"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Suíça termina o seu sigilo bancário

por Marc Fortuño - El Blog Salmón
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2017 é um ano particularmente relevante para um país como a Suíça, pois entra em vigor a Convenção Internacional sobre a troca automática de informações, ou seja, o ponto final ao assim chamado sigilo bancário que tem caracterizado o país helvético.
Com a ajuda de novas normas globais para a troca automática de informações, a evasão fiscal transfronteiriça é um objetivo a prevenir pelos Estados diferentes. A norma estabelece um acordo mútuo para trocar informações sobre contas financeiras entre os países que assinam. Em adição para a Suíça, cerca de 100 países, incluindo todos os principais centros financeiros, adotaram estes regulamentos.
Esta conversão significa que a Suíça logra alcançar exigências globais em matéria fiscal. Com isso se conseguirá a informação financeira sobre contas bancárias em certos países na Suíça que serão compartilhados anualmente. Portanto, a Suíça vai começar a agrupar os dados a partir deste ano e começar a compartilhar com alguns países a partir do ano de 2018.

Por Suíça decide se livrar de sigilo bancário?

A muitos surpreender partir da Suíça uma predisposição para erradicar o seu sigilo bancário. A razão é simplesmente para evitar a perda de status como um centro financeiro mundial, de modo que em 2014 a Suíça assinou a convenção e, em seguida, em 2015, o acordo foi aprovado pelo Parlamento e ratificado no ano passado.
Anteriormente, a Suíça facilitava somente a informação bancária se outro país solicitasse anteriormente no relacionamento bilateral estabelecidao por um acordo para evitar a dupla tributação.
Mesmo naquela época o compartilhamento de informações bancárias não era totalmente garantida para a cooperação. Pois o país requerente devia apresentar provas diferente sobre a evasão fiscal por pessoas perfeitamente identificáveis e não com base em mera suspeita.
hsbc
Entre outras dificuldades para a cooperação será saber se havia alguma evidência de informação recolhida ou roubada ilegalmente. Este foi o pressuposto salpicou  a entidade HSBC chamada "Swiss Leaks" em que a Suíça recusou qualquer tipo de cooperação para enfrentar as revelações de documentos.

Quais são os efeitos práticos das novas regras?

Os países que assinaram o acordo com a Suíça não vão precisar de uma estrutura burocrática, solicitando informações sobre contas bancárias suíças de seus respectivos cidadãos. Todos os dados que têm a ver com contas bancárias são automaticamente entregues uma vez por ano para os estados para implementar maiores esforços para processar a fraude fiscal.
No entanto, esta informação não pode ser tornada público, mas será interna de cada um dos países. Os beneficiários deste países do acordo incluídos na maioria dos países europeus e de outros países nas economias desenvolvidas ou Itália, Japão, Canadá e Coreia do Sul. Os países em desenvolvimento é como a Índia, Brasil, México, Argentina e África do Sul irá substituir o sigilo bancário dentro de um ano
E, em muitos países pobres o acesso à informação bancária não é conhecida porque não qualifica para a troca necessária na informação que implica uma capacidade para recolher e partilhar as informações sobre os ativos financeiros de cidadãos suíços residentes no país e uma garantia adicional de que tais informações fornecidas pela Suíça vão ser usadas somente com um objetivo puramente fiscal, mantendo a confidencialidade .

História do sigilo bancário

O sigilo bancário tem sido um dos pilares básicos para uma economia aberta como a Suíça, porque o sigilo bancário levou-a a atrair grandes somas de capital. E no início do século XX, descobrimos que os bancos suíços foram incapazes de competir com as grandes centros bancários, como Londres, Paris ou Berlim.
Neste contexto, as autoridades suíças foram anunciadas como paraísos fiscais e vendeu a sua capacidade para ajudar a fugir aos impostos locais na França. Com a Primeira Guerra Mundial a tradição magnética da Suíça para atrair capital foi reforçada como um refúgio natural do ambiente de guerra foram considerados.
Em 1932, a França aproveitou os registros de agências bancárias suíças em Paris, que revelou enormes quantidades de francos escondidos no outro lado da fronteira. Por conseguinte, para salvaguardar a capacidade de esconder o dinheiro, independentemente da porta, Suíça impulsionado estrita lei de sigilo bancário.
Da mesma forma, na Alemanha, uma lei que fez manter o capital estrangeiro (banco suíço) como um crime punível até que foi aprovada a pena de morte. Na verdade, vários criminosos estavam sendo executados pela Alemanha, porque os bancos suíços estavam sob o radar da Gestapo e até mesmo judeus também foram perseguidos por suposta "fraude fiscal".
Mas a Suíça  não desviou-se da sua longa tradição de neutralidade (proclamada em 1815), sobre a não-interferência e independência, valores mantidos firmemente ao longo das duas guerras mundiais.
Portanto, a lei do sigilo bancário em 1934 foi criada para proteger os bancos suíços afetados pela depressão que ajudou a manter uma banca competitivo em relação a outros concorrentes estrangeiros como eles poderiam ser a França e a Alemanha tentando parar a circulação de capitais para a Suíça para acabar com a evasão fiscal em seus próprios países.
Em 1984, a Suíça realizou um referendo para uma emenda constitucional, que procurou para abrir registros bancários às autoridades fiscais. Mas ele foi derrotado por uma esmagadora 73% dos inquiridos que votaram a favor do sigilo bancário .

O Isolamento dos EUA

Noam Chomsky reflete sobre Israel, Trump e a Nova Ordem Mundial, uma aliança entre estados autoritários que se parece estar a estruturar.

por Noam Chomsky

Assembleia Geral da ONU
Assembleia Geral da ONU
A 23 de dezembro de 2016, o Conselho de Segurança da ONU passou a Resolução 2334 por unanimidade, com a abstenção dos EUA. A Resolução reafirmou "que a política e práticas de Israel em estabelecer colonatos na Palestina e outros territórios Árabes ocupados desde 1967 não tem legitimidade legal e constitui uma séria obstrução para alcançar uma paz justa e compreensiva no Oriente Médio. Chama novamente Israel, como país ocupante, a cumprir escrupulosamente a Quarta Convenção de Genebra (1949), a rescindir as medidas anteriores e a desistir de tomar qualquer ação que pudesse resultar numa alteração de estatuto legal ou natureza geográfica e afetar materialmente a composição demográfica dos territórios árabes ocupados desde 1967, incluindo Jerusalém, e, em particular, para não transferir parte da população civil para os territórios árabes ocupados."
Reafirmou. Uma palavra com alguma importância.
É importante reconhecer que a Resolução 2334 não tem nada de novo. A citação aqui referida é da Resolução 446, de 12 de março de 1979, reiterada na essência na 2334. A Resolução 446 passou com 12 votos contra zero e abstenção dos EUA, do Reino Unido e da Noruega. A diferença essencial hoje é que os EUA estão sozinhos contra o resto do mundo, e isso é um mundo de diferença. As violações das ordens do Conselho de Segurança da ONU por parte de Israel, e violações da lei internacional, são hoje bastante mais radicais do que em 1979 e estão a levantar maior repúdio em boa parte do mundo. Os conteúdos da Resolução 446-2334 devem por isso ser levados mais seriamente. Daí a reação intensa contra a 2334, tanto a cobertura como o comentário; e em Israel e nos EUA, histeria considerável. Estes são indicadores evidentes do isolamento dos EUA no palco mundial. Sob Obama. Com Trump, o isolamento dos EUA irá provavelmente aumentar ainda mais, e de facto, já o fez, ainda antes de assumir a presidência.
A iniciativa de Trump que mais contribuiu para aprofundar o isolamento dos EUA aconteceu a 8 de novembro, quando ele ganhou duas vitórias. A vitória menor foi nos EUA, onde ganhou o colégio eleitoral. A vitória maior foi no Marraquexe - Marrocos, onde cerca de 200 nações estavam reunidas para tentar introduzir algum conteúdo nos acordos de Paris de dezembro de 2015 sobre alterações climáticas, acordos que foram deixados como intenções e não compromissos firmes devido à recusa do Congresso dominado pelo Partido Republicano.
Enquanto os votos eleitorais eram contados a 8 de novembro, a conferência em Marraquexe afastou-se do seu programa substantivo para a questão de saber se era sequer relevante lidar com uma severa ameaça de catástrofe ambiental agora que o país mais poderoso na história se demitiu das suas responsabilidades. Isso, seguramente, foi a maior vitória de Trump a 8 de novembro, um momento realmente pivotal. O mundo coloca as suas esperanças na liderança da China agora que o Líder do Mundo Livre declarou que não só irá se irá retirar dos acordos como, com a eleição de Trump, irá acelerar dramaticamente a corrida para o desastre.
Um espetáculo alucinante, que aconteceu quase sem qualquer comentário.
O facto de que os EUA estão sozinhos em rejeitar o consenso internacional reafirmado pela Resolução 2334, perdendo o Reino Unido sob a liderança de Theresa May, é outro sinal de crescente isolamento dos EUA.

Exatamente porque razão Obama escolheu a abstenção em vez do veto é uma questão em aberto: não temos provas diretas. Mas temos algumas explicações plausíveis. Tinha havido algumas reações de surpresa (e ridículo) após o veto de Obama em fevereiro de 2011 à Resolução da ONU que definia a implementação de política oficial dos EUA, e ele pode ter sentido que seria demasiado repetir um momento semelhante se quer salvar alguma parte do seu legado entre setores da população com alguma preocupação por direito internacional e direitos humanos. É útil relembrar que entre os Democratas liberais, por oposição ao Congresso, e particularmente entre os jovens, opinião sobre Israel e Palestina tem evoluído nos últimos anos para a crítica às políticas de Israel, de tal forma que o núcleo de apoio a Israel nos EUA transferiu-se para a extrema-direita, incluindo a base eleitoral evangélica do Partido Republicano. Talvez estes tenham sido os fatores que alteraram a posição de Obama.
A abstenção de 2016 suscitou furour em Israel e no Congresso dos EUA também, incluindo Republicanos e Democratas, com propostas para retirar o financiamento à ONU em retaliação pelo "crime". O primeiro-ministro israelita Netanyahu denunciou Obama pelas suas ações "anti-Israel". O seu gabinete acusou Obama de "manobrar" nos bastidores esta "emboscada" no Conselho de Segurança, produzindo "provas" que dificilmente poderão ser consideradas sequer humorísticas. O oficial israelita de topo acrescentou que a abstenção "revelou a verdadeira face da administração Obama", e que "agora podemos compreender com o que estivemos a lidar nos últimos oito anos".
A realidade é um pouco diferente. De facto, Obama ultrapassou todos os recordes no apoio a Israel, tanto diplomaticamente como financeiramente. A realidade é descrita com precisão pelo especialista do Financial Times no médio oriente, David Gardner: "As relações pessoais entre Obama e Netanyahu podem ter sido venenosas, mas ele foi o mais pró-Israel de todos os Presidentes dos EUA: o mais pródigo com ajuda militar e consistentemente utilizando o veto dos EUA no Conselho de Segurança... A eleição de Donald Trump até agora trouxe pouco mais do que tuítes virulentos sobre alguns assuntos geopolíticos. Mas os augúrios são ominosos. Um governo irredentista em Israel e inclinado para a extrema-direita é agora apoiado por uma administração populista e islamofóbica em Washington."
Num comentário interessante e revelador, Netanyahu denunciou a "emboscada" do mundo como prova de "preconceito do velho mundo contra Israel", uma frase reminiscente dos comentários de Donald Rumsfeld sobre a distinção entre a "Velha Europa - Nova Europa", em 2003.
Devemos relembrar que os estados da Velha Europa era os maus, os principais estados europeus, que se derão à arrogância de respeitarem a esmagadora maioria da opinião das suas populações recusando juntar-se aos EUA no crime do século, a invasão do Iraque. Os estados da Nova Europa eram os bons, que ignoraram uma maioria de opinião ainda maior e obedeceram ao seu dono [os EUA]. O mais digno dos "bons" foi José Maria Aznar, primeiro-ministro de Espanha, que ignorou oposição popular unânime contra a guerra e foi recompensado com a honra de participar no anúncio da invasão em conjunto com Blair e Bush.
Esta demonstração transparente de total desprezo pela democracia passou virtualmente sem cobertura noticiosa, compreensivelmente. A tarefa na altura era glorificar Washington pela sua apaixonada dedicação pela democracia, como ilustrado pela "promoção da democracia" no Iraque, que subitamente se tornou na linha correcta após a "única questão relevante" (vai ou não Saddam entregar as armas de destruição maciça?) ter sido respondida no sentido inverso ao desejado.
Netanyahu está a adotar muito da mesma posição. O velho mundo que tem um preconceito contra Israel corresponde a todo o Conselho de Segurança da ONU; mais especificamente, corresponde a qualquer pessoa no mundo com o menor respeito por lei internacional e direitos humanos. Para sorte da extrema-direita israelita, isso exclui o Congresso dos EUA e - publicamente - o Presidente-eleito e os seus associados.
O governo israelita está, obviamente, consciente destes desenvolvimentos. Por isso, está ativamente a procurar transferir a sua base de apoio para estados autoritários como Singapura, China ou a Índia da direita nacionalista Hindu, que se torma agora um aliado natural com a sua deriva para o ultranacionalismo, políticas internas reacionárias, e ódio ao Islão.
As razões pelas quais Israel procura apoio são explicitadas por Mark Heller, principal analista associado em Tel Aviv no Instituto de Estudos de Segurança Nacional. "No longo prazo," explica, "haverá problemas em Israel nas suas relações com a Europa ocidental e os EUA", enquanto que em contraste, os países asiáticos importantes "não apresentam grande interesse na forma como Israel se relaciona com os Palestinianos, Áraves, ou quem quer que seja." De forma breve, a China, Índia, Singapura e outros aliados favoritos são menos influenciados pelos tipos de liberalismo e preocupações humanas que representam uma ameaça crescente para Israel.
As tendências dos países em desenvolvimento merecem alguma atenção. Como notado, os EUA estão a tornar-se cada vez mais isolados nos últimos anos, quando sondagens dirigidas pelos EUA - não noticiadas nos EUA mas seguramente conhecidas em Washington - revelaram que a opinião mundial olhava para os EUA como a maior ameaça mundial à paz, ninguém sequer se aproximava. Sob Obama, os EUA estão agora sozinhos na abstenção sobre os colonatos israelitas, contra a unanimidade do Conselho de Segurança da ONU.
Com Trump e os seus apoiantes de ambos os partidos no Congresso, os EUA ficarão ainda mais isolados no mundo no apoio aos crimes israelitas. Desde 8 de novembro, os EUA isolaram-se no assunto ainda mais importante de aquecimento global. Se Trump cumpre a sua promessa de quebrar o acordo com o Irão, é provável que os outros participantes persistam, deixando os EUA ainda mais isolados em relação à Europa.
Os EUA estão igualmente mais isolados do seu "quintal" da América do Sul do que no passado, e estarão mais isolados se Trump recuar nos passos de normalização das relações com Cuba lançado por Obama, passos tomados para evitar a provável exclusão de todas as organizações do hemisfério por causa do seu assalto continuado a Cuba, em total isolamento internacional.
O mesmo se passa na ásia, onde mesmo aliados próximos dos EUA (exceto o Japão), mesmo o reino Unido, se juntam ao Banco de Desenvolvimento Asiático de Infraestruturas, com sede na China, e à Parceria Económica Regional liderada pela China e, neste caso, incluindo o Japão. A Organização de Cooperação de Shanghai (OCS) (chinesa igualmente) incorpora os estados centro-asiáticos, a Sibéria com os seus recursos, a Índia, o Paquistão e, mais tarde ou mais cedo, o Irão e mesmo a Turquia. A OCS tem rejeitado os pedidos dos EUA para obter estatuto de observador e exigiu que os EUA removam todas as suas bases militares da região.
Imediatamente após a eleição de Trump, testemunhámos o espetáculo curioso da Chanceler Angela Merkel a tomar a liderança numa lição a Washington sobre valores liberais e direitos humanos. Entretanto, desde 8 de novembro, o mundo olha para a China para liderança em salvar o mundo da catástrofe mundial, enquanto os EUA, em esplêndido isolamento novamente, se prepara para minar estes esforços.
O isolamento do EUA não está completo, obviamente. Como foi deixado claro na reação de Trump à vitória eleitoral, os EUA apoiam entusiasticamente a extrema-direita na Europa, incluindo elementos neo-fascistas. O retorno da extrema-direita em partes da América do Sul oferece oportunidades de aliança também. E, claro, os EUA mantêm uma aliança sólida com as ditaduras do Golfo e com Israel, que também se separa dos setores mais liberais e democráticos na Europa e se aproxima de regimes autoritários que não estão preocupados com as violações de Israel sobre lei internacional ou ataques ferozes a elementares direitos humanos.
Os últimos desenvolvimentos sugerem a emergência de uma Nova Ordem Mundial, totalmente diferente dos retratos usuais dentro das doutrinas em vigor.
Artigo publicado em ZNet
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Condorcet, Thomas Paine e a renda básica de cidadania


Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

Condorcet e Thomas Paine
Marie Jean Antoine Nicolas de Caritat (1743-1794), conhecido como Marquês de Condorcet, foi um filósofo, matemático, iluminista e revolucionário francês. Ele escreveu o influente livro “Esboço de um quadro histórico dos progressos do espírito humano” entre julho de 1793 e março de 1794, refugiado na casa de amigos, em Paris. Adotando a concepção otimista contida na Enciclopédia de Diderot e d’Alambert, ele compartilha a visão de que a história da humanidade é marcada por diversas etapas de desenvolvimento que se sucedem de maneira progressiva, mesmo que não linear, através da superioridade dos estágios posteriores em relação aos anteriores. A chave desse progresso seria o predomínio da razão humana e sua vitória sobre o preconceito, o fatalismo, as crenças e as superstições. Para Condorcet “o homem é um ser indefinidamente perfectível” sendo que a possibilidade de avanço da civilização adviria do desenvolvimento dessa “perfectibilidade humana”.
Condorcet era pacifista, defendia o progresso da ciência, a educação universal, o avanço tecnológico, a produtividade agrícola e se destacou na defesa da equidade de gênero e no direito de voto feminino. Como matemático e atuário ele inovou ao propor um sistema de proteção social e de aposentadoria e pensões: “(…) assegurando àquele que atinge a velhice um auxílio produzido por suas economias, mas aumentado por aquela dos indivíduos que, fazendo o mesmo sacrifício, morrem antes do momento de precisar recolher seu fruto; por uma compensação semelhante, conseguindo para as mulheres, para as crianças, no momento em que perdem seus esposos ou seus pais. É à aplicação do cálculo às probabilidades da vida, aos investimentos de dinheiro, que se deve a ideia desses meios”.
Thomas Paine (1737-1809), nascido na Inglaterra, foi um pensador radical, inventor, intelectual e revolucionário, sendo um dos Pais Fundadores dos Estados Unidos da América e também uma das lideranças da Convenção Nacional na Revolução Francesa. Seu livro Common Sense (1776) se tornou um grande best seller e foi fundamental para a Independência dos EUA. Na França publicou o livro Rights of Man (1791), defendendo os ideais Iluministas e The Age of Reason (1794), onde advoga a filosofia Deísta, critica as religiões institucionalizadas e argumenta em defesa da razão e do livre pensar. Ainda na França, escreveu o livro Agrarian Justice (1795), onde reflete sobre as origens da propriedade e o direito que todas as pessoas deveriam possuir sobre os frutos do uso e produção da terra. Ele introduziu, de maneira inovadora, o conceito de renda mínima.
Thomas Paine se posicionou contra a renda da terra apropriada por uma elite de latifundiários. Ele dizia que a Terra, em seu estado natural e silvestre era – e nunca deveria ter deixado de ser – propriedade comum da raça humana (ele não chegou a argumentar em defesa das demais espécies vivas do Planeta e dos direitos intrínsecos da natureza). Ou seja, ele defendeu a equidade social, mas não argumentou em favor da equidade ecológica. Mas, para as condições da época, ele foi um revolucionário ao defender a ideia de que a renda fundiária deveria ser repartida por toda a população (sem distinção de classe, gênero, idade, etc.) e não somente de uma minoria de proprietários que usurparam a posse comum das terras.
Thomas Paine e o Marquês de Condorcet faziam parte de um grupo de pensadores revolucionários do final do século XVIII que incluía William Godwin (1756-1836) – autor do famoso livro “Inquérito acerca da Justiça Política” – e Mary Wollstonecraft (1759-1797) – autora do admirável livro “Reivindicação dos direitos da mulher”, marco do feminismo moderno. O casal teve uma filha Mary Wollstonecraft Godwin (1797-1851), que passou a ser conhecida mundialmente como Mary Shelley, autora dos revolucionários livros “Frankenstein: ou o Moderno Prometeu” (1818) e “O último homem” (1826).
Estes autores fazem parte da história da luta pela cidadania e deram grandes contribuições para a discussão sobre a Renda Básica de Cidadania, para a democracia e o empoderamento do conjunto das forças populares. Mais de 200 anos depois, Condorcet e Thomas Paine continuam atuais e a conquista da cidadania ainda é uma meta a ser atingida no século XXI.
Hoje em dia a ideia da renda básica está na ordem do dia. Um projeto foi rejeitado na Suíça, mas outro foi aprovado na Finlândia. Em um programa-piloto que durará dois anos, 2.000 cidadãos finlandeses receberão a partir de janeiro 560 euros (1.920 reais) por mês somente. O argumento agora é que o “desemprego tecnológico” exige apoiar a população de outra maneira. Voltaremos a este assunto em outros artigos.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 06/01/2017

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

O mundo na era do Trump: o que podemos esperar?

por Immanuel Wallerstein


A previsão de curto prazo é a mais traiçoeira das atividades. Eu normalmente tento nunca fazer. Pelo contrário, eu analiso o que está acontecendo em termos de longue durée de sua história e as prováveis consequências no meio-tempo. Decidi, no entanto, fazer previsões de curto prazo desta vez por uma simples razão. Parece-me que todos em todos os lugares estão focados para o momento sobre o que vai acontecer agora no curto prazo. Parece não haver outro assunto de interesse. A ansiedade está no seu máximo, e precisamos lidar com ela.

Deixe-me começar dizendo que eu penso que 95% das políticas que Donald Trump irá prosseguir em seu primeiro ano ou em tempo similar no governo será absolutamente terrível, pior do que nós antecipamos. Isso pode ser visto já nas nomeações para o escalão principal que ele anunciou. Ao mesmo tempo, ele provavelmente vai se deparar com grandes problemas.

Este resultado contraditório é a consequência do seu estilo político. Se olharmos para trás como ele ganhou a presidência dos Estados Unidos, ele fez isso contra todas as probabilidades com uma determinada técnica retórica deliberada. Por um lado, ele constantemente fez declarações que responderam a grandes temores de cidadãos americanos usando linguagem codificada que os destinatários interpretaram como suporte para políticas que eles pensavam aliviar suas dores múltiplas. Ele fazia isso com mais freqüência, seja por meio de brincadeiras breves ou em comícios públicos rigorosamente controlados.

Ao mesmo tempo, ele era sempre vago sobre as políticas precisas que iria seguir. Suas declarações eram quase sempre seguidas de interpretações por grandes seguidores, e muitas vezes essas eram interpretações divergentes, até opostas. Com efeito, ele tomou o crédito pelas declarações fortes e deixou o descrédito para as políticas precisas para os outros. Foi uma técnica magnificamente eficaz. Ele conseguiu onde ele está e parece claro que ele pretende continuar esta técnica uma vez no cargo.

Houve um segundo elemento em seu estilo político. Ele tolerava a interpretação de qualquer pessoa, desde que constituísse um endosso à sua liderança. Se ele sentiu qualquer hesitação sobre endossá-lo pessoalmente, ele foi rápido para vingar-se atacando publicamente o infrator. Ele exigiu absoluta fidelidade, e insistiu que fosse exibido. Aceitava remorso arrependido, mas não ambiguidade sobre sua pessoa.

Parece que ele acredita que a mesma técnica o servirá bem no resto do mundo: retórica forte, interpretações ambíguas por sua variada panóplia de seguidores importantes e, no final, políticas reais bastante imprevisíveis.

Ele parece pensar que existem apenas dois países além dos Estados Unidos que importam no mundo hoje - Rússia e China. Como Robert Gates e Henry Kissinger apontaram, ele está usando a técnica Nixon em sentido inverso. Nixon fez um acordo com a China para enfraquecer a Rússia. Trump está fazendo um acordo com a Rússia para enfraquecer a China. Esta política pareceu funcionar para Nixon. Será que vai funcionar para Trump? Eu não penso assim, porque o mundo de 2017 é completamente diferente do mundo de 1973.

Então, vamos olhar para quais são as dificuldades para Trump. Em casa, sua maior dificuldade é, sem dúvida, com os republicanos no Congresso, especialmente aqueles na Câmara dos Deputados. Suas agendas não são a mesma de Donald Trump. Por exemplo, eles querem destruir o Medicare. Na verdade, eles querem revogar toda a legislação social do século passado. Trump sabe que isso poderia trazer uma revolta de sua base eleitoral atual, que querem o bem-estar social ao mesmo tempo em que querem um governo profundamente protecionista e uma retórica xenófoba.

Trump está contando com a intimidação do Congresso e tornando-o afim à sua linha. Talvez ele possa. Mas então as contradições entre sua agenda pró-ricos e sua manutenção parcial do estado de bem-estar se tornará flagrante. Ou o Congresso prevalecerá sobre Trump. E ele vai achar isso intolerável. O que ele faria a respeito disso é o palpite de qualquer um. Ele não se conhece a si mesmo, já que não enfrenta esse tipo de situação difícil até que precise.

A mesma coisa é verdade na geopolítica do sistema-mundo. Nem a Rússia nem a China estão prontas a recuar o mínimo das suas políticas atuais. Por que deveriam? Essas políticas têm funcionado para eles. A Rússia é mais uma vez uma grande potência no Oriente Médio e em todo o mundo ex-soviético. A China está lenta mas seguramente afirmando uma posição dominante no Nordeste e no Sudeste Asiático e aumentando seu papel no resto do mundo.

Sem dúvida, tanto a Rússia como a China enfrentam dificuldades de vez em quando e ambas estão prontas para fazer concessões oportunas a outros, mas não mais do que isso. Então Trump vai descobrir que ele não é o cão alfa internacionalmente a quem todo mundo deve dar reverência. E depois?

O que ele pode fazer uma vez que suas ameaças são ignoradas é outra vez uma incógnita. O que todo mundo teme é que ele aja precipitadamente com os instrumentos militares à sua disposição. Ele vai? Ou ele será contido por seu grupo interno imediato? Ninguém pode ter certeza. Todos nós podemos apenas esperar.

Assim está. Na minha opinião, não é um quadro bonito, mas não um desesperado. Se de alguma forma alcançarmos no ano que vem uma estabilidade provisória dentro dos Estados Unidos e dentro do sistema mundial como um todo, então o meio-termo assume analiticamente. E lá a história, embora ainda sombria, tem pelo menos melhores perspectivas para aqueles de nós que querem um mundo melhor do que o que temos atualmente.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

O envelhecimento se espalha pelo mundo

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

número de países com índice de envelhecimento superior a 100
O envelhecimento populacional ocorre quando a proporção de pessoas idosas aumenta muito em relação aos demais grupos etários da população. Nações envelhecidas são uma novidade na história. No passado, os países eram jovens, pois a esperança de vida era baixa e os casais tinham que gerar grande número de filhos para se contrapor aos óbitos precoces.
Porém, a partir do momento em que as taxas de natalidade e mortalidade declinam, começa um processo de mudança da estrutura etária, com redução imediata da base da pirâmide e um alargamento, no longo prazo, do topo da pirâmide. O envelhecimento é o resultado esperado e inevitável da transição demográfica.
Uma forma de medir o envelhecimento populacional é por meio do Índice de Envelhecimento (IE), que é a razão entre o número de pessoas idosas sobre os jovens (crianças e adolescentes). Trata-se de uma razão entre os componentes extremos da pirâmide etária. O IE pode ser medido pelo número de pessoas de 60 anos e mais para cada 100 pessoas menores de 15 anos de idade.

índice de envelhecimento (IE)

Um país é considerado idoso quando o topo da pirâmide é maior do que a sua base, isto é, um país idoso é aquele que tem um IE igual ou superior a 100. Como já dito, o envelhecimento populacional é um fenômeno novo na história da humanidade. Em 1975, havia apenas um país com a quantidade de idosos (60 anos e mais) maior do que a quantidade de jovens com menos de 15 anos. Este número passou para 3 países em 1980 e chegou a 52 países em 2015.
O primeiro país a atingir o Índice de envelhecimento superior a 100 (mais idosos do que jovens) foi a Suécia em 1975. Em seguida, em 1980, entraram no clube dos idosos a Alemanha e as Ilhas do Canal. Em 1985 foram mais sete países: Reino Unido, Suíça, Noruega, Luxemburgo, Dinamarca, Bélgica e Áustria. Somando 10 países com IE igual ou superior a 100. Em 1990 mais 2 países ultrapassaram o IE de 100: Itália e Grécia. Em 1995, entraram no time dos idosos: Japão, Espanha, Portugal, Hungria, França, Croácia e Bulgária.
No ano 2000, outros oito países tiveram os idosos superando os jovens: Rússia, Eslovênia, Romênia, Letônia, Finlândia, Estônia, República Checa e Bielo Rússia. Cinco anos depois, em 2005, entraram mais oito países: Sérvia, Polônia, Holanda, Malta, Hong Kong, Canadá, Bulgária e Bósnia Herzegovina. Em 2010, foram somente dois: Martinica e Geórgia.
Mas em 2015 o número de países idosos deu um salto de quinze países: Estados Unidos, Ilhas Virgens, Macedônia, Singapura, Moldova, Coreia do Sul, Porto Rico, Nova Zelândia, Montenegro, Chipre, Curaçao, Macau, Barbados, Aruba e Cuba. No total são 52 países com IE igual ou acima de 100, em 2015.
A China, o país mais populoso do mundo, vai ter o número de idosos (60 anos e +) acima do número de jovens com menos de 15 anos até 2020. O Brasil vai entrar para o time dos idosos até 2030.

Progressivamente, o número de países com IE acima de 100 vai se ampliar até atingir a totalidade dos países. A população mundial vai ter mais idosos (60 anos e mais) do que jovens (menos de 15 anos) em 2050.
O envelhecimento populacional é inevitável. Mais cedo ou mais tarde, todos os países terão mais idosos do que jovens. A diferença é apenas de ritmo. O mundo não tem outra coisa a fazer a não ser se preparar para esta nova realidade. Como disse Confúcio (551 a.C. – 479 a.C): “Você não pode mudar o vento, mas pode ajustar as velas do barco para chegar onde quer”.
José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 05/01/2017

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

A previsão do agravamento do caos econômico, fiscal e social em 2017


Os Deputados e Senadores criaram a dinâmica explosiva do crescimento do gasto público e deixaram nas mãos dos economistas Pedro Malan e Guido Mantega a responsabilidade de administrar o caos fiscal e econômico efeito da brincadeira com o câmbio e alta taxa de juro real. Assim, eles mantiveram a insustentabilidade da política fiscal brincando de aumento de superávit primário exclusivamente aumentando a receita e concomitantemente o gasto e contingenciando o investimento.

O colapso econômico já estava previsto nas estrelas apenas o Guido Mantega agravou o processo com o populismo fiscal e cambial aliada a farra dos endividamentos público e privado efeito do aumento das importações.

O exercício de 2017 começa com a grande preocupação para os Prefeitos, Governadores e Presidente da República qual vai ser o tamanho do estrago na receita com uma despesa que não há mínima condições de reduzi-la?

Quanto é o impacto da destruição da base tributária do ICMS, IPI e IRPJ com a produção da indústria automobilística voltando a 2006? Quanto será a destruição da base tribuária da renda com a perda de 3,136 milhões empregos de set. 2014 a novembro de 2016?

As projeções mais otimistas é uma perda de 1,3 milhão empregos efeito menor renda, menor consumo, menor produção, menor arrecadação e perda de empregos.

Não adianta fazer marketing com redução de carros comissionados, pois o cenário de abismo fiscal se agravará ainda mais efeito da projeção do agravamento da destruição da base tributária dos impostos vinculados a renda, consumo, serviços, lucros, produção.

A politica macroeconômica Kamikaze resultará em uma projeção de serviço da dívida do setor privado em US$ 106,7 bilhões (Fonte : Banco Central do Brasil) impactando significativamente os lucros dos segmentos bancários e indústrias.