"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 20 de maio de 2017

Fim de Temer?

por Michael Roberts
A notícia de que o Presidente do Brasil, Temer, foi pego tentando subornar políticos para manter o silêncio sobre alegações de corrupção aumenta a probabilidade de que ele seja cassado pelo Congresso do Brasil este ano. Temer já é o presidente mais impopular da história democrática do Brasil. Ele só chegou ao poder, organizando um 'golpe constitucional' que depôs a presidente eleita de centro-esquerda, Dilma Rousseff, em razão das chamadas 'pedaladas fiscais'. Uma aliança de partidos em favor de medidas pró-capitalistas de cortar salários, benefícios sociais e pensões assumiu o Congresso para apoiar Temer. Os mercados de ações e monetário do Brasil cresceram e o capital internacional voltou a investir.
Mas agora todas estas 'reformas' no interesse da rentabilidade estão em perigo. Mesmo que as políticas neoliberais adotadas pelos anteriores presidentes do Partido dos Trabalhadores, Lula e Dilma, tenham levado a uma perda de apoio entre a classe trabalhadora do Brasil e sua eventual extinção, a aliança liderada por Temer nunca obteve o apoio da maioria e o mais recente escândalo poderia ver o seu fim .
Onde isso vai levar a economia brasileira e o seu povo é difícil de julgar - me volto para os meus leitores brasileiros para explicar. Mas aqui eu posso acrescentar que o objetivo da administração Temer é claro: dirigir-se a baixa rentabilidade da indústria e de capitais brasileiros, reduzindo a parcela que vai para o trabalho; destruindo sindicatos e outras tendências da oposição; e voltando-se para o apoio do capital estrangeiro.
A grande razão para o governo Dilma cair foi a economia. Após o colapso dos preços das commodities por volta de 2011, a economia do Brasil mergulhou em uma crise adiada, mas profunda. E ainda está em recessão econômica.
Mas Temer e os capitalistas brasileiros, depois de expulsar Dilma, estavam esperando que a recuperação geral da economia mundial iria se espalhar para o Brasil. As coisas iriam mudar e capacitá-los para impor a sua regra. E tem havido alguns sinais de uma tal recuperação. O empresariado brasileiro tem mostrado sinais de mais confiança.
Embora os preços das commodities não tenham voltado para as alturas inebriantes de antes de 2010, eles têm, pelo menos, invertido um pouco de seu profundo colapso no período até o final de 2015. Além disso, no último ano, parece que o prognóstico de um colapso na China e uma desaceleração nos EUA não se concretizaram. E a China e os EUA são de longe os  maiores mercados de exportação do Brasil.
Além disso, a recessão econômica levou a uma grande queda nas importações de mercadorias estrangeiras. Assim, a balança comercial do Brasil melhorou.
E depois da significativa 'fuga de capitais' por brasileiros ricos sob Dilma, o investimento estrangeiro começou a voltar ao Brasil, dado o seu governo pró-capitalistas.
Um dos resultados da profunda depressão foi duramente a queda da inflação. Assim, embora os salários para a família média brasileira tenham estagnado ou mesmo caído, em termos reais (descontada a inflação) subiram, apenas ao nível de dois anos atrás.
Mas o desemprego continua a espiral como as empresas brasileiras cortam pessoal e empregos no setor público são dizimados.
O futuro a médio prazo para a economia do Brasil não parece brilhante, apesar do recente otimismo dos economistas e políticos pró-capitalistas no Brasil. Foi o boom das commodities que alimentou grande parte do crescimento do PIB do Brasil antes de 2010. A participação das exportações globais de recursos não petrolíferos do país aumentou de 5 por cento em 2002 para 9 por cento em 2012. Hoje os preços das commodities continuam altos em comparação com suas médias históricas, mas o aumento excepcional tanto em demanda com nos preços se estabilizou.
Ao mesmo tempo, ambas as famílias e empresas permaneciam sobrecarregados com dívida significativa. A dívida das famílias cresceu de 20 por cento da renda em 2005 para 43 por cento da renda em 2012, e as altas taxas de juros reais (média de 145 por cento em cartões de crédito) fazem deste um fardo pesado para os consumidores. Do lado do governo, os gastos federais aumentaram de 15,7 por cento do PIB em 2002 para 18,9 por cento em 2013, devido principalmente aos pagamentos de juros sobre a dívida. Como resultado, a carga tributária já subiu de 29 por cento do PIB em 1995 para 36 por cento em 2013, o mais alto nível entre os pares de mercados emergentes do Brasil. Como proporção do PIB, a dívida do setor público bruto do Brasil é menor do que um terço do Japão, mas seus custos de serviço da dívida são quase 15 vezes mais alta.
Acima de tudo, há poucos indícios de que o capital brasileiro possa realmente desenvolver as forças produtivas da economia e de seu povo. As exportações de recursos e consumo alimentada pelo crédito não se traduziram em maior investimento ou produtividade. Entre 2000 e 2011, a taxa global de investimento do Brasil em média 18 por cento do PIB, inferior ao de outras economias em desenvolvimento, como o Chile (23 por cento) e México (25 por cento), e muito inferiores aos da China (42 por cento) e Índia (31 por cento ).
A produtividade do Brasil tem sido quase estagnada desde 2000; hoje é pouco mais de metade do nível alcançado no México.
De acordo com a McKinsey, os consultores de gestão global, mais da metade da população do Brasil permanece abaixo de uma renda mensal per capita de R$ 560. Para cortar este nível de pobreza a menos de 25% se exigiria produtividade quatro vezes mais rápida que a taxa atual. E não há nenhuma perspectiva disso sob o capitalismo no Brasil. Isso porque a rentabilidade do capital brasileiro é baixa e continua a permanecer baixa.
A rentabilidade do setor capitalista dominante do Brasil está em declínio secular, impondo pressão descendente contínua sobre o investimento e o crescimento. Claro, a derrubada dos regimes militares e o aumento dos preços das commodities freou a queda da rentabilidade por um tempo. Mas a rentabilidade agora está bem abaixo de seus melhores anos no início de 2000.
O gráfico abaixo mostra três medidas indexados (1963 = 100) (M = Maito; Mar = Marquetti; P = mina com base nas tabelas Penn World e poli = médios alisado).
Mesmo se Temer sobreviver, a elite governante do Brasil enfrentará uma tarefa difícil em impor o controle sobre a classe trabalhadora e o corte de gastos públicos e salários e, assim, atrair capital estrangeiro significativo. A elite dominante é mais propensa a fugir com seu capital em todos os sinais de dificuldade. Então o capitalismo do Brasil vai ser preso em um crescimento baixo, baixa rentabilidade futura, com a continuação da paralisia política e econômica. E isso sem uma nova recessão global que se visualiza no horizonte.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Nações são construções políticas

Por Colin Crouch

Em seu livro Pós-Democracia, você expôs suas crenças por que a ordem política dos países ocidentais está em declínio. Alguns anos mais tarde, com a ascensão de Mr Trump nos EUA e do voto Brexit no Reino Unido, diria que é uma consequência lógica da sua análise de 2004, quando o livro foi publicado?
Colin CrouchMeu argumento era que a política democrática estava se tornando uma espécie de jogo, administrado por elites econômicas e políticas. O declínio da classe e da religião deixou muitas pessoas sem um forte senso de identidade política, enquanto a globalização estava removendo decisões importantes para níveis internacionais além do alcance da democracia, que continuava vinculada ao Estado-nação. A recente ascensão da extrema-direita em todo o mundo confirma parcialmente a minha análise, porque estes grupos fazem uma queixa semelhante sobre a impotência das pessoas comuns. Mas também me surpreendeu, já que eu não tinha percebido que, enquanto outras bases históricas de identidade política estavam em declínio, a identidade nacional não só permaneceu, mas foi tornada mais saliente pela globalização, imigração, crises de refugiados e terrorismo islâmico. Esses novos movimentos estão enraizados no ódio e procuram um retorno impossível ao isolamento nacional, de modo que são ambos maus e inúteis. Mas eu tenho que admitir que eles são uma resposta à pós-democracia.
Um pressuposto ao criar a União Europeia era superar o Estado-nação, estabelecendo uma ordem supra-nacional, por um lado, e, por outro, fortalecendo as regiões/peculiaridades de todas as partes da Europa. Eu teria adivinhado que a identidade regional, digamos, como um catalão ou um bávaro, é sempre mais forte do que a narrativa nacional um pouco, em comparação, abstrata e fabricada. Por que não é assim na sua opinião?
Ao longo dos séculos, os governantes de várias partes da Europa tentaram fazer com que suas populações sentissem uma lealdade primordial ao território que governavam. Eles usavam mitos de "nação" e os inimigos da nação para fazer isso. Seu sucesso variou. Os monarcas dos países escandinavos, Inglaterra, grande parte da França, Polônia e os territórios que se tornaram os Países Baixos, foram particularmente bem sucedidos. Mas sempre houve exceções, onde mais identidades locais sobreviveram: Escócia, Catalunha, País Basco, Baviera, até certo ponto do País de Gales e Bretanha, muitas das regiões e cidades da Itália. Todo o negócio - tanto a criação de identidades nacionais como as resistências locais a elas - era altamente arbitrário. Mas o arbitrário pode ser muito poderoso se apoiado por poderosas forças políticas e uma longa história - mesmo (ou talvez até mesmo especialmente) uma história mítica. Este não é um lugar para a racionalidade!
Assim, as narrativas nacionais são sempre baseadas em especulações míticas, como o reino de Arthur de Albion ou o reino dos Nibelungos? Pelo menos um pode ver movimentos de direita jogando com tais motivos que foram desenterrados novamente ao longo do tempo, como, no contexto alemão, o Abendland, o Ocidente. Outro exemplo para mim é a narrativa anglo-saxã que nasceu no ventre do Mayflower e floresceu na América. Ele vive da suposição de que os ingleses e depois os americanos são um tipo escolhido, pessoas escolhidas no sentido da mitologia bíblica.
Sim, há sempre um componente mítico importante nas narrativas nacionais, porque elas precisam de uma suposição de algum tipo de separação nacional, que é quase sempre uma ilusão, porque particularmente na Europa houve tantos movimentos e misturas de pessoas. A nação não pode ser definida simplesmente pela geografia, pois as fronteiras nacionais mudaram tanto ao longo dos séculos - até mesmo o Reino Unido, que reivindica um status especial de "ilha", tem uma fronteira nacional atual não mais antiga do que 1922. Mais pode ser feito com a linguagem, Embora existam muitas exceções à especificidade lingüística nacional, e a unidade linguística é muitas vezes uma imposição política. Quando os checos e os eslovacos queriam uma Tchecoslováquia independente do Império Austro-Húngaro, estavam preocupados em sublinhar a semelhança entre o checo e o eslovaco; Hoje os estados nacionais checos e eslovacos separados estão ocupados diferenciando suas línguas. As nações são construções políticas. Isso não significa que as pessoas não acreditam nelas - muito fervorosamente, muitas vezes perigosamente -, mas em momentos como o presente, quando a separação nacional está sendo usada para fins políticos cínicos, vale a pena lembrar essa artificialidade.
Essas narrativas têm uma certa pretensão de legitimidade do governo. Um ponto que os críticos da democracia de nossos dias também fazem é que a política, digamos, a União Européia, por exemplo, carece exatamente dessa legitimidade. Será que a União Européia, a democracia liberal em geral, não precisaria agora desenvolver e articular uma narrativa própria?
Sim, de fato! Precisamos desesperadamente de uma narrativa que mostre às pessoas a necessidade de desenvolver solidariedades com as pessoas nos países vizinhos, para que possamos enfrentar juntos os desafios da globalização. Na Europa, temos muito que nos valer de uma cultura e de uma história compartilhadas - embora este último inclua muitas guerras e hostilidades. Mas isto precisa de apoio dos líderes políticos, que precisam estar dispostos a dizer que podemos enfrentar os problemas de hoje apenas agindo juntos em toda a Europa. Em vez disso, eles têm a tentação muitas vezes irresistível de se envolver em suas bandeiras nacionais e culpar os outros países por tudo o que der errado. Como um cidadão britânico eu tenho testemunhado isso acontecendo todos os dias durante anos, levando meu país para o caminho estúpido em que está agora engajado. Mas também é necessário que as instituições europeias se tornem relevantes e atraentes para os cidadãos. Jacques Delors sabia como fazer isso, mas muito poucos de seus sucessores ainda tentaram. Talvez uma boa consequência de Brexit seja ensinar-lhes esta lição.
As eleições gerais recentemente proclamadas no Reino Unido são agora um triunfo da democracia ou um resultado tardio de um referendo democrático falho?
Não é nem um nem outro; É apenas manipulação política normal. A primeira-ministra, Theresa May - que até duas semanas atrás havia dito que ela definitivamente não chamaria uma eleição súbita - observou duas coisas. Primeiro, sua liderança pessoal nas pesquisas de opinião sobre o líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, tornou-se muito grande. Em segundo lugar, a União Europeia deixou claro para ela que não pode haver negociação do novo relacionamento do Reino Unido com a Europa até que o acordo de "divórcio" seja concluído. Isso significa que, até o horário programado para a próxima eleição - maio de 2020 - haveria apenas conseqüências negativas do Brexit. Ela não queria enfrentar os eleitores em tal situação. Sua retórica em torno de chamar a eleição súbita, de fato, foi altamente antidemocrática, redentora do presidente turco, Recep Erdogan. Ela disse que após esta eleição deve haver um fim a qualquer discussão da Brexit no Parlamento, e que durante a eleição ela não deve ser esperada para discutir o que ela está tentando alcançar nas negociações. O jornal que é mais leal a ela, o Daily Mail, tinha apenas três palavras em sua primeira página na manhã seguinte à eleição, anunciada, montada em um grande quadro de Sra. May: Esmagar os sabotadores. Essa é a atmosfera política na Inglaterra hoje.
Você espera um voto que possa reverter Brexit?
Não. A única coisa que poderia impedir a Brexit é se, no final das negociações, o governo concluir que as implicações são demasiado negativas para suportar, e propor ao público que mude de ideia em um segundo referendo. Theresa May poderia fazer isso, como ela claramente quer tentar fazer um Brexit um sucesso. No entanto, eu acho que isso é improvável. O que está por trás do otimismo triunfal dos Brexiteers é a sua crença de que eles podem reconstruir a Commonwealth britânico (o antigo império) como uma zona comercial com base no Reino Unido. Eu acho que isso é uma ilusão, mas há uma profunda tensão de nostalgia para o Império dentro da ala romântica do Partido Conservador, e ele ressoa com uma parte da população, em todas as classes. Temo, necessariamente, a plena experiência de uma tentativa fracassada de sacudir a confiança deste sonho.


Entrevista de Alexander Görlach, publicada pela Save Liberal Democracy

quinta-feira, 18 de maio de 2017

O poder da delação premiada da JBS


Uma empresa envolvida em um escândalo efeito da operação de financiamento BNDES no montante de R$ 8 bilhões, sendo que foi a maior contribuinte individual da eleição de 2014 o que poderia esperar dos Diretores da empresa a não ser uma delação premiada, a qual revelasse o esquema do ex-Presidente, Temer , conspirando para calar a boca do ex-Deputado, Eduardo Cunha, e portanto com essa revelação os Diretores da JBS tivessem redução da pena.

A delação da JBS joga por terra a operação do IBGE de manipular as séries estatísticas para evidenciar um crescimento do PIB no 1º trimestre de 2017. E, principalmente, joga por terra a Reforma da Previdência, a qual reduziria o forte impacto de insustentabilidade da politica fiscal.

Além disso, hoje o Banco Central deverá aumentar significativamente as operações de swaps cambias para segurar o dólar efeito do clima de instabilidade política, a qual deverá pressionar significativamente o dólar, ou seja, o Brasil que sempre foi o paraíso dos especuladores com a delação da JBS interrompe o processo de redução da taxa SELIC e, principalmente resultará em um alto custo social e fiscal para para o país em razão que paralisa a principal reforma do ex- Presidente, Temer, que era a Reforma da Previdência.

Assim, a aprovação da PEC do teto do gasto aprovada em 2016 se reflete que o Brasil não é um país administrado para amadores, mas sim para políticos corruptos que nunca tiveram interesse em reduzir a nossa gigantesca dívida social com 50 milhões de miseráveis e pobres.

Se a delação da empresa Oderbrecht teve o poder em conjunto de bombas de Hiroshima e Nagasaki a delação do Diretor da JBS teve o mesmo poder, ou seja, o Japão se reergueu em apenas 20 anos se tornando a segunda economia desenvolvida.

O Brasil, terra abençoada por Deus e bonito por natureza, deverá permanecer por muitos anos como gigante adormecido em razão que seus Presidente, Deputados e Senadores só tiveram e continuam tendo objetivos de manter os seus privilégios através de um sistema de corrupção bem estruturado.

A Operação Lava Jato mostra a sua importância para desmontar o esquema de corrupção da Nova República, entretanto o seu poder de criar novas condições de tirar o país de um cenário de depressão econômica, abismo fiscal e convulsão social é muito reduzido quando se avalia a dimensão da sangria das contas externas efeito serviço da dívida no montante de US$ 100 bilhões em 2017 aliado ao vazamento de renda no que se refere despesa de juros paga pelo setor privado de R$ 585 bilhões em 2016. E o que avaliar de uma receita corrente apropriada pelo setor público consolidado correspondente a 41,67% do PIB em 2015 a não ser que resulta em um modelo de semi-escravidão, o qual se reflete em reduzida capacidade de geração de riqueza real e uma elevada capacidade de geração de riqueza financeira fictícia resultado do nosso sistema endógeno de corrupção através do financiamento de dívida pública de R$ 4,6 trilhões em março de 2017.

Superar a dependência do petróleo e construir uma matriz energética 100% renovável

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“The future will be renewable-based or there won´t be a future”
(Adolfo Rebollo, CEO of Ingeteam)

uma matriz energética 100% renovável nos EUA até 2037

Os Estados Unidos se envolveram em uma série de guerras visando garantir o egoístico acesso aos recursos petrolíferos globais. As guerras do Afeganistão e do Iraque são exemplos recentes de intervenções militares desastrosas para todos os países envolvidos e para o mundo. Calcula-se que os EUA gastaram cerca de US$ 6 trilhões de dólares nestes dois conflitos militares (fora as perdas de vida humana, não humana e os desastres ambientais).
No governo Barack Obama, os EUA gastaram anualmente cerca de US$ 550 bilhões em despesas de guerra e no aparato bélico. Agora em 2017, o governo Donald Trump pretende aumentar estes gastos em 10%, elevando-os para a casa dos US$ 600 bilhões anuais. O discurso oficial argumenta que são despesas para garantir a segurança interna e a liberdade no mundo. Mas muitos críticos mostram que o exagerado arsenal militar dos EUA tem a função de garantir o acesso do país aos combustíveis fósseis depositados nos territórios estrangeiros.
Porém, existe um outro caminho para os EUA e o mundo. Ambientalmente, a “Era do Petróleo” está com os dias contados (seja pelo Pico de Hubert ou pelo Orçamento Carbono). Assim como a Idade da Pedra não acabou por falta de pedras, a “Idade do Petróleo” vai acabar não por falta de petróleo, mas por avanços tecnológicos que vão permitir a construção de uma nova matriz energética, não-fóssil, de baixo carbono, renovável e mais limpa do ponto de vista ambiental.
Artigo de Tom Solomon (26/10/2016) mostra a viabilidade da transição da matriz energética dos EUA nas próximas duas décadas. Para ele, existe uma maneira viável de superar os combustíveis fósseis e sair da crise climática a tempo de evitar os piores efeitos do aquecimento global. O plano se baseia no trabalho realizado pela equipe de Mark Jacobson, da Universidade de Stanford (www.thesolutionsproject.org), que descreve um futuro com 100% de energia renovável até 2050.
Considerando as metas do Acordo de Paris (de dezembro de 2015) – para manter o aquecimento global abaixo de 1,5º C. – será preciso substituir todos os combustíveis fósseis por energias renováveis e ??limpas, com 50% até 2030 e com 100% até 2050. No caso dos EUA, para transformar a matriz energética seria preciso atingir: 3.966 GW de energia fotovoltaica (PV-solar); 2.421 GW de eólica; e 61 GW de novas capacidades de hidroelétrica + geo + onda + maré. Para atingir 100% destes 6.448GW em 2050 e 50% até 2030 deveria haver um esforço redobrado.
Em 2015, os EUA instalaram 7,3 GW de PV solar e 8,6 GW de eólica. Se estes acréscimos de capacidade forem mantidos seria preciso 405 anos para atingir 100% dos 6.448 GW. Portanto, é preciso investimentos maciços na área, com pelo menos 488 gigafactories até 2029.
A tabela abaixo mostra a estimativa do custo financeiro para a mudança da matriz energética dos EUA. Os investimentos anuais seriam de US$ 283 bilhões. Nota-se que este valor é menos da metade do orçamento anual de defesa, proposto por Donald Trump, de cerca de US$ 600 bilhões.

preço para mudar a matriz energética do EUA para 100% renovável até 2037

O custo total para a efetivação de uma matriz 100% renovável até 2037 seria de US$ 6,3 trilhões. Isto é semelhante ao custo total gasto nas guerras do Iraque e do Afeganistão. Por outro lado, haveria uma economia no gasto com combustíveis fósseis, além de mitigar o efeito estufa.
O prefeito de Chicago, Rahm Emanuel, anunciou em abril de 2017 que a cidade se comprometeu a garantir que todos os edifícios governamentais serão alimentados por 100% de energia renovável até 2025, o que tornaria a cidade de Chicago a maior cidade do país a manter todas as suas instalações públicas abastecidas por energia não fóssil.
O que o artigo de Tom Solomon (26/10/2016) mostra é que as barreiras para uma matriz 100% renovável são políticas, não técnicas. A resistência vem dos setores econômicos que perderão negócios (petróleo, gás, carvão e indústria automobilística com combustão interna), além do complexo industrial-militar.
Este mesmo raciocínio vale para o mundo. O relatório de 2016 do Instituto Internacional para a Investigação da Paz de Estocolmo (SIPRI, sigla em inglês) mostra que os gastos militares no mundo chegaram à impressionante cifra de cerca de US$ 1.700.000.000.000,00 (um trilhão e setecentos bilhões de dólares), representando 2,5% do PIB mundial.

gastos militares no mundo: 1988-2015

Assim, fica claro que é preciso inverter a lógica militarista da estratégia de fortalecer o poder de guerra para garantir acesso aos combustíveis fósseis. Ao invés dos gastos de morte, é preciso investir na paz e no aproveitamento das enormes reservas de sol e vento que estão à disposição de todos os países. O sol nasceu para todos, cabe saber transformá-lo em energia e em fonte de progresso pacífico para a sociedade e o meio ambiente. A metade dos recursos gastos com despesas militares seria suficiente para mudar a matriz energética mundial e para ter uma chance de salvar o mundo do desastre do aquecimento global.
Neste sentido, os senadores Jeff Merkley (D-OR), Bernie Sanders (I-VT), Edward J. Markey (D-MA) e Cory Booker (D-NJ) fizeram uma proposição legislativa visando 100% de energia limpa e renovável até 2050. O chamado “100 by Act 50” estabelece um roteiro para uma transição para 100% de energia limpa e renovável até 2050. É o primeiro projeto de lei introduzido no Congresso americano que vai prever completamente uma transição de combustíveis fósseis para os Estados Unidos, inclusive visando a segurança energética para eliminar a dependência dos combustíveis fósseis do Oriente Médio.
Segundo a organização Sierra Club, já existem 25 cidades nos EUA que se comprometeram a implementar 100% de energia renovável até 2035. No início de maio, a cidade de Atlanta, na Georgia, aderiu à campanha “Ready For 100%” e se tornou a maior cidade do Sul dos EUA a se comprometer com o fim do uso de combustíveis fósseis.
Portanto, a batalha pela justiça social e pela preservação da natureza passa necessariamente pela luta contra a corrida armamentista, pela redução dos gastos militares, pelo desarmamento, pela harmonia entre os povos, pelo redirecionamento da energia de guerra para a energia de paz e pela democratização da produção e da oferta de energia renovável.
Referências:
ALVES, JED. A economia verde e os gastos militares. Ecodebate, Rio de Janeiro, 14/04/2011

SIPRI Yearbook 2016. World military expenditure between 1988 and 2015. Stockholm International Peace Research Institute 2016

Tom Solomon. Here’s how to build 100% clean renewable energy in the US before 2040, Energy Post, 26/10/2016

KTVZ. Merkley, Sanders goal: U.S. on all renewables by 2050, From greener grid to auctioning ‘Climate Bonds’, 27/04/2016

Jodie Van Horn. Cities and Towns Continue to Lead the Way with New “Mayors For 100% Clean Energy” Push, Sierra Club, April 26, 2017


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 17/05/2017

quarta-feira, 17 de maio de 2017

PIB cai pelo décimo primeiro trimestre

Análise econômica de equipe da Fearp mostra que PIB brasileiro cai pelo décimo primeiro trimestre consecutivo

Matéria do Jornal da USP

Foto: Marcos Santos/USP Imagens


Análise do boletim Conjuntura Econômica do Ceper/Fundace, órgão ligado a pesquisadores da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (Fearp) da USP, mostra que o PIB (Produto Interno Bruto) da economia brasileira está em queda desde o segundo trimestre de 2014.
Nos últimos 11 trimestres, o PIB real brasileiro registrou variação negativa de 7,64%. No quarto trimestre de 2016, a variação foi de -2,46% em relação ao mesmo trimestre de 2015. Por setor, indústria e serviços apresentaram variação negativa similar, -2,45% e -2,36% respectivamente, enquanto a agropecuária apresentou a maior queda, de 4,97%.
Acumulando as variações trimestrais, verifica-se uma queda de 3,59% para o PIB em 2016. Agropecuária, indústria e serviços tiveram variação anual de -6,36%, -3,83% e -2,70%, respectivamente. Em valores correntes, o PIB chegou a R$ 6,267 trilhões no ano passado e o PIB per capita ficou em R$ 30.407 , o que significa uma redução real de 4,4% em relação a 2015. 
O setor agropecuário, com 4,71% de participação no PIB em 2016 e que até o último trimestre de 2015 era o único segmento cujo produto variou positivamente, começou a retrair a partir do primeiro trimestre de 2016. “Tal fenômeno ocorreu, principalmente, pela perda de produtividade da produção de soja e a queda na produção de algumas culturas como milho e fumo, visto que soja e milho são produtos de grande importância na produção agrícola brasileira”, analisa o pesquisador do Ceper, Luciano Nakabashi.
O resultado negativo da indústria, que representou 18,35% de participação no PIB em 2016, foi decorrente, em grande medida, da variação da indústria de transformação e da construção civil. A primeira foi marcada pela redução do volume de fabricação de máquinas, equipamentos, veículos, entre outros itens. Na construção civil, destaca-se o impacto da redução do investimento público.
Dentre os itens que compõem o segmento de serviços, que em 2016 representou 63,34% do PIB brasileiro, destacam-se as variações de -7,1% de transporte, armazenagem e correio, -6,3% do comércio, -3,0%, dos serviços de informação e -2,8% da intermediação financeira e seguros. 

Expectativa do mercado para crescimento do PIB é de 0,43% em 2017 e de 2,5% em 2018 – Imagem: Reprodução

Analisando os componentes de demanda do PIB (consumo das famílias e do governo, investimento, exportações e importações), a variação porcentual acumulada nos anos 2015 e 2016 mostra que houve forte retração da formação de capital fixo (investimentos público e privado): -13,9% e -10,2%, respectivamente, refletindo a aguda crise econômica brasileira. A queda da importação de bens de capital (-14,1%) foi um dos principais motivos para a forte retração das importações brasileiras (-10,3%,).
Exportação foi o único componente de demanda que apresentou expansão em 2015 e 2016 – de 6,3% e 1,9%, respectivamente – devido, principalmente, ao aumento das exportações de petróleo, gás natural, açúcar e automóveis. O consumo das famílias, impactado negativamente pelos altos juros, alto desemprego, restrição ao crédito e queda da renda, caiu 4,2% em 2016. Já o consumo do governo registrou retração de 0,6%.

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Taxa de desemprego permanece alta

A taxa de desemprego no Brasil, que vem aumentando desde janeiro de 2015, atingiu 13,2% em fevereiro deste ano, o que reflete a baixa atividade econômica do País. O rendimento médio real do brasileiro caiu quase R$ 100,00 entre janeiro de 2015 e junho de 2016.  A partir de então, mesmo com o desemprego aumentando, voltou a subir e fechou fevereiro de 2017 em R$ 2.068,00, R$ 46,00 acima do valor de junho, o que, segundo Nakabashi, pode ser visto como reflexo de uma retração maior nos empregos de menor qualificação.
Baixa atividade na indústria –  Analisando a evolução nos últimos quatro anos da utilização da capacidade instalada da indústria, calculada pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), do início de 2013 ao início de 2016, ocorreu uma tendência negativa, com uma redução de 6,3 pontos porcentuais entre abril de 2013 e fevereiro de 2016. A partir de então, a utilização da capacidade oscilou entre 82% e 83%, fechando março deste ano em 82,2%.
“Com o aumento do desemprego, era esperada uma diminuição da utilização da capacidade industrial instalada. Entretanto, verifica-se que a utilização da capacidade instalada cai mesmo antes do início da forte alta do desemprego, o que evidencia que a atividade econômica já estava baixa ao longo de 2014 e que o desemprego demorou mais para responder”, explica o pesquisador.
Inflação próxima da meta – A inflação geral, de itens comercializáveis, não comercializáveis e com preços monitorados ou administrados por contrato, que chegou a  10,71%, em janeiro de 2016, vem cedendo desde meados do ano passado e em março deste ano já se encontrava próxima ao centro da meta de inflação (4,5%). “Uma vez que a inflação geral se encontra em um patamar mais baixo (4,57%), é alta a possibilidade da manutenção da trajetória de rápida redução da Selic nas próximas reuniões do Copom”, prevê Nakabashi.
Quanto à inflação medida pelo IPCA, a expectativa é de 4,04% em 2017 e 4,32% em 2018. “Portanto, neste momento as expectativas de inflação futura estão ancoradas no centro da meta de inflação”, ressalta o pesquisador do Ceper.
Expectativas de mercado: crescimento modesto do PIB em 2017 e retomada em 2018 – A expectativa do mercado para crescimento do PIB é de 0,43% em 2017 e de 2,5% para 2018. Essas expectativas indicam leve melhora da economia brasileira após o biênio de maior retração do PIB desde o fim da década de 1940.
As possibilidade de aprovação das reformas propostas pelo Governo Federal, a queda da inflação e a consequente trajetória de redução da taxa de juros, além dos saques das contas inativas do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) são alguns dos fatores que explicam a melhora nas expectativas, de acordo com  o pesquisador do Ceper.
As expectativas do mercado quanto ao resultado primário, de acordo com Nakabashi, são de que o Brasil continuará apresentando déficit em 2017 (-2,2% do PIB) e em 2018 (-1,8% do PIB). “Mas o processo de queda dos juros acaba tendo um efeito importante na redução do déficit nominal, mesmo com a manutenção do déficit primário até 2018, o que dá uma margem maior para que ocorram os ajustes fiscais que são necessários para melhorar os fundamentos da economia brasileira e, dessa forma, pavimentar o caminho para uma trajetória de crescimento moderado, mas sustentável”, admite.
Reforma na Previdência – A queda dos juros, explica Nakabashi, é outro elemento crucial para a melhora da demanda interna e, desse modo, para a recuperação da economia brasileira a partir de 2017 e ao longo de 2018. “No entanto, sem a manutenção da agenda de reformas e, sobretudo, de uma ampla reforma na previdência que coloque a dívida pública em trajetória sustentável, a economia brasileira voltará a uma trajetória de estagnação a partir de 2019 ou 2020”, alerta o pesquisador.
Ele explica que as reformas são importantes ao impactar positivamente nas expectativas dos investidores e ajudar na retomada já a partir deste ano, sobretudo para criar as condições para que o crescimento possa ser sustentável para além de 2019, melhorando a vida dos empresários e dos trabalhadores.
Com o aumento da expectativa de vida e a mudança da estrutura etária da população brasileira decorrente do fenômeno da transição demográfica (menos filhos por mulheres, com aumento da expectativa de vida das pessoas), ele vê como natural que ocorra uma elevação na idade de aposentadoria. “Apesar da forte resistência dos trabalhadores, é necessário que haja reformas na Previdência. Caso contrário, será necessário desviar recursos de outras áreas e elevar os impostos para o pagamento de aposentadorias e pensões, prejudicando o crescimento futuro, sem mencionar a possibilidade da volta inflacionária decorrente das dificuldades fiscais”, conclui o pesquisador do Ceper.

ONU prevê crescimento de 2,7% para economia mundial em 2017

Relatório do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais mantém previsão feita em janeiro deste ano; documento mostra queda na perspectiva de avanço para países menos desenvolvidos. Entre os países de lingua portuguesa, Moçambique tem a melhor previsão de crescimento.
Na África, a previsão média para o continente é de um alta de 3,2% e 3,8% para 2017 e para o ano que vem, respectivamente. Foto: ONU/Evan Schneider
Edgard Júnior, da ONU News em Nova Iorque.
O Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU, Desa, prevê que o crescimento da economia mundial deve ser de 2,7% este ano e de 2,9% em 2018.
Em seu relatório "Situação Econômica Mundial e Perspectivas", divulgado esta terça-feira, o Desa informou que o Produto Interno Bruto, PIB, per capita caiu em várias regiões da África e da América do Sul. A situação deve continuar até o fim do próximo ano.
Brasil
Segundo o Desa, a queda do PIB brasileiro deve chegar ao fim depois das baixas em 2015 e 2016. Os especialistas dizem que as incertezas políticas no país diminuíram e estão sendo implementadas as bases de programas de macrogestão.
O documento afirma que o alto desemprego e uma política fiscal rigorosa continuarão pesando sobre a economia. Os especialistas demonstraram preocupação com a perda de postos de trabalho não só no Brasil, mas também na Argentina e na Colômbia.
Pelos dados da ONU, mais de 27 milhões de pessoas estão desempregadas hoje em comparação ao período antes da crise financeira. O desemprego entre os jovens é também uma preocupação global, com custos econômicos e sociais de longo prazo.
O índice de pessoas desempregadas no Brasil atingiu 11,8% no terceiro trimestre de 2016, quase o dobro do registrado em 2014. Por causa do alto desemprego, da inflação elevada e da restrição ao crédito, o consumo no país sofreu uma redução de 5% no ano passado.
O documento cita ainda que a produtividade no trabalho na maioria dos países desenvolvidos e também em desenvolvimento caiu desde a crise econômica mundial, incluindo o Brasil, a China e a Rússia.
O Brasil tem sofrido com a redução dos investimentos públicos e privados mas o relatório prevê uma pequena recuperação em relação ao fluxo de capital externo.
Entre as causas para a melhora do Brasil estão o fortalecimento da demanda externa, aumento dos preços das commodities internacionais, redução das incertezas políticas e um alívio das políticas monetárias.
Os especialistas do Desa afirmaram que o país registrou as duas piores recessões nos últimos dois anos. O declínio acumulado da economia brasileira ultrapassou os 8% desde o final de 2014.
Outro dado mencionado pelo relatório foi a sonegação de impostos de empresas, que chega a 27% no Brasil, mas é de 60% na Costa Rica, Equador e Guatemala.
Países Lusófonos
A previsão será de um crescimento econômico lento para Portugal: 1,4% para este ano e de 1,3% para 2018. O documento cita o alto desemprego no país como uma das barreiras a ser superada.
Na África, a previsão média para o continente é de um alta de 3,2% e 3,8% para 2017 e para o ano que vem, respectivamente.
Dos países lusófono, somente Angola tem uma previsão menor, 1,8% para 2017 e 2,8% para 2018.
Cabo-Verde e Guiné-Bissau estão com previsão de crescimento entre 3% e 4%, mas Moçambique e São Tomé e Príncipe podem ver suas economias avançarem entre 5% e 6%.
Já Timor-Leste, pode ter um crescimento de 5,1% neste ano e de 5,6% em 2018.
LCDs
Segundo as Nações Unidas, a América Latina e o Caribe devem registrar um crescimento positivo em 2017 depois de dois anos de contração. Já a previsão para vários países menos desenvolvidos, chamados de LCDs, não deve alcançar a meta de 7% estabelecida pelos Objetivos de Desenvolvimento sustentável, ODSs.
Os especialistas do Desa calculam que o crescimento médio da economia dessas nações deve ficar em 4,7% em 2017 e de 5,3% no ano que vem.
O relatório diz que seguindo a tendência de crescimento atual, quase 35% da população dos LCDs, países altamente endividados e em estado de fragilidade e conflito, devem continuar na extrema pobreza até 2030.
O nível de emissão global de carbono está no mesmo patamar há três anos consecutivos, refletindo o crescimento na geração de energia por fontes renováveis e melhora na eficiência energética.
Energia
Outros pontos positivos são a transição da energia gerada por usinas de carvão para o gás natural e o crescimento lento da economia nos países que mais emitem CO2.
A inflação teve uma alta em economias desenvolvidas, como por exemplo Estados Unidos e Reino Unido e ao mesmo tempo caiu em economias emergentes, como é o caso do Brasil e da Rússia.
Mas a inflação de dois dígitos atingem 26 países no mundo, sendo que dois-terços deles estão na África.
O relatório mostrou também que os preços das commodities internacionais registraram um pequeno aumento no início de 2017, mas o preços do barril de petróleo continua volátil.

Banco Mundial: cada vez mais latino-americanos têm acesso a ensino superior

Em novo estudo, instituição aponta que há cada vez mais estudantes e universidades na região, mas qualidade educacional ainda precisa melhorar
20 milhões de alunos frequentam 10 mil instituições em toda a região. Foto: Banco Mundial
Mariana Ceratti, de Brasília*, para a ONU News.
O Banco Mundial divulgou nesta quarta-feira relatório mostrando que, na década passada, o número de estudantes de ensino superior da América Latina e Caribe quase dobrou. O percentual de jovens entre 18 e 24 anos de idade matriculados no ensino superior aumentou de 21% em 2000 para 40% em 2010.
Hoje, 20 milhões de alunos frequentam mais de 10 mil instituições em toda a região.
Importante
Segundo o documento, estudantes de baixa e média renda cada vez mais tëm acesso ao ensino superior. Em 2000, os mais pobres representavam apenas 16% dos universitários da região. Treze anos depois, esse percentual passou a 25%.
Esse dado é importante porque em média, na América Latina, um profissional com curso superior pode ganhar mais do dobro de um que tenha apenas o ensino médio.
A má notícia é que apenas a metade dos universitários da região se forma. E, entre os que abandonam os estudos, metade faz isso no primeiro ano do curso. O número indica que ainda há muito a fazer em termos de qualidade do ensino.
Desistência
Entre as causas dos altos índices de desistência, o relatório aponta o despreparo acadêmico, devido em parte à baixa qualidade da educação média, e a falta de bons sistemas de financiamento para os estudantes de baixa renda.
O estudo ainda destaca que a América Latina e o Caribe hoje contam com mais instituições privadas de ensino superior. Hoje, elas formam 50% do mercado, contra 43% em 2000. Contudo, apenas 10 dessas escolas estão entre as 500 melhores instituições de ensino superior do mundo, um número superior apenas ao da África.
Para melhorar esse quadro, o documento propõe melhorar a regulamentação e a supervisão dessas escolas. Além disso, gerar e divulgar informações sobre o desempenho das instituições e dos cursos, para que os alunos possam fazer escolhas bem informadas.
Finalmente, o relatório enfatiza que não basta formar bons profissionais: é preciso conectá-los ao mercado de trabalho e criar ambientes de negócios preparados para aproveitar o potencial desses trabalhadores.
*Reportagem do Banco Mundial Brasil