"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 18 de março de 2017

Por que há ciclos econômicos?

por Marc Fortuño em El Blog Salmón

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Se se analisa a economia a longo prazo, usando a variável do PIB, verificar-se-á que não evolui de forma linear e progressiva ao longo do tempo, mas o seu movimento passa por ondas que são determinadas pelos ciclos econômicos.
Não é por acaso que a produção de bens e serviços de um país não evolui de forma constante já que influem enormes variáveis vinculadas à produção. Entre todas estas variáveis, a mais notável é o papel desempenhado pelo dinheiro e, especialmente, pelas taxas de juros, que permitem financiar os projetos de investimento e necessidades de consumo.
Nas linhas seguintes, vamos rever as quatro fases do ciclo econômico: o crescimento, a estagnação, a recessão e a recuperação. Em cada etapa, vamos ver qual o papel das taxas de juros e incentivos gerados.
Além disso, a ver a importância das taxas de juros, vamos ver o indicador "curva de rendimentos do bônus soberano", pois é um dos melhores indicadores adiantados do mundo.
Fase Auge
A fase de crescimento é produzida graças a que a autoridade monetária, tenha instalado inicialmente baixas taxas de juro de modo a gerar forte incentivo à demanda de crédito com o objetivo final de "incentivar o investimento", fazendo com que muitos projetos de investimento com juros elevado não fossem rentáveis, eles sejam rentáveis.
Na fase de boom econômico se produz um aumento do endividamento a curto prazo, a fim de financiar esses investimentos ou  projetos a longo prazo. Deforma descontraída, o banco central está começando as subidas das taxas de juro e que não representa um problema para o acesso ao crédito.
Uma das máximas para influenciar a alavancagem financeira é que a rentabilidade marginal de um projeto de investimento seja superior ao custo do financiamento, ou seja, dos juros. Nas fases de crescimento econômico o banco central reduziu as taxas de juros de modo que os diferenciais entre a rentabilidade a longo prazo e a rentabilidade de curto praz são altos e, portanto, surge o incentivo para demandar crédito.
PIB
De um ponto de vista macroeconômico, o crescimento do PIB é intenso e dado o impulso econômico, existe um aumento da procura no mercado de trabalho de forma que os níveis de desemprego tendem a diminuir durante este período. Enquanto isso, a demanda interna, incentivada pelo crédito, recupera-se fortemente para cima.
Devido ao incentivo existente das taxas de juros para as condições do mercado de crédito relaxado, os níveis gerais de alavancagem dos agentes econômicos tem que ser aumentados. Isto dá origem ao risco de formação de bolha no qual o preço atinge os níveis de avaliação irracional ativas contra ela.
A fase de estagnação
No entanto, chega um momento em que os investimentos atraentes são menores e, portanto, a rentabilidade marginal decresce. No mesmo tempo, com a ação do banco central as taxas de juros no curto prazo aumentam substancialmente, à medida que a economia atingiu níveis de superaquecimento, com subidas de inflação.
O banco central tem aumentado as taxas de juros, a fim de travar o aumento do nível de dois preços de modo que não prejudique o poder de compra dos agentes econômicos ou a rentabilidade real da execução dos investimentos.
Pelo fato de as taxas de juros em curto prazo têm vindo a aumentar e o retorno marginal sobre o investimento tem vindo a diminuir, é estrangulada a margem financeira da banca, assim que começa a produzir a crise de crédito e a economia fica estagnada.
Referindo-se aos níveis de alavancagem, a fase de estagnação se mostram as maiores quotas de alavancagem durante o ciclo econômico e, dado o aumento das taxas de juro começam a gerar algumas dificuldades para refinanciar a dívida, assim que começam os primeiros problemas de liquidez.
Na fase de estagnação se produz um equilíbrio entre as taxas de juros no curto prazo e a rentabilidade marginal de longo  prazo, ou até mesmo as taxas de juros no curto prazo são maiores que os rendimentos de diferentes projetos de investimento em longo prazo.
Fase recessão
Em termos técnicos, é definido como uma recessão quando se produz uma queda no produto interno bruto por dois trimestres consecutivos. Na fase de recessão os problemas de liquidez são notórios e aparecem problemas de solvência que levam a quebras de empresas.
Se recordamos, nas fases anteriores se tinha levado a níveis mais elevados de alavancagem financeira para financiar projetos de investimento ou comprar ativos a longo prazo, de modo que as famílias e as empresas se veem altamente endividadas e existem dificuldades para honrar seus compromissos com os credores pelo que começam os primeiros problemas de solvência e o início de falências.
vende-se
As empresas com saldos muito prejudicados veem com sua atividade econômica está se contraindo e não podem lidar com as suas obrigações, e começam a deteriorar suas contas  de resultados pela queda das receitas. Dadas as vendas mais baixas, um dos custos variáveis é a mão-de-obra de modo que se iniciam as demissões e o nível de desemprego começa a subir.
No desenvolvimento pleno da recessão os problemas de solvência se tornam falências ou  reestruturação da empresa tanto a nível pessoal como na orientação de seu modelo de negócios. As empresas liquidam os ativos de mais longo prazo e com rentabilidade marginal menor para reduzir sua alavancagem.
Todos essas liquidações têm um impacto deflacionário e por essa razão as altas taxas de juros não têm sentido e a autoridade monetária busca reduzir, em tempo, o impacto do ciclo econômico e começa a baixar as taxas de juros que durante a fase de crescimento e estagnação vinham aumentando.
Fase de recuperação
E, finalmente, temos a fase de recuperação, em que a reestruturação de empresas, na sua maioria foram realizadas, reduzindo os níveis de alavancagem, de modo que o tecido empresariam está saudável, permitindo a busca de novas oportunidades de negócios.
No o início da fase de recuperação os níveis de desemprego atingem níveis máximos, mas à medida em que eles estão desenvolvendo lentamente novos negócios, os níveis de desemprego conseguem variar a inércia e descer, levando a uma melhoria dos níveis de consumo.
Na fase de recuperação, o banco central mantém as taxas de juro muito baixas já que não existe nenhum tipo de pressão inflacionária e com o objetivo final de que, novamente, a demanda de crédito seja gerada para financiar novos investimentos, ou seja, a fase de crescimento.
Para gerar este incentivo tendem a aparecer as taxas de juro reais negativas, o que significa que, se a taxa de juros nominal deduzimos os níveis de inflação, os agentes econômicos podem tomar emprestado a taxas de juros negativas.
O papel do banco central e a curva de rendimento dos títulos
Como vimos, é impossível compreender a evolução do ciclo econômico, sem o papel ativo tomada pelo Banco Central já que ao manter o monopólio do dinheiro determina, deliberadamente, qual deve ser o nível das taxas de juros, com impacto no incentivo dos agentes econômicos, e do ciclo econômico em última instância.
Dada a manipulação monetária exercida pelos bancos centrais, podemos ver, graças aos indicadores antecedentes, como o ciclo econômico se encontra. Para ele o melhor indicador importante é a curva de rendimentos do fundo soberano em prazos diferentes.
Consideremos que em um cenário normal, as taxas de juros em curto prazo serão menores do que as taxas de juro de longo prazo. Em outras palavras, os rendimentos dos títulos 1 ano deveriam ser menores do que os rendimentos dos títulos a 10 anos, mostrando uma curva de rendimentos com uma inclinação positiva.
Este cenário de base é consistente pois ao comprometer o dinheiro em mais longo prazo, os investidores exigem um maior retorno pelo maior grau de incerteza e a eventual escalada da inflação que impacta o retorno real sobre o investimento.
Como podemos ver no gráfico a seguir, em 2003, durante a fase de crescimento, os títulos espanhóis de curvas de rendimento eram positivos, ou seja, as taxas de rendibilidade de títulos de curto prazo eram menores do que o retorno a longo prazo. Neste contexto existem incentivos para atrair dinheiro a curto prazo e investi-lo a longo prazo, gerando a expansão da economia.
títulos
Sem embargo, com as subidas das taxas de juros, a rentabilidade dos títulos a curto prazo aumenta e se mostra essa curva de rendimentos achatada própria da fase de estagnação e recessão subsequente, que começou em Espanha, no terceiro trimestre de 2008. Com esta curva de juros, a receita líquida de juros da banca é prejudicada e não há incentivos para captar dinheiro a curto prazo para investi-lo em ativos a longo prazo, resultando em uma crise de liquidez.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Reforma trabalhista: relator quer garantir direitos para o teletrabalho

O relator da proposta de modernização das leis trabalhistas, deputado federal Rogério Marinho (PSDB-RN), quer garantir segurança jurídica ao sistema de teletrabalho na legislação. A comissão especial que discute o tema debateu o assunto nesta quarta-feira (15) com juízes e representantes do setor.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Teletrabalho e Teleatividades, o Brasil já tem 15 milhões de trabalhadores nessa modalidade. “Precisamos trazer essas pessoas para dentro da legislação para que tenham direitos, para que tenham proteção, para que possam ter previdência, seguros. Não podemos varrer a questão para debaixo do tapete”, disse Rogério Marinho.

O relator avaliou ainda como vai tratar a questão em seu parecer. “Precisamos adequar à nossa realidade, usando o bom senso e respeitando a legislação. O espírito da lei é a negociação coletiva, mas há sugestões de adotar normatização em um capítulo que abranja as novas formas de trabalho”, explicou. O parecer deve ser apresentado até 4 de maio.

Ainda nesta quarta-feira (15), Rogério Marinho debateu a modernização das leis do trabalho com membros da União Nacional das Entidades de Comércio e Serviços (Unecs), quando recebeu novas propostas para o relatório. Depois, como presidente da Frente Parlamentar Mista em Defesa do Comércio, Serviços e Empreendedorismo, o tucano comandou reunião para debater a reforma da previdência, quando esteve presente o relator da matéria, deputado Arthur Maia (PPS-BA).

Nesta quinta-feira (16), a comissão que analisa a modernização das leis trabalhistas tem mais uma audiência pública a partir das 9 horas, no plenário 1 da Câmara. Estão convidados para participar do debate a ministra do Tribunal Superior do Trabalho, Delaíde Alves Miranda Arantes; o presidente da Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra), Germano Silveira de Siqueira; a juíza do Trabalho do Tribunal Regional do Trabalho/ 5ª Região Thais Mendonça Aleluia da Costa; o presidente da Associação Nacional dos Procuradores do Trabalho (ANPT), Angelo Fabiano; o professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo Hélio Zylberstajn; o diretor de Relações Institucionais da Associação Brasileira de Advogados Trabalhistas (ABRAT), Nilton Correia; e o presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar do Brasil (Contraf), Marcos Rochinski.


Fonte: Agência Câmara

A inevitável Reforma da Previdência

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

A reforma da previdência é absolutamente inevitável. Ela vai acontecer, de uma forma ou de outra, pelo simples fato de que não há como manter regras fixas, quando a economia e a demografia estão mudando de forma acelerada. Tudo na vida e na sociedade é impermanente. Não existe mágica capaz de eliminar a matemática. Não há como fazer mágica para apagar a diferença entre receitas e despesas. Resta saber: qual o tamanho do problema e qual a reforma que se quer para atender as necessidades das pessoas e do país.
A previdência brasileira tem como base o sistema de “repartição simples”, onde a cobrança de contribuições das pessoas que estão engajadas nas atividades econômicas financia as aposentadorias, pensões e assistência social das pessoas inativas (beneficiárias do sistema).
A repartição simples envolve uma tensão permanente entre solidariedade e conflito intergeracional. Evidentemente, as gerações mais novas só financiam as gerações mais velhas se houver perspectiva de receber de volta, no futuro, no mínimo, o montante equivalente aos benefícios recebidos na atualidade. A solidariedade intergeracional é o cimento que liga o passado, o presente e o futuro.
Mas paralelamente, existe um conflito latente, pois as gerações mais novas querem pagar o mínimo possível e as gerações mais velhas querem receber o máximo viável. Em geral, o conflito é reduzido quando a economia e a produtividade crescem, mas é acirrado quando há recessão ou estagnação do Produto Interno Bruto (PIB). Não é fácil achar o ponto de equilíbrio.
A previdência brasileira está desequilibrada e possui um enorme déficit atual (presente) e atuarial (futuro). Isto significa que algo precisa ser feito para tornar o sistema sustentável e evitar a inadimplência ou até mesmo a falência. Mas não existe consenso nem sobre o diagnóstico do problema e nem sobre as prescrições.
A Fundação Getúlio Vargas, do Rio de Janeiro, realizou um seminário sobre a Reforma da Previdência no dia 20 de fevereiro de 2017. São divergentes as opiniões apresentadas, como se pode ver nas apresentações que estão disponíveis no link apresentado nas referências no final desse artigo.
O déficit da previdência pode ser visto na tabela abaixo, apresentada no estudo de Barbosa Filho e Ottoni (20/02/2017). Nota-se que o déficit estava em torno de 40 bilhões de reais até 2012, o que representava 0,8% do PIB. Porém, a partir de 2013 o déficit cresceu rapidamente e “explodiu” com a grande crise econômica de 2014 a 2016, quando houve redução da renda per capita brasileira e redução da taxa de ocupação no mercado de trabalho. Em percentagem do PIB o déficit da previdência estava em 2,1% do PIB, o que é muito alto para o estágio atual da estrutura etária da população brasileira. O Brasil gasta muito mais com a previdência (em proporção do PIB) do que os demais países, inclusive aqueles com o índice de envelhecimento muito maior do que o brasileiro.

resultado da Previdência no Brasil

Se o déficit da previdência já é elevado atualmente, ele tende a ficar muito maior no futuro devido às mudanças da estrutura etária e o fim do bônus demográfico. A população em idade ativa vai diminuir nas próximas décadas e a população idosa vai aumentar rapidamente. Ou seja, a percentagem de contribuintes vai cair e a percentagem de beneficiários vai aumentar. No ano 2000 havia 7,5 pessoas em idade ativa para cada idoso e esta relação deve cair para 1,6 pessoas em 2060, conforme as últimas projeções do IBGE.

população em idade ativa (PIA), população idosa e relação entre PIA e idosos

Diante do quadro crítico, o governo lançou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 287. Um ponto central na proposta de Reforma é o estabelecimento de idade mínima para aposentadoria, pois a média das aposentadorias no Brasil é muito precoce comparada com outros países. Aumentando a idade média de aposentadoria abrandaria o problema pelos dois lados: as pessoas passariam mais tempo contribuindo e menos tempo como contribuintes. Isto aliviaria o déficit atual e reduziria as projeções de desequilíbrios futuros. Ao contrário do que se diz, os maiores perdedores não serão os trabalhadores de baixa renda, mas as pessoas que recebem elevados salários e que aposentam por tempo de contribuição e vivem muito mais do que a sobrevida média.
Os críticos dizem que a esperança de vida é baixa no Brasil e que muita gente morreria antes de aposentar ou então ficar pouco tempo na aposentadoria, se a idade mínima for 65 anos. Mas há muito desentendimento a este respeito, pois não se pode confundir a esperança de vida ao nascer com a sobrevida aos 65 anos. Segundo o IBGE, responsável pelo cálculo oficial da Tábua Completa de Mortalidade, as mulheres tinham uma esperança de vida ao nascer, em 1940, de 48,3 anos e os homens de 42,9 anos. Esta baixa esperança de vida ao nascer era devido à alta mortalidade infantil. Para as pessoas que sobreviviam até os 65 anos a sobrevida era de 9,3 anos para os homens e 11,5 anos para as mulheres. Portanto, do ponto de vista da previdência, o importante não é a esperança de vida ao nascer e sim a sobrevida na época da aposentadoria (seja 55, 60 ou 65 anos).
Ainda segundo o IBGE, as mulheres tinham uma esperança de vida ao nascer, em 2015, de 79,1 anos e uma sobrevida aos 65 anos de 19,8 anos. No mesmo ano, a esperança de vida ao nascer para os homens era de 71,9 anos e a sobrevida aos 65 anos era de 16,7 anos. Assim, um homem que aposentar aos 65 anos terá uma probabilidade média de ficar 16,7 anos aposentado e não 6,9 anos que seria a diferença entre a esperança de vida ao nascer e a idade mínima (71,9 – 65 anos). Assim, o que vale é o tempo médio de vida que, em qualquer recorte social, é sempre maior do que a esperança de vida ao nascer.

expectativa de vida ao nascer e sobrevida nas idades 55, 60 e 65 anos

Outro ponto polêmico da Reforma é a redução ou eliminação da diferença entre aposentadoria de homens e mulheres. Esta proposta propõe a igualdade de gênero na idade de aposentadoria, mesmo considerando que as mulheres têm um tempo médio de vida bem maior do que os homens, conforme pode ser visto na tabela acima. Porém, muitas pessoas argumentam que a menor idade à aposentadoria é uma política afirmativa de gênero para compensar os menores salários e a dupla jornada de trabalho feminina. A diferença de tempo para se aposentar é defendida com o argumento de que a mulher trabalha mais em casa no cuidado da casa, dos filhos, do marido e de outros parentes (especialmente dos idosos).
Porém, o sobre trabalho feminino com as tarefas de reprodução deve ser enfrentado com a igualdade de gênero nesta área. Ou seja, os homens precisam dividir as tarefas domésticas com as mulheres (como a Suécia tenta fazer) e não premiar esta desigualdade com regras favoráveis na previdência. Quando as mulheres são recompensadas pelo sistema previdenciário, implicitamente, o Estado convalida as desigualdades de gênero nas tarefas de reprodução. As políticas públicas devem defender a igualdade entre homens e mulheres em todos os aspectos, incluindo as condições de trabalho produtivo extradoméstico, salários iguais para tarefas iguais e repartição igualitária do tempo das tarefas no mundo da reprodução.
Para além dos aspectos acima, há quem diga que a previdência social brasileira não tem déficit e que a Reforma em curso não passa de um golpe contra os direitos dos trabalhadores para favorecer o setor financeiro. O fundamento desta crítica se baseia na proposta constitucional de ampliar as fontes de receita (impostos) para financiar a seguridade social brasileira. Além disto, houve muitos desvios (corrupção) ao longo das décadas e há muitos sonegadores que devem volumes vultosos para a previdência. Segundo o argumento, o fim da DRU (Desvinculação das Receitas da União) traria mais caixa para a previdência. Enquanto a Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (ANFIP) diz que o déficit é uma farsa, pois soma os recursos da DRU e de outros impostos e contribuições, o Ministério da Fazenda apresenta os números abaixo:

déficit da previdência e da seguridade social

Evidentemente, se maiores parcelas dos impostos forem direcionadas para a previdência o déficit pode diminuir ou até desaparecer. Mas ai o rombo irá para outro setor e será difícil aumentar a carga tributária, que já está em 35% do PIB e é uma das maiores do mundo para países com o nível de desenvolvimento do Brasil. Muitos devedores da previdência são empresas já quebradas e não há como recuperar todas as dívidas. Além disto, este tipo de dívida é um estoque que pode contribuir, para os casos possíveis de recuperação judicial, para reduzir o déficit em um ano, mas não no longo prazo. As isenções fiscais dadas às empresas – com o objetivo de aumentar os investimentos e o emprego – contribuíram para a redução das receitas previdenciárias. Mas aumentar impostos pode levar à perda de competitividade e à fragilização do setor produtivo. Mas o fato inquestionável é que o Brasil gasta mais de 12% do PIB com a previdência e isto tende a passar rapidamente de 20% com o envelhecimento populacional.
Estão corretas as pessoas que apontam para o fato de que as despesas com juros da dívida pública provocam um déficit público maior do que o déficit da previdência. Ideólogos do governo argumentam que primeiro é preciso fazer a reforma previdenciária para depois reduzir juros, o que é uma espécie de argumento cínico. Os críticos do governo dizem que primeiro se deve reduzir os juros para depois fazer reforma da previdência, o que também é inviável, já que as taxas de poupança são muito baixas no Brasil. O correto seria reduzir os juros e reduzir o déficit da previdência ao mesmo tempo, pois o Brasil está em meio à uma grande crise fiscal e não tem recursos para aumentar os investimentos depois de quatro anos de queda da renda per capita (de 2014 a 2017). Não há teoria econômica que explique juros tão altos como os brasileiros.
Há também aqueles que apresentam bandeiras atraentes, mas de cunho demagógico, como: “Nenhum direito a menos”. Acontece que existem alguns privilégios de categorias (como militares, alguns políticos, etc.) e na situação de crise atual o que menos se tem são os direitos respeitados daqueles que estão fora do mercado de trabalho. Quem mais sofre com a crise atual são as jovens gerações que não possuem emprego, mesmo com a Constituição Federal garantindo o direito ao trabalho. O Brasil tem hoje, segundo a PNADC, um montante de mais de 12 milhões de pessoas no desemprego aberto e cerca de 25 milhões de pessoas desocupadas ou desalentadas (conceito de desemprego ampliado). Este número é maior do que toda a força de trabalho da Espanha. Se estas pessoas estivessem empregas e com trabalho decente haveria um grande aumento das receitas previdenciárias e o déficit poderia ser reduzido drasticamente. Mas na falta de investimento, o Brasil joga fora uma grande parte da sua força jovem de produção e não avança com o desenvolvimento tecnológico.
O Brasil deixou de fazer as reformas necessárias no período bom do superciclo das commodities. Agora, a reforma da previdência é uma realidade inexorável. Mas ela não é uma panaceia. Outras reformas são necessárias, como a tributária e a financeira. Reduzir os juros reais para os patamares internacionais é urgente (há vários países com juros negativos), para propiciar a volta dos investimentos e a criação de emprego com aumento da produtividade. É um erro ficar procrastinando as reformas. O Brasil precisa de um conjunto amplo de medidas para evitar o empobrecimento geral da população como tem acontecido nestes últimos quatro anos. São necessárias, por exemplo, políticas para diminuir e erradicar a violência que prolifera nos presídios, nas cidades e no campo. Inclusive a violência contra os animais e contra os ecossistemas.
A crise fiscal brasileira é dramática, pois o déficit nominal chegou a 10% do PIB e a dívida pública cresce de forma exponencial. O Brasil já está revivendo a tragédia grega e, se nada for feito, pode caminhar rumo ao colapso da Venezuela. O país já está passando pela segunda década perdida (a primeira foi nos anos 1980) e pode chegar aos 200 anos da Independência numa tendência submergente irreversível. O Estado do Rio de Janeiro é um exemplo a não ser seguido.
No atual estágio de desenvolvimento e de impasses crescentes, a nação está parindo uma geração perdida, pois há milhões de jovens que avançaram na educação, mas não encontram oportunidades no mercado de trabalho. Sem a contribuição dos jovens a previdência não se sustenta e faltará recursos para viabilizar o bem-estar dos idosos. O conflito intergeracional pode eclodir de maneira imprevista.
Evidentemente a reforma da Previdência, conforme a PEC 287, não resolve todos os problemas e poderia ser melhor formatada no Legislativo. Porém, as diversas denúncias de corrupção da operação Lava-Jato, a falta de legitimidade e popularidade do atual governo e as propostas populistas à esquerda e à direita podem inviabilizar qualquer solução sensata para a crise fiscal.
A proposta original de Reforma do governo já está sendo reconfigurada e abrandada no Congresso, pois forte mobilização dos beneficiários e há um racha na própria base do governo e nenhum deputado ou senador quer tomar atitudes impopulares. Já há umas propostas alternativas nos itens: 1) Escalonar as regras de transição para quem passaria a contribuir ao novo regime previdenciário, em vez de realizar uma transição abrupta para homens com menos de 50 anos e mulheres com menos de 45; 2) Atenuar as regras propostas para o Benefício de Prestação Continuada (BPC), pago a idosos e deficientes, e manter a distinção entre as aposentadorias urbana e rural; 3) Mudar a regra de cálculo das aposentadorias para antecipar o direito ao benefício integral, acessível pela proposta do governo apenas a quem tiver 65 anos e pelo menos 49 de contribuição.
Segundo reportagem do jornal O Globo, o governo pode abrir mão do gatilho previsto na proposta de reforma da Previdência para elevar a idade mínima para aposentadoria de acordo com a expectativa de vida do brasileiro. Pelo texto enviado ao Congresso, esse mecanismo seria acionado sempre que a expectativa de sobrevida no país aumentar em um ano. As projeções apontam que isso aconteceria na virada de 2030, quando esse gatilho aumentaria a idade mínima de 65 para 66 anos. Outro ponto em discussão diz respeito às mudanças previstas para os benefícios assistenciais (BPC-Loas). Pela proposta original, esses benefícios deixariam de ser vinculados ao salário-mínimo e teriam aumento gradual da idade para receber o auxílio, dos atuais 65 para 70 anos. As mudanças fazem parte de uma série de concessões em estudo para facilitar a aprovação da proposta no Legislativo.
O Brasil vive a mais profunda recessão da história e está mais pobre e mais endividado depois de três anos de queda do PIB per capita. Nunca as taxas de investimento foram tão baixas e nunca o desperdício da força de trabalho foi tão alta. O clima de confronto e de disputa política que tem prevalecido nacionalmente não vai ajudar o país a achar um rumo para a situação de calamidade atual.
O seminário ocorrido na Fundação Getúlio Vargas foi uma contribuição. Outros debates civilizados e democráticos precisam ocorrer. O material disponível no link abaixo pode ajudar a esclarecer o assunto. O tema é complexo, envolve muita paixão, mas só a análise objetiva dos fatos pode apontar uma saída para os impasses atuais. Devemos lembrar que outras reformas na previdência virão e o déficit fiscal está longe de ser resolvido. Indubitavelmente, é preciso uma nova repactuação nacional.
Referência:
FGV, Reforma da Previdência: Análise da PEC 287/2016, Rio de Janeiro, 20/02/2017
Fernando de Holanda Barbosa Filho e Bruno Ottoni. Previdência: Números, Simulação, Fatos e Custos, FGV, Rio de Janeiro, 20/02/2017

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 15/03/2017

quarta-feira, 15 de março de 2017

Em defesa do elitismo



elitismoHá uma frase muito famosa, "a tirania da maioria", que foi introduzida no discurso político por dois contemporâneos próximos no século XIX. Alexis de Tocqueville, o famoso escritor francês que escreveu a Democracia na América, viajou por este país tentando entender como é que as pessoas podem sobreviver sem uma aristocracia. Ele ficou espantado ao descobrir que eles o fizeram, ele sendo um membro da aristocracia. E enquanto pensava que a vida humana poderia mudar numa direção democrática, ele discerniu um perigo permanente, que descreveu nestes termos: a tirania da maioria - ou seja, o perigo de que toda decisão pública seja tomada pela maioria, para a maioria e desconsiderando os direitos das minorias e a possibilidade de desacordo. Ele descobriu que na América essa tirania da maioria não havia surgido. Então ele fez a pergunta, por quê?
John Stuart Mill, o famoso filósofo político inglês, emitiu um aviso semelhante. Preocupava-se que, se houvesse uma democracia real, que começasse a surgir na Inglaterra e já tivesse surgido na América, indivíduos, minorias e grupos legítimos perderiam a proteção contra a opinião da maioria. E, como sabemos, as maiorias têm mais poder do que as minorias. Se eles têm o poder de impor seus pontos de vista, então o que acontece com as minorias? O que acontece com as pessoas que discordam?
Tanto Tocqueville como Mill reconheceram que uma verdadeira ordem política só pode existir se houver discussão sobre as questões do dia. Só pode haver discussão se houver legitimidade de discordância. Mas as pessoas realmente não gostam de desacordo. Então, como fazer a discordância possível? Como conseguir que a maioria aceite o fato de que existem pessoas que não fazem parte dela?
E foi compreendido, pelo menos na América, que se precisa de uma constituição que de alguma forma esteja acima do sentimento popular e também estabeleça um limite para ela. Há muitas razões para isso, mas uma em particular é o que eu chamo de "fantasia liberal": a fantasia de que as pessoas são basicamente agradáveis, enquanto o poder e os privilégios são desagradáveis. E, portanto, não devemos ter essas coisas poderosas como constituições ou estado de direito, pessoas que ocupam cargos judiciais ou pessoas que estão acima da maioria e dizem-lhes o que fazer. Isso é porque as pessoas, sendo basicamente boas, sempre vão fazer a coisa certa, desde que deixe-os livres para fazê-lo.
Agora, a maioria de vocês são jovens e ainda não tiveram toda a experiência da maldade das outras pessoas - ou a maldade de vocês mesmos. Mas há muitas oportunidades lá fora, e que, sem dúvida, mudarão ao longo do tempo. Embora alguns poderes e propósitos sejam desagradáveis, outros são necessários para tornar as pessoas agradáveis. Aliás, penso que isso faz parte do que é a educação: esperamos que os jovens venham a surgir do seu tempo aqui melhorados - não apenas tendo mais conhecimento, mas tendo talvez mais capacidade de se relacionar com os outros, de deixar a sua marca na sociedade, cooperar, ser o tipo de pessoa que não tenha que dar um soco na cara para ter o seu caminho.
Assim, as pessoas, em geral, precisam de gestão. E eu acho que toda filosofia política precisa, no final, refletir sobre o que é na natureza humana que cria essa necessidade de gestão. Há certos aspectos da condição humana que as pessoas são relutantes em pensar. Vocês são todos relutantes em pensar em coisas em vocês mesmos que vocês sabem que não são agradáveis ​​a si mesmos e aos outros. Mas há também características gerais da condição humana que achamos difíceis de pensar.
O primeiro é inveja e ressentimento. As pessoas sentem ressentimento em relação aos bens, ao status, aos talentos dos outros, e isso é normal. Nietzsche, o filósofo alemão do século XIX que tenho certeza que você encontrou em um aspecto ou outro, pensou que o ressentimento - ele usou a palavra francesa por razões próprias - era a posição padrão das comunidades humanas. No final, é o ressentimento que faz o mundo girar, e é por isso que o mundo é tão horrível. E Nietzsche realmente não pertencia ao mundo. Ele era um tipo de sujeito mal-humorado. Ele defendeu uma abordagem muito mais solitária das coisas do que a maioria de vocês seria capaz de gerenciar. Deixando de lado sua assim chamada "filosofia positiva", eu acho que a maioria das pessoas reconhecerá que ele está em algo. Claro, as pessoas se ressentem mutuamente, e uma coisa que mais nos ressentem nos outros é o fato de que eles estão fazendo melhor do que nós. E esse ressentimento vai estar sempre lá - especialmente quando estamos em estreita competição por algo que realmente queremos. Estamos em competição por, digamos, um emprego ou um amante ou uma posição social ou status, e vemos a outra pessoa obtê-lo. E não podemos controlar o que sentimos.
John Stuart Mill











Há uma outra parte das pessoas que precisam de gestão, no entanto. Isso foi muito mais interessante para John Stuart Mill, e é o desejo de ortodoxia. Mill acreditava que a ortodoxia, em vez da liberdade de opinião, é a posição padrão para as sociedades humanas. Ele acreditava que as ortodoxias prevaleceram e que nos refugiamos nelas. Sabemos que, se repetimos o que todo mundo está dizendo, mesmo que não acreditemos que seja inteiramente verdade, no entanto estamos seguros, não seremos atacados. E para se destacar e dizer a coisa que é geralmente desaprovada, mesmo se ele está olhando todos na cara, requer coragem.
Outra característica da condição humana, que foi muito enfatizada pelo filósofo, crítico e antropólogo francês René Girard, é que temos uma necessidade intrínseca de bode expiatório, de perseguição ao herege. Se a sociedade está em uma posição difícil, as pessoas estão em conflito uns com os outros, eles não são capazes de concordar sobre alguma questão do dia, ou talvez há alguma ameaça enfrentá-los, ajuda de uma forma de encontrar uma pessoa a culpa. Não importa que ele não seja culpado; nós pegamos dele e nós o perseguimos, e todos nós nos unimos contra ele e todos nós nos sentimos bem com isso. Todos nós sentimos que encontramos o problema e estamos nos livrando dele. Isto é o que Hitler fez, naturalmente, com os judeus na Alemanha no período de entreguerras: ele disse: "Não se preocupem. A razão pela qual nossa sociedade está em caos total não é porque eu estou no comando dela. Pelo contrário, é por causa de todos os judeus que estão se unindo contra nós, conspirando para minar o comportamento puro da maioria ariana. Assim, vamos persegui-los e livrar-nos deles. "E eu acho que se você olhar para trás na história, você verá o bode expiatório como uma das características mais importantes da sociedade humana.
E todas essas três características apontam para o fato de que o perdão é difícil para as comunidades humanas e difícil para os indivíduos. É difícil perdoar as pessoas por serem melhores do que a si mesmo, perdoar as pessoas por se destacarem com uma opinião própria, para perdoar as pessoas por apenas ser o herege. E a penitência é rara. As pessoas muitas vezes não confessam as suas faltas, nem se submetem a qualquer tipo de penitência ou arrependimento para expiar ou reparar. E eu acho que vocês todos sabem isso da sua própria vida. E também sabemos, entretanto - em parte por causa de nossa herança judaico-cristã - que o perdão é absolutamente fundamental para o tipo de ordem social de que gostamos. As pessoas podem viver em paz uns com os outros nesta sociedade porque estão prontas a perdoar as faltas dos outros e a confessar as suas próprias falhas.
Agora, à luz de tudo isso, você pode ver por que é perigoso ser - ou aspirar a ser - um membro de uma elite. E na América é uma coisa bastante normal se desculpar por ser uma coisa dessas. Desculpas é uma coisa excelente, mas pode ser levado muito longe. Você está acostumado com o hábito americano de se desculpar quando alguém se choca com você na rua - você assume espontaneamente a culpa por tudo o que está errado, a fim de ter uma espécie de relação preventiva e pacífica. A desculpa nos Estados Unidos é uma espécie de saída pacífica da tragédia da sociedade humana. Sempre que se empurra sobre si, você diz: "Desculpe, desculpe", e você sai. Bem, eu não estou dizendo que isso é uma coisa ruim, mas é claro que não resolve todos os problemas.
As conseqüências dessas características da condição humana são que, em primeiro lugar, há uma espécie de clamor pela igualdade - e isso é obviamente o caso, especialmente nesta sociedade. Em cada esfera hoje há um desejo de igualar. As pessoas não gostam de hierarquias e privilégios, e há uma disposição natural para dizer que não são merecidas. Quando alguém reclama algum tipo de posição hierárquica, a questão é levantada: "Quem é ele? Quem ele pensa que é? E por que direito ele reivindica essa superioridade sobre mim? "E as organizações hierárquicas, portanto, como a Igreja Católica, são freqüentemente atacadas como anacronismos. As pessoas dizem: "Isso foi bom na Idade Média, mas agora não precisamos de coisas assim - na verdade, elas são de alguma forma inerentemente incompatíveis com o tipo de sociedade que evoluiu desde então." E a Igreja Católica, como você sabe, estou certo, está sofrendo por isso - e por outras coisas também - porque as pessoas não aceitam essa ideia de que há uma autoridade transmitida de cima, encarnada na pessoa e no ofício do Papa e filtrada através de Todos os bispos e assim por diante, ao padre ordinário. Em oposição a essa ideia você tem as igrejas evangélicas que querem trazer tudo de cima para baixo, dizendo que o Espírito Santo nos visita todos igualmente.
Então, novamente, riqueza e privilégio, cultura e intelecto, são todos alvo de ressentimento em nossa sociedade. Isto é porque é muito difícil ter prazer em ativos que você não compartilha. Ter prazer na felicidade de outra pessoa é uma coisa rara. Trata-se de um trabalho de perdão: você tem que perdoá-lo por ser melhor do que você, por conseguir a garota que você queria, e assim por diante. E, como eu disse, o perdão é raro. No entanto, é uma das virtudes tradicionais do povo americano ter prazer no sucesso de outra pessoa. E eu acho que essa é uma das coisas que torna essa sociedade tão esperançosa. Na Europa, é extremamente raro que as pessoas tenham prazer em qualquer sucesso, exceto o seu próprio. E mesmo assim, a primeira coisa que eles fazem com seu sucesso é escondê-lo, no caso de alguém deve saber sobre ele. Aqui, no entanto, sendo bem sucedido, você sai e diz: "Sim, eu fiz isso!" E outras pessoas que não fizeram isso, no entanto, você palmadinha nas costas e dizer: "Ótimo, estou muito satisfeito Para você. "Isso é em parte porque os povos nesta sociedade reconhecem que há umas oportunidades para se também. A visão de alguém conseguir algo tranquiliza-os que talvez um dia eles vão conseguir, também.
Mas, por causa do legado de ressentimento e porque o perdão é raro, há um desejo de derrubar o poderoso e fazer a distinção inexistente ou sem valor. Não em cada esfera - e eu penso que este é extremamente interessante. No esporte, por exemplo, o talento ainda é universalmente reconhecido e amplamente elogiado. De alguma forma, sentimos que não somos julgados pelo sucesso esportivo de outra pessoa. Eu nunca teria tido uma chance no futebol americano, ou mesmo em qualquer empresa esportiva, então eu não me preocupo. Medi a minha vida para que eu não concorra nessa esfera, por assim dizer. Mas é uma pergunta muito interessante: por que as pessoas em geral não se preocupam muito com as distinções no campo do esporte. Uma sugestão é que é tão óbvio lá - que não poderia haver um reino do esporte se não houvesse pessoas que se destacaram, e como você poderia jogar um jogo se você não tivesse o objetivo de ter sucesso? É construído na própria empresa. Mas as pessoas duvidam que ele está embutido em outras empresas que são realmente importantes para nós.
Há uma desvantagem para tudo isso. O sociólogo alemão Max Weber argumentou que em toda comunidade humana existe um motivo para os devedores se unirem para despojar os credores.E nós vemos isso acontecer no processo político, também: a maioria vai votar para despossess o sucesso, porque acreditam que a riqueza não pertence realmente àquelas pessoas que tem.Pelo contrário, é um ativo social e deve ser distribuído de forma mais justa. E através do estado podemos distribuí-lo mais justamente. Podemos tributar os ricos e distribuí-lo entre o resto de nós.
E muitos filósofos políticos justificam isso - não exatamente nos termos brutos que eu acabei de dizer ou nos termos que Weber usa. Weber está apenas falando a verdade. A filosofia política é uma maravilhosa tapeçaria de mentiras projetada para esconder esse tipo de verdade. Mas John Rawls, em seu famoso livro sobre justiça, pensa essencialmente da mesma maneira: a riqueza é um ativo social e não é detida até ser distribuída. Além disso, tem de ser distribuído de acordo com um plano que tenha em conta as necessidades sociais de todas as pessoas e que, naturalmente, tem de ser posto em prática pelo Estado. Assim, por causa desse sentimento de que os bens são de alguma forma socialmente de propriedade, a maioria das pessoas não só vota para redistribuir os ativos econômicos da sociedade, mas também de alguma forma para abolir a ameaça que representa a educação universal.
Houve um movimento em direção a um currículo sem distinções - de modo que todo mundo recebe um "A", todo mundo emerge com um grau de honra. E isto, naturalmente, tem o efeito de rebaixar o valor de um grau ao ponto onde talvez não há nenhuma razão para ter um de qualquer maneira. Isso representa um tipo de ameaça à educação que você está trabalhando tão difícil de alcançar. Eu sei que você está trabalhando duro ou então você não teria vindo aqui hoje. Você está trabalhando duro para não ser dado um documento inútil, mas para ser dado algo que realmente mostra que você conseguiu, que seu trabalho valeu a pena.
Mas, novamente, a maioria não pode facilmente distinguir a cultura genuína, que é a província de uma minoria, da cultura falsa, que todos nós podemos adquirir. E isso é algo que preocupa muito o defensor da música clássica, porque ele sabe que a tradição clássica da música contém dentro dela preciosas conquistas, conhecimento precioso e um precioso mundo de sentimentos que requer um certo esforço para entrar. Muitas pessoas dizem: "Não, não vamos nos incomodar com isso. Vamos ficar com Lady Gaga. "Mas, sem dizer nada sobre Lady Gaga, é, no entanto, vale a pena fazer esse esforço. Até que você tenha feito isso, porém, você não sabe por quê. Há muitas coisas como esta na vida humana: você só conhece o valor de algo quando se familiarizou com ele. Mas para se familiarizar com ele, você tem que ser persuadido de seu valor. É uma espécie de paradoxo, não é? É como o famoso paradoxo de Groucho Marx de pertencer ao clube: "Por que eu deveria pertencer a um clube que me teria como membro?"
Classical-period-string-quartet-1349964413-article-0Como resultado dessas coisas, as pessoas começam a suspeitar de toda a idéia de julgamento, concluindo que é errado ser julgador. E o juiz está se tornando uma espécie de marginalizado social em nossa sociedade.Há algumas conseqüências desse fato. Uma é a tentativa de apreender e redistribuir os bens do bem sucedido. O problema com isso, é claro, é que penaliza o sucesso para que os ativos não estejam mais lá. E isso é o que vimos na Europa comunista: o confisco de todos os lucros de qualquer empreendimento levou ao desaparecimento desses lucros, de modo que não houve nada a redistribuir no final e a sociedade tornou-se cada vez mais pobre. Mas, no entanto, a maioria clama por mais, o que, como resultado, força os governos a contrair empréstimos do futuro. Devemos ter o que estamos acostumados, não apenas as oportunidades, mas os direitos que nosso governo nos prometeu, embora haja cada vez menos ativos econômicos para renovar esses direitos. E nós vimos isso em nossas sociedades por todo o mundo ocidental, também - este empréstimo do futuro, sobre o qual muitas pessoas estão agora extremamente alarmado. O que acontece quando os credores dizem: "É hora de nos pagar de volta"? Vimos o que aconteceu na Grécia e Portugal recentemente. A Grécia foi resgatada, é claro, pela União Europeia, mas apenas transferindo o problema para o resto da União. O problema realmente não desapareceu. Portanto, há um endividamento crescente e uma crise fiscal iminente, e a maioria das pessoas diria que o dia do juízo tem que vir. E nós não sabemos como será.
Outra conseqüência é a destruição da alta cultura - o tipo de cultura que as universidades devem se comprometer com a purificação. Poucas pessoas têm uma compreensão crítica de seus próprios motivos. Os apetites truncam reflexo. E as pessoas estão sempre olhando ao redor para a outra pessoa que é realmente a culpa. E isso leva, por sua vez, à hostilidade à distinção em todas as suas formas e a uma espécie de expansão da cultura da mediocridade. "É bom ser o que sou, e não me importo se você acha que é melhor do que eu. Estou tão feliz quanto eu.
Mas há uma vantagem em tudo isso. Podemos superar isso. Todos nós sabemos que se você manter a cabeça baixa, as pessoas vão deixá-lo sozinho. E isso já é, pelo menos, uma solução temporária para o problema. Eu, infelizmente, durante toda a minha vida não tenho mantido a cabeça para baixo, e é uma parte muito machucado da minha anatomia. Mas ainda está aqui e eu estou soldando. E agora, tendo entrado em meus setenta anos, realmente não importa muito o que acontece comigo.
Mais importante ainda, aceitamos a necessidade de proteger as minorias, mesmo as minorias educadas. E isso é porque reconhecemos em nossos corações, especialmente se temos filhos, que queremos oportunidades não só para nós mesmos, mas para eles. E, portanto, precisamos de uma cultura em que o sucesso se distingue do fracasso. Podemos não saber em que esfera nossos filhos vão competir, mas mesmo assim sabemos que há uma diferença entre sucesso e fracasso e certamente não queremos que fracassem. Assim, as pessoas não estão totalmente comprometidas com a mediocridade. Acho que todos os pais têm um desejo de normas em educação. E todas as pessoas que estão fazendo um sacrifício para alcançar uma cosmovisão educada aceitam que deve haver padrões. Por que mais eles estariam eles fazendo isso?
Além disso, os pais são competitivos. A competição reside na natureza do processo reprodutivo.Reprodução ainda não é uma coisa do passado, que eu tenho certeza que você percebe porque aqui você está nesta sala. Eu sei que não tem uma boa imprensa hoje e os números estão indo para baixo, mas, ainda assim, as pessoas consideram reprodução, se apenas como um subproduto indesejado, como algo que acontece. E então há aquelas crianças, e nós queremos que elas tenham sucesso. A competição está na própria natureza desse processo. Todo mundo na sala que tem filhos sabe disso. Você é responsável pela vida desta coisa, você vai protegê-la, você vai ter certeza que está tudo bem. E essa é uma atitude essencialmente competitiva porque o mundo é duro. Os verdadeiros igualitários, pessoas que acreditam que a igualdade é tudo, tendem a não ter filhos, ou então, como os nossos políticos, secretamente asseguram vantagens para os seus filhos enquanto imporem a mediocridade a todos os outros.
Então, vou oferecer algumas defesas contra a mediocridade. Como eu disse, as minorias têm direitos, e um é o direito de associação. O direito de associação serve para proteger os seus bens. Temos o direito de criar escolas e faculdades próprias. Em uma cultura majoritária, estes dois estão sob ameaça - em meu país da Grã-Bretanha, eles estão sob ameaça. Sob um governo trabalhista, talvez não seja possível que as escolas privadas existam. Mas enquanto pensarmos que há um direito de associação, as pessoas vão se reunir e tentar resgatar-se. E é assim que as coisas talvez devam ser.
A lição do século 20, no entanto, é que tudo o que é bonito foi preparado como um sacrifício. Se você olhar para trás o que aconteceu com a Europa no século 20 - se você olhar para trás a cultura mais bonita que já existiu, realmente - você vai ver que tudo o que é bonito em que foi sacrificado. Não apenas as pessoas, mas as cidades, as instituições, os belos sistemas legais que herdamos, tudo foi sacrificado - exceto na Grã-Bretanha, e mesmo lá foi fatalmente danificado. E eu acho que isso é algo que todos os seres humanos devem reconhecer no final: que tudo o que é bonito é preparado como um sacrifício.
Mas devemos prosseguir, e até certo ponto podemos. Devemos elaborar constituições que contenham algo da velha idéia de constituições de herança, que são obstáculos para as maiorias, de modo que não podem tiranizar sobre as minorias que querem melhorar a si mesmas. Então precisamos de um tipo de discurso político que oculte esse fato da maioria. É aqui que as coisas se tornam difíceis. Você tem que contar, no final, algumas mentiras. Você tem que dizer, "Claro, esta sociedade é tudo sobre igualdade." E os americanos sempre disseram isso mesmo que eles têm uma constituição que foi cuidadosamente projetado para impedir que seja a única verdade. A Constituição americana foi concebida para proteger as minorias, proteger as habilidades das pessoas para avançar e obedecer a padrões mais rígidos do que os que estariam disponíveis apenas para a maioria.
E essa é a tarefa mais difícil, mas acho que os jovens vão junto com ela. Eles instintivamente querem considerar suas atividades como realizações. Enquanto isso, entretanto, você tem que praticar a arte do esconderijo. Há uma bela palavra árabe para isso: taqiyya. Foi introduzido no pensamento dos xiitas na Idade Média no Irã, quando eles estavam vivendo sob o domínio otomano ou sunita que proibiam sua forma particular de religião. E a palavra taqiyya vem de sua palavra para santidade, na verdade. Eles disseram: "Você deve praticar estas coisas: sempre que confrontado por outro, aprender a dizer que você acredita exatamente como ele acredita, que você vive sua vida exatamente como ele faz. E dentro, sofrendo plaintively mas não revelando-se, é aquela alma que sabe a verdade. "Concedido, isso é uma maneira exaggerated de descrever a condição de povos como mim, mas é ainda o caso que um deve fazer um esforço para esconder às vezes. Agora eu não estou fazendo um esforço para esconder o que eu penso assim que eu estou em uma posição perigosa. Eu poderia me tornar como aquela vítima sacrificial, o bode expiatório.
Mas esse é o problema que nos aflige. O conselho que deve ser dado não pode facilmente ser dado abertamente. E você tem que esconder sua distinção em muitas circunstâncias da vida moderna. Você não necessariamente deixa em que você é menos ignorante do que seu vizinho.Não confessar a sua cultura ou fazer qualquer esforço para criticar a sua falta dela. Comdenie-se alegremente como um idiota como ele. Um dos meus velhos alunos de Princeton veio para ficar no outro dia. Ele está trabalhando em uma instituição financeira de alta votação em Londres, e eu disse a ele, "Bem, isso é ótimo, o que você tem lá. É fantástico. Vale a pena todo esse esforço que você colocou em aprender línguas clássicas e as obras de Goethe em alemão e toda essa filosofia que eu ensinei. "E ele disse:" Sim, mas muito mais útil foi aprender a falar de futebol porque é a única coisa que eles Falar no escritório. Uma vez eu deixei escapar uma observação sobre Goethe e ficou muito claro que minha carreira estava na linha. "Eu respondi," Sim, é claro, mas eu não te contei sobre isso? "E ele disse:" Sim, desculpe , Mas eu esqueci. "
No final você tem que humildemente confessar o direito do outro como um membro da maioria para determinar o futuro da sociedade que inclui você. Você não deixa que você tem o desejo secreto de passar para outro tipo de cultura. Então, que tipo de cultura? Estas serão as minhas conclusões.
Cropped-800px-grand-_place_bxl1695_-012Penso que queremos transmitir, especialmente nas universidades, uma cultura que se baseia no conhecimento e na distinção entre conhecimento real e mera opinião. Obviamente, é muito difícil para você, pessoalmente, distinguir entre suas opiniões as que são conhecimento real das que não são, porque são todas iguais do seu ponto de vista. Mas, no contexto do debate aberto em uma universidade, você vai chegar a perceber que suas opiniões têm peso diferente. Alguns deles são frágeis e não significam nada. Eles não vão para o equilíbrio da discussão de uma forma eficaz. Mas alguns, quando você os coloca corretamente, você pode fazer os outros acreditar e aceitar, porque eles são fundados em outra coisa.
E este conhecimento deve fazer julgamentos e estabelecer padrões, deve distinguir o verdadeiro do falso, o bom do mau, o virtuoso do vicioso, e assim por diante.
Deve respeitar, penso eu, instituições, heranças e tradições duradouras. Essa é uma das coisas difíceis que as pessoas de minha geração podem transmitir às pessoas de sua geração.Obviamente, as instituições que herdei mudaram muito nos cinqüenta anos que eu tenho consciência deles. Mas eu ainda acredito, não no valor de todos eles, é claro - alguns deles mudaram e alguns deles foram eliminados corretamente - mas, no entanto, acredito na sua herança central que é responsável por mim ficar de pé aqui agora e Falando minha mente. E eu quero passar isso. E eu acho que só pode ser transmitido se respeitarmos a idéia de que ela já está lá.
É porque nos foi legado por pessoas que fizeram sacrifícios para que isso acontecesse. E eu acho que devemos aprender a honrar esses sacrifícios e fazer a nossa parte na transmissão dessas instituições e tradições em nosso turno. Isso não significa que temos que aceitar tudo sobre eles. Temos, ao contrário, de fazer nossas próprias contribuições vivas para eles. E eles precisam ser alterados de muitas maneiras.
Mas penso, acima de tudo, que temos de manter viva a memória coletiva do que somos como povo. Isso não reduz a meramente o que a maioria das pessoas atualmente querem. Nos Estados Unidos, especialmente, a natureza demográfica do país muda rapidamente de geração para geração, e ainda há um sentimento de que nós pertencemos juntos e que compartilhamos a coisa que herdamos. Queremos mudar alguns aspectos dele, mas, sem ele, não estaríamos juntos pacificamente no mesmo lugar. E eu acho que isso envolve um trabalho de memória ativa, no qual enfrentamos algumas das coisas ruins que aconteceram e, no entanto, resgatamos delas as coisas boas que queremos perpetuar. Penso que esta memória colectiva, por sua vez, deve estar aberta à ideia de realização e às aspirações e ideais que as pessoas ainda podem ter nas circunstâncias mudadas.


Roger Scruton é professor visitante na Universidade de Oxford (EUA).