"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

O Poema é uma Árvore de um Só Fruto

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"Quatro Árvores" - Egon Schiele Pintor expressionista austríaco (1890-1918)

Creio que nenhum de vós há-de estranhar que eu diga que o poeta é aquele que perdeu a palavra antes de a poder dizer; dito de outro modo. Ele é o que fala ou escreve antes de conhecer o enunciado do que vai dizer. O grito, o silêncio, a aridez da não inspiração determinam inicialmente a criação poética; o poema nunca é real, nunca se efectiva numa conclusão, ou num objectivo determinado. O poema nasce de um grito, de um assombro, de uma ruptura, da noite do nada e da disponibilidade da linguagem relacional; é sempre a transposição de um referente real ou imaginário para uma linguagem de equivalência, mas necessariamente, livremente, distanciada da referência. Esta linguagem é a «coerência da incoerência», «uma linguagem na linguagem», mantendo embora a voz mesma do existente ausente que é o poeta, no «fingimento», na ficção, na heteronímia do poema. Longe de ser um astro fixo, o poema suspende o enunciado para fluir numa relação metamórfica de palavras, de imagens, de sons e de relações que são todos os elementos consonantes do poema; o poema é, assim, um ébrio fluir de chamas, de estrelas, de possibilidades, de vibrações, de silêncios de uma respiração errante em que a verdade nos escapa no mistério da sua nostalgia, na utopia da sua liberdade, na sua fuga de afirmação exemplar ou categórica; um poema é a reserva de um não dizível que o liberta da afirmação na dialéctica do «não» e do «sim» até à abolição do terrorismo mental, da racionalidade tecnocrática que asfixia a criatividade dos possíveis inesgotáveis do ser humano; o poema é o canto escrito que transcende o escrito e reflui para a origem do seu silêncio, mantendo a voz do sujeito na ignorância aberta, no fogo da sua sede, no fluir livre da linguagem e da confluência cosmogónica. O poema é uma árvore de um só fruto que floresce numa ruptura ou numa perda inicial que se ramifica e fluidifica entre a água e o fogo, entre o grito irrevogável e a melodia de um homem que se encontra na sua perda sem caminho, na plenitude do deserto, na plenitude de uma palavra nua, à luz de uma lâmpada sem morada na noite do mundo. 

António Ramos Rosa, in 'Doutoramento «honoris causa» de António Ramos Rosa pela Universidade de Faro' 

Aprovado PIB para medir patrimônio ecológico

Passou ontem no Plenário do Senado e agora vai para a sanção presidencial o projeto de lei que cria o PIB Verde, um índice dos recursos naturais do Brasil a ser calculado pelo IBGE.

Jornal do Senado
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O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), órgão responsável pelo cálculo do produto interno bruto (PIB), deverá divulgar anualmente também o PIB Verde, em cuja apuração deverá ser considerado o patrimônio ecológico nacional. A medida é prevista no PLC 38/2015, aprovado ontem no Plenário do Senado. O texto vai para a sanção presidencial. 

O PIB Verde é um indicador de crescimento econômico que leva em conta as consequências ambientais do crescimento econômico medido pelo PIB padrão, ou seja, os custos ambientais. 

O cálculo do PIB Verde, conforme o projeto, do deputado Otavio Leite (PSDB-RJ), deverá levar em conta iniciativas nacionais e internacionais semelhantes, em especial o Índice de Riqueza Inclusiva (IRI), elaborado pela Organização das Nações Unidas (ONU). O objetivo é assegurar futura convergência com índices adotados em outros países e permitir comparação. 

A proposta prevê ainda ampla discussão da metodologia de cálculo do PIB Verde com a sociedade e as instituições públicas, incluindo o Congresso. 

Secularização e pluralidade na América Latina

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“Deus quer evitar o mal, mas não pode fazê-lo? Então não é onipotente.
É capaz de evitar, mas não quer? Então é malvado.
Deus pode e quer evitar o mal? Então por que permite a maldade?
Deus não pode e nem quer evitar o mal? Então por que chamá-lo Deus?”
(Epicuro de Samos, 341-270 a. C.)

percentagem de pessoas sem religião na ALC, 2014

A secularização pode ser definida como o fenômeno por meio do qual a religião perde a predominância na determinação das atividades do dia a dia na vida social e cresce o número de pessoas que se declaram sem religião ou com desafeição às religiões institucionalizadas.
Nessa concepção, a América Latina e o Caribe (ALC) tem passado por um aumento da secularização, pois, além da menor dominação dos símbolos religiosos sobre as instituições, cresce o número de pessoas que se declaravam sem religião que, na média da região, estava em torno de 1% em 1970 e chegou a 8% em 2014.
O Uruguai é o país mais secularizado de todo o continente americano, com 37% da população se declarando sem religião, sendo 10% de ateus e 3% de agnósticos. A laicidade tem uma longa tradição no Uruguai. Em 1861, o governo nacionalizou os cemitérios em todo o país, rompendo o controle que existe pelas igrejas. Logo depois, o governo proibiu as igrejas de ter papel protagonista na educação pública ou emitir certificados de casamento. No século XX, uma nova constituição consagrou a separação entre religião e esfera pública.
O percentual de pessoas sem religião na República Dominicana e entre a população hispânica dos EUA ficou empatado em 18%. Em seguida aparece o Chile com 16% de pessoas sem religião, sendo 2% ateus e 3 agnósticos. El Salvador tinha 12% sem religião. A Argentina com 11% sem religião, sendo 4 ateus e 1% agnóstico. Honduras tinha 10% sem religião, sendo1% de agnósticos. Costa Rica com 10% de sem religião e 1 agnóstico. Brasil com 8% sem religião e 1% agnóstico. O país menos secularizado era o Paraguai com somente 1% de pessoas sem religião.
No Brasil, o percentual de cristãos (católicos + evangélicos) caiu de 97%, segundo o censo demográfico de 1970, para 96% em 1980, para 92% em 1991, para 89% em 2000 e para 87% no último censo, do IBGE, de 2010. Concomitantemente, o percentual de pessoas que se declaram sem religião passou de 0,8% em 1970, 1,6% em 1980, 4,7% em 1991, 7,4% em 2000 e 8,0% em 2010.
As diversas pesquisas do Instituto Datafolha mostram um crescimento mais acelerado do percentual de pessoas sem religião no Brasil. Em agosto de 1994 havia 5% de pessoas sem religiões no país, passou para 7% em abril de 2014 e para 14% em dezembro de 2016.
Contudo, este número é muito diferenciado nos municípios. Por exemplo, a cidade de Chuí no Rio Grande do Sul, quase na divisa com o Uruguai, é onde o percentual de pessoas sem religião é a mais alta do país, conforme mostra a tabela abaixo. No ano 2000 havia 38,5% de pessoas sem religião em Chuí e este percentual passou para 54,2% em 2010.

população da cidade de Chuí, RS

Mas há outras cidades no Brasil com alto percentual de pessoas sem religião: Gaúcha do Norte, MT, com 40,1%, Álvaro de Carvalho, SP, com 38,4%, Roteiro, AL, com 38,3%, Barra de Santo Antônio, AL, com 35%.
Parece que os ventos secularizantes vão continuar soprando no Brasil e fazendo com que a categoria de pessoas que se declaram sem religião cresça em volume. O percentual de sem religião é maior entre os homens e os jovens que nasceram depois de 1980. Isto quer dizer que a tendência a uma maior secularização deve aumentar na medida em que estas gerações mais jovens envelheçam e o Brasil se torne um país mais plural em termos religiosos.
Além disto o Brasil está abaixo da média do Global Index of Religiosity and Atheism (2012) do WIN-Gallup International, que aponta uma média mundial de 23% para as pessoas que se declaram sem religião e de 13% para os que se declaram ateus. Portanto, o aumento da secularização da ALC está indo na direção de se aproximar da média mundial. Nos EUA o percentual de pessoas sem religião passou de 7% na década de 1990 para 23% em 2014.
Como mostra Phil Zuckerman, os países com alto índice de pessoas sem religião, em vez de serem bastiões de pecado e corrupção (como o direito cristão sugeriu que uma sociedade sem Deus seria), são países que estão no topo do “índice de felicidade” e desfrutam de sociedades saudáveis, que possuem algumas das taxas mais baixas de crimes violentos no mundo.
No caso da ALC, um sinal da perda de influência da Igreja Católica (mas também das evangélicas) é que o “sacramento” do casamento religioso é cada vez mais infrequente na região. Praticamente, em todos os países latino-americanos diminui o percentual de casamentos religiosos e cresce o percentual de casamentos consensuais e, também, o número de nascimentos fora do casamento legal. Por exemplo, segundo o IBGE, no Brasil o percentual de casamentos “civil e religioso” era de 63,8% em 1980 e caiu para 42,9% em 2010. O percentual de casamentos “só religioso” era de 8,1% em 1980 e caiu para 3,4% em 2010.
A prevalência de métodos contraceptivos modernos é muito elevada em toda a ALC e a Taxa de Fecundidade Total já está próxima do nível de reposição. Os equivocados ensinamentos da encíclica Humanae Vitae são, cada vez, mais desrespeitados pelos cristãos. É urgente a necessidade de rever essa encíclica do Papa Paulo VI que completará 50 anos em 25/07/2018.
Mas como mostrou Peter Berger, o crescimento da secularização não se dá em função do fim das religiões, mas sim pelo crescimento do pluralismo.
A diversificação religiosa e o crescimento do Estado Laico fazem com que diversas instâncias da sociedade funcionem de acordo com a lógica da ciência e os critérios lógicos da racionalidade e não em termos de dogmas religiosos. Nesse sentido, na média da região, a América Latina e Caribe, mesmo com ampla predominância cristã, está cada vez mais plural e secularizada.
Referências:
ALVES, JED. Ventos secularizantes: ateus, agnósticos e pessoas sem religião no censo brasileiro de 2010, Ecodebate, RJ, 04/10/2015

ALVES, JED. Chuí: a capital brasileira dos sem religião, Ecodebate, RJ, 06/02/2013

Phil Zuckerman. The Godless Liberal Social Society, Facebook.

Phil Zuckerman. Society without God: What the Least Religious Nations Can Tell Us About Contentment, June, 2010 https://nyupress.org/books/9780814797235/
PEW. Religion in Latin America. Widespread Change in a Historically Catholic Region, PEW, November 13, 2014http://www.pewforum.org/2014/11/13/religion-in-latin-america/

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 20/09/2017

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Quase metade dos principais órgãos públicos brasileiros descumprem a Lei de Acesso à Informação


Novo relatório da Transparência Brasil mostra que 95 (46%) dos principais órgãos do país ignoram pedidos de informação. De 206 órgãos questionados, outros 35 (17%) negaram acesso à informação, 47 (23%) concederam parcialmente e apenas 29 (14%) concederam integralmente o acesso à informação solicitada. Dentre os órgãos que atenderam ou atenderam parcialmente nosso pedido, 72% compartilharam indevidamente dados pessoais de requerentes.

Direcionados aos principais órgãos públicos de todos os poderes e esferas federativas, os pedidos requeriam a cada um deles a base de dados de todas as solicitações de informação, contendo as respectivas respostas, recursos e anexos, recebidas via LAI desde 2012, quando a Lei passou a vigorar, até abril de 2017.

As bases de pedidos de informação fornecidas integrarão a plataforma Achados e Pedidos, projeto da Transparência Brasil em parceria com a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e com financiamento da Fundação Ford, que consiste em um repositório colaborativo de pedidos de acesso à informação feito a qualquer órgão do estado brasileiro.

Para Juliana Sakai, diretora de operações da Transparência Brasil, o fato de 46% dos órgãos terem simplesmente ignorado o pedido “demonstra uma clara deficiência na implementação da Lei de Acesso, cinco anos após sua entrada em vigência. Ainda que, de acordo com o artigo 32 da Lei de Acesso, a recusa de fornecer informação requerida possa ensejar abertura de ação por improbidade administrativa essa prática ficou no papel”.

Outra grave conclusão do levantamento é que a prática de proteção de informações pessoais custodiadas por órgãos públicos constitui uma exceção: 72% dos órgãos que enviaram arquivos para a organização compartilharam indevidamente esse tipo de informação. “Dado que o estudo contemplou apenas capitais na esfera municipal, é razoável supor que a realidade brasileira seja ainda pior. Nesse sentido, mostra-se urgente avançar debates por uma política de proteção de dados pessoais”, defende Sakai.

Também foram identificados casos de ausência de requisitos básicos para atendimento da LAI como a não existência de sistemas informatizados, a falta de regulamentação da Lei em diversos poderes e esferas e, ainda, o despreparo técnico e desconhecimento da LAI por parte dos servidores. “Isso evidencia uma enorme falta de compromisso do estado brasileiro com o acesso à informação. Sem investimento mínimo não há espaço para a promoção efetiva da transparência pública, o que prejudica participação e o controle social, elementos essenciais para o fortalecimento democrático”, conclui Sakai.


Transparência Brasil 

Fundo contra seca entra na pauta de comissão

Projeto que deve ser votado hoje reúne recursos para estados do Nordeste usarem em situações de emergência por causa de estiagem

Jornal do Senado

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A Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) pode votar hoje projeto que institui fundo para enfrentar a estiagem que historicamente sacrifica a Região Nordeste — o Fundo de Atendimento às Situações de Emergência e de Calamidade Pública Decorrentes de Secas (Fasec). 

Segundo o PLS 791/2015, do senador José Agripino (DEM- -RN), o Fasec deverá ser criado pelo governo federal e gerido por um conselho deliberativo com apoio do órgão que executa a Política Nacional de Defesa Civil. O conselho terá também representantes do Senado, da Câmara, dos estados e dos municípios. 

Verbas 

O Fasec será um fundo de natureza contábil, com prazo indeterminado de duração, e funcionará sob as formas de apoio a fundo perdido ou de empréstimos reembolsáveis. Será constituído com recursos do Tesouro Nacional, doações, legados, subvenções e auxílios de entidades de qualquer natureza, inclusive de organismos internacionais, além da reversão de saldos anuais não aplicados e de outras fontes. 

Ainda pela proposta, os recursos não poderão ser usados para despesas de manutenção administrativa do órgão gestor, permitida somente a compra ou locação de equipamentos e bens necessários ao atendimento das situações de emergência e calamidade pública decorrentes de secas. 

O saldo dos recursos não aplicados no mesmo exercício poderá ser destinado, no ano subsequente, à construção de reservatórios de água, sistemas de captação de água e adutoras ou ser mantido como reserva para atendimento mais eficaz a eventuais e futuras situações de emergência ou de calamidade pública, decorrentes das secas. 

O relator da proposta, senador Elmano Férrer (PMDB-PI), apresentou voto pela aprovação. Originalmente o projeto assegurava ao Fasec, em cada exercício financeiro, a quantia de R$ 1 bilhão. O montante deveria ser atualizado pela variação acumulada da receita corrente líquida da União. 

Além da CAE, Elmano relatou o projeto na Comissão de Desenvolvimento Regional e Turismo (CDR), onde seu voto favorável ao texto foi aprovado. Na CDR, o relator manteve o aporte anual de R$ 1 bilhão sugerido para o fundo. Em seu relatório na CAE, no entanto, ele excluiu essa previsão, diante da possibilidade de ser questionada a constitucionalidade da proposta. A Constituição, disse, estabelece que é competência exclusiva do chefe do Executivo a iniciativa em matéria orçamentária. 

Como tem votação final na CAE, se aprovado, o projeto deverá seguir direto para a Câmara dos Deputados, caso não haja recurso para ir ao Plenário do Senado. 

Os países mais avançados no uso de robôs são os com menor desemprego

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves


concentração de robôs em relação ao tamanho da força de trabalho

Os três países com maior uso de robôs em relação à força de trabalho, no mundo, são a Coreia do Sul, com 531 robôs para cada 10 mil trabalhadores, Cingapura com 398 por 10 mil e Japão com 305 por 10 mil (em quarto lugar está a Alemanha com 301 robôs para cada 10 mil trabalhadores), conforme mostra o gráfico acima, de artigo de Angus Muirhead (11/08/2017), do banco Credit Suisse.
Dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), para 2016, mostram que o desemprego era de 3,5% na Coreia do Sul, 3,1% no Japão e 2,1% em Cingapura. Portanto, o nível de robotização não está correlacionado com perda de emprego nestes três países.
Esses dados contradizem a ideia de que os robôs geram desemprego?
Aparentemente sim, pelo menos nestes três casos específicos. Mas, provavelmente, se trata de um falso paradoxo, pois esses três países possuem uma situação demográfica e econômica diferente, por exemplo, do Brasil. A Espanha é também um caso diferente, pois tem 150 robôs para cada 10 mil trabalhadores e uma taxa de desemprego de 20%.
O que acontece nos 3 países asiáticos é que a População em Idade Ativa (PIA), de 20 a 64 anos, já atingiu um pico e está em fase de decrescimento. No Japão, o pico da PIA ocorreu em 1995, em Cingapura em 2010 e na Coreia do Sul em 2015 (no Brasil será em 2025).
No Japão o percentual da PIA (de 20-64 anos) cairá de 62,6% em 1995 para 46,7% em 2050. Em Cingapura cairá de 66,7% em 2010 para 51,2%, na Coreia do Sul cairá de 66,9% para 48,7% e no Brasil cairá de 62,4% em 2025 para 57,1% em 2050, conforme mostra o gráfico abaixo.

percentagem da população de 20 a 64 anos, Brasil, Coreia do Sul, Cingapura e Japão, 1950-2100

Portanto, o volume da força de trabalho no Japão, em Cingapura e na Coreia do Sul já está em declínio numérico (mas como a educação é muito boa nestes 3 países a PIA continua crescendo em qualidade). E a queda da PIA nos 3 países asiáticos será significativa até meados do século, muito maior do que no Brasil. Para a população mundial a queda da PIA será de 57,5% em 2015 para 55,9% em 2050.
A redução do tamanho da força de trabalho de um país poderia gerar escassez de mão de obra e comprometer o desempenho econômico se a produtividade ficasse estagnada. A solução poderia vir por duas frentes: 1) aumento da automação; 2) maior abertura à imigração internacional.
Acontece que, especialmente o Japão e a Coreia do Sul (nem tanto Cingapura) evitam recorrer à segunda opção e esquivam de abrir o país aos migrantes internacionais. Artigo de Daniel Moss (Bloomberg, 22/08/2017) mostra que o Japão optou pela primeira alternativa (automação) e não pela segunda alternativa (migração).
Desta forma, o uso generalizado de robôs na Coreia do Sul, Cingapura e Japão se justifica pelo novo fato demográfico, que é a queda da população em idade ativa (PIA). Os robôs não dispensariam trabalhadores, mas apenas substituindo o declínio numérico da força de trabalho e permitindo a sustentabilidade do envelhecimento populacional.
Também se justifica pelo lado econômico e o modelo de desenvolvimento adotado nestes países, que são muito voltados para a competitividade internacional e com alto grau de exportação (export-led growth). Por exemplo, enquanto o Brasil (com população de 215 milhões de habitantes) exportou apenas US$ 185 bilhões em 2016, o Japão (com 127 milhões de habitantes) exportou US$ 645 bilhões, a Coreia do Sul (com 51 milhões de habitantes) exportou US$ 495 bilhões e Cingapura (com apenas 5,6 milhões de habitantes; menor do que a cidade do Rio de Janeiro) exportou US$ 330 bilhões em 2016.
Ou seja, o avanço da robótica e do processo de automação na Coreia do Sul, Cingapura e Japão visa aumentar a produtividade interna da economia e a competitividade internacional. Estes países possuem capacidade tecnológica para o desenvolvimento da automação e usam os robôs como aliados. Segundo dados do FMI, para 2016, Cingapura tinha uma renda per capita de US$ 87,8 mil, o Japão com US$ 38,7 mil, a Coreia do Sul com US$ 37,7 mil e o Brasil com US$ 15 mil.
Adicionalmente, no Brasil, o avanço da robótica esbarra na triste realidade de 26 milhões de desempregados (no conceito amplo de desemprego do IBGE), representando uma taxa de mais de 20% da força de trabalho e na baixa inserção da economia brasileira no mercado internacional. Se as multinacionais instaladas no Brasil importarem robôs (como na indústria automobilística) o resultado pode ser completamente diferente do que está acontecendo nos três países asiáticos líderes da robótica.
Outra característica dos três países asiáticos são as altas taxas de poupança e investimento, que favorecem à inovação tecnológica e a absorção da força de trabalho. O Brasil, com baixas taxas de poupança e investimento e altas taxas de desemprego, tem uma economia moribunda e de baixa competitividade internacional. O Brasil não tem pleno emprego (pois tem mais de 26 milhões de desempregados), não tem robôs e não tem alta produtividade.
Nesse quadro, a economia brasileira está condenada a ser mera espectadora das transformações tecnológicas que estão ocorrendo em outras partes do mundo. Sem capacidade de resolver velhos problemas (como saneamento básico educação de qualidade) e sem ter os recursos para competir no contexto da Revolução 4.0, o Brasil pode ficar longe da onda de renovação dos robôs (no que ela tem de bom e de ruim) e permanecer atrasado e preso, para sempre, na “armadilha da renda média”.
Referências:
Angus Muirhead. Robotics and Automation – Creating or Taking Jobs? Credit Suisse, 11/08/2017

Daniel Moss. Aging Japan Wants Automation, Not Immigration, Bloomberg, 22/08/2017


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 18/09/2017

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Número de pessoas que passa fome sobe pela primeira vez em 10 anos

Cerca de 815 milhões de pessoas vivem nessa situação no mundo; estudo de cinco agências da ONU revela que total corresponde a um aumento de 38 milhões em relação a 2015.
Foto: Unicef/Rich
Eleutério Guevane, da ONU News em Nova Iorque.
Os níveis globais da fome aumentaram pela primeira vez em mais de uma década e o problema afeta agora 11% da população mundial.
Segundo o relatório "Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo", cerca de 815 milhões de pessoas sofreram de fome em 2016. O número corresponde a mais 38 milhões em relação a 2015.
África, Ásia e América Latina 
O estudo lançado esta sexta-feira, em Roma, envolveu cinco agências das Nações Unidas* e defende que as principais razões para o aumento da fome são os conflitos, as mudanças climáticas e os problemas económicos.
Falando à ONU News, em Nova Iorque, a representante do Escritório em Nova Iorque da Organização da ONU para Agricultura e Alimentação, FAO, Carla Mucavi, disse que parcerias e decisões podem influenciar as soluções para os países.
Carla Cut 01
"Há necessidade de se canalizar mais recursos para o setor da agricultura por forma a que, de facto, os 815 milhões de pessoas que ainda estão em situação de insegurança alimentar e fome possam ver alguma luz que lhes permita sair dessa situação. Falamos das políticas apropriadas. Não há uma política única mas é importante que as políticas vão ao encontro dos desafios e que se encontrem ajustadas a aquilo que são as situações específicas."
De acordo com documento, entre as regiões mais afetadas estão a Ásia com 520 milhões, África com 243 milhões e a América Latina e Caraíbas com 42 milhões de pessoas.
A avaliação global das agências da ONU é a primeira realizada após a definição da Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável, que prevê no seu segundo objetivo  eliminar a fome e a desnutrição.
O documento revela que após uma queda constante dos índices, os últimos dados revelam que a proporção da população global que passa fome aumentou pela primeira vez em mais de uma década.
Conflitos
Cerca de 489 milhões de pessoas vivem nessa situação em países afetados por conflitos, o que corresponde a 4,4% a mais do que em outros países.
De acordo com o documento, o número de conflitos aumentou drasticamente ao longo da última década e estes tornaram-se "mais complexos e intratáveis na sua natureza".
*Organização da ONU para Agricultura e Alimentação, FAO, o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola, Fida, o Fundo da ONU para a Infância, Unicef, e a Organização Mundial da Saúde, OMS.