"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Desemprego recorde na RMSP e no Brasil: desperdício do bônus demográfico

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“O trabalho enobrece e dignifica o ser humano”
Gibran Khalil Gibran

número de desempregados na RMSP

O Brasil vive a sua mais longa e profunda recessão. Consequentemente, há menos pessoas ocupadas e o desemprego atingiu níveis recordes, provocando grande sofrimento entre a população que deseja trabalhar. Esse problema, além de representar um desrespeito aos direitos constitucionais do pleno emprego e do trabalho decente, significa também o desperdício do bônus demográfico e a perda da chance de o país dar um salto no seu nível de desenvolvimento.
Não sem surpresa, o desemprego na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) atingiu o maior nível da história, com 2,088 milhões de pessoas procurando trabalho, segundo dados da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), em colaboração com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), conforme o gráfico acima.
Este número escandaloso é bem maior do que toda a força de trabalho do Uruguai (cerca de 1,8 milhão de trabalhadores). Portanto, somente na RMSP o desperdício do potencial produtivo da população em idade de contribuir com o desenvolvimento humano e social está jogando fora o equivalente ao PIB de um país, no caso, o da antiga “Província Cisplatina”.
Nunca o desemprego foi tão alto na RMSP. De 17,9 milhões de pessoas em idade ativa, apenas 9,139 milhões estavam ocupadas (uma taxa de 51,1%). Ou seja, só algo como a metade das pessoas em idade produtiva estavam ocupadas. Mesmo assim era grande a quantidade de pessoas subempregadas e atuando na informalidade. O desemprego atinge principalmente os jovens, as mulheres e a população preta e parda. A violação de direitos é evidente e o custo social e econômico é incalculável.
No início da gestão da dupla Dilma-Temer, em janeiro de 2011, a população em idade de trabalhar (PIA) na RMSP era de 17 milhões de pessoas, o número de pessoas ocupadas (PO) era de 9,6 milhões e o número de desempregados era de 1,129 mil. A taxa de ocupação estava em 56,5% em janeiro de 2011 e a taxa de desemprego (Des/PEA) estava em 10,5%.
Estes números que já não eram muito bons, pioraram nos últimos 7 anos. Em abril de 2017, a PIA chegou a 17,88 milhões de pessoas, a PO caiu para 9,1 milhões de trabalhadores e o número de desempregados subiu para 2,088 milhões. A taxa de ocupação caiu para 51,5% e a taxa de desemprego subiu para 18,6%.

PIA, PO, PO/PIA na RMSP

Para o Brasil como um todo, o panorama não é menos dramático e o impacto negativo da gestão Dilma-Temer não foi menor. Os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), que teve início no primeiro trimestre de 2012, mostram que o desperdício da força de trabalho nacional atingiu proporções de uma tragédia grega. Enquanto crescia a população total e a força de trabalho, decrescia o número de pessoas ocupadas. Isto implica no desperdício do potencial produtivo fornecido pela mudança da estrutura etária. Também quer dizer que o bônus demográfico está se perdendo e escorrendo pelo ralo da crise econômica.
No primeiro trimestre de 2012, o desemprego aberto (pessoas procurando trabalho) estava em 7,6 milhões de pessoas no Brasil e o desemprego total (subutilização da força de trabalho) estava em 21,4 milhões de pessoas. Com a crise econômica que afetou o mercado de trabalho o quadro piorou muito. No primeiro trimestre de 2017, o desemprego aberto passou para 14,2 milhões de pessoas e o desemprego total chegou a impressionantes 26,5 milhões de pessoas.

desemprego aberto e subutilização da força de trabalho

Enquanto crescem a população total (Pop), a população em idade ativa (PIA) e a força de trabalho ampliada (FTA), cai a população ocupada. Ou seja, aumenta o hiato entre o potencial de trabalho e o número de pessoas efetivamente trabalhando. Isto significa desperdício do potencial produtivo e a perda do bônus demográfico.
A população brasileira total, no trimestre janeiro a março de 2012, era de 198 milhões de habitantes, a população em idade de trabalhar (PIA) era de 156,4 milhões de pessoas, a força de trabalho ampliada (FTA) era de 102,4 milhões e a FTA menos a subutilização ampliada estava em 81 milhões de pessoas. Cinco anos depois, no trimestre janeiro a março de 2017, os números eram 206,5 milhões de habitantes, 167,5 milhões da PIA, 110,2 milhões da FTA e 83,7 milhões para a FTA menos a subutilização ampliada, conforme mostra o gráfico abaixo.

POP, PIA, FTA e FTA menos subutilização ampliada

Evidentemente, o colapso do mercado de trabalho ocorreu fundamentalmente depois da crise que teve início no final de 2014 e se aprofundou em 2015 e 2016. Mas as baixas taxas de desemprego existentes em 2013 e 2014 não significava altos níveis de emprego. Na realidade existia o chamado paradoxo do baixo desemprego em 2013 e 2014, como mostrou Simões, Alves e Silva (2016).
Não há bônus demográfico que resista a estes números. A situação atual atinge mais fortemente as mulheres e os jovens. O Brasil está perdendo a oportunidade de atingir a paridade de gênero e está criando uma geração perdida ao bloquear a chance de mobilidade social ascendente da juventude, que vê aumentar os índices de pobreza e violência.
Desta forma, não haverá futuro melhor do que o presente. Sem o aproveitamento do momento favorável da estrutura etária o desenvolvimento brasileiro pode ficar comprometido e o país pode ficar permanentemente preso na armadilha da renda média. O progresso será substituído pela estagnação e a mesmice. Nas tendências atuais, o Brasil – país do futuro – será sempre uma miragem.
Referência:
SIMÕES, PHC. ALVES, JED. SILVA, PLN. Transformações e tendências do mercado de trabalho no Brasil entre 2001 e 2015: paradoxo do baixo desemprego? R. bras. Est. Pop., Rio de Janeiro, v.33, n.3, p.541-566, set./dez. 2016

ALVES, J. E. D. Crise no mercado de trabalho, bônus demográfico e desempoderamento feminino. In: ITABORAI, N. R.; RICOLDI, A. M. (Org.). Até onde caminhou a revolução de gênero no Brasil? Belo Horizonte: Abep, 2016. p. 21-44. ISBN 978-85-85543-31-0

ALVES, JED. O fim do bônus demográfico e o processo de envelhecimento no Brasil. São Paulo, Revista Portal de Divulgação, n. 45, Ano V. Jun/jul/ago 2015, pp: 6-17, (ISSN 2178-3454)


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 07/06/2017

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Banco Mundial prevê crescimento de 2,7% da economia global em 2017

Relatório Perspectivas Econômicas Globais cita aumento do comércio e no setor manufatureiro, alta da confiança e estabilização do preço das commodities; economia do Brasil deve crescer 0,3% depois de dois anos de retração.
Foto: Banco Mundial/Dominic Sansoni
Edgard Júnior, da ONU News em Nova Iorque.
Um relatório do Banco Mundial lançado esta segunda-feira em Washington, nos Estados Unidos, prevê um crescimento de 2,7% da economia global neste ano.
O documento, cujo título é: "Perspectivas Econômicas Globais 2017" diz que o avanço foi impulsionado pelo aumento do comércio e no setor manufatureiro, pela alta da confiança no mercado e estabilização dos preços das commodities.
Brasil
Segundo a instituição financeira, as economias avançadas devem registrar um crescimento médio de 1,9% neste ano enquando os países emergentes e em desenvolvimento devem crescer, em média, 4,1%.
O Banco Mundial prevê que a economia do Brasil deve ter um leve crescimento em 2017, de 0,3%. O país registrou uma retração econômica de mais de 3% nos dois últimos anos.
Para 2018 e 2019, a previsão é mais favorável. Segundo o relatório, o Brasil deve crescer 1,8 e 2,1%, respectivamente. Mesmo assim, ficará atrás de Argentina e do México, que devem ver suas economias crescerem até 3,2%, no caso do país vizinho e de 2,5% da economia mexicana durante o mesmo período.
Lusófonos
Entre os países lusófonos, Moçambique tem a maior previsão com crescimento de 4,8% neste ano e de mais de 6% para 2018 e 2019. Guiné-Bissau, Timor-Leste, Cabo-Verde e Angola seguem logo atrás. Os dados de Portugal e São Tomé e Príncipe não constam deste relatório.
A economia dos Estados Unidos deve registrar uma alta de apenas 2,1% neste ano, meio ponto percentual a mais do que em 2016. Já para os dois próximos anos o nível deve permanecer quase igual aos de 2017.
Os países da área do Euro devem ter um crescimento de 1,7% neste ano de de 1,5% em 2018 e 2019.
Entre os emergentes, Índia e China lideram as previsões de crescimento com um avanço de mais de 7% e 6% respectivamente. A Rússia deve crescer pouco mais de 1% pelos próximos três anos.
Os especialistas do Banco Mundial preveem que as atividades de recuperação econômica nos países emergentes devem ultrapassar a média de longo prazo em 2018 e terão um impacto positivo no crescimento global.
Ao mesmo tempo, o Banco Mundial adverte que "riscos significativos" podem mudar essas previsões. Os especialistas explicam que novas restrições podem prejudicar a recuperação do comércio global.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Chesf energiza instalações no Rio Grande do Norte

O empreendimento vai garantir interligação de geração eólica ao sistema de transmissão nacional

Vinicius Augusto de Oliveira Lima
COMUNICADOR SOCIAL

Com investimento direto superior a R$ 44 milhões, a Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf) energizou, no último dia 12 de maio, com capacidade de transformação de 150 MVA (mega volts-ampère), a subestação Touros, localizada no município de São Miguel do Gostoso, litoral do Rio Grande do Norte.

O empreendimento vai possibilitar o aumento da oferta de energia a partir das usinas eólicas instaladas no Potiguá, e serão conectadas a essa subestação um total de 36 unidades geradoras, com o total de 108 MW (mega watts) de potência instalada. Esse é mais um passo no sentido de cumprir a meta da Chesf de retomar, ampliar as melhorias e concluir obras.

A integração da SE Touros ao Sistema Interligado Nacional foi possível através da construção de linha de transmissão, em circuito simples, com extensão de 56 km, operada na tensão de 230 kV (mil volts), e interligará a SE Touros à SE Ceará-mirim, situada na Região Metropolitana de Natal. Com a obra, a Chesf terá uma Receita Anual Permitida de R$ 4,5 milhões.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Índia: o grande poder interno

por Immanuel Wallestein

Tenho a impressão de que, de todos os "grandes poderes" no sistema mundial contemporâneo, no entanto, se define "grande poder", a Índia é a que recebe menos atenção. Eu admito que isso tem sido verdade para mim, mas também é verdade para a maioria dos analistas geopolíticos.

Por que isso deveria ser? A Índia, afinal, está se aproximando rapidamente do ponto em que terá a maior população do mundo. É respetivamente alto em muitas medidas de força econômica e melhorando o tempo todo. É uma potência nuclear e tem uma das maiores forças armadas do mundo. É um membro do G20 que é o imprimatur de ser um grande poder. No entanto, não é um membro do G7, que é um grupo muito mais restrito e muito mais importante.

É um dos cinco países conhecidos como BRICS - Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Mas o BRICS, a força crescente das economias "emergentes" no início do novo século, agora caiu em termos geopolíticos, já que suas economias, com exceção da China, subitamente enfraqueceram radicalmente desde o declínio da economia mundial pós-2008. Eles são oficialmente membros, com a China e a Rússia, mas também com o Paquistão, da Organização de Cooperação de Xangai, mas essa estrutura nunca pareceu se tornar uma força importante na política mundial.

Os governos da Índia, qualquer que seja o partido no poder, gastaram muita energia buscando um papel maior no sistema mundial. Em particular, eles procuraram obter apoio de outros poderes na longa disputa da Índia com o Paquistão sobre a Caxemira. Eles nunca pareciam atingir esse objetivo.

Nos dias da guerra fria, a Índia era oficialmente neutra e de fato mais próxima da Rússia. Desde o colapso da União Soviética, a Índia tentou melhorar suas relações com os Estados Unidos. Mas o que ganhou em termos de apoio dos EUA, perdeu em termos de política chinesa. A China teve sérios conflitos armados com a Índia em território, e está irritada com a hospitalidade da Índia com o Dalai Lama.

A Índia tem sido um país raro na Ásia por ter um sistema parlamentar em funcionamento, com mudanças na força eleitoral entre o Partido do Congresso (herdeiro do movimento da independência) e o Partido Bharatiya Janata (um movimento nacionalista hindu de direita). Este fato recebe aclamações regulares de analistas e líderes políticos nos países pan-europeus, mas não parece ter significado que eles apoiem as demandas da Índia para um maior reconhecimento em qualquer grau importante.

Uma pergunta que se deve perguntar é: "quem realmente precisa da Índia?" Os Estados Unidos, especialmente desde que Donald Trump chegou ao poder, quer que a Índia compre mais com isso sem, no entanto, investir muito em troca. De fato, no momento, o retorno do pessoal indiano da tecnologia da internet para a Índia dos Estados Unidos (e outros países ocidentais) está ameaçando os Estados Unidos com significativa perda de emprego em um dos poucos setores onde os Estados Unidos estão indo bem para agora.

A China precisa da Índia? Claro, a China quer o apoio da Índia em qualquer uma das suas brigas com os Estados Unidos, mas a Índia é um rival para o apoio de países do sudeste da Ásia, e não um parceiro no seu desenvolvimento. A Rússia e o Irã podem usar o apoio indiano às questões do Oriente Médio, mas a Índia hesita em dar muito apoio, mesmo quando basicamente concorda em questões relacionadas com o Afeganistão, por medo de ofender os Estados Unidos. As nações do Sudeste Asiático acreditam que chegar a um acordo com a China vai pagar mais do que chegar a um acordo com a Índia.

O problema, claramente, é que a Índia é um estado "intermediário". É suficientemente forte para ser levado em consideração por outros. Mas não é suficientemente forte para desempenhar um papel decisivo. Assim, como as outras potências constantemente manipulam suas prioridades, a Índia parece ser uma pessoa que reage às suas iniciativas, em vez de uma que outras reagem às iniciativas indianas.

Será que isso mudará na próxima década? Na geopolítica caótica do estado atual do sistema mundial, tudo é possível. Mas não parece muito provável.

A AMÉRICA, A EUROPA E A MÚSICA DE WAGNER


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O desconforto da Europa com os EUA de Trump atingiu esta semana o seu ponto mais elevado até agora.

Primeiro, no encontro anual do G7, realizado em Taormina, na Sicília, o presidente americano recusou-se a subscrever as ideias de reforço do livre comércio mundial, queixando-se da desvalorização do euro em relação ao dólar, altamente vantajosa para as exportações alemãs.
Depois, em Bruxelas, na inauguração da nova sede da OTAN, admoestou publicamente os aliados por estes não estarem, na sua grande maioria, a aplicar em defesa pelo menos 2% dos respectivos orçamentos anuais, como fora estabelecido entre todos.
Por fim, quinta-feira, chegava o anúncio oficial da Casa Branca de que os EUA se vão retirar do acordo de Paris sobre o clima. 

No meio de tudo isto, uma imagem ficava ainda na memória, como que a sublinhar a nova atitude americana face à velha Europa: Trump empurrando com descortesia o primeiro-ministro do Montenegro para ficar à frente na chamada foto de família da cimeira da aliança atlântica...

Se dúvidas ainda houvesse, elas desvaneceram-se por completo: o homem é um grosso, comporta-se como um elefante numa loja de porcelana e as suas posições nalgumas questões-chave vão contra a corrente consensual estabelecida a Ocidente, tudo querendo subordinar a uma interpretação literal do que lhe parece ser o interesse americano imediato – criar empregos.

A EUROPA REAGE

As reações não se fizeram esperar. 
Num vídeo distribuído pela mídia e colocado nas redes, falando em inglês, o presidente francês Emmanuel Macron, apelou aos cientistas americanos para virem trabalhar em França; mais importante ainda - a chanceler alemã Angela Merkel declarou, caneca de cerveja na mão, numa tenda da Baviera, que já não se pode contar com o apoio de velhos aliados (subentenda-se os americanos), tendo chegado a hora dos europeus “tomarem o destino nas próprias mãos”.

Uns com temor, outros com esperança, viram nisto como que o anúncio de um abalo telúrico, a indicação de que algo de fundamental estaria para acontecer nas relações internacionais, quase como que o início de uma nova era.
A Europa, dependente desde a Segunda Grande Guerra, do apoio político e militar dos EUA, estaria em vias de consolidar um poder próprio, assumindo-se como sujeito perfeitamente autônomo no cenário político internacional.
Seria, no fundo, o culminar de uma lenta evolução, em que finalmente o velho continente faria corresponder a sua capacidade estratégica e militar à inquestionável força que hoje já tem em termos econômicos e comerciais.
Uma análise mais atenta, porém, não autoriza – pelo menos para já - essas especulações.
É certo que, com Trump, os EUA têm hoje outras prioridades e parecem menos preocupados com a liturgia diplomática, não hesitando em recorrer de forma aberta e por vezes brutal à linguagem do quero, posso e mando.
Trump parece mais focado no combate ao terrorismo e ao chamado Estado Islâmico, o que pode significar um relativo desvio de atenções – até agora centradas no leste europeu e no Báltico – para o norte de África.
Ao mesmo tempo, porém, o orçamento que Trump enviou ao Congresso não deixa de incluir uma soma considerável para sustentar o esforço militar a leste face ao chamado “perigo russo”.
Por outro lado, e apesar das aparências, as alusões de Merkel a um reforço das capacidades europeias em termos de segurança e defesa, não trazem nada de muito novo. Apelos nesse sentido já foram feitos antes pela França e pelo próprio presidente da Comissão Europeia.
A Inglaterra sempre foi contra a criação de um exército europeu ou algo parecido, mas agora que o BREXIT está à vista, é natural que esses projetos reapareçam. E eles não contradizem necessariamente a aliança estratégica com os EUA. Seriam apenas o reforço do chamado “pilar europeu da OTAN”.
É claro que uma maior autonomia europeia poderia, a prazo, contribuir – mas sempre com a eventual anuência americana – para o estabelecimento de um sistema global de segurança europeia, que incluísse a Rússia.
Mas não estamos ainda aí – longe disso. Para já, o que há é apenas um reforço de algumas tendências que em si mesmas não colocam em causa a trave mestra da segurança europeia – a aliança com os Estados Unidos.
Como alguém disse um dia, as relações Europa-América são como a música de Wagner: não é tão má como parece. Mesmo que na interpretação de Trump se ouçam agora algumas notas dissonantes mais estridentes.