"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 29 de dezembro de 2018

Natureza vs. Infraestrutura

O século XXI será um período de expansão de infra-estrutura sem precedentes, e serão gastos impressionantes US $ 90 trilhões nos próximos 15 anos para construir ou substituir barragens, usinas de energia e outras instalações. A única maneira de evitar projetos ambientalmente imprudentes é reconhecer o verdadeiro valor da natureza.

MAXWELL GOMERA


Em novembro de 2017, cientistas que trabalhavam em Sumatra, na Indonésia, fizeram um anúncio emocionante: descobriram uma nova espécie de orangotango, elevando para sete o número de espécies de grandes primatas no mundo.

Mas um ano depois, a única casa dos 800 orangotangos selvagens de Tapanuli está sendo liberada para uma usina hidrelétrica de US $ 1,6 bilhão. Embora o projeto contribua com menos de 1% da capacidade de geração planejada do país, os cientistas dizem que isso levará à extinção dessa espécie rara. Isso levanta, mais uma vez, uma questão fundamental: o que vale a natureza?

A Indonésia não está sozinha em fazer concessões prejudiciais ao meio ambiente. O século XXI será um período de expansão de infra-estrutura sem precedentes, e serão gastos impressionantes US $ 90 trilhões nos próximos 15 anos para construir ou substituir barragens, usinas de energia e outras instalações. Na verdade, mais infra-estrutura será construída na próxima década e meia do que existe atualmente. Naturalmente, os habitats serão interrompidos no processo.

E, no entanto, o crescimento ambientalmente imprudente não é predeterminado; é possível fazer escolhas inteligentes e sustentáveis. Para isso, precisamos reconhecer o verdadeiro valor da natureza e fazer das análises de ética ambiental e custo-benefício parte de cada projeto.

No momento, isso não está acontecendo; a maior parte da infraestrutura é planejada e construída com base em avaliações de mercado que não levam em conta a natureza. Como resultado, o mundo está enfrentando uma crise crescente: o enfraquecimento dos serviços ecossistêmicos - como água limpa, defesa contra enchentes e polinização das abelhas - que protegem a biodiversidade e formam a base da qual depende o bem-estar humano.

Para mudar o status quo, devemos fazer uma escolha ética para não expor os habitats críticos e o “capital natural” a um perigo maior - independentemente dos possíveis retornos econômicos. Assim como a maioria do mundo rejeitou o uso de trabalho escravo ou infantil, a destruição permanente da natureza deve ser repudiada.

Alguns economistas reconheceram isso construindo custos ambientais em seus argumentos; a floresta amazônica é um exemplo disso. Lá, o desmatamento reduziu a produção de nuvens de vapor que são essenciais para o transporte de chuva na América do Sul. Acredita-se que a seca que sediou São Paulo entre 2014 e 2017 foi causada, pelo menos em parte, pela ausência desses “rios voadores”. Como observou o cientista climático brasileiro Antonio Nobre, se essas bombas de água estão permanentemente ligadas off, uma área que representa 70% do produto nacional bruto da América do Sul seria transformada em deserto.

É claro que identificar capital natural crítico é um desafio, especialmente em escalas menores. Embora muitos possam concordar com a importância de proteger a Amazônia, é mais difícil demonstrar o valor da preservação de orangotangos na Indonésia. Mas, com o tempo, a perda do habitat do orangotango Tapanuli mudaria profundamente a composição da floresta tropical e prejudicaria seus serviços ecológicos. Ao mesmo tempo, a eliminação de uma espécie de grande macaco - nossos parentes mais próximos - apagaria uma oportunidade de entender melhor nossa própria evolução e genética.

No mundo desenvolvido, alguns governos e empresas estão fazendo a escolha ética aplicando o “princípio da precaução” ao crescimento. Adotado em 1992 como parte da Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, o princípio consubstancia a conclusão de que é mais sábio - e, em última instância, mais barato - evitar a degradação ambiental em primeiro lugar.

O verdadeiro desafio é incutir esse espírito nas economias em desenvolvimento, onde a maior parte dos gastos futuros com infraestrutura ocorrerá. Considere o desenvolvimento de rodovias. Até 2050, haverá 15,5 milhões de milhas de novas estradas pavimentadas, o suficiente para circundar a Terra mais de 600 vezes. Mais de 90% deste pavimento fresco será colocado em países em desenvolvimento, que já enfrentam uma enorme pressão ambiental. Na região amazônica, por exemplo, existem quase 53.000 arrendamentos de mineração, abrangendo 21% da massa terrestre da bacia. Na Guiné, uma represa apoiada pelo Banco Mundial está ameaçando um importante santuário de chimpanzés. E na Tanzânia, o governo aprovou uma represa e usina hidrelétrica na Reserva de Caça Selous, um Patrimônio Mundial da UNESCO.

Com as necessidades humanas aumentando à medida que as populações e as rendas crescem, há razões legítimas para construir mais infra-estrutura. Mas, se as tendências atuais continuarem, os interesses de curto prazo eliminarão os ativos naturais dos quais toda a vida depende. Para planejar um desenvolvimento inteligente, governos e empresas devem reconhecer o papel da natureza no apoio à atividade econômica e na garantia da saúde humana e ecológica. Afinal de contas, nós não - e não podemos - viver em um mundo onde a natureza não tem valor.




Maxwell Gomera, um membro do Aspen New Voices de 2018, é diretor da Divisão de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.

Cresce a presença de mulheres chefes de família entre os idosos no Brasil

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

O Brasil passou por uma mudança significativa na relação de poder no seio das famílias nos primeiros 15 anos do século XXI. Enquanto o total de famílias brasileiras aumentou 39% em 15 anos, passando de 51,5 milhões em 2001 para 71,3 milhões em 2015, as famílias chefiadas por mulheres dobrou em termos absolutos, subindo de 14,1 milhões em 2001 para 28,9 milhões em 2015, um aumento relativo de 105%. Em termos percentuais, as famílias chefiadas por homens diminuiu de 72,6% em 2001 para 59.5% em 2015, enquanto o percentual de famílias chefiadas por mulheres subiu de 27,4% para 40,5%, no mesmo período.
Mas este aumento não foi uniforme entre os diversos grupos etários. A distribuição por idade das mulheres chefes de família tem a forma de um “U”, ou seja, as percentagens são mais altas nos extremos das idades e mais baixas no meio, como pode ser observado no gráfico abaixo. Em 2001, este formato era mais acentuado e a percentagem de chefias femininas era mais elevada entre as adolescentes e as idosas. Em 2015, houve um aumento nos grupos etários intermediários, diminuindo bastante a envergadura da forma em “U”.
No grupo etário de 15 a 19 anos o percentual de mulheres chefiando as famílias era de 55,6% em 2001 e passou para 57,6% em 2015. Isto acontece porque muitas dessas mulheres são adolescentes com filhos que não possuem cônjuge e moram com os pais, fruto das altas taxas de fecundidade na adolescência, que apesar da diminuição na última década, apresenta um nível elevado e incompatível com a baixa taxa de fecundidade total. Nos grupos etários entre 25 e 59 anos a percentagem fica abaixo de 40%.

distribuição relativa das famílias chefiadas por mulheres

Entre as idosas (60 anos e mais), ao longo do curso de vida, o percentual de mulheres chefes de família volta a ficar acima da média para o conjunto das idades. Isto ocorre porque cresce novamente o percentual de famílias monoparentais femininas em decorrência de separações ou viuvez e o percentual de mulheres vivendo sozinhas. O fato é que, depois de adultas, a chefia feminina cresce com a idade e, entre os idosos brasileiros, há quase paridade (50%/50%) entre as chefias entre homens e mulheres.
A tabela abaixo mostra que o percentual de mulheres chefes de família na população como um todo, em 2001, era de 27,4% e entre a população idosa era de 37,8%. Em 2015, estes percentuais subiram para 40,5% e 45,5%. Devido ao processo de envelhecimento populacional, o percentual de chefias idosas aumentou entre 2001 e 2015, com os homens idosos chefes passando de 16,9% para 24,2% e as mulheres chefes idosas passando de 27,2% para 29,6%.

distribuição absoluta e relativa de chefes de família entre idosos

Em 2001, havia 6,3 milhões de homens idosos chefes de família, número que passou para 10,3 milhões em 2015, um aumento de 62,7% em 15 anos. Já as chefias femininas entre os idosos passou de 3,8 milhões em 2001 para 8,6 milhões em 2015, um aumento de 123,6%.
O perfil dos chefes de família, por sexo, foi descrito no livro “Mulheres Chefes de Família no Brasil: Avanços e Desafios”, dos autores Suzana Cavenaghi e José Eustáquio Alves e publicado pela Escola Nacional de Seguros, no Dia Internacional da Mulher, 08 de março de 2018. O estudo (que pode ser acesso livremente), indicou que o grande crescimento da chefia feminina entre 2001 e 2015 não se deve apenas aos fatores clássicos de empoderamento feminino – como a educação e o emprego – mas também aos indicadores de maior envolvimento com as responsabilidades domésticas.
Indubitavelmente, o Brasil passa por um reordenamento da estrutura de poder no seio das famílias. Quer seja por oportunidades, fatalidades ou conveniências diversas, há uma tendência para uma maior equidade entre homens e mulheres nos arranjos familiares no país. E o interessante é que a maior equidade de gênero ocorre com mais força entre a população idosa.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Referência:
CAVENAGHI, S., ALVES, JED. Mulheres Chefes de Família no Brasil: Avanços e Desafios, Rio de Janeiro, ENS-CPES, 2018. http://www.funenseg.org.br/arquivos/mulheres-chefes-de-familia-no-brasil-estudo-sobre-seguro-edicao-32_1.pdf


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 28/12/2018

Dessalinizar os cérebros



Artigo de Roberto Malvezzi (Gogó)

A técnica de dessalinização em pequenas unidades está espalhada pelo Semiárido Brasileiro. Marina Silva, quando ministra do Meio Ambiente do governo Lula, criou o programa “Água Doce”, exatamente utilizando essa técnica.
A dessalinização é complicada porque gera de 40% a 60% de rejeitos altamente salinizados que é de difícil descarte. Uma das possibilidades utilizadas pelos técnicos brasileiros foi o reaproveitamento como alimento de plantas e animais. Em muitos lugares a técnica funciona.
O que mudou o Semiárido Brasileiro nos últimos anos foi a captação da água de chuva em cisternas para beber e produzir. O Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC) e Uma Terra e Duas Águas (P1+2) replicaram mais de 1 milhão de vezes tecnologias apropriadas para essa finalidade, principalmente as cisternas de placas. Basta fazer um gráfico da implantação dessas políticas públicas, comparando-as com a elevação do IDH da região que a tendência de alta coincide com exatidão. Claro, junto vieram as políticas de energia, telefonia, internet, outras adutoras, elevação do salário mínimo, Minha Casa Minha Vida e o Bolsa Família. Aqui reside a política que nenhum governo anterior jamais fez.
O presidente eleito desse país diz que vai trazer a técnica de dessalinização em um programa conjunto com Israel. Os técnicos e cientistas da Embrapa Semiárido e universidades nordestinas há décadas fazem intercâmbio com Israel. Portanto, não é novidade.
Além do mais, o Semiárido Brasileiro tem 1 milhão de Km2, enquanto Israel tem pouco mais de 20 mil km2, portanto, cabem 50 Israel dentro de nosso Semiárido. Para completar, nosso Semiárido é o mais chuvoso do planeta com uma precipitação anual em torno de 700 mm, enquanto Israel mal chega a 100 mm anualmente. Por isso, nas últimas décadas foi desenvolvido o paradigma da “Convivência com o Semiárido”, inspirado em Celso Furtado no seu discurso inaugural da Sudene em 1959, mas tirado do papel e ganhado carne com iniciativas da sociedade civil.
Junto com a captação da água de chuva a sociedade civil nordestina defendeu a distribuição da água acumulada por adutoras simples. Prevaleceu a grande obra da Transposição, que tem problema sérios de operacionalização, impacto no rio São Francisco, mas que aumentou a oferta de água na Paraíba.
Há décadas sabemos que a seca é um fenômeno natural, assim como o gelo nas regiões frias. Não se combate a seca, mas se convive com o ambiente que é semiárido. Só os ultrapassados em conhecimento e em história ainda falam em combater a seca.
O Brasil já tem o conhecimento e as técnicas para resolver todos os problemas do Semiárido. Bastaria continuar implantando os programas de Convivência com o Semiárido e, se necessário, criar outros. Portanto, é uma questão política. Mas, parece ser mais fácil dessalinizar toda água do mar que certos cérebros que estão no comando desse país.

Roberto Malvezzi (Gogó)*, Articulista do Portal EcoDebate, possui formação em Filosofia, Teologia e Estudos Sociais. Atua na Equipe CPP/CPT do São Francisco. Membro da Equipe de Assessoria da REPAM (Rede Eclesial Pan Amazônica)


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 28/12/2018

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Economia do Brasil pode crescer 2% em 2019, revela relatório regional

Média da expansão na América Latina e o Caribe será de 1,7%; Cepal prevê maior crescimento entre os países para ilha de Dominica, com 9%; projeções para Venezuela, Nicarágua e Argentina apontam para contração no próximo ano.

A Comissão Econômica da América Latina e do Caribe, Cepal, projeta um crescimento de 2% na economia do Brasil. Na outra grande economia da região, o México, a expectativa é de 2,1% de expansão.
O Balanço Preliminar das Economias da América Latina e do Caribe, lançado recentemente em Santiago, Chile, projeta uma dinâmica de crescimento com intensidades distintas entre países e sub-regiões.

Consumo e investimento

Essa situação se deve aos impactos diferenciados do contexto internacional em cada economia e à dinâmica dos componentes dos gastos, principalmente o consumo e o investimento que seguem padrões distintos entre as economias do norte e as do sul.
Em nível sub-regional, a América Central deve crescer 3,3% em 2019. A América do Sul, 1,4% e o Caribe, 2,1%.  
A maior expansão entre os países seria na ilha de Dominica, com 9%. A seguir estariam a República Dominicana com 5,7%, o Panamá com 5,6%, a Antígua e Barbuda com 4,7% e a Guiana com 4,6%.
A expectativa é de que a economia da Venezuela registre uma contração de 10%, a Nicarágua de 2% e a Argentina de 1,8%.

Crescimento

A comissão da ONU revela que no ano de 2019 as incertezas econômicas mundiais serão maiores e provenientes de diferentes áreas. O impacto será sentido na expansão da economia da América Latina e do Caribe que, em média, deve crescer 1,7%. A previsão inicial de crescimento em 2019 anunciada em outubro passado era de 1,8%.
A secretária-executiva da Cepal, Alicia Bárcena, disse que é preciso contar com políticas públicas para reforçar as fontes de crescimento e fazer frente ao panorama de incerteza em nível global.
Para a chefe da Cepal é necessário fortalecer o papel ativo da política fiscal da região em relação às receitas e aos gastos. A recomendação é reduzir a economia ilegal, a evasão fiscal e os fluxos financeiros ilícitos. Ao mesmo tempo “é preciso fortalecer os impostos diretos e os impostos do tipo verdes.”
Segundo o estudo, a região da América Latina e do Caribe enfrentará um cenário econômico mundial complexo nos próximos anos com a previsão de uma redução da dinâmica do crescimento, tanto dos países desenvolvidos como das economias emergentes.
Foto: Meridith Kohut/Irin/ Expectativa é de que a economia da Venezuela registre uma contração de 10%
Mercados
Essa situação deve ser acompanhada pelo aumento na fragilidade dos mercados financeiros internacionais, pelo enfraquecimento estrutural do comércio internacional e pelas tensões comerciais entre os Estados Unidos e a China.
O maior risco em termos do desempenho na economia em nível regional para 2019 é a piora repentina das condições financeiras para as economias emergentes.
Em 2018, mercados emergentes como a América Latina foram marcados pela redução nos fluxos de financiamento externo por causa do aumento de risco soberano e da perda de valor das moedas em relação ao dólar.
Segundo a Cepal não podem ser descartados novos episódios de piora nas condições financeiras futuras.  Também não podem ser desconsiderados os efeitos sobre os países que dependerão da exposição destes em termos de suas necessidades e perfis de financiamento externo.
*Com reportagem da ONU Brasil

sábado, 22 de dezembro de 2018

A menor influência da religião é essencial para o desenvolvimento econômico

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

series temporais de secularização versus PIB

Os estudos acadêmicos mostram que os países seculares tendem a ser mais ricos e menos desiguais do que os religiosos. Mas o que vem primeiro e qual o sentido da causalidade?
É a secularização que antecede ao enriquecimento e ao bem-estar de um país ou é o desenvolvimento econômico que possibilita o aumento da secularização?
O sociólogo francês, Emile Durkheim (1858-1917), acreditava que o desenvolvimento econômico antecede o processo de secularização. Ele considerava que, no passado, a religião atendia as funções práticas da sociedade, como educação, saúde e bem-estar. Mas quando as sociedades prosperavam passavam a cumprir essas funções sozinhas e a religião se deslocava do ambiente público para o ambiente privado.
Por outro lado, o sociólogo alemão Max Weber (1864-1920) argumentava que a mudança religiosa vinha primeiro. Ele mostrou que a Reforma Protestante possibilitou o aumento das taxas de poupança e investimento, viabilizando um grande aumento da produtividade, o que possibilitou a melhoria econômica das nações, por conta da “ética protestante do trabalho”.
Qual dos dois está correto historicamente? A decolagem do desenvolvimento ocorre via religião ou via secularização?
Para responder a essas perguntas, o artigo de Damian Ruck et al. (18 Jul 2018), “Religious change preceded economic change in the 20th century”, reuniu inúmeras evidências da antropologia, ciência política e neurociência (as crenças e opiniões das pessoas se formam e endurecem durante as primeiras décadas de suas vidas). Eles consideram que a crença religiosa de uma pessoa sempre refletirá seus anos de formação. Então, para saber o quão religioso o mundo era na década de 1950, basta olhar como as pessoas religiosas amadureceram durante a década de 1950.
Os autores fizeram isso reunindo quesitos do European Values Survey e do World Values Survey, que perguntaram às pessoas em todo o mundo sobre sua religiosidade desde 1990. Ao reunir dados para pessoas que atingiram a maioridade em diferentes décadas do século XX, eles conseguiram criar uma nova linha temporal de secularização. Depois compararam isso com 100 anos de dados econômicos. A imagem acima mostra que, na Grã-Bretanha, Nigéria, Chile e Filipinas pelo menos, a linha vermelha de secularização lidera a linha azul de desenvolvimento econômico. A análise estatística apresentada no artigo mostra que esse é o caso em todos os 109 países que foram estudados.
Portanto, o artigo mostra que, no século XX, a secularização ocorreu antes do desenvolvimento econômico e não o contrário. Embora isso não prove que a secularização torne o país mais rico, descarta o contrário. A seta do tempo aponta em uma direção, pois o processo de secularização influencia o desempenho econômico. Assim, os autores dizem “A mensagem é cristalina: a secularização ocorre antes do desenvolvimento econômico e não depois dele”
Evidentemente, qualquer sociedade humana possui uma cacofonia de causas, efeitos e fenômenos emergentes dinâmicos. Procurar uma causa única para qualquer coisa nessa arena é um jogo perdido. Mas a explicação da secularização se sustenta no fato de o respeito pelos direitos dos individuais e a tolerância social é o triunfo moral da revolução humanitária e fornece a “vantagem” que as sociedades precisam para alcançar a prosperidade econômica. Um respeito pelos direitos individuais requer tolerância à homossexualidade, ao aborto e ao divórcio, e mostramos que as sociedades seculares só se tornam prósperas depois de terem desenvolvido um maior respeito por esses direitos individuais, sociais e políticos.
Todavia, há também países como os EUA e os países católicos da Europa que se tornaram economicamente prósperos, mas a religião continua importante. Nestes casos as instituições religiosas se tornaram, ao longo do século XX, uma força menos conservadora e abraçaram os valores culturais modernos. Assim, indubitavelmente, elas podem fornecer orientação moral para as sociedades economicamente prósperas do futuro.
Artigo de Charu Bahri (18/08/2018) mostra que se a Índia descartar as crenças religiosas que perpetuam as desigualdades de castas e gênero, ela pode mais do que dobrar o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) per capita dos últimos 60 anos, na metade do tempo.
Parece que todas estas lições não são de conhecimento da assessora do senador Magno Malta (PR-ES) e futura titular do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos do governo do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL). Damares Alves, em fala de maio de 2016, disse: “Chegou a nossa hora. […] É o momento de a Igreja ocupar a nação. É o momento de a Igreja dizer à nação a que viemos. É o momento de a Igreja governar”.
A história mostra que o enfraquecimento do Estado laico só compromete a perspectiva de desenvolvimento socioeconômico e o avanço do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). De fato, não há exemplos de nações que se enriqueceram e avançaram em termos científicos e tecnológicos com base na imposição de dogmas religiosos rígidos, qualquer que seja a religião.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Referências:
Damian Ruck et al. Religious change preceded economic change in the 20th century, Science Advances, Vol. 4, no. 7, 18 Jul 2018

Charu Bahri. India Can Double Its Per Capita GDP In 30 Years By Turning More Secular, August 18, 2018

ALVES, JED, CAVENAGHI, S, BARROS, LFW, CARVALHO, A.A. Distribuição espacial da transição religiosa no Brasil, Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 29, n. 2, 2017, pp: 215-242


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 21/12/2018

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Implicações éticas da IA: a responsabilidade das empresas, dos formuladores de políticas e da sociedade?

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por Frederick Ahen


Não podemos banalizar o poder e a importância da inteligência artificial (IA) na economia moderna. Também não podemos legitimar tudo o que pode ser usado em toda a Europa e além. IA, juntamente com o trans-humanismo e afins, é a próxima fronteira da quarta revolução industrial (Indústria 4.0). Todos eles têm o potencial de transformar a compreensão da humanidade sobre si mesma de maneiras que o mundo nunca conheceu.

O mercado da IA ​​é enorme. A especialização necessária no campo está crescendo exponencialmente; na verdade, as empresas não conseguem atender à demanda de especialistas. As contribuições da IA ​​para as economias avançadas e emergentes são significativas e também alimentam outros campos que antes dependiam do trabalho manual com processos extremamente lentos. Por exemplo, a agricultura de precisão agora usa drones para ajudar a irrigar e monitorar o crescimento das plantas, remover ervas daninhas e cuidar de plantas individuais. É assim que o mundo está sendo alimentado. Jornalistas estão usando drones para procurar a verdade em áreas remotas. Carros sem motorista estão sendo testados. Os drones estão fazendo maravilhas nas áreas de logística e cadeia de suprimentos. Mas drones também são usados ​​para matar, policiar e rastrear atividades criminosas. Existem muitas outras vantagens da IA ​​no setor de saúde, cuidados com idosos e medicina de precisão. As máquinas de IA têm a capacidade de fazer as coisas com mais eficiência do que os humanos ou até mesmo de trilhar espaços que são mais perigosos para os humanos. Este é o evangelho. É pegar ou largar.

Mas há mais para o acima. O que também é verdade é que "o mundo é um negócio" e negócios são políticas que controlam a ciência, a tecnologia e a disseminação de informações. Essas três entidades sabem como subliminarmente manipular, acalmar, gerenciar e moldar sentimentos públicos sobre qualquer coisa. Eles controlam o quanto de conhecimento podemos ter e quem pode ser difamado por conhecer ou falar a verdade, exigindo uma abordagem ética para a produção e o uso de IA ou se transformou em um herói por girar a verdade.

Além disso, a IA depende maciçamente dos dados para imitar os humanos. Aqui, as questões de violação de privacidade surgem porque a liberdade dos indivíduos como cidadãos privados desapareceu há muito tempo como em uma distopia Orwelliana. Incontáveis ​​desculpas foram emitidas por empresas de tecnologia por violações anteriores e até mesmo pela venda de dados privados. Além disso, a perfeição constante da IA ​​irá substituir muitos trabalhos muito rapidamente? Outros acham que a IA preferirá nos permitir dedicar mais tempo a esforços criativos. Somos instados a não desesperar, pois estes são apenas sintomas de avanço. Atualmente, no entanto, tais consolações são apenas conjeturas e não fatos. Não é hora de ajustar nossos currículos educacionais para refletir essa mudança? É de se perguntar por que esses problemas prementes não fazem parte das preocupações dos eleitores.



Muitas incógnitas

O que não sabemos é que existem hierarquias na relevância de coisas que importam para a corporação ou até mesmo para uma nova start-up de IA. O resultado financeiro está no topo de tudo. É a necessidade de sobreviver batendo a concorrência. Trata-se de ser o maior, o melhor e o mais inovador, para evitar novas tecnologias disruptivas que relegam os operadores históricos à linha lateral. Trata-se de atrair mais investidores e maior participação de mercado ou arrebanhar uma fatia da fatia global da marca AI. Mais importante ainda, a IA como a mais recente fronteira do avanço médico-tecnocientífico significa que as nações que prosperam nela são vistas como as mais avançadas. É bom para a reputação. Essas coisas importam mais do que quem irá sofrer por causa da IA. Na era da responsabilização, as pessoas precisam saber que estão sozinhas.

Outra falácia é que não sabemos o suficiente sobre a IA. O público pode não saber, mas significa que as empresas que o fabricam ou os governos que o compram ou patrocinam para seu complexo industrial militar não sabem quais as consequências potenciais que a IA é capaz de produzir?

Os formuladores de políticas estão muito atrasados ​​na regulamentação da IA. Como regulamos o que sabemos pouco? Quem deve ensiná-los se não é do interesse daqueles que se beneficiam? Se a indústria é dona da legislatura por meio de lobbying, como regulamos qualquer coisa e pedimos responsabilidade social corporativa (CSR) (que é classicamente fracassada no nascimento porque é voluntária)? A IA não é apenas para nos ajudar a fazer as coisas melhor, mais rapidamente e com maior eficiência. Devemos reconhecer o uso multi-propósito da IA, a fim de ter um mínimo de compreensão de sua complexidade e do motivo original por trás dela. Não podemos deixar isso para o CSR. Legislação obrigatória e regulamentações do setor devem acompanhar essa nova mudança e mais pessoas devem ser educadas para entender com o que estamos lidando.
Nós devemos viver com isso lidando com isso

AI está aqui para ficar ou pelo menos os tecnólogos, políticos da indústria e investidores decidiram que sim. Por si só, a IA é uma boa ferramenta, mas o que os humanos e os governos fazem com ela é outra completamente diferente. Qual é a responsabilidade da firma em produzir e usar AI? O autoritarismo digital, a onisciência e a onipresença da vigilância em massa vão dominar?

Há muita emoção no ar sobre o potencial infinito que a IA proporciona. Mas vivemos em um mundo em que as regras monetárias e a ética são consideradas um problema de fraqueza. Se Adam Smith, Joseph Schumpeter, Chydenius aqui, quais seriam suas opiniões sobre a IA? A economia, o empreendedorismo, as inovações e liberdades associadas à IA em vidas humanas ainda estão se desdobrando. Esses pensadores e economistas talvez falem sobre as instituições que moldam os ecossistemas empreendedores da IA. Kant também entrará em contato com seu sermão "maior bem" - mas quem ou o que será este maior ser? Ele não está aqui, então temos que responder.

Então, a questão é: quais políticas industriais promoverão o uso adequado da IA ​​para o bem maior através da responsabilidade ética em meio a lucros, poder, política e política? Ai de nós, se a AI cair nas mãos erradas. Devemos estar mitigando agressivamente as perspectivas de terroristas e criminosos que produzem e fazem uso da IA ​​de maneiras que afetarão a sociedade. Este é um apelo urgente à ação.



Frederick Ahen é pesquisador da Turku School of Economics, da Universidade de Turku, Departamento de Marketing e Negócios Internacionais. A pesquisa de Frederick abrange as áreas de governança de saúde global sustentável e o papel dos atores empresariais e não-comerciais em instituições em mudança.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Um modelo democrático para o Facebook

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por Henning Meyer 

O Facebook é regularmente noticiado como uma força que interrompe a política democrática em todo o mundo, mas e se a democracia pudesse ser o modelo para salvar o Facebook?

A rede social que conecta 2,2 bilhões de pessoas teve um período difícil nos últimos tempos. Desde a suposta interferência malévola de atores estrangeiros na última eleição presidencial dos Estados Unidos, através do escândalo da Cambridge Analytica até dados mais recentes e vazamentos de documentos, a empresa geralmente está fazendo manchetes por todas as razões erradas.

Um dos problemas mais persistentes que a empresa de Mark Zuckerberg teve que lidar é o discurso do ódio. De fato, parte do conteúdo distribuído no Facebook divide amargamente as sociedades e separa as pessoas em vez de conectá-las - o objetivo principal da rede social (“tornar o mundo mais aberto e conectado”, diz seu fundador). Tomar decisões sobre onde traçar a linha entre pontos de vista controversos, mas legítimos, e incitar o ódio não é, contudo, uma tarefa simples e a empresa tem lutado para lidar com regras e processos capazes de lidar com o problema. Uma ideia recente de Zuckerberg, no entanto, poderia mostrar o caminho para um interessante novo modelo de governança corporativa.


Ele quer estabelecer um órgão de apelação independente, apelidado na mídia de “Suprema Corte do Facebook”, por três razões principais. Primeiro, um órgão de apelação externo tomaria decisões longe do próprio Facebook. Segundo, criaria responsabilidade e supervisão. E, terceiro, um órgão independente garantiria que as decisões não fossem tomadas por razões comerciais, mas sim no melhor interesse da comunidade do Facebook.



Tribunal de Recurso

O ponto chave aqui é que Zuckerberg está, de fato, estabelecendo uma jurisdição independente que normalmente só é encontrada em sistemas políticos democráticos. E tal movimento faz todo o sentido para uma empresa que é frequentemente descrita como semelhante a uma nação global ou como o equivalente moderno da praça pública de antigamente. Mas o estabelecimento de um "tribunal de apelação" independente é suficiente para uma empresa com mais usuários do que os cidadãos de qualquer país? Ou o slogan “dar às pessoas o poder”, que é fundamental para a missão do Facebook, também significa que imitar mais instituições democráticas no modelo de governança corporativa de uma empresa de tamanho e escopo exclusivos do Facebook é o caminho a seguir?

O problema com os padrões da comunidade não é apenas a aplicação, mas, muitas vezes, o conteúdo de políticas diferentes. Mesmo se você consultar amplamente o que deve ser aceitável e o que não é, como o Facebook, a decisão final ainda é tomada pela própria empresa. Se o Facebook não apenas criasse uma instituição judicial, mas também criasse um processo legislativo digital que capacitasse seus usuários, as próprias políticas teriam uma fonte diferente de legitimidade e realmente “dariam às pessoas o poder”.

Criar tal processo não é claro, pois há diferenças culturais significativas entre os usuários do Facebook. Mas nenhuma das opções alternativas para resolver os problemas da empresa também é fácil. O Facebook já anunciou que está planejando permitir um grau de customização pessoal em que conteúdo é mostrado aos usuários, mas se a customização pessoal puder ser casada com uma legitimidade mais ampla das políticas gerais subjacentes, a empresa pode estar no caminho certo.

Não é por acaso que a longa divisão de poderes nos poderes executivo, legislativo e judiciário serviu bem às nações democráticas. Talvez adotar esse modelo comprovado para a governança de uma corporação que tenha as marcas de uma nação digital mais do que qualquer outra empresa no planeta seja o caminho a seguir. Definir políticas mais legítimas incluindo usuários diretamente no processo de tomada de decisão e fiscalizando essas políticas proativamente com melhores filtros de conteúdo de IA e reativamente por intervenção humana seria uma experiência interessante. Especialmente se um mecanismo de apelação semelhante a um tribunal independente fosse adicionado no topo.

No mínimo, vale a pena explorar esses novos conceitos de governança. O modelo atual fracassou claramente e é difícil ver como as futuras falhas podem ser evitadas sem a inovação da governança institucional. Como o próprio Zuckerberg afirmou em sua nota sobre governança e aplicação de conteúdo, essas são questões que não podem ser consertadas para sempre, mas apenas aprimoradas. No entanto, é muito melhor tentar melhorar com os usuários do que com os usuários.






Henning Meyer é editor-chefe da Social Europe e pesquisador associado do Public Policy Group da London School of Economics and Political Science. Ele também é diretor da consultoria New Global Strategy Ltd. e freqüentemente escreve editoriais de opinião para jornais internacionais como The Guardian, DIE ZEIT, The New York Times e El Pais.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Quarenta anos das reformas de Deng Xiaoping e o renascimento da China como potência

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

Uma China como potência assertiva, dominante e autoconfiante (além de pouco democrática) é a nova realidade das relações internacionais.

“Art. 1: Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade”
70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos (10/12/1948)

“A religião para mim é ciência e a ciência é religião”
203 anos do nascimento de Ada Lovelace (10/12/1815)

Um Cinturão, Uma Rota - nova rota da seda

A China é o país mais populoso do mundo e, atualmente, tem a maior economia, quando medida em poder de paridade de compra. Mas isto não é novidade para o gigante asiático que sempre foi uma grande nação e, até mesmo, uma grande civilização.
Durantes milênios a China foi líder em avanços científicos e tecnológicos, incluindo o desenvolvimento em áreas diversas como ciências naturais, engenharia, medicina, tecnologia militar, matemática, geologia e astronomia. Entre as várias conquistas estão as 4 grandes invenções: a bússola, a pólvora, o papel e a tipografia. A qualidade da cerâmica chinesa é reconhecida em todo o mundo. Em termos de filosofia, Confúcio (551 a.C. – 479 a.C.) é um pensador reconhecido globalmente até os dias de hoje.
Um símbolo do poder de empreender e mobilizar grandes recursos naturais e humanos é a Grande Muralha da China, que começou a ser construída entre os anos de 220 e 206 a.C. por Qin Shi Huang, o primeiro Imperador da China. Ao longo do tempo Grande Muralha foi ampliada e reconstruída, sendo que a maior parte do trecho existente nos dias de hoje foi obra da dinastia Ming (1368-1644).
Outro símbolo é a produção da seda e a comercialização mundial deste produto. A China começou a produzir seda por volta do ano 2700 a.C.. A sericultura e a produção da seda se transformaram em uma indústria próspera e que gerou um comércio global dinâmico, por meio da famosa rota da Seda.
A China também inovou na técnica de navegação e construção naval. No século XV a frota chinesa era a melhor e a maior do mundo, consistindo em mais de 200 navios e cerca de 27.800 marinheiros e soldados. O navegador Zheng He (1371-1433), navegou sete vezes pelo Sudeste Asiático e o Oceano Índico, entre 1405 até 1433. Portanto, muito antes dos portugueses, a China já tinha uma capacidade naval superior aos demais países. Contudo, o governo chinês da época não deu continuidade à navegação e preferiu reforçar as defesas no norte do país, contra as invasões mongóis.
A China continuou uma potência mundial até o final do século XVIII. Mas o declínio foi acentuado no século XIX, especialmente em função das ingerências ocidentais. O Reino Unido, que já dominava a Índia promoveu o comércio do ópio com a China, o que levou à Primeira Guerra do Ópio em 1840 e ao estabelecimento de concessões forçadas. Hong Kong foi cedida aos britânicos em 1842 pelo Tratado de Nanquim. A Segunda Guerra do Ópio ocorreu entre 1856-1860.
As duas Guerras do Ópio (e o narcotráfico inglês) foram desastrosas para o povo chinês. A China sofreu duas fomes extremas e teve a sua economia vilipendiada. Diante do colapso da economia e do agravamento dos problemas sociais, a população se mobilizou – inspirada nas ideias revolucionárias de Sun Yat-sen – e começaram a defender a derrubada da Dinastia Qing e a proclamação da república. Um levante militar levou à formação de um governo provisório da República da China em Nanquim, em 12 de março de 1912, sendo que Sun Yat-sen foi designado o primeiro presidente do país.
Em 1925, Chiang Kai-shek, assumiu o controle do Kuomintang (Partido Nacionalista, ou KMT) e conseguiu reunir sob seu governo a maior parte do sul e do centro da China. Entre 1931 e 1945 o Japão invadiu a China e anexou a Manchúria. Com o fim da Segunda Guerra Mundial a República chinesa entrou em guerra civil, sendo que o Partido Comunista Chinês (PCC), liderado por Mao Tsé-Tung (1893-1976), proclamou a República Popular da China, em primeiro de outubro de 1949. Em dezembro de 1949, Chiang Kai-shek e o que restava de seu governo refugiaram-se na ilha de Formosa, onde instalaram a China Nacionalista (Taiwan).
O PCC conseguiu unificar a China, mas implementou uma série de políticas que foram um desastre em termos econômicos e sociais. O Grande Salto para Frente – programa lançado entre 1958 e 1960 – visava transformar a China de um país agrário e atrasado em um país industrial, avançado e verdadeiramente socialista. Mas o resultado foi uma catástrofe que deixou o país mais pobre e provocou a morte de cerca de 30 milhões de pessoas. Na década de 1960, foi lançada a Revolução Cultural que gerou um caos no país e deixou a China ainda mais pobre e isolada no mundo (especialmente depois que se afastaram da URSS).
O quadro começou a mudar quando o presidente dos EUA, Richard Nixon, se encontrou com o líder chinês, Mao Tsé-Tung, em fevereiro de 1972, formando uma aliança que isolou a URSS e passou a reconfigurar a ordem mundial. Mas a China viveu um momento de turbulência após a morte de Mao, em 1976, e a Ascenção da chamada “Gang dos Quatro” (que incluía a viúva de Mao).
Mas o quadro só começou a mudar de fato quando Deng Xiaoping conseguiu implementar as reformas, de dezembro de 1978, que reconfiguraram o papel da China e possibilitaram a maior transformação já ocorrida em um país em um prazo tão curto de tempo. Em dezembro de 2018, os chineses comemoram os 40 anos das reformas e 40 anos de crescimento econômico que possibilitaram a retirada de mais de 1 bilhão de chineses da pobreza e transforam o país na maior economia do mundo (em poder de paridade de compra – ppp). Do ponto de vista do desenvolvimento econômico a China é o maior caso de sucesso (mas não do ponto de vista ambiental), o que só foi possível com as reformas de 1978.
Quando o círculo interno do Partido Comunista da China endossou uma nova direção para o país em dezembro de 1978, poucos teriam imaginado as imensas mudanças que seriam desencadeadas. O esforço de Deng Xiaoping por “reforma e abertura” lançou a ascensão da China dos destroços da Revolução Cultural à primeira economia (medida em ppp) do mundo. Em 29 de janeiro de 1979, a bandeira vermelha da China foi hasteada na Casa Branca, quando o presidente dos EUA, Jimmy Carter, recebeu Deng Xiaoping, o primeiro líder chinês a visitar os EUA desde a Revolução comunista de 1949. Essa visita simbolizou o fim do que Deng, então com 74 anos, descreveu como “período de desagrado entre nós por 30 anos”, mas também inaugurou uma nova era na geopolítica global.
Em Washington, Deng e Carter assinaram acordos trocando o reconhecimento diplomático dos Estados Unidos da República da China, em Taipei, para a República Popular da China, em Pequim. Deng também estava interessado em aprender com os EUA sobre formas de modernizar a China, fazendo paradas na Coca-Cola em Atlanta, Boeing em Seattle e Johnson Space Center da NASA no Texas. Estes eventos sinalizaram o fim do isolamento da China em relação ao mundo, bem como a determinação de Pequim de abrir suas portas ao Ocidente capitalista e uma aliança preferencial com os EUA.
O jornal South China Morning Post (SCMP, 12/11/2018) pergunta: “Foi a China que mudou o mundo ou o mundo mudou a China?”
Não há dúvida de que desde que Deng lançou a política de abertura em 1978, a China transformou-se de uma economia agrária, atrasada e politicamente isolada, na maior potência e candidata a liderar a economia do mundo, sendo um ator fundamental da governança global. Por exemplo, nos 30 anos de 1949 a 1978, apenas 200 mil chineses viajaram para o exterior. Contudo, somente em 2017, eles fizeram 130,5 milhões de viagens no exterior, enquanto estrangeiros fizeram 139 milhões de visitas à China. As estatísticas falam muito sobre como a China precisa do mundo e vice-versa (SCMP, 12/11/2018).
Com o objetivo de reconstruir a economia das ruínas da falência de três décadas de governo radical e ineficiente de Mao Tsé-Tung, Deng inaugurou uma nova diplomacia chinesa para se adequar à agenda doméstica de desenvolvimento econômico do país. Ele observou que a paz e o desenvolvimento eram os dois temas principais do mundo, substituindo a doutrina revolucionária da diplomacia de “Três Mundos” de Mao. A máxima de Mao era alinhar-se com as nações em desenvolvimento do “Terceiro Mundo”, unir as potências em desenvolvimento do “Segundo Mundo” e se opor às duas superpotências: o imperialismo americano e o imperialismo da União Soviética (URSS). Na verdade as relações entre China e URSS vinham se deteriorando ao longo do tempo.
Então, a política externa chinesa tornou-se mais ativa, pragmática e flexível, com esforços concentrados na melhoria das relações com o Ocidente e especialmente com os EUA. Além da visita de Deng aos EUA em 1979, o novo líder chinês fez uma viagem ao Japão – na época a segunda maior economia do mundo capitalista – para declarar a promulgação do Tratado de Paz e Amizade China-Japão com o primeiro-ministro japonês Takeo Fukuda; e também uma visita a Cingapura (de Lee Kuan Yew), na qual ele copiou as sementes para a replicação do modelo de Cingapura no desenvolvimento futuro da China.
Deng também melhorou as relações com outras potências ocidentais e as economias emergentes vizinhas – como os quatro tigres da Ásia: Coréia do Sul, Cingapura e as comunidades chinesas de Hong Kong e Taiwan. Deng sugeriu que toda a política externa deve servir primeiro ao desenvolvimento econômico da China. Desde então, todas as administrações – de Hu Yaobang, Zhao Ziyang, Jiang Zemin e Hu Jintao – seguiram sua diplomacia pragmática.
No entanto, a década de relação cordial com o Ocidente sofreu um severo revés após a sangrenta repressão militar de Pequim contra o movimento nacional pró-democracia em 4 de junho de 1989. O caráter autoritário do regime ficou às claras. No entanto, Deng logo reafirmou o compromisso de Pequim com as reformas de mercado e a política de abertura em um plenário do partido no final de junho de 1989.
Outro choque aconteceu com o colapso mundial do socialismo e do bloco soviético no início da década de 1990, o que mudou drasticamente a geopolítica global ao deixar a China como o último grande Estado governado pelo Partido Comunista. Com o fim da URSS, a China deixou de ser tão estratégica para o mundo capitalista. Ao mesmo tempo, Deng Xiaoping se negou a liderar uma coalisão das esquerdas mundiais. Internamente, ele também tentou despolitizar a diplomacia chinesa ao manter a política interna com seu famoso ditado de “não debater” as questões ideológicas, reafirmando o pragmatismo (“Não importa a cor do gato, desde que cace os ratos”).
Desta forma, Pequim ajustou sua diplomacia pós-Guerra Fria por meio de esforços para desenvolver relações com todas as nações, do Ocidente, com países do antigo bloco soviético, vizinhos, países da América Latina e da África, visando se fortalecer economicamente.
Contudo, os EUA e outras nações ocidentais passaram a dar mais ênfase nas questões políticas em suas relações com a China. Washington tornou os direitos humanos uma condição prévia para garantir o status comercial da “nação mais favorecida” da China, que se tornou uma questão anual de debate no Congresso dos Estados Unidos na década de 1990. O governo americano aprovou a viagem do presidente taiwanês Lee Teng-hui aos EUA em 1995 – a primeira visita de um líder taiwanês desde o fim dos laços diplomáticos em 1979. O presidente dos EUA Bill Clinton despachou porta-aviões para atravessar o estreito de Taiwan e proteger a ilha.
Por outro lado, o colapso da União Soviética ajudou a reduzir as tensões ao longo das fronteiras do norte da China e provocou uma retomada da amizade entre os antigos irmãos socialistas. Pequim e Moscou assinaram uma declaração de restauração de laços em 2001. Foram retomadas as relações de amizade com vários países do antigo bloco soviético. Assim, na era do pós-guerra fria, as tensões nas fronteiras da China – como conflitos fronteiriços com o Vietnã e a Índia, a guerra civil no Afeganistão – com envolvimento soviético – e o confronto entre as duas Coreias foram substancialmente reduzidos. A China melhorou as relações com todas as nações vizinhas, restaurou laços diplomáticos com a Indonésia e estabeleceu relações diplomáticas com todas as outras nações asiáticas. A China até estabeleceu relações diplomáticas com Israel, um inimigo histórico dos amigos árabes da China no Oriente Médio. As relações da China com a Europa foram ainda mais tranquilas do que aquelas com os EUA e o Japão.
Na era pós-Deng, desde 1997, Jiang Zemin e Hu Jintao continuaram a diplomacia “discreta” e pragmática. A China ganhou reconhecimento internacional por seu papel positivo na crise financeira asiática de 1997, ao mobilizar recursos para apoiar as economias asiáticas sitiadas. Pequim também usou os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 como uma oportunidade para melhorar as relações com os EUA. Jiang, o presidente chinês na época, foi rápido em expressar solidariedade aos Estados Unidos e em denunciar “todas as atividades violentas pelo terrorismo”. A China apoiou o apelo de Washington para cooperação internacional e ação conjunta, incluindo a adoção de resoluções do Conselho de Segurança da ONU condenando os ataques. A preocupação de Washington com o terrorismo após o 11 de setembro e a necessidade de cooperação de Pequim deram à China uma pausa prolongada.
A admissão da China na Organização Mundial do Comércio (OMC), em 2001, foi um evento fundamental para o desenvolvimento chinês e só foi possível com o endosso dos EUA. Quando Deng lançou suas reformas econômicas, em 1978, a economia chinesa tinha apenas 5% do tamanho dos EUA, com um produto interno bruto per capita praticamente igual ao da Zâmbia. Desde então, a China experimentou um crescimento médio do PIB de cerca de 10% ao ano até 2014, elevando o PIB per capita quase 50 vezes.
Em 2009, a China se tornou o maior contribuinte para o crescimento econômico global e superou a Alemanha como o maior exportador do mundo em 2010. Em 2011, superou o Japão como a segunda maior economia do mundo. Tornou-se a nação mais rica do mundo em termos de reservas estrangeiras, com cerca de US$ 3 trilhões. Sua participação na economia mundial cresceu de apenas 1,8% em 1978 para impressionantes 18,2% em 2017 (SCMP, 12/11/2018).
Desta forma, a China deixou de ser apenas uma economia emergente e retornou ao seu status de grande potência econômica global, que representou quase 30% da economia mundial nos séculos XV e XVI. A diplomacia pragmática de Deng desempenhou um papel crucial no desenvolvimento da China. Seu boom econômico de quatro décadas de duração foi construído em sua adoção do capitalismo global, à medida que as empresas multinacionais transferiram suas linhas de produção para o país asiático, tornando a China “a fábrica do mundo”.
Mas depois de décadas de alto crescimento e uma influência crescente no mundo, a política externa e o comportamento diplomático da China passaram por uma tremenda transformação sob Xi Jinping, que foi eleito secretário geral do Partido Comunista no final de 2012 e se tornou presidente em março de 2013. Nenhum líder chinês, antigo ou contemporâneo, tem sido tão ativo quanto Xi na diplomacia. Com seu ambicioso “sonho chinês” de estratégia “Renascimento Nacional”, substituindo a “diplomacia discreta” de Deng, a China tem sido mais pró-ativa e confiante no cenário mundial, com uma política militar e de segurança cada vez mais assertiva.
Durante seu primeiro mandato de cinco anos, Xi atraiu muitos líderes estrangeiros para a China e recebeu cinco grandes cúpulas mundiais. E nenhum líder chinês fez mais viagens em tão pouco tempo: em seu primeiro mandato, Xi fez 28 viagens ao exterior que o levaram a 56 países nos cinco continentes. Além disso, nunca antes a China teve um impacto tão profundo no desenvolvimento econômico global, com as iniciativas Banco de Investimento Asiático em Infraestrutura (AIIB, na sigla em inglês), o Fundo da Rota da Seda, o Novo Banco de Desenvolvimento, também conhecido como Banco de Desenvolvimento do BRICS, além dos investimentos em projetos produtivos e infraestrutura em 112 países, fazendo parte da Iniciativa Um Cinturão, Uma Rota, conforme mostrou artigo do NYT (18/11/2018)
A China continua tendo grandes superávits comerciais com o resto do mundo (o superávit comercial com os EUA pode atingir US$ 400 bilhões em 2018) e com este dinheiro consegue financiar sua expansão global e avança na produção de bens e serviços de alto valor agregado. Os líderes de Pequim dizem abertamente que quem deixar para trás sua reputação de fornecedora de sapatos, roupas e brinquedos baratos. E querem passar de país de mão-de-obra de baixo custo a um país de engenheiros e cientistas, deixando de ser a fábrica do mundo para ser o centro tecnológico do mundo. Para fugir das tarifas alfandegárias, várias empresas chinesas estão mudando para o sudeste asiático (Vietnã, etc.) e para a África (Etiópia, Djibouti etc.). Por outro lado, hoje em dia, a China é o país que mais forma doutores universitários e tem um plano para ser líder tecnológico, inclusive no campo da Inteligência Artificial: “Made in China 2025”.
O salto da China é tão intenso e impressionante que se fossem vivos, Mao Tsé-Tung ficaria de queixo caído e Deng Xiaoping não acreditaria no sucesso tão ostentoso de suas reformas. Mas é claro que todas estas realizações chinesas assustam o resto do mundo e, em especial, os Estados Unidos. A dita excepcionalidade americana não consegue aceitar uma China excepcional e caminhando para ser a grande potência mundial do século XXI. Por conta do avanço irrefreável da máquina de produção e expansão chinesa os demais países reagem com inveja, com dúvida e com medo.
Na reunião do G20 na Argentina, Trump e Xi concordaram com uma trégua de 90 dias na guerra comercial (mas enquanto os dois países sentavam para conversar, a executiva Meng Wanzhou da gigante das telecomunicações Huawei era presa no Canadá a pedido dos EUA). Os sinais indicam que dificilmente chegarão a um acordo que coloque fim aos desequilíbrios próprios de uma situação de potência ascendente (China) e de potência descendente (EUA).
Não será fácil assimilar esta nova realidade da dinâmica econômica e política ocasionada pela maior presença do gigante oriental, que retoma a proporção do peso global que teve no passado e ressurge com uma força ainda maior, promovendo a “Orientalização” em substituição à hegemonia da “Ocidentalização”. Na reunião do G20, na Argentina, um fato pouco destacado no Ocidente, foi a reunião entre líderes Xi Jinping, Vladimir Putin e Narendra Modi para impulsionar a cooperação do “triângulo estratégico” que está reconfigurando a correlação de forças na Eurásia e buscando ser uma alternativa à governança global, como mostra a agência estatal chinesa Xinhua. O protagonismo dessa reunião trilateral foi bem mais importante que a reunião do grupo BRICS, que fez uma reunião protocolar com as presenças coadjuvantes de Michel Temer do Brasil e de Cyril Ramaphosa da África do Sul. O BRICS se apequenou e o RIC se agigantou.
Reunião - China, Rússia e Índia

Na década de 1940, o historiador britânico Arnold J. Toynbee considerou que os Estados Unidos e a União Soviética permaneceriam como as duas únicas grandes potências do mundo. Nem a China e a Índia – com suas “antigas civilizações” e “vastas populações, territórios e recursos” – seriam capazes de “exercer sua força latente” nas décadas seguintes. Mas nem mesmo Toynbee conseguiu prever a formação do “triângulo estratégico” formado por China, Rússia e Índia.
No momento atual, existem muitos desafios a serem enfrentados. No ano de 2019, a China comemora os 100 anos dos protestos estudantis de Pequim, quando os universitários protestavam contra o Tratado de Versalhes, que concedeu antigos territórios alemães na região aos japoneses. Este movimento contou com estudantes como Chou En-Lai e Mao Tsé-Tung e foram fundamentais para a criação do PCC, em 1921. Ano que vem se comemora também os 70 anos da Revolução Comunista de 1949. E, não menos controverso, os 30 anos dos protestos da Praça da Paz Celestial (Tian’anmen), em 1989, quando a juventude se mobilizou contra o autoritarismo do regime comunista da República Popular da China.
Muita coisa aconteceu na China no último século. O país cresceu e ganhou muitas amizades no tempo da “diplomacia discreta” recomendada por Deng Xiaoping, embora, para os vizinhos e o resto do mundo, o “Império do Meio” deixou de ser o “Panda simpático” para ser o “Dragão ameaçador”. A política mercantilista chinesa, com seus imensos superávits comerciais, tem gerado atritos com o resto do mundo, especialmente com os EUA (inclusive provocando instabilidade nas bolsas de valores). A China está deixando de ser coadjuvante do teatro internacional para se tornar protagonista.
A prisão da executiva Meng Wanzhou, chefe de operações financeiras da Huawei, gigante de telecomunicações e com fortes relações com as forças armadas chinesas, é mais um capítulo da guerra comercial e que atinge uma área estratégia, pois se trata da disputa pela liderança da implantação da infraestrutura para a rede de internet móvel 5G, a Internet das coisas (IoT), Inteligência Artificial, etc. Wanzhou é filha do fundador da companhia e também vice-presidente do conselho consultivo da empresa. A Huawei informou que tem pouca informação sobre as acusações e “não tem conhecimento sobre nenhuma infração cometida por Meng Wanzhou”. A China exigiu a libertação da executiva, alegando que a prisão foi possivelmente “uma violação de direitos humanos”. A China também ameaça retaliar o Canada. Os 90 dias de trégua na guerra comercial está posta em dúvida e a instabilidade econômica aumentou globalmente.
Para Karishma Vaswani, correspondente da BBC Asia Business: “É difícil exagerar o simbolismo e significado desse evento. A Huawei é a joia da coroa da tecnologia chinesa e a Sra. Meng é efetivamente sua princesa. Mesmo que ainda não esteja claro quais são as acusações contra ela, isso não é simplesmente um caso sobre a prisão de uma mulher, ou apenas uma empresa. Essa prisão poderia prejudicar materialmente a relação entre os EUA e a China, possivelmente um dos momentos mais sensíveis entre os dois países em sua longa e tórrida história. As luvas estão arriadas. As coisas tomaram um rumo dramático para o pior” (06/12?2018). Como mostrou artigo de Julia Horowitz (CNN, 09/12/2018), o mundo está entrando em uma nova Guerra Fria (e que pode virar uma Guerra Quente).
O fato é que, no todo, a China tende a fazer um divórcio da relação privilegiada que tinha com os EUA, desde a histórica visita de Richard Nixon e já busca um novo casamento de interesses com a Rússia e a Índia. Com as reformas de Deng Xiaoping a China se aliou aos EUA (época da união econômica dos dois países, conhecida como Chimérica) para alcançar o padrão do Ocidente (enquanto a URSS era derrotada e saia de cena). Já na nova Era de Xi Jinping a China se desacopla dos EUA e se prepara para ultrapassar o Ocidente, disputando a liderança econômica, tecnológica e científica. O professor Graham Allison considera que as duas potências estão “destinadas à guerra”.
Uma China como potência assertiva, dominante e autoconfiante (além de pouco democrática) é a nova realidade das relações internacionais. Os próximos 40 anos serão de maior influência chinesa e Oriental. E tudo isto está ocorrendo às claras. Só não abre o olho quem não quer ver a nova reconfiguração global e os desafios que estão colocados à frente.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Referências:
Cary Huang. Over 40 years of diplomatic drama, a rising China opens up to, and transforms, the world, SCMP, 12/11/2018 https://www.scmp.com/news/china/diplomacy/article/2172540/over-40-years-diplomatic-drama-rising-china-opens-and?fbclid=IwAR2baFLiFzduVvfAVQ-5tqqu4_RCKVeXcDit0eVbDNNCx4EgguTso38Alo4
Derek Watkins, K.K. Rebecca Lai and Keith Bradsher, The World, Built by China, Nov. 18, 2018
PEH SHING HUEI. Friendly Panda, fiery Dragon: how China and ASEAN fell in (and out) of love, SCMP, 01/12/2018 https://www.scmp.com/week-asia/geopolitics/article/2175872/friendly-panda-fiery-dragon-how-china-and-asean-fell-and-out
Julia Horowitz. Huawei arrest: This is what the start of a tech Cold War looks like, CNN, 09/12/2018https://edition.cnn.com/2018/12/08/tech/huawei-cfo-tech-cold-war/index.html
ALVES, JED, A China continua tendo superávits recordes a despeito da guerra comercial de Trump, Ecodebate, 22/10/2018
ALVES, JED. China, nova potência mundial Contradições e lógicas que vêm transformando o país. Revista do Instituto Humanitas Unisinos (IHU), China, nova potência mundial: Contradições e lógicas que vêm transformando o país. São Leopoldo, Nº 528, Ano XVIII, 17/9/2018
ALVES, JED. A ascensão da China, a disputa pela Eurásia e a Armadilha de Tucídides. Entrevista especial com José Eustáquio Diniz Alves, IHU, Patricia Fachin, 21 Junho 2018
ALVES, JED. O show de Xi Jinping na APEC e a reunião do G-20 na Argentina, Ecodebate, 28/11/2018https://www.ecodebate.com.br/2018/11/28/o-show-de-xi-jinping-na-apec-e-a-reuniao-do-g-20-na-argentina-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/
ALVES, JED. Brasil: uma potência submergente, Colabora, 05/12/2018

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 10/12/2018