"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 12 de agosto de 2017

A BALELA DA TRANSIÇÃO DO DISTRITÃO PARA O DISTRITAL MISTO

Maurício Costa Romão

A comissão de reforma política da Câmara Federal aprovou recentemente o sistema de voto majoritário plurinominal, conhecido como “distritão” (os mais votados do pleito no grande distrito - estado, município - são eleitos), já para as eleições de 2018 (deputados) e 2020 (vereadores).

O argumento de convencimento que prevaleceu nos debates foi o de que o sistema seria implantado agora para as duas próximas eleições, mas como transição para o modelo distrital misto (uma parte dos parlamentares é eleita pelo sistema majoritário e a outra parte pelo proporcional de lista fechada), a partir de 2022.

Vê-se, assim, com essa extravagância de transição entre modelos, que suas excelências continuam brincando de transformar o país num imenso laboratório de experimentos de sistemas eleitorais, ao invés de fazerem o que já deveriam ter feito há muito tempo: corrigir as distorções do mecanismo em vigor, começando, por exemplo, com o fim as coligações proporcionais.

Por trás desse propósito de demonizar o modelo em vigência - e trocá-lo por outro qualquer - está o intento de incutir na população a falsa idéia de que a superposição das crises ética, política e econômica que devastam o país é resultante do atual mecanismo de voto, o proporcional de lista aberta. Nada mais longe da realidade e da verdade.

Alguns pontos precisam estar presentes nessa discussão:

Ponto um: se o distritão é um modelo transicional, então por que traumatizar o país com esse faz-de- conta temporário, em vez de permanecer com o mecanismo atual até 2022? Essa mudança a toque de caixa não faz o mínimo sentido. E, por favor, excelências, não digam, como muitos, que o distritão é um aprendizado para o distrital misto. São dois sistemas que guardam entre si enormes diferenças.

Ponto dois. Aprovado o distritão agora, não há absolutamente nenhuma garantia de que o distrital misto seja implantado em 2022. Quem pode assegurar que a nova legislatura de 2018 vai manter o que foi apenas “acordado” no quadriênio anterior?

Na verdade, os aderentes do distritão, com esse engodo de transição, estão é conseguindo emplacar o modelo de forma definitiva, pois sabem muito bem que dificilmente o distrital misto vai ser implantado no Brasil.

Com efeito, considere-se, por exemplo, apenas a vertente majoritária uninominal do distrital misto (o eleitor vota nos candidatos dos diversos partidos e apenas o mais votado é eleito, por distrito). Esta vertente impõe ao modelo, portanto, a exigência de desenhar os distritos em consonância com o tamanho dos Parlamentos.

Pois bem. Tome-se um estado, Pernambuco. O estado iria ser
subdividido em 25 distritos para deputado federal, em 49 distritos para
deputado estadual e em 39 distritos para vereador, na capital.

Como, por quem e em quanto tempo esse desenho distrital seria feito? Não é necessário muita profetização para antever que a briga política para influenciar a conformação geográfica dos distritos vai inviabilizar a
implantação do modelo.

(À guisa de ilustração, a Suprema Corte americana está em vias de julgar uma contestação do partido Democrata do Estado de Wisconsin contra o desenho dos distritos levado a efeito pelo legislativo local, de maioria republicana. A conformação dos distritos teria beneficiado eleitoralmente os republicanos (os democratas tiveram 51,4% dos votos, mas ficaram com apenas 40% das cadeiras parlamentares.) Imagine-se no Brasil...

Ponto três. De onde surgiu essa noção de que o distrital misto é superior ao distritão - a ponto deste servir apenas de trampolim para aquele - ou ao proporcional de lista aberta – a ponto de este ser sumariamente substituído por ambos?

E, por favor, excelências, não digam, como muitos, que o distrital misto é melhor porque tem as vantagens dos dois sistemas, o majoritário e o proporcional, pois daí se segue o contra-argumento lógico: tem também as desvantagens dos dois sistemas!

Ponto quatro. Há uma evidente contradição argumentativa entre os que defendem o distritão, provisório agora, e o distrital misto, permanente adiante. Salientam que o distritão vai ser facilmente assimilado pela população, posto ser um modelo muito simples (inteligível).

E é mesmo. Mas, o que dizer em 2022 do distrital misto, um dos mais complexos entre os diversos modelos? (e se for na modalidade de correção, onde a vertente proporcional corrige as distorções da majoritária, como no sistema da Alemanha, que é tão louvado por suas excelências, aí sim, é o mais complexo de todos).

Ou seja, impor o distritão-tampão agora é bom porque é simples, todo mundo vai entender. Ótimo. E em 2022, quando se juntar o majoritário-distrital puro uninominal com o proporcional de lista fechada (o eleitor vota no partido, não nos candidatos, e os mais votados dos partidos é que são eleitos), formando o distrital misto, vai-se dizer o que? Esqueçam esse atributo da simplicidade?

Suas excelências deveriam parar com esses experimentos esdrúxulos e atentar para o que recomenda as Nações Unidas, no seu Manual de Concepções de Sistemas Eleitorais, p.159, in verbis: “A experiência comparativa de reformas em sistemas eleitorais, até o presente, sugere que mudanças moderadas, com base no que funciona bem nos modelos vigentes, é bem melhor do que mudança para sistemas novos e desconhecidos”.


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Maurício Costa Romão, é Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Chesf registra lucro no 1º semestre de 2017

Empresa realiza R$ 556,5 milhões em investimentos corporativos e em parcerias e apresenta EBTDA 110% maior que o mesmo período do ano anterior
A Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf) registrou lucro de R$ 370,3 milhões neste semestre. Este ano, a Chesf já realizou investimentos de R$ 556,5 milhões, desse total R$ 350,9 milhões foi na expansão do seu sistema elétrico, sendo R$ 231,6 milhões em obras do sistema de transmissão e R$ 104,9 milhões em geração de energia e R$ 14,4 milhões na infraestrutura da Companhia.

Os investimentos em parcerias somaram R$ 205,6 milhões nas Sociedades de Propósito Específico – SPE, onde a Chesf é acionista, neste semestre de 2017. A maioria dos empreendimentos, em parceria, entrou em operação ou estão em fase de conclusão, portanto, reduzindo substancialmente a necessidade de aportes de recursos, quando comparados com os desembolsos efetuados nos anos de 2015 e 2016.

Representando uma das etapas previstas no Plano Diretor de Negócios e Gestão - PDNG 2017/2021, neste semestre a Companhia lançou um Plano de Aposentadoria Extraordinária - PAE que contou com a adesão de 439 empregados, com desligamento previsto para ser realizado no segundo semestre de 2017. Este plano proporcionará, para a Companhia, uma economia anual de aproximadamente R$ 139,2 milhões, sendo um importante componente para redução dos gastos operacionais.

Ainda no âmbito do PDNG, neste semestre a Chesf iniciou o processo de transferência de algumas participações acionárias, em SPEs, de geração eólica e de transmissão, para a Eletrobras. Esta operação tem por objetivo promover a quitação de dívidas da Companhia com sua controladora, reduzindo seu grau de endividamento e consequentemente melhorando o resultado e os índices financeiros para o médio e longo prazo.

Com relação ao EBITDA (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização), este somou, no 1º semestre de 2017, o montante de R$ 509,5 milhões, contra o valor de R$ 242,4 milhões, no mesmo período do ano anterior, representando um crescimento de 110,2%.

Documentário - Conversa com Cascudo (1977)

Depoimento de Luis da Câmara Cascudo, folclorista, historiador, etnógrafo, romancista, ensaísta e pesquisador, sobre sua vida e se despertar para o estudo das festas, danças e folguedos do povo nordestino. Surpreendido em seu cotidiano, junto à família e aos amigos, cercado do canto dos pássaros e dos objetos de estimação que colecionou, Câmara Cascudo fala dos primórdios de sua carreira e de como se interessou pelas pesquisas folclóricas. Descreve o Bumba-meu-Boi, narra a história de um carreteiro-fantasma, disserta sobre a sua paixão pelo crepúsculo. As imagens visualizam tanto o dia-a-dia do escritor como documentam um grupo de Bumba-meu-boi, assinalam os hábitos alimentares que Cascudo estudou, detêm-se na narrativa da história do carreteiro e apreciam-no na sua diária contemplação do dia que morre e da noite que se inicia. 


Cepal: Brasil liderou investimento estrangeiro direto em 2016

Relatório da Cepal diz que apesar da recessão, país obteve 47% do total de pouco mais de US$ 167 bilhões; México ficou em segundo lugar, seguido por Colômbia e Chile.
Foto: Banco Mundial/Simone D. McCourtie
Edgard Júnior, da ONU News em Nova Iorque.
A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, Cepal, afirmou que o total de investimento direto estrangeiro, IED, na região chegou a US$ 167,04 bilhões em 2016. O resultado representou uma queda de quase 8% em relação ao ano anterior e de 17% se comparado a 2011.
O relatório da agência da ONU, divulgado esta quinta-feira, em Santiago, no Chile, mostrou que esses resultados são explicados pelos preços baixos das matérias-primas e seu impacto nos investimentos direcionados para o setor de recursos naturais.
Brasil
Além disso, existe o lento crescimento da atividade econômica em várias economias e pelo cenário global de sofisticação tecnológica e expansão da economia digital. Para 2017, a Cepal prevê nova queda nos IEDs, de aproximadamente 5%.
Do Chile, em entrevista à ONU News, o especialista em Assuntos Econômicos da Cepal, Wilson Peres, falou sobre as razões dessa queda.
"A queda se explica por isso: pela caída dos preços dos commodities, o mercado interno muito fraco, sobretudo nas maiores economias da região, a incerteza sobre o futuro das plataformas de explortação, que eu acho que ficará mais claro assim que o Nafta seja renegociado, e depois o fato de que a América Latina não está num bom momento em relação aos ativos estratégicos."
O relatório mostrou ainda que apesar da recessão, o Brasil foi o país que mais recebeu esse tipo de investimento, 47% do total, no ano passado.
O índice brasileiro revela um aumento dos IEDs de mais de 5% em relação a 2015, totalizando US$ 78,9 bilhões. Em segundo lugar ficou o México, com investimentos na casa dos US$ 32,1 bilhões, com uma queda de 7,9%.
Na sequência estão Colômbia e Chile. Já na América Central, especificamente, o melhor resultado ficou com o Panamá seguido pela Costa Rica. No Caribe aparecem a República Dominicana e a Jamaica, na subregião.
Países investidores
No caso dos países investidores, não houve diversificação, Estados Unidos e da União Europeia são responsáveis por 73% do total do IEDs.
Segundo a Cepal, a China é responsável por somente 1,1% do investimento estrangeiro direto na região em 2016, dado que subestimaria a presença dos capitais chineses nos países da América Latina e do Caribe.
As saídas de IED a partir dos países da América Latina e do Caribe diminuíram 50% até chegar aos US$ 24,6 bilhões.
O relatório mostra a evolução do setor automobilístico no México. Por causa dos investimentos estrangeiros diretos, o país ocupa agora a sétima posição entre os maiores produtores de veículos e o quarto exportador global.
A chefe da Cepal, Alicia Bárcena, afirmou que "o investimento estrangeiro direto tem sido fator importante para o desenvolvimento das atividades exportadoras, essenciais para o crescimento da região".

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Dez anos depois

por Michael Roberts

Decorre dez anos desde o dia do crash financeiro global que começou com a notícia de que o banco francês, BNP suspendia seus fundos de hipoteca sub-prime por causa de “uma evaporação da liquidez”.
Dentro de seis meses, o crédito apertado e as taxas de juros interbancárias dispararam (ver gráfico acima). Bancos em todo o mundo começaram a experimentar grandes perdas sobre os fundos de derivativos que tinham criado para lucrar com o boom imobiliário que decolou nos EUA, mas tinha começado a vacilar. E os EUA e o mundo entrou no que mais tarde foi chamado de Grande Recessão, a pior queda na produção mundial e do comércio desde os anos 1930.
Dez anos mais tarde, vale a pena lembrar-nos de algumas das lições e implicações desse terremoto econômico.
Em primeiro lugar, as instituições oficiais e economistas nunca viram isso acontecer. Em 2002, o chefe do Federal Reserve Bank, Alan Greenspan, então apelidado como o grande maestro para, aparentemente, engenharia de um boom econômico substancial, anunciou que os derivados, ou seja, 'inovações financeiras' de fundos de hipoteca etc, tinham 'risco diversificado', para que“choques econômicos globais serão melhor absorvidos e menos propensos a criar falhas em cascata que poderiam ameaçar a estabilidade financeira”. Ben Bernanke, que, eventualmente, presidiu a Fed sobre a crise financeira global, observou em 2004 que “nas últimas duas décadas tinha visto uma redução acentuada na volatilidade econômica” que ele apelidou como o Grande Moderação. E tão tarde quanto outubro de 2007, o FMI concluiu que “nas economias avançadas, as recessões econômicas praticamente desapareceram no período pós-guerra”.
Uma vez que a profundidade da crise foi revelada em 2008, Greenspan disse ao Congresso dos Estados Unidos, “Eu estou em um estado de descrença chocado”. Ele foi interrogado “em outras palavras, você descobriu que sua visão do mundo, a sua ideologia, não estava certa, não estava funcionando” (Casa Comitê de Supervisão Presidente, Henry Waxman).“Absolutamente, precisamente, você sabe que é precisamente a razão pela qual eu fiquei chocado, porque eu ter sido indo para 40 anos ou mais com evidências muito consideráveis de que isso estava funcionando excepcionalmente bem”.
Os grandes economistas do mainstream não foram melhor. Quando perguntado o que causou a Grande Recessão se não fosse uma bolha de crédito que explodiu, ganhador do Prêmio Nobel e superior economista neoclássico Chicago Eugene Famarespondeu: “Nós não sabemos o que provoca recessões. Eu não sou um macroeconomist, então eu não me sinto mal sobre isso. Nós nunca conheceu. Debates ir até hoje sobre o que causou a Grande Depressão. A economia não é muito bom em explicar oscilações na atividade econômica ... Se eu pudesse ter previsto a crise, eu teria. Eu não vê-lo. Eu adoraria saber mais o que faz com que os ciclos de negócios.”
Logo para ser FMI economista-chefe, Olivier Blanchard, comentou, em retrospectiva, que “A crise financeira levanta uma crise potencialmente existencial para a macroeconomia.” ...alguns fundamentais [neoclássico] suposições estão sendo desafiados, por exemplo, a separação clara entre os ciclos etendências”ou“ ferramentas econométricas, com base em uma visão do mundo como sendo estacionário em torno de uma tendência, estão sendo desafiados.”
Mas, então, a maioria dos economistas heterodoxos chamados, inclusive marxistas, não viu o acidente e o que se seguiu Grande Recessão vindo também. Havia algumas exceções: Steve Keen, o economista australiano prever um acidente de crédito com base em sua teoria de que “o elemento essencial dando origem a depressão é a acumulação de dívida privada” e que nunca tinha sido maior em 2007 nas principais economias. Em 2003, Anwar Shaikh contado a desaceleração da rentabilidade do capital e do downwave do investimento foi levando a uma nova depressão. E sinceramente, em 2005, disse: “Não houve tal coincidência de ciclos desde 1991. E desta vez (ao contrário de 1991), será acompanhado pelo downwave da rentabilidade dentro do downwave em Kondratiev ciclo de preços. É tudo na parte inferior da colina em 2009-2010! Isso sugere que podemos esperar uma crise econômica muito grave de um grau nunca visto desde 1980-2 ou mais”( A Grande Recessão ).
Quanto às causas da crise financeira mundial e da consequente grande recessão, eles foram analisados ad nauseam desde então. A economia ortodoxa não viu o acidente vindo e foram totalmente perplexo para explicá-lo depois. O acidente foi claramente financeira em forma: com o colapso de bancos e outras instituições financeiras e as armas de destruição financeira maciça, para usar a agora famosa frase de Warren Buffett, o mais bem sucedido investidor do mercado de ações do mundo. Mas muitos caiu sobre a teoria do acaso, um evento que era uma em um bilhão; 'cisne negro' como Nassim Taleb reivindicado.
Alternativamente, o capitalismo era inerentemente instável e quedas ocasionais eram inevitáveis. Greenspan tomou esta opinião: “Não sei de nenhuma forma de organização econômica baseada na divisão do trabalho (ele se refere à visão de Smith de uma economia capitalista), do laisser-faire irrestrito ao planejamento central opressivo que conseguiu atingir tanto máximo sustentável o crescimento económico ea estabilidade permanente. O planejamento central certamente falhou e eu duvido muito que a estabilidade é viável nas economias capitalistas, dadas as mercados competitivos sempre turbulentas sendo continuamente atraído, mas nunca conseguindo equilíbrio”. Ele continuou, “a menos que haja uma escolha da sociedade a abandonar mercados dinâmicos e alavancagem para alguma forma de planejamento central, temo que as bolhas impedindo irá, no final, acabam por ser inviável. Assuaging o rescaldo é tudo o que podemos esperar.”
A maioria dos líderes econômicos oficiais como Blanchard eBernanke viu apenas os fenômenos de superfície do crash financeiro e concluiu que a Grande Recessão foi o resultado de imprudência financeira pelos bancos não regulamentados ou um 'pânico financeiro'. Isso coincidiu com algumas opiniões heterodoxas com base nas teorias de Hyman Minsky, economista keynesiano radical da década de 1980, que o setor financeiro era inerentemente instável porque “o sistema financeiro necessário para a vitalidade e vigor capitalista, que se traduz espíritos animais empreendedoras para investimento demanda efetiva, contém o potencial para a expansão descontrolada, alimentado por um boom de investimento. Steve Keen, um seguidor de Minsky colocá-lo assim: “o capitalismo é inerentemente defeituoso, sendo propenso a crescimentos, crises e depressões. Esta instabilidade, na minha opinião, é devido às características que o sistema financeiro deve possuir se é para ser coerente com o capitalismo full-blown.”A maioria dos marxistas aceito algo semelhante à vista Minskyite, vendo a grande recessão como resultado da 'financeirização "criandouma nova forma de fragilidade no capitalismo .
Dos keynesianos tradicionais, Paul Krugman protestou contra falhas da escola neoclássica, mas não ofereceu nenhuma explicação si mesmo, exceto que ele era um 'problema técnico'que precisava e poderia ser corrigido através da restauração 'demanda efetiva'.
Muito poucos economistas marxistas olhou para a exibição original de Marx sobre as causas dos acidentes comerciais e financeiras e recessões que se seguiram na produção. Um desses foi G Carchedi, que resumiu essa visão em seu excelente, mas muitas vezes ignorado por trás da crise com: ““O ponto básico é que as crises financeiras são causadas pela base produtiva encolhimento da economia. Um ponto é, assim, alcançado em que tem que haver uma deflação súbita e massiva nos sectores financeiros e especulativos. Mesmo que parece que a crise foi gerada nestes sectores, a causa final reside na esfera produtiva ea queda da taxa de atendimento de lucro neste domínio.”Concordando com essa explicação, t ele melhor livro sobre o acidente é que por Paul Mattick Jnr, Business as usual.
E, de fato, a rentabilidade dos setores produtivos das grandes economias capitalistas foi baixa historicamente em 2007, como vários estudos têm mostrado. Nos EUA, a rentabilidade atingiu o pico em 1997 e o aumento da rentabilidade no boom de crédito de 2002-6 foi esmagadoramente nos sectores financeiro e imobiliário. Isso encorajou um enorme aumento no capital fictício(ações e dívida), que não poderia ser justifica por melhoria suficiente em lucros de investimentos produtivos.
A massa de lucro começaram a cair nos EUA em 2006, mais de um ano antes da crise de crédito atingiu em agosto de 2007. Oslucros A queda significou sobre-acumulação de capital e, portanto, uma redução acentuada do investimento. A queda na produção, emprego e renda, seguido ou seja, a Grande Recessão.
Desde o final de que a recessão em meados de 2009, a maioria das economias capitalistas têm experimentado uma recuperação muito fraca, muito mais fraca do que após recessões do pós-guerra anteriores e de certa forma ainda mais fraca do que na década de 1930. Um relatório recente do Instituto Roosevelt por JW Mason descobriu que “não há nenhum precedente para a fraqueza do investimento no ciclo atual. Quase dez anos depois, as despesas de investimento real permanece menos de 10 por cento acima do seu pico de 2007. Esta é lenta, mesmo em relação ao ritmo anêmico do crescimento do PIB, e extremamente baixo em termos históricos ".
Então a grande recessão tornou-se a Longa Depressão, como eu descrevi , um termo adotado também por muitos outros, incluindo economistas keynesianos, como Paul Krugman e Simon Wren-Lewis. Por que a Grande Recessão não levar a uma recuperação econômica 'normal' para taxas de investimento e de produção anteriores? Os economistas da escola monetarista argumentam que governos e bancos centrais eram lentos em cortar as taxas de juros e adotar ferramentas monetárias 'não convencionais', como flexibilização quantitativa. Mas quando o fizeram, essas políticas parecia ter falhado em reviver a economia e apenas alimentou um novo mercado de ações e dívida de boom.
A escola neoclássica reconhece que a dívida deve ser cortado para trás, uma vez que pesa sobre a capacidade das empresas para investir, enquanto os governos 'expulsar' de crédito por causa de seus elevados níveis de endividamento. Este ignorou a razão de dívida pública elevada, ou seja, o enorme custo de salvar bancos a nível mundial e a queda das receitas fiscais da recessão. Em oposição, os keynesianos dizem que a Longa Depressão era tudo devido a 'austeridade', ou seja governos que tentam reduzir os gastos do governo e orçamentos de equilíbrio. Mas a evidência para essa conclusão não é convincente.
O que os pontos de vista neoclássicos, keynesianos e heterodoxos têm em comum é uma negação de qualquer papel para o lucro e a rentabilidade nos booms e quedas no capitalismo! Como resultado, nenhum procura uma explicação para o baixo investimento na baixa rentabilidade. E ainda a correlação entre o lucro e o investimento é alto e continuamente confirmada e a rentabilidade na maioria das economias capitalistas ainda é menor do que em 2007.
Depois de dez anos, decididamente muito tempo, se muito fraca, a fase de recuperação econômica no 'ciclo de negócios', estamos indo para outra recessão em breve? História sugeriria isso. Não vai ser desencadeada por uma outra queda de propriedade, na minha opinião. Os preços dos imóveis na maioria dos países ainda não se recuperaram aos níveis de 2007 e, embora as taxas de juros estejam baixas, os níveis de transação e de habitação são modestos.
O novo gatilho é provável que seja no próprio setor corporativo. A dívida corporativa tem continuado a aumentar globalmente, especialmente nas chamadas economias emergentes. Apesar das taxas de juro baixas, uma parte significativa das empresas mais fracas estão mal capaz de pagar as suas dívidas. S&P Capital IQ observou que um estoque recorde de US $ 1.84trn em dinheiro realizada por empresas americanas não financeiras mascarando uma dívida $ 6.6trn. A concentração de dinheiro dos 25 titulares, o que representa 1% das empresas, agora responde por mais da metade da pilha global de dinheiro. Isso é acima de 38% há cinco anos. A grande conversa sobre os hegemoths como Apple, Microsoft, Amazon com reservas de caixa de mega esconde a imagem real para a maioria das empresas.
As margens de lucro global estão escorregando e nos lucros das empresas não-financeiras dos EUA vêm caindo.
E os bancos centrais agora, começando com a Reserva Federal dos EUA, começaram a reverter 'quantitative easing' e aumentar as taxas de juro de política. O custo dos empréstimos e serviço da dívida existente vai subir, apenas no momento em que a rentabilidade é a sinalização.
Isso é uma receita para uma nova queda - dez anos após a última em 2008?

Jacob do Bandolim vol. 2

A Revolução 4.0, a Inteligência Artificial e os Robôs sapiens

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“Sábio é aquele que conhece os limites da própria ignorância”
Sócrates

taxa de crescimento da produtividade total dos EUA (% ao ano)

O segredo das revoluções industriais da modernidade é o aumento da produtividade, isto é, o aumento da unidade produzida por trabalhador ou o aumento do Produto Interno Bruto (PIB) por habitante. Entre 1776 e 2014 o crescimento da população mundial foi de quase 9 vezes (de cerca de 850 milhões para 7,3 bilhões de habitantes), enquanto o crescimento do PIB global ficou em torno de 120 vezes, segundo cálculos de Angus Maddison. O banquete cresceu mais do que o número de comensais. O aumento da renda per capita foi de, aproximadamente, 13 vezes.
Ou seja, sem considerar as desigualdades históricas da renda e da propriedade, cada habitante do Planeta tinha, em média, em 2014, um pedaço do PIB 13 vezes maior do que o habitante de 1776. Isto só foi possível por que a produtividade da população aumentou 1,9% ao ano, em média, no período de 238 anos. Mas o crescimento da produtividade não foi uniforme, pois houve períodos de baixa – como entre as duas grandes guerras entre 1914 e 1945 – e houve a época de maior prosperidade da história humana, que foi entre 1945 e 1973, período conhecido como os “30 anos de ouro” do desenvolvimento global.
Nos últimos 70 anos, as melhorias na qualidade de vida da população mundial foram impressionantes, quaisquer que sejam os indicadores utilizados: tais como esperança de vida ao nascer, mortalidade infantil, redução da fome e da desnutrição, redução do analfabetismo, percentagem de jovens cursando o segundo grau, garantia da moradia, padrão de consumo, acesso à informação, dentre outros.

O estancamento da produtividade e estagnação secular

Contudo, a produtividade caiu na década de 1980, voltou a subir ligeiramente na década de 1990, declinou novamente nos anos 2000 e atingiu os níveis mais baixos a partir da crise financeira global de 2008. O gráfico acima, de artigo do economista e editor Martin Wolf (21/07/2017) e com base nos trabalhos de Robert Gordon, mostra que a produtividade total dos Estados Unidos (EUA), entre 2004 e 2014 é a mais baixa desde o final do século XIX.
Olhando apenas pelo lado dos seres humanos (e sem considerar o empobrecimento do meio ambiente) as três primeiras revoluções urbano-industriais foram um sucesso. O desenvolvimento econômico e social ocorreu de forma desigual e combinada, mas trouxe muita abundância nas economias avançadas e conseguiu reduzir a pobreza extrema e a fome, pelo menos, para os níveis propostos nos Objetivos do Desenvolvimento do Milênio. Contudo, nota-se uma estagnação na última década, justamente quando se anuncia uma nova Era de progresso científico e tecnológico.
Até agora, a 4ª Revolução Industrial tem feito muito barulho por quase nada. A produtividade está estacionada em níveis baixos, enquanto crescem os sinais de descontentamento. O gráfico abaixo mostra que, mesmo nas economias mais desenvolvidas, a proporção de famílias com renda real estagnada ou em queda, entre 2005 e 2012-14, atinge quase 100% na Itália, cerca de 80% nos EUA e mais de 60% na média das 25 economias mais avançadas.

proporção de famílias com renda real estagnada ou em queda em relação a salarios e capital

O baixo crescimento atual só não está pior porque os governos assumiram dívidas monstruosas depois da crise de 2008. Em vez de uma grande decolagem o que pode ocorrer ainda esse ano, ou no ano que vem, é uma grande aterrissagem forçada e uma nova crise financeira de grandes proporções.

A Quarta Revolução Industrial vai gerar abundância ou controle corporativo e militar?

Por isto, cabem as perguntas: será que a economia internacional está condenada à nova crise e à “estagnação secular” ou a 4ª Revolução Industrial vai aumentar a produtividade e criar um mundo de abundância e de felicidade? Será que os robôs e a Inteligência Artificial (IA) vão revolucionar o processo produtivo, ampliar o leque de bens e serviços e transformar para melhor as formas de convívio social ou vão aumentar as desigualdades e favorecer a uma elite?
A Revolução 4.0 tem sido questionada em algumas de suas maiores promessas tecnológicas. Duas personalidades mundiais têm alertado para os perigos da união entre robôs e IA: o empreendedor (de nacionalidade sul-africana), Elon Musk, e o físico inglês, Stephen Hawking. Ambos consideram que a Inteligência Artificial sem controle é uma ameaça ao processo civilizatório e poderia significar o fim da raça humana. Eles consideram que os humanos, limitados, física e biologicamente, não teriam condições de competir com robôs inteligentes e autônomos que poderiam ser reprogramar e atingir níveis inimagináveis de inteligência.
Os robôs invasivos já são realidade na área militar, no telemarketing e na propagação de notícias falsas (“fake news”). Artigo de Helton Gomes (27/07/2017) mostra que cientistas já usam Inteligência Artificial para colocar palavras na boca de alguém. Pesquisadores da Universidade de Washington (EUA) criaram um vídeo falso de Obama, em projeto patrocinado por Samsung, Google, Facebook e Intel, com algoritmo que manipula palavras da própria pessoa em contextos diferentes para criar situação embaraçosa. O robô cibernético cria uma imagem que tenha a cara do sujeito, se expresse como ele, fale como ele, mas seja totalmente falsa.
Por conta de tudo isto, um número muito grande de estudiosos da ciência e tecnologia assinaram uma carta aberta pedindo que os governos mundiais proíbam o desenvolvimento de “armas autônomas ofensivas” para impedir uma “corrida armamentista militar de Inteligência Artificial”. A carta apresentada na Conferência Conjunta Internacional sobre Inteligência Artificial (IJCAI, sigla em inglês), ocorrida em Buenos Aires, em 2015, foi assinada por Stephen Hawking, Elon Musk, Noam Chomsky, além de dezenas de outros pesquisadores de robótica e IA (ver link no final).
Recentemente, Musk foi criticado e criticou o CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, que tem uma visão mais condescendente com a IA do que outros. Os críticos dizem que parece que ele tem intenção de utilizar a Inteligência Artificial para aumentar o seu poder corporativo digital sobre grande parte do mundo. (Brown, 25/07/2017 e Newitz, 25/07/2017). As disputas atuais pelo desenvolvimento da Inteligência Artificial refletem, de certa forma, a luta histórica pela apropriação do saber e a disputa pelo controle da autoinstrução. O Facebook já lançou o “ChatBot”, ou robô de conversação, que é uma tecnologia capaz de simular diálogos com seres humanos por meio de uma série de comando pré-definidos, mas que com a IA vai ter usos mais ampliados.

A luta pelo conhecimento: os dramas de Lúcifer e Prometeu

A luta pelo conhecimento faz parte da história da humanidade e compõe as páginas mais impactantes da mitologia e da religião. Na representação grega, Prometeu enganou os deuses do Olimpo e roubou o fogo da sabedoria para repassar aos humanos. Como castigo, Zeus condenou Prometeu a viver acorrentado a uma rocha, enquanto uma águia comia repetidamente o seu fígado, que se regenerava diariamente. Embora castigado, Prometeu serviu de inspiração para a rebeldia humana e para o desejo de conhecer os segredos do mundo e dominar as leis da natureza. Desta forma, as revoluções industriais são devedoras da ousadia de Prometeu.
A luta pelo controle do conhecimento não é menos dramática na narrativa judaico-cristã. Segundo John Milton, no excepcional poema épico, “Paraíso Perdido”, de 1667, Lúcifer (o portador da luz) liderou uma rebelião pela posse do conhecimento e do poder da criação, recusando a se submeter a Deus e ao seu Filho, alegando que os anjos foram autogerados e que não reconheciam o poder Divino Monárquico. É famosa a sua frase: “Melhor reinar no Inferno do que obedecer no Céu”.
No comando do inferno e com o nome de Satanás, Lúcifer e os demônios (anjos caídos) decidem corromper a mais nova espécie do Jardim do Éden. Adão, criado à imagem de Deus, e sua esposa Eva, constituíam uma espécie superior em relação as demais criaturas do Paraíso. Satanás, incapaz de vencer as Hostes Celestiais, resolve, então, seduzir Eva e, por meio dela, fazer Adão comer o fruto da Árvore do conhecimento. Desta forma, Adão e Eva são expulsos do Paraíso por terem ousado provar o conhecimento da Árvore proibida.
Portanto, o desejo de controlar o conhecimento é a força que explica o desenrolar das tragédias de Prometeu e de Adão e Eva. Na interpretação de Auguste Comte, a humanidade teve que passar por vários estágios até evoluir para formas superiores de conhecimento. No primeiro, o teológico, os fenômenos seriam explicados pela interferência das ações divinas; no segundo, o metafísico, prevaleceria a reflexão sobre o significado abstrato das coisas; no terceiro, estado positivo, as explicações sobre o mundo natural e social seriam frutos da observação dos fenômenos reais e da dedução das leis universais da natureza, por meio do método racional e científico. A Revolução 4.0 vai possibilitar a passagem do fogo prometeico (conhecimento) para as máquinas?

As revoluções industriais e o avanço científico e tecnológico

O positivismo de Auguste Comte (“Amor, Ordem e Progresso”) se tornou uma ideologia que serviu ao processo de acumulação de capital e é um dos componentes do sucesso das sucessivas Revoluções Industriais. Como mostraram os dados apresentados anteriormente, o sucesso do progresso econômico nos últimos 240 anos foi gigantesco, embora ele tenha sido erguido sobre uma base natural cada vez mais desrespeitada e empobrecida.
A Revolução 4.0 surge com a promessa de radicalizar os ganhos da ciência e da tecnologia. Na concepção de Klaus Schwab as inovações em curso incluem, veículos elétricos e autônomos, internet das coisas, impressão 3D, nanotecnologia, biotecnologia, armazenamento de energia, computação quântica, robótica e inteligência artificial. Tudo isto realizado de maneira mais acelerada, mais profunda, com maior impacto e com maior interação entre os domínios físicos, digitais e biológicos.
A união entre Robôs e a Inteligência Artificial promete ser a ponta de lança da Revolução 4.0. Os robôs inteligentes fariam todo o trabalho e ainda seriam responsáveis por novas invenções e descobertas. Segundo Ray Kurzweil, no livro “The Singularity is Near” (2005), o mundo se aproxima da Singularidade tecnológica, o que seria um crescimento exponencial do conhecimento e um desenvolvimento desenfreado da superinteligência artificial.
Os cérebros cibernéticos dos robôs (redes neurais artificiais) estariam mais bem preparados para essa nova Era da inteligência sem limites. A referência é o “Teste de Turing” (capacidade de uma máquina exibir comportamento inteligente equivalente a um ser humano). Na escola dos robôs inteligentes seria ensinado a aprendizagem profunda (“Deep Learning”) ou aprendizagem estruturada profunda, baseada em um conjunto de algoritmos para modelar o Big Data por meio de equações matemáticas e transformações lineares e não lineares. Robôs com memória ilimitada e capacidade cognitiva se tornariam quase uma nova “raça”: seriam os robôs sapiens!
O perigo da criação dos robôs sapiens é a humanidade perder sua posição privilegiada de único “animal racional” do Planeta (e quem sabe do Universo). O pesadelo humano seria os robôs inteligentes, com capacidade de autoprogramação e autoconhecimento se rebelar contra os seus criadores e repetir a insubordinação de Lúcifer e Prometeu.

Os Robôs sapiens

Se os robôs sapiens (com capacidade cognitiva) ficarem mais efetivos do que os humanos, a humanidade se tornaria uma casta inferior. Diversos críticos, como Francis Fukuyama, expressam preocupação com o fato de o desenvolvimento tecnológico desenfreado poder minar a dignidade humana.
A revolução digital, a Internet das Coisas e o Big Data prometem grandes benefícios universais e um aprofundamento dos ideais iluministas, mas podem funcionar como o Big Brother do romance, 1984, de George Orwell. Em vez de ampliar a chama do fogo prometeico e expandir a liberdade e o autodomínio, pode haver, simplesmente dependência e escravidão digital e social.
Segundo o grande filósofo alemão Immanuel Kant (1985): “A ilustração é a saída do ser humano de sua menoridade, da qual é o próprio culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir de seu entendimento sem a direção de outrem. A pessoa é culpada por essa menoridade quando sua causa não reside numa deficiência intelectual, mas na falta de decisão e de coragem de usar a razão sem a tutela alheia. Sapere aude! Ousa servir-te de tua razão! Eis a divisa do Iluminismo”.
No mundo regido pela robótica e a Inteligência Artificial a sabedoria humana estará aquém da capacidade de resposta da rede neural digital. Parafraseando Kant: “Sapere aude robôs sapiens! Eis a divisa da Inteligência Artificial”.

Utopia ou distopia?

Assim, a Revolução 4.0, os Robôs e a Inteligência Artificial podem não entregar tudo que prometem e podem fracassar, ao não conseguir elevar a produtividade total da economia, gerando apenas mais desigualdade de renda, mais exclusão social e mais controle por parte das grandes corporações. Porém, até mesmo o sucesso da Inteligência Artificial, na perspectiva da Revolução 4.0, pode significar um reverso para a humanidade, pois poderia impor diversos dilemas éticos de difícil resolução, além de tornar a inteligência humana uma coisa limitada, deficiente e ultrapassada.
De fato, o mundo passa por mudanças disruptivas e a involução relativa dos seres humanos não está descartada. A questão é saber se os benefícios vão superar os custos, se a maioria da população vai ser beneficiada e quem vai pagar a conta pelas mudanças aceleradas que vão mexer com os padrões de produção e consumo e o modo de vida de toda a população mundial. Também não está claro até que ponto tudo isto vai afetar o meio ambiente.
No pior cenário, a Revolução 4.0 pode ser um fracasso e pode não cumprir suas promessas de garantir autonomia e uma saudável qualidade de vida humana e ambiental. No pior dos piores cenários seria a indústria de guerra construir robôs sapiens assassinos para viabilizar as vitórias militares e a dominação dos fortes contra os fracos.
No caso de “sucesso” dos autômatos sapiens, o poder irrestrito da robótica com a Inteligência Artificial poderia vir não para o bem e para a libertação, mas para o mal (guerras, escravidão digital, etc.) e como heteronomia e servidão voluntária. Ao fim e ao cabo, a 4ª Revolução Industrial, em vez de aumentar o farto repasto para os bilhões de humanos, pode, simplesmente, estar alimentando o germe de uma ameaça à própria existência da humanidade.
Referências:
ALVES, JED. Inteligência artificial: ameaça à civilização, Colabora, RJ, 02/08/2017

KANT, E. Que és la ilustración? In: ÍMAZ, Eugenio (Org.) Filosofia de la historia. México:
Fondo de Cultura Económica, 1985. p. 25-38.

John Milton. Paraíso Perdido, eBooks Brasil, Rio de Janeiro, 1956

Ray Kurzweil, The Singularity is Near, Penguin Group, 2005
Martin Wolf. Entenda em 7 gráficos as grandes transformações na economia global, Folha de São Paulo, 21/07/2017

Mike Brown. Elon Musk Slams Mark Zuckerberg’s ‘Limited’ Understanding of A.I., Inverse, 25/07/2017

Annalee Newitz. Zuckerberg and Musk are both wrong about AI, 25/07/2017

Ian Bogost. Why Zuckerberg and Musk Are Fighting About the Robot Future, The Atlantic, 27/07/2017

Helton Simões Gomes. Cientistas usam inteligência artificial para ‘colocar palavras’ na boca de alguém, G1, 27/07/2017

AUTONOMOUS WEAPONS: AN OPEN LETTER FROM AI & ROBOTICS RESEARCHERS, 28/07/2015


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 09/08/2017

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Por que os democratas iliberais são populares?

Por Daniel Gros
O surgimento da "democracia iliberal" na Europa é uma das tendências mais dolorosas do nosso tempo. Esses regimes são tipicamente centrados em um líder que concentra o poder ao substituir - e em alguns casos eliminar - verificações e saldos institucionais. O russo Vladimir Putin, o turco Recep Tayyip Erdoğan e o húngaro Viktor Orbán representam três das manifestações mais visíveis desse fenômeno. Mas o que é realmente notável - e perigoso - é como esses regimes conseguiram manter o apoio popular.
Daniel GrosO controle sobre a mídia tradicional, como televisão, rádio e jornais, é, claro, uma razão pela qual esses regimes mantêm suas maiorias eleitorais. Mas a manipulação, ou mesmo o controle absoluto, da mídia não pode explicar a popularidade persistente, confirmada por pesquisas de opinião, de líderes ilibórios.
O principal motivo para o sucesso político desses líderes é que esses regimes, apesar de se posicionarem como anti-ocidentais, seguiram o chamado Consenso de Washington, que prescreve políticas macroeconômicas prudentes e mercados abertos.
A Rússia sob Putin é o criador de cartazes para essa abordagem, com o governo geralmente executando superávits orçamentários e acumulando vastas reservas cambiais. A Hungria também seguiu uma política fiscal prudente sob Orbán; E Erdoğan fez o mesmo na Turquia desde que chegou ao poder. A dívida pública nos três países já é baixa ou (como na Hungria) está em declínio. Em dois desses três casos, os predecessores liberais do regime perderam credibilidade porque levaram o país a uma crise financeira.
Os homens fortes do Illiberal aceitaram, no entanto, a base do Consenso de Washington - que as políticas macroeconômicas prudentes produzem um melhor desempenho econômico a longo prazo - e geralmente delegaram o gerenciamento macroeconômico a especialistas apolíticos. Eles resistiram à tentação de usar estímulos fiscais ou monetários de curto prazo para aumentar sua popularidade, dependendo, em vez disso, de políticas de identidade para manter o domínio eleitoral. O resultado de longo prazo tem sido um desempenho econômico relativamente sólido - e eleitores relativamente satisfeitos.
Isso contrasta fortemente com a abordagem de, digamos, o vitorioso líder venezuelano, Hugo Chávez, que manteve o apoio popular por 14 anos, gastando o produto de um longo aumento do preço do petróleo em generosos programas sociais. Agora, com os preços do petróleo baixados em cerca de metade desde 2014 - e nenhuma almofada fiscal no lugar para sustentar as importações - o sucessor de Chávez, Nicolás Maduro, está enfrentando uma crise econômica catastrófica e a crescente agitação popular.
As políticas prudentes equivalem, assim, a uma estratégia eficiente a longo prazo para a preservação do regime. Os homens fortes ilibórios da Europa reconheceram que, se os gastos excessivos levam a uma crise financeira e à necessidade de buscar assistência do Fundo Monetário Internacional, seus dias no poder serão numerados.
As políticas macroeconômicas prudentes apoiam o crescimento, mas só podem funcionar se a economia permanecer relativamente livre. Até agora, nem Putin nem Erdoğan compararam sua retórica nacionalista com políticas protecionistas. Pelo contrário, a Rússia de Putin se juntou à Organização Mundial do Comércio; e Erdoğan nunca questionou a união aduaneira da Turquia com a União Européia, mesmo que as relações bilaterais com a UE tenham passado de pior a pior.
O desafio a mais longo prazo para os homens fortes é manter seus regimes políticos ilibórios economicamente liberais. Ao longo do tempo, a tentação de entregar o controle de uma parcela crescente da economia para amigos e familiares torna-se mais forte, e a corrupção tende a aumentar, já que o principal jogo na cidade se torna o desenvolvimento de conexões políticas e favorecendo o regime. Quando isso acontece, o crescimento deve diminuir.
Esta ameaça de longo prazo é agora mais evidente na Rússia. Putin chegou ao poder em um momento em que os preços do petróleo começaram a subir de uma baixa histórica. Portanto, não era surpreendente que a Rússia pudesse crescer fortemente durante o super ciclo, que acabou apenas recentemente. A gestão macroeconômica durante o boom do preço do petróleo foi prudente o suficiente para permitir que o regime resista à recente queda nos preços do petróleo.
Mas agora, quase três anos após o fim do super ciclo da commodity, a perspectiva para a Rússia é sombria. Os padrões de vida estagnaram; e a taxa de crescimento potencial da economia é amplamente estimada em apenas 1,5% - um nível que implica que a Rússia permanecerá permanentemente mais pobre que o resto da Europa.
A Turquia pode ter alcançado um ponto de viragem semelhante. O Partido da Justiça e do Desenvolvimento de Erdoğan (AKP) herdou uma economia que se recuperou de uma profunda crise financeira e teve potencial de crescimento substancial, devido à urbanização em curso e ganhos no nível educacional da população.
Até recentemente, o governo do AKP limitava sua interferência ao lado doméstico da economia, como as compras governamentais e as despesas de infraestrutura.Mas, após o golpe militar frustrado do ano passado, o regime se capacitou para aproveitar as empresas de propriedade dos acusados ​​de simpatizar com o chamado movimento Gülenist, que Erdoğan acusa de ter planejado a tentativa de golpe.
Centenas de empresas já foram apreendidas e colocadas sob a administração dos estreitos associados de Erdoğan. Se isso continuar, os empresários deixarão de investir e o crescimento vai diminuir. O problema é que, uma vez que um regime iliberal tenha iniciado este caminho, não pode facilmente restabelecer um compromisso credível de respeitar os direitos de propriedade, porque as instituições que asseguram isso em democracias liberais, como um sistema judicial independente e um serviço público profissional, não mais existir.
Os homens fortes europeus de hoje mantiveram o apoio popular, mantendo a relativa liberdade econômica de que depende a prosperidade a longo prazo. Mas, à medida que esses regimes se tornam cada vez mais autoritários, sua capacidade de manter os eleitores felizes é cada vez mais duvidosa.

Daniel Gros é Diretor do Centro de Estudos Políticos Europeus em Bruxelas.