"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

A economia global atingiu o pico?

por Michael Roberts
O otimismo com o crescimento econômico global permanece. Mas a aceleração em 2017 a partir das baixas taxas de crescimento experimentadas em 2015-6 agora parece ter parado no primeiro trimestre de 2018. Para cumprimentar a reunião semi-anual do FMI e do Banco Mundial em Washington para discutir mais recentes desenvolvimentos econômicos, Maurice Obstfeld, economista-chefe do FMI, afirmou que “a economia mundial continua a mostrar impulso de base ampla”. Mas “contra esse pano de fundo positivo, a perspectiva de um conflito semelhante de base ampla sobre o comércio apresenta uma imagem chocante.”
O FMI subiu sua previsão para o crescimento global real do PIB deste ano para 3,9% e em 2019. Esta melhoria dos baixos níveis de 2015 e 2016 é baseado no aumento do investimento e uma recuperação do comércio mundial (que agora parece estar ameaçada). As principais economias do capitalismo mundial estão se saindo melhor, mas as idiotices de protecionismo no comércio pelos gostos de Donald Trump estão ameaçando a recuperação. Essa parece ser a preocupação principal.
Mas Obstfeld está preocupado com os elevados níveis de dívida global, famílias, empresas e governos. Com taxas de juros definidas a subir, como o Fed dos Estados Unidos e, possivelmente, outros grandes bancos centrais começam a elevar suas taxas de política, o custo do serviço da dívida recorde vai subir. Que ameaça ainda mais o investimento na produção (valor-criação) ativos e também a instabilidade nos mercados financeiros.
Já houve uma 'correção' nos mercados acionários mundiais de cerca de 13% desde o início do ano, à medida que especuladores financeiros começam a se preocupar com uma guerra comercial internacional e aumento dos custos de dívida. E que é, apesar dos enormes cortes de impostos para empresas norte-americanas introduzidas por Trump. Esses cortes de impostos têm aumentado acentuadamente (temporariamente) os lucros das maiores empresas norte-americanas, especialmente os bancos. Mas esse dinheiro extra (pago por cortes adicionais em serviços públicos federais americanos e um grande aumento no endividamento do governo) não vai principalmente para o investimento produtivo extra. Ele está sendo usado para comprar de volta ações corporativas para impulsionar o preço das ações das empresas e para o pagamento de dividendos adicionais aos acionistas.
S&P 500 já anunciou cerca de US$ 167bn de novas autorizações de recompra este ano, e analistas do JPMorgan preveem que essa tendência irá acelerar neste trimestre, como salas de reuniões digerem a escala completa dos cortes de impostos aprovada em dezembro. No geral, as empresas dos EUA vão comprar de volta cerca de US$ 800 bilhões de suas ações este ano, acima dos US$ 525bn em 2017, e aumentar a distribuição de dividendos em cerca de 10 por cento para um recorde de US$ 500 bilhões. Enquanto as empresas norte-americanas vão levantar seus gastos com investimentos, pesquisa e desenvolvimento em 11 por cento a mais de US$ 1TN neste ano, o retorno aos acionistas, na forma de recompra de ações e dividendos vai crescer 21,6 por cento para quase US$ 1.2tn. A farra de recompra também vai levantar a quantidade de empresas de lucro fazem por ação. S&P 500 espera relatar o crescimento dos lucros de 17,1 por cento no primeiro trimestre, o que seria o maior crescimento desde o início de 2011, segundo a FactSet. Isso é bruscamente a partir da taxa de 11,3 por cento que foi projetada no início do ano.
Em contraste, o investimento das empresas dos EUA em nova fábrica, máquinas e tecnologia, embora tenha aumentado em valores brutos, mal mantém o ritmo com depreciação (desgaste) do ativo imobilizado existente. Apesar da recente aceleração do investimento, o investimento empresarial net não tem níveis alcançados em 2014 Q3 re-atingido (e muito menos na véspera da última recessão).
Tenho argumentado antes que o investimento empresarial, não apenas nos EUA, mas na maioria das grandes economias permanece baixo em relação a antes da Grande Recessão, há dez anos, por duas razões principais: rentabilidade relativamente baixa e registrar altos níveis de dívida. Em um post anterior, utilizando dados do banco de dados AMECO da UE, que mostrou que a taxa de lucro na maioria das grandes economias permanece inferior ao de 2007 e até 1999, pelo menos até 2016.
Houve uma pequena recuperação da rentabilidade na Europa em 2017, mas uma nova queda nos EUA, apesar do aumento dos lucros totais.
Em seus últimos relatórios, o FMI indicou que a dívida mundial já atingiu níveis recordes à medida que os bancos centrais bombearam crédito em bancos e instituições financeiras e das famílias e corporações emprestando mais a taxas de juro muito baixas, quer especular nos mercados de ações e títulos ou imóveis. Os governos também continam a acumular níveis mais elevados de dívida pública para financiar resgates às instituições financeiras e cobrir os déficits orçamentais subindo criadas por cortes de impostos e gastos de defesa extra.
Segundo o FMI, a dívida global atingiu um novo recorde de US$ 164 trilhões em 2016, o equivalente a 225% do PIB global. Ambos dívida privada e pública aumentaram durante a última década. Dos US$ 164 trilhões, 63% é dívida do sector privado não financeiro (dívida pelas famílias em hipotecas e empresas em títulos e empréstimos), e 37% é dívida do setor público. As economias avançadas têm a dívida mais global. Mas, nos últimos dez anos, as economias emergentes têm sido responsáveis ​​pela maior parte do aumento.
Os rácios da dívida em relação ao PIB das economias avançadas estão em níveis não vistos desde a Segunda Guerra Mundial. Os rácios da dívida pública têm vindo a aumentar persistentemente ao longo dos últimos 50 anos. Em economias de mercado emergentes, a dívida pública está em níveis vistos somente durante a crise da dívida dos anos 1980.
Os EUA ainda é a maior e mais importante economia capitalista no mundo. Mas não para de perder para fora relativamente às potências econômicas em ascensão da Ásia, especialmente a China. Essa é a força motriz por trás da cruzada protecionista de Trump sobre o comércio e seus enormes cortes no imposto sobre as sociedades para as empresas americanas. Os cortes de impostos vai levar a um aumento significativo nos EUA da dívida federal ao longo dos próximos anos, o que significa custos de juros mais altos que sugam financiamento que poderia ter sido usado para manter os serviços públicos e expandir a infra-estrutura necessária. O FMI estima que o déficit anual do governo dos EUA vai acima de $ 1trn nos próximos três anos para atingir 5% do PIB, tendo o nível da dívida pública a 117% do PIB dos EUA, em seguida. Segundo o FMI, os EUA será a única economia com um rácio da dívida pública crescente para o PIB nesse período.
Na verdade, o imperialismo dos EUA continua a revelar sua vulnerabilidade a longo prazo. Os EUA tem agora uma responsabilidade de investimento líquido com outras economias no mundo da ordem de 9,8% do PIB mundial. Isso se compara com países que são credores líquidos: Japão (3,9%), Europa do Norte (6,4%) e China (2,3%). Isso nas medidas de responsabilidade líquida do estoque de investimento e o montante de crédito feitas por outros países para os EUA após a dedução de investimentos e empréstimos dos EUA no exterior. O imperialismo norte-americano extrai mais valor líquido das outras economias para financiar seu crescimento, mas à custa de tornar-se mais dependente em 'homenagem' ao invés de comércio. O FMI prevê que o passivo líquido dos EUA para estrangeiros vai chegar a 50% do seu PIB em 2023, ou 10,7% do PIB mundial. Isso se compara com a responsabilidade combinada das economias periféricas exploradas do mundo de 7,8%. O imperialismo norte-americano fica afastado isso porque ainda é a maior economia do mundo, com o maior setor financeiro, com o dólar como moeda de reserva mundial e é a polícia do mundo para o imperialismo.
Quanto às chamadas economias capitalistas emergentes, o FMI aponta que, enquanto os fluxos de capital oreign f têm permanecido robustas nos últimos anos, como a 'maré de liquidez global' recua com o aumento das taxas de juros pelos bancos centrais, os fluxos para os mercados emergentes poderá diminuir US $ 60 bilhões por ano, o equivalente a cerca de um quarto dos totais anuais em 2010-17. “Em tal cenário, os mutuários menos merecedores de crédito podem experimentar saídas relativamente maiores. Países de baixa renda podem ser afetados, porque mais de 40 por cento deles estão em um alto risco de sobreendividamento.”
A queda de rentabilidade e aumento da dívida (capital fictício, para usar o termo de Marx) é uma receita para uma queda feia no capitalismo global. Como o FMI admitiu “Olhando para o futuro, as chances de uma recessão permanecem elevadas, e há mesmo uma pequena chance de uma contração econômica global no médio prazo.”
No final do ano passado, eu fiz a minha previsão anual para a economia mundial em 2018. Nesse post, eu reconheci que eu não esperava que o pick-up relativo no crescimento global em 2017, depois dos maus anos de 2015 e 2016. Mas eu não estava convencido de que esta 'recuperação' significava que a longa Depressão de baixo crescimento, o investimento e rentabilidade (junto com a renda familiar média estagnadas) tinha acabado. Eu indiquei que, em seguida, a projeção de crescimento do PIB mundial do FMI era ainda menor do que a tendência pós-1965, crescimento de 3,8% e os ganhos esperados mais de 2017-2018 seguiu uma recuperação excepcionalmente fraco no rescaldo da Grande Recessão. O FMI elevou sua previsão para 3,9% para este ano e no próximo, mas não parece muito confiante de que ele vai ser alcançado e depois de 2019, ele espera uma desaceleração significativa novamente.
No entanto, eu tinha feito a previsão de uma nova recessão global em 2018. Eu disse então que “O que parece ter acontecido é que tem havido uma recuperação cíclica de curto prazo de meados de 2016, depois de uma recessão perto global a partir do final de 2014- meados de 2016. Se a calha deste Kitchin (de curto prazo) ciclo foi em meados de 2016, o pico deve ser em 2018, com um balanço para baixo novamente depois disso." os últimos dados econômicos em Q1 2018 sugerem que o crescimento atingiu o pico globalmente. O elevado endividamento e a baixa rentabilidade permanecem. Esses fundamentos não sugerem qualquer outra cabeça - pelo contrário.

Brasil submergente vive o pior docênio (2011-2022) dos 200 anos da Independência

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

participação do PIB brasileiro no PIB mundial: 1822-2022

Por quase 180 anos, desde a Independência (em 1822), o Brasil foi uma nação emergente no cenário internacional e apresentou grande crescimento populacional (passou de 4,7 milhões de habitantes em 1822, para 121 milhões em 1980 e mais de 200 milhões atualmente), assim como grande crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). A participação do PIB brasileiro no PIB mundial subiu de 0,43% em 1822 para 3,2% em 1980, mas pode ficar em 1,9% do PIB mundial, em 2022, como mostra o gráfico acima.
A partir da Independência, com raros momentos de retrocessos, o Brasil passou a crescer mais do que a média da economia mundial. Porém, foi no período compreendido entre 1930 e 1980 que o país deu um salto no crescimento demoeconômico, pois a população cresceu 3,3 vezes (de 37 milhões de habitantes em 1930 para 121 milhões em 1980) e o PIB cresceu 18,2 vezes. No mesmo período, a população mundial cresceu 2,2 vezes (de 2,1 bilhões de habitantes em 1930 para 4,6 bilhões em 1980) e o PIB mundial cresceu 5,4 vezes. Nos cinquenta anos em questão, a taxa média de crescimento anual do PIB foi de 6% no Brasil e de 3,4% no mundo. Crescendo em ritmo mais acelerado, o Brasil se tornou uma das dez maiores economia do mundo.
Os chamados “30 anos dourados” ocorreram logo depois da Segunda Guerra Mundial, entre 1950 e 1980, quando a população brasileira cresceu 2,8% ao ano, a economia cresceu 7% ao ano e a renda per capita cresceu 4,2% ao ano. Porém a situação se inverteu nas últimas quatro décadas e o PIB brasileiro tem crescido menos do que a média mundial, desde 1981.
Considerando as últimas quatro décadas, até os 200 anos da Independência, o Brasil deve crescer menos do que a média mundial. Entre 1981 e 2022 o país deve apresentar um crescimento de 2,4 vezes no PIB (2,1% ao ano) e o mundo deve apresentar um crescimento de 4,1 vezes no PIB (3,4% ao ano). Portanto, a economia brasileira perdeu ritmo em relação à média global (que, neste período é liderada pela China e Índia). O povo brasileiro está mais pobre em termos relativos e o Brasil virou uma economia submergente.
O gráfico abaixo mostra o crescimento anual do PIB (barras azuis) e os docênios, média móvel de doze anos (linha vermelha). Nota-se que, na maior parte dos 200 anos, os docênios ficavam acima de 4% ao ano e chegaram a atingir 9% aa, quando se considera o período 1967-1980. Mas a partir de 1981 a economia brasileira sofre um grande revés e passa a crescer, consistentemente, abaixo de 4% aa. A chamada primeira década perdida (anos 1980) rebaixou o ritmo de crescimento do PIB brasileiro. Houve uma pequena recuperação nos anos 1990 e uma recuperação um pouco melhor na primeira década do século XXI (mas muito abaixo dos números da década de 1970).
A partir da recessão, que teve início em 2014 e se aprofundou no biênio 2015 e 2016, os docênios passaram a apresentar ritmo abaixo de 2% aa e devem vivenciar, pela primeira vez na história brasileira, um crescimento em torno de 1% aa. O docênio 2011-2022 deve apresentar um crescimento de 1,2% aa. Desta forma, a primeira década perdida (1981-90) fez o ritmo da economia brasileira cair de 9% aa para 3% ao ano e a atual década perdida (2011-20) vai fazer a economia brasileira passar de algo pouco acima de 3% aa para cerca de 1,2% ao ano.

taxas de crescimento do PIB

Evidentemente, a economia brasileira está “na UTI” e não terá nada a comemorar nos 200 anos da Independência. Pelos dados apresentados nos gráficos acima, nota-se que o Brasil que já representou 3,2% do PIB mundial pode chegar a representar 1,9% da economia global em 2022 (pela metodologia de Angus Maddison). Em termos relativos, é como se o Brasil tivesse reduzido de tamanho quase pela metade. Se a economia brasileira tivesse mantido a mesma proporção de produção de bens e serviços globais, a renda per capita brasileira poderia estar próxima da renda per capita de Portugal e o Brasil poderia ser considerado um país de renda alta.
Mas parece que o Brasil vai ficar preso à “Armadilha da renda média”, pois está perdendo a oportunidade de aproveitar o bônus demográfico e terá grande dificuldade para dar um salto no desenvolvimento depois que o índice de envelhecimento for superior a 100 (quando a proporção de idosos for superior à proporção de crianças e jovens de 0 a 15 anos).
Em vez de progredir em termos relativos, o Brasil está regredindo e empobrecendo antes de envelhecer. Depois do envelhecimento populacional, será muito difícil (talvez até impossível) dar um salto no desenvolvimento e se tornar uma nação de alto padrão de vida social e ambiental. Parece que o país está jogando fora uma oportunidade histórica e única. O futuro brasileiro, de “ordem e progresso”, está seriamente ameaçado.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 20/04/2018

Comunicado da Secretaria Geral da OEA: Cuba: Uma transição ilegítima


"O triunfo da ditadura sobre a liberdade não se chama revolução. A sucessão presidencial da que fomos testemunhas em Cuba é uma tentativa de perpetuação de uma regime autocrático dinástico-familiar. Chama-se ditadura, enfatizou a Secretaria-Geral da OEA.

Significa décadas de falta de democracia e infração dos direitos humanos e das liberdades fundamentais.

A eleição por parte da Assembleia Nacional de Cuba de Miguel Díaz-Canel como Presidente do país acontece sem a livre expressão do povo cubano. Quando se desconhece a soberania do povo, o único fundamento da autoridade dos governantes é deslegitimado.

Em 2018, um regime que encarcera e cala os opositores e dissidentes, que eliminou a liberdade de expressão, que acumula décadas de execuções seletivas por razões políticas, não pode ser assimilado como um sistema cuja prática política é aceitável no Hemisfério.

Nosso Hemisfério deve continuar exigindo democracia, liberdades, direitos humanos, prestação de contas e levar adiante o comparecimento dos ditadores frente aos tribunais internacionais do Sistema Interamericano e da justiça internacional.

As ações do regime têm sido extremamente negativas para a estabilidade e a segurança regional, assim como vêm custando muito sangue, polarização e divisão entre os países.

O caso da Venezuela é paradigmático das ambições geopolíticas do regime cubano.

A partir da Secretaria Geral da OEA continuaremos denunciando e trabalhando por um Hemisfério livre de ditaduras.

As campanhas de mentiras e difamação que o regime cubano vem incentivando e continuará promovendo não nos afastará de acompanhar o povo cubano na busca de sua liberdade e de seu sonho de uma AMÉRICA para todos.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Banco Mundial: Brasil e Argentina puxarão crescimento econômico da América Latina e Caribe em 2018



Relatório semestral do economista-chefe para a região também discute os benefícios de reorganizar as contas fiscais; gastos ineficientes e improdutivos devem se tornar o foco das reformas. 

O Banco Mundial divulgou esta semana, em Washington, que o Brasil e a Argentina devem puxar o crescimento econômico da América Latina e do Caribe neste ano. A previsão para o Brasil é de 2,4% em 2018 e de 2,5% em 2019. A Argentina deverá expandir 2,7% e 2,8%, respectivamente.
Em seu relatório semestral, o economista-chefe para a América Latina e o Caribe, Carlos Végh, estima que a região deve crescer 1,8% em 2018 e 2,3% em 2019. Em 2017, a expansão foi de 1,1%.

Ambiente positivo

Por trás desses números, está um ambiente externo positivo, que inclui aumentos nos preços das commodities e crescimento nos Estados Unidos e na China. No entanto, muitos países apresentam uma situação fiscal delicada após anos de pouco crescimento.
Trinta e um dos 32 países da América Latina e Caribe registraram déficit fiscal em 2017. Além disso, a dívida pública da região é de 57,6% do Produto Interno Bruto (PIB).
O estudo defende que, nesta fase de retomada, é importante fortalecer as contas fiscais para promover um crescimento inclusivo e de longo prazo. Reorganizar as contas também ajuda a manter conquistas das últimas décadas, como inflação baixa, redução da pobreza e da desigualdade.

Reformas

Segundo o relatório, gastos ineficientes e improdutivos devem se tornar o foco das reformas. Esses ajustes também devem ser graduais e não se concentrar em cortar o investimento público ou as transferências sociais.
Entre os países que já começaram esse movimento, estão Argentina, Colômbia, El Salvador, Equador, México, Panamá e Uruguai.
O lançamento do estudo ocorreu em meio às reuniões de primavera do Banco Mundial com o Fundo Monetário Internacional, que vão até domingo.

*Reportagem do Banco Mundial Brasil

FMI: Brasil terá superávit primário apenas em 2022

Em outubro, Fundo estimava superávit primário em 2021. Dívida bruta deve superar o patamar de 90% do PIB em 2019


Por Agência Brasil 18 de Abril de 2018 às 14:06
  













Brasil só deverá alcançar superávit primário – resultado positivo de receitas e despesas do governo excluindo juros – daqui a quatro anos, em 2022.
A estimativa foi divulgada nesta quarta-feira (18/04) no relatório Fiscal Monitor, doFundo Monetário Internacional (FMI). A previsão feita em outubro era de que o equilíbrio nas contas seria alcançado em 2021.
O anúncio da nova expectativa para o superávit ocorre uma semana depois de o governo federal ter proposto manter o déficit de R$ 139 bilhões nas contas públicas em 2019, com valores negativos até 2021.
A melhor projeção do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, de 2,3% – percentual 0,4% maior que o de janeiro, não é suficiente para melhorar o desajuste entre gastos públicos e receita gerada.
O FMI estima que a dívida bruta chegue a 87,3% do PIB neste ano, mais de 3% que o ano passado, que foi de 84%. Para 2019, a projeção é que a dívida bruta supere os 90% do PIB. Contudo, de acordo com o relatório de outubro, há uma leve projeção de melhora no endividamento, com prévia dívida bruta de 87,7% em 2018 e de 91,1% no ano que vem.
O FMI aponta que a reforma da Previdência poderia produzir uma economia de cerca de 9,5% do PIB dos próximos 10 anos. Mas o adiamento da reforma, adia a estabilidade, segundo o a entidade.
Países emergentes como o Brasil mostraram um alto nível de endividamento, comparado a outros países emergentes. O endividamento das economias destes países, como um todo, será de 49% em 2018, e 51,2% o ano que vem. Na América latina, este fator chegará a 61,8% este ano e há 66,4% em 2019.
DESEMPENHO GLOBAL 
O relatório apontou ainda um novo recorde para a dívida global, que atingiu novo recorde em 2016, chegando a U$ 164 trilhões, o que equivale a 225% do PIB global.
Houve aumento do crescimento da dívida pública e privada nos últimos 10 anos, o que torna governos mais vulneráveis às mudanças repentinas no sistema financeiro.
A recomendação do FMI para a saúde fiscal é que os países usem "a janela de oportunidade proporcionada pelo crescimento econômico para fortalecer o estado de seus assuntos fiscais".
FOTO: Thinkstock

quarta-feira, 18 de abril de 2018

O nível do PIB per capita brasileiro de 2013 só deve ser recuperado em 2023

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

variação do PIB e do PIB per capita, Brasil:2013-2023

O Brasil apresentou grande crescimento da renda per capita nos séculos XIX e XX e foi um exemplo de sucesso econômico (embora com grande empobrecimento ambiental). Entre 1822 e 1980, na média, o Brasil cresceu mais que o restante do mundo. Mas esta realidade mudou a partir de 1981. As dificuldades foram se avolumando nas últimas décadas e, atualmente, o povo brasileiro passa por um momento crítico. Provavelmente, o Brasil vai chegar no aniversário dos 200 anos da Independência com uma renda per capita inferior àquela de 2013.
A renda per capita brasileira caiu com o início do declínio trimestral do Produto Interno Bruto (PIB) ainda na primeira gestão de Dilma Rousseff. Entre 2014 e 2016 a renda per capita diminuiu fortemente. Houve uma lenta recuperação em 2017, mas a volta ao patamar de 2013 só deve ocorrer em 2023, conforme indicam os dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), divulgados ontem (17/04/2018). Assim, tudo indica que o país passará um decênio com estagnação da renda per capita
Desde o início dos anos 1980, o Brasil passou por três grandes crises econômicas: 1981-83 (recessão Figueiredo-Delfim; 9 trimestres com queda acumulada de 8,5%); 1989-1992 (recessão Sarney-Collor; 11 trimestres, com queda de 7,7%) e 2014-16 (recessão Dilma-Temer; 11 trimestres e queda de 8,6%), segundo o relatório de outubro de 2017 do Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (CODACE). Mas por conta de uma revisão dos cálculos do IBGE, devido a uma pequena margem, não se pode falar, absolutamente, que a atual recessão foi a maior e mais profunda da história da República.
Contudo, a crise atual pode ser contabilizada como a de maior duração e a mais profunda, se considerarmos não só o período de queda, mas também o tempo gasto para a recuperação do padrão pré-crise (antes da recessão). Nota-se que após a recessão Figueiredo-Delfim, o PIB cresceu 5,3% em 1984, 7,9% em 1985 e 7,5% em 1986; a expansão durou 17 trimestres, com uma média de crescimento de 6,4% por trimestre. Após a recessão dos presidentes Sarney-Collor, o PIB cresceu 4,7% em 1993, 5,3% em 1994 e 4,4% em 1995; a expansão pós recessão durou 12 trimestres, com uma média de crescimento de 6% por trimestre.
No pós recessão Dilma-Temer, as projeções do FMI, atualizadas em 19 de abril de 2018, indicam um aumento do PIB de 1% em 2017, 2,3% em 2018, 2,5% em 2019 e 2,2% ao ano entre 2020 e 2023. Ou seja, enquanto a recuperação das duas outras grandes recessões foi no ritmo de 6% aa, a recuperação atual está acontecendo com uma média em torno de 2% ao ano.
Tecnicamente, a recessão atual pode ter terminado no final de 2016, mas os dados indicam que 2017 foi o ano de pior recuperação de todas as grandes recessões anteriores da economia brasileira. O gráfico acima mostra que o ponto de queda mais profundo ocorreu em 2016, tanto para o PIB, quanto para a renda per capita. A partir de 2017, teve início o processo de lenta recuperação. Porém, no atual passo de tartaruga, somente em 2020 o PIB brasileiro será maior do que o PIB de 2013 e somente em 2023 a renda per capita será maior do que aquela de 2013.
O Brasil vive a sua segunda década perdida. O gráfico abaixo mostra que a nação brasileira – pela primeira vez na história – deve ficar, pelo menos 13 anos (trecênio) crescendo abaixo do ritmo médio da economia mundial. Isto nunca tinha acontecido antes e pode estar se tornando a nova norma. Significa também que o povo brasileiro está ficando mais pobre em relação ao cidadão médio global.

crescimento anual do PIB do mundo e do Brasil: 2011-2023

O gráfico abaixo mostra que a renda per capita brasileira ultrapassou a renda per capita mundial na década de 1970 e atingiu o valor máximo (quase 20% maior) em 1980. Com a recessão ocorrida no último governo da ditadura militar, a renda per capita voltou a ficar igual a renda mundial em 1983, recuperou um pouco entre 1984 e 1986 e depois iniciou um processo de queda que, com pequenas flutuações, continua num mergulho interminável e deve chegar em 2022 (nos duzentos anos da Independência) com uma relação igual àquela do final da década de 1950. Isto é, o brasileiro médio ganhará cerca de 80% da renda per capita mundial. O Brasil foi uma economia emergente entre 1950 e 1980 e passou a ser uma economia submergente a partir do ano de 1981. O povo brasileiro estava enriquecendo em termos absoluto e relativo e agora está empobrecendo em termos relativos.

percentagem da renda per capita brasileira sobre a renda per capita mundial 1950-2020

O empobrecimento geral do país tem impacto imediato na parcela inferior da pirâmide de renda da população. O gráfico abaixo, apresentado em artigo de Bruno Villa Bôas, no jornal Valor (12/04/2018), com base em levantamento da LCA Consultores dos dados da PNAD Contínua do IBGE, mostra que o número de pessoas vivendo em situação de extrema pobreza (menos de US$ 1,9 ao dia, equivalente a R$ 133,72 em 2016 e R$ 136 em 2017) aumentou de 13,34 milhões em 2016 para 14,83 milhões em 2017. Mesmo com os recursos aplicados no Programa Bolsa Família, o percentual de pessoas na extrema pobreza representava 6,5% em 2016 e passou para 7,2% em 2017.
O aumento da extrema pobreza tem a ver com a piora das condições do mercado de trabalho, a diminuição do emprego formal e o crescimento da informalidade e dos empregos precários. Entre o final de 2014 e o final de 2016 o Brasil perdeu mais de 3 milhões de empregos formais segundo dados do CAGED, do Ministério do Trabalho. Em 2017, ano de “recuperação” do crescimento do PIB, de forma inédita, o emprego formal diminuiu.
O Brasil tem andado na contramão da história não só em relação ao emprego formal, pois mantém fora do círculo de riqueza e bem-estar 26,4 milhões de pessoas, que estavam desempregadas ou subutilizadas no 4º trimestre de 2017, segundo dados da PNAD contínua do IBGE. A taxa composta de subutilização da força de trabalho (medida mais ampla do desperdício do potencial produtivo do país) era de 20,9% no primeiro trimestre de 2012, caiu para o nível mais baixo de 14,8%, no 3º trimestre de 2014 e subiu durante a recessão econômica, atingindo 22,2% no 4º trimestre de 2016. O pico ocorreu no 4º trimestre de 2017, com uma taxa de 23,6%.

população vivendo abaixo da linha de pobreza extrema

O desperdício do potencial produtivo da força de trabalho brasileira representa a perda de uma oportunidade histórica, pois o Brasil vive o auge do bônus demográfico, ou seja, o momento em que a razão de dependência demográfica está em seu nível mais baixo e a proporção de trabalhadores em idade produtiva é a mais alta de todos os tempos.
O processo profundo de desindustrialização precoce e a opção pela “especialização regressiva” (alta dependência das commodities e dos bens primários) tem retirado competividade da economia brasileira. A retomada de 2017 foi baixíssima e o crescimento de 2018 não deve ser nada muito diferente. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) registrou um crescimento de somente 0,09% em fevereiro, na comparação com o mês anterior. O Brasil vive um período de esclerose e baixo crescimento antes mesmo de ter uma estrutura etária envelhecida. O país vai ficando para trás, enquanto o mundo desenvolvido avança na Quarta Revolução Industrial, Científica e Tecnológica.
Estes 13 anos (trecênio 2011-2023) em que o Brasil cresce menos que a média mundial vieram no pior momento possível pois representa o fim do sonho da construção de um país próspero, de renda per capita alta e de alto Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). O drama brasileiro é que o bônus demográfico só acontece uma vez na história de cada país e não aproveitá-lo pode significar a condenação à condição de país eternamente acorrentado ao subdesenvolvimento.
Referências:
ALVES, JED. A maior e a mais profunda recessão da história republicana, Ecodebate, 29/01/2018https://www.ecodebate.com.br/2018/01/29/maior-e-mais-profunda-recessao-da-historia-republicana-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/
ALVES, JED. Michel Temer e a pior presidência da história da República, Ecodebate, 07/02/2018https://www.ecodebate.com.br/2018/02/07/michel-temer-e-pior-presidencia-da-historia-da-republica-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 18/04/2018

terça-feira, 17 de abril de 2018

Por que a Rússia é politicamente e militarmente forte, mas um anão econômico

por Paul De Grauwe

Na semana passada, vi uma estatística surpreendente: o PIB da Rússia é da mesma ordem de grandeza que o PIB combinado da Bélgica e dos Países Baixos. Em 2017, o PIB russo foi de 1,469 bilhões de dólares (segundo o Fundo Monetário Internacional). A Bélgica teve um PIB de 491 bilhões de dólares e os Países Baixos 824 bilhões de dólares; juntos US$ 1,315 bilhão. Em termos de PIB, a Rússia é apenas 12% maior do que a Bélgica e os Países Baixos.

Essa estatística desconcertante me levou a perguntar por que politicamente a Rússia pesa muito mais no mundo do que a Bélgica e a Holanda, enquanto economicamente esse país dificilmente é mais forte do que esses dois países que fazem fronteira com o Mar do Norte.

Antes de responder a essa pergunta, primeiro algumas outras figuras que ilustram como a Rússia econômica é leve. O PIB dos EUA atingiu US$ 19,362 bilhões em 2017. Com o PIB como critério, os EUA são 13 vezes maiores que a Rússia. Da mesma forma, outros países podem ser comparados com a Rússia. A China é economicamente 8 vezes maior que a Rússia; Alemanha 2,5 vezes mais, a França 1,8 mais, e a União Europeia como um todo é 12 vezes maior que a Rússia.

O tamanho econômico de um país é um dos fatores mais importantes que determina sua importância militar e política no mundo. Uma grande economia é necessária para fornecer os meios que dão ao país o peso militar e político do mundo. Então está claro: a Rússia está superando seu peso econômico no cenário internacional.

O fato de que a Rússia significa tão pouco economicamente implica que o país deve exercer esforços extraordinários para criar um forte potencial militar. Em 2017, os gastos militares russos totalizaram 61 bilhões de dólares (segundo o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos). Os EUA gastaram quase 10 vezes mais, a saber, US$ 603 bilhões. A China gastou US$ 151 bilhões em defesa. A França e a Alemanha gastaram 90 bilhões de dólares em defesa, 50% a mais do que a Rússia. E, no entanto, todos esses países gastaram uma proporção muito menor de seu PIB com os militares do que com a Rússia.

A Rússia não é um ator importante no campo dos gastos militares. Para ter um certo peso militar, esse país deve reservar uma parcela muito maior de seu PIB para a defesa do que os outros países. Para significar algo militarmente, a Rússia tem que colocar um fardo pesado em sua própria economia.

Volto à minha pergunta: por que a Rússia, que é economicamente leve, tem tal importância política e militar? Aqui está uma tentativa de responder a essa pergunta.

Primeiro, há o fato de que, na época do império soviético, a Rússia construiu um arsenal nuclear que, junto com os EUA, dá a este país uma posição única no mundo. Esta é a posição de “Destruição Mútua Assegurada” (MAD). Isso significa que o país tem a capacidade de destruir completamente o oponente no caso de um ataque nuclear em seu próprio território. Nenhuma outra energia nuclear (fora dos EUA) tem essa capacidade hoje. Enquanto a Rússia tiver uma capacidade MAD tão terrível, ela será politicamente mais pesada do que seu PIB sugere.

A Rússia é também um importante fornecedor de matérias-primas, incluindo petróleo e gás. Isso dá ao país uma alavanca política em relação à Europa Ocidental. É possível virar a torneira (ou ameaçar fazê-lo) para exercer pressão sobre vários países europeus. No entanto, esse efeito não deve ser superestimado. A Rússia também sabe que o uso desta arma poderá, com o tempo, encorajar os países europeus a encontrar outras fontes de suprimento. O poder da Rússia é limitado neste domínio porque o país não detém o monopólio do petróleo e do gás.

Finalmente, e esse é o meu ponto mais importante, a Rússia é poderosa porque a Europa concede esse poder à Rússia. A Europa construiu uma união econômica, mas não uma união de defesa. A União Europeia é economicamente 12 vezes maior que a Rússia; Um enorme poder potencial. No entanto, esse poder econômico não é convertido em poder militar e político porque a defesa continua sendo uma questão nacional. Ao fundir suas capacidades militares, seria possível que a França e a Alemanha construíssem uma defesa confiável contra as ameaças russas, sem ter que gastar mais. Os gastos militares combinados de tal união de defesa franco-alemã seriam 50% mais altos do que os gastos militares russos. O suficiente para oferecer um contrapeso a um ditador russo cujas ambições políticas e militares na Europa permanecem desconhecidas.

"Si vis pacem, para bellum", disseram os romanos. Se você quer paz, você deve preparar a guerra. Traduzido para a situação europeia de hoje, isto significa que a Europa deve construir uma união de defesa credível. Isso por si só reduziria o poder militar e político da Rússia.


Este artigo apareceu originalmente no blog do autor.

Paul De Grauwe

O professor Paul De Grauwe é o presidente da John Paulson em Economia Política Européia no Instituto Europeu da LSE. Antes de ingressar na LSE, ele foi professor de Economia Internacional na Universidade de Leuven, na Bélgica. Ele foi membro do parlamento belga de 1991 a 2003.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Quem apóia quem na Síria: um guia rápido para entender a guerra sete anos depois

Quién apoya a quién en Siria: guía rápida para entender la guerra siete años después


A Síria tem sete anos imersos em uma guerra civil sem fim que sangrou o país, que causou a maior crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial e foi palco do conflito congelado, mas latente, entre as diferentes potências do Ocidente e do Oriente Médio. Este fim de semana, após os bombardeios dos Estados Unidos, do Reino Unido e da França às posições do regime de Bashar-Al Asad, tomou uma nova direção, sempre incerta.

Muita coisa aconteceu desde a revolução de 2011, irá resultar em uma repressão do governo sangrenta e, finalmente, um conflito civil armado, pode ser útil rever qual é o estado de coisas na Síria em 2018. O que interessa a cada um dos atores e o que tacitamente ou diretamente apoia os principais protagonistas da guerra: o governo de Al-Assad; o amálgama de grupos de oposição; as forças curdas; e os movimentos salafistas.

Encurralado pelo ISIS e expulsos de sua antiga capital, Al-Raqqa, a Síria é agora mais do que nunca um conflito em que muitos outros estão girando. E embora não haja confrontos diretos entre Arábia Saudita e Irã ou entre países da OTAN e a Rússia, no território devastada do país em si grandes jogos de apoio se desdobram através de cada um poder colocar suas cartas. É assim que os suportes são distribuídos na complexidade síria.

Estados Unidos → rebeldes e curdos

Lateralmente, os Estados Unidos tem apoiado as facções rebeldes desde o início da guerra. Geralmente através do armamento. Além das aspirações democráticas originais da revolução síria, agora extremamente turvas, Estados Unidos escolheu rebeldes que se opõem à Bashar al-Assad, homem-forte do país até 2011. Al-Asad estava perto do perfil de outros ditadores socialistas semelhantes longe da órbita americana.

Duas ações militares na Síria, na verdade, ter sido ataque químico meramente reativo de Al-Asad: em nenhum momento tiveram um sentido estratégico real para ajudar a oposição, um amálgama incompreensível de grupos democráticos, islâmicos e radicais. Seu apoio hoje já é marginal. Washington também enviou armas para os rebeldes curdos (especialmente durante sua ofensiva contra o ISIS). Seus laços são menos sólidos do que aqueles que ligam o Curdistão iraquiano.

França e Reino Unido → rebeldes

A posição da Europa tem sido, quase sempre nessas situações, definida pela política dos Estados Unidos. Ex-peso-pesado na região, a França teve um caráter mais agressivo tanto sob Hollande quanto agora durante a presidência de Macron, com bombardeios às posições do Estado Islâmico. No Reino Unido, a Síria continua sendo uma questão controversa. Em ambos os casos, as linhas de apoio seguem os ditames marcados por Washington.

Rússia → Bashar Al-Assad

Desde o início do conflito, a Rússia interpretou a Síria como uma maneira de resolver sua preeminência perdida no conselho global. Para Vladimir Putin, Bashar Al-Asad é uma peça não negociável cuja queda ele não está disposto a permitir. Daí o extraordinário envolvimento do Kremlin na guerra, seja através do bombardeio sistemático da oposição, seja oferecendo apoio logístico de Latakia, o principal porto da Síria para o Mediterrâneo.

Na Síria, a Rússia joga mais do que uma mera vitória geopolítica a curto prazo: sua capacidade de influenciar a política internacional está em jogo. E daí as ameaças de represálias após os bombardeios dos EUA.

Irã → Bashar Al-Assad

O Irã joga em seu próprio espaço, embora por diferentes razões. Não só operam fatores religiosos (Al-Asad é Alawite, um ramo litúrgica do Islã xiita, cujo reduto do arco internacional é o regime dos aiatolás), mas também estratégico: a Síria foi um dos poucos estados no Oriente Médio não confrontado abertamente O Irã, graças à sua natureza secular e à natural indiferença da Arábia Saudita. Seu apoio a Al-Assad busca assegurar um aliado e um foco de influência na região, tanto em nível político quanto estratégico (por meio de uma presença militar fixa na área).

Arábia Saudita → rebeldes

Especialmente se levarmos em conta que, para a Arábia Saudita, Al-Asad é uma peça a ser cobrada. Como a Rússia e os Estados Unidos, o Irã e a monarquia saudita usam a Síria como forma de contestar a influência no Oriente Médio: a derrota de um implica a vitória do outro. A Arábia Saudita financia ativamente vários grupos de oposição ligados ao islamismo mais radical (dinamitado ISIS). Para Riad, a queda hipotética de Al-Asad representa uma oportunidade para semear com influência o regime que emerge depois.

Israel → Israel

Até agora, o papel de Israel no conflito sírio havia sido limitado. Até agora. A crescente influência do Irã e do (embora frio) confronto aberto entre os dois países durante a última década levou a intervenções no campo (nas colinas de Golan, que controla) ter sido maior, o lançamento de mísseis contra aviões iranianos e escalada os confrontos pouco a pouco. Mais uma vez, a Síria pode servir como um proxy para o conflito latente entre Israel e Irã.

Como observado aqui, é um desenvolvimento preocupante: nem a Rússia nem as três potências ocidentais têm pouco incentivo para trazer mais hostilidades; Israel e Irã talvez sim.

Turquia → inimigos dos curdos

Antomasia verso solto pela Síria: membro da OTAN, a linha de apoio da Turquia, a priori, deve ser o mesmo que os EUA e seus aliados. É mais complexo: apesar de nominalmente Erdogan suportar a oposição síria, sua única preocupação real é os rebeldes curdos. Ele tomou campanhas militares ativas contra ambas as forças sírias na sua fronteira e no interior da terra da Síria, alcançando tomar cidades controladas pelos curdos como Afrin.

A Turquia apoiará qualquer um que enfrentar os curdos. Por isso, deixou de funcionar em breve com a Rússia, apesar da derrubada de um dos seus aviões por turcos há três anos. E é por isso que mantém um perfil muito diferente dentro do conflito: qualquer coisa, exceto o YPG. Embora a sua posição difícil tenha envolvido ele colidindo com os Estados Unidos mais de uma vez.