"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 22 de outubro de 2016

Primavera Feminista Ou Desempoderamento?

Artigo De José Eustáquio Diniz Alves

“O mundo precisa de justiça, não de caridade”
Mary Shelley

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As mulheres brasileiras conquistaram diversas bandeiras feministas nas últimas seis décadas. Entre 1950 e 2010, a PEA feminina cresceu 16 vezes, enquanto a PEA masculina cresceu 3,6 vezes. As taxas de atividade masculinas caíram de 80,8% em 1950 para 67,1% em 2010, enquanto a taxa de atividade feminina passou de 13,6%, em 1950, para 48,9%, em 2010, segundo dados dos censos demográficos, do IBGE. Ou seja, as mulheres foram a locomotiva do crescimento do mercado de trabalho brasileiro e deram uma contribuição inestimável ao desenvolvimento do país. E o mais importante, foram as mulheres com maiores níveis educacionais que apresentaram as maiores taxas de atividade. Assim, houve um empoderamento feminino durante o bônus demográfico brasileiro e a maior inserção nas atividades produtivas das mulheres, cada vez mais qualificadas, ajudaram o progresso civilizacional do Brasil.
Mas estas tendências de longo prazo foram interrompidas, especialmente nos últimos 3 anos e o colapso do mercado de trabalho ameaça jogar por terra conquistas históricas. O problema é que a atual estagflação não parece ser conjuntural, mas estrutural. A PEC 241 (sem querer entrar fazer uma avaliação) é, para o bem ou para o mal, a demonstração que o Brasil enfrenta um grave problema fiscal e que haverá grandes dificuldades pela frente. A perda de oportunidade única (o bônus demográfico feminino) pode significar o início de um processo de desempoderamento das mulheres brasileiras. Esta situação que é geral, é ainda mais grave quando se considera as desigualdades de gênero nos espaços de poder.
A revista Carta Capital publicou matéria de Tory Oliveira (10/10/2016) com o sugestivo título: “A primavera feminista chega às Câmaras”. A reportagem diz: “Na esteira da chamada primavera feminina e de discussões sobre a questão do assédio e da cultura do estupro, candidatas declaradamente feministas e com propostas focadas nos direitos das mulheres alavancaram votos para o PSOL em diversas cidades importantes, como as capitais Rio de Janeiro, São Paulo, Belém e Porto Alegre, além de cidades como Niterói (RJ) e Campinas (SP)”. Um exemplo é a vitória de Áurea Carolina, 32 anos, do PSOL. Mulher, que se define como negra e feminista. Ela foi a vereadora mais votada na capital mineira (17.420 votos), para uma Câmara que só tinha uma mulher na legislatura passada.
Mas será que podemos afirmar que as eleições de 2016 foram marcadas pela “primavera feminista”?
O gráfico acima mostra que houve um pequeno aumento no percentual de mulheres eleitas para as Câmaras de Vereadores, que passou de 7,4% em 1992, para 13,3% em 2012 e subiu ligeiramente para 13,5% em 2016. No ritmo das últimas 6 eleições – desde o surgimento da política de cotas – o crescimento foi de apenas 2,4% em 20 anos. Neste ritmo seriam necessários 300 anos para se atingir a paridade de gênero (50% para cada sexo) ao nível municipal.
Mas o mais preocupante foi o resultado para as prefeituras. O percentual de mulheres eleitas para o executivo municipal, que já era mais baixo do que o de vereadoras, caiu de 11,9% em 2012 para 11,6% em 2016. Ou seja, neste ritmo, jamais haverá paridade nas prefeituras. Uma única prefeitura de capita foi conquistada por mulher (Teresa Surita em Boa Vista, RR).
O baixo desempenho das mulheres nas eleições municipais não chega a surpreender, pois o Brasil possui uma das mais baixas taxas de participação feminina no parlamento. O gráfico abaixo mostra que a percentagem de mulheres eleitas para a Câmara de Deputados no Brasil subiu ligeiramente, passando de 6,6% em 1996, para 9,9% em 2016. Contudo, o aumento do número de deputadas federais aumentou em um ritmo mais elevado no mundo, depois da VI Conferência Mundial de Mulheres, ocorrida em Beijing, em 1995. As mulheres representavam 12% dos parlamentos (Lower ou Single House) em 1996 e subiram para 22,8% em 2016.
Portanto, o Brasil perdeu participação relativa e ficou para trás em relação ao resto do mundo. Em 1996, o Brasil ficava 5,4 pontos atrás do resto do mundo e esta diferença passou para 12,9 pontos percentuais em 2016. Assim, além do avanço brasileiro ser pequeno, ele ficou aquém do que acontecia nos outros países. Em 1996, o Brasil estava em 103º lugar no ranking da Inter-Parliamentary Union (IPU) e caiu para o 153º lugar em 2016 (num total de cerca de 190 países).

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Estes dados mostram que as mulheres brasileiras continuam excluídas dos espaços de poder e estão ficando para trás em relação aos avanços ocorridos no resto do mundo. Isto aconteceu particularmente nas prefeituras, mas também no número de mulheres no ministério federal. No governo Temer há apenas uma mulher ministra, marcando um governo claramente misógino e dominado pelos homens. Assim, confirmando as tendências dos últimos 3 anos, parece que há um processo de desempoderamento das mulheres brasileiras.
Olhando com mais atenção para os dados das Câmaras de Vereadores das capitais das UFs, observa-se que o avanço foi muito pequeno e diferenciado por regiões. A percentagem de mulheres nas 26 capitais era de 13% em 2008, caiu para 12,8% em 2012 e subiu levemente para 13,2% em 2016.
A maior queda ocorreu na Região Centro-Oeste onde as mulheres tinham 10,7% dos assentos em 2008 e o percentual caiu para 7,9% em 2016. Na região Norte teve uma pequena queda e no Sudeste passou de 14,8% em 2008, para 9,9% em 2012 e 14,2% em 2016. O maior ganho ocorreu na região Sul que passou de 11,1% em 2008 para 13,4% em 2016.
No Rio de Janeiro, a segunda maior cidade do país, o número de vereadoras era de 15 mulheres em 2018 (25% da Câmara), caiu para 8 vereadoras (15,7%) em 2012 e baixou ainda mais em 2016, para 7 vereadoras (13,7%).
A maior cidade do país, São Paulo, sempre teve uma grande exclusão de gênero na Câmara Municipal. O número de vereadoras em 2008 era de 5 (9,1%), passou para 6 vereadoras (10,9%) em 2012 e bateu o recorde de 11 vereadoras (20%) em 2016. A reportagem da Carta Capital diz: “Na capital paulista, a bancada feminina dobrou, passando de cinco para 11 mulheres eleitas em um universo de 55 parlamentares. Duas são declaradamente feministas: Juliana Cardoso (PT) e a estreante Sâmia Bomfim, 27 anos, primeira mulher vereadora do PSOL a ser eleita para a Câmara” (Oliveira, 10/10/2016).
Sem dúvida o aumento foi significativo. Mas há dois senões. O primeiro, é que com todo o avanço as mulheres paulistanas atingiram apenas 20% das cadeiras em 2016, não atingindo a meta de 30% colocada no espírito da política de cotas. Em segundo lugar, a bancada feminista continua amplamente minoritária, pois, das 11 mulheres que conquistaram vaga na Câmara, 7 são ligadas a igrejas evangélicas, com uma agenda não feminista.
O fato é que as mulheres brasileiras estão passando por um momento difícil, depois de 60 anos de conquistas históricas. A taxa de ocupação no mercado de trabalho diminuiu após 2014. O desemprego feminino disparou. Caiu o número de universitários brasileiros que concluem a faculdade, prejudicando os avanços femininos nos cursos superiores. O Brasil foi considerado o pior país da América do Sul em termos de oportunidades o desenvolvimento de meninas, de acordo com um relatório divulgado pela ONG Save the Children. Entre 144 nações avaliadas, o Brasil ocupa a 102ª posição do Índice de Oportunidades para Garotas. Em todo o continente americano, o país fica à frente apenas de Guatemala e Honduras no ranking que considera dados sobre o casamento infantil, gravidez na adolescência, mortalidade materna, representação das mulheres no Parlamento e conclusão do estudo secundário.

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Portanto, em vez de uma “primavera feminista” o que se vê no Brasil atual parece ser um processo de desempoderamento das mulheres. Esta reversão de expectativas é preocupante, pois a revolução de gênero ainda estava no meio do caminho e era preciso consolidar as conquistas e avançar. Mas o resultado das eleições municipais de 2016 apenas confirma que o Brasil está distante da equidade de gênero e ficando na lanterninha internacional dos indicadores de empoderamento feminino.
Referência:
Oliveira, Tory. A primavera feminista chega às Câmaras, Revista Carta Capital, 10/10/2016

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 21/10/2016

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Barril de petróleo deve pular para US$ 55 em 2017, diz Banco Mundial

Novo relatório Panorama Global das Matérias Primas ainda prevê altas na energia e dos alimentos; aumento será de US$ 12 por barril.
Preco do barril de petróleo fechará 2016 em US$ 43. Foto: Banco Mundial
Mariana Ceratti, de Brasília, para a Rádio ONU.*
O preço global do petróleo bruto deve subir para US$ 55 por barril no próximo ano, segundo estimativa divulgada nesta quinta-feira pelo Banco Mundial.
A previsão se justifica porque a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, Opep, está se preparando para limitar a produção, depois de um longo período sem restrições.
Carvão
Neste ano, o preço do barril deve fechar em US$ 43.
Para 2017, o Banco Mundial anuncia uma alta de 25% nos preços da energia, que incluem petróleo, gás natural e carvão. Todas as informações constam do novo estudo Panorama Global das Matérias Primas, publicado a cada trimestre.
O relatório prevê pequenos aumentos para a maioria das matérias primas em 2017, com o fortalecimento da demanda e a diminuição da oferta. Os metais e minerais, por exemplo, devem subir 4,1%.
Já no setor agropecuário, a projeção é que os preços se elevem em 1,4% no próximo ano.
Entre os alimentos, os grãos devem registrar alta de 2,9%, crescimento maior do que o estimado na edição anterior do relatório.
A estimativa é de um aumento de 2% para oleaginosas e farináceos.
*Reportagem do Banco Mundial no Brasil.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Singularidade Tecnológica Ou Estagnação Secular?

Artigo De José Eustáquio Diniz Alves

“Otimista é um pessimista mal informado!”

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Uma pergunta que esteve na moda no século XVIII e que mobilizou o debate entre os iluministas da época (e sempre volta à tona) é: O mundo caminha para o aperfeiçoamento da civilização ou para o retrocesso da barbárie?
Nos últimos 250 anos, o otimismo da evolução humana venceu o pessimismo (embora não se possa falar o mesmo sobre o meio ambiente). O progresso humano foi espetacular. Em nenhum momento da história houve tanto crescimento das forças produtivas, tanto de bens e serviços e tantos avanços sociodemográficos. A despeito das desigualdades, os níveis educacionais e de renda aumentaram em todos os países e a esperança de vida ao nascer da população mundial que estava em torno de 25 anos no último quartel do século XVIII, ultrapassou os 70 anos nos anos 2000.
Do ponto de vista dos animais racionais, os otimistas têm razão, pois, desde o início da Revolução Industrial e Energética, o passado recente da humanidade tem sido um sucesso. Nunca os seres humanos tiveram tanta riqueza e tanta influência sobre a dinâmica da vida e sobre os recursos do Planeta quanto atualmente.
Porém, há muitas dúvidas e questionamentos sobre como será o amanhã. Há visões e perspectivas sombrias e brilhantes para o século XXI. Os pessimistas consideram que a economia caminha para a estagnação secular, para o aumento das desigualdades sociais e para uma grande crise ecológica e climática. Já os otimistas consideram que estamos no meio de uma quarta Revolução Industrial e de uma ruptura histórica em que a humanidade iniciará um estágio de colossal avanço tecnológico em um curtíssimo espaço de tempo, superando tudo que já foi feito no passado. Vejamos rapidamente as duas visões.
O gráfico acima mostra que houve uma grande redução da produtividade entre os países do G-7 (Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Canadá), que são também países ricos e mais desenvolvidos tecnologicamente e com alta intensidade de capital físico e capital humano. O estudo dos economistas Martin Neil Baily and Nicholas Montalbano (The Brookings Institution, setembro de 2016) mostra que a produtividade é o fator mais importante do aumento do nível de vida no longo prazo. Porém, eles dizem que existe uma enorme frustração com as tendências atuais da economia.
Logo depois da Segunda Guerra a produtividade do trabalho nos países do G-7 ficou em torno de 3% ao ano até o início da década de 1970 (foram os chamados 30 anos gloriosos). Mas logo depois do choque do petróleo houve uma queda da produtividade que foi parcialmente compensando na década de 1990, especialmente nos Estados Unidos e Canadá, em decorrência do avanço dos computadores pessoais e da Internet. Mas a partir de 2004, mesmo com todos os avanços tecnológicos, a produtividade voltou a cair e nunca esteve em nível tão baixo.
O economista neoclássico americano, grande entendido em crescimento econômico e ganhador do prêmio Nobel de economia, Robert Solow, disse: “You can see the computer age everywhere except in the productivity statistics.” (Você pode ver a presença do computador em todos os lugares, exceto nas estatísticas de produtividade).
A melhor explicação para a situação atual de baixa produtividade das economias avançadas vem do professor Robert J. Gordon, da Universidade Northwestern, no famoso livro “The Rise and Fall of American Growth: The U.S. Standard of Living since the Civil War”. Gordon não discorda do papel histórico desempenhado pela tecnologia no passado. Ele recapitula os vínculos entre períodos de rápida expansão econômica e as inovações das três Revoluções Industriais (RI) precedentes e mostra que a segunda RI teria sido a mais importante em termos de acelerar o crescimento econômico, garantindo 100 anos (1870-1970) de acelerado avanço na produtividade.
Mas ele argumenta que este evento excepcional que ocorreu no passado é único no tempo e não vai se repetir. A soma do aumento do custo da extração dos combustíveis fósseis e a perda dos ganhos de produtividade pode funcionar como freio ao crescimento econômico. Considerando a economia dos Estados Unidos da América (EUA), Gordon argumenta que existem seis “ventos contrários” (headwinds) que estão desacelerando o crescimento econômico: 1) aumento das desigualdades sociais, 2) educação deteriorada; 3) degradação ambiental; 4) maior competição provocada pela globalização; 5) envelhecimento populacional; e 6) o peso dos déficits e do endividamento privado e público.
O autor sugere que estes “ventos contrários” não estão atingindo apenas os EUA, mas todas as economias avançadas, o que deve provocar taxas de crescimento econômico abaixo de 1% nas próximas décadas. Para as sociedades emergentes, os “ventos contrários” também existem, mas sopraram com menos intensidade durante o superciclo das commodities. É difícil imaginar que os países em desenvolvimento possam manter altas taxas de crescimento econômico sem contar com uma dinâmica parecida nos países desenvolvidos. Assim, Robert Gordon é um dos representantes do pensamento pessimista que enxerga um futuro de baixo crescimento da economia e do padrão de vida humano e aponta para a tendência da estagnação secular.
Mas existem as pessoas que acreditam em um futuro brilhante e defendem a ideia da Singularidade Tecnológica, que seria um evento no qual a humanidade alcançaria um estágio de fenomenal avanço tecnológico que inclui biotecnologia, inteligência artificial, nanotecnologia, robótica, etc. A ideia é que tecnologias de várias áreas evoluem tão aceleradamente que vão mudar a realidade e reconfigurar completamente a arquitetura do modo de vida da população mundial. O termo “singularidade” foi emprestado da física e é um termo que exprime aquilo que está além da nossa capacidade de cognição e previsibilidade.
O cientista e empresário Ray Kurzweil, escreveu, em 2006, o livro The Singularity is Near (A Singularidade Está Próxima) e virou palavra-chave entre os futurologistas que acreditam em um progresso científico ilimitado. Uma das destacadas pessoas a falar do impacto exponencial da tecnologia foi o engenheiro Gordon Moore, um dos fundadores da Intel, que formulou a conhecida Lei de Moore, mostrando que a capacidade de processamento dos chips dobra a cada 18 meses. Ou seja, é uma progressão geométrica que se aplicada a outras tecnologias têm o poder de multiplicar a produtividade da economia. Eles argumentam que a humanidade terminará o atual século muito diferente de como começou.
A Singularidade Tecnológica aponta alguns possíveis caminhos para a explosão tecnológica: Biotecnologia e pessoas pós-humanas – com a engenharia genética a doenças serão curadas e a capacidade do cérebro será elevada ao extremo além de nos ligar a computadores para unir a nossa criatividade à capacidade de processamento deles. O avanço será tão impressionante que será o fim da humanidade e o começo de uma nova Era Transumana (Trans-humana). O Transumanismo vai usar as novas tecnologias disponíveis para aumentar consideravelmente as capacidades intelectuais, físicas e psicológicas das pessoas (mas sobre o transumanismo falaremos em outro artigo).
Os avanços das telecomunicações e da capacidade de transmitir informações aumentará os ganhos de inteligência e no futuro, haverá meios de comunicação mais eficazes que a escrita e a fala. Com a nanotecnologia e a robótica aumenta a possibilidade de se criar máquinas capazes de se fundir a sistemas orgânicos e estender as nossas capacidades ou realizar bens e serviços e acelerar o desenvolvimento. Outra possibilidade da nanotecnologia é construir objetos átomo por átomo, chegando ao ponto de montar um cérebro humano artificial ou até mesmo uma pessoa por inteiro (transumana).
Ainda para a Singularidade Tecnológica o avanço dos computadores e da Inteligência Artificial possibilitaria que as máquinas evoluíssem na mesma velocidade que os processadores evoluem hoje. A princípio, a capacidade deles dobraria a cada 18 meses. Mas como serão mais rápidos, passarão a dobrar a cada nove meses, daí 4,5 meses e, umas gerações depois, chegará a singularidade absoluta.
O livro The Second Machine Age: Work, Progress, and Prosperity in a Time of Brilliant Technologies (2016) de Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee se encaixa nesta linha da Singularidade e é fundamentalmente otimista em relação ao progresso tecnológico, social e econômico do mundo. Eles acreditam no poder da tecnologia e consideram que as políticas públicas e a iniciativa privada devem preparar as pessoas para a nova Era econômica de progresso que mudará radicalmente a paisagem do mundo. No reino da Singularidade não haveria estagnação, rendimentos decrescentes e escassez. Singularidade também não combina com guerras e destruição como ocorre na Síria, uma das mais antigas civilizações do mundo.
Evidentemente este debate está aberto. Ninguém é capaz de prever com certeza o futuro. Não sabemos se o mundo vai ficar preso à estagnação secular e à baixa produtividade (como os últimos dados apontam) ou se estamos apenas iniciando um grande Era de progresso e avanço sem precedentes na história humana. Pretendo voltar mais vezes a estes assuntos. Mas por enquanto, vale a pena ver o debate entre Robert Gordon e Erik Brynjolfsson em uma palestra TED (ver link abaixo), ocorrida em 2013. Este debate é um bom exemplo sobre as alternativas que a humanidade tem pela frente.
Referências:
Martin Neil Baily and Nicholas Montalbano. Why is us productivity growth so slow? Possible explanations and policy responses, The Brookings Institution, Hutchins Center Working Paper #22 September 2016
Robert Gordon and Erik Brynjolfsson debate the future of work at TED 2013


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 19/10/2016

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

ECONOMIA BRASILEIRA: CRISE CONJUNTURAL OU ESTRUTURAL?

O economista Humberto Dalsasso* reflete sobre a crise econômica e possíveis saídas para ela.

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Quando se visualiza a história da economia no mundo, verifica-se que, praticamente, todos os países, em diferentes momentos, passam por alguma crise. Nas décadas mais recentes o fenômeno se apresentou com maior frequência. Quando se procura interpretar a crise, dois tipos são característicos: Crise Conjuntural ou Crise Estrutural.

A Crise Conjuntural, quando tratada oportunamente, pode caracterizar-se como “uma marolinha”. Porém, se não tratada adequada e oportunamente, pode transformar-se numa “Crise Estrutural”, como foi o caso brasileiro, passando a exigir grandes esforços para superação.

A Crise Estrutural fragiliza os pilares da economia, exigindo, para correção, adequadas estratégias e táticas. A estratégia delineia “O que fazer” e a tática “Como fazer”, as quais vão se modificando a cada momento em que os fatos e a realidade vão se alterando. Não há uma estratégia de vida eterna. Mas as alterações precisam ser adequadas e consistentes.

O caso brasileiro nestes anos do Século XXI é significativo para os governantes que decidam dar uma rota adequada para o País, não apenas um panorama demagógico e de interesse político, mediante medidas populistas.

Não se desconhece a necessidade de inclusão das categorias excluídas mas, enquanto se concedem benefícios benevolentes temporários, a capacitação é necessária para que os beneficiários incorporem a habilitação para tornarem-se capazes no mercado de trabalho e empresarial.  Aí, então, esses benefícios de transformação integram o mercado de trabalho, restando nos benefícios apenas os idosos, doentes e deficientes.  Do contrário, o benefício generalizado e permanente, embora tenha dividendos políticos, apenas estimula a preguiça e detona as contas públicas, principalmente se somado à corrupção generalizada.

O momento por que passa a economia brasileira exige profunda e sensata reflexão, visto que estamos numa verdadeira crise estrutural.

E elevada e onerosa dívida pública, resultante de erros de gestão, cobrará dos brasileiros altos dividendos. A alta carga tributária não dá espaço para a elevação dos impostos. O elevado custo da dívida pública e dos gastos governamentais dificultam a solução via crédito. É necessário buscar a racionalização, não só reduzindo o tamanho da máquina pública – executivo, legislativo e judiciário - , sendo emblemática a dimensão do legislativo(câmara dos 531 deputados). Se o número de deputados for menor e que, cada um tenha uma pequena equipe técnica, disponibilizando-se uma equipe básica que atenda a todos, poder-se-á reduzir brutalmente o gasto.  A isto somam-se os estados e municípios.

Aumentar a eficácia do poder público é fundamental para revigorar a economia brasileira, direcionando-a não apenas ao crescimento mas, também, ao desenvolvimento, preservando seus recursos estratégicos. O País tem invejável riqueza. Mas a inadequada cultura de apropriação, que foi semeada pela viciada cultura portuguesa, destacando-se D. Pedro que, ao retornar a Portugal(1829), sacou os cofres públicos, detonando o Banco do Brasil, levando ouro e moedas.
Estamos num outro momento e precisamos mudar. Os desafios do atual presidente do País são grandes e poderão exigir sacrifícios. Mas agir é necessário e possível.  Conduzir o País ao equilíbrio e à moralidade é necessário e possível. Chegando lá, poder-se-á melhorar a eficácia, reduzindo a carga tributária, facilitando a competitividade e a expansão dos mercados.
Fácil não é. Mas é possível. É preciso acreditar.

_______ 
(*) Economista, Consultor Empresarial de Alta Gestão.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

A Conferência HABITAT III: As Cidades E A Elevação Do Nível Do Mar

Artigo De José Eustáquio Diniz Alves

“When you ain’t got nothing you got nothing to lose”
Like a Rolling Stone, Bob Dylan

população total e população urbana, Mundo: 1950-2050

Começa nesta segunda-feira, dia 17 de outubro de 2016, a Terceira Conferência das Nações Unidas sobre Moradia e Desenvolvimento Urbano Sustentável – HABITAT III. Será a primeira Conferência Global desde o início da Agenda Pós-2015 na ONU. É uma oportunidade para debater os desafios da urbanização e os problemas econômicos, sociais e ambientais do mundo.
Como mostra o site da ONU, a Conferência HABITAT I ocorreu em Vancouver, em 1976, quando os governos começaram a reconhecer a necessidade de assentamentos humanos sustentáveis diante do rápido crescimento das cidades. Os compromissos assumidos em Vancouver foram confirmados 20 anos depois na conferência HABITAT II, ocorrida em Istambul. Quarenta anos depois de Vancouver e 20 anos depois de Istambul, há consenso de que houve avanço, mas também cresceram os problemas a serem enfrentados.
O gráfico acima mostra que a população total do mundo era de 2,5 bilhões de habitantes, sendo que 746 milhões moravam nas cidades. Em 2015 a população mundial passou para 7,4 bilhões de pessoas, sendo 3,96 bilhões de pessoas no meio urbano. Para 2050, a projeção da Divisão de População da ONU aponta para uma população total de 9,7 bilhões, sendo 6,4 bilhões de pessoas nas cidades. Ou seja, a população urbana em 1950 era menos de um terço (29,6%), passou para mais da metade em 2015 (53,8%) e deve chegar próximo a dois terços (65,2%) em 2050. O crescimento da população urbana será de quase 9 vezes em 100 anos.
O renomado demógrafo George Martine (2007), um dos maiores estudiosos da transição urbana no mundo, considera que a urbanização pode e deve ser uma força para a melhoria do bem-estar da população e que a concentração urbana, em geral, traz mais ganhos do que a dispersão horizontal nas cidades e no campo. Ele coordenou a elaboração do relatório do UNFPA, “Desencadeando o Potencial do Crescimento Urbano” (Martine, 2007), onde chama a atenção para a inevitabilidade do crescimento das cidades e para as potencialidades que os aglomerados urbanos podem trazer para a erradicação da pobreza e para a maior eficiência no uso da energia e dos recursos naturais.
De fato, desde o início da Revolução Industrial e Energética, a urbanização tem sido a grande força impulsionadora do desenvolvimento, da redução da pobreza, da transição demográfica e dos avanços das políticas de bem-estar. Mas evidentemente, há cidades e há “amontoados urbanos”. Há cidades com alto nível de vida, boas condições de mobilidade espacial e grande mobilidade social ascendente. Mas também há cidades onde predominam os problemas, as favelas e a pobreza. A falta de saneamento básico, a poluição, os lixões e os resíduos sólidos são grandes desafios a serem enfrentados nos países em desenvolvimento.
Mas o grande desafio que as cidades vão enfrentar nas próximas décadas virá do aquecimento global e da elevação do nível do mar. Grandes cidades do mundo estão no litoral e na foz de grandes rios, como Xangai, Londres, Lagos, Recife, etc. A subida dos oceanos pode inundar grandes áreas destas cidades, obrigando o deslocamento de centenas de milhões de pessoas e afetando a vida de outros bilhões de habitantes que dependem da infraestrutura de portos e aeroportos das zonas costeiras.
Infelizmente, a maioria dos países não tem reconhecido a gravidade do problema do avanço do mar e dos fenômenos climáticos extremos que vão potencializar os estragos das tempestades, tormentas, ciclones, etc. O furacão Matthew que atingiu várias ilhas do Caribe (matando mais de mil pessoas no Haiti) e a costa leste dos Estados Unidos (gerando grandes prejuízos materiais), neste mês de outubro de 2016, foi apenas um alerta sobre a fúria da natureza provocada pelo efeito estufa decorrente das emissões de gases gerados pelas atividades antrópicas.
Segundo relatório do Banco Mundial (2016), nos 30 anos entre 1976-1985 e 2005-2014, os danos causados por desastres naturais aumentou dez vezes, custando agora mais de US$ 140 bilhões por ano (média ao longo do período de 10 anos). Enquanto isso, o número de pessoas afetadas no mundo passou de 60 milhões por ano para mais de 170 milhões.
Mas se os desastres aumentaram nos últimos 30 anos eles tendem a ficar piores nas próximas décadas. O mesmo relatório do Banco Mundial afirma que a população que será afetada pelas mudanças climáticas alcançará a cifra de 1,3 bilhão de pessoas em sério risco e causará prejuízos de US$ 158 trilhões em ativos em perigo de inundação, até 2050.
A Terceira Conferência das Nações Unidas sobre Moradia e Desenvolvimento Urbano Sustentável (HABITAT III) deveria tratar estes problemas como uma prioridade absoluta. Porém, como mostra artigo de Amy Lieberman (14/10/2016), no jornal The Guardian, a Conferência carece de uma plataforma internacional para enfrentar a ameaça do aquecimento global. Os países-membros da ONU, com exceção de Tuvalu, Maldivas e outras ilhas do Pacífico ou do Caribe não estão totalmente preparados para enfrentar esta discussão e suas consequências.
Mas diante da gravidade das ameaças climáticas e da possibilidade de grandes cidades ficarem debaixo d’água, é possível que os participantes da Habitat III consigam estabelecer uma agenda para lidar com o avanço do nível do mar. A ética da responsabilidade exige um posicionamento firme da comunidade internacional.
Referências:


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 17/10/2016

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Por que Oliver Hart e Bengt Holmström ganharam o Prêmio Nobel de Economia 2016?

Por Raul Jaime Mestre - El Blog Salmón

Contribuições do Prêmio Nobel 2016

O Banco da Suécia decidiu atribuir o Prêmio Nobel de Economia deste ano a Oliver Hart e Bengt Holmström, por suas contribuições no campo da 'Teoria dos Contratos".
Nesta teoria se analisa como os contratos desenvolvem e seus diversos efeitos, especialmente no mundo dos negócios. Neste caso, eles têm estudado se os professores devem ter remuneração fixa ou variável, ou se um hospital deve ter uma gestão privada ou pública.
Eles também desenvolveram cenários de como definir a compensação para os executivos da empresa para beneficiar os acionistas e otimizar o valor a longo prazo para estes.
Podemos perguntar: Quem é Oliver Hart e Bengt Holmström? O que é a teoria dos contratos? Que contribuições fizeram Oliver Hart e Bengt Holmström a esta teoria?
Quem é Oliver Hart?
Oliver Hart Prêmio Nobel 2016
Oliver Hart nasceu em Londres em 1948 e tem cidadania norte-americana já que está vinculado academicamente desde a década de oitenta. Atualmente é professor de Economia na Andrew E. Furer na Universidade de Harvard, onde leciona desde 1993.
Formou-se em matemática na Universidade de Cambridge, mas mudou para a Economia, onde obteve seu doutorado pela Universidade de Princeton. Lecionou nas universidades de Essex e Cambridge, da Universidade da Pensilvânia, da London School of Economics e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).
O seu trabalho centrou-se na teoria dos contratos, a teoria da empresa, as finanças corporativas, o direito e a economia. O foco de sua pesquisa é o papel das estruturas de propriedade e acordos contratuais em governança corporativa.
As investigações realizadas levaram-no a ser um perito em dois processos legais do governo dos EUA. Oliver Hart é membro da Academia Americana de Artes e Ciências e da Academia Britânica.
Quem é Bengt Holmström?
Bengt Prêmio Nobel 2016
Bengt Holmström nasceu em Helsinque em 1949. Ele é professor de Economia e Gestão no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), onde dirigiu o Departamento de Economia entre 2003 e 2006.
Na Universidade de Helsinque, ele estudou matemática, física, física teórica e estatística e completou seu doutorado na Universidade de Starford em 1978.
Depois de trabalhar vários anos em empresas do setor privado no grupo A. Ahlstrom, sua carreira focou no campo da pesquisa acadêmica. Foi professor assistente na Escola Sueca de Economia e Administração de Empresas, no final dos anos 70 foi professor assistente de economia de negócios da Universidade Northwestern.
De lá foi para Yale, onde foi professor de Economia entre 1983-1994, antes de chegar ao Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), onde realiza pesquisas sobre a teoria dos contratos e incentivos.
Ele é membro da Academia Americana de Artes e Ciências e das principais academias científicas na Suécia e na Finlândia.

O que é a teoria dos contratos?

Os estudos a este respeito examinam como se pode fazer para melhorar a eficiência dos contratos. Ou seja, se trata de refletir sobre a posição de todas as partes envolvidas em um contrato e buscar o benefício de todas as partes.
Deve-se considerar que a economia funciona por meio de contratos, tais como contratos de hipoteca são executados, para fazer o seguro da casa, para pedir um empréstimo ou como opera o contrato de trabalho.
As investigações de Oliver Hart e Bengt Holmström são sobre como se deve definir o balanço das diferentes partes. Por exemplo, a teoria explica por que as empresas seguradoras nunca reintegram o valor total da casa que sofreu um incidente ou quando roubaram o nosso carro.
Portanto, a teoria estabelece os incentivos adequados para encorajar as várias partes sejam mais cuidadosas quanto possível para garantir que o incidente não aconteça.
Outro exemplo pode ser encontrado na remuneração dos gestores de grandes empresas que procuram após os interesses dos acionistas e não para maximizar os benefícios pessoais.
De acordo com pesquisa realizada pela Oliver Hart e Bengt Holmström, eles entendem que um proprietário do negócio novo ou empreendedor deve reinar sobre a empresa quando as coisas funcionam corretamente, mas os direitos dos investidores devem estar em falta quando o desempenho da empresa está se deteriorando.
Sua pesquisa também teve um efeito importante na decisão de quais áreas deve localizar uma empresa, ou que políticas públicas podem ser privatizadas e quais não.
Quais são as contribuições de Oliver Hart e Bengt Holmström?
Contribuições do Prêmio Nobel 2016

As contribuições de Oliver Hart concentram-se na impossibilidade de indicar em um contrato tudo o que poderia acontecer, por isso é necessário ter regras pré-estabelecidas gerais que deixem claro quais são os direitos de todas as partes envolvidas.
Quanto mais direitos tenham os contratos, mais incentivos haverão para investir na relação contratual. Quando focada em inovação e desenvolvimento, afirma que, o ideal, seria que os cientistas participem na propriedade, pois isso irá obter melhores resultados.
Por outro lado, as investigações de Bengt Holmström têm ajudado a melhorar a forma como os salários de serviços e oportunidades de promoção dentro dos contratos são liquidados.
Suas investigações concluem que não é possível vincular a renumeração de forma exclusiva ao comportamento dos títulos da empresa, porque seria como retribuí-los em função aleatória. Ou seja, em empresas com um risco elevado, recomendado ter uma estrutura de salário fixo.
Enquanto que trabalhadores que podem medir seu trabalho devem ser pagos em proporção direta ao seu esforço e desempenho.
Oliver Hart e Bengt Holmström consideram que a remuneração deve ser definida para não prejudicar o ensino de habilidades que não podem ser medidos. Ou seja, contratos ajudam a ser cooperativos e ter confiança.

Mais de 90% da população brasileira viverá em cidades em 2030

Expectativa foi informada à Rádio ONU por especialista do ONU-Habitat no Brasil; Conferência das Nações Unidas sobre Urbanização e Desenvolvimento Urbano Sustentável, Habitat III, começa nesta segunda-feira, em Quito, no Equador.
Foto: Banco Mundial/Curt Carnemark
Laura Gelbert, enviada especial da Rádio ONU a Quito.*
Mais de 90% da população brasileira devem viver em cidades no ano de 2030. Este também é o prazo para realização dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, ODSs.
A informação foi dada à Rádio ONU pela encarregado nacional do Programa da ONU para os Assentamentos Humanos, ONU-Habitat, no Brasil, Rayne Ferretti.
América Latina
"O Brasil está no continente mais urbanizado do mundo, que é a América Latina, e ele é o país mais urbanizado da região. De acordo com o último censo do Ibge de 2010, 84,4% da população brasileira é urbana. A previsão é para que em 2030 seja 91,1% da população brasileira e que em 2050, a América Latina seja 86% urbana."
A especialista falou com a Rádio ONU, do Rio de Janeiro, antes do início da Conferência das Nações Unidas sobre Urbanização e Desenvolvimento Urbano Sustentável, Habitat III, que começa nesta segunda-feira, em Quito, no Equador.
Desafios
Segundo Rayne Ferretti, a urbanização é vista como "uma oportunidade" e "um motor para o desenvolvimento", mas desafios ainda persistem.
Na região, ela citou desafios econômicos, "expansão desordenada", "segregação sócio-econômica", ambientais, além de questões relacionadas à saúde, segurança e efeitos da mudança climática.
Desigualdade
"São vários desafios que a gente vê não só no Brasil, como na nossa região. E a gente identifica algumas necessidades muito especiais para as cidades latino-americanas e caribenhas. A gente fala muito dos três Rs, do redesenvolvimento urbano, que seria regeneração, renovação e a reabilitação das nossas cidades. Trabalhar na inclusão e redução de desigualdades. A América Latina é ao mesmo tempo o continente mais urbanizado do mundo, é também o continente mais desigual do mundo e a gente não pode fechar os olhos para isso".
Ferretti citou ainda que as cidades latino-americanas são "muito construídas, com pouco espaço", diferente se como se vê ainda na África e na Ásia.
A Rádio ONU vai acompanhar a conferência com a repórter Laura Gelbert a partir desta segunda-feira em Quito.

Colômbia: uma luz brilhante se apaga

por Immanuel Wallerstein

A cena global tem sido miserável na última década, pelo menos, se não mais. O mundo está inundado por guerras, grandes e pequenas, que parecem tanto intermináveis quanto inextinguíveis; por crueldades terríveis sobre o qual os seus autores se vangloriam; e por ataques deliberados contra as chamados zonas seguras. Neste inferno na terra, tem havido apenas uma luz brilhante. O que era chamado desde 1948 la violencia na Colômbia parecia estar chegando ao fim.

A luta tomou forma desde 1964 de uma tentativa por um grupo camponês de guerrilha chamado Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, ou FARC), para derrubar o governo. O movimento de guerrilha enfrentou a feroz oposição do governo, com o apoio ativo dos Estados Unidos. Além disso, havia forças paramilitares não oficiais assassinas de direita, que tinha o apoio inconfessado do governo.

O que se tornou evidente na última década foi que nenhum dos lados era capaz de ganhar uma vitória militar total. O impasse e a fadiga de batalha que se seguiu levou cada lado a reconsiderar a sua posição de tudo ou nada e a entrar em negociações políticas. Como isso aconteceu?

Do lado do governo, um novo presidente foi eleito em 2010. Ele é Juan Manuel Santos, herdeiro de uma grande família latifundiária aristocrática e um ultra-conservador em sua política. Sob a presidência anterior de Alvaro Uribe, ele tinha sido o ministro da Defesa. Como tal, ele tinha levado uma grande ofensiva para acabar com as FARC. No entanto, era um realista e, uma vez eleito presidente, secretamente procurou negociações com as Farc.

No lado das Farc, uma sucessão paralela ocorreu. O número de zonas em que as FARC tinham de controle militar facto tinha sido reduzida. Dois líderes sucessivos tinham sido mortos. O mais recente líder, Rodrigo Londoño, conhecido pelo seu nome de guerrilha como Timochenko, também era um realista e também procurou as negociações.

As negociações secretas levaram a um anúncio, em outubro de 2012, que chegaram ao ponto de um acordo sobre um quadro de discussão. Eles concordaram em se reunir em Havana sob o patrocínio conjunto dos governos de Cuba e da Noruega, e com o apoio também do Chile e Venezuela. Essas negociações foram longas e difíceis, mas, um por um, foram alcançados compromissos sobre seis questões principais. Por isso, o governo colombiano e as FARC assinaram publicamente um acordo em 26 de Setembro, de 2016.

No entanto, antes de implementar o acordo, o governo colombiano apresentou  um plebiscito. O plebiscito foi a ideia de Santos, que considerou que a verdadeira paz necessária viria pela legitimação de uma votação popular. As FARC pensaram que era uma má ideia, mas não obstruiu a votação.

O presidente anterior, Alvaro Uribe, que se opusera alto a quaisquer negociações desde o início, levou a chamada para a votação no NÃO. As pesquisas indicavam uma vitória fácil para o SIM. No entanto, no plebiscito no dia 2 de outubro, o não obteve uma vitória muito estreita de 50,2 por cento. A Colômbia e o mundo tficaram em estado de choque desde então.

Por que as pesquisas antecipadas se equivocaram? Pode ter havido muitos fatores. Algumas pessoas podem ter mentido para os pesquisadores, não querendo admitir ser oposição a um acordo de "paz". Algumas pessoas eleitores do sim podem ter sido "preguiçosos" e não se preocuparam em votar porque as urnas indicaram uma vitória tão fácil para o sim. Inesperado mau tempo dificultou a votar em algumas áreas rurais pró-FARC. E talvez alguns eleitores do sim podem ter tido de última hora podem ter oscilado sobre permitir FARC para entrar no processo político. Apenas 37% dos eleitores um voto.

Seja qual for a explicação, todo o processo de paz tem sido abalado. Para a Colômbia, a questão é o que vem depois? Alvaro Uribe diz que não irá discutir qualquer coisa com as FARC. Ele insiste que o governo Santos retraia duas concessões importantes as FARC. Um deles tem a ver com clemência para os líderes das FARC para a violência passada. A segunda tem a ver com uma garantia para as FARC de alguns bancos sem direito de voto nas próximas duas legislaturas, uma proposta que permitiria uma FARC reorganizada para entrar no processo político legitimamente.

As FARC são menos intransigentes. Diz que está disposta a retomar as negociações com o governo Santos. E o governo Santos é claramente incerto sobre como (e sobre o que) ele pode conversar com Uribe, por um lado e as FARC, por outro.

A esta situação confusa o Comitê Nobel da Noruega entrou em cena com o seu prêmio em 7 de outubro do Nobel da Paz a Santos. Notemos várias coisas sobre este prêmio. Em primeiro lugar, a decisão foi tomada antes do plebiscito. O prêmio foi, portanto, de uma conquista que não foi efetivamente se realizou. O prêmio refletiu sentimento generalizado em todo o mundo.

Em segundo lugar, esta foi uma concessão feita somente a ele e não ao seu parceiro de negociação, Londoño. Isso é muito incomum. Nos outros seis vezes desde 1945 em que o prêmio foi atribuído por um acordo de paz, sempre foi atribuído conjuntamente com a figura de proa de cada lado. Foi o Comitê Norueguês do Nobel hesitante para incluir Londoño, porque eles sentiram que era muito delicado um problema? Não poderia ter sido mais perturbador para algumas pessoas do que dar o prêmio a Arafat em 1994 ou para Henry Kissinger em 1973.

O prêmio para Santos fortalece sua mão? Um pouco, mas eu não posso imaginar que Uribe esteja pronto para fazer concessões sérias agora que ele ganhou o plebiscito. As FARC parecem mais dispostas a discutir o assunto. E o que complica a questão é o fato de que um outro movimento de guerrilha menor - o Exército de Libertação Nacional (Exército de Libertação Nacional, ou ELN) ainda nem começou negociações com o governo. O resultado do plebiscito reforça aqueles dentro do ELN que são contra qualquer negociação em tudo.

Francamente, não vejo qualquer forma de o acordo de paz poder ser salvo. A luz brilhante excepcional da Colômbia se apagou. A Colômbia é agora como todas as outras áreas do interminável conflito. Então eu digo para Santos e Londoño: Boa tentativa, mas você não conseguiram. A situação mundial caótica continua inabalável no que eu lembro é a luta para decidir sobre o sistema sucessor do sistema capitalista que está em crise sistêmica.