"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

País da Lava jato - música

País da Lava jato

A pátria do futuro
Diante da Televisão
Aguardando a cada dia
Uma nova delação.

O futuro que hesita em chegar, 
A nação não agüenta esperar,
Zomba de si mesma,
Vive atônica a procurar solução.

Na TV o herói é acusado,
Do dia para a noite vira ladrão.
Os mosquitos são mais fortes
Do que as corporações.

Os mosquitos são mais fortes
Do que as corporações.
O presente da nação
Não cabe numa delação.

O Perigo do Especialista

O especialista serve-nos para concretizar energicamente a espécie e fazer ver todo o radicalismo da sua novidade. Porque outrora os homens podiam dividir-se, simplesmente, em sábios e ignorantes, em mais ou menos sábios e mais ou menos ignorantes. Mas o especialista não pode ser submetido a nenhuma destas duas categorias. Não é um sábio, porque ignora formalmente o que não entra na sua especialidade; mas tampouco é um ignorante, porque é «um homem de ciência» e conhece muito bem a sua fracção de universo. Devemos dizer que é um sábio ignorante, coisa sobremodo grave, pois significa que é um senhor que se comportará em todas as questões que ignora, não como um ignorante, mas com toda a petulância de quem na sua questão especial é um sábio. 

E, com efeito, este é o comportamento do especialista. Em política, em arte, nos usos sociais, nas outras ciências tomará posições de primitivo, e ignorantíssimo; mas tomará essas posições com energia e suficiência, sem admitir – e isto é o paradoxal – especialistas dessas coisas. Ao especializá-lo a civilização tornou-o hermético e satisfeito dentro da sua limitação; mas essa mesma sensação íntima de domínio e valia vai levá-lo a querer predominar fora da sua especialidade. E a consequência é que, ainda neste caso, que representa um maximum de homem qualificado – especialismo – e, portanto, o mais oposto ao homem-massa, o resultado é que se comportará sem qualificação e como homem-massa em quase todas as esferas da vida. 

A advertência não é vaga. Quem quiser pode observar a estupidez com que pensam, julgam e actuam hoje na política, na arte, na religião e nos problemas gerais da vida e do mundo os «homens de ciência», e é claro, depois deles, médicos, engenheiros, financeiros, professores, etc. Essa condição de «não ouvir», de não se submeter a instâncias superiores que reiteradamente apresentei como característica do homem-massa, chega ao cúmulo nesses homens parcialmente qualificados. Eles simbolizam, e em grande parte constituem o império actual das massas, e a sua barbárie é a causa mais imediata da desmoralização europeia. 

Ortega y Gasset, in 'A Rebelião das Massas'

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Rogério Marinho: “Ação do MPT contra Pró-Sertão é desastrosa, contrária ao RN e afronta a lei”

Um dos maiores projetos de desenvolvimento econômico já criados no Rio Grande do Norte está ameaçado. O Programa de Industrialização do Interior (Pró-Sertão), responsável pela geração de quase 3 mil empregos em pequenas cidades do Estado é o alvo principal de uma ação movida pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) contra a empresa Guararapes, gigante do setor têxtil que tem capitaneado o projeto desde a sua implantação em 2013. Na Justiça, o MPT pede que seja aplicada uma multa de R$ 38 milhões no grupo empresarial.

“A postura do MPT, representado pela procuradora Ileana Neiva, é claramente doutrinária, ideológica, e está ultrapassando o seu limite como órgão fiscalizador da legislação trabalhista”, disse o parlamentar, criador do Pró-Sertão durante sua passagem pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Rio Grande do Norte. “A ação do MPT visa multar a Guararapes, que é uma empresa com décadas de atuação no RN, por levar emprego para dezenas de municípios que só tinham como alternativa de renda a previdência social, o Bolsa Família e os salários pagos pela Prefeitura”, disse.

De acordo com Rogério, o processo movido pelo MPT é “desastroso, contrário à economia do RN e ainda afronta a lei, porque a terceirização já foi aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada pelo Executivo desde março deste ano. Não é possível que, em um momento grave como o atual, de crise econômica e desemprego, o MPT atue dessa forma”.

Segundo o deputado, o que está ocorrendo é um “atentado contra o RN e deve ser repudiado por toda a sociedade. A ação do MPT coloca o Estado em uma situação vexatória. Vivemos em um ambiente hostil, onde se encara o empreendedor como um inimigo, como se não bastasse a alta carga tributária do nosso país, a falta total de logística, não temos ferrovias ou um porto adequado. E ainda essa postura agressiva, irracional, baseada em questões ideológicas, doutrinárias, de quem interpreta a lei de uma forma peculiar”.


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Assessoria de imprensa - Rogério Marinho

Distribuição espacial da transição religiosa no Brasil


Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

Eu seria cristão, sem dúvida, se os cristãos o fossem vinte e quatro horas por dia”
Mahatma Gandhi

razão de evangélicos sobre católicos (por 100) para os municípios brasileiros, 2000

A população brasileira vive uma grande transformação no seu perfil religioso. Por um lado, há um aumento da pluralidade religiosa e, por outro, uma tendência de mudança de hegemonia entre católicos e evangélicos. O artigo “Distribuição espacial da transição religiosa no Brasil” (Alves et. al. 2017), publicado na revista acadêmica Tempo Social, da USP, apresenta uma análise do fenômeno transicional a partir da razão entre evangélicos e católicos (REC).
Nas conclusões do trabalho os autores comprovam que os evangélicos estão em processo de expansão e os católicos de retração no Brasil. Dos 4.492 municípios existentes em 1991, a REC (indicador da transição entre os dois grandes grupos cristãos) aumentou em 4.415 municípios e diminuiu em apenas 77 municípios, no período compreendido entre 1991 e 2010. Ou seja, os evangélicos aumentaram sua participação em 98,3% das cidades e os católicos avançaram em apenas 1,7% dos municípios brasileiros.
O padrão espacial da transição religiosa tem sua parte mais avançada no arco periférico das maiores regiões metropolitanas do país, seguindo os núcleos destas mesmas regiões, avançando pelas cidades de maior porte populacional, seguindo para as cidades menores e apresentando as menores RECs nas áreas rurais, especialmente na região Nordeste, no norte de Minas Gerais e na região Sul.
A Unidade da Federação mais adiantada na transição religiosa é Rondônia (com uma REC de 71,1%). O estado do Rio de Janeiro vem em segundo lugar (com REC de 64,1%). Mas em termos de volume populacional, pode-se afirmar que a periferia da região metropolitana do Rio de Janeiro (municípios da RM menos a capital) está liderando o processo de transição religiosa no país. No total dos 34 municípios fluminenses, onde ocorreu reversão da maioria religiosa (REC > 100), havia uma população de 4,2 milhões de habitantes, sendo 1,4 milhão de católicos e 1,6 milhão de evangélicos e 1,2 milhão de outras religiões e de pessoas que se declararam sem religião.
Entre as cidades mais prováveis de completar a transição religiosa entre 2010 e 2020 – aquelas em que a REC, em 2010, estava com percentuais entre 75% e 100% –, havia 112 municípios que representavam uma população total de 7,6 milhões de habitantes no último censo. Ou seja, a quantidade de municípios em que a REC supere os 100% pode aumentar muito em 2020, acelerando o processo de transição entre os dois maiores grupos religiosos do país. Além disso, a análise da estatística espacial revelou a existência de agrupamentos municipais ao longo do território nacional, ou seja, a distribuição da razão evangélicos/católicos em nível municipal não é aleatória, pois municípios vizinhos tendem a ser mais parecidos de forma significativa.
Apesar disso, não é possível prever se o crescimento dos evangélicos atingirá um teto e se o decréscimo dos católicos terá um piso mínimo. Mas, independentemente de completar-se ou não a reversão da hegemonia entre os dois maiores grupos religiosos brasileiros, as mudanças na distribuição das filiações religiosas têm ocorrido de forma acelerada, embora de maneira diferenciada no tempo e no espaço. O crescimento evangélico é um fenômeno amplo e geral, mas é mais intenso nas periferias das Regiões Metropolitanas e nas áreas de fronteira agrícola e de colonização recente, particularmente na região Norte.
A combinação de ativismo religioso (maior evangelização) e expansão numérica nos locais relativamente mais dinâmicos em termos socioeconômicos do país tende a fortalecer o processo de transição religiosa, analisada pelo aumento da variável REC. Evidentemente ninguém sabe, com certeza, como será o futuro. Mas se as tendências das últimas três décadas se repetirem, as três próximas décadas apontam para uma mudança de hegemonia entre católicos e evangélicos, em um futuro não muito distante. Ou seja, os evangélicos podem ultrapassar os católicos na primeira metade do século XXI, obtendo maioria simples e não necessariamente maioria absoluta da população. Paralelamente à mudança de hegemonia entre os dois grupos cristãos haverá também o aumento da pluralidade religiosa, em decorrência do crescimento das demais religiões não cristãs e do aumento do grupo de pessoas sem religião.
Finalmente, os autores observam que o ano de 2017 marca os cinco séculos da Reforma Protestante, sendo que na maior parte desse tempo o catolicismo permaneceu forte na América Latina. Todavia, no século XXI, o Brasil pode presenciar uma mudança de hegemonia entre os dois grandes grupos cristãos e uma maior pluralidade religiosa. As causas e consequências desse fenômeno são complexas e o acompanhamento desse processo é fundamental para o entendimento da nova configuração da sociedade brasileira.
Considerando o fortalecimento do Estado de Direito, a laicidade do Estado e a secularização da sociedade, a livre competição entre as organizações religiosas – evitando o sectarismo, os preconceitos e ampliando a oferta de serviços – pode contribuir para que o Brasil se torne um país mais dinâmico culturalmente. Essa é uma das possibilidades da transição religiosa no Brasil.
Referência:
ALVES, JED, CAVENAGHI, S, BARROS, LFW, CARVALHO, A.A. Distribuição espacial da transição religiosa no Brasil, Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 29, n. 2, 2017, pp: 215-242


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 13/09/2017

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

O futuro do carro elétrico pode afundar o preço do petróleo: até US $ 15!



O FMI, recentemente, publicou o relatório "Riding the Energy Transition: Oil Beyond 2040", em que analisa o papel dos carros elétricos nos próximos anos e o impacto que teria sobre os preços do petróleo.
A coisa surpreendente é que este relatório conclui que o cenário de adoção rápida, os preços do petróleo poderiam convergir para o nível de preços do carvão em torno de US$ 15 por barril no início dos anos 2040. Nas linhas seguintes, vamos examinar os argumentos para chegar a estas conclusões.

Por que o petróleo pode chegar a US $ 15?

Além do declínio esperado na demanda global por petróleo, a revolução do transporte também leva a uma mudança profunda na configuração do mercado de petróleo.
Ao perder seu papel como a única fonte de combustível para o transporte rodoviário, o petróleo deixará de ser considerado como o "ouro negro", porque, embora o óleo ainda possa ser usado, teria de competir como um substituto próximo no mercado de energia já saturado com a mistura de gás natural, o carvão, a energia nuclear e a renovável.
Perdendo sua exclusividade para veículos automóveis,  o petróleo poderia se tornar o novo carvão, com grandes reservas recuperáveis e uma demanda elástica.
Em um cenário em que o petróleo perde o seu papel como o principal combustível para o transporte, de acordo com o relatório, os preços do petróleo devem cair substancialmente e convergirem para um nível de cerca de US$ 15 por barril, enquanto que hoje o preço do óleo é cerca de US$ 50.
WTI

A comparação histórica entre a introdução de carros elétricos e veículos a motor

Curiosamente, os carros elétricos, em 1900, constituíram um terço de todos os estoques de automóveis nos Estados Unidos.
Silencioso, fácil de manusear e adequado para o tráfego urbano, a demanda de eletricidade mesmo atraiu a atenção de Thomas Edison e Ferdinand Porsche, este último desenvolveu o primeiro veículo híbrido em 1901.  Os veículos elétricos gozavam de grande destaque até 1910.
Foi a rápida ascensão de um novo líder da indústria que retirou os carros elétricos no mercado graças a preços acessíveis graças ao Ford T. O Modelo T foi vendido aos consumidores por um preço 40% abaixo do carro elétrico em 1912, combinado com uma rede crescente de estradas e a relativa facilidade para expandir postos de gasolina em áreas rurais em comparação com a rede elétrica.
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Novas descobertas de poços de petróleo levou a uma queda nos preços do petróleo e o carro elétrico não poderia competir. Essencialmente, o carro elétrico tinha desaparecido em 1935.
No entanto, o carro elétrico parece pronto para voltar à medida que melhora a sua eficiência, especialmente em suas baterias . Há diferentes perspectivas sobre o cenário futuro para o carro elétrico:
  • A OPEP previu que apenas 6% dos carros movidos a combustíveis alternativos em todo o mundo até 2040. O seu relatório 2016 OMO reviu significativamente esse número para 22%.
  • Bloomberg New Energy Finance (BNEF) estima 7,4 milhões de veículos elétricos nas estradas até 2020, eventualmente, representando 25% de todos os carros em 2040.
  • BNP Paribas estima 25% de  deslocamento em 2030.

As transições de energia desde a revolução industrial

Sheikh Yamani Zaqui, ex-ministro da Arábia Saudita, disse que "a idade da pedra chegou ao fim não por falta de pedras e a era do petróleo vai acabar, mas não por falta de petróleo" .
Nos anos da revolução industrial, temos assistido transições de energia. Primeiro, a madeira afundou como o componente principal do combustível de base nos Estados Unidos entre 1850 e 1895. A proporção de combustível de madeira na base passou de 90% para 30% , enquanto o carvão subiu de 9% 65%.
Por sua vez, o óleo e gás substituíram o  carvão entre cerca de 1910 e 1955. Em um período de quatro décadas e meia, a proporção de carvão foi reduzida de 77% para 28% , enquanto que a quantidade combinada de óleo e gás aumentou de 9% para 65%.
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E agora, no relatório do FMI observa que "Depois de analisar os recentes desenvolvimentos em transporte e energia renovável, nós concluímos que o petróleo como o principal combustível para transporte e uma importante fonte de energia em geral pode ter uma vida útil muito mais curta do que muitos supõem".
A última era do petróleo em que o petróleo se tornaria o novo carvão. Poucos negariam que a transição de energia está em andamento. O progresso tecnológico de fracking produziu reduções de custos de 50% ou mais em produção.
O uso de óleo por unidade de PIB mundial também diminuiu em 40%, essencialmente linearmente desde 1980. A Agência Internacional de Energia prevê uma redução da proporção da energia global do petróleo e do carvão, que irá atingir 26% e 25%, respectivamente, para 2040.
Quais são as projeções atuais? A transição energética próxima poderia ocorrer nos próximos 10 a 25 anos, quando os carros elétricos substituirão os veículos de motor, como os veículos a motor destronaram os transportes a cavalo de um século atrás.

Venezuela não tem dinheiro nem para imprimir dinheiro ...!

República Bolivariana da Venezuela está experimentando o maior episódio de inflação conhecido em todo o mundo na última década, após o sofrimento do Zimbabwe entre 2007 e 2008. Em agosto passado, a inflação mensal situou-se em 34%, e até agora em 2017 os preços subiram 366% como calculado pela Assembleia Nacional.
Nesta situação, os venezuelanos são forçados a ser criativos em preservar as suas poupanças, voltando-se para alternativas como Bitcoin. No entanto, o dinheiro ainda é o principal método de pagamento, especialmente para produtos básicos. Quando a inflação é tão alta, este é um problema: os bilhetes rapidamente perdem o seu valor fazendo com que sempre tenha-se que ter mais. A cédula venezuelana de maior valor (20.000 bolívares), lançado há apenas oito meses, que equivale a menos de 5 euros de acordo com a taxa oficial... e 75 centavos no mercado não oficial (o único que pode acessar sem restrições os cidadãos humildes) .
Nesta situação, há um momento em que o que está faltando são os próprios bilhetes. Somando todos os bilhetes de bolívares em circulação no mercado livre representam apenas US$ 4 para cada venezuelano. O dinheiro perde valor em um ritmo mais rápido do que o Estado é capaz de colocar mais dinheiro em circulação. A Venezuela chegou a um ponto onde eles não podem lidar com o custo de impressão de todos os bilhetes de que precisa.

Hiperinflação na Venezuela

Embora não haja nenhuma linha vermelha para determinar exatamente quando um período de alta inflação torna-se hiperinflação, geralmente considera-se o limite definido por Phillip Cagan (grande pioneiro no estudo deste fenômeno): um aumento mensal de preços de 50% ou mais. Aplicando esta definição, o Instituto Cato tem identificados 56 episódios de hiperinflação desde o início do século XX até 2012. Segundo dados oficiais, a Venezuela nunca chegou a esse nível, mas ele estima que a inflação real é muito maior do que a anunciada e bastante perto do limiar.
Na ausência de dados oficiais, recorrer a outros indicadores: o preço do café em Caracas aumentou 800% em um ano
Na ausência de dados oficiais do banco central, alguns meios de mídia recorrem à criatividade. À imitação do famoso Índice Big MacBloomberg criou o índice Café com leite, que reflete o custo deste produto em um café em Caracas. De acordo com os dados mais recentes, o aumento anual é de 800%, muito superior ao limiar da hiperinflação. Uma visita às páginas de venda entre indivíduos também serve para ter uma ideia dos preços reais. Um novo iPhone 7 (cujo preço é bastante semelhante em todo o mundo) custa cerca de 20 milhões de bolívares.
O impacto para a população venezuelana é brutal: uma poupança em bolívares equivalente a US$ 1000 no momento da chegada ao poder de Maduro já se tornou apenas 5 dólares. Maços de dinheiro são necessários  para comprar até mesmo um pedaço de pão. A controvérsia surgiu recentemente, com a detenção da opositora Lilian Tintori com um carro carregado com dinheiro. No mercado livre, os 200 milhões de bolívares venezuelanos que a polícia confiscou equivalem no câmbio atual a € 7,600 ....

O bolívar se desvalorizou tanto que apenas compensa imprimi-lo

Episódios de hiperinflação estão sempre ligados à desvalorização da moeda local. Os controles de preços e aumento da moeda sem lastro de um crescimento econômico equivalente (como aconteceu na Venezuela) causam uma espiral de falta de confiança no valor real do dinheiro de papel, com o consequente aumento dos preços. Quando as autoridades respondem a esta lançando a impressora de cédulas simplesmente retroalimentam o efeito.
Ironicamente, a Venezuela tem de importar cédulas dos EUA, por não ter capacidade de produção suficiente
A distribuição de dinheiro tem um custo para os governos. Apesar dos bilhetes serem muito mais baratos do que as moedas, a produção não é livre. Imprimir um bilhete custa cerca de 20 centavos (dependendo de medidas de segurança). Hoje existem milhões de notas em circulação na Venezuela, cujo valor real é inferior a esse número. Como a inflação continua a crescer, o problema é agravado: A Venezuela não só necessita de continuar a produzir nos mesmos custos bilhetes que cada vez valem menos, e cada vez precisa produzir mais deles.
A consequência é que as autoridades venezuelanas não têm capacidade para produzir todo o dinheiro que sua moeda subvalorizada requer: grande parte das notas venezuelanos são impressas no exterior. É um pouco irônico que um dos produtos que a Venezuela importa do arquiinimigo Estados Unidos seja seus próprios bilhetes. Os fabricantes estrangeiros, obviamente, não aceitam pagamentos em bolívares de acordo com a inflada taxa do governo, e o governo venezuelano tem problemas para fazer os pagamentos: a impressora britânica De La Rue reivindica uma dívida de 71 milhões à Venezuela por contas não pagas.
Com o atual clima político, a situação monetária na Venezuela é improvável para se estabilizar a longo prazo, e nós podemos não descarta que acabe (ainda mais) fora de controle. O experimento econômico chavista terminou com um país que não tem dinheiro mesmo para imprimir seu próprio dinheiro. Será que vamos acabar vendo a cédula de um trilhão de bolívares?

Combatendo o ódio com história

por Guy Verhofstadt

Guy Verhofstadt (CC ALDE Communication)Após uma manifestação de supremacia branca em Charlottesville, Virgínia, em que a militante anti-fascista Heather Heyer foi morta e muitos e outros ficaram feridos, o presidente dos EUA, Donald Trump,  acusou culpamente  "ambos os lados" pela violência. Ao equiparar os neonazistas com aqueles que se encontravam contra eles, Trump manchou sua presidência. E, ao descrever alguns dos participantes da reunião de Charlottesville como "pessoas muito boas", ele deu um sinal positivo para bandidos de extrema direita em todo o mundo.
Algumas semanas depois, assim como o furacão Harvey estava no Texas, Trump perdoou Joe Arpaio, ex-xerife do condado de Maricopa, no Arizona. Arpaio tinha sido condenado por desacato ao tribunal em julho por desafiar a ordem de um juiz federal para impedir o perfil racial dos latinos. Mas do jeito que Trump  , Arpaio foi "condenado por fazer seu trabalho".
Arpaio já se vangloriou de que a prisão ao ar livre onde ele mantivesse imigrantes indocumentados era semelhante a um campo de concentração. E ele é agora um dos principais expoentes do Tea Party e outros movimentos de direita xenófobos que se reuniram atrás de Trump na eleição do ano passado. Ao perdoar Arpaio, Trump estava, mais uma vez, implicitamente abraçando supremacistas brancos e nativistas em todo o mundo.
Infelizmente, muitos dos aliados de Trump no Partido Republicano mal levantaram uma sobrancelha em resposta às suas últimas palavras e ações. E de acordo com uma recente sondagem da  ABC News, 9% dos entrevistados - “equivalente a cerca de 22 milhões de americanos” - consideram “aceitável manter pontos de vista neo-nazistas ou brancos supremacistas.”
Esta é uma descoberta chocante. Mas não está limitado aos Estados Unidos. A Europa também está testemunhando uma onda preocupante de racismo, nacionalismo, anti-semitismo e xenofobia. Em uma recente  pesquisa  realizada para Chatham House, 55% dos entrevistados europeus concordaram que "todas as novas migrações de países principalmente muçulmanos" deveriam ser interrompidas. Isso é superior aos 48% dos americanos que, em fevereiro, apoiaram  a ordem executiva da Trump, impedindo a viagem de sete países predominantemente muçulmanos.
É hora de os europeus que prefeririam demitir a supremacia branca como um fenômeno americanos cuidar de seus próprios quintais. Desde a eleição de Trump nos EUA e o referendo de Brexit no Reino Unido, os discursos de ódio e os crimes contra minorias étnicas e estrangeiros começaram a se normalizar em muitos países ocidentais.
Mais preocupante, a intolerância pode estar em ascensão entre os jovens. A revista britânica  TES  relata  que "crimes de ódio e incidentes de ódio nas escolas britânicas" aumentou 48% nos termos de verão e outono de 2016, em comparação com o mesmo período do ano anterior. Como observa o relatório, isso coincide precisamente com o referendo de Brexit e as eleições de Trump.
Na paisagem de informação de hoje, as mídias sociais se tornaram o principal meio para espalhar o ódio. As maiores plataformas de mídia social agora são anfitriãs de inúmeras contas falsas e anônimas que exibem mensagens xenófobas, nacionalistas e racistas. Essas contas estão poluindo um meio que muitos jovens desfrutam e expondo mentes impressionáveis ​​a falsidades perigosas e teorias de conspiração. E muitas vezes, eles são operados com impunidade pelos trolls patrocinados pela Rússia na Macedônia ou em outros lugares da Europa Oriental.
Mas não são apenas trolls on-line que estão capacitando as pessoas a serem racistas, antissemitas e homofóbicas. Muitos líderes mundiais e formadores de opinião proeminentes também estão fazendo isso. Embora os principais líderes europeus ofereçam uma clara censura à violência de Charlottesville e à reação de Trump a ela, eles precisam ir mais longe. Agora, mais do que nunca, a União Européia deve demonstrar seu compromisso em defender os valores fundamentais de igualdade e tolerância.
O facto de os actuais governos húngaro e polaco estarem intencionalmente prejudicando as instituições democráticas nesses países deve ser uma prova suficiente de que não podemos garantir a liberdade, a liberdade e o Estado de direito. Demorou muitos anos para construir instituições democráticas na Europa Central e Oriental, mas bastou apenas algumas eleições parlamentares para reverter esse progresso. Para o bem da democracia europeia, os outros membros da UE devem  tomar medidas coletivas  agora para sancionar esses governos cada vez mais autoritários por suas transgressões.
Após um aumento nos incidentes antissemitas em 2004, quando eu era a primeiro-ministro da Bélgica, lancei uma iniciativa para lembrar os jovens dos custos da Segunda Guerra Mundial. Durante as aulas de história, estudantes belgas aprenderiam sobre as implicações e conseqüências negativas de certas ideologias.
Com o ódio em marcha novamente hoje, devemos lembrar que a educação é crucial na luta contra o autoritarismo, que pode prosperar na complacência geracional. Para garantir que prevalecem os valores democráticos, devemos encorajar todas as pessoas a refletir sobre as lições do passado, quando abusos grotescos foram perpetrados contra milhões.
Nós devemos a todos aqueles que sofreram sob regimes autoritários passados ​​para defender os valores democráticos agora. Podemos começar empurrando para trás, como Heather Heyer fez, contra os populistas de direita que fomentam abertamente o ódio pelo Ocidente.

Project Syndicate 

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Psicanálise e Arte

As criações, obras de arte, são imaginárias satisfações de desejos inconscientes, do mesmo modo que os sonhos, e, tanto como eles, são, no fundo, compromissos, dado que se vêem forçadas a evitar um conflito aberto com as forças de repressão. Todavia, diferem dos conteúdos narcisistas, associais, dos sonhos, na medida em que são destinadas a despertar o inteesse noutras pessoas e são capazes de evocar e satisfazer os mesmos desejos que nelas se encontram inconscientes. À parte isto, fazem uso do prazer perceptivo da beleza formal, aquilo a que chamei um prémio-estímulo. Aquilo que a psicanálise foi capaz de fazer consistiu em captar as relações entre as impressões da vida do artista, as suas experiências causais e as suas obras e, a partir delas, reconstruir a sua constituição e os impulsos que se movem dentro dele. Não se deve julgar que o salaz que procura uma obra de arte se anule pelo conhecimento obtido pela análise. A este respeito é possível que o profano espere acaso demasiado da análise, mas deve advertir-se que ela não esclarece os dois problemas que são, provavelmente, os mais interessantes para ele: não esclarece quanto à natureza dos dotes do artista, nem pode explicar os meios de que o artista se serve para trabalhar a técnica artística. 

Sigmund Freud, in 'O Pensamento Vivo de Freud' 

A Arte e a Filosofia

Nunca será de mais insistir no carácter arbitrário da antiga oposição entre arte e a filosofia. Se quisermos interpretá-la num sentido muito preciso, é certamente falsa. Se quisermos simplesmente significar que essas duas disciplinas têm, cada uma delas, o seu clima particular, isso é verdade sem dúvida, mas muito vago. A única argumentação aceitável residia na contradição levantada entre o filósofo fechado no meio do seu sistema e o artista colocado diante da sua obra. Mas isto era válido para uma certa forma de arte e de filosofia, que aqui consideramos secundária. A ideia de uma arte separada do seu criador não está somente fora de moda. É falsa. Por oposição ao artista, dizem-nos que nunca nenhum filósofo fez vários sistemas. 

Mas isto é verdade, na própria medida em que nunca nenhum artista exprimiu mais de uma só coisa sob rostos diferentes. A perfeição instantânea da arte, a necessidade da sua renovação, só é verdade por preconceito. Porque a obra de arte também é uma construção, e todos sabem como os grandes criadores podem ser monótonos. O artista, tal como o pensador, empenha-se e faz-se na sua obra. Essa osmose levanta o mais importante dos problemas estéticos. Além disso, nada é mais vão que essas distinções, segundo os métodos e os objectos, para quem se persuade da unidade de finalidade do espírito. Não há fronteiras entre as disciplinas que o homem se propõe, para compreender e amar. Interpenetram-se e confunde-as a mesma angustia. 

Albert Camus, in "O Mito de Sísifo" 

O Valor da Obra de Arte

A fonte imediata da obra de arte é a capacidade humana de pensar, da mesma forma que a «propensão para a troca e o comércio» é a fonte dos objectos de uso. Tratam-se de capacidades do homem, e não de meros atributos do animal humano, como sentimentos, desejos e necessidades, aos quais estão ligados e que muitas vezes constituem o seu conteúdo. 

Estes atributos humanos são tão alheios ao mundo que o homem cria como seu lugar na terra, como os atributos correspondentes de outras espécies animais; se tivessem de constituir um ambiente fabricado pelo homem para o animal humano, esse ambiente seria um não mundo, resultado de emanação e não de criação. A capacidade de pensar relaciona-se com o sentimento, transformando a sua dor muda e inarticulada, do mesmo modo que a troca transforma a ganância crua do desejo e o uso transforma o anseio desesperado da necessidade - até que todos se tornem dignos de entrar no mundo transformados em coisas, reificados. Em cada caso, uma capacidade humana que, por sua própria natureza, é comunicativa e voltada para o mundo, transcende e transfere para o mundo algo muito intenso e veemente que estava aprisionado no ser. 

Hannah Arendt, in 'A Condição Humana'

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Pela primeira vez, CASACOR terá ambientes com acessibilidade no RN



A CASACOR 2017, tradicional mostra de arquitetura, design de interiores e paisagismo, terá, pela primeira vez, ambientes com acessibilidade para pessoas com deficiência e/ou mobilidade reduzida em sua edição potiguar. O evento será realizado a partir do dia 14 no Aeroclube, e a ação é fruto de uma parceria da organização com a empresa Adapte Acessibilidade.

"A CASACOR acompanhará o que já é uma exigência do mercado. O respeito às pessoas que precisam da acessibilidade é uma questão cada vez mais fundamental na arquitetura e construção civil. Nosso trabalho em parceria com a CASACOR foi justamente colaborar para mostrar, junto à sociedade, como é importante construir espaços acessíveis", disse Danielle Sá, arquiteta especialista em acessibilidade e diretora da Adapte.

As obras nos espaços da exposição foram realizadas com o acompanhamento direto da Adapte, tudo para que o evento consiga mostrar aos seus visitantes a importância da acessibilidade. A mostra ainda realizará, entre os dias 19 e 22 de setembro, a Semana CASACOR Inclusiva, para celebrar o Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiência, no dia 21.

Localizado na Avenida Hermes da Fonseca, o Aeroclube foi totalmente reformado para receber mais de 30 ambientes, assinados por profissionais renomados da arquitetura, em uma área de 2.200 m². O evento, pertencente ao Grupo Abril, é a maior e mais completa mostra de arquitetura, design de interiores e paisagismo das Américas.