"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 6 de janeiro de 2018

Ler o poema de Gilgamesh pode ajudá-lo a entender melhor a história da literatura

Ler o poema de Gilgamesh pode ajudá-lo a entender melhor a história da literatura

"Esqueça a morte e busque a vida!" são as palavras de encorajamento com que Gilgamesh, a estrela do épico de 4000 anos de idade, marca o primeiro slogan heroico da história.
Ao mesmo tempo, este jovem rei resume as reflexões sobre a mortalidade e a humanidade que residem no coração do poema épico mais antigo do mundoEmbora muitas coisas tenham mudado desde então, os temas deste épico ainda são muito relevantes para os leitores modernos.
Dependendo de como você quer entender isso, a história de Gilgamesh pode ser considerada como uma biografia baseada no mito de um rei lendário, uma história de amor, uma comédia, uma tragédia, uma aventura emocionante ou mesmo uma antologia de histórias sobre a origem de a civilização.
Todos esses elementos estão presentes na narrativa e a diversidade textual só é superada pelo seu refinamento literário. Se levarmos em conta a antiguidade do trabalho, é surpreendente ver como esse poema épico consegue misturar magistralmente dúvidas existenciais, imagens vivas e personagens dinâmicos.
A história começa com Gilgamesh reinando na cidade de Uruk como um tirano. Para mantê-lo ocupado, os deuses da Mesopotâmia criam-no um companheiro: Enkidu, um homem selvagem e peludo.
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Gilgamesh pretende humanizar Enkidu e, por isso, confia-o a uma semana de sexo com a sábia sacerdotisa Shamhat (cujo nome na língua akkadiana sugere beleza e voluptuosidade).
Gilgamesh e Enkidu tornam-se inseparáveis ​​e se lançam em busca da eterna fama e glóriaAs aventuras dos heróis perturbaram os deuses, que fazem a Enkidu uma morte precoce.
A morte de Enkidu é um ponto de viragem na narrativa da história porque o amor fraternal entre Gilgamesh e Enkidu transforma o protagonista e a morte de Enkidu deixa-o sozinho e temendo sua própria mortalidade.
O herói se disfarça com a pele de um leão e viaja para encontrar Utanapishtim, um velho que sobreviveu à grande inundação (muitas vezes comparado ao personagem Noé da Bíblia). Depois de fazer uma jornada perigosa pelas águas da morte, Gilgamesh finalmente encontra Utanapisthim e pede o segredo da imortalidade.
Em um dos primeiros anti-clímax na história da literatura, Utanapishtim diz-lhe que não o tem e a história termina com Gilgamesh voltando para casa para a cidade de Uruk.

Atenção mental da Mesopotâmia

O que Gilgamesh e suas aventuras só pode ser descrita em superlativos: durante suas viagens célebres, o herói enfrenta divindades e monstros, encontra (e perde) o segredo da eterna juventude e viaja até os confins do mundo.
Apesar dos fantásticos elementos da história e seu protagonista, Gilgamesh ainda é um personagem muito humano que experimenta os mesmos desmastros, limitações e pequenos prazeres que confirmam as características universais da condição humana.
Gilgamesh explora a natureza e o significado de ser humano e se pergunta muitas coisas que ainda são questões de debate hoje: qual o significado da vida e do amorO que é realmente a vida e se estou vivendo corretamente? Como podemos assumir a brevidade e a incerteza da vida e como podemos lidar com as perdas?
O texto fornece muitas respostas, permitindo ao leitor refletir sobre eles junto com o herói. Um dos melhores conselhos vem de Siduri, a deusa da cerveja (sim, uma deusa da cerveja), que sugere que Gilgamesh se concentre menos no prolongamento da vida e aconselha-o a desfrutar os pequenos prazeres de vida, como a companhia de entes queridos, boa comida e roupas limpas. Talvez o que ele realmente esteja fazendo é dar-lhe conselhos sobre um tipo de atenção mental da Mesopotâmia.
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O poema épico também oferece ao leitor uma suposição prática muito útil sobre o que não fazer se você se encontrar na circunstância excepcional de ter que reinar na antiga cidade de Uruk. Na Mesopotâmia antiga, o rei teve que se comportar corretamente se quisesse manter a paz na terra e no céu.
Apesar da importância de suas obrigações reais, Gilgamesh parece fazer tudo errado: mata Humbaba, o guardião ambiental protegido pelos deuses e saqueia sua valiosa floresta de cedros. Ele também insulta Ishtar, a bela deusa do amor e termina com o poderoso Touro do Céu.
Encontra a chave para a eterna juventude, mas perdeu logo depois por uma cobra que passou (aproveitando a oportunidade para explicar como a cobra "nasceu de novo" depois de mover a pele). Apesar desses contratempos, Gilgamesh busca fama e imortalidade, mas o que ele encontra é o amor de seu companheiro, Enkidu, bem como uma profunda compreensão dos limites dos seres humanos e a importância do sentimento de comunidade.

Recepção e recuperação

poema de Gilgamesh era extremamente famoso na antiguidade e seu impacto pode ser visto em muitas narrativas literárias posteriores, como nos poemas homéricos e na Bíblia hebraicaNo entanto, nos nossos dias, até mesmo os leitores mais eruditos da literatura antiga teriam problemas para resumir seu conteúdo ou até mesmo nomear seus protagonistas.
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Qual é o motivo dessa amnésia na cultura moderna em torno de uma das obras mais importantes da literatura antiga?
A resposta reside na forma como a história foi recebida ao longo do tempo. Enquanto muitas das ótimas obras da Grécia antiga e da Roma antiga foram estudadas de forma contínua ao longo do desenvolvimento da cultura ocidental, o Poema de Gilgamesh vem de uma era no esquecimento.
A história tem sua origem na Mesopotâmia, uma área da antiguidade localizada no Próximo Oriente que corresponde aproximadamente aos países modernos do Iraque e do Kuwait, bem como partes da Síria, Irã e Turquia. A mesopotâmia é conhecida como "o berço da civilização" por causa do seu sistema agrícola e suas primeiras cidades.
A história de Gilgamesh foi escrita em escrita cuneiforme, o sistema de escrita mais antigo conhecido. Os fragmentos mais antigos da história de Gilgamesh provêm de cinco poemas sumérios e existem outras versões de textos escritos em Elamita, Hitita e Hurrian. A versão mais conhecida é a versão babilônica padrão, escrita em Akkadian (uma linguagem que usava escrita cuneiforme e funcionava como linguagem diplomática durante o segundo milênio aC).
O desaparecimento do sistema de escrita cuneiforme para o primeiro século d.C. acelerou a queda de Gilgamesh para o anonimato.
Por quase dois milênios, as placas de argila contendo as histórias de Gilgamesh e seus companheiros foram perdidas e enterradas junto com milhares de outros textos em escrita cuneiforme sob as ruínas da grande biblioteca de Asurbanipal.
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A redescoberta moderna do poema foi um momento decisivo para entender como era o Oriente Próximo na antiguidade. O primeiro a traduzir a tábua XI do poema foi o acadêmico George Smith, do Museu Britânico, em 1872, após ter aprendido sozinho a escrita cuneiforme. Smith descobriu a presença de uma história sobre uma inundação na antiga Babilônia que teve um paralelo impressionante com a história sobre a inundação em Gênesis da Bíblia.
Muitas histórias contam (embora seja um pouco apócrifa) que, quando Smith começou a decifrar a tábua, ficou tão nervoso que teve que tirar todas as suas roupas. Desde o início do processo em meados do século XIX, a recuperação do catálogo de literatura cuneiforme continua até hoje.
Em 2015, a publicação de um novo fragmento da tableta V por Andrew George e Farouk Al-Rawi foi uma notícia internacionalA descoberta desse fragmento coincidiu com o aumento da sensibilidade global à destruição das antiguidades no Oriente Médio durante o mesmo ano. O Washington Post fez uma comparação entre a "história móvel" do achado e a destruição e saque que estava ocorrendo na Síria e no Iraque.

Ecologia antiga

A nova seção da tábua V contém aspectos ecológicos que correspondem a preocupações modernas sobre a destruição do meio ambiente. Claro, existem anacronismos possíveis se tentarmos prever preocupações ambientais em um texto antigo escrito há milhares de anos antes da revolução industrial
No entanto, não há dúvida de que há muita susceptibilidade na representação da fauna e da flora no poema, especialmente se levarmos em consideração a longa história de como tratamos o meio ambiente e os animais que a habitam.
sUma floresta de cedros na Turquia.
Em Gilgamesh, a natureza é um lugar de beleza e pureza, bem como uma casa para abundantes fauna e flora. O esplendor e grandeza da floresta dos cedros é descrito poeticamente na tabela V:
(Gilgamesh e Enkidu) ficou maravilhados com a floresta,
Observando a altura dos cedros ...
Contemplaram a Montanha dos Cedros, a habitação dos deuses, a plataforma do trono das deusas ...
Doce era sua sombra, cheia de prazeres.
Quando os heróis param para admirar a beleza da floresta, seu interesse não é puramente estético. Gilgamesh e Enkidu estão conscientes do valor econômico dos cedros e o texto fornece uma imagem clara do conflito entre interesses comerciais e ecológicos.

Onde ler Gilgamesh

Como Gilgamesh reapareceu na consciência popular durante os últimos séculos, a versão babilônica padrão do poema está disponível em muitas traduções e o original foi feito pelo sacerdote, escriba e exorcista, Sin-leqi-unini em 1100 aC.
O texto favorito para estudiosos é o livro de Andrew George em inglês. O Épico Gilgamesh Babilônico: Introdução, Edição Crítica e Textos Cuneiformes (2003) .
Apesar de ser um trabalho de grande prestígio em todos os aspectos, com seus dois volumes é muito extenso e o leitor mais casual achará mais fácil a versão Epic of Gilgamesh: A New Translation (1999) pelo mesmo autor. A versão que é melhor lida entre todas as interpretações modernas é a de David Ferry Gilgamesh: A New Rendering in English Verse (1992) porque dá uma interpretação poética e poderosa ao material original.
Como a serpente que rouba Gilgamesh da planta de rejuvenescimento, o Poema de Gilgamesh envelheceu bem: os temas da história lidam com as tensões entre o mundo natural e civilizado, o poder do amor verdadeiro e as dúvidas sobre o motivo Consiste em uma boa vida. Todas essas questões são tão relevantes quanto eram há 4.000 anos.


Autor: Louise Pryke, professora de linguagem e literatura do antigo Israel, Universidade de Macquarie.
Este artigo foi originalmente publicado em The Conversation . Você pode ler o artigo original aqui .


sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Uma mão sem cérebro





A imagem pode conter: 1 pessoa, sorrindo

Há quem infantilmente confunda um governo de autoridade com um governo feito à medida de um sub-chefe de esquadra. Perdi, literalmente, duas horas a ouvir meia dúzia de entrevistas e discursos de Bolsonaro, candidato à presidência do Brasil. Não compreendo, sinceramente, como pode a maior potência do hemisfério sul e sexta economia mundial contentar-se com um homem semi-analfabeto e sem qualquer projecto, para além de desbocamentos de mesa de café. Para Bolsonaro, o Brasil precisa de autoridade. Muito bem, mas que autoridade? Limita-se a prometer repressão, prisões e mão forte, mas sem jamais se interrogar sobre as causas do caos, da violência e da criminalidade a que está exposta aquela população entregue à rapina de uma elite sôfrega e aos pilantrinhas e trombadinhas que descem diariamente das favelas para a safra de cordões e carteiras.

Dizem os seus adversários que Bolsonaro quer uma ditadura. Ora, sejamos francos, pois há boas e más ditaduras, sendo que as primeiras surgem da necessidade de operar grandes reformas económicas, sociais e educativas que de outra forma não se poderiam realizar. Entre estas boas ditaduras lembro Getúlio, esse grande estadista que reinventou o Brasil e lhe assegurou vinte anos de paz, progresso, justiça social e respeito internacional. Getúlio tinha uma ideia do Brasil, um programa e um rumo. Bolsonaro quer repressão. É uma mão sem cérebro.

É evidente que depois de Lula e da patética Dilma - que afinal não era corrupta, mas tão somente idiota - o Brasil precisa urgentemente de um sinal que lhe aponte um rumo. Infelizmente, este Bolsonaro promete-lhe apenas o porrete dos proprietários contra o canivete do povo de pé-rapado.

Anitta, feminismo e arte contra arte

Anitta declarou em entrevista a agência de notícias francesa AFP ser feminista, e daí? pode-se dizer, é um modismo, mas essa declaração neste caso específico não passa de marketing barato de uma empresária com boa capacidade de lucrar no cenário dos hits instantâneos, mesmo sem cantar nada; dizendo-se feminista ela se isenta da crítica artística e se encasula na caixa política de uma armadilha onde a cultura vira instrumento dialético para a política comportamental.

O povo não produz mais cultura, apenas recebe o que os estúdios mandam, a arte popular morreu. Tudo que se populariza como arte se encaixota em classificações de tiranias político-dialéticas. Os intelectualoides se esguelam defendendo o funk, não por qualquer expressão artística, mas pela causa política de degeneração da sociedade. A crítica de arte morreu, o que resta é a defesa de tudo no sentido de que se deve aceitar, é  a arte de rebanho, não precisa mais primar pela grandeza da produção, já que a crítica resta impedida de cumprir seu papel. É uma censura ao contrário.

Se se pegar uma "letra" de um funkeiro ou de banda de forró e na análise dizer que não há poesia nenhuma naquilo vão dizer ou que é preconceituoso ou que a música pertence ao gosto individual de cada um. Embora creiam que só compramos coisas porque somos imbecilizados pelo "sistema". A teoria, ou as teorias, que se sustentam em cima de uma recusa do mundo real, só se sustentam como totalitarismos. 

A arte perdeu o sentido artístico, virou instrumento político. A disputa política passou para o campo puro da cultura. A arte "engajada" apenas serve para passar a mensagem política, principalmente, os comportamentos que se quer ver estabelecidos. O político-artista é um inimigo da arte, toda a música, poesia e teatro são estragadas pelo fechamento do mundo em torno da pequena caixa ideológica que mantêm o pensamento desse tipo de imbecil.

A arte sempre fora um provocador da política, libertando o mundo do formalismo da política, o totalitarismo, desde Platão, é censurador da arte. Na pós-modernidade a censura deixou de vir da política e esta passou a se infiltrar na arte tirando sua autonomia.




Brasil e China: o desafio de enriquecer antes de envelhecer

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

renda per capita e índice de envelhecimento, Brasil e China: 1980-2015

Todo país rico – isto é, com alta qualidade de vida e elevado Índice de Desenvolvimento Humano (IDH acima de 0,87) – passou pela transição demográfica e aproveitou a janela de oportunidade gerada pela mudança da estrutura etária da pirâmide populacional. Não existe exceção. A transição demográfica é fundamental para o enriquecimento de qualquer país em função de dois vetores: 1) redução das taxas de mortalidade; e 2) redução das taxas de fecundidade.
A redução da taxa bruta de mortalidade é fundamental para o desenvolvimento por vários aspectos. Primeiro, é preciso considerar que toda morte significa uma perda. Segundo, a diminuição da mortalidade infantil é uma condição essencial para evitar o trauma da perda precoce de um filho e para evitar que as mulheres em período reprodutivo passem muito tempo se dedicando às tarefas de reprodução. Terceiro, a queda das taxas de mortalidade de adultos aumenta a esperança de vida e permite que as pessoas tenham mais tempo para se dedicar às tarefas produtivas.
Já a redução das taxas de fecundidade é fundamental para a redução do tamanho das famílias e para a possibilidade da mobilidade intergeracional ascendente. Casais com menor número de filhos, em geral, conseguem aumentar o investimento em seu próprio capital humano e na saúde e educação das crianças, aumentando os retornos futuros para toda a família.
Além do mais, a transição demográfica gera necessariamente uma janela de oportunidade com a modificação da estrutura etária, via redução da base da pirâmide etária e aumento da proporção de pessoas em idade produtiva. Este fenômeno conhecido como bônus demográfico é fundamental para a decolagem do desenvolvimento econômico e social de qualquer nação. O bônus demográfico só acontece uma vez na história de cada país e o seu aproveitamento é a condição para o enriquecimento antes do envelhecimento populacional.
O Brasil e a China são dois países que estão tentando aproveitar o bônus demográfico para erradicar a pobreza e dar um salto na qualidade de vida de seus habitantes. O gráfico abaixo mostra que o Índice de Envelhecimento (pessoas de 65 anos e mais sobre as pessoas de 0 a 14 anos) tem aumentado nos dois países, mas com maior rapidez na China, pois a transição demográfica está mais avançada no gigante asiático.
O Índice de Envelhecimento, em 1980, estava em 9,7 idosos (65 anos e mais) para cada 100 crianças e adolescentes (0-14 anos) no Brasil e em 12,4 na China. Em 2015, o IE subiu para 34 no Brasil e 55,4 na China. Em 2025, o IE deve ficar em 58 no Brasil e 87 na China. Portanto a China está passando por um processo de envelhecimento populacional em ritmo mais acelerado do que o Brasil. O IE deve ultrapassar a barreira simbólica de 100 (quando o número de idosos é maior do que o número de crianças e adolescentes) pouco antes de 2030 na China e pouco antes de 2040 no Brasil. Se a data de início do envelhecimento for considerada 60 anos, então estas datas devem ocorrer ainda mais cedo.
É exatamente neste período no qual o IE está abaixo de 100 que acontece o bônus demográfico e em que a janela de oportunidade permite que se dê o salto no processo de desenvolvimento econômico e social. Ou se aproveita este momento histórico ou o sonho do enriquecimento se perde para sempre.
A China é um país que tem aproveitado bem o seu bônus demográfico e o Brasil aproveitou apenas parcialmente. Em 1980, a renda per capita do Brasil (em poder de paridade de compra – ppp) era de US$ 4,8 mil, enquanto a renda per capita da China era de apenas US$ 0,3 mil (300 dólares), segundo dados do Fundo Monetário Internacional. Ou seja, o Brasil tinha uma renda per capita quase 16 vezes maior do que a renda per capita chinesa.
Em 2016, a renda per capita brasileira chegou a US$ 15 mil, mas foi ultrapassada pela renda per capita chinesa que chegou a US$ 15,1 mil. As projeções do FMI indicam que em 2021 a renda per capita chinesa será de US$ 21,7 mil e a do Brasil será de US$ 17,1 mil. Em 41 anos da janela de oportunidade, a renda per capita corrente do Brasil terá sido multiplicada por um fator de 3,6 vezes, enquanto a renda per capita da China terá sido multiplicada por um fator de 71 vezes. Mesmo tendo um ritmo mais acelerado do avanço do envelhecimento populacional, a China conseguiu avançar bem mais do que o Brasil.
Tudo indica que a renda per capita chinesa, mesmo com uma população de quase 1,4 bilhão de habitantes, vai ultrapassar os US$ 30 mil per capita, antes do IE atingir a cifra de 100 idosos (65 anos e +) para cada 100 crianças e adolescentes (0-14 anos). Ou seja, a China deve atingir o grupo de países de alta renda antes de ficar envelhecida. A economia chinesa tem indicadores relativamente sólidos na área de comércio internacional, nas taxas de investimento, na melhoria das condições de saneamento básico e, principalmente, na área de educação e no avanço científico e tecnológico.
Já o Brasil tem apresentado ganhos modestos no crescimento da renda e a década de 2011-20 já pode ser chamada de segunda década perdida, pois haverá decréscimo da renda per capita. Além do mais, o Brasil tem vários problemas sociais para resolver, um sistema educacional de baixa qualidade e a economia brasileira não tem baixa produtividade e enfrenta um déficit fiscal de grandes proporções. A dívida interna brasileira pode comprometer o futuro do país. Assim é grande a possibilidade de o Brasil envelhecer antes de ficar rico. Seria uma derrota monumental e agravaria o bem-estar das gerações presentes e futuras.
O Brasil pode ficar preso para sempre na chamada “armadilha da renda média”, sem nunca dar o salto para o clube das nações mais ricas do globo. A atual crise econômica brasileira pode comprometer, definitivamente, as perspectivas de um alto padrão de vida para a maioria da população e uma perspectiva de uma velhice plenamente saudável e confortável. O alto nível de desemprego e a baixa qualidade da educação brasileira estão provocando o fim precoce do bônus demográfico e será quase impossível arranjar uma mágica para o Brasil se tornar um país plenamente desenvolvido na nova configuração sociodemográfica.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 05/01/2018

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Afinal, o que é que se passa no Irão?

Pretender responder a esta questão - com a escassa informação disponível - de forma peremptória e sem possibilidade de erro, é impossível. Exige-se cautela e cuidado extremos na análise, mas é possível digerir alguns dados concretos. 

Mais de duas dezenas de mortos e várias centenas de detidos, é por agora o balanço conhecido dos confrontos e da repressão exercida pelo regime

Publicada por José Manuel Rosendo em meu Mundo minha Aldeia.

É, sem dúvida, um momento difícil para a grande potência xiita do Médio Oriente, pelo menos em termos da imagem que está a circular nos media ocidentais.
Estamos a falar de um país com mais de 80 milhões de habitantes, com a segunda maior reserva mundial de gás e a quarta maior reserva mundial de petróleo. É também o país com o qual as grandes potências assinaram um Acordo Nuclear que, agora, Donald Trump (e Israel) quer rasgar. Os Estados Unidos nunca digeriram o que passou em 1979. Após mais de 50 anos de domínio da dinastia Pahlavi (com conhecida ajuda da CIA), o Irão passou a República Islâmica com a revolução de 1979 e, por esses dias, a Embaixada norte-americana em Teerão foi palco de um braço-de-ferro com meia centena de reféns durante mais de um ano e com uma operação militar de resgate falhada por Washington.
Até muito recentemente o Irão foi alvo de sanções internacionais já parcialmente levantadas, mas os Estados Unidos mantêm um vasto leque de sanções contra Teerão. A queda dos preços do petróleo também não ajudou a economia iraniana e em 2015 a austeridade fez-se sentir no Orçamento. As agências internacionais referem um desemprego de 12,5% sendo que 25% dos jovens estão sem emprego. O rendimento médio por pessoa caiu de quase 7.000 dólares em 2013, para 5.470 dólares em 2016 (dados do Banco Mundial). O Presidente Hassan Rouhani chegou ao poder com a promessa de melhorar a economia e as liberdades civis, mas estas manifestações podem ser o sinal de grande frustração com a situação no país.
Como funciona o complexo sistema iraniano?
Instituições não eleitas:
Líder Supremo – Escolhido por uma Assembleia de Peritos que vigia a sua actuação e tem poderes para o afastar. O Líder Supremo nomeia juízes, o Conselho dos Guardiões, o comandante das Forças Armadas e também os líderes da oração de sexta-feira bem como os directores da rádio e da televisão.
Assembleia de Peritos – mandato dos membros é de oito anos e realiza, em média, duas sessões por ano.
Conselho do Discernimento – Organismo Consultivo do Líder Supremo que nomeia os membros desta Instituição. Tem poder de arbitragem nas disputas sobre legislação entre o Parlamento e o Conselho dos Guardiões.
Sistema de Justiça – o líder é nomeado pelo Líder Supremo. A Lei é baseada na Sharia.

Instituições eleitas:
Conselho dos Guardiões – Considerada a mais influente instituição iraniana. Seis teólogos nomeados pelo Líder Supremo e outros seis pelos juízes e aprovados pelo Parlamento. Ratifica e pode vetar as leis produzidas pelo Parlamento. Tem poder de decisão sobre candidatos que pretendem concorrer a eleições.
Presidente – Eleito pelo povo mas os candidatos têm de ser aprovados pelo Conselho dos Guardiões. É o chefe do Governo e o responsável pela aplicação da Constituição.
Governo – É escolhido pelo Presidente mas tem de ser aprovado pelo Parlamento.
Parlamento – Deputados eleitos a cada quatro anos, mas a legislação que produz é sujeita a ratificação.
É este conjunto de instituições que exerce o poder no Irão. Religião e política são uma e a mesma coisa ou não tivesse sido o anterior Ayatollah Khomeini a dizer: “Tudo no Islão é política”!
É dentro desse Islão político que surgem as recentes manifestações, precisamente em Mashhad, segunda cidade do país e berço do actual Líder Supremo. A primeira ideia que fica é a de que foram provocadas por um sentimento de revolta comum a países submetidos à austeridade: há desemprego, há incerteza e houve, recentemente, um anúncio de aumento dos combustíveis.
Aparentemente, apenas há três origens possíveis para os protestos: a influência estrangeira (como acusa o regime), a oposição conservadora rival da corrente liderada pelo actual presidente Rouhani ou, hipótese aparentemente mais remota, uma revolta popular genuína com a intenção de tentar fazer cair o regime e provocar uma revolução.
Não se conhecendo a origem (política) dos protestos é certo que estão a ganhar dimensão e a alastrar. É também certo que são distintos dos que tiveram lugar em 2009 e, desta vez, visam símbolos do regime e há palavras de ordem como “morte ao ditador”.
O Presidente Hassan Rouhani teve um discurso conciliador dizendo que é preciso dar espaço aos iranianos para que possam exprimir as suas inquietações, mas condenando a violência; quanto ao Supremo Líder, acusou os inimigos do Irão de estarem a provocar as manifestações. 
Aqui chegados, convém passarmos as fronteiras do Irão e perceber o que se passa na zona de influência xiita: o Irão está a vencer em vários palcos de conflito. Descodificando: está a vencer no Iraque, aliado do Governo de Bagdad que derrotou o Estado Islâmico; está a vencer na Síria, aliado do Governo de Bashar al Assad que se aguentou no poder; está a vencer no Líbano, aliado do poderoso Hezbollah que – se quiser – controla o país, e onde foi revertida a demissão do Primeiro-Ministro, Saad Hariri, que se tinha demitido em Riad por clara pressão da Arábia Saudita; no Yémen, estando ou não o Irão envolvido no apoio aos Houthis, é certo que as coisas não estão a correr bem para a rival regional Arábia Saudita. É este o cenário regional que certamente não agrada aos Estados Unidos (e a Israel). E quando um país não pode ser derrotado nas guerras que disputa no exterior, talvez possa ser derrotado internamente. Talvez...
Entretanto, mais de duas dezenas de mortos e várias centenas de detidos, é por agora o balanço conhecido dos confrontos e da repressão exercida pelo regime.
Pinhal Novo, 3 de Janeiro de 2018
(link is external)
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quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

O paradoxo da indústria moderna e a lei do retorno da indústria ao crédito interno

Carlos Magno - Cofecon

Em 1999, Regis Bonelli e Robson Gonçalves, em “Padrões de desenvolvimento industrial no Brasil-1980/1995”, fizeram um trabalho exaustivo sobre a queda persistente do valor adicionado da indústria brasileira no PIB desde 1980 a 1995. Dentre as conclusões eis uma basilar: “em outros termos, essa ‘desindustrialização’ deve ser encarada como um fenômeno inerente ao próprio desenvolvimento industrial”.
O estudo compara a evolução do VAI (Valor Adicionado da Indústria) brasileiro ao de doze países desenvolvidos, onde a indústria é tida como madura, inclusive Estados Unidos da América, Alemanha, Itália, Inglaterra e Japão. O fenômeno se repete: decrescimento do VAI ao longo dos anos estudados. A tabela I demonstra isso, de 1980 a 1995.
Em 2014, o IBRE/FGV demonstrou que o VAI brasileiro era de 10,80%, portanto 1/3 do de 1980, e que a participação do VAI brasileiro de 2014 era o mesmo de 1947, ou seja, de 67 anos atrás.
       


Tabela I




Valor adicionado na Industria Brasileira de 1980 a 2014







Brasil
Media de 12 paises desenvolvidos




1980
31,10%
24%




1985
20%
23,70%




1990
23%
22,30%




1995
22,70%
20,50%




2014
10,80%





2015
10,47%





2016
10,15%





2017
9,84%












Fonte: Unido(1997) e Banco Mundial (1996)






de Padrões de Desenvolvimento Industrial no Brasil-1980 a 1995






Por Regis Bonelli e Robson Goncalves.






Fonte:IBRE,FGV, em Valor.com.br em 25.12.2015







Com base nos dados anteriores, fiz uma projeção para os três anos seguintes: 2015, 2016 e 2017, e verificamos que a tendência seria de decrescimento, conforme Tabela I.
Como analisar esses fatos à luz dos dados inconsistentes? Quais são as informações essenciais que acompanham tamanha transformação na indústria brasileira moderna? Nós vamos partir de uma equação singela:  o valor adicionado criado é igual ao valor adicionado distribuído.
Os dados do valor adicionado criado no período são os dados da participação do PIB industrial no PIB brasileiro. É de decrescimento. Para os dados do valor adicionado distribuído tomaremos como variável aproximada a participação do emprego na indústria brasileira de 1980 em diante, vis a vis a participação do emprego no setor de serviço e comércio, com dados do IBGE. O que se verifica é uma mudança estrutural, isto é, a transferência de mão de obra do setor industrial para o de serviço/comércio
      


Tabela 2




Emprego na Industria e Comercio & Serviço





Industria
 %
Com e Serv
 %
total
1980
10674977
0,60091
7089709
0,39909
17764686
1991
7449383
0,632126
4335261
0,367874
11784644
2000
14497950
0,427368
19425844
0,572632
33923794
2010
18210678
0,444563
22752465
0,555437
40963143
.Fonte: IBGE
Em 30 anos, de um total de 17,7 milhões de trabalhadores empregados nos dois setores: indústria e comercio& serviços em 1980, saltou para 40,9 milhões de trabalhadores em 2010, sendo que a partição desse pessoal ocupado se inverteu ao longo dos trinta anos. De uma participação majoritária da indústria, com 60% em 1980, passou para uma participação minoritária, de 44,4% em 2010. A tendência à maior integração de mão de obra e de recursos da indústria ao serviço&comércio no Brasil se verifica também no mundo civilizado, conforme Regis Bonelli e Gonçalves, 1999.
Se maior integração da Indústria/Serviço implica em menor valor adicionado distribuído para a classe trabalhadora, isso implicou também emmaior capacidade produtiva da moderna indústria brasileira ao longo de 1980 em diante. A partir do consumo da energia elétrica em tonelada equivalente de petróleo, de 1980 em diante, dados extraídos do Balanço de Energia Nacional do Ministério de Minas e Energia e do quadro de trabalhadores envolvidos na indústria e no serviço/comércio para o mesmo período, verifica-se que a planta industrial brasileira medida pela intensividade do uso da energia versus mão de obra empregada passou de um patamar de 1,58 para 2,08, e que serviços/comércio passou de 0,11 para 0,13. Isto é, as plantas industriais estão mais automatizadas a partir do maior consumo de energia no período, logo com maior poder de produção. E no setor comércio/serviço verifica-se um maior consumo de energia (trabalho morto) no período, mas a demanda por trabalhadores (trabalho vivo) foi maior, conforme dados da tabela 3.
C
Tabela 3

Energia Versus Emprego



Industrtia
Com&Serv
1980
1,588148
0,114426
1990                     e 1991
1,48199
17,18%
2010
2,085361
0,131296
Fonte : IBGE e BNE,MME



Eis o paradoxo da indústria moderna brasileira, maior capacidade de produção e menor valor adicionado criado, e consequentemente menor valor adicionado distribuído. Ao lado da maior integração com o setor de serviço/comércio há que se observar o fenômeno da terceirização dos serviços da indústria no período. Conforme pesquisa FIRJAN, SEBRE, FGV e outros em 2007, junto a 416 indústrias brasileiras, envolvendo um contingente de 495.940 trabalhadores, verificou-se que 71,42% dos respondentes iriam terceirizar as áreas de gestão em 2015 nos seguintes itens: Tecnologia da Informação, Contabilidade, Jurídica, Recursos Humanos, Serviços Gerais e Financeira. E 95,7% dos respondentes iriam terceirizar, em 2015, a área operacional nos itens: Produção, Manutenção, Engenharia, Qualidade, Meio Ambiente e P&D.
Para o valor adicionado distribuído pela indústria não se encerra apenas para a classe trabalhadora, mas também para o capital próprio e para o Estado. Se medirmos a arrecadação do IPI em relação ao PIB, ou em relação à arrecadação total pela Receita Federal, constataremos isso no período a partir de 1980, embora os dados que se dispõe sejam de 2011 a 2016. Envolvendo a arrecadação de IPI de nove (9) setores que mais contribuem: Bebidas; Fumo; Química; Borracha e Matéria Plástica; Veículos, Reboques e Carrocerias; Celulose, Papel e Produtos de papel; Metalurgia; Comércio e Reparação de Veículos Automotores e Motocicletas; Comércio Atacadista, Exceto Veículos Automotores e Motocicletas.


  
Tabela 4
   
 Ano
IPI
Arrecad. Tributaria exceto a Previenciaria
2011
33340

667325

5,00%
2012
32433

689767

4,70%
2013
32885

768724

4,28%
2014
35321

788923

4,48%
2015
33998

826843

4,11%
2016
30320

883262

3,43%

Fonte: Receita Federal. Em milhões de reais





Em apenas seis (6) anos, a arrecadação relativa do IPI decresceu -6,06 ao ano, de 2011 a 2016, passando de um patamar de 5% para apenas 3,43% do total da arrecadação da Receita Federal. Se a comparação for feita a partir de 1980, o decréscimo deve ser maior seja qual for o indicador, pelo IPI/PIB ou pela IPI/Arrecadação da Receita Federal.
Contudo esses dados da relação dos impostos com o descenso do VAI comportam mais de uma leitura: há que se levar em consideração a rentabilidade do capital próprio que depende do nível de utilização da capacidade instalada, do mark up industrial praticado, e do custo financeiro do passivo industrial. Na pior das hipóteses, isso significa maior propensão da indústria para o crédito, tanto o dirigido quando o crédito livre.
O crédito para o giro do negócio quanto o de financiamento de longo prazo é fundamental nesta hora. Segundo declaração do diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos da FIESP, Paulo Francini, ao Diário de Pernambuco, em 1/3/2017: “As condições de crédito continuam muito ruins e, para a indústria, são piores. As empresas estão em grandes dificuldades conhecidas pelos bancos”. Mais que na crise, o Estado é a primeira vítima. Deixa-se de pagar impostos.
Diante do quadro exposto, do paradoxo da indústria brasileira, e a da redução do valor adicionado criado e distribuído, é que se propõe a lei do retorno do crédito interno para a indústria brasileira. A partir de uma equação simples: tempo de contribuição do imposto devido seja igual ao tempo de comprometimento de pagamento de capital de giro ou de financiamento a médio e longo prazo.
É óbvio que os detalhes desta lei devem ser estabelecidos pelos representantes da indústria, pelos políticos e pelos governos: estaduais e União. Por exemplo, haveria um limite mínimo e máximo de contribuição.

Carlos Magno – Economista e escritor.