"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

A gestão Dilma-Temer gerou o pior octênio da história brasileira

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“Não existe democracia onde impera a corrupção, a injustiça, a mentira e a hipocrisia”
Mauro Roberto

taxas anuais de crescimento do PIB

O Brasil apodreceu. Este é o título de um artigo do jornalista Clovis Rossi na Folha, em abril de 2017. Ele expressa bem o que tem ocorrido no país nos últimos anos e a descrença que atinge até a grande imprensa. A maioria dos políticos e seus partidos estão envolvidos em algum escândalo de corrupção. Os presidentes das grandes empreiteiras estão na cadeia ou em prisão domiciliar. A Petrobras está quebrada. A Vale atolada no mar de lama que também sufoca os rios e as matas de Minas Gerais e do Espírito Santo. O desemprego bate todos os recordes. Há um esgarçamento do tecido social. As condições ambientais se deterioram. A violência se banaliza. E a economia, no período republicano, nunca este tão ruim. A Nova República já nasceu velha e debilitada e o Brasil perde espaço na economia internacional desde o início dos anos 80.
O Brasil viveu uma década perdida entre 1981 e 1990, quando houve, pela primeira vez na história da República, uma redução da renda per capita em um período decenal. O governo Figueiredo – de triste memória – enterrou o legado de grande crescimento da época áurea da ditadura. Os governos Sarney e Collor deixaram uma herança de hiperinflação, pobreza e desigualdades sociais. Os governos Itamar e FHC (1992-2002) conseguiram estabilizar os preços de bens e serviços depois do Plano Real e até promoveram a volta de um crescimento modesto, mas positivo (do ponto de vista do crescimento do PIB e não das condições ambientais). Houve pequena redução da pobreza e da desigualdade social neste período.
O governo Lula, aproveitando os ventos favoráveis do superciclo das commodities, conseguiu elevar o crescimento do PIB para níveis superiores às décadas de 1980 e 1990, mas bem inferiores do que a década de 1970. A especificidade do governo Lula foi criar expectativas positivas. O período mais saudável ocorreu nos anos de 2004 a 2008, quando houve, num ambiente democrático, o crescimento econômico, a redução da pobreza, a redução das desigualdades sociais, a redução das dívidas públicas interna e externa, crescentes saldos comerciais, crescentes superávits primários nas contas públicas, aumento das reservas cambiais e maior presença construtiva do Brasil no cenário internacional (na época, escrevi um artigo chamando este período de “quinquênio virtuoso”, Alves, 2009). O lado mais negativo foi o aumento da corrupção e a utilização de truques macroeconômicos, em 2009 e 2010, para turbinar a economia e influenciar os resultados das eleições de 2010. A primeira década do terceiro milênio foi melhor do que a última década do segundo milênio. Mas diversos problemas estruturais vieram à luz na década seguinte, quando o presidencialismo de coalizão mostrou o lado perverso do sistema político brasileiro.
A chapa Dilma-Temer eleita em 2010 e reeleita em 2014 promoveu, considerando tanto os 6 anos já decorridos (sexênio), como os sete anos em curso (septênio) ou os possíveis oitos anos de gestão (2011 a 2018), o pior desempenho para um período de seis, sete ou oito anos (octênio) desde 1901, quando se tem dados confiáveis registrados. O gráfico acima mostra (nas linhas azuis) as taxas anuais de crescimento do PIB no Brasil entre 1901 e 2018, enquanto a média móvel de oito anos (linha vermelha) mostra todos os octênios do período. As séries históricas são do Ipeadata (de 1901 a 1999) e do IBGE (de 2000 a 2016), com as atualizações mais recentes. Para os anos de 2017 e 2018 utilizamos as projeções do FMI (WEO, abril de 2017). O que se conclui é que o Brasil vive a sua mais longa e profunda recessão da história. Vive também a sua segunda década perdida, pois haverá redução da renda per capita entre 2011 e 2020.
Diante desse quadro surreal e trágico, a Dilma culpa o Temer e o Temer culpa a Dilma pelo desastre catastrófico da economia brasileira. O PT, que, normalmente, não gosta de fazer autocrítica, culpa todo mundo, menos os seus próprios erros. Mas a verdade é que os dois presidentes foram eleitos na mesma chapa e tiveram o mesmo número de votos. Sem o apoio do PMDB e das milhares de prefeituras pemedebistas, Dilma não chegaria à Presidência da República. E sem a força política do PT junto aos movimentos sociais, o PMDB, pelo voto direto, jamais chegaria ao Planalto. Além disto, as investigações do TSE mostram que houve financiamento ilícito na campanha de 2014 (assim como nas anteriores), eleições essas que já são registradas pela ciência política como o maior estelionato eleitoral da história política do país. É incrível como os dois partidos – junto aos aliados – se locupletaram para promover o maior desastre econômico da República. Eu, que votei nulo no segundo turno das eleições de 2014, tenho total liberdade para criticar as duas gestões, tanto a que foi impedida, como a que ocupou o espaço central.
Além de tudo, a recessão não pode ser considerada uma “medida amarga que vai curar o paciente”. O Brasil está não só vivendo 4 anos de grande queda na renda per capita (entre 2014 e 2017), mas também está vivendo um total desarranjo das contas públicas. Desde o início do século os sucessivos governos apresentaram superávit primário, medida que reduzia o déficit nominal (quando se contabiliza as despesas com juros) e evitava o descontrole da dívida pública. Mas para garantir a reeleição de 2014 a gestão Dilma-Temer gastou mais do que arrecadou em 2014 (as ações populistas visando a reeleição foram descaradas), exagerou na “contabilidade criativa”, nas “pedaladas fiscais” e deixou um triste legado para a gestão seguinte.
Assim, a bomba fiscal armada na primeira gestão Dilma-Temer explodiu na segunda gestão da dupla. O resultado foi um aprofundamento do déficit primário e o maior déficit nominal (de -10,3% do PIB) da história brasileira. O Brasil virou o patinho feio da economia internacional. Todos os problemas sociais se agravaram e a violência se banalizou no país. O gráfico abaixo, com dados do FMI, mostra que o superávit primário só estará de volta na próxima década e que o déficit nominal vai diminuir, mas vai continuar elevado pelo menos até os 200 anos da Independência, em 2022.

Superávit(déficit) primário e déficit nominal no Brasil: 2010--2022

Os números do mercado formal de trabalho, do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do MTE, estão no vermelho à, praticamente, 28 meses (com exceção de março de 2015 e fevereiro de 2017). Os números são assustadores, pois, nesse período, foram eliminados 3,6 milhões de postos de trabalho formal, o que dá uma média de 130 mil empregos perdidos por mês ou 4,3 mil empregos formais eliminados por dia. A crise econômica brasileira fechou um grande número de postos de trabalho com carteira assinada entre dezembro de 2014 (logo após as eleições que elegeram Dilma-Temer) e 2017.
Para o mercado de trabalho como um todo, o desemprego aberto atingiu números alarmantes, pois gerou 14,2 milhões de pessoas procurando alguma vaga, no primeiro trimestre de 2017, o que significa uma taxa de 13,7%, segundo a PNAD Continua do IBGE. Numa medida ainda mais ampla, a “Taxa Composta da Subutilização da Força de Trabalho” está em torno de 23%, significando cerca de 25 milhões de pessoas desocupadas, desalentadas ou subutilizadas. Este desperdício da força de trabalho brasileira significa uma renda menor disponível para as famílias e também a criação de uma geração perdida, pois a juventude brasileira está sem alternativas para o futuro.

comportamento do emprego formal no Brasil: dez/2014 a mar/2017

Dados da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), em colaboração com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostra que o desemprego na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) atingiu o maior nível da história, com 2,066 milhões de pessoas procurando trabalho em março de 2017. Nunca o desemprego foi tão alto na RMSP. De 17,9 milhões de pessoas em idade ativa, apenas 9,1 milhões estavam ocupadas (uma taxa de 50,9%). Ou seja, só a metade das pessoas em idade produtiva estavam ocupadas. Mesmo assim era grande a quantidade de pessoas subempregadas e atuando na informalidade. Não há bônus demográfico que resista a estes números.
Tudo isto só confirma que a saúde da economia brasileira está capenga. A produção industrial brasileira terminou o ano passado 6,6% menor que 2015, o que conferiu o terceiro ano de resultado negativo para o setor. Em 2015, a queda foi de 8,3% e, em 2014, de 3%, segundo dados do IBGE. Assim, o processo de desindustrialização compromete o futuro da economia e a geração de emprego para absorver a força de trabalho mais escolarizada.
Pesquisa Datafolha, divulgada dia 30/04/2017, mostra que a impopularidade do governo Michel Temer cresceu e já é comparável à de Dilma Rousseff, há um ano, às vésperas da abertura do processo de impeachment que acabou por cassá-la em 2016. Neste quadro desalentador, um montante de 85% da população brasileira quer eleições diretas já! O país está atolado na estagnação e na insatisfação.
Assim, não é exagero dizer que “o Brasil apodreceu”. A operação Lava-Jato deixa claro que “Há algo de podre no reino da Dinamarca”. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pode cassar a chapa Dilma-Temer, em função das irregularidades no financiamento da última campanha eleitoral. Contudo, antes mesmo de qualquer resultado oficial, tanto Dilma, como Temer já foram rejeitados pela população e a opinião pública, em função do estelionato eleitoral de 2014. Está na hora de o Brasil virar essa triste página da história.
Referências:
ALVES, JED. O quinquênio virtuoso: 2004-2008, Aparte, IE/UFRJ, 07/06/2009

ALVES, JED. O paradoxo das baixas taxas de desemprego em 2013 e 2014, Ecodebate, 10/03/2017https://www.ecodebate.com.br/2017/03/10/o-paradoxo-das-baixas-taxas-de-desemprego-em-2013-e-2014-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 12/05/2017

terça-feira, 9 de maio de 2017

O crescimento das energias renováveis e a redução das emissões na China

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves


Chine energy consumption and CO2 emissions

O governo Donald Trump, com apoio do Partido Republicano, está na contramão da história e está possibilitando uma passagem histórica do bastão da liderança global dos Estados Unidos para a China em tecnologia do clima e das fontes de energia renovável.
A nova administração norte-americana está abandonando a liderança das ações de mitigação das mudanças climáticas, além de reduzir o financiamento em energia limpa e abraçar os investimentos em carvão mineral e petróleo – as fontes sujas de energia do passado, que os especialistas dizem não poder criar um grande número de novos empregos sustentáveis. Ao mesmo tempo, a China está reduzindo o uso de carvão e apostando fortemente em energia renovável, que é claramente a maior fonte de empregos permanentes de alta remuneração nos próximos anos.
Artigo de Joe Romm (28/02/2017) mostra que, de fato, Pequim planeja investir US$ 360 bilhões apenas em geração renovável até 2020. A agência de energia chinesa diz que o “emprego resultante será de mais de 13 milhões de pessoas”.
Como expõe o gráfico acima, em 2016, o consumo de carvão chinês caiu pelo terceiro ano consecutivo, enquanto instalou quase o dobro de painéis solares, como em 2015, que também foi um ano recorde. E essas tendências continuarão em 2017. A meta da China de instalação de capacidade solar para 2020 provavelmente será alcançada em 2018, o que não deixa de ser uma façanha bastante impressionante.
A China já se tornou o país líder mundial em ações climáticas, já que suas próprias emissões de CO2 se estabilizaram e diminuíram desde 2013. Mas o que Pequim realmente quer é que a próxima geração de tecnologias energéticas venha da China. E que este processo crie empregos, reduza a pobreza e aumente a influência do país no resto do mundo.
O artigo de Joe Romm mostra que, tragicamente para os trabalhadores americanos, enquanto os EUA ajudaram a pavimentar o caminho para um acordo com a China, e depois um acordo global, foi eleito um presidente que fez campanha travando uma batalha perdida para estancar a perda de empregos de combustíveis fósseis. Assim como no caso do carvão, os postos de trabalho na área de petróleo estão diminuindo devido à automação e à maquinaria avançada, e não à regulação estatal.
O gráfico abaixo (Simon Göss, 13/02/2017) mostra que em um ano a China acrescentou quase a mesma geração de energia renovável que a geração total de energia renovável da Alemanha, de acordo com as estatísticas de janeiro de 2016 pela Administração Nacional de Energia da China e pelo Conselho de Eletricidade da China. No entanto, a fonte de eletricidade do país continua dependendo fortemente do carvão. Mas o que o gráfico mostra é que as fontes não fósseis (eólica, solar e nuclear) foram as que mais cresceram em 2016.

power generating capacity in GW

Artigo de Macarena Liy, em El País, mostra que, em apenas oito anos, a China, o maior emissor mundial, deu uma guinada de 180 graus em sua política para a mudança climática. Durante anos, o carvão foi vital para a China: é sua principal fonte de energia, tanto que o país responde por cerca de metade do consumo mundial. Mas também está na raiz de muitos de seus problemas: é a causa de 70% de sua poluição mais perigosa. Mas, pelo terceiro ano consecutivo, a China reduziu seu consumo desse mineral. Com os cortes, a proporção desse combustível fóssil na matriz energética chinesa caiu de 64% para 62%. Os dados indicam que a China, que se comprometeu a começar a reduzir suas emissões a partir de 2030, está em via de cumprir a meta de manter o consumo de carvão abaixo dos 4,1 bilhões de toneladas e reduzir para 58% até 2020 o peso desse combustível em suas necessidades energéticas.
Artigo de Bridgette Burkholder (07/04/2017) resume as 5 maneiras pelas quais a China está assumindo a liderança na luta contra as mudanças climáticas e acelerando a implantação da economia de baixo carbono: 1. A capacidade solar da China cresceu 82% no ano passado; 2. O consumo de carvão da China caiu por três anos consecutivos; 3. A China planeja investir pelo menos US$ 360 bilhões em geração de energia renovável até 2020; 4. Os empregos em energia renovável estão crescendo na China. A energia renovável já emprega 3,5 milhões de pessoas e espera que novos investimentos criem mais 13 milhões de empregos no setor até 2020; 5. A China pretende ter cinco milhões de veículos eléctricos na estrada até 2020.
Sem dúvida, a China está fazendo um esforço concentrado e planejado para liderar a mudança da matriz energética de forma que atenda aos novos acordos climáticos, mas também que garanta muito dinheiro e influência para o país. O avanço tecnológico e o crescimento das energias renováveis de fato devem contribuir para a redução das emissões de gases de efeito estufa. Mas o monopólio tecnológico e comercial chinês pode ser uma nova fonte de conflito mundial e pode ser mais um motivo para a permanência da pobreza e a desigualdade global.
Assim, enquanto o governo Barack Obama passou anos tentando puxar a China para um Acordo Global do Clima, agora no governo Donald Trump as coisas se inverteram e é provável que a China passe à liderança do processo de mitigação do aquecimento global. Os papéis das duas superpotências foram trocados. Talvez isto reflita o fato de que os EUA são uma potência em declínio relativo e a China, para o bem ou para o mal, seja uma potência em ascensão.
Referências:
Joe Romm. China smashes solar energy records, as coal use and CO2 emissions fall once again, Think Progress, 28/02/2017

Simon Göss. China’s renewable energy revolution continues on its long march, Energy Post, 13/02/2017

Macarena Vidal Liy. China reduz seu consumo de carvão pelo terceiro ano consecutivo, El País, 08/03/17http://brasil.elpais.com/brasil/2017/03/04/internacional/1488631238_086175.html
Bridgette Burkholder. 5 Ways China Is Becoming the Global Leader on Climate Change, Ecowatch, 07/04/17


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 08/05/2017

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Banco Mundial quer impulsionar infraestrutura na América Latina e Caribe

Segundo novo estudo, região opta cada vez mais pelas PPPs na área de infraestrutura, mas ainda há dificuldades na concepção dos projetos.
Foto: Banco Mundial/Jonathan Ernst
Mariana Ceratti, de São Paulo, para a ONU News.*
O Banco Mundial lançou nesta quinta-feira estudo mostrando que América Latina e Caribe buscam, cada vez mais, as parcerias público-privadas para financiar projetos de infraestrutura. Nas duas últimas décadas, 19 países aprovaram leis referentes às PPPs. Além disso, no Brasil, Chile, Colômbia, México e Peru, essas leis vêm sendo constantemente aprimoradas.
No entanto, segundo o relatório, os países da região ainda precisam criar ambientes de licitação competitivos e aprimorar os mecanismos de financiamento de projetos. Outro desafio é melhorar a fase de planejamento e preparação.
Financiamento
Algumas ideias para enfrentar esses problemas são melhorar as regulações para o setor, bem como fortalecer a capacidade dos bancos nacionais, para que se tornem mais ativos no financiamento de projetos.
Para o economista Heinz Rudolph, coautor do relatório, os bancos internacionais e as instituições financeiras de desenvolvimento também têm um papel importante. Elas podem contribuir não só com recursos, mas também com conhecimento e ferramentas de boa governança para atrair investidores privados.
"As instituições de desenvolvimento têm a possibilidade de criar as condições para que o setor privado, o financiamento privado, vá para o financiamento de infraestrutura. Essas mesmas instituições de desenvolvimento não vão ter capital suficiente para financiar todas as necessidades de infraestrutura dos países da região."
Regras
O relatório foi lançado em São Paulo, em um encontro que apresentou experiências e lições da América Latina e Caribe no setor de infraestrutura. O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, participou do evento e falou da nova Lei das Agências Reguladoras, que busca aumentar a transparência e a qualidade dessas instituições.
"O fundamental é que a agência reguladora estabeleça no Brasil regras claras e duráveis e previsíveis. Agora, no momento em que essas regras sejam claras, sólidas e estáveis, no momento em que a estrutura do país seja uma estrutura confiável, em que a economia está estável, que as taxas de juros estejam caindo, que o ajuste fiscal esteja sendo feito e que portanto o risco país esteja caindo, isso atrai investidores do mundo inteiro."
No fim de abril, em Washington, o Banco já havia dedicado ao tema um dos principais eventos de suas reuniões de primavera. À época, discutiu-se a necessidade de a região investir em infraestrutura com mais eficiência.
*Reportagem do Banco Mundial Brasil

Coreia do Norte: uma história de isolamento

por Michael Roberts

As tensões na Ásia têm vindo a aumentar drasticamente à medida que a Coreia do Norte continua seus testes de mísseis em desafio às exigências dos EUA para que deixe de fazê-los. O Presidente Trump foi aumentando as apostas com ameaças de desviar da China e chamar ao diálogo seis partes para supostamente trabalhar de fora por uma 'solução de paz' ​​com a Coreia do Norte, e 'acordo com' a Coreia do Norte por conta própria. à medida que batalhões navais navais entraram em águas coreanas para impor a vontade de Trump sobre a Coreia do Norte, eu pensei que poderia valer a pena olhar para o estado da economia norte-coreana.
O fim da guerra coreana no início de 1950 deixou a Coréia com mais de um milhão de mortos e ainda dividido em dois, da mesma forma que a 'guerra fria' entre os EUA e a União Soviética deixou a Alemanha dividida em duas. Ambas as partes da Coreia eram pobres, mas, curiosamente, o sul era mais pobre porque a maioria dos recursos naturais (carvão etc) e indústria estavam no norte, embora as minas tenham sido em grande parte destruídas.
Isso mudou na década que se seguiu mais ou menos. Enormes quantidades de investimento estrangeiro foram lavrados no sul, onde um regime militar foi imposto, mantendo os salários ao mínimo e o estabelecimento de grandes empresas monopolistas (chaebol) fortemente integradas na máquina de estado. Investimento foi dirigido pelo Estado e a rentabilidade do capital subiu acentuadamente através da exploração maciça do trabalho.
Enquanto isso, no norte, a máquina de Estado de partido único, descansando em uma indústria nacionalizada e fazendas e construído à imagem de seus mentores, Rússia e China, não recebeu tal apoio ao investimento como no sul. Em 1961 foi lançado um ambicioso plano de sete anos para continuar a expansão industrial e aumentar os padrões de vida, mas dentro de três anos, tornou-se claro que este estava falhando. A falha foi devido ao apoio reduzido da União Soviética, quando a Coréia do Norte alinhara-se mais com a China, e a pressão militar dos EUA, levando ao aumento da despesa de defesa.
Em 1965, a taxa de crescimento econômico da Coréia do Sul ultrapassou a Coreia do Norte pela primeira vez e na maioria das áreas industriais, embora o PNB per capita da Coreia do Sul tenha permanecido inferior ao da Coreia do Norte. A Coreia do Norte se recuperou um pouco sob o seu plano nacional, mas no início dos anos 1970, o lucro per capita no sul superou o do norte, pela primeira vez e a diferença então acelerou.
A economia planificada da Coréia do Norte lutou com o seu isolamento no comércio e investimento; a falta de apoio da Rússia e da China (que teve seus próprios problemas); e o totalitarismo sufocante da dinastia Kim, agora firmemente montado como o 'grande líder' (uma após o outro). O sul tinha o seu próprio regime autocrático sem direitos democráticos, mas pelo menos tinha comércio e investimento para explorar as suas pessoas de forma mais eficaz.
O colapso da União Soviética pressagiava um desastre sem precedentes para a economia norte-coreana. Sob o peso de gastos militares pesados para defender o regime, o desaparecimento de seus mercados de exportação para o carvão e outros minerais levou a um colapso da produção industrial. Isto foi acompanhado por colheitas terríveis, levando a uma grande fome que viu de 500.000 a quase um milhão de mortes! Os padrões de vida caiu pela metade como a taxa média de crescimento real do PIB na década de 1990 foi 4%!
Em 1999, a economia mostrou alguns sinais de recuperação. E o regime de Kim decidiu imitar as 'reformas' introduzidas na China para permitir que parte da produção do setor privado e alguns mercados em agricultura e pequenas empresas. Não tem sido constante se o baixo crescimento econômico desde o final da década de 1990, mesmo que o país ainda seja o mais pobre no leste da Ásia. Durante o período 2000-2005, o Norte cresceu a uma taxa média de crescimento de 2,2 por cento. Houve uma desaceleração mais uma vez na grande recessão mundial e para 2006-2010, apenas a 2008 registou um crescimento positivo. Mas desde 2010, a Coreia do Norte retomou algum crescimento novamente.
A Coreia do Norte continua a depender da obtenção de moeda estrangeira para importar bens com a venda de carvão para a China (um terço de todas as exportações). Além disso, o regime envia milhares de trabalhadores norte-coreanos em condições de trabalho forçado para a China, Rússia e Oriente Médio para trabalhar na mineração, extração de madeira e construção para remeter moeda estrangeira.
A estimativa do PIB na Coréia do Norte é uma tarefa difícil por causa de uma escassez de dados econômicos e o problema de escolher uma taxa adequada de troca. Em 2014, a Coreia do Sul - baseada no Bank of Korea estimou que o PIB real da Coréia do Norte em 2014 foi KRW 4,2 bilhões ou apenas 1/44 do tamanho da economia sul-coreana. No entanto, é provavelmente uma subestimação da economia norte-coreana. O PIB per capita foi KRW1.388 milhões, ou apenas um 20º da média na Coreia do Sul. Esta é uma lacuna enorme e poderosa.
Uma parte significativa da população ainda é desnutrida e a família norte-coreano média se considera razoavelmente ricos se eles podem pagar uma bicicleta nova. No entanto, este ano, a Coreia do Norte apreciou excepcionalmente boa colheita, que pela primeira vez em mais de duas décadas será suficiente para alimentar toda a população do país. Ironicamente, neste ano de possível ataque pelos EUA e o sabre-chocalhar do regime de Kim, a economia está crescendo em torno de 3-4% ao ano, um nível recorde desde os anos 1970.
O governo parece ter permitido que o setor privado cresça. Algumas das empresas estatais estão em vigor de propriedade de indivíduos ricos, geralmente bem colocados ou relacionados aos altos funcionários do Estado. De acordo com as estimativas mais recentes, cerca de 75 por cento da renda familiar norte-coreana agora não vem do Estado, mas a partir de atividades econômicas privadas sortidas - atividades que estão agora tacitamente toleradas pelo governo. Os norte-coreanos hoje tendem a seus próprios terrenos privados, executar suas próprias barracas de comida, fazer roupas, calçado (e cigarros chineses até mesmo falsificados) em oficinas não-oficiais, e, claro, o comércio. Desde 2010, o número de mercados aprovados pelo governo da Coreia do Norte dobrou para 440, e imagens de satélite mostram-os crescer em tamanho na maioria das cidades. Em um país com uma população de 25 milhões, cerca de 1,1 milhões de pessoas estão empregadas como varejistas ou gerentes nesses mercados, de acordo com um estudo realizado pelo Instituto Coreano para Unificação Nacional, em Seul.
Assim, a lei do valor, inevitavelmente, começa a operar e fortalecer em uma economia que é incapaz de expandir através de planejamento estatal executado por uma autocracia dinástica. Mas com a lei do valor e mercados vêm crescente desigualdade, fomentada pela corrupção da burocracia.
Mas mesmo se as tensões políticas diminuírem, não há nenhuma maneira que a economia norte-coreana possa realmente gerar crescimento econômico sustentado e os padrões de vida para os seus 25 milhões de pessoas. A chave é o investimento estrangeiro e um plano democrático. A Coreia do Norte não terá nem sob o atual regime. Primeiro, há sanções americanas contra investindo no norte, enquanto o norte prossegue o seu objectivo de ter armamento nuclear eficaz - e esse objetivo é visto como essencial pelo regime Kim para a sua sobrevivência.
E o regime vê investidores estrangeiros como instituições a serem ordenhadas não como parceiros em expansão. Eles não aprenderam com os chineses aqui. Por exemplo, a empresa de telecomunicações egípcia Orascom criou uma rede de telefonia móvel norte-coreana praticamente a partir do zero, mas os norte-coreanos não só se recusaram a pagar os egípcios dentre os recursos da rede, mas confiscou todos os bens. O capital estrangeiro não é provável que venha nessa base.
A solução imediata óbvia é a unificação do norte e do sul. - Coreanos devem ser unidos como os alemães. Mas a única opção oferecida é, naturalmente, a unificação da base do capitalismo, não socialismo democrático. Capital dominaria no norte, bem como o sul - algo que se revelou um fracasso, mesmo na Alemanha, onde o fosso entre leste e oeste dos padrões de vida continua a ser grande, apesar dos bilhões sendo 'transferidos' para o leste e expansão desaceleração na Alemanha unificada por quase uma década. Aqueles que vivem no leste têm rendimentos reais em apenas dois terços das pessoas no oeste e um terço dos orientais se mudaram para o oeste.
E aqui está o busílis. O custo da unificação do norte e Coreia do Sul é muito mais do que era para trazer oeste e leste juntos. Considerando que, a leste a Alemanha tinha 17m pessoas contra 60m no oeste, uma proporção de 3:59; Coreia do Norte tem 25m contra 50m no sul, uma proporção de um para dois. Um relatório do sul ainda acha que seria possível unir a Coreia em uma base capitalista e aumentar a renda per capita no norte, para US $ 10.000 (em comparação com $ 1800 agora e $ 25.000 no sul) e a economia da Coreia do Norte de 70% do sul de em 2050, fazendo uma Coreia unificada a sétima maior economia do mundo.
Mas esta é realmente uma quimera. Mesmo este relatório otimista estima que o sul teria para cometer 7% do PIB a cada ano para o norte para alcançar esta meta (em comparação com 4% do PIB da Alemanha Ocidental, a leste). Isso é claramente impossível em uma base capitalista, dadas as crescentes problemas econômicos que enfrentam o sul desde a Grande Recessão. Como eu publicada apenas em março passado , a Coreia do Sul vai para uma eleição geral amanhã com sua elite política atolada mais uma vez em corrupção e sua economia cada vez mais esclerosada com suas chaebols monopólio e enfrentando condições cada vez mais difíceis no comércio global, vitais para a expansão do sul. Não admira que o apoio político para a unificação no sul diminuiu nos últimos anos.
Há fortes evidências de que uma economia estatal planejada e predominantemente poderia ter sucesso e fazer ainda melhor em uma Coreia unificada. Se você comparar, por exemplo, o desenvolvimento do México e da União Soviética de 1913 até o ano Muro de Berlim caiu, "o crescimento da União Soviética durante o período do comunismo colocar do México a vergonha",de acordo com Charles Kenney, um membro sênior o Centro para o Desenvolvimento global. Ele ressalta que a renda Soviética per capita era 46% maior que a do México em 1989, em comparação com apenas 1% maior em 1913. E há t ele história de expansão econômica fenomenal e sem precedentes da China,levando centenas de milhões de pessoas da pobreza.
Unificação foi julgado na década de 1950 através de uma guerra sangrenta que dizimou Coréia. Unificação só seria bem sucedida pacificamente se houvesse um sistema unificado, democraticamente eleito, regime sob o controle da classe trabalhadora tanto sul e norte. Ele só seria bem sucedida economicamente se o chaebol no sul foram retomadas e os recursos do norte foram integrados em um plano de investimento nacional. O regime capitalista do sul e da ditadura cultist do norte teria de ir antes disso.

Duelo em Curitiba

Duelo em Curitiba. Nesta quarta-feira, 10 de Maio, o Brasil tem encontro marcado consigo mesmo: em Curitiba, capital do Paraná, vão estar pela primeira vez, frente a frente, o juiz da Lava Jato, Sérgio Moro, e o ex-presidente Lula da Silva, arguido em pelo menos cinco processos, sob suspeita de corrupção.



Como na trama de um filme, este é o momento-chave em que se enfrentam dois dos personagens centrais que encarnam os polos da contradição em jogo. Se o filme fosse um western, este seria o momento do duelo decisivo.

De um lado, o jovem magistrado que preside aos julgamentos em primeira instância dos envolvidos na Lava Jato – a maior operação de sempre contra a corrupção no Brasil (só equiparável à sua matriz italiana, a operação Mãos Limpas, na Itália dos anos 90) – o que lhe granjeou grande notoriedade nacional e internacional.

Do outro, o antigo sindicalista de origem humilde, que fez história ao chegar à presidência, o homem de quem Obama disse um dia, numa reunião do G20, “Este é o cara!”. Lula saiu do cargo, em 2008, com mais de oitenta por cento de aprovação e ainda hoje desfruta, segundo as sondagens, do apoio de pelo menos um terço do eleitorado.

À primeira vista, a leitura é simples e contrastante: de um lado, a luta contra a corrupção; do outro, o financiamento ilegal da política e dos políticos, tudo concentrado num caso exemplar para mostrar que, num país democrático de direito, ninguém está acima da lei.

Mas este não é um “filme” menor, de bons contra maus, heróis e bandidos. Os personagens e o contexto são complexos, a leitura não é fácil e o desfecho pode ser surpreendente.

Lula – já se percebeu há muito tempo (pelo menos desde o Mensalão, em 2005) – não é propriamente um santo. E o PT, com os seus esquemas, muito menos.

Moro, por seu turno, também já mostrou alguma falta de isenção: basta lembrar a desnecessária detenção coercitiva do ex-presidente para um primeiro interrogatório, o convívio sorridente do juiz com alguns políticos sob denúncia, ou ainda a divulgação de gravações obtidas fora do prazo, contra parecer do próprio Supremo…

JUSTIÇA OU POLÍTICA?

Nestas circunstâncias, a dramatização é enorme e a politização inevitável, sendo difícil esperar um juízo ponderado e sereno, capaz de ser acatado sem contestações nem problemas por ambos os lados.

Boa parte das classes médias que no início da década apoiaram Lula está hoje desiludida com as dimensões da corrupção reveladas pela Lava Jato. E por isso, ou se desinteressou da política, ou passou do centro-esquerda para o centro-direita, exigindo agora a condenação do líder operário, em nome da moral e do interesse público.

Os petistas contrapõem, no entanto, que sendo a política brasileira o que é, não se deve fazer de Lula um bode expiatório.

Se – argumentam –  a norma de financiamento da política brasileira sempre foi, nas últimas décadas, o chamado “caixa dois”; se, de uma forma ou de outra, nesse tipo de prática estiveram envolvidos pelo menos cinco dos últimos chefes de Estado – Sarney, Collor, FHC, Lula e Dilma; se, finalmente, sobre o próprio presidente atual, Michel Temer, pesam também suspeitas e acusações semelhantes, porquê a insistência em fazer de Lula – e só de Lula – um caso exemplar?

Em qualquer circunstância, os partidários de Lula, que se mobilizam para ir a Curitiba acompanhar o depoimento frente ao tribunal, irão sempre dizer que o juiz foi politicamente motivado e que o objetivo não é tanto fazer justiça como sobretudo liquidar moralmente Lula e eventualmente impedir que se recandidate à presidência, em 2018.

Movidos pelo desencanto tardio ou pelo antagonismo político que sempre lhe dedicaram, muitos insistem, no entanto, em que “se faça justiça” e a cabeça de Lula lhes seja servida numa bandeja.

Mas o caso não é tão óbvio. Não só pelas paixões políticas que pode desencadear – sempre com o perigo de manifestações violentas e confrontos em perspectiva – como pelas circunstâncias propriamente jurídicas que envolvem os processos.

Se as denúncias não tiverem a fundamentá-las provas e evidências concretas e insofismáveis, poderá Moro condenar só com base em declarações e na sua aparente convicção de que Lula era o chefe do esquema de corrupção (como já afirmaram alguns dos denunciantes presos, na mira de conseguirem perdão de pena ou redução de prazo)?

Os magistrados dividem-se e há já fraturas expostas no próprio Supremo, ameaçando aprofundar a crise sistêmica no país.

À espreita estão já políticos mais radicais, prontos a explorar o descontentamento de ambos lados. Aconteceu em Itália no final da Mãos Limpas e pode acontecer aqui no fim da Lava Jato.

Afinal, ao pôr em causa políticos de todos os quadrantes – por mais que a mídia centre as atenções em Lula – a operação policial parece ter gerado uma espécie de união sagrada,         “com Supremo e tudo”, destinada a “estancar a sangria”, como dizia – em gravação oculta  –  um dos políticos denunciados.

O “filme”, como se vê, é tudo menos simples. A trama é extremamente complicada e os resultados ainda incertos. Por mais decisivo que se apresente, o duelo de quarta-feira pode por isso não ser ainda o fim da história.

Carlos Fino, jornalista português, correspondente internacional, vive em Brasília desde 2004.