresso em 1994, resultado do enfado e da abstenção da classe trabalhadora, deu o controle do Congresso ao Partido Republicano, vitória que impossibilitou levar a cabo o programa expansionista de Clinton. Daí que, a partir de então, Clinton falasse da Terceira Via, a via entre o New Deal do Partido Democrata e o neoliberalismo selvagem do Partido Republicano, liderado pelo ultradireitista Gingrich. 

A vitória de Clinton em 1996 foi resultado do temor do eleitorado democrata (que se tinha abstido nas eleições de 1994 para o Congresso) à vitória da ultradireita, e mobilizou-se para travar o Partido Republicano.

O social-liberalismo na Europa: a terceira via

O Partido Trabalhista britânico adotou esta terminologia e a Terceira Via passou a ser a via entre o trabalhismo expansionista, baseado no aumento da procura interna como estímulo econômico (representada pela esquerda do Partido Trabalhista) e a via neoliberal de austeridade social do governo Thatcher. 

Mas, uma vez no governo, Blair foi inclusive mais além do que Thatcher em alguns tópicos, como a desregulação da banca. Foi Harold Brown, Ministro das Finanças do governo Blair, quem deu plena independência ao Banco de Inglaterra, desregulando, além do mais, o mercado financeiro, tornando-se a City (o centro financeiro do Reino Unido) no maior centro de hedge funds no mundo. 

Na verdade, a sua escassíssima regulação mereceu o título de “Wall Street Guantânamo” à City, indicando com isso que se permitiam na City práticas irregulares não permitidas em Wall Street. Estas políticas favoreceram o capital financeiro, que passou a representar 32% do PIB, crescimento que teve lugar à custa do setor industrial, que passou de representar 20% do PIB no princípio do New Labour (1978), a 12% (2010). 

Esta redução do setor industrial provocou uma diminuição do salário médio, diminuição para a qual contribuiu a grande desregulação dos mercados laborais, "um dos mercados mais desregulados existentes no mundo desenvolvido», tal como anunciava o governo de Blair na sua promoção externa. Diminuiu também o intervencionismo do estado sob o argumento de que o estímulo keynesiano com base no estímulo da procura interna era impossível de realizar, além de ser desnecessário (tal como afirmava Anthony Giddens).

Estas políticas foram muito impopulares entre as suas bases eleitorais, o que explica a grande queda do seu apoio eleitoral. Passou de obter 33% do total do eleitorado em 1997 a 25% em 2001 e 22% em 2005. Se o Reino Unido tivesse tido um sistema eleitoral proporcional, teria perdido a maioria já na segunda convocatória eleitoral desde que ganhou pela primeira vez em 1997. 

O enviesamento eleitoral britânico, que favorece o bipartidarismo, ocultou este descalabro de modo que, apesar desta queda tão acentuada, o New Labour manteve a maioria no Parlamento até à última eleição, a de 2010. Isso explica o seu longo mandato, que não se deve à sua popularidade – como erroneamente é apresentado por Giddens –, mas ao enviesamento do sistema eleitoral e à crise tão profunda do Partido Conservador. As políticas neoliberais do New Labour desanimaram as bases do partido, que perdeu mais de metade dos seus filiados durante o governo Blair.

O Partido Social-Democrata Alemão

O outro partido social-democrata que virou para o neoliberalismo foi o Partido Social-democrata alemão, o qual, com o seu chamado programa 2010 antagonizou a sua militância e as suas bases eleitorais. O programa 2010, liderado pelo chanceler Schroeder, iniciou as políticas neoliberais na Alemanha (incluindo as políticas de austeridade pública mais acentuadas até então), apoiando o capital financeiro e o mundo empresarial exportador, à custa do nível de vida da classe trabalhadora alemã. 

As suas políticas, continuadas pelo governo Merkel, significaram uma redução dos rendimentos do trabalho, contribuindo para a estagnação da economia alemã como consequência da diminuição da procura interna que tal redução determinou [2]. 

Foi Oskar Lafontaine, então Ministro de Economia do Governo Schroeder, e os sindicatos que propuseram um aumento da procura interna, que teria estimulado a economia alemã e, portanto, a economia europeia. Perderam aquela batalha e Oskar Lafontaine demitiu-se (e abandonou o Partido Social-democrata alemão, acusando a direção de tal Partido de estar excessivamente próxima da banca e do mundo empresarial exportador), ajudando a estabelecer um partido – A Esquerda, Die Linke – que denunciou tal social-liberalismo. É o partido que está a crescer mais naquele país.

O social-liberalismo na construção da União Europeia

A influência da banca alemã configurou, em grande medida, a arquitectura institucional europeia, baseada num Pacto de Estabilidade, que travou o crescimento da despesa pública, e num Banco Central Europeu, que mais que banco central era um lóbi da banca, que impôs juros elevados. A maioria dos partidos social-democratas na UE contribuíram para a construção deste marco neoliberal, que resultou numa grande queda dos rendimentos do trabalho na maioria dos países da UE, causa do enorme problema de procura existente na UE.

As pessoas nomeadas por proposta dos partidos social-democratas (e eles mesmos simpatizantes e/ou membros do Partido Socialista Espanhol) na Comissão Europeia, foram Pedro Solbes e Joaquín Almunia, que se transformaram nos guardiães da ortodoxia neoliberal por meio da Comissão Econômica e de Assuntos Monetários. 

O próprio Claude Trichet, Governador do Banco Central Europeu, tinha sido membro do Partido Socialista francês (próximo de Pièrre Mendès-France), do qual continua a ser membro o presidente do Fundo Monetário Internacional, Dominique Strauss-Kahn, responsável pela aplicação de políticas neoliberais de austeridade que estão a provocar um enorme dano às classes populares nos países onde o FMI as impõe. 

Paradoxalmente, Strauss-Kahn aparece como o melhor candidato dentro do Partido Socialista francês para competir com Sarkozy. O fato de que tal profissional seja o candidato preferido pelo Partido Socialista francês é um indicador do grau de confusão existente entre amplos setores da social-democracia francesa.

O caso da social-democracia espanhola

A social-democracia espanhola seguiu políticas de clara tradição social-democrata no período 1982-1993, facilitadas pela pressão popular e pelos partidos à sua esquerda. A agitação social no final da década dos anos oitenta jogou também um papel chave na expansão da despesa pública social por habitante, corrigindo, em parte, o enorme déficit de despesa pública social entre Espanha e a média da UE-15. Espanha tinha sido, em 1982, quando iniciou o período social-democrata, o país com um estado de bem-estar menos desenvolvido da UE.

Ora bem, em 1993 (quando o déficit de despesa pública social já tinha sido reduzido para metade) houve uma mudança política muito importante, com consequências nas políticas públicas, tanto econômicas como sociais. O PSOE perdeu a maioria nas Cortes e aliou-se com a direita catalã, CIU, desenvolvendo políticas neoliberais (que implicaram uma espectacular queda da despesa pública social por habitante), políticas que foram continuadas pelo governo Aznar até 2004. 

A aliança do PSOE com a CIU inaugurou uma estratégia que incluía a marginalização das esquerdas, tanto dentro do PSOE como fora, o que criou uma reação entre as suas bases, de protesto contra a direção, que levou à eleição do candidato à presidência por parte do PSOE Josep Borrell, que era de clara orientação keynesiana e que criou enormes resistências tanto dentro como fora do aparelho do partido. 

Tal resistência levou à sua demissão e substituição, e mais tarde à derrota do PSOE, configurando-se posteriormente três sensibilidades diferentes dentro do PSOE. Uma, a do aparelho do partido, que apoiou o candidato conservador, José Bono; outra, de sensibilidade keynesiana, liderada por Matilde Fernández; e outra, que em teoria era a de compromisso, por José Luis Rodríguez Zapatero, e que ganhou devido ao apoio da esquerda. 

José Luis Rodríguez Zapatero ganhou e, com a excepção de Cristina Narbona, excluiu completamente a esquerda do seu governo, nomeando Solbes (que tinha iniciado as políticas neoliberais em 1993 e tinha sido o guardião da ortodoxia liberal na Comissão Europeia) e uma equipe ultraliberal dirigida por David Taguas (procedente da Banca e que tinha proposto, antes de se integrar em La Moncloa, a total privatização da Segurança Social, tal como tinha feito o General Pinochet no Chile) [4], como diretor da sua equipe econômica. Estas nomeações tinham como objetivo tranquilizar a Banca (que é o poder de fato mais importante em Espanha), nomeando como governador do Banco de Espanha outro ultraliberal, Miguel Fernández Ordóñez. 

A dimensão social-democrata do PSOE apareceu claramente nas áreas sociais, que estiveram limitadas contudo nas suas iniciativas (algumas de claro corte social-democrata, como a Lei de Dependência) por uma austeridade de despesa pública. Solbes tinha expressado que a política da qual ele estava mais orgulhoso, durante o período 2004-2008, foi a de não ter aumentado a despesa pública, isto dito no país da UE que tem uma despesa pública (incluindo a social) mais baixa da UE-15. A sua aliança em 2004 com partidos à sua esquerda, IU-ICV-EA, ERC e BNG, forçou, no entanto, uma maior sensibilidade social, que se traduziu numa redução do enorme déficit de despesa pública social que Espanha tem com a UE-15.

No seu segundo mandato, iniciado em 2008, o governo Zapatero virou à direita, procurando o apoio da direita nacionalista catalã, sempre afim à equipe econômica do governo, que continuou a ser neoliberal. Tal equipe desenvolveu uma resposta à crise atual que reduz substancialmente os direitos trabalhistas e sociais no país, motivo de um protesto que levou à convocação de uma greve geral. A continuar estas políticas, a social-democracia espanhola sofrerá uma queda eleitoral profunda, tal como aconteceu à maioria dos partidos social-liberais na UE.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Turbulência global à frente

por Michael Roberts

Na próxima semana terá início a reunião semi-anual do Banco Mundial e do FMI, em Nova York. Esta é uma oportunidade para os estrategistas econômicos do mundo analisar o estado das principais economias mundiais. E não é uma boa notícia. No início deste mês, a OCDE, que cuida das 30 principais economias do mundo, informou em suas 'previsões econômicas provisórias" que o crescimento global do PIB (incluindo Índia e China) seria em torno de 3% em 2016, com apenas uma projetada melhoria modesta em 2017. No geral, a OCDE avaliou que a economia mundial "permaneceu em uma armadilha de baixo crescimento com decepções de crescimento persistentes pesando sobre as expectativas de crescimento e alimentação de volta para o comércio fraco, investimento, produtividade e salários." Catherine Mann, economista-chefe da OCDE, disse: "a ação foi necessária para levantar a economia global fora de uma armadilha de baixo crescimento", disse ela. "A espiral não é para cima, é para baixo. Para baixo sobre o comércio, para baixo na produtividade, para baixo sobre o crescimento global".
Como para o comércio mundial, antes da reunião do FMI neste fim de semana, seus economistas publicaram um capítulo de seu próximo World Economic Outlook em que argumentaram que uma das características da atual lento crescimento (depressão) foi o declínio sem precedentes no crescimento do comércio mundial." Desde 2012, o crescimento do volume do comércio mundial de bens e serviços foi menos de metade da taxa durante as últimas três décadas. Ele mal acompanhou esse crescimento mundial e a desaceleração foi generalizada. Os economistas do FMI calculam que este comércio lento é principalmente um sintoma da lenta recuperação econômica. "De fato, até três quartos da escassez de verdadeiro crescimento do comércio desde 2012 em comparação com 2003-07 podem ser atribuídos ao globalmente mais fraco crescimento econômico, nomeadamente o investimento subjugado. "
UNCTAD, a divisão da economia das Nações Unidas que analisa as chamadas economias em desenvolvimento, emitiu um relatório que concluiu que o mundo está à beira de "entrar em uma terceira fase da crise financeira". O alarme tem sido tocado sobre a explosão de níveis de dívida de empresas em economias emergentes, que agora ultrapassam US$ 25 trilhões. As "espirais deflacionárias prejudiciais não podem ser descartadas". De acordo com a UNCTAD, muitos países "em desenvolvimento" estão a fazer tal coisa (ou seja, em desenvolvimento). Não há nenhum investimento nos setores produtivos. Muitos países caíram ainda mais para trás do mundo rico do que eram em 1980, apesar de 'abrir' as suas economias aos fluxos de capitais multinacionais. Enquanto a participação nos lucros do PIB nas economias emergentes subiu para uma alta histórica de 36% do PIB de 30% em 1980, o investimento privado despencou para 17% de 21%. Em outras palavras, a maior parte do lucro obtido deixaram esses países ou foram investidas em setores não produtivos como o imobiliário ou especulação financeira.
Além disso, como as taxas de juros globais caíram, a dívida corporativa nos mercados emergentes aumentou de 57% a 104% do PIB desde o final de 2008, o que representa um risco real de um colapso financeiro se uma nova recessão global aparecer ou se as taxas de juros saltarem bruscamente e as moedas nacionais mergulharem em relação ao dólar ou euro.
O fraco investimento é o grito de todos estes organismos internacionais. E também tem sido a mensagem de estrategistas econômicos privados, como os consultores de gestão McKinsey. Em um novo relatório, chamado de turbulência pela frente: Renovando consenso entre maior volatilidade, McKinsey mostra por que o comércio e o crescimento global abrandaram para um rastreamento desde o fim da Grande Recessão em 2009. "O choque da crise financeira global de 2008 desencadeou a primeira queda registrada no PIB global e a ressaca, desde então, persistiu, com muitos países lutando com recuperações inesperadamente fracas" e não vai ficar melhor, projeta McKinsey:". Mais preocupante, as perspectivas de crescimento a longo prazo são motivo de séria preocupação.  O crescimento anual do PIB 2014-2064 é projetado para reduzir pela metade efetivamente, caindo para 2,1 por cento globalmente e 1,9 por cento para os países desenvolvidos ".
As políticas existentes adotadas pelos governos não têm funcionado: "investimento privado e público permanecem sem resposta a este crédito barato. Mesmo a política muito antecipada de flexibilização quantitativa tem feito pouco para mudar isso. "O crescimento do investimento tem diminuído significativamente desde 2008. Ele entrou em colapso imediato na União Europeia (UE), uma redução de $330 bilhões. Embora o investimento bruto nos EUA tenha se recuperado, o investimento líquido em percentagem do PIB caiu pela metade desde 2007. As empresas têm investido em mais ativos de curta duração, mas não conseguiu compensar aumentando o investimento bruto. Sem o investimento dirigido pelo Estado pela China, os números globais seria ainda piores: "A China tem apoiado o investimento global, constituindo 79 por cento do aumento do investimento desde 2008. Mas isso não vai durar:. O crescimento do investimento anual na China é esperado para cair de 10,4 por cento entre 2008 até 2015, para 4,5 por cento entre 2015 e 2030. "
Na verdade, os mais recentes dados dos EUA - até meados de 2016 - mostram que  investimento fixo americano tem dado terreno a um impasse.
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Tenho discutido a causa deste registro de baixo investimento em vários posts. Em minha opinião, não é devido à "fraca demanda do consumidor" que impede as empresas de intensificarem os investimentos. O crescimento nos gastos do consumidor tem sido relativamente robusto desde 2009. Na verdade, quando os gastos do consumidor é excluído, o resto da economia dos EUA já está em território negativo.
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Nem é mau investimento ou mesmo negativo devido à «incerteza» ou regulamento etc. Ele simplesmente se resume a rentabilidade. Citei um número crescente de estudos que confirmam isso. Por exemplo, os principais economistas Kothari, Lewellen e Warner escreveram um artigo chamado O comportamento do investimento das empresas. AggregateInvestment
Os autores encontraram uma correlação causal estreita entre o movimento do investimento empresarial dos Estados Unidos e a rentabilidade do negócio. Os três autores principais do papel acham que "o crescimento do investimento é altamente previsível, até 1 ano e meio de antecedência, usando os lucros passados e retornos das ações, mas tem pouca ligação com as taxas de juro, spreads de crédito, ou volatilidade das ações. Na verdade, lucros e retornos das ações inundam o poder preditivo de outras variáveis propostas na literatura. "E que" Lucros mostram um padrão de ciclo de negócios claro e uma clara correlação com o investimento ".
Os dados mostram que o investimento cresce rapidamente após a lucros elevados e retornos consistentes de ações com praticamente qualquer modelo de investimento corporativo, mas pode levar até um ano e meio para ajustar plenamente. Esta foi exatamente a conclusãoque cheguei no meu próprio estudo e em conjunto com G Carchedi (http://gesd.free.fr/robcarch13.pdf ).
E em um relatório recente, os economistas do JP Morgan apontam que os rácios de capital-de-retorno estão acima de sua média e capital de produtividade histórica com a tendência menor ao longo da última década. Em termos marxistas, a composição orgânica do capital está a aumentar e os retornos sobre capital próprio estão em declínio. Os últimos números oficiais para o capital social até 2015 nos EUA estão agora disponíveis, por isso em um post futuro, vou atualizar a última posição sobre a taxa dos EUA de lucro, a la Marx.
Mas, enquanto isso, deixe-me repetir o trabalho do economista sênior do Federal Reserve de Cleveland, que descobriu que "A análise de correlação simples mostra que a correlação entre a variação dos lucros das empresas e a mudança contemporânea na produção industrial é de 54 por cento, mas a correlação sobe para 66 por cento se eu usar a mudança de um quarto - à frente na produção industrial. Da mesma forma, a correlação entre a variação dos lucros das empresas e a mudança contemporânea do investimento privado interno bruto é de 57 por cento, mas a correlação sobe para 68 por cento se eu usar a mudança de um quarto em frente no investimento. Mais formalmente, um teste de causalidade de Granger indica que a variação trimestral dos lucros leva a variação trimestral da produção de um trimestre, mas a mudança de lucros é independente da mudança de produção. Uma relação similar aplica-se à variação trimestral nos lucros e investimento. 6 Assim, as empresas parecem ajustar a sua produção e os investimentos depois de ver uma queda em seus lucros ".
De acordo com Dubravko Lakos-Bujas pelo JP Morgan, desde 1900 houve 27 casos de dois trimestres seguidos de declínio dos lucros das empresas, à semelhança do que temos agora. Lakos-Bujas continua: "O declínio dos lucros corporativos medida pelo EPS  dos EUA têm sido seguidos de perto por, ou coincidiu com uma recessão de 81% das vezes desde 1900."
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Os economistas do Deutsche Bank também chegaram a conclusões semelhantes. Eles citam quatro indicadores que apareceram antes das recessões em 1990, 2001 e 2008. E eles estão mostrando vermelho agora. Em primeiro lugar, já existe uma recessão para os lucros dos EUA. Eles foram deslizando desde que atingiu o pico no segundo trimestre de 2014. Em segundo lugar, Índice das Condiçõs do Mercado de Trabalho do Fed, um rastreador de vários indicadores, tornou-se negativo em agosto. Uma leitura abaixo de zero foi seguido por uma recessão cinco vezes nos últimos 40 anos.  Em terceiro lugar, o crescimento das despesas de capital se tornou negativo, abaixo de 2% em relação ao ano passado. E quarto, as taxas de incumprimento das empresas estão aumentando.
Houve apenas um ano (1986), nos últimos 60 anos, quando as margens de lucro das empresas americanas diminuíram, sem que isso leve a uma recessão. Ele também foi o único período em 40 anos, quando uma recessão não aconteceu, embora o crescimento das despesas de capital diminuiu. Por isso, normalmente, em que os lucros vão, o investimento segue. E os mais recentes números dos EUA mostram exatamente isso.
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Como o FMI e as reuniões do Banco Mundial terõ lugar, a economia global permanece em um estado fraco. Os economistas do FMI estão chamando para uma ação coordenada global para "neutralizar a lentidão renovada" Em um novo estudo, eles afirmam que as políticas certas podem "desmascarar preocupações generalizadas de que pouco pode ser feito pelos formuladores de políticas enfrentam um ciclo vicioso de (muito) baixo crescimento, ( também) a inflação baixa, perto de zero taxas de juros e elevados níveis de endividamento "Eles exigem uma ação fiscal (gastos do governo e investimento);. e" reformas estruturais "dos mercados de trabalho e os bancos mais fortes e sistemas financeiros.
Além da questão de saber se qualquer uma destas políticas iriam funcionar, não há sinal de que os governos das principais economias estejam preparados para coordenar globalmente qualquer ação política. O investimento do governo para compensar o investimento empresarial fraco ainda está sendo cortado na maioria dos países para tentar "equilibrar o orçamento" e manter a dívida do governo para baixo. As reformas estruturais (ou seja, a privatização e redução dos direitos trabalhistas) estão enfrentando uma oposição séria do trabalho. E agora há novos sinais de que os bancos estão de volta em apuros (Deutsche Bank, na Alemanha; bancos italianos etc).
O PIB real per capita de crescimento está a abrandar em ambas as economias capitalistas avançadas e os chamados países emergentes, enquanto a grande besta em expansão global, a China também está a abrandar. Agora, se a economia dos EUA deve vacilar a partir do seu ritmo já de caracol, todas as apostas estão fora para evitar uma nova recessão global. Os indicadores estão começando a ficar vermelho. Assim, como McKinsey coloca, a turbulência mundial está à frente.

O mundo com 10 bilhões de habitantes em 2053

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“Se a economia crescente do descarte e do desperdício imediato dos bens continuar,
iremos entregar a Terra ainda banhada em sol apenas à vida bacteriana”
Nicholas Georgescu-Roegen (1969)

os sete países mais populosos - 2016 e 2050

O mundo alcançou 1 bilhão de habitantes, aproximadamente, no ano de 1800. Duplicou para 2 bilhões em 1927. Na virada do milênio, no ano 2000, atingiu a cifra de 6 bilhões de pessoas e chegou a 7 bilhões em 2011. Relatório da Population Reference Bureau (PRB), divulgado em agosto de 2016, estima que a população mundial atingirá 10 bilhões de habitantes em 2053.
Em termos regionais, haverá um fosso demográfico e ritmos bem diferentes de mudança, com a população da África Subsaariana mais do que dobrando de tamanho, dos atuais 1,2 bilhão para os 2,5 bilhões em meados dos anos 2050, enquanto a Europa – mesmo com as imigrações – deve diminuir de tamanho e a América Latina deve alcançar o pico populacional e a estabilidade do crescimento em meados do atual século.
Não haverá mudança dos nomes dos 7 países mais populosos, mas haverá uma alteração na ordem de localização do ranking. A China deve perder cerca de 34 milhões de habitantes, passando de 1,378 bilhão em 2016 para 1,344 bilhão em 2050. A Índia vai passar de 1,3 bilhão para 1,7 bilhão no mesmo período (vai crescer cerca de dois Brasis). Portanto, a Índia vai ultrapassar a China e se tornará o país mais populoso do mundo.
Os Estados Unidos devem se manter no terceiro lugar. Mas a Indonésia que ocupa o quarto lugar atualmente deve cair para a quinta posição em 2050 e o Brasil deve perder o quinto lugar e cair para o sétimo posto no ranking dos países com maior volume de população. O Paquistão vai permanecer no sexto lugar, mas passando de uma população de 203 milhões de habitantes, em 2016, para 344 milhões em 2050. O maior salto será da Nigéria – que vai ganhar 3 posições – passando do 7º lugar para o 4º lugar, em empate com os Estados Unidos. A população da Nigéria que está atualmente em torno de 187 milhões deve pular para 398 milhões de habitantes em 2050.
Os Estados Unidos serão o único país desenvolvido a apresentar um crescimento demográfico significativo na primeira metade do século XXI, com um acrescimento de 74 milhões de pessoas entre 2016 e 2050 (a maior parte deste crescimento em função da imigração). Evidentemente, este processo vai agravar o impacto sobre a degradação ambiental dos EUA e pressionar ainda mais o déficit ecológico global.
Os EUA possuem atualmente uma Pegada Ecológica per capita de 8,2 hectares globais (gha) e biocapacidade per capita de 3,8 gha. A Pegada total está em torno de 2.610 bilhões de gha para uma biocapacidade total de 1.193,8 gha. Assim, a Pegada americana é 2,2 vezes maior que a biocapacidade, representando um déficit de 220%. Evidentemente, o modelo americano é insustentável e só sobrecarrega o resto do mundo.
Mas os países pobres e populosos também possuem alto déficit ecológico. A Pegada Ecológica total da Índia está em torno de 1,435 bilhão de gha, para uma biocapacidade de 560 milhões de gha, então a Índia apresentou grande déficit ambiental. A Pegada Ecológica total da índia era mais do dobro da biocapacidade total e o déficit ambiental está crescendo e tende a aumentar com o crescimento demoeconômico do país. A Índia já é o terceiro maior emissor de gases de efeito estufa (GEE) do mundo e tem resistido muito em colocar em prática as metas de descarbonização do Acordo de Paris da COP-21, embora tenha prometido ratificar o Acordo de Paris no dia 02 de outubro, aniversário de nascimento de Mahatma Gandhi.
Dos 7 países em questão, apenas o Brasil possui atualmente superávit ambiental, com pegada per capita de 3,1 gha e biocapacidade per capita de 9,1 gha. A Indonésia tem pegada de 1,6 gha e biocapacidade de 1,3 gha. O Paquistão tem pegada de 0,8 gha e biocapacidade de 0,4 gha e a Nigéria tem pegada ecológica per capita de 1,2 gha e biocapacidade per capita de 0,7 gha. Portanto, só o Brasil está no verde e os demais países estão no vermelho do déficit ecológico. E o quadro vai ficar muito pior em 2050 quando o tamanho da população e da economia forem muito maiores.
De fato, o mundo está em uma encruzilhada, pois existem muitos países ricos que continuam consumindo além da conta e muitos países pobres, com populações crescentes, que precisariam de mais recursos para reduzir a pobreza e melhorar o padrão de consumo. Evidentemente, a redução das desigualdades de renda e riqueza (patrimônio) poderia aliviar as condições de subnutrição e subconsumo. Porém, mesmo numa situação hipotética de perfeita distribuição de renda a pegada ecológica média do mundo já é maior do que a biocapacidade média. O mundo tinha, em 2012, uma biocapacidade total de 12,2 bilhões de hectares globais, mas tinha uma pegada ecológica de 20,1 bilhões de hectares globais. Portanto, a pegada ecológica ultrapassava a biocapacidade em 64%. A humanidade já consome 1,64 Planeta e já se encontra no “cheque especial”, dilapidando a herança deixada pela Mãe Natureza.
A situação atual é insustentável. Por um lado, os países ricos (com cerca de 1,2 bilhão de habitantes) consome além do necessário para uma vida descente e digna. De outro lado, muitos países pobres e em desenvolvimento consomem aquém das necessidades para obter uma vida descente e digna, mas possuem populações enormes (como Índia, Paquistão, Nigéria, etc.) e, mesmo com baixo consumo per capita, possuem alto consumo agregado e incapaz de ser atendido pela biocapacidade nacional.
Tudo isto mostra que a escala das atividades antrópicas já ultrapassou os limites fundamentais da sustentabilidade e há, por exemplo, uma crise hídrica pela frente. O mundo já ultrapassou a capacidade de carga do Planeta, gerando uma sobrecarga ecológica. Já ultrapassou também as fronteiras planetárias (Alves, 06/02/2015), inclusive o aquecimento global que é uma ameaça concreta e crescente. Para evitar o colapso ambiental é preciso reduzir a pegada ecológica e para evitar as injustiças sociais é preciso reduzir os níveis de desigualdade. Porém, a solução não pode ser o crescimento econômico ilimitado com crescente extração de recursos do meio ambiente. Crescimento econômico ilimitado é impossível diante do fluxo metabólico entrópico. Ao contrário, será necessário não só o decrescimento da população mundial, mas também o decrescimento do padrão de consumo médio das pessoas, com equidade social.
A modernidade urbano-industrial cresceu ampliando a acumulação de capital e incorporando matérias-primas, energia e gente no processo produtivo. O crescimento do capital físico e da população é vital para o sistema capitalista, assim como o sangue é vital para o vampiro. O sistema de produção hegemônico produz e distribui (não de maneira justa) bens e serviços, a partir da exploração da natureza e dos trabalhadores. Em troca, o capitalismo oferece para as pessoas “pão e circo”, mas para a natureza só oferece degradação, defloramento e lixo.
O ser humano não tem uma relação simbiótica com a natureza. As abelhas, por exemplo, sugam a seiva das flores, mas não as destroem. Ao contrário, elas são polinizadoras. Quanto mais abelhas tirarem sua subsistência das flores, mais flores nascerão do processo de polinização. Mas o ser humano tem uma relação parasitária com a natureza, pois para se multiplicar causa prejuízo a outras espécies e aos ecossistemas hospedeiros. A espécie humana é do gênero ectoparasita.
Mas independentemente de qual espécie for, uma regra básica deve ser respeitada e o parasita não pode matar o hospedeiro. Com o processo de globalização, a exploração desenfreada da natureza ultrapassou a capacidade de carga do Planeta. E o mais grave é que a destruição do meio ambiente continua em ritmo assustador no século XXI. Só há um Planeta vivo e ele está sendo assassinado e a caminho de se tornar estéril. O ser humano é um ectoparasita que está matando o seu próprio hospedeiro. Vive do parasitismo ecológico e está provocando um holocausto biológico. Mas deveria saber que o ecocídio é também um suicídio.
O relatório “Global Material Flows And Resource Productivity” (UNEP, julho de 2016) mostra que a extração de recursos naturais globais aumentou três vezes nos últimos 40 anos. A quantidade de matérias-primas extraídas do seio da natureza subiu de 22 bilhões de toneladas em 1970 para 70 bilhões de toneladas em 2010. O aumento do uso de materiais globais (input) acelerou rapidamente nos anos 2000. O crescimento na extração de recursos naturais passou de 7 toneladas per capita em 1970 para 10 toneladas per capita em 2010. A poluição, o lixo e os resíduos sólidos (output) aumentou na mesma proporção.
Nos últimos 20 anos, o mundo perdeu 3,3 milhões de quilômetros quadrados, ou quase 10%, das suas áreas de natureza não domesticada, isto é, regiões praticamente intocadas pela ação humana, segundo cálculo do periódico científico “Current Biology”. Trata-se de uma perda catastrófica da vida selvagem. Em artigo publicado na revista Science, o biólogo americano Samuel Wasser mostra que cerca de 50 mil elefantes africanos são caçados por criminosos a cada ano, para uma população de 500 000 indivíduos. Uma taxa de 10% ao ano pode levar rapidamente à extinção da espécie.
Artigo publicado no blog #SavetheTrees mostra que o mundo planta 5 bilhões de árvores por ano e desmata 15 bilhões de árvores. São duas árvores derrubadas para cada habitante da Terra. É um verdadeiro holocausto biológico debaixo dos nossos olhos!
O crescimento das atividades antrópicas se acelerou nas últimas décadas até o ponto de mudar a correlação de forças no Planeta, aumentando a proporção da presença humana (áreas ecúmenas) e diminuindo as áreas anecúmenas, a proporção das demais espécies e a biocapacidade. Herman Daly (2014) mostra que quando se passa do planeta antropicamente vazio para o planeta cheio as externalidades negativas tendem a superar os benefícios da produção. Ele diz: “Teremos, então, o que denomino crescimento deseconômico, produzindo ‘males’ mais rapidamente do que bens – tornando-nos mais pobres, e não mais ricos”.
Na mesma linha de pensamento, o sociólogo alemão Ulrich Beck, no livro “Sociedade de Risco”, considera que na modernidade desenvolvida (ou modernidade tardia) prevalece a lógica do perigo: “Não é a falha que produz a catástrofe, mas os sistemas que transformam a humanidade do erro em inconcebíveis forças destrutivas” (Beck, 2010, p. 8). Para Beck, a natureza não pode mais ser concebida sem a sociedade e a sociedade (e a população) não mais sem a natureza. A destruição da natureza passa “a ser elemento constitutivo da dinâmica social, econômica e política. O imprevisto efeito colateral da socialização da natureza é a socialização das destruições e ameaças incidentes sobre a natureza” (p. 98). Da mesma forma que Herman Daly distingue mundo cheio e vazio, Beck distingue dois momentos da modernidade: “O que estava em jogo no velho conflito industrial do trabalho contra o capital eram positividades: lucros, prosperidade, bens de consumo. No novo conflito ecológico, por outro lado, o que está em jogo são negatividades: perdas, devastação, ameaças”. (p.3).
Ou seja, tanto na perspectiva de Daly (2014) quanto de Beck (2010), a humanidade já ultrapassou a capacidade de carga e está explorando o meio ambiente a uma taxa mais alta do que a capacidade de regeneração natural dos ecossistemas. Neste cenário que necessita ser redirecionado, não custa lembrar as ideias do livro “O Declínio Próspero” de Howard e Elisabeth Odum (2013), que defendem o declínio das atividades antrópicas com prosperidade humana e ambiental. Não faz sentido aumentar o estoque de pessoas no mundo para correr riscos e agravar a crise ambiental. Neste quadro, seria irresponsabilidade as políticas públicas continuarem apoiando o crescimento demoeconômico e a ideologia antropocêntrica em detrimento da perspectiva ecocêntrica e da sobrevivência da comunidade biótica.
Por isto, o livro Enough is Enough (2010) mostra que uma economia em constante crescimento está destinada ao fracasso. Os autores consideram que a economia é um subsistema da ecologia e o transumo (throughput) funciona a partir da extração de matérias e energias da natureza e o descarte de lixo, poluição e resíduos sólidos no meio ambiente. Uma vez que vivemos num planeta finito, com espaço e recursos limitados, não é possível que a economia e a população cresçam para sempre. O livro defende uma economia de Estado Estacionário.
Mas se a economia e a população já ultrapassaram a capacidade de carga do Planeta, então deve haver decrescimento até o ponto que o Estado Estacionário mantenha um equilíbrio sustentável. Como escrevi em um outro artigo (Alves, 20/07/2016): “A natureza não depende da sociedade, a sociedade depende da natureza. O lema do debate sobre população e desenvolvimento no século XXI deveria ser: menos gente, menos consumo, menor desigualdade social e maior qualidade de vida humana e ambiental”.
Os direitos humanos devem estar em sintonia dialética com os direitos ambientais e o bem-estar das espécies não humanas. Friedrich Engels dizia que a dialética significa mudança e contradição. Ele falava também da transformação da quantidade em qualidade. Por exemplo, a água ao esquentar muda de estado do gelo para o líquido e do líquido para o gasoso. Fazendo um paralelo, a humanidade aumentou tanto a quantidade de intervenções antrópicas no Planeta que houve uma mudança qualitativa do superávit para o déficit ambiental. A partir de um certo grau de desenvolvimento econômico houve um ponto de mutação (state shift) e os danos ficaram maiores do que os ganhos. O abuso suplantou o uso no modelo de crescimento ilimitado e de progresso unidimensional.
Desta forma, é preciso um novo ponto de mutação em sentido reverso. Do crescimento demoeconômico para o decrescimento demoeconômico. A humanidade precisa sair do déficit ecológico e voltar ao superávit ambiental, resgatando as reservas naturais, para o bem de todos os seres vivos da Terra, pois o ecocídio significará também um suicídio para a humanidade. A atual escala da presença humana na Terra é insustentável. Aumentar ainda mais esta escala é irracional e arriscado. Assim, o raciocínio auto-evidente indica que é inviável manter o crescimento da população humana com base na redução populacional das demais espécies e no definhamento dos ecossistemas e da biodiversidade. É impossível uma espécie ser feliz sozinha!
Referências:
ALVES, JED. Os riscos ambientais e a queda da natalidade, Ecodebate, RJ, 20/07/2016
ALVES, JED. Fronteiras Planetárias 2.0, Ecodebate, RJ, 06/02/2015
Herman Daly, Economics for a full world, 2014
BECK, Ulrich. Sociedade de Risco. Rumo a uma Outra Modernidade. São Paulo: Editora 34, 2010.
ODUM, Howard T; ODUM, Elisabeth C. O Declínio Próspero. Vozes, 2013
O’Neill, D.W., Dietz, R., Jones, N. (Editors), Enough is Enough: Ideas for a sustainable economy in a world of finite resources. The report of the Steady State Economy Conference. Center for the Advancement of the Steady State Economy and Economic Justice for All, UK, 2010.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 28/09/2016

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

OIT: melhorar condições de trabalho traz benefícios para a produtividade

De acordo com a agência, milhares de fábricas tiveram mudanças altamente positivas após implementarem programa especial; iniciativa da Organização Internacional do Trabalho envolve aumento de salários e combate ao assédio.
Foto: OIT
Leda Letra, da Rádio ONU em Nova York.
Melhorar as condições de trabalho em fábricas de roupa conhecidas pelos baixos salários, não prejudica a produtividade nem a rentabilidade. A afirmação é da Organização Internacional do Trabalho, OIT.
Nesta segunda-feira, a agência da ONU divulgou um balanço do seu projeto "Trabalho Melhor". Foram avaliadas fábricas em sete países em desenvolvimento, como Bangladesh, Indonésia e Haiti.
Fábricas
A OIT garante que as condições de trabalho melhoraram de forma "dramática" nessas empresas, graças a medidas como aumento dos salários e da produtividade e combate ao assédio.
O programa "Trabalho Melhor" foi criado em 2009 pela OIT e pelo Banco Mundial, com a participação de 1,3 mil fábricas que, juntas, empregam 1,6 milhões de pessoas.
Abusos
Ao fazer uma avaliação independente do projeto, pesquisadores descobriram que melhorar as condições de trabalho dos funcionários também é bom para os negócios.
A OIT considera ser um achado importante, especialmente por envolver uma indústria associada a longas jornadas de trabalho, salários baixíssimos e abusos. No geral, a jornada de trabalho teve uma redução média de 3,5 horas e os salários foram aumentados em aproximadamente US$ 7 por semana.
Exemplos
No Vietnã, a rentabilidade nas fábricas aumentou em média 25%, isso quatro anos após a implementação do projeto. Na Jordânia, foi verificada a redução dos abusos no ambiente de trabalho, com diminuição de 18% dos relatos de assédio sexual.
Mas o diretor do programa da OIT, Dan Rees, ressalta ser preciso combater um outro problema: as grandes lojas de roupa que fazem seus pedidos a essas fábricas, as custas de horas decentes de trabalho.