"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 30 de setembro de 2017

O Chile está se tornando potência energética com base no sol, no vento e em vulcões

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves


renda per capita no mundo, Brasil, Chile e Venezuela: 1980-2022

O Chile caminha para ser uma potência energética na área renovável. Enquanto isto, o Brasil e a Venezuela atrelaram o desenvolvimento nacional ao poder poluidor dos combustíveis fósseis. O Chile está prestes a se tornar um exportador líquido de energia investindo em fontes mais limpas, especialmente o sol, o vento e a força geotérmica dos vulcões.
Reportagem do jornal New York Times mostra que o Chile caminha para se tornar autossuficiente em energia renovável e exportador líquido, mesmo sendo pobre em reservas de combustíveis fósseis. O deserto de Atacama é um dos lugares mais secos e ensolarados da Terra. O sol é tão forte que os trabalhadores devem usar roupas adequadas e espessas camadas de protetor solar.
As autoridades chilenas têm uma projeção ambiciosa, dizendo que o país está no bom caminho para confiar em fontes limpas para quase 100% de suas necessidades de eletricidade até 2050, acima dos atuais 45%. Para tanto está aproveitando o potencial solar e espalhando turbinas eólicas ao longo da costa chilena de 2.653 milhas.
A presidenta Michele Bachelet, preocupada com o aquecimento global e a necessidade de descarbonizar a economia, disse: “Nós pensamos que é essencial para o nosso desenvolvimento econômico ter energia mais limpa porque queremos que este planeta dure”. Em agosto passado, o Chile concedeu dezenas de contratos a empresas locais e estrangeiras em um grande leilão que terceirizou cerca de 23% de suas necessidades energéticas esperadas na próxima década. Um novo leilão está programado para ocorrer em novembro de 2017.
Além das energias eólica e solar, o Chile investe na energia geotérmica, pois é um país rodeado de vulcões. Agora está inaugurando a primeira planta de energia geotérmica da América do Sul, em Cerro Pabellón, que fica a 5 mil metros de altura em relação ao nível do mar. Com a capacidade de alimentar cerca de 165 mil lares, a nova fábrica é mais um passo na transformação da energia limpa no Chile.
A rede de energia limpa em rápida expansão da nação, que inclui vastos campos solares e parques eólicos, é uma das mais ambiciosas de uma região que se move de forma decisiva além dos combustíveis fósseis. Ademais, o Chile possui as maiores reservas de lítio e vai estar em posição de destaque na nova matriz energética renovável e no campo das baterias.

usina geotérmica em Cerro Pabellón, Chile

Não só na área energética, o Chile tem apresentado resultados econômicos e sociais muito melhores do que o Brasil e a Venezuela. O Chile deslanchou bastante, em especial, depois do fim da ditadura de Augusto Pinochet. Na década de 1980, a renda per capita do Chile estava ao mesmo nível da renda per capita mundial e abaixo da renda per capita do Brasil e cerca de duas vezes menor do que a renda per capita da Venezuela. Contudo, enquanto o Brasil e, principalmente, a Venezuela entraram em declínio absoluto, o Chile continuou avançando e já possui uma renda per capita duas vezes maior do que a da Venezuela.
Por ironia, o Brasil se tornou o maior produtor de petróleo da América Latina, pois o país superou a produção de petróleo na Venezuela e no México, em 2016, devendo se repetir em 2017. Porém, petróleo não é sinônimo de bem-estar.
Se o custo da extração do petróleo é próximo do preço internacional não há grandes ganhos neste tipo de exploração energética. O Brasil errou ao jogar todas as suas fichas nas reservas do pré-sal. Como o preço do petróleo caiu muito no mercado internacional, de cerca de US$ 100 o barril em 2014, para menos de US$ 50 entre 2015 e 2017, e como as jazidas do pré-sal são caras, a dependência dos combustíveis fósseis tem sido mais um fardo do que um benefício. O exemplo de equívoco no projeto de desenvolvimento acontece no Estado do Rio de Janeiro, que jogou todas as suas fichas na produção do “ouro negro” e agora vive, em situação falimentar, o pesadelo da crise fiscal, do caos social e do aumento da violência.

produção de petróleo

O Chile está dando um exemplo para a América Latina como garantir um projeto de desenvolvimento sustentável e baseado em energias renováveis com baixa emissão de carbono. A Venezuela e o Brasil deveriam aprender com o Chile, como garantir a democracia e como manter os avanços sociais sem depender dos combustíveis fósseis.
Referências:
Ernesto Londoñoaug. Chile’s Energy Transformation Is Powered by Wind, Sun and Volcanoes, NYT, 12/08/2017


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 29/09/2017

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Povo e política no Brasil

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

A Função do Escritor

Que o mundo «está infestado com a escória do género humano» é perfeitamente verdade. A natureza humana é imperfeita. Mas pensar que a tarefa da literatura é separar o trigo do joio é rejeitar a própria literatura. A literatura artística é assim chamada porque descreve a vida como realmente é. O seu objectivo é a verdade - incondicional e honestamente. O escritor não é um confeiteiro, um negociante de cosméticos, alguém que entretém; é um homem constrangido pela realização do seu dever e a sua consciência. Para um químico, nada na terra é puro. Um escritor tem de ser tão objectivo como um químico. 

Parece-me que o escritor não deveria tentar resolver questões como a existência de Deus, pessimismo, etc. A sua função é descrever aqueles que falam, ou pensam, acerca de Deus e do pessimismo, como e em que circunstâncias. O artista não deveria ser juiz dos seus personagens e das suas conversas, mas apenas um observador imparcial. 

Têm razão em exigir que um artista deva ter uma atitude inteligente em relação ao seu trabalho, mas confundem duas coisas: resolver um problema e enunciar correctamente um problema. Para o artista, só a segunda cláusula é obrigatória. 

Acusam-me de ser objectivo, chamando-lhe indiferença em relação ao bem e ao mal, falta de ideias e ideais, etc. Querem que, ao descrever ladrões de cavalos, diga: «Roubar cavalos é mau». Mas isso é sabido há séculos sem que eu tenha de o dizer. Deixem que um júri os julgue; a minha tarefa é simplesmente mostrar que género de pessoas são. Escrevo: estão a lidar com ladrões de cavalos e, assim, deixem-me dizer-lhes que não são mendigos, mas gente bem alimentada que segue um culto especial e que roubar cavalos não é simplesmente roubo, mas uma paixão. Claro que seria agradável combinar arte com sermões, mas, quanto a mim, é impossível por questões técnicas. Para descrever ladrões de cavalos em setecentas linhas, tenho de falar, pensar e sentir à maneira deles. De outro modo, a história não será tão compacta como os contos deveriam ser. Quando escrevo, conto inteiramente com o leitor para que este acrescente os elementos subjectivos que faltam na história. 

Anton Tchekhov, in "Cartas"

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Decadência e violência no Rio de Janeiro


Artigo de José Eustáquio Diniz Alves
“Atenção, Tudo é perigoso (…)
É preciso estar atento e forte
Não temos tempo de temer a morte”
Divino Maravilhoso, Caetano Veloso

cartaz no Parque Lage alertando o perigo da trilha para o Corcovado
O Rio de Janeiro vive uma situação de decadência econômica, crise política, esgarçamento do tecido social, colapso dos serviços públicos, corrupção generaliza e banalização da violência. O rombo fiscal do Estado, de R$ 22 bilhões em 2017, é fruto da combinação de recessão econômica, retração nas atividades da indústria extrativa do petróleo, queda da arrecadação, déficit previdenciário e corrupção. Cresceu o desemprego, fábricas foram desativadas, lojas fechadas e a pobreza, a informalidade e a anomia social se espalharam pelo Estado e pelos municípios fluminenses.
Tudo isto acontecendo no Estado com a maior produção de petróleo do país. Cabe algumas perguntas aos dirigentes políticos que venderam o sonho da independência energética: Onde está a riqueza das jazidas profundas de petróleo? O Pré-sal não seria o passaporte para o futuro? O Pré-sal não seria o bilhete premiado que traria riqueza para a educação, a saúde e o desenvolvimento local?
Na verdade, qualquer pessoa com um pouco de bom senso sabia que os combustíveis fósseis localizados nas profundezas abissais distantes da costa brasileira era de alto custo de extração e só poderia gerar lucro se fosse bem administrado e contasse com preço elevado do barril de petróleo no mercado internacional.
Porém, como relatou o ex-todo-poderoso-ministro Antônio Palocci, em depoimento ao juiz Sergio Moro, o pré-sal pôs o governo Lula numa atitude frenética em relação a Petrobras e, antes mesmo de ver o combustível jorrar, passou a financiar a base partidária de apoio ao governo (presidencialismo de coalizão, cooptação e corrupção) e a fornecer os fundos econômicos para eleger a chapa Dilma-Temer em 2010 e 2014.
Em nome das riquezas do pré-sal, os governos Lula, Dilma e Sérgio Cabral prometeram maravilhas no Rio. O Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), na cidade de Itaboraí, ocupando uma área de 45Km², prometia ser o maior da América Latina a um custo de US$ 6,1 bilhões. Mas depois de gastar US$ 30,5 bilhões não produziu uma gota de gasolina e se constitui em um grande ferro velho a céu aberto, com custos crescentes para os contribuintes.
A construção do Porto do Açu, com 90 Km², “empreendimento” de Eike Batista, em São João da Barra, próxima a área dos campos mais produtivos de petróleo do país, foi mais um empreendimento fracassado. A empresa Sete Brasil, criada em 2010 para construir sondas de perfuração para a exploração do pré-sal e aluga-las para a Petrobras, entrou em recuperação judicial e a Petrobras, além de diminuir o uso das sondas, agora as compras no exterior.
Enquanto isto, como comprovado pelo Ministério Público e pela Polícia Federal, a quadrilha do governador Sérgio Cabral (que foi chorar na televisão por maior parcela dos royalties do petróleo) e seus asseclas, saqueava o Estado para manter um padrão de consumo ostentatório e ofensivo ao povo do Rio de Janeiro e do Brasil.
Os grandes eventos que prometiam fazer do Rio de Janeiro uma potência do turismo, serviu apenas para encher o bolso dos políticos e empresários corruptos. O Maracanã teve o seu espaço interno diminuído e o seu custo multiplicado. A corrupção das Olimpíadas está ficando cada vez mais transparente, enquanto os equipamentos bilionários estão se deteriorando e sem qualquer utilidade para o público que pagou os impostos.
Enfim, os governos que prometeram transformar o Brasil na quarta potência mundial, por meio do neodesenvolvimentismo, com base no “extrativismo progressista” e financiado pelas tenebrosas transações do BNDES, deixaram como herança maldita a maior e mais profunda recessão da história brasileira, além de 26 milhões de desempregados, o empobrecimento geral do país e o aumento da violência. O Rio de Janeiro (cidade olímpica) vive o caos, o medo e a pavorosa insegurança cotidiana.
Os casos de violência crescem de forma espantosa, com adolescentes mortos dentro da escola, estudantes vítimas de bala perdida, idosos agredidos até a morte, enquanto um bebê foi baleado dentro da barriga da mãe na Favela do Lixão. Os dados divulgados pelo Instituto de Segurança Pública (ISP), confirmam o expressivo aumento no número de crimes no Rio de Janeiro ao longo do primeiro semestre de 2017, em comparação ao mesmo período de 2016. Os casos de homicídio doloso passaram de 2.472 para 2.723, registrando um crescimento de 10,2%, os de latrocínio (roubo seguido de morte) aumentaram 21,2% (de 114 para 138 ocorrências) e os de homicídios decorrentes de oposição à intervenção policial tiveram um incremento ainda maior, de 45.3%, subindo de 400 para 581 casos. Mais de 100 policiais militares foram assassinados.
Devido à escalada da criminalidade, o Estado pediu socorro ao Governo Federal e cerca de 8.500 homens das Forças Armadas foram destacados no Rio. O popular jornal Extra, do Rio de Janeiro, lançou no dia 15 de agosto de 2017, uma nova editoria com o título: GUERRA (veja a imagem abaixo). Esta manchete gerou muita polêmica. Segundo o jornal El País, “O debate sobre se é guerra ou não é guerra acaba funcionando como uma espécie de cortina de fumaça do fracasso de políticas públicas ancoradas no confronto e que cobram um preço altíssimo da polícia e dos moradores”. Paulo Sérgio Pinheiro, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP, lamenta a naturalização do termo e, ainda mais, “a ocupação militar do Rio”. Segundo ele: “O crime organizado não pode ser enfrentado como se fosse uma guerra. Repito a mesma coisa desde 1984”.

Rio já perdeu 843 áreas para o crime

Podendo ou não utilizar o termo “guerra”, o fato é que a violência e o tráfico de drogas se espalham pela cidade. Na Rocinha, a maior favela da Zona Sul do Rio de Janeiro, viveu uma semana de violência depois da tentativa de invasão por traficantes rivais no domingo (17/09), teve a estrada Lagoa-Barra fechada na sexta-feira e chegou no domingo (24/07) em seu oitavo dia com operações policiais. O governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) e o secretário de Segurança Pública, Roberto Sá, pediram ao CML (Comando Militar do Leste) a atuação das forças militares na Rocinha. O cerco, foi autorizado pelo Ministério da Defesa, Raul Jungmann.
O povo carioca e fluminense está assustado. O cartaz indicado no início deste artigo mostra um aviso colocado no Parque Lage na trilha que leva ao Corcovado. Uma trilha ecológica, linda e que permite o convívio com a Floresta da Tijuca tem um aviso recomendando às pessoas não entrar numa zona de risco. Os cartazes abaixo mostram como a população do bairro de Santa Teresa está se mobilizando para avisar aos transeuntes sobre o perigo de assalto.

cartazes com alertas de assalto em Santa Teresa, RJ

As pichações nos muros de Santa Teresa não deixam dúvidas de que o perigo está em todo lugar e que a aplicação do direito de ir e vir está cada dia mais restringido pelo medo e pela precaução. Todas as pichações e cartazes das fotos estão próximos da rua Monte Alegre, do Parque das Ruínas e dos Arcos da Lapa, região turística e muito movimentada.

muros pichados com alertas de assalto em Santa Teresa, RJ

Artigo de María Martín, no jornal El País (23/09/2017) reproduz informações locais de que, o traficante Nem da Rocinha, preso desde 2011 e cumprindo pena numa cadeia federal de segurança máxima, teria ordenado a retomada do território do seu sucessor e ex-segurança, hoje desafeto, Rogério 157. O bando de Rogério 157 revidou e foram horas de confronto armado sem que as autoridades interviessem ou prevenissem o embate, apesar de terem reconhecido que detinham informações de inteligência sobre a iminência de uma invasão devido ao racha interno da facção. O fato é que a guerra do tráfico é apenas um elemento da decadência e da violência no Rio

a vida parou na Rocinha, mais um símbolo do colapso do Rio

Todos os erros cometidos, nos últimos dez anos, na exploração do Pré-sal, na Copa do Mundo, nas Olimpíadas e na gestão pública estão se manifestando hoje e fazendo sofrer os moradores do Estado e de sua capital. A “guerra” promovida pelos usurpadores do Palácio da Guanabara e dos escritórios luxuosos das empresas que se locupletam com as licitações públicas é mais danosa do que a “guerra” das favelas.
A violência que eclodiu na Rocinha e em outras comunidades do Rio de Janeiro nessa última semana não é um caso isolado e esporádico. No domingo (24/09), enquanto os tiroteios foram retomados na Rocinha, a violência deixou duas vítimas na Providência, no Centro (onde dois homens foram mortos) e um policial civil foi baleado. O compositor Caetano Veloso disse que era preciso estar atento e forte diante da ameaça da ditadura. Agora o perigo de morte vem de todos os lados e está presente em cada esquina, pois o Estado perdeu o “monopólio da força e da ordem”.
A decadência e a violência do Rio de Janeiro é o novo normal no dia a dia dos cariocas e fluminenses. As ações de segurança pública são nitidamente insuficientes, pois é impossível manter a paz pública numa situação de profunda crise fiscal, de desemprego e anomia, especialmente quando crescem as desigualdades e as práticas de corrupção por parte das autoridades constituídas e as elites econômicas.
A metrópole de São Sebastião do Rio de Janeiro, também conhecida como “Cidade (Divina) Maravilhosa” está virando, gradativamente, uma Cidade Perigosa e Perniciosa.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 25/09/2017

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

A REVOLUÇÃO ALEMÃ

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Para umas eleições que se previam plácidas e destinadas simplesmente a reiterar o status quo comandado pela líder conservadora alemã, há 12 anos no governo, a surpresa é total e quase equivale a uma pequena revolução. Afinal, como diz o ditado russo, é nos lagos plácidos que se esconde o diabo...
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No momento em que escrevo, ainda não há resultados finais, mas as projeções não enganam:


1. Merkel ganhou e foi reeleita, embora com menos votos do que esperava, tendo o seu pior resultado de sempre - a sua CDU/CSU, de centro-direita, não foi além de 33,2%, perdendo, de caminho, a Grande Coligação ao centro;

2. os seus parceiros sociais-democratas do SPD tiveram o pior resultado do último meio século (20,8%), deixando o governo;
3. a extrema-direita sobe para mais do dobro (13,1%), rompendo a cláusula de barreira e entrando no Parlamento pela primeira vez desde a Segunda Guerra mundial.

Para umas eleições que se previam plácidas e destinadas simplesmente a reiterar o status quo comandado pela líder conservadora alemã, há 12 anos no governo, a surpresa é total e quase equivale a uma pequena revolução. Afinal, como diz o ditado russo, é nos lagos plácidos que se esconde o diabo...

No mínimo, o establishment sofre um abanão, desfazendo-se a ideia instalada de que - houvesse o que houvesse - nada mudaria na direção política do país.

No rescaldo da noite, Merkel não escondia o desencanto com os resultados do escrutínio, confessando que “esperava um pouco mais”...


Sem maioria, a chanceler alemã vai ter agora que negociar uma difícil aliança entre a CDU/CSU, os liberais do FDP (13,2%) e os Verdes (9,3%) – nunca antes tentada a nível federal -e terá sobretudo de habituar-se a ter pela frente, no Bundestag, os aguerridos – e muitas vezes provocadores - nacionalistas da Alternativa para a Alemanha - AfD, que terão direito a uma bancada de quase 90 deputados!

Analistas locais consideram já que Berlim, sob pressão dessa força ascendente que agora ganha maior projeção política e mediática, “vai provavelmente inclinar-se à direita, sobretudo em questões de ordem e segurança”.

Merkel paga assim o preço da sua inicial política de portas abertas aos refugiados, que suscitou muitas críticas dentro e fora do país. Essa política, é verdade, foi depois corrigida, sendo introduzidas várias restrições à corrente migratória; mas o ressentimento manteve-se em largos setores da população, que deixaram de apoiar os partidos de centro, reforçando o voto nos nacionalistas. Como escrevia há dias o Der Spiegel, em amargo editorial, Merkel foi “a mãe da extrema-direita”.

Explorando um tema que lhe deu tão bons resultados, a líder da AfD, Alice Weidel, já anunciou que o seu partido irá pedir uma comissão parlamentar de inquérito sobre a política migratória de Merkel, a quem acusa de ter “colocado a Alemanha em perigo”, merecendo por isso ser julgada...

Entre os vencedores relativos da noite, há a destacar os liberais do velho FDP: conseguiram reemergir de uma série de anos de derrotas consecutivas, que quase colocaram em perigo a sua representação nacional. As projeções indicam que obterão 10% ou mais, a par do Linke, o partido da Esquerda, e dos Verdes, com 9% e 9,5% respectivamente.

Uma última nota para assinalar os reflexos do escrutínio alemão em termos europeus.

Mais debilitada no plano interno, com uma voz anti-euro dentro do próprio Bundestag, Berlim fica também mais enfraquecida no plano europeu, sendo questionável que possam, para já, avançar os projetos de reforço da integração com que os mais europeístas contavam. Adeus, mutualização das dívidas soberanas!

Como assinalou Machado de Assis, no romance Esaú e Jacó, a propósito da passagem da Monarquia à República, “as revoluções trazem sempre despesas...”

domingo, 24 de setembro de 2017

Uma Nação só Vive porque Pensa

Uma nação só vive porque pensa. Cogitat ergo est. A força e a riqueza não bastam para provar que uma nação vive duma vida que mereça ser glorificada na História - como rijos músculos num corpo e ouro farto numa bolsa não bastam para que um homem honre em si a Humanidade. Um reino de África, com guerreiros incontáveis nas suas aringas e incontáveis diamantes nas suas colinas, será sempre uma terra bravia e morta, que, para lucro da Civilização, os civilizados pisam e retalham tão desassombradamente como se sangra e se corta a rês bruta para nutrir o animal pensante. E por outro lado se o Egipto ou Tunis formassem resplandescentes centros de ciências, de literaturas e de artes, e, através de uma serena legião de homens geniais, incessantemente educassem o mundo - nenhuma nação mesmo nesta idade do ferro e de força, ousaria ocupar como um campo maninho e sem dono esses solos augustos donde se elevasse, para tornar as almas melhores, o enxame sublime das ideias e das formas. 

Só na verdade o pensamento e a sua criação suprema, a ciência, a literatura, as artes, dão grandeza aos Povos, atraem para eles universal reverência e carinho, e, formando dentro deles o tesouro de verdades e de belezas que o Mundo precisa, os tornam perante o Mundo sacrossantos. Que diferença há, realmente, entre Paris e Chicago? São duas palpitantes e produtivas cidades - onde os palácios, as instituições, os parques, as riquezas, se equivalem soberbamente. Porque forma pois Paris um foco crepitante de Civilização que irresistivelmente fascina a Humanidade - e porque tem Chicago apenas sobre a terra o valor de um rude e formidável celeiro onde se procura a farinha e o grão? 

Porque Paris, além dos palácios, das instituições e das riquezas de que Chicago também justamente se gloria, possui a mais um grupo especial de homens -Renan, Pasteur, Taine, Berthelot, Coppée, Bonnat, Falguières, Gounot, Massenet - que pela incessante produção do seu cérebro convertem a banal cidade que habitam num centro de soberano ensino. Se as Origens do Cristianismo, o Fausto, as telas de Bonnat, os mármores de Falguières, nos viessem de além dos mares, da nova e monumental Chicago - para Chicago, e não para Paris, se voltariam, como as plantas para o Sol, os espíritos e os corações da Terra. 

Se uma nação, portanto, só tem a superioridade porque tem pensamento, todo aquele que venha revelar na nossa pátria um novo homem de original pensar concorre patrioticamente para lhe aumentar a única grandeza que a tornará respeitada, a única beleza que a tornará amada; - e é como quem aos seus templos juntasse mais um sacrário ou sobre as suas muralhas erguesse mais um castelo. 


Eça de Queirós, in 'A Correspondência de Fradique Mendes'