"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 29 de abril de 2017

Acidentes de trabalho matam 2,3 milhões de pessoas por ano

A OIT diz ainda que 300 milhões ficam feridos de acidentes nos locais de trabalho anualmente; declaração foi feita para marcar o Dia Mundial da Saúde e Segurança no Trabalho, este 28 de abril.
Dia Mundial para Segurança e Saúde no Trabalho. Foto: OIT/Adri Berger
Edgard Júnior, da ONU News em Nova Iorque.
A Organização Internacional do Trabalho, OIT afirma que 2,3 milhões de pessoas morrem e 300 milhões ficam feridos todos os anos em acidentes de trabalho.
No Dia Mundial da Saúde e Segurança no Trabalho, esta sexta-feira, 28 de abril, a OIT diz que informações corretas e detalhadas sobre o assunto vão ajudar a salvar vidas.
Tragédia
Em entrevista à ONU News, o diretor do Escritório da OIT em Nova Iorque, Vinícius Pinheiro deu mais detalhes sobre a situação.
"Hoje nós não temos muitas razões para celebrar o Dia Mundial da Saúde e Segurança no Trabalho. No momento em que eu terminar essa entrevista, nos próximos cinco minutos, cerca de 20 trabalhadores vão ter sido mortos por acidentes fatais e cerca de 3 mil acidentes vão ocorrer com trabalhadores ao redor do mundo. Isso é realmente uma tragédia muito grande e o custo disso é enorme. A OIT estima que os acidentes de trabalho custam cerca de 4% do PIB mundial em termos de dias perdidos, gastos com saúde, pensões, reabilitação e reintegração."
Pinheiro disse ainda que os 2,3 milhões de mortes anuais representam apenas a "ponta do iceberg". Segundo ele, grande parte dos acidentes não são reportados e por isso a OIT escolheu como tema para a data melhorar a informação sobre os acidentes.
Magnitude
Segundo a agência da ONU, esses cálculos sobre mortos e feridos não refletem a magnitude do problema, nem o impacto real dos acidentes e doenças ocupacionais sobre os trabalhadores, famílias e economias.
A OIT afirmou que "é necessário ter um melhor sistema de dados nacionais para que as autoridades possam compreender a dimensão e as consequências dos acidentes relacionados aos empregos, assim como de ferimentos e doenças".
Prioridades
A partir dos chamados "dados de segurança ocupacional e de saúde, OHS pela sigla em inglês, a meta é preparar políticas e estratégias eficazes para combater os problemas.
A agência da ONU declarou que dados confiáveis facilitam na determinação de prioridades e servem de base para calcular o progresso no setor.
Segundo os especialistas, os países que tiverem informações corretas e atualizadas terão mais condições de implementar o plano de ação global para acabar com a pobreza, proteger o planeta e assegurar prosperidade para todos, seguindo a Agenda 2030 para o desenvolvimento sustentável.
A OIT renovou o compromisso de apoiar os esforços dos Estados-membros para aumentar a capacidade de prevenção de acidentes ocupacionais e doenças nos locais de trabalho.

É possível um mundo sustentado por 100% de energia renovável até 2050?

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

Se você construiu castelos no ar, não pense que desperdiçou seu trabalho;
eles estão onde deveriam estar. Agora construa os alicerces”
Duzentos anos do nascimento de Henry Thoreau (1817-1862)
Projected Ebergy Suppy & Demand
Existe um sonho na praça que vai acirrar o debate entre os tecnófilos e os tecnofóbicos. O mundo pode ser abastecido 100% pelas energias renováveis até 2050. A lógica para tal revolução energética adviria dos altos custos ambientais da energia fóssil e da possibilidade do custo das energias renováveis (solar, eólica, geotérmica, ondas, etc.) permanecer abaixo do custo de produção dos combustíveis fósseis. Nesta situação, o fim dos subsídios aos combustíveis fósseis e as próprias forças do mercado promoveriam a substituição das fontes geradoras de altos níveis de dióxido de carbono para as fontes de baixa geração de carbono.
Artigo de Thomas Overton, no site Power Mag (03/01/17), mostra que o boom das energias renováveis, impulsionado pela queda dramática dos custos, levou alguns especialistas e figuras políticas a começar a falar seriamente sobre o que outrora era ficção científica: um mundo totalmente alimentado por geração de energia renovável. Ele questiona se é realmente viável ou econômico viabilizar tal projeto. O gráfico abaixo mostra que o preço da energia solar caiu 100 vezes de 1911 a 2013 (e continua caindo). Desta forma, uma série de estudos sugere que é – embora com algumas ressalvas importantes.
O artigo relembra que, em 1950, a ideia de alimentar um país inteiro com energia solar era ficção científica. Mas em 2017, muitos especialistas e políticos estão falando que é um objetivo inteiramente viável. Diversos municípios em todo o mundo fizeram da meta de 100% renovável ​​uma questão de lei. Grandes corporações como Google, Apple e Amazon declararam intenções de atender todas as suas necessidades de energia a partir de fontes renováveis. Até alguns países como a Dinamarca estão alvejando a geração 100% renovável. O tratado climático da COP21, o Acordo de Paris, estabeleceu uma meta de 100% de renováveis ​​em todo o mundo até 2050, no conceito “equivalente a 100% renovável”.

o preço da energia solar, por watt
Diversos trabalhos acadêmicos publicados tratam da meta “100% renovável”. O professor Mark Jacobson e o pesquisador Mark Delucchi escreveram uma série de estudos detalhando como o mundo e os EUA poderiam satisfazer todas as necessidades energéticas com uma combinação de geração hidrelétrica, geotérmica, eólica e solar. Eles descrevem como uma estimativa de 20,6 TW da demanda mundial total de energia em 2050 poderia ser fornecida por cerca de 52,1 TW de capacidade renovável mais ganhos de armazenamento e eficiência energética:
■ 2,5 milhões de turbinas eólicas de 5 MW (mistura 60/40 de on- e off-shore) (37%)
■ 409.000 geradores de onda de 0,75 MW (0,5%)
■ 935 usinas geotérmicas de 100 MW (0,7%)
■ 1.058 usinas hidrelétricas de 1,3 GW (4%)
■ 30.000 turbinas de maré de 1 MW (0,06%)
■ 1,8 bilhões de sistemas residenciais fotovoltaicos (PV) de telhado residencial de 5 kW (15%)
■ 75 milhões de sistemas fotovoltaicos comerciais de 100 kW (12%)
■ 250.000 usinas fotovoltaicas de 50 MW (21%)
■ 21.500 centrais de 100 MW de energia solar concentrada (CSP em inglês) com armazenamento térmico (10%)
■ 13.000 CSP de 100 MW
A combinação de tecnologias que os autores chamam de “vento, água, e solar” (ou WWS em inglês) poderia fornecer o mix energético necessário. A lista acima inclui recursos já existentes, particularmente hidroelétricos. A estimativa pressupõe avanços em eficiência energética, redução da demanda e redução do consumo de energia em um mundo sem combustíveis fósseis. Sob este cenário, o mundo alcançaria 80% de fontes renováveis ​​até 2030 e cerca de 95% até 2040.
O roteiro para a transição para 100% de energia renovável global prevê um mundo alimentado quase inteiramente por energia solar e eólica, com pequenas quantidades de energia hidrelétrica e geotérmica. Mas existem gargalos em termos de recursos naturais. Um dos quais é a disponibilidade de neodímio (Nd) necessária para geradores de turbinas eólicas, pois a produção mundial de Nd precisaria ser quintuplicada para atender à demanda, algo que talvez não seja viável. O mesmo acontece com o Lítio que é um recurso escasso e pode não ser suficiente para as baterias caseiras e dos carros elétricos. A reciclagem destes materiais teria que ser de uma eficiência além do que é conhecido hoje.
Quanto custaria tudo isso? Segundo Thomas Overton, custaria muito. Em valores de 2013, o custo estimado é de US$ 125 trilhões, mais do que o PIB mundial atual. Mas se argumenta que grande parte desse dinheiro seria gasto de qualquer maneira em outros recursos energéticos fósseis. O principal beneficiário seria evitar impactos na saúde e ao desastre das mudanças climáticas. Ainda segundo o artigo, embora a maioria dos estudos recomendem uma variedade de políticas para apoiar a transição, a questão de saber se tal programa é politicamente e socialmente viável permanece aberta.
Artigo de David Roberts (Vox, 07/04/2017) diz que há razões para ceticismo e para otimismo em relação à meta de 100% energia renovável até 2050. Para o caso dos EUA, o vento e a energia solar geram um pouco mais de 5% da eletricidade (Nuclear gera 20 por cento). A luta para passar de 5% para 60% deverá ser épica. As barreiras políticas e sociais devem retardar esse crescimento do que qualquer limitação técnica, especialmente a curto e médio prazo. Os especialistas em energia entrevistados pela REN21, acreditarem que a previsão de 100% das energias renováveis é uma hipótese “razoável e realista”, mas eles não esperem que isso aconteça em meados do século.
Contudo, mesmo que os 100% de energia renovável na rede elétrica sejam alcançados, a mudança da matriz energética é apenas um dos elementos para evitar a degradação do meio ambiente. Pode ser que 2050 já seja uma data muito remota para evitar o colapso ambiental e o agravamento da crise ecológica até um ponto de não retorno. As necessidades de transformação do modelo “Extrai-Produz-Descarta” e o aumento da entropia requerem uma grande transformação da forma de produção e consumo do mundo. As mudanças requeridas são gigantescas. Mas, certamente, a mudança da matriz energética é uma necessidade indispensável e inadiável na busca de qualquer solução para salvar o Planeta.
Referência:
ALVES, JED. Energia renovável: um salto na evolução? Ecodebate, RJ, 29/01/2010
ALVES, JED. Energia renovável com baixa emissão de carbono, RJ, Cadernos Adenauer 3, 2014
ALVES, JED. 100% energia renovável, Rio de Janeiro, Cidadania & Meio Ambiente, n. 54, v. X, p. 6-10, 2015. (2177-630X) http://pdf.ecodebate.com.br/rcman54.pdf
Thomas Overton. A 100% Renewable Grid: Pipe Dream or Holy Grail?, PowerMag, 03/01/2017
David Roberts. Is 100% renewable energy realistic? Here’s what we know. Vox, 07/04/2017
José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 28/04/2017

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Venezuela: especialistas condenam censura, prisões e ataques a jornalistas

Dois relatores da ONU e da Comissão Interamericana de Direitos Humanos se posicionaram contra "detenção, ataques e discriminação de jornalistas e trabalhadores da imprensa cobrindo recentes protestos no país"; segundo relatos, pelo menos 12 jornalistas venezuelanos e internacionais foram detidos.
Bandeira da Venezuela
Laura Gelbert Delgado, da ONU News em Nova Iorque.
Dois especialistas em liberdade de expressão das Nações Unidas e da Comissão Interamericana de Direitos Humanos condenaram nesta quarta-feira a prática de "censura" e "bloqueio de informação tanto na mídia tradicional quanto na internet" na Venezuela.
Os relatores também se posicionaram contra "detenção, ataques e discriminação a jornalistas e trabalhadores da imprensa cobrindo os recentes protestos no país".
Liberdade de expressão
Em comunicado, David Kaye e Edison Lanza fizeram um apelo ao governo que "liberte imediatamente todos os que foram detidos por seu trabalho jornalístico e pelo exercício de sua liberdade de expressão".
Em agosto do ano passado, os especialistas expressaram sua preocupação com "medidas que aumentaram consideravelmente a pressão contra a imprensa e limitavam sua habilidade de operar de forma independente".
De acordo com relatos, pelo menos 12 jornalistas venezuelanos e internacionais foram detidos após os últimos eventos. Eles foram soltos após terem ficado presos por horas ou, em alguns casos, dias.
Bloqueio
Os relatores também destacaram o caso do jornalista Bráulio Jatar, que continua detido desde setembro de 2016, após ter distribuído um vídeo que mostra pessoas protestando contra o presidente Nicolás Maduro em Isla de Margarita, no leste do país.
Segundo o Escritório de Direitos Humanos da ONU, diversas fontes de informação relataram que pelo menos três plataformas online de notícias foram bloqueadas por provedores privados de internet, após ordens da Comissão Nacional de Telecomunicações, Conatel.
A decisão teria sido tomada devido à cobertura de protestos contra o governo em diversos locais do país que a mídia tradicional havia decidido não cobrir.
Após estes eventos, novos "atos de censura" teriam ocorrido, segundo o Escritório, citando medidas que afetaram canais de televisão como CNN, TN, da Argentina, e El Tiempo e NTN 24 da Colômbia.
*David Kaye, relator especial das Nações Unidas sobre a promoção e proteção do direito à Liberdade de opinião e expressão.
*Edison Lanza, relator especial para liberdade de expressão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

RIC (Rússia, Índia e China): o triângulo estratégico que pode mudar a governança mundial

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

silk road routes

O termo BRIC (tijolo em inglês) foi inventado, em 2001, pelo economista Jim O’ Neill, do banco de investimento Goldman Sachs, com o objetivo de orientar as empresas e os investidores mundiais como ganhar dinheiro com os grandes países “emergentes” do mundo: Brasil, Rússia, Índia, China. Estes quatro países estão entre aqueles da comunidade internacional com maior território ou maior população. O termo fez grande sucesso, especialmente no período do superciclo das commodities. Mas no acrônimo original não havia nenhum país da África, o que era politicamente incorreto. Então foi incluída a África do Sul (South África) e o termo BRIC ganhou uma letra a mais, se transformando em BRICS (que seriam os tijolos da nova economia global). Porém, a África do Sul sempre foi um país muito pequeno (diante dos 3 gigantes) e o Brasil virou país submergente, depois de quatro anos de redução do PIB per capita (de 2014 a 2017). Quinze anos após a invenção do termo, os BRICS desmoronaram.
Mas tirando a primeira letra e a última, o acrônico vira RIC (Rússia, Índia e China) que são os três países que estão forjando uma nova aliança estratégica global e reconfigurando a governança mundial. A Rússia possui o maior território do mundo (área de 17,1 milhões de km², mais de duas vezes o tamanho do Brasil). Índia e China são os dois países mais populosos. Em 2016, a China tinha 1,38 bilhão de habitantes e a Índia 1,33 bilhão de habitantes (a Rússia tinha 143 milhões de habitantes). Daqui a 20 anos, em 2036, a China terá 1,39 bilhão e a Índia terá 1,66 bilhão (a Rússia terá 132 milhões de habitantes). Portanto, até 2036, Índia e China (IC), somarão mais de 3 bilhões de habitantes.
Em termos econômicos os RICs já são uma parcela significativa na economia internacional. Segundo dados de 2016, do FMI (em poder de paridade de compra – ppp), o PIB da China era de US$ 20,9 trilhões, o da Índia de US$ 8,6 trilhões e da Rússia de US$ 3,7 trilhões. Portanto, os RIC tinham um PIB conjunto (em ppp) de US$ 33,2 trilhões. Para comparação, o PIB dos EUA (em ppp), em 2016, era de US$ 18,6 trilhões. Os RIC caminham para ter uma economia duas vezes maior do que a americana e uma população quase dez vezes maior (embora a renda per capita seja entre cinco e seis vezes menor).
Artigo de Federico Pieraccini (11/03/2017) mostra que, enquanto o mundo continua a decifrar, ou digerir, as incógnitas da nova presidência isolacionista dos EUA, de Donald Trump, diversas mudanças importantes estão em andamento na área formada por Rússia, a Ásia Central, a Índia e a China. Enquanto os EUA enveredam no nacionalismo e no bairrismo, há avanços importantes no continente euro-asiático. Com uma população de mais de cinco bilhões de pessoas, o futuro da humanidade passa por esse imenso território. China, Rússia e Irã, estados euro-asiáticos fundamentais, estão esculpindo um papel de liderança no desenvolvimento do vasto continente. A Índia e a China são importantes consumidores de gás do Irã. Além disto, tanto a China quanto a Índia estão cooperando com a Rússia em uma base militar, o que ajuda a entender como Washington perde influência.
Ainda segundo Pieraccini, olhando para os grandes projetos dentro do continente euro-asiático, várias iniciativas se destacam. O projeto “One Belt, One Road”, proposto por Pequim (investimentos de cerca de um trilhão de dólares nos próximos dez anos); a União Econômica Euro-asiática (EAEU) onde Moscou busca integrar as ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central; e as iniciativas do Irã no Oriente Médio com o objetivo de trazer estabilidade e prosperidade para a região da Eurásia. O papel indiano neste contexto é mais difícil de administrar, comprimido dentro de um sentimento anti-Paquistão e anti-chinês, bem como uma sujeição aos Estados Unidos, acompanhado de boa amizade histórica com a Federação Russa.
O papel de Nova Delhi nesta parte do mundo é o mais indecifrável, vendo os esforços da Índia (inescrutável) para avançar seus próprios objetivos estratégicos. A importância estratégica de Moscou e Teerã é essencial para equilibrar a posição indiana. Historicamente, a Índia era um importante aliado da URSS e a Índia continuava militarmente a avançar importantes projetos militares com a Rússia. Nos últimos anos, a República Islâmica do Irã tem contribuído grandemente para a diversificação da oferta de energia indiana. O fato de Teerã ser um parceiro privilegiado de Pequim mostra como é um mundo multipolar e também ajuda a equilibrar o sentimento anti-chinês profundamente enraizado no establishment indiano. Neste caso, a Rússia e o Irã estão claramente desempenhando um papel mediador entre a China e a Índia.
Ainda segundo o autor, a estratégia global das três principais nações eurasiáticas visa, principalmente, fortalecer as fronteiras nacionais dos países com as regiões mais turbulentas. Em uma visão estratégica, que historicamente incorpora décadas de planejamento, Teerã, Moscou e Pequim compreenderam plenamente que a estabilidade é o principal objetivo a ser alcançado a fim de promover efetivamente o desenvolvimento econômico que beneficia todas as nações envolvidas. O presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, entendeu os ganhos potenciais da cooperação multipolar e o caminho seguido por seu país nos últimos meses forja um caminho para todas as outras nações asiáticas, especialmente depois que os EUA abandonaram a Parceria Trans-Pacífico (TPP).
O fato é que Rússia, Índia e China (RIC) estão assumindo um protagonismo crescente na Eurásia, com forte influência nos oceanos Pacífico e Índico. Não será difícil ampliar esta influência para a África e a América Latina. A China já é líder na produção de energias renováveis e tem um projeto de construir uma rede elétrica global UHVDC de US$ 50 trilhões até 2050. Isto seria fundamental para a mudança da matriz energética e para a redução das emissões de gases de efeito estufa (Alves, 13/03/2017).
Parece que as elites ocidentais (Estados Unidos e Europa) vão ter que se conformar com um papel diminuído na futura ordem internacional. Isto abre espaço para que o “Consenso de Beijing” substitua o “Consenso de Washington”. Enquanto os EUA constroem muro e a Europa se fecha aos imigrantes e refugiados, os RIC fortalecem um triângulo que está mudando a correlação de forças econômicas globais e a governança internacional. A união dos RICs vai fortalecer a China e apequenar os EUA.
Sob a liderança da China, a política “One Belt, One Road” (um cinturão, uma estrada), que foi anunciado pelo Presidente chinês Xi Jinping em 2013, é um plano estratégico de desenvolvimento que consiste na criação de um corredor econômico, lançado através de uma nova rota da seda. Fazem parte da nova rota, a “Silk Road Economic Belt” (cinturão econômico rota da Seda – que ligará a China com a Europa através da Ásia Ocidental e Central), e a “21st Century Maritime Silk Road” (Rota da seda marítima do século XXI – que ligará a China com os países do Sudeste Asiático, a África e a Europa). E como o nome indica, são circuitos inspirados na antiga rota da seda, que ligava o oriente e o ocidente que foi criada em 200 a.C. (ver figura acima). A China também tem liderado a transição energética para uma matriz renovável, uma mudança na indústria automobilística para os carros EVs plugin e está liderando a instalação de redes elétricas inteligentes. Tudo isto é uma amostra da transição do processo de Ocidentalização para o processo de Orientalização.
Artigo de Jeffrey Sachs “Eurasia is on the rise. Will the US be left on the sidelines?” (09/04/2017) diz: “A maior tendência geopolítica da atualidade não é a “America First”, ou a guerra global contra o terror, ou o Brexit, ou a Guerra Fria renovada com a Rússia. A novidade é a integração económica da Europa com a Ásia, especialmente a União Europeia com a China. A Europa e a Ásia convivem com a maior massa terrestre do mundo, a Eurásia. Eles estão cada vez mais conectados economicamente também. O protecionismo e a belicosidade de Trump acelerarão a integração da Europa e da Ásia e ameaçarão deixar os Estados Unidos à margem da economia e da governança global”.
O livro do jornalista Gideon Rachman, “Easternization: Asia’s Rise and America’s Decline From Obama to Trump and Beyond” mostra como tem se dado a ascensão dos países asiáticos. Ele argumenta que a crescente riqueza das nações asiáticas está transformando o equilíbrio internacional de poder. Especialmente a China, que mesmo com seus problemas (especialmente os ambientais), já está desafiando a supremacia dos Estados Unidos e da Europa.
Já o livro do pesquisador Graham Allison, “Destined for War: Can America and China Escape Thucydides’s Trap?” aponta para a possibilidade de uma Guerra entre EUA e China. A razão é a “Armadilha de Tucídides”, que se refere a um padrão mortal de estresse estrutural que resulta quando um poder crescente desafia um poder governante hegemônico. Esse fenômeno é tão antigo quanto a própria história. Sobre a Guerra do Peloponeso que devastou a Grécia antiga, o historiador Tucídides explicou: “Foi a ascensão de Atenas e o medo que isso incutiu em Esparta que tornou a guerra inevitável.” Nos últimos 500 anos, essas condições ocorreram dezesseis vezes. A guerra estourou em doze deles. Pode acontecer agora com EUA e China.
No início de abril de 2017, o presidente chinês Xi Jinping se reuniu, pela primeira vez, com Donald Trump, na residência de Mar-a-Lago, para tratar dos crescentes conflitos existentes entre as duas maiores economias do mundo. O presidente americano prometeu pressionar a China. Mas como um “Tigre de Papel” nada fez de concreto e ainda desviou o assunto com o lançamento de mísseis contra uma base aérea da Síria. O resultado foi bom para Xi Jinping que não teve que ceder nada para as pressões de Trump. A China continua com grandes superávits comerciais com os EUA, que em 2016 foi de cerca de US$ 350 bilhões. A China segue o seu caminho ascendente e os EUA seguem sua tendência declinante. Um conflito direto, no momento, foi adiado.
Mas, em vez de fortalecer os laços econômicos e culturais, a proposta do presidente Trump é aumentar os gastos militares e reduzir o gasto social. Ele pretende diminuir imposto para os ricos e fazer um grande programa de investimento em infraestrutura, o que deve elevar a dívida pública. Artigo de Eric Pianin (10/04/2017) mostra que a dívida pública americana deve ter um crescimento exponencial nas próximas 3 décadas, podendo variar de 150% do PIB a 225% do PIB (como mostra o gráfico abaixo), dependendo da dinâmica econômica.

continuing current policies would increase debt

Sem dúvida, os EUA são uma potência em declínio relativo e com sérias dificuldades econômicas pela frente. A situação da Europa Ocidental não é menos dramática. Segundo Walter Laqueur, autor do livro “Os Últimos Dias da Europa – Epitáfio para um Velho Continente”, o continente europeu vive um estado de letargia, vive uma crise do sistema do “welfare state”, um declínio demográfico, uma pressão de refugiados e imigrantes muçulmanos e africanos e está dilacerada por tensões multiculturais, além de sofrer constantes ataques de terrorismo. Para Roger Cohen, “enquanto a Europa se enfraquece pela ascensão de partidos de esquerda e da direita antimigratória, pelo esfacelamento da periferia grega, uma Europa que vira as costas para os vizinhos orientais, egoísta e sem base moral, enquanto Moscou e Pequim tramam o futuro da Eurásia. Vladimir Putin tem ideias. A Europa, por enquanto, não tem nada”.
Enquanto isto, a Rússia, a Índia e a China (RIC) vão reconfigurando a Eurásia e se fortalecendo para enfrentar uma ofensiva americana no futuro, quando o peso econômico e político dos RICs será maior e o peso da “America First” será menor. A Europa também tende a ser uma região periférica da Eurásia e ficar condicionada aos avanços da China e os RICs.
A Turquia é o país que faz a ponte entre a Ásia e a Europa e é um candidato a entrar na União Europeia. Mas a Turquia vive há meses momentos de turbulência em razão de uma tentativa de golpe por parte das forças armadas, que tentaram tomar o poder assumindo o controle de aeroportos e redes de televisão, além de bloquear pontes na capital Ancara e em Istambul. Contudo, essa tentativa, foi sufocada pelo presidente Recep Tayyip Erdogan. No domingo, 16 de abril de 2017, houve um referendo constitucional para promover as maiores mudanças políticas já vistas desde a fundação do país em 1923. O país está em estado de emergência desde o ano passado. A vitória apertada (51% x 49%) de Erdogan, ligado ao partido islâmico- conservador AKP e que assume abertamente atitudes repressivas contra os seus opositores, foi contestada pela oposição. Isto indica que a maior democracia do mundo islâmico vai enfrentar um período difícil pela frente e é mais uma frente de conflito numa região sobre hegemonia da OTAN. A Turquia praticamente saiu da União Europeia antes de entrar e é mais um sinal de fraqueza da área do Euro.
Também a eleição da França é um marco, pois indica o fim do bipartidarismo e mostra uma sociedade extremamente polarizada, em declínio do padrão econômico, com crescimento dos problemas sociais, aumento da violência, de atentados terroristas e sem saber se quer ficar na União Europeia ou se afundar no isolacionismo e na xenofobia. O presidente François Hollande, com baixíssima popularidade, desistiu de se candidatar e contribuiu para a maior derrota do Partido Socialista em décadas. O candidato da esquerda socialista, Benoît Hamon, sofreu uma derrota histórica. O Partido Republicano também fracassou.
Entre os 11 competidores, quatro estavam próximos de um empate na véspera do primeiro turno: o centrista Emmanuel Macron (24%), a ultradireitista Marine Le Pen (22%), o conservador François Fillon (19%) e o dito ultraesquerdista Jean-Luc Mélenchon (19%). No domingo (23/04), os eleitores classificaram no topo da escolha Emmanuel Macron e Marine Le Pen. Desta forma, o segundo turno será entre um candidato centrista (provável vencedor final) e uma candidata de extrema direita. Portanto, a despeito do bom desempenho de Jean-Luc Mélenchon (19%), o conjunto da esquerda francesa teve uma derrota esmagadora.
Não se sabe se o próximo presidente eleito terá maioria parlamentar, pois a governabilidade vai ser decidida nas eleições legislativas de junho e será bastante difícil o presidente conseguir uma maioria sólida no Legislativo. Uma próxima presidência apequenada não é um destino improvável. A França tem assento permanente no Conselho de segurança da ONU e é um país chave da União Europeia. Por isto, o populismo e o enfraquecimento da França têm impacto global. A França foi o berço do Iluminismo que promoveu a racionalização do mundo e fortaleceu os valores dos Direitos Humanos no sistema democrático. Mas o momento atual mostra que os ideais de igualdade, liberdade e fraternidade estão cada vez mais enfraquecidos diante das crises civilizacional e ambiental.
A Europa – que já foi a vanguarda da globalização e do desenvolvimento capitalista – tende a ser parte da periferia da Eurásia e cada vez mais dependente do progresso da China. Há de se considerar que em outras épocas históricas, a mudança de hegemonia não ocorreu pacificamente e o mundo sofreu duas Guerras Mundiais na tentativa da Alemanha de se tornar a maior potência global. Novamente uma Europa dividida e enfraquecida pode assustar o mundo.
Além do mais, a ascensão da China (e seus aliados) ao posto de superpotência do século XXI pode estar ameaçada, de início, pela sobrecarga da pegada ecológica, pela insustentabilidade da contínua degradação ambiental e pelas mudanças climáticas. Enquanto as civilizações se revezam nos ciclos históricos, o Planeta pode não suportar esta troca estratégica de hegemonia e pode sucumbir diante do alto grau de dominação e exploração dos recursos ecossistêmicos e o definhamento da comunidade biótica.
Referências:
ALVES, JED. Ascensão e queda do BRICS, Ecodebate, RJ, 11/05/2016

ALVES, JED. A China e a Rede Elétrica Inteligente global, renovável e UHVDC , Ecodebate, RJ, 13/03/2017

Federico Pieraccini. The Strategic Triangle that Is Changing the World, Strategic Culture, 11/03/2017

Eric Pianin. All Those Warnings About the National Debt May Understate the Problem,
April 10, 2017

Gideon Rachman. Easternization: Asia’s Rise and America’s Decline from Obama to Trump and Beyond, 2017

Graham Allison. Destined for War: Can America and China Escape Thucydides’s Trap?, 2017

JEFFREY SACHS. Eurasia is on the rise. Will the US be left on the sidelines?, Boston Globe, 09/04/2017


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 26/04/2017

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Natal receberá pela primeira vez o Encontro Brasileiro dos Administradores e Acadêmicos de Administração, o EBA 2017



Promovido pelo Papo de Universitário, que tem como missão mobilizar o público em experiências inovadoras com muito entretenimento e aprendizado, estimulando o comportamento empreendedor e o protagonismo, o EBA está com gás total para sua quarta edição!

No feriadão do dia do trabalhador, o Evento espera receber cerca de 2 mil estudantes e profissionais de Administração de todo o Brasil na capital potiguar.



Em sua programação, o evento contará com o CEO da Azul Linhas Aéreas, Mark Neleeman, a ex-jogadora de volêi Virna e outros, o evento também contará com uma amostra do cenário local para empreendedorismo, no bloco “Potiguares Fora de Série”, os empreendedores Marcelo Alecrim, TIão Couto, Jussier Ramalho e Fred Alecrim falarão a situação econômica e empresarial do RN e do Brasil.

Para encerrar o evento ainda terá festas de integração entre os participantes, como atração terá Jammil, Jonas Esticado e MC Sapão, no Arena das Dunas.

O que? Encontro Brasileiro dos Administradores e Acadêmicos de Administração
Quando? 29 e 30 de abril e 01 de maio
Onde? Palestras: Praiamar Hotel
            Festas: Arena das Dunas
Inscrições? http://ebaeuvou.com.br

Giancarlo Martins Graduando em Administração pela UFERSA Coordenador de Comunicação EBA Natal

terça-feira, 25 de abril de 2017

Poesia e política?



É difícil imaginar grandes mudanças na política sem grande poesia informando-as...
Ulysses na corte de alcinousEstudantes do Wyoming Catholic College memorizam muitos poemas nos quatro anos do currículo de humanidades, mas poucas das letras mais curtas que aprendem - Housman, "To a Athlete Dying Young", por exemplo, ou "Pied Beauty" de Hopkins - explicariam Percy Bysshe A afirmação de Shelley de que os poetas são "os legisladores não reconhecidos da humanidade".
Poesia como legislação? Já faz muito tempo que homens como Solon, o lendário fundador da democracia ateniense, escreveram leis em medidor poético. No século passado, qualquer ligação entre poesia e política parece rara e ornamental, como a ocasião em que o muito velho Robert Frost recitou "The Gift Outright" em um Inverno de Inverno em 1961.
Mas é difícil imaginar grandes mudanças na política sem uma grande poesia informando-as. Durante a ascensão da Inglaterra ao poder mundial, por exemplo, a imaginação de William Shakespeare absorveu a esfera política tão profundamente que sua percepção informa quase todas as circunstâncias políticas concebíveis. A ambição, a rivalidade, as questões de legitimidade no cargo, apela à mudança do julgamento popular, delírios de poder, auto-escrutínio agonizado - nada lhe escapa. Não só ele pode escrever vacilações auto-compassivas de Richard II, mas ele também pode inventar excelente discurso do dia de São Crispim de Henrique V para a manhã da Batalha de Agincourt.
Não há provas de que Shakespeare tenha exercido cargos públicos, mas outros poetas foram diretamente envolvidos na esfera pública, incluindo os dois grandes poetas épicos do cristianismo, Dante Alighieri e John Milton. Dante estava tanto no meio das questões políticas que ele foi exilado de sua Florença natal, quando a facção rival ganhou o poder. Ele compôs a Divina Comédia no exílio de sua amada cidade natal e espalhou as grandes figuras políticas da história da Itália através dos três cânticos de seu poema, da orgulhosa e impenitente Farinata levantando-se imperiosamente de seu túmulo em Inferno para o espiritualmente incandescente Cacciaguida, O antepassado de Dante, em Paraíso.
A política para Dante era um chamado alto; Foi a esfera que chamou todos os talentos de um homem em jogo, como Cícero insistiu. Pode-se argumentar que toda a Divina Comédia surge do desejo de Dante de legislar uma cidade mais refinada, tanto como recompensa por não poder voltar para sua casa e como serviço aos seus concidadãos na Cidade de Deus.
Como Dante, John Milton, o grande poeta puritano inglês, sofreu o exílio, em seu caso exílio interno na Inglaterra após a restauração de Carlos II. Milton, também, entrou na disputa política sem reservas. "Não posso elogiar uma virtude fugitiva e fechada", ele escreve em Areopagitica, "sem exercícios e sem brincadeiras, que nunca sai e vê seu adversário, mas foge para fora da corrida, onde a guirlanda imortal deve ser executada, não sem poeira e calor. "Ele abraçou a tarefa, dada pelo Parlamento, de escrever a justificativa para a decapitação de Charles I em 1649, embora ele soubesse que era uma rota duvidosa para a "guirlanda imortal ".
Sua rota mais segura era a poesia. Completamente cego em 1652, Milton sofreu perseguição pessoal após a derrota absoluta do seu partido político em 1660. Nestas circunstâncias improváveis, ele passou a compor Paradise Lost, um dos grandes épicos do mundo, publicado pela primeira vez em 1666. Apesar de um sentimento sobre Puritanismo Ou sobre a política de Milton, o poema alcança uma rara majestade de linguagem e sublimidade de imagens em seu relato convincente da Queda do Homem. Perda pessoal e exílio informam a descrição de Milton do exílio da humanidade do Éden, embora ele afirme que sua própria voz é "inalterada/Para rouca ou muda, embora caído em dias maus,/Nos dias maus, embora caído, e línguas malignas; E com perigos rodeados,/E solidão."
A grande poesia pode advir de um engajamento profundo com os problemas da política, mas é especialmente emocionante ver como o exílio - muitas vezes a conseqüência desse engajamento - se torna subtilmente o símbolo da condição do homem caído per se. Através da lente do exílio, o mundo é vislumbrado de novo.