"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 22 de abril de 2017

Banco Mundial defende eficiência nos gastos da AL e Caribe com infraestrutura

Região investe 3% do PIB no setor; para melhorá-lo, não precisa desembolsar mais, e sim definir prioridades e apostar em transparência segundo o órgão.
Investimento da América Latina e Caribe em infraestrutura e menor do que a média global. Foto: Banco Mundial
Mariana Ceratti, de Washington, para a ONU News.*
O Banco Mundial discutiu nesta quinta-feira, em Washington, a necessidade de a América Latina e o Caribe gastarem em infraestrutura  de forma mais eficiente.
O debate ocorreu durante as reuniões de primavera, organizadas com o Fundo Monetário Internacional, FMI, que seguem até domingo.
Desaceleração
Segundo os especialistas participantes do evento, o investimento em infraestrutura pode servir como um poderoso motor de desenvolvimento na América Latina e no Caribe. Em 2017, depois de seis anos de desaceleração, incluindo dois de recessão, a economia regional crescerá 1,5%.
América Latina e Caribe investem em média 3% do PIB por ano em infraestrutura. Alguns países, como o Chile, aplicam mais de 4%, e outros, como o Brasil, menos.
PIB
De toda forma, o Banco Mundial avalia ser um percentual baixo em comparação com o do resto do mundo. A região do leste da Ásia e Pacífico, por exemplo, dedica 7,7% do PIB anual ao setor.
Para conseguir melhores resultados, não é necessário gastar mais, e sim com mais eficiência e foco. O secretário de Assuntos Internacionais do Ministério do Planejamento, Jorge Arbache, participou do evento e falou sobre algumas áreas prioritárias para o Brasil.
"Voltado para o futuro, certamente tudo aquilo que tem a ver com a economia digital, como telecom, internet, infraestrutura das regiões urbanas que tenha maior condição de agregar valor e diversificar a economia. Isso é fundamental quando a gente olha para a frente. Quando se olha para o passado, a gente tem que dar conta de tudo que está associado, por exemplo, à habitação dos pobres, a redes de transporte nas cidades, que aumentam muito o tempo de transporte de carga, mas também de pessoas. São coisas relativamente simples, mas que ainda não fizemos adequadamente."
Economias
Uma prioridade para a região é o setor de energia. Com investimentos que favorecessem a  eficiência, a resistência ao clima e o uso de tecnologias renováveis, a região poderia economizar US$ 23 bilhões por ano.
Os especialistas também abordaram a real participação do setor privado na melhoria da infraestrutura. Desde 2006, os investimentos em parcerias público-privadas, PPPs, aumentaram de 0,5% para 1,2% do PIB regional.
Acontece que um terço do financiamento para as PPPs vem dos governos, e metade dos acordos requer garantias públicas. Por isso, os recursos privados ainda são vistos como um complemento, e não como um substituto para os investimentos públicos.
*Reportagem do Banco Mundial Brasil.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

A Política da Nostalgia

Por Diego Rubio in Social Europe

As democracias ocidentais enfrentam uma nova ameaça: o pessimismo. Pesquisas recentes revelam que 65% dos europeus e norte-americanos acham que o mundo está piorando e que as gerações mais jovens serão mais pobres do que as anteriores, com apenas 6% considerando que as coisas estão melhores e continuarão a melhorar. Este sentido sinistro de declínio não está apenas afetando nossas economias e comportamento individual (por dissuadir o investimento e aumentar o estresse), mas também está levando a consequências políticas sem precedentes.
Diego RubioTradicionalmente, o pessimismo estava associado à abstenção de voto. As baixas expectativas do futuro e a pouca confiança no governo levaram à apatia cívica e ao desinteresse na política, resultando muitas vezes na falta de participação nas eleições. Mas depois da crise financeira de 2008, as coisas mudaram. Na esteira das medidas de austeridade, surgiram partidos novos e revitalizados e líderes populistas prontos para capitalizar o pessimismo e fomentar a nostalgia de um passado alegre para ganhar apoio e transformar o status quo.
Primeiro aconteceu no Reino Unido, onde UKIP conseguiu transformar o referendo do Brexit em uma pesquisa de opinião sobre se o país melhorou desde a sua entrada na UE quarenta anos atrás. Aqueles britânicos que acreditam que a Grã-Bretanha está melhor agora do que em 1973 votaram para permanecer (73 por cento); Aqueles que acreditam que está pior, votaram para sair (58 por cento).
Algo semelhante aconteceu alguns meses depois na eleição presidencial dos EUA. Um estudo do Pew Research Center mostrou que a sociedade americana está dividida entre aqueles que pensam que a vida hoje é melhor do que na década de 1960, e aqueles que pensam que é pior (47 e 49 por cento, respectivamente). A maioria dos otimistas votaram em Hillary Clinton, enquanto a maioria dos pessimistas (81 por cento) apoiou Donald Trump, um homem mais velho, que não estava vendendo mudança ou inovação (como Obama fez em 2008), mas oferecendo-se para 'fazer América grande outra vez' por Retornando a uma era indefinida quando o país - e suas maiorias cristãs brancas - desfrutavam de um domínio econômico e cultural incomparável.
Ora, assistimos ao uso de discursos semelhantes na França e na Alemanha,
Marine Le Pen e Frauke Petry estão oferecendo a eleitores nostálgicos uma estrada de tijolos amarelos para restaurar seu perdido bem-estarCLICK TO TWEET
 
E trazer de volta 'o passado glorioso', retornando às moedas nacionais, fortalecendo o estado central e reverter as políticas multiculturais das últimas décadas.

Se essas narrativas pessimistas ganharem, a ordem liberal - e a UE com ela - estarão em sérios problemas. Assim, as perguntas são: De onde vem essa onda de saudade? Que consequências pode ter para essa ordem mundial liberal? E como pode ser combatida? Como salientou o sociólogo Fred Davis, a nostalgia é uma resposta humana comum entre os grupos que sentem ameaçada a continuidade de sua identidade, algo que tende a ocorrer em períodos de severa mudança econômica e social. As transformações rápidas causam aflição em indivíduos de idade média e avançada, que, dominados pela aparente complexidade, instabilidade e incoerência de suas novas circunstâncias, buscam refúgio em uma era passada, que eles percebem como melhor - mesmo se a evidência mostra que não era ".
Há pelo menos duas explicações científicas para essa percepção. Primeiro, a tendência humana de imaginar o passado não por uma investigação cuidadosa do registro histórico, mas pela oposição ao presente - se a sociedade é agora precária e difícil, ela deve ter sido antes certa e fácil. A segunda explicação é conhecida como "reação da retrospecção rosada". A pesquisa mostrou que as pessoas mais velhas tendem a lembrar e recordar eventos mais carinhosamente e positivamente do que realmente eram, especialmente quando eles vêm de sua adolescência e maturidade adiantado. Essas "falsas memórias" podem convencer-nos de que as coisas eram melhores no passado quando não eram e distorcer nossa capacidade de tomar decisões importantes, uma vez que os seres humanos são naturalmente inclinados a repetir experiências que recordamos como boas.
O resultado deste duplo processo mental é um passado muitas vezes concebido como uma "era dourada", quando tudo estava melhor do que agora - uma ideia sugestiva que os políticos de Mussolini a Reagan têm usado consistentemente ao longo da história moderna para tomar o poder.
Hoje estamos vivendo um período de mudanças sociais e econômicas sem precedentes. Portanto, não é de surpreender que aqueles que se sentem mais agravados pelas recentes transformações rápidas estejam votando para os partidos que prometem uma retirada para as águas quentes e calmas do passado, quando os governos defendiam suas economias nacionais, os estrangeiros não tiraram os empregos dos homens brancos.
Mas há vários problemas com essa tendência que deveríamos nos preocupar. A nostalgia é inofensiva quando serve para adoçar nossas memórias pessoais e para inspirar nossos romances históricos, mas pode ser desastrosa quando se torna o núcleo das esperanças dos eleitores e a base para a formulação de políticas. Isto é assim por uma variedade de razões.
Primeiro, porque a nostalgia é delirante. Representa um salto para um barco de vida imaginário de um navio que não está realmente afundando. A era de ouro que esses movimentos populistas querem nos levar nunca existiu. A pesquisa mostra claramente que o passado não foi melhor em quase qualquer consideração. Segundo, a nostalgia é perigosa porque é regressiva. Os partidos de direita estão usando isso como um subterfúgio para promover suas agendas xenófobas, sexistas, homofóbicas e isolacionistas, e obstruir o progresso rumo a uma sociedade mais justa. Por último mas não menos importante, a nostalgia faz má política porque nos leva a uma viagem ao impossível. Nos filmes, remakes são geralmente ruins. Na política, eles são simplesmente impossíveis. As sociedades não podem voltar - nenhum de nós pode - e quando tentamos, os resultados são geralmente catastróficos: o Zimbabué de Mugabe é um bom exemplo.
Esperar que um país possa avançar indo para trás seria como tentar dirigir por uma estrada de montanha com os olhos fixos no espelho retrovisor. O futuro pode parecer intimidante e incerto, mas é aí que estão as oportunidades da humanidade e, portanto, onde devemos olhar. Afinal, estava caminhando em direção ao horizonte misterioso que nos fez humanos em primeiro lugar.

Diego Rubio é pesquisador na Universidade de Oxford e professor de História Aplicada e Governança Global na Escola de Relações Internacionais do IE. Ele também é pesquisador associado do Centro de Estudos Europeus de Oxford e da Academia Britânica de Educação Superior. Trabalhou como Conselheiro de Política para as Nações Unidas e para a Secretaria Geral Ibero-Americana (Segib), e tem visitado acadêmicos em várias universidades, incluindo Paris-IV Sorbonne, Columbia, em Nova York, e a Fletcher School of Law and Diplomacy .

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Mar de lama

É um verdadeiro mar de lama exposto aos olhos do país inteiro, que assiste, atónito, pela rádio e pela televisão, a sucessivas denúncias, qual delas a mais comprometedora. (…) Mas o mar de lama da corrupção, se não for debelado (e não basta mudar nomes), pode ter efeitos mais profundos e deletérios sobre todo o sistema político.



No dia 05 de Novembro de 2015, a barragem do Fundão, da empresa Samarco Mineração, em Mariana, Minas Gerais, rompeu, lançando um mar de lama com resíduos tóxicos que arrastou tudo e todos no seu caminho. Povoações inteiras foram arrasadas, campos e rios contaminados, e pelo menos duas dezenas de pessoas morreram, naquele que se configura como o maior desastre ambiental do Brasil.

As delações da Odebrecht no âmbito da operação Lava Jato, reveladas a semana finda, têm, em termos simbólicos, efeito não menos devastador.

Em depoimentos gravados, os mais altos responsáveis (Emílio e Marcelo Odebrecht) e dezenas de executivos da empresa expõem – por vezes com espantosa candura – um universo de corrupção que ultrapassa tudo o que a antiga musa canta.

O último cômputo das verbas implicadas rondaria os 3,3 bilhões de dólares – aproximadamente 10 bilhões de reais – distribuídos pelos mais diversos partidos (do poder e da oposição), quer para financiar campanhas eleitorais, quer para literalmente comprar medidas legislativas – da presidência ou do parlamento – favoráveis à empresa.

Dos municípios e órgãos locais ao parlamento e governo da república, passando por governadores e executivos estaduais – é todo o aparelho do poder no conjunto do país que aparece, num ou noutro grau, de alguma forma comprometido.

Para gerir tudo isso, a Odebrecht tinha até um departamento de operações especiais, que distribuía as verbas e fazia a contabilidade, atribuindo a cada político envolvido um nome de código de acordo com alguma característica distintiva particular.

E não foi só a Odebrecht que sustentou essa captação do interesse público pelo interesse privado – outras grandes construtoras – OAS, Andrade Gutierrez, Dersa… – aparecem também envolvidas, financiando políticos em troca de licitações marcadas, pagando percentagens sobre grandes negócios dentro e fora do Brasil.

O fenômeno é tão vasto que outras revelações poderão ainda estar pela frente. Eliana Calmon, juíza aposentada do Superior Tribunal de Justiça e ex-corregedora nacional de Justiça, prevê inclusive que o próprio Judiciário acabará por ser envolvido.

Segundo ela, a Lava Jato só não o fez ainda por uma questão de estratégia, para não prejudicar as investigações em curso. “Muita coisa virá à tona” – previu Calmon, que em 2011, quando ainda corregedora, afirmou que havia bandidos escondidos atrás da toga. “De então para cá – afirmou – as coisas não melhoraram”.

É um verdadeiro mar de lama exposto aos olhos do país inteiro, que assiste, atônito, pela rádio e pela televisão, a sucessivas denúncias, qual delas a mais comprometedora.

E praticamente ninguém escapa: estão denunciados uma dezena de ministros do núcleo duro do atual governo, bem como nada mais nada menos que cinco ex-presidentes – Sarney, Collor, FHC, Lula e Dilma – além dos atuais líderes do Senado e da Câmara dos Deputados.

Temer, o atual chefe de Estado, também foi citado nas delações, e só não será de imediato investigado porque goza de imunidade temporária: enquanto estiver na presidência não poderá ser julgado por atos praticados antes do exercício do cargo.

O leque de políticos envolvidos é tão amplo e o seu número tão grande, que não dá para acentuar culpas neste ou naquele – todos são de uma forma ou de outra igualmente responsáveis.

A aparente facilidade com que – segundo as denúncias – praticamente todos se envolveram, em maior ou menor medida nos esquemas de financiamento ilícito parece indicar que esse modus faciendi estava (está) profundamente enraizado, sendo encarado como quase natural por aqueles que nele participa(va)m.

Os efeitos imediatos desta enxurrada são claros – o governo, já de si muito contestado por defender mudanças impopulares (contenção de despesas, aperto fiscal, aumento da idade da reforma, liberalização das leis laborais…), terá ainda maior dificuldade para as concretizar.

Por outro lado, os nomes apontados para concorrer às presidenciais de 2018 – do ex-presidente Lula, pelo PT, ao senador Aécio Neves ou ao governador de São Paulo Geraldo Alckmin, pelo PSDB, passando pela ex-senadora Marina Silva, da Rede, poderão estar comprometidos, abrindo assim caminho a nomes mais marginais –  como os do ex-ministro Ciro Gomes, à esquerda, ou do militar na reserva e atual deputado  pelo PP, Jair Bolsonaro.

Mas o mar de lama da corrupção, se não for debelado (e não basta mudar nomes), pode ter efeitos mais profundos e deletérios sobre todo o sistema político.

Sendo manifestamente um grave problema sistêmico, só com uma profunda reforma política, quiçá até uma nova Constituição – revendo todo o financiamento dos partidos e respectivas campanhas eleitorais – poderá ser eventualmente reparado.

Sob pena do já grande descrédito da classe política se acentuar ainda mais, pondo em perigo a própria democracia.

No que respeita ao meio ambiente, as consequências do desastre de Mariana de 2015 estão longe, ainda hoje, de terem sido ultrapassadas. Sê-lo-ão as da política, a tempo de se evitar o pior?

Carlos Fino, jornalista português, correspondente internacional, vive em Brasília desde 2004.


quarta-feira, 19 de abril de 2017

Podem os socialistas ser felizes?

George Orwell
Tradução de Desidério Murcho

Pensar no Natal faz pensar quase automaticamente em Charles Dickens, e por duas boas razões. Para começar, Dickens é um dos poucos escritores ingleses que escreveu efectivamente sobre o Natal. O Natal é a mais popular das festividades inglesas, mas produziu apesar disso e surpreendentemente pouquíssima literatura. Há os cânticos de Natal, cuja maioria é de origem medieval; há uma pequeníssima mão-cheia de poemas de Robert Bridges e T. S. Eliot, entre outros, e Dickens; mas pouco mais há. Em segundo lugar, Dickens é notável, na verdade quase único, entre os autores modernos, por ser capaz de apresentar uma imagem convincente da felicidade.

Resultado de imagemDickens lidou duas vezes com o Natal, de modo bem-sucedido — num conhecido capítulo de The Pickwick Papers e em The Christmas Carol. A segunda história foi lida a Lenine no seu leito de morte que, segundo a sua esposa, considerou completamente intolerável o seu “sentimentalismo burguês”. Ora bem, num certo sentido, Lenine tinha razão; mas se estivesse melhor de saúde, talvez tivesse notado que a história tem algumas implicações sociológicas importantes. Para começar, por mais que seja espessa a tinta que Dickens aplica, por mais repugnante que seja o “pathos” de Tiny Tim, a família Cratchit dá realmente a impressão de passar bons momentos. Parecem felizes, ao contrário de, por exemplo, os cidadãos de News from Nowhere, de William Morris. Além disso — e a compreensão que Dickens tem disto é um dos segredos do seu poder — a felicidade da família resulta principalmente do contraste. Estão bem-dispostos porque desta vez têm de certo modo o suficiente para comer. O lobo assoma à porta, mas está a abanar o rabo. O aroma da sobremesa de Natal revolve por entre o pano de fundo de lojas de penhora e de trabalho mal pago, e é num sentido duplo que o fantasma de Scrooge se abeira da mesa do jantar. Bob Cratchit até quer brindar à saúde de Scrooge, o que a Sra. Cratchit rejeita com razão. Os Cratchit conseguem apreciar o seu Natal precisamente porque só acontece uma vez por ano. A sua felicidade é convincente apenas porque é descrita como incompleta.

Todos os esforços para descrever a felicidade permanente, por outro lado, têm sido desastres, desde cedo na história. As utopias (a propósito, a palavra inventada “Utopia” não quer dizer “um lugar bom”, mas apenas “um lugar inexistente”) têm sido comuns na literatura dos últimos três ou quatro séculos, mas as “favoráveis” não são invariavelmente apetecíveis, faltando-lhe também muitas vezes vitalidade.

As Utopias modernas de longe mais conhecidas são as de H. G. Wells. A visão do futuro de Wells, implícita em todo o seu trabalho mais antigo e em parte apresentada em Antecipations e A Modern Utopia, exprime-se de modo mais completo em dois livros escritos no início da década de 1920, The Dream e Men Like Gods. Temos aqui uma imagem do mundo tal como Wells gostaria de ver — ou pensa que gostaria. É um mundo cujos aspectos principais são o hedonismo esclarecido e a curiosidade científica. Todos os males e misérias que agora sofremos desapareceram. A ignorância, guerra, pobreza, sujidade, doença, frustração, fome, medo, excesso de trabalho, superstição — tudo desapareceu. Expresso deste modo, é impossível negar que este é o tipo de mundo que todos desejamos. Todos queremos abolir as coisas que Wells quer abolir. Mas haverá alguém que queira efectivamente viver numa Utopia wellsiana? Pelo contrário, não viver num mundo desses, não acordar num jardim de higiénico subúrbio infestado de senhoras professoras nuas, tornou-se efectivamente um tema político consciente. Um livro como Brave New World é uma expressão do medo efectivo que o homem moderno tem da sociedade hedonista racionalizada que está ao seu alcance criar. Um autor católico disse recentemente que as Utopias são agora tecnicamente exequíveis, tornando-se consequentemente um problema sério saber evitar a Utopia. Com o movimento fascista à nossa frente não podemos afastar este comentário como pura tolice. Pois uma das fontes do movimento fascista é o desejo de evitar um mundo demasiado racional e demasiado confortável.

Todas as Utopias “favoráveis” parecem semelhantes no que respeita a postular a perfeição ao mesmo tempo que são incapazes de sugerir a felicidade. News from Nowhere é uma espécie de versão sonsa da Utopia wellsiana. Toda a gente é simpática e razoável, a decoração vem toda das melhores casas, mas a impressão com que se fica é a de uma espécie de melancolia aguada. O esforço recente de Lord Samuel no mesmo sentido, An Unknown Country, é ainda mais sombrio. Os habitantes de Bensalem (palavra tomada de empréstimo de Francis Bacon) dão a impressão de ver a vida simplesmente como um mal a sofrer com o mínimo espalhafato possível. Tudo o que a sabedoria lhes trouxe foi um desânimo permanente. Mas o mais impressionante é que Jonathan Swift, um dos autores mais imaginativos que alguma vez viveu, não se sai melhor do que os outros na construção de uma Utopia “favorável”.

As primeiras partes de Gulliver's Travels constituem provavelmente o ataque mais devastador à sociedade humana que alguma vez se escreveu. Cada palavra é hoje relevante; algumas passagens contêm profecias minuciosas dos horrores políticos do nosso tempo. Onde Swift falha, contudo, é quando tenta descrever uma espécie de seres que efectivamente admira. Na última parte, em contraste com os asquerosos Yahoos, vemos os nobres Houyhnhnms, uma espécie de cavalos inteligentes que não padecem das imperfeições humanas. Ora, estes cavalos, apesar do seu elevado carácter e robusto senso comum, são criaturas notavelmente desoladoras. Como os habitantes de muitas outras Utopias, a sua principal preocupação é evitar o espalhafato. Têm vidas “razoáveis” e inertes em que nada acontece, não apenas sem altercações, desordem ou insegurança de qualquer tipo, mas também sem “paixão”, incluindo o amor físico. Escolhem os seus cônjuges segundo princípios eugénicos, evitam os excessos de afecto, e parecem de algum modo contentes por morrer quando chega a sua hora. Nas partes anteriores do livro, Swift mostrou aonde a tolice humana e a canalhice nos conduz: mas eliminemo-las e resta-nos apenas, ao que parece, um género tépido de existência, que dificilmente vale a pena.

As tentativas para descrever uma felicidade definitivamente do outro mundo não têm tido mais sucesso. O Céu é um fiasco tão grande quanto a Utopia — apesar de o Inferno, note-se, ocupar um lugar respeitável na literatura, tendo muitas vezes sido descrito muito minuciosa e convincentemente.

É um lugar-comum que o Céu cristão, tal como é habitualmente retratado, não atrairia pessoa alguma. Quase todos os autores cristãos que lidam com o Céu dizem com franqueza que é indescritível ou invocam uma imagem vaga de ouro, pedras preciosas e cânticos sem fim de hinos. É verdade que isto inspirou alguns dos melhores poemas do mundo:

Thy walls are of chalcedony, 
Thy bulwarks diamonds square, 
Thy gates are of right orient pearl 
Exceeding rich and rare!

Ou:

Holy, holy, holy, all the saints adore Thee, 
Casting down their golden crowns about the glassy sea, 
Cherubin and seraphin falling down before Thee, 
That wast, and art, and evermore shalt be!

Mas o que o autor cristão é incapaz de fazer é descrever um lugar ou condição onde o ser humano comum queira activamente estar. Muitos ministros revivalistas, muitos pastores jesuítas (veja-se, por exemplo, o fantástico sermão no A Portrait of the Artist, de James Joyce) aterrorizaram a sua congregação quase irrevogavelmente com as suas imagens lexicais do Inferno. Mas mal se chega ao Céu, foge-se logo para palavras como “êxtase” e “beatitude”, quase nem se tentando dizer em que consistem. Talvez o pedaço mais vital de escrita sobre este tema seja a famosa passagem em que Tertuliano explica que uma das principais alegrias do Céu é assistir às torturas dos danados.

As várias versões pagãs do Paraíso são pouco melhores, se é que realmente o são. Fica-se com a sensação de que nos campos Elísios é sempre crepúsculo. O Olimpo, onde viviam os deuses, com o seu néctar e ambrósia, e as suas ninfas e Hebe, as “cabras imortais”, como D. H. Lawrence lhes chamou, poderá ser um pouco mais parecido aos nossos lares do que o Céu cristão, mas ninguém quereria passar lá muito tempo. Quando ao paraíso muçulmano, com as suas setenta e sete huris para cada homem, todas presumivelmente exigindo atenção ao mesmo tempo, não é senão um pesadelo. Nem os Espiritualistas, apesar de nos assegurarem a toda a hora que “tudo é brilhante e bonito”, conseguem descrever qualquer actividade no mundo do porvir que uma pessoa pensante considerasse passável, quanto mais atraente.

O mesmo acontece com as tentativas de descrever a felicidade perfeita que não são Utópicas nem do outro mundo, mas apenas sensuais. Dão sempre uma impressão ou de vazio ou de grosseria, ou de ambos. No início de La Pucelle Voltaire descreve a vida de Carlos IX com a sua amante, Agnes Sorel. Estão “sempre felizes”, afirma. E em que consistia a sua felicidade? Aparentemente, num ciclo sem fim de festividades, bebida, caça e sexo. Quem não ficaria enjoado de tal existência ao fim de algumas semanas? Rabelais descreve os espíritos afortunados, que passam bons momentos no outro mundo, como consolação de terem passado maus momentos neste. Cantam uma canção que podemos traduzir aproximadamente como se segue: “Saltar, dançar, reinar, beber vinho branco e tinto, e nada fazer todo o dia a não ser contar coroas de ouro” — quão aborrecido isto soa, afinal! O vazio da própria noção de uns “bons tempos” sem fim surge no quadro de Breughel “A Terra dos Preguiçosos”, em que as três imensas massas de gordura dormem, cabeça contra cabeça, caminhando os ovos cozidos e as pernas de porco assadas por si mesmas para serem comidas.

Parece que os seres humanos não são capazes de descrever, nem talvez de imaginar, a felicidade, excepto em termos de contraste. É por isso que a concepção de Céu ou Utopia varia de época para época. Na sociedade pré-industrial o Céu era descrito como um lugar de repouso sem fim, pleno de ouro, porque a experiência do ser humano médio era o trabalho excessivo e a pobreza. As huris do Paraíso Muçulmano reflectem uma sociedade poligâmica em que a maior parte das mulheres desapareciam de vista, pertencendo aos haréns dos ricos. Mas estas imagens de “beatitude eterna” falham sempre porque mal a beatitude se torna eterna (concebendo-se a eternidade como um tempo sem fim), o contraste deixa de operar. Algumas das convenções que ganharam raízes na nossa literatura surgiram de condições físicas que já não existem. O culto da primavera é um exemplo. Na Idade Média, a primavera não significava antes de mais andorinhas e flores silvestres. Significava legumes frescos, leite e carne fresca, depois de meses a viver de carne de porco salgada em cabanas fumarentas sem janelas. As canções primaveris eram alegres

Nada faças senão comer e fazer boa companhia, 
E agradece aos Céus um ano alegre 
Quando a carne é barata e as mulheres belas, 
E os rapazes vigorosos andam para cá e para lá, 
Tão alegres, 
E sempre tão alegremente!

porque havia razões para estar alegre. O inverno tinha acabado, e era isso que importava. O próprio Natal, uma festividade pré-cristã, começou provavelmente por ter de haver uma explosão ocasional de comida e bebida em excesso, para fazer um intervalo no intolerável inverno nórdico.

A incapacidade da humanidade para imaginar a felicidade excepto na forma de alívio, quer do esforço quer da dor, põe os socialistas perante um problema sério. Dickens pode descrever uma família devastada pela pobreza a atacar um ganso assado, e consegue fazê-los parecer felizes; por outro lado, os habitantes de universos perfeitos parecem destituídos de boa disposição espontânea e são habitualmente, ainda por cima, algo repulsivos. Mas é claro que não visamos o tipo de mundo que Dickens descreve nem, provavelmente, qualquer mundo que ele fosse capaz de imaginar. O objectivo socialista não é uma sociedade em que tudo acaba bem porque senhores idosos generosos oferecem perus. O que visamos senão uma sociedade na qual a “caridade” seja desnecessária? Queremos um mundo em que Scrooge, com os seus dividendos, e Tiny Tim, com a sua perna tuberculosa, sejam ambos impensáveis. Mas significa isso que visamos uma Utopia sem dores nem esforços?

Correndo o risco de dizer algo que os directores do Tribune poderão não sancionar, sugiro que o verdadeiro objectivo do socialismo não é a felicidade. A felicidade tem até agora sido um subproduto, e tanto quanto sabemos poderá sê-lo sempre. O verdadeiro objectivo do socialismo é a irmandade humana. Sente-se muitas vezes que isto é verdade, apesar de não se o dizer habitualmente, ou pelo menos não se diz suficientemente alto. Os homens gastam a sua vida em lutas políticas desoladoras, ou deixam-se matar em guerras civis, ou são torturados nas prisões secretas da Gestapo, não para estabelecer um Paraíso com aquecimento central, ar condicionado e luzes de néon, mas porque querem um mundo no qual os seres humanos se amam em vez de se burlarem e matarem. E querem esse mundo como primeiro passo. Aonde vão a partir daí não é certo, e a tentativa de o prever com alguma minúcia só confunde a questão.

O pensamento socialista tem de lidar com a previsão, mas apenas em termos gerais. Temos muitas vezes de visar objectivos que vemos apenas imperfeitamente. Neste momento, por exemplo, o mundo está em guerra e quer paz. No entanto, o mundo não tem qualquer experiência da paz, e nunca teve, a menos que o Nobre Selvagem tenha existido. O mundo quer algo de cuja existência possível está vagamente ciente, mas que não pode definir precisamente. Neste dia de Natal, milhares de homens irão sangrar até à morte nas neves da Rússia, ou afogar-se-ão em águas geladas, ou irão rebentar-se entre si com granadas de mão em ilhas pantanosas do Pacífico; os órfãos esgravatarão à procura de comida entre os destroços das cidades alemãs. Tornar este tipo de coisa impossível é um bom objectivo. Mas dizer minuciosamente como seria um mundo pacífico é outra coisa, e tentar fazê-lo tende a conduzir aos horrores tão entusiasticamente apresentados por Gerald Heard.

Quase todos os criadores da Utopia se parecem com o homem a quem lhe dói os dentes e pensa consequentemente que a felicidade consiste em não ter dor de dentes. Queriam produzir uma sociedade perfeita continuando sem parar algo que só tinha tido valor por ser temporário. Um curso de acção mais sábio seria dizer que há certas linhas em que a humanidade tem de caminhar, a estratégia geral está traçada, mas a profecia meticulosa não é do nosso foro. Quem tenta imaginar a perfeição não faz senão revelar o seu próprio vazio. Isto acontece mesmo no caso de um grande escritor como Swift, que consegue esfolar admiravelmente um bispo ou um político, mas que ao tentar criar um super-homem não faz senão deixar-nos a impressão — a última coisa que queria — de que os malcheirosos Yahoos continham em si mais perspectivas de desenvolvimento do que os esclarecidos Houyhnhnms.

George Orwell

Originalmente publicado no jornal Tribune (24 de Dezembro de 1943)

Economia brasileira crescerá 0,7% em 2017, segundo Banco Mundial

Novo estudo do economista-chefe para América Latina e Caribe também aponta expansão econômica de 1,5% na região, que passou seis anos em desaceleração.
Novo estudo discute formas de tornar a América Latina menos dependente dos preços das matérias-primas. Foto: Banco Mundial
Mariana Ceratti, de Washington, para a ONU News*
O Banco Mundial anunciou nesta terça-feira, em Washington, que a economia da América Latina e do Caribe crescerá 1,5% em 2017 e 2,5% em 2018. A notícia chega após seis anos de desaceleração, incluindo dois de recessão, segundo o relatório do economista-chefe para a região.
Brasil e Argentina, que estão aos poucos saindo da recessão, têm papel modesto nesse novo momento regional: devem crescer 0,7% e 3%, respectivamente. Os maiores percentuais de expansão econômica vêm da América Central, do Caribe e do México.
Pobreza
Encontrar novos caminhos de crescimento é importante porque a desaceleração dos últimos anos afetou as conquistas sociais obtidas na primeira década dos anos 2000. A desigualdade parou de cair e 39% dos latino-americanos correm hoje o risco de voltar para a condição de pobreza.
Antes da crise, a América Latina e o Caribe haviam registrado resultados importantes no combate à pobreza. Entre 2003 e 2013, a maior parte da região passou a abrigar mais pessoas de classe média. No mesmo período, o percentual de extrema pobreza caiu pela metade e chegou a 11,2% da população.
Reuniões
Para crescer mais e reduzir a pobreza, é importante a região aumentar a integração comercial com o resto do mundo e economizar mais, bem como apoiar o desenvolvimento do setor privado. Isso ajudará a América Latina e o Caribe a depender menos dos preços das matérias-primas.
O relatório, lançado em meio às reuniões de primavera com o Fundo Monetário Internacional, FMI, também recomenda que a região invista em educação de qualidade, infraestrutura e eficiência dos serviços públicos.
*Reportagem do Banco Mundial Brasil 

terça-feira, 18 de abril de 2017

Entendendo a raiva da Turquia com o Ocidente


"Quem se levanta com raiva, senta-se com uma perda" (Öfkeyle kalkan zararla oturur) é um profundo provérbio turco. No entanto, a sabedoria do provérbio não impediu a recente turva turca com o Ocidente, a União Européia (UE) em particular, e mais especificamente a Alemanha e a Holanda. Então por que a Turquia ficou tão irritada com os países da UE, quando da sua criação adotou a civilização ocidental e se esforçou para se juntar ao clube da UE, e já fez uma série de acordos econômicos e de segurança com o Ocidente?

Cemal OzkahramanResponder a esta pergunta é complicado. Parte do motivo é o acordo de imigrantes de 2016 (destinado a evitar um afluxo maciço de refugiados para os países da UE); A Turquia alega que a UE não cumpriu a sua promessa de apoiar financeiramente a Turquia e, o que é mais importante, que a Alemanha e a Holanda não permitiram que os ministros turcos realizassem reuniões com os seus cidadãos duais em relação ao referendo turco em Abril de 2017 - Margens, em parte graças a grandes maiorias entre turcos em ambos os países. Mas estas não são as principais questões. Em primeiro lugar, devemos examinar as sensibilidades mais profundas da Turquia, que se relacionam com a segurança e unificação do Estado, e como o Ocidente, em particular a UE, despertou estas preocupações. Existem dois aspectos inter-relacionados a este respeito: os critérios da UE em relação a questões como os direitos humanos fundamentais, incluindo os direitos culturais e políticos de grupos minoritários como os curdos; E apoio ocidental para os curdos sírios liderados por Partiya Yekîtiya Demokrat (PYD) contra o chamado Estado Islâmico (ISIS). As ações do PYD fecham vínculos ideológicos com Partiya Karkerén Kurdistan (PKK), que a Turquia considera uma ameaça à segurança, e mesmo à sobrevivência, do Estado turco.

Relações Turquia-UE

Desde o final da Segunda Guerra Mundial, a Turquia tornou-se membro de várias organizações europeias e ocidentais, culminando no seu pedido formal de adesão plena à Comunidade Europeia em Abril de 1987. Isto foi considerado benéfico tanto para a UE como para a Turquia. No entanto, os critérios da UE, que se baseavam exclusivamente no desenvolvimento econômico e na segurança, aumentaram; Os direitos humanos fundamentais devem estar em vigor antes da adesão dos novos membros, incluindo os direitos políticos, econômicos e sócio-culturais.

O Estado turco e as elites burocráticas têm visto tais exigências, particularmente em relação à questão curda, como uma ameaça à sua fundação estatal. A Turquia receia que os critérios da UE enfraqueçam o Estado, desfazendo a unificação. Isso perturbou profundamente a elite governante do Estado, que ficou céptica quanto à adesão à UE. Na verdade, devido a estas preocupações, o Presidente Recep Tayyip Erdogan decidiu realizar um referendo sobre se quer ou não continuar as negociações de entrada.

Frustração Turca

"Não há outro amigo dos turcos, mas turcos" (Türkün Türkten başka dostu yoktur) é outro provérbio turco, relativo à sobrevivência do Estado. Há razão para isso. Os turcos migraram para a Anatólia no século XI da Ásia Média. Permanecer na terra de outras pessoas exigia a fundação de um estado forte. Os turcos, do Império Seljuk (1037) à república turca (1923), construíram estados fortes para garantir sua sobrevivência e sempre viram grupos ou nações individuais dentro de seu território adotado como um potencial inimigo e ameaça ao seu estado. Claro, há uma boa razão para esta preocupação. Mesmo sem o Irã, que sempre viu como seu inimigo histórico, a Turquia nunca esqueceu seus inimigos ocidentais da Primeira Guerra Mundial, o cerco de sua terra e a Revolta Árabe de 1916, o que poderia ter levado os turcos a tornarem-se apátridas.

No entanto, para tomar seu lugar no mundo globalizado, a Turquia decidiu ignorar a filosofia por trás dos provérbios. A este respeito, entre o milênio e a Primavera Árabe de 2011, a Turquia começou a ajustar a sua política externa, adotando uma abordagem "zero" de problemas. Ele queria abolir sua tradição de ver cada estado individual como um inimigo em potencial, tanto seus países vizinhos como no mundo mais amplo. A Turquia recebeu um prêmio maior: estabelecer o "neo-otomanismo", através do qual visava recuperar sua hegemonia regional.

No entanto, quando a Síria se envolveu na revolta árabe, apoiada pelos países ocidentais, isso obstruiu a possibilidade do "neo-otomanismo". Além disso, como consequência da guerra civil síria, ocorreu a ascensão da região autônoma curda ao lado da fronteira turca no norte da Síria, provocando mais ansiedade turca. As coisas se deterioraram ainda mais para a Turquia quando os países ocidentais começaram a cooperar plenamente com os curdos liderados pelo PYD na Síria contra o ISIS, que mudou o paradigma da geopolítica na região a favor dos curdos. Este acontecimento alarmou Ancara e foi considerado uma ameaça de morte para a segurança interna e externa do Estado turco. Tudo isto resultou na atitude agressiva da Turquia face aos países ocidentais, nomeadamente os seus potenciais parceiros da UE, a Alemanha e a Holanda, com a "punição" dos países da UE ao enviar milhares de refugiados para o seu território.

Conclusão

Os turcos acreditam que o estado é sagrado para sua sobrevivência; Ele é percebido como intocável independentemente do sistema, ideologia, religião e método - acima de tudo. Pode ser a única nação no mundo que se refere ao "Estado Pai" (Devlet baba). Os critérios de adesão à UE e, o mais crucial, a intervenção ocidental na política recente no Médio Oriente, não só impediram o utopista projeto turco de "neo-otomanismo", mas também causaram grande preocupação com sua segurança interna e externa através do apoio ocidental aos curdos sírios. Os turcos e a elite do Estado acreditam que estão a criar um outro acordo Sykes-Picot (1916) no Oriente Médio. Assim, embora não haja dúvidas de que a recente ira da Turquia se deve, em certa medida, à aversão da UE ao próximo referendo, e talvez, em certa medida, ao acordo com os imigrantes, o fator mais importante é a mudança na política geo-regional, No nervo mais sensível da Turquia, levando a uma resposta irracional e improdutiva, apesar de saber que "Quem se levanta com raiva, senta-se com uma perda".


Cemal Ozkahraman  PhD do Instituto de Estudos Árabes e Islâmicos (Faculdade de Ciências Sociais e Estudos Internacionais), Universidade de Exeter, Reino Unido. Ele é atualmente um pesquisador independente com vários artigos e ensaios sobre Democracia Aberta.

A estagnação das emissões de CO2 do setor de energia

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

global carbon dioxide emissions, 1980-2016

A Agência Internacional de Energia (IEA em inglês) divulgou em março os dados que mostram que as emissões globais de dióxido de carbono relacionadas à energia ficaram estáveis pelo terceiro ano consecutivo (2014, 2015 e 2016). Isto aconteceu mesmo com o crescimento da economia internacional, sinalizando um desacoplamento relativo das emissões de CO2 e da atividade econômica. Este fato inédito nas últimas décadas foi possível graças ao crescimento da geração de energia renovável, a substituição de carvão por gás natural, as melhorias na eficiência energética, bem como mudanças estruturais na economia global.
As emissões globais do setor de energia ficaram em 32,1 gigatoneladas nos últimos três anos, enquanto a economia global cresceu em torno de3%, segundo estimativas da IEA. As emissões de dióxido de carbono diminuíram nos dois maiores consumidores e emissores de energia do mundo. Nos Estados Unidos (devido ao aumento do fornecimento de gás de xisto) e na China (devido à redução do uso do carvão mineral, necessário para reduzir a poluição do ar). E permaneceram estáveis ??na Europa, os três, compensando os aumentos na maior parte do resto do mundo. As emissões nos Estados Unidos no ano passado estavam em seu nível mais baixo desde 1992, período em que a economia cresceu 80%. Evidentemente, a transferência de fábricas para o Terceiro Mundo ajuda neste processo.
Ainda segundo IEA, em 2016, as energias renováveis forneceram mais de metade do crescimento da demanda global de eletricidade, sendo a hidrelétrica responsável pela metade dessa participação. O aumento global da capacidade nuclear do mundo no ano passado foi a maior desde 1993, com novos reatores na China, Estados Unidos, Coréia do Sul, Índia, Rússia e Paquistão. A demanda de carvão caiu mundialmente, mas a queda foi particularmente acentuada nos Estados Unidos, onde a demanda caiu 11% em 2016. Pela primeira vez, a geração de eletricidade a partir do gás natural foi maior do que a do ano passado nos Estados Unidos. Na China, as emissões caíram 1% no ano passado, à medida que a demanda de carvão diminuía e o PIB cresceu 6,7%. Esta tendência teve várias razões, sendo que a principal foi a mudança do carvão para o gás no setor industrial e imobiliário, impulsionada em grande parte pelas políticas governamentais de combate à poluição atmosférica. Dois terços do crescimento da demanda de eletricidade na China, que cresceu 5,4%, foi fornecido por energias renováveis ??- principalmente hidrelétricas e eólicas – bem como nucleares.

co2 emissions and global economy growth rates

Esse desacoplamento relativo se deveu às forças do mercado, às reduções de custos tecnológicos e às preocupações com as alterações climáticas e a poluição atmosférica. Porém, a própria IEA ressalva que a pausa no crescimento das emissões é uma notícia positiva para melhorar a poluição do ar, mas não é suficiente para colocar o mundo em um caminho para manter as temperaturas globais abaixo de 2º C.
Sem dúvida, é necessário reduzir urgentemente as emissões de gases de efeito estufa (GEE). Os seres humanos já lançaram 1,9 trilhões de toneladas de carbono na atmosfera. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), para evitar o pior cenário, o mundo só pode emitir, entre 2012 e 2100, 1.000 gigatoneladas (Gt) de CO2. Em termos médios, isso significa que o mundo só pode liberar no máximo 11,3 GtCO2 por ano até 2100. O problema é que as emissões estão atualmente em torno de 40 GtCO2, o que dá uma ideia do tamanho do desafio para fazer essa redução.
Assim, o chamado “orçamento carbono” não está sendo cumprido e as INDCs do Acordo de Paris são insuficientes para resolver o tamanho do desafio. A estagnação das emissões do setor de energia é uma boa notícia, mas insuficiente. A concentração de CO2 na atmosfera ultrapassou 400 partes por milhão (ppm) em 2014 e já se aproxima de 410 ppm em 2017. O nível seguro é 350 ppm. Porém, os anos de 2015 e 2016 marcaram aumento de mais de 3 ppm ao ano, recorde absoluto. Com o aumento do efeito estufa aumenta a temperatura global e os três últimos anos foram os mais quentes desde o início do registro em 1880. Consequentemente, o nível de degelo global também tem batido todos os recortes.
O mundo precisa de uma mudança da matriz energética. O avanço da produção de energia renovável, a construção de uma rede inteligente de distribuição e o fortalecimento dos prosumidores são tarefas imprescindíveis. Mas também é preciso reduzir o desmatamento, fazer a transição da dieta cárnea para uma dieta vegetariana (ou vegana) e reduzir a demanda agregada global via o decrescimento demoeconômico, promovendo a transição do modelo de crescimento econômico infinito para um novo modelo de redução do metabolismo entrópico, que Howard e Elisabeth ODUM (2013) chamam de DECLÍNIO PRÓSPERO.
Referências:
ALVES, JED. Aquecimento global e Orçamento Carbono, Ecodebate, RJ, 11/11/2016

Global Carbon Budget

ODUM, Howard T; ODUM, Elisabeth C. O Declínio Próspero. Vozes, 2013

IEA finds CO2 emissions flat for third straight year even as global economy grew in 2016, International Energy Agency,17/03/2017


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 17/04/2017

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Castells: Trump ataca

Manuel Castells - La Vanguardia

A chuva de mísseis Tomahawk que caiu sobre a base síria de Shayrat marca uma mudança significativa na política externa de Trump, com repercussões importantes no cenário mundial. Um tema chave da sua campanha eleitoral, "Primeiro, América" ​​implicava um certo isolacionismo e uma renúncia à "construção de regimes" nos valores americanos que haviam praticado Clinton, Bush e até certo ponto Obama. Excetuando uma situação perigosa para os Estados Unidos, a intenção era não arriscar vidas americanas e nem gastar recursos para ajudar outros países.

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Foto: Wikipedia
Esta posição estratégica foi popular em um país cansado de guerras e cético em relação ao custo elevado da liderança global. As elites políticas europeias e os governos aliados dos Estados Unidos ficaram alarmados com o risco de perder a proteção da maior potência militar do mundo. Por que o bombardeamento da Síria tem sido apoiado por estas elites, enquanto eleitores de Trump e líderes nacionalistas europeus como Le Pen ou Farage, denunciaram a traição das suas promessas. Talvez a reação seja excessiva, já que era uma operação limitada, avisando de antemão os russos, de modo que no dia seguinte bombardeiros partiram da mesma base. No entanto, o ataque assume um significado mais profundo quando nós relacionamos-o com outras decisões. Tais como a implantação do porta-aviões nuclear Vinson na costa da Coréia do Norte, a demanda para a renúncia de Assad e a cominação para Rússia cessar o seu apoio ao ditador como condição de uma parceria com a Administração Trump no controle do Oriente Médio .

Por que essa mudança e o tom agressivo contra uma Rússia que o secretário de Estado Tillerson recebeu a Ordem de Amizade e Trump queria laços mais estreitos? Não se deve descartar a imprevisibilidade emocional de Trump ante as imagens de crianças gaseadas com sarin. Mas a verdadeira questão é por que seus colaboradores lhe mostraram estas imagens e não os de 253 civis, incluindo crianças, mortos por bombardeio dos EUA em Mosul. A chave parece residir na batalha política travada na Casa Branca e o Partido Republicano entre os nacionalistas isolacionistas e nacionalistas globalistas, porque ambos são baseados na premissa nacionalista do destino manifesto dos Estados Unidos.

Há um conflito aberto entre Kushner, genro de Trump, partidário de um país aberto ao mundo e o inspirador da "escolha certa", Steve Bannon, conselheiro estratégico para o presidente e figura emblemática da nova política. E embora Trump lhe tenha puxado as orelhas, Steve Bannon perdeu esta batalha (embora não a guerra, isso vai por muito tempo). Especificamente, ele perdeu sua posição como membro permanente do Conselho de Segurança Nacional. Uma nomeação que escandalizou porque destituiu dirigente militares e das agências de inteligência, algo sem precedentes nesse conselho onde a guerra e a paz no mundo é decidida.

A figura-chave na remoção de Bannon foi o novo presidente do Conselho de Segurança, o general McMaster, um militar profissional na linha tradicional de fazer sentir o mundo quem é que manda e quem está disposto a assumir o preço para manter esse mandato. Precisamente McMaster substituiu o general Flynn, conselheiro de Trump na campanha, ele teve de demitir-se do Conselho de Segurança Nacional devido os seus contatos informais com o embaixador russo, negociando o fim das sanções em troca de apoio na campanha eleitoral e por ter recebido um salário de Moscou como comentarista do Russia Today, a televisão de propaganda russa. Na verdade, a conexão russa, ou melhor, a desconexão dessa ligação é a chave para compreender a mudança na política externa.

E o grande medo de Trump é aumentar o fosso de desconfiança que existe no establishment político republicano precisamente por causa da sua relação com a Rússia, por seus negócios, amizades perigosas e admiração pessoal de Putin. Além disso, quando o inquérito parlamentar sobre essas ligações durante a temporada (incluindo a piratar russa nos sistemas informáticos de Clinton) ainda continua e se intensifica. Especialmente após a demissão do presidente da referida comissão, o senador Nunes, que lhe contava privativamente na Casa Branca como iam as coisas.

No horizonte estratégico de alguns membros dessa comissão se vê, inclusive, a possibilidade de ameaçar com um impeachment, com base na provável invasão russa em favor de Trump na campanha eleitoral, se Trump não corrigir um flerte com Putin e se insistir em desglobalizar unilateralmente. A resposta de Trump a esta ameaça implícita tem sido a série de decisões internas e externas tomadas nas últimas duas semanas. E que melhor maneira de dramatizar os limites de sua russofilia do quê bombardear o aliado fundamental da Rússia no Oriente Médio para proteger as crianças pobres sírias? política Clintoniana em sua essência. Mas acima de tudo, tomar uma posição com a Rússia: juntos, mas não misturados, porque nem as agências de inteligência, nem líderes republicanos toleram isso.

Em continuidade com esta nova forma de um intervencionismo hipócrita, ameaça um bombardeio das bases de mísseis na costa leste da Coréia do Norte enquanto fala com a China para acalmar os exaltados nacionalistas coreanos em troca de menores exigências americanas em suas relações comerciais.

E assim, como as realidades da política vão encaminhamento ao redil o populista nacionalista que achava que poderia desafiar os poderes constituídos. A desvantagem é que qualquer deslize pode provocar uma guerra na Coréia e reviver a guerra na Síria.