"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 12 de maio de 2018

A última entrevista de Graciliano Ramos

Numa manhã de dezembro de 1948, dez anos após a publicação de “Vidas Secas”, Graciliano Ramos se confessa ao jornalista e escritor Homero Senna, em sua última longa entrevista
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Principio por pedir a Graciliano Ramos que me diga alguma coisa sobre os começos de sua vida, no interior de Alagoas, na cidade de Quebrangulo (não Quebrângulo, como geralmente se diz), onde nasceu. “Mas isso tudo está contado em ‘Infância’. Valeria a pena repetir?” E como eu dissesse que sim, resumiu: “De minha cidade natal não guardo a menor lembrança, pois saí de lá com um ano. Criei-me em Buíque, zona de indústria pastoril, no interior de Pernambuco, para onde, a conselho de minha avó, meu pai se transferiu com a família. Em Buíque morei alguns anos e muitos fatos desse tempo estão contados no meu livro de memórias”.

Abro o volume, para conferir, e, entre outras coisas, lá encontro este perfil psicológico do velho Ramos, traçado pelo filho: “Tinha imaginação fraca e era bastante incrédulo. Aborrecia os ateus, mas só acreditava nas contas correntes e nas faturas. Desconfiava dos livros, que papel aguenta muita lorota, e negou obstinadamente os aeroplanos. Em 1934 considerava-os duvidosos”.

De quem o romancista teria herdado, então, o gosto pela literatura? Talvez do avô paterno,  cujo retrato desbotado costumava admirar no álbum que se guardava no baú, e de quem admite que tenha recebido em legado “a vocação absurda para as coisas inúteis”. De sua mãe, o espírito infantil recolheu esta impressão: “Uma senhora enfezada, agressiva, ranzinza, sempre a mexer-se, várias bossas na cabeça mal protegida por um cabelinho ralo, boca má, olhos maus que em momentos de cólera se inflamavam com um brilho de loucura”, ente difícil que na harmonia conjugal “se amaciava, arredondava as arestas, afrouxava os dedos que batiam no cocuruto, dobrados, e tinham a dureza de martelos”.

De Buíque, onde o romancista frequentou a primeira escola, experimentou os primeiros desânimos diante dos livros didáticos do Barão de Macaúbas e viveu algumas das inesquecíveis aventuras de sua meninice, a família mudou-se para Viçosa, não a de Minas, terra do presidente Bernardes, mas a açucareira do interior de Alagoas. O que foi a extensa caminhada, de dezenas de léguas, desde os campos ralos, povoados de xiquexiques e mandacarus, até uma nova paisagem, de vegetação densa e muito verde, longa viagem feita em lombo de animal, está contada numa das melhores páginas de “Infância”.

De Viçosa, Graciliano passou a Maceió, onde frequentou um colégio mau; voltou e, aos 18 anos, foi morar em Palmeira dos Índios, no interior do Estado. Em Palmeira dos Índios chegaria a prefeito, e foi graças a dois relatórios que escreveu que se tornou conhecido.  Mas não precipitemos os acontecimentos.

Estamos ainda em 1914. Nesse ano realiza Graciliano sua primeira viagem ao Rio, tendo trabalhado como foca de revisão. No “Correio da Ma­nhã” e no “O Século”, de Brí­cio Filho, não passou de suplente de revisor, trabalhando apenas quando o revisor efetivo faltava. Em “A Tarde”, porém, um jornal surgido naquela época para defender Pinheiro Ma­chado, chegou a revisor efetivo. Morou em várias pensões, naquele Rio dos princípios do século, que tantos cronistas já têm descrito. Os antigos endereços ficaram-lhe na memória, e sem qualquer esforço o romancista os vai citando: Largo da Lapa 110; Maranguape 11, Riachuelo 19. Todos numa zona então muito pouco recomendável, porque bairros de meretrício, de desordeiros e boêmios.

Nessa sua primeira viagem à Corte procurou aproximar-se de algum escritor, fez camaradagem literária?

Nenhuma.  Os escritores daquele tempo eram cidadãos que, nas livrarias e nos cafés, discutiam colocação de pronomes e discorriam sobre Taine. Machado e Euclides já haviam morrido, e os anos de 1914 e 1915, em que estive no Rio, assinalam, na literatura brasileira, uma época cinzenta e anódina, de que é bem representativo um tipo como Osório Duque Estrada, que então pontificava.

Ficou aqui até quando?

Até 1915. Depois de curta e nada sedutora permanência na capital, achei melhor voltar para Palmeira dos Índios, onde já havia deixado um caso sentimental e onde minha família estava toda sendo dizimada pela peste bubônica. Num só dia perdi dois irmãos. Alarmado, e também desgostoso com a vida que levava, tratei de voltar para Alagoas. Em outubro de 1915 casei-me e estabeleci-me com loja de fazendas em Palmeira dos Índios. A mesma loja que fora de meu pai.

Nessa ocasião já tinha preocupações literárias?

Lia muito e escrevia coisas que inutilizava ou publicava com pseudônimos.

Quer revelar alguns desses pseudônimos?

Você é besta.

Fazia versos?

Aprendi isso, para chegar à prosa, que sempre achei muito difícil. Tendo vivido quinze anos completamente isolado sem visitar ninguém, pois nem as visitas recebidas por ocasião da morte de minha mulher eu paguei, tive tempo bastante para leituras. Depois da Re­volução Russa, passei a assinar vários jornais do Rio. Desse modo me mantinha mais ou menos informado, e os livros, pedidos pelos catálogos, iam-me do Alves e do Garnier, e principalmente de Paris, por intermédio do Mercure de France.

Então, se procurava manter-se tão bem informado a respeito do que se passava no Rio e no resto do mundo, deve ter acompanhado, lá de Palmeira dos Índios, o movimento modernista?

Claro que acompanhei. Já não lhe disse que assinava jornais?

E que impressão lhe ficou do modernismo?

Muito ruim. Sempre achei aquilo uma tapeação desonesta. Salvo raríssimas exceções, os modernistas brasileiros eram uns cabotinos. Enquanto outros procuravam estudar alguma coisa, ver, sentir, eles importavam Marinetti.

Não exclui ninguém dessa condenação?

Já disse: salvo raríssimas exceções. Está visto que excluo Ban­deira, por exemplo, que aliás não é propriamente modernista. Fez sonetos, foi parnasiano. E o “Solau do Desamado” é como as “Sex­tilhas de Frei Antão”. Por dever de ofício, pois estou organizando uma antologia de contos brasileiros, antologia que rola há mais de três anos, tive de reler toda a obra de um dos próceres do modernismo. Achei dois contos de cinco ou seis páginas cada um. E pergunto: isso justifica uma glória literária?

(Franze a testa, detém-se um instante, mas logo prossegue.)

Os modernistas brasileiros, confundindo o ambiente literário do país com a Academia, traçaram linhas divisórias rígidas (mas arbitrárias) entre o bom e o mau. E querendo destruir tudo que ficara para trás, condenaram, por ignorância ou safadeza, muita coisa que merecia ser salva. Vendo em Coelho Neto a encarnação da literatura brasileira — o que era um erro — fingiram esquecer tudo quanto havia antes, e nessa condenação maciça cometeram injustiças tremendas. Nas leituras que tenho feito, para a organização da antologia a que me referi, encontrei vários contos, de autores propositadamente esquecidos pelos modernistas e que seriam grandes em qualquer literatura. Lembro-me de alguns: “O Ratinho Tique-Taque”, de Medeiros e Albu­quer­que; “Tílburi de Praça”, de Raul Pompéia; “Só”, de  Domício da Gama; “Coração de Velho”, de Mário de Alencar; “Os Brincos de Sara”, de Alberto de Oliveira. Nas antologias que andam por aí essas produções geralmente não aparecem, e de alguns dos autores citados são transcritos contos que não dão a ideia exata do seu talento e do domínio que tinham do gênero. Só posso atribuir isso, como já disse, à desonestidade. Porque se os compararmos aos produtos dos líderes modernistas, estes se achatam completamente.

Quer dizer que não se considera modernista?

Que ideia! Enquanto os rapazes de 22 promoviam seu movimentozinho, achava-me em Palmeira dos Índios, em pleno sertão alagoano, vendendo chita no balcão.

E como foi que chegou a prefeito da cidade?

Assassinaram o meu antecessor. Escolheram-me por acaso. Fui eleito, naquele velho sistema das atas falsas, os defuntos votando (o sistema no Brasil anterior a 1930), e fiquei vinte e sete meses na prefeitura.

Consta que, como prefeito, soltava os presos para que fossem abrir estradas...

Não era bem isso. Prendia os vagabundos, obrigava-os a trabalhar. E consegui fazer, no município de Palmeira dos Índios, um pedaço de estrada e uma terraplenagem difícil.

Em que ano foi isso?

Em 1930.

O ano do relatório...

Os relatórios são dois: há o de 1929 e o de 30.

Relatórios do prefeito ao governador do Estado, dando contas de sua administração, não é?

Justo. Apenas, como a linguagem não era a habitualmente usada em trabalhos dessa natureza, e porque neles eu dava às coisas seus verdadeiros nomes, causaram um escarcéu medonho. O primeiro teve repercussão que me surpreendeu. Foi comentado no Brasil inteiro. Houve jornais que o transcreveram integralmente.

E assim nasceu o escritor...

Não. Nasceu antes. Mas tinha o bom senso de queimar os romances que escrevia. Queimaram-se diversos. “Caetés”, infelizmente, escapou e veio à publicidade.

Numa edição Schmidt...

Exato. Por intermédio de Rômulo de Castro, Schmidt, que aqui no Rio lera os meus relatórios, pediu-me que lhe enviasse artigos para a imprensa. Como não me interessasse fazer carreira no jornalismo, nem construir nome literário, recusei-me. Aliás, nessa ocasião já estava de mudança para Maceió, pois fora nomeado diretor da Imprensa Oficial. Com a revolução, quis demitir-me, mas não pude. E lá fiquei até dezembro de 1931. Não suportando os interventores militares que por lá andaram, larguei o cargo e voltei para Palmeira dos Índios, onde, numa sacristia, fiz “São Ber­nardo”. Estava no capítulo 19, capítulo que escrevi já com febre, quando adoeci gravemente com uma psoíte e tive de ir para o hospital. Do hospital ficaram-me impressões que tentei fixar em dois contos: “Paulo” e “O Relógio do Hospital” — e no último capítulo de “An­gús­tia”. No delírio, julgava-me dois, ou um corpo com duas partes: uma boa, outra ruim. E queria que salvassem a primeira e mandassem a segunda para o necrotério. Estava convalescendo, em janeiro de 1933, quando tive notícia da minha nomeação para diretor da Instrução Pú­blica. Não acreditei.

Qual o interventor que o nomeou?

O capitão Afonso de Car­valho, hoje coronel.  Foi disparate. Permaneci no cargo até 3 de março de 1936. Em 1933 Sch­midt lançara “Caetés”, que eu trazia na gaveta desde muito tempo. Naquele dia do mês de março de 1936, porém, sem qualquer explicação, fui preso e remetido para o Recife. onde passei dez dias incomunicável. Depois fui metido no porão do “Manaus” e vim para cá.  Tive dez ou doze transferências de cadeia.

Qual o motivo da prisão?

Sei lá! Talvez ligações com a Aliança Nacional Libertadora, ligações que, no entanto, não existiam. De qualquer maneira, acho desnecessário rememorar estas coisas, porque tudo aparecerá nas “Memórias da Prisão”, que estou compondo.

Foi assim, então, que veio para o Rio?

Foi.  Arrastado, preso.

Mas valeu a pena, não?

Sinceramente, não sei. Nun­ca tive planos na vida, muito menos planos de sucesso. De­pois daquela experiência da mocidade, o Rio não me atraía. No entanto vim, no porão do Manaus, e aqui vivo.
(Estávamos, portanto, diante de um antipará. Os “parás”, na saborosa classificação de Jaime Ovale, são “esses homenzinhos terríveis que vêm do Norte para vencer na capital da República; são habilíssimos, audaciosos, dinâmicos e visam primeiro que tudo o sucesso material, ou a glória literária, ou o domínio político”. Que pensaria Graciliano dessa fauna? Lanço a pergunta e a resposta não tarda.)
Está claro que existe um “exército do Pará”.  Na maioria dos casos, porém, os seus milicianos já chegam feitos do Norte. Aqui vêm apenas colher os louros, ou, mais positivamente, as vantagens. E no Rio em geral definham, tornam-se mofinos. Ignoro se também sou “Pará”. Nunca fiz coisa que prestasse, mas ainda assim o pouco que fiz foi lá e não aqui, onde a vida não nos deixa tempo para nada. Hoje leio apenas jornais, um ou outro ro­mance. De manhã escrevo; à tarde saio para as minhas ocupações (inclusive para o “papo” na livraria); à noite trabalho.  Onde iria achar tempo para leituras? E se não tivesse lido um pouco no interior, onde os dias são intermináveis, seria inteiramente analfabeto.

Quer dizer que acha preferível, para o escritor, a vida na província?

No Nordeste não podemos falar em “provincianismo”, luxo dos Estados grandes: São Paulo, Minas, Rio Grande do Sul. Nós, do Nordeste, temos de ser “municipais” ou “nacionais”. E, a ter de morar em qualquer dos Estados daquela região, acho preferível o interior às capitais, porque estas, seus mexericos, seus grupinhos literários, suas academiazinhas, seus institutos históricos, são sempre muito ruins. Já no interior poderá um homem entrar em contato íntimo com a terra e o povo. É, por exemplo, de onde vem a força de um José Lins do Rego, de uma Raquel de Queirós, de um Jorge Amado.

Sabe que é apontado como um dos nossos escritores modernos que melhor manejam o idioma?

Conversa. Talvez, se houvesse alguma verdade nisso, eu devesse muito aos caboclos do Nordeste, que falam bem. É lá que a língua se conserva mais pura. Num caso de sintaxe de regência, por exemplo, entre a linguagem de um doutor e a do caboclo — não tenha dúvida, vá pelo caboclo, e não erra. Note que me refiro ao caboclo do sertão. O do litoral vai-se estrangeirando.

Mas não me venha dizer que seu aprendizado da língua se fez apenas com os caboclos de Buíque e Palmeira dos Índios.

Claro que não. Muitas coisas não poderiam eles ensinar-me. Está visto que tive de chatear-me lendo gramáticas. E arrepiei-me com a leitura dos frades.

Consta que você, como Euclides da Cunha e Monteiro Lobato, é grande leitor de dicionários.

Consta e é verdade. Dicio­nário, para mim, nunca foi apenas obra de consulta. Costumo ler e estudar dicionários. Como escritor, sou obrigado a jogar com palavras. Logo, preciso conhecer o seu valor exato.

Acha isso uma qualidade?

Não sei. O que sei é que não há talento que resista à  ignorância da língua.

Poderia, hoje, deixar de escrever?

Quem me dera poder deixar.

Sua obra de ficção é autobiográfica?

Não se lembra do que lhe disse a respeito do delírio no hospital? Nunca pude sair de mim mesmo. Só posso escrever o que sou. E se os personagens se comportarem de modos diferente, é porque não sou um só. Em determinadas condições, procederia como esta ou aquela das mi­nhas personagens.

Já se pode viver, no Brasil, da profissão de escritor?

Não creio. A última edição de minhas obras rendeu-me 50 contos. Da edição americana de “Angústia”, recebi 10 contos apenas. Tenho também três livros traduzidos para o espanhol. Mas os negócios na Argentina e no Uruguai andaram mal. Como não tenho o hábito de frequentar os suplementos e as revistas ilustradas, a literatura me rende pouco.

Que outras atividades exerce?

Trabalho no “Correio da Manhã” e sou inspetor de ensino secundário no ginásio São Bento.

Gosta do emprego que tem?

É-me indiferente. Trata-se de uma sinecura como outra qualquer. Em todo caso, nunca tive uma falta nem tirei licença.

E no “Correio da Manhã”, qual o seu serviço?

Corrijo a gramática dos repórteres e noticiaristas.

Gosta de jornalismo?

Não.  Nem me considero jornalista.

Com essa vida de jornal, naturalmente dorme tarde.

À uma hora. E me levanto às sete.

Nos seus livros trabalha, portanto, apenas de manhã.

Exato.  Até às onze, mais ou menos.

E para trabalhar, exige um bom ambiente ou não liga a isso?

Trabalho em qualquer parte. “Angústia” foi escrito em palácio, quando eu era diretor da Instrução Pública de Alagoas. “São Ber­nardo”, em péssimas condições, numa igreja. Qualquer canto me serve. Mas disponho, hoje, em casa, de uma confortável sala de trabalho: isso que os burgueses costumam chamar “escritório”.

Gosta da casa onde mora?

Em qualquer lugar estou bem. Dei-me bem na cadeia. Tenho até saudades da Colônia Correcional.  Deixei lá bons amigos.

(Casado duas vezes, Graciliano tem seis filhos e duas netas. Pergunto-lhe se costuma ajudar a mulher em casa, e ele se espanta.)

Já faço muito em pagar as despesas. Aliás, tenho horror a compras. E quando ouço o telefone, tranco-me.

Aos domingos, o que costuma fazer?

Em geral escrevo pela manhã e à tarde durmo.

(O autor de “Vidas Secas” não faz visitas, não vai a concertos nem a conferências e não gosta de música. Tem, entretanto, um velho hábito: vai diariamente à Livraria José Olympio, na Rua do Ouvidor, e fica lá várias horas, num banco que já é quase propriedade sua, localizado no fundo da loja.)

Muitas vezes vou lá dormir. Mas aparecem amigos, conhecidos, e toca-se a conversar.

(Em virtude desse hábito, muita gente pensa que Graciliano dá a vida por um “papo”. Ele, porém, desfaz-me essa impressão.)

Quase sempre converso forçado, porque chegam pessoas. Mas na verdade muitos dias preferiria ficar quieto, sem trocar palavra. Também é fato que lá aparecem bons amigos, desses que a gente revê com prazer.

(Como Manuel Bandeira, Graciliano recebe inúmeros originais, para ler e dar opinião. A Bandeira dirigem-se sobretudo os jovens poetas ainda incertos quanto à própria vocação. E os que se iniciam na prosa, geralmente procuram mestre Graciliano. Este, assim, tem sempre uma quantidade enorme de originais para ler.)
É maçada. Recebo dezenas de originais. São principiantes, geralmente dos Estados, que desejam, é claro, alguns elogios. Já me aconteceu receber, na mesma semana, originais do Piauí e de Goiás. Eu devia fazer como José Lins: afirmar, sem leitura, que tudo é magnífico.

(Os escritores jovens do Brasil, que dos mais distantes Estados remetem originais para Graciliano Ramos, em busca de uma opinião, e nem sempre recebem resposta, ou a resposta que esperavam, podem, entretanto, considerar-se vingados: na própria casa do romancista surgem originais, e originais que ele tem, forçosamente, de ler, e talvez percorra com olhos mais benignos: os contos de seu filho Ricardo, de 19 anos, e de sua filha Clara, quatro anos mais moça que o irmão. Ambos têm vocação para as letras. Ricardo, jornalista, já tem publicado alguma coisa, naturalmente com a chancela paterna. E, ainda que Graciliano nos afirme o contrário, nos diga que nenhum deles lhe pede opinião, é divertido imaginar o romancista, cansado de emendar o português dos noticiaristas do “Correio da Manhã”, e de ler originais que lhe chegam, às dezenas, de todo o país, ter, em casa, de dar opinião sobre os trabalhos dos filhos.)

(Pergunto qual a sua impressão dos contos de Ricardo Ramos, e ele não se nega a opinar.)

Regulares. Tem jeito e poderá fazer coisa que preste.

E Clara?

É ainda criança. Tem 15 anos apenas e está concluindo o curso secundário.

(Despedindo-me de Graciliano, depois da longa conversa que aqui tentei reproduzir, faço-lhe uma última pergunta: Acredita na permanência de sua obra? E sem qualquer pose, sem nada que deixasse transparecer falsa modéstia, antes dando a impressão de que falava com absoluta sinceridade, esse pessimista seco e amargo respondeu-me.)
Não vale nada; a rigor, até, já desapareceu.
 
Nota: Entrevista publicada na “Revista do Globo”, edição nº 473, em 18 de dezembro de 1996. E posteriormente no livro “República das Letras”, de Homero Senna, editora Civilização Brasileira.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Robôs na fábrica de roupas: o Ocidente ganha empresas de volta, os países em desenvolvimento têm muito a perder

Los robots en la fábrica de ropa: Occidente gana empresas de vuelta, los países en desarrollo tienen mucho que perder


A realocação de processos de negócios de países desenvolvidos para outros no processo de desenvolvimento é um fenômeno com o qual estamos vivendo há décadas e que permitiu que milhões de pessoas escapassem da pobreza. Os críticos, no entanto, ressaltam que as condições de trabalho desses funcionários são lamentáveis, e que há um longo caminho a ser percorrido até que se igualem às dos seus pares no primeiro mundo. Outros, em resposta, argumentam que é melhor ter um emprego, por mais doloroso que seja.

Este é um dilema conhecido e ao qual é adicionada uma nova variável, a automação, que ameaça o emprego em países menos desenvolvidos, reduzindo a vantagem de custo que eles desfrutam hoje. Essa automação afeta setores importantes como a indústria pesada ou a indústria automotiva e está chegando, em uma versão melhorada, ao setor têxtil.

A história se repete

Em 11 de março de 1811 um grupo de tecelões entrou em uma fábrica têxtil em Nottingham (Reino Unido) e destruiu pedaços de 63 teares mecânicos, no que é considerado o primeiro distúrbio causado pelo movimento ludita. Não é estranho que as máquinas afetadas fossem teares, porque o setor têxtil foi um dos primeiros a sofrer os efeitos da industrialização.

Os luditas eram artesãos que se opunham à introdução de máquinas, temendo que elas reduzissem seus salários exigindo trabalhadores menos qualificados para realizar a tarefa que vinham fazendo até então. A experiência nos diz que a falácia dos luditas, a ideia de que a inovação tecnológica prejudica o nível de emprego a longo prazo, não é verdadeira. Quem teria um emprego após dois séculos de crescimento da produtividade? Se alguma coisa, a tecnologia leva a uma redistribuição de empregos para outros setores e novas atividades.

E, no entanto, é uma ideia recorrente desde a revolução industrial e ganhou seguidores nos últimos tempos com a onda de automação em que nos encontramos e os desenvolvimentos baseados na inteligência artificial. Os augúrios serão cumpridos nesta ocasião?

A verdade é que os processos de automação se repetem periodicamente, afetando em cada passagem novas tarefas com efeitos mais ou menos profundos, dependendo da intensidade da inovação aplicada. E ninguém ficará surpreso se eu lhe disser que uma nova onda de automação está afetando o setor de vestuário.

A internacionalização dos têxteis

E é que, apesar da introdução precoce de máquinas na fabricação de tecidos e roupas, o custo do trabalho sempre foi uma variável chave nos negócios. Como resultado disso, temos assistido, nas últimas décadas, a uma mudança da produção dos países desenvolvidos para outros com custos trabalhistas mais baixos, principalmente na Ásia. Além disso, como esses destinos deixaram de ser competitivos devido ao aumento do padrão de vida, novas fábricas se abriram em nações com mão-de-obra mais barata.

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Fuente: Daily Star y WTO

Assim, progressivamente, vimos como as fábricas foram instaladas em países como a Coreia do Sul, Taiwan, China, Vietnã, Indonésia ou, mais recentemente, Bangladesh. De fato, nesta corrida, existem empresas que estão começando a olhar para a África como um novo destino de fabricação, embora essa transição possa ser limitada.

Automação e seus problemas

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De fato, o processo de deslocalização da produção, saltando de um país para outro, poderia desacelerar e até mesmo reverter. A razão não seria diferente da crescente automação na indústria, o que relativiza as vantagens de se produzir longe do mercado em que o produto é vendido.

A produção têxtil é composta de uma variedade de tarefas que estão sendo automatizadas pouco a pouco: tecelagem, corte, costura, montagem, etc. Enquanto a mecanização do setor começou há séculos, o trabalho não é tão simples de automatizar quanto parece, já que o tecido é um material flexível que se estira e enruga, o que até agora tornou necessária a presença de operadores humanos que faça ajustes contínuos. Algo fácil para uma pessoa, mas não para uma máquina.

Mas tudo isso pode ser uma coisa do passado em pouco tempo. A Softwear Automation, por exemplo, é uma empresa norte-americana que fabrica linhas de produção autônomas para a fabricação de vários tipos de peças de vestuário. Um desses sewbots é capaz de fabricar tantas camisas quanto 17 trabalhadores manuais em um turno de oito horas, com supervisão mínima.




A Adidas, por sua vez, abriu duas fábricas da Speedfactory, uma na Alemanha e outra nos EUA.  É um novo conceito de fabricação, altamente automatizado e projetado para produzir calçados personalizados. O objetivo é encurtar os prazos da cadeia de suprimentos, muito altos em calçados esportivos, o que ajuda a aproximar a produção do mercado onde o produto é vendido.

Muitas outras empresas estão trabalhando na fabricação do futuro. A Jeanologia é uma empresa espanhola líder em tecnologia de acabamento de vestuário, uma atividade altamente trabalhosa. Segundo a empresa, mais de um quarto dos 5 bilhões de jeans fabricados anualmente no mundo usam sua tecnologia. Um exemplo: Levi Strauss espera que sua colaboração com Jeanologia permita que ele reduza o processo de acabamento de uma calça de 20 minutos para noventa segundos.



Essa automação crescente tem, logicamente, consequências para os funcionários do setor, o que prejudica de várias maneiras:


  • Ao cortar o pessoal necessário no processo de fabricação, muitos estão condenados a buscar a vida em outro lugar. Há também a circunstância de que esses trabalhadores têm pouca qualificação, por isso é muito mais difícil para eles se mudarem para outros setores com salários iguais ou mais altos. Também não ajuda que isso aconteça em países com uma estrutura produtiva pouco desenvolvida.
  • Por outro lado, a automação prejudica os trabalhadores no setor sem precisar ser aplicada. A existência de tecnologia que substitua o trabalho humano fortalece a posição negociadora dos empregadores, que podem, assim, impor condições mais favoráveis ​​à empresa.
  • A pressão sobre o empregado, no entanto, tem seus limites. As fábricas têxteis têm uma má reputação histórica, desde o nascimento das infames fábricas no início do século XIX. As práticas abusivas então utilizadas foram gradualmente abolidas nos países desenvolvidos para serem aplicadas nos novos destinos industriais, que possuem políticas de trabalho e segurança mais flexíveis.


Lentamente as condições de trabalho nesses países também estão melhorando, graças em grande parte às políticas de fornecimento implementadas pelos principais clientes, grandes empresas do setor no primeiro mundo. Basta ver empresas como a El Corte Ingles, a Gap, a H & M, a Inditex, a Primark, a Target ou a Walmart, que realizam auditorias periódicas das instalações dos seus fornecedores e exigem garantias aos trabalhadores.

E, embora essa melhoria nas condições dos funcionários seja uma coisa boa, ao mesmo tempo, aumenta o custo salarial do trabalho, criando incentivos para a automação das empresas locais. Além disso, muitos empreendedores do setor veem esse processo como uma solução para a agitação trabalhista e usam a automação como uma ferramenta de negociação com os sindicatos locais.

Um desafio para os fornecedores de baixo custo

O caso de Bangladesh é paradigmático da evolução dos têxteis. É um país muito pobre e populoso (o oitavo do mundo) e com uma densidade populacional muito alta. O setor têxtil cresceu fortemente em Bangladesh desde os anos 80 do século passado, graças aos seus salários competitivos, representando 80% das exportações do país. E há seis anos, a McKinsey apontou para ela como uma futura grande fonte de suprimento para a produção que abandonou nações como a China por elevar os salários dos trabalhadores. Durante anos, o setor tem sido uma locomotiva em termos de geração de empregos (particularmente feminina), permitindo que muitas famílias escapem de situações de extrema pobreza, mas, nos últimos tempos, está perdendo força devido à crescente mecanização das tarefas.

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Dados: Bangladesh Garment Manufacturers and Exporters Association.

Bangladesh deve, portanto, começar a pensar sobre a introdução de novo modelo de produção em suas atividades de valor agregado que criam emprego e melhorar o nível de renda da população. Mas há vários problemas: o peso do setor têxtil mantém baixos salários e redução de investimentos em sectores alternativos. Além disso, a automação está à frente, vencendo os setores em que o país poderia ser competitivo por seus custos salariais mais baixos. Para completar, a máquina de substituição homem trabalhando ameaça a estabilidade social de um país pobre, com poucos recursos naturais, jovens e povoadas com uma alta densidade de população (quase três vezes a Holanda).

O futuro da moda e o retorno da produção

Talvez o fenômeno setorial mais importante das últimas décadas tenha sido o nascimento da fast fashion. O preço de roupas não para para baixo e o tempo decorrido desde a tendência é detectada e um design criado até os clientes produtos estão nas lojas foi reduzido drasticamente.

Como resultado, o ciclo de vida do produto acelerou consideravelmente. O conceito da estação desaparece e as roupas são renovadas a um ritmo cada vez mais alto. O cliente, diante dos baixos preços e da enorme oferta de projetos, muda seu jeito de consumir. Assim, a frequência de compra aumenta, estimulada por facilidades como vendas on-line ou políticas de devoluções favoráveis.

A automação reduz gradualmente a diferença de custos com a produção manual, o que tornaria possível para voltar a produção para países desenvolvidos, como vimos no caso da Adidas.

O fast fashion exige flexibilidade e tempos de produção mais curtos e encontrar uma solução a essas demandas em novos desenvolvimentos tecnológicos. Além disso, a automação reduz gradualmente a diferença de custos com a produção manual, o que tornaria possível para voltar a produção para países desenvolvidos, como vimos no caso da Adidas.

Indo um passo adiante, os avanços na automação pode tornar possível no futuro um cenário, a fabricação de pedido individual, o que teria um grande impacto sobre o modelo de negócio da indústria:

A simplificação da cadeia de fornecimento, encurtar ainda mais os tempos de entrega, devido à proximidade da produção para o cliente. Pense em uma espécie de roupa de impressora 3D ou sapatos, ou em uma fábrica ou na loja, que recebe as medições comprador obtidos a partir de um aplicativo no telefone que analisa uma foto ou utilizando um aparelho de loja virtual e fabrica o vestuário feito sob medida.

Redução nos estoques por empresas mantêm com a consequente redução na operação e custos financeiros associados.

Capacidade de aplicar políticas de discriminação de preços com a individualização de projetos. Em qualquer indústria a capacidade de personalizar a oferta é visto como algo positivo, ele abre a porta para diferenciar os preços e, assim, maximizar o retorno obtido pelo cliente. Moda, no entanto, é basicamente gregária, o que poderia limitar o âmbito de tal personalização.

Adeus à escassez. O cliente não precisaria mais se preocupar com a falta de tamanho e a marca garantiria a venda.

Redução do número de devoluções e custos logísticos associados.

A fabricação sob encomenda tem, sim, a desvantagem que limita as políticas de retorno generosas aplicados por empresas líderes. Em um cenário de moda rápida como seria lugar complicado o produto para outra pessoa se o cliente retira a sua compra. o valor de peças de vestuário em segunda mão com o desaparecimento de dimensionamento padrão também reduzida.

Como podemos ver, mesmo trabalhando com um produto físico, o mundo da moda não é de todo alheia ao efeito perturbador causando novas tecnologias. Na verdade, podemos esperar uma digitalização crescente de atividades de projeto em paralelo para o progresso em novos materiais e automação. Isto irá permitir o desenvolvimento de melhores ferramentas de simulação para o benefício dos criadores, e ainda ajustar os prazos nas empresas da cadeia de suprimentos.

Falando de criadores, que avança na simulação para reduzir as barreiras de entrada para o mundo do design, o que poderia adicionar não-profissionais, projetos de plataformas de colaboração, compartilhamento de comunidades, etc. Sem mencionar influenciadores e celebridades, que se vê aqui uma nova oportunidade para rentabilizar o seu capacidade de público de reboque.

A digitalização, juntamente com a produção personalizada, trará novos modelos de negócios, e empresas como a Inditex, na vanguarda do setor, farão bem em manter os olhos abertos. Por exemplo, copiar e adaptar outros designs também seria facilitado, de modo que a janela de exclusividade de um determinado produto ou desenho seria reduzida a um mínimo.

Com o tempo, a digitalização do design e a automação da produção permitirão que qualquer concorrente produza seus próprios produtos e próximo ao cliente. Nesse sentido, países como Bangladesh são meros fornecedores de capacidade de produção e têm pouco a dizer nas atividades que geram mais valor na indústria, como o design.

A automação não melhorará sua situação, ao contrário, com a transferência de parte da produção para os mercados de vendas e maior competição de custos. Algumas empresas já estão reagindo à ameaça, como a chinesa Tianyuan Garments, que está instalando uma fábrica em Arkansas (EUA).

Dilema à vista

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Segundo a teoria da vantagem comparativa, os seres humanos procuram empregar-nos nessa ocupação que maximiza nosso retorno. Isso levou os países desenvolvidos a abandonar atividades como a produção têxtil para se concentrar em outras com maior valor agregado. Nações como Bangladesh, confiando em seus baixos custos salariais, aproveitaram esta oportunidade para criar empregos e tirar milhões de pessoas da pobreza.

Avanços recentes na automação do setor reduzem a relevância do custo salarial na produção, prejudicando a posição de países especializados na fabricação de vestuário e calçados e ameaçando tornar rentável a reversão do processo de realocação.

Para as grandes marcas do setor, produzir localmente faz com que elas ganhem pontos diante de seus clientes, muitos dos quais desconfiam dos processos de offshoring, aos quais são responsáveis ​​pela perda de empregos em seus países. Para o final da fila, a automação é uma dor de cabeça, já que é um fenômeno transversal que fecha as rotas de fuga.

Soma-se a isso a necessidade de desenvolver seu capital humano como a única maneira de competir na nova economia 1, algo em que estão muito atrás do primeiro mundo e que requer tempo, meios e uma estrutura institucional adequada. Além disso, a ausência de um mercado interno forte leva-os a continuar a investir nas exportações de têxteis, mantendo ao mesmo tempo uma vantagem de custo, o que pode reduzir recursos para possíveis alternativas. E tudo isso com a ameaça de agitação social que pode surgir do enfraquecimento do mercado de trabalho.

O dilema é servido e os grandes clientes ocidentais têm muito a dizer. Suas políticas de RSC, focadas na melhoria das condições de trabalho e salário colocadas em prática por seus fornecedores, podem ser contraproducentes para os trabalhadores, estimulando a automação. Mas, na ausência de outros pontos de venda para os funcionários, existe uma alternativa à automação que não passe pela aplicação de políticas intervencionistas? E isso não levaria a um retorno ainda maior da produção para o primeiro mundo? Parece claro que o processo de automação é imparável e não há saída fácil para os desafios que ele representa.

1 Países como a China apostam há anos na economia do conhecimento. Resta saber se eles podem convergir com a renda per capita dos países desenvolvidos, um desafio complicado, dado o envelhecimento precoce de sua população.


Pablo Martínez-AlmeidaEu vivi a crise de pontocom e tijolo de dentro (Ecuality e Martinsa-Fadesa). Apaixonado pela estratégia de negócios e novas tecnologias. Interessado em quase tudo. Convergente, leitor e consumidor de séries. 

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quinta-feira, 10 de maio de 2018

O que está acontecendo na Argentina?

¿Qué está pasando en Argentina?

Raul Jaime Mestre - El Blog Salmón

O Governo da Argentina e o Banco Central da Argentina (BCRA) lançaram uma nova bateria de medidas para conter a depreciação do peso e restaurar a tranquilidade dos mercados, mesmo que seja algo paliativo. Chegou aoponto que o governo da Argentina solicitou ajuda ao FMI, solicitando a injeção de dinheiro urgente.

O Banco Central da Argentina (BCRA) elevou as taxas de juros pela terceira vez em menos de uma semana para chegar a 40%, enquanto o ministro da Economia, Nicolás Dujovne, anunciou uma redução na meta de déficit de 3,2% por cento do PIB para 2,7 PIB.

Com as medidas do governo central e do BCRA, o peso se recuperou em relação ao dólar norte-americano, embora permaneça próximo aos mínimos históricos assinalados há uma semana, quando o peso afundou cerca de 8%.

Podemos nos perguntar: o que está acontecendo com a Argentina que teve que elevar as taxas de juros?

Devido à valorização do dólar frente ao peso, a inflação aumenta

O Banco Central da Argentina (BCRA) tomou essa decisão com o objetivo de conter o comportamento disruptivo que estava estabelecendo o mercado de câmbio, bem como garantir o processo de desinflação.

Desta forma, o Banco Central da Argentina (BCRA) aumentou as taxas de juros em 675 pontos base, depois de passar de 27,25% para 33,25% durante algumas semanas.

Além disso, o governo anunciou um ajuste de 3.2 bilhões de dólares, especialmente em obras públicas, a estrela do mandato.

Na Argentina, eles estão acostumados com as crises que todos sabem como interpretar os sinais rapidamente. E o dólar americano é o sinal mais claro. É por isso que, assim que veem os movimentos, os argentinos podem se jogar para comprar a passagem verde, e isso amplifica a crise e os nervos.

O outro grande fantasma da economia argentina é a inflação que aumenta toda vez que o dólar se valoriza em relação ao peso. A meta estabelecida pelo Banco Central da Argentina (BCRA) de 15 por cento para 2018, embora os preços subiram no primeiro trimestre em 6,7 por cento, devido ao forte aumento nos serviços públicos.

Em março deste ano, a inflação anual ficou em 25,4%. Esta taxa era muito alta mesmo para um país latino-americano e só é superada na América do Sul pela Venezuela.

A mensagem aos investidores era clara: a Argentina reduz os gastos e, portanto, precisa de menos dívidas, de modo que aqueles que investem seu dinheiro nesse país não tenham medo. O golpe teve efeito imediato e o dólar começou a cair, mas a manobra tem fortes consequências negativas.

O aumento a 40 por cento dos tipos e a redução do gasto supõem um travão para a economia argentina que tinha voltado ao crescimento e começou a sair de uma longa crise.

O novo imposto sobre investidores internacionais na Argentina

A queda do peso em relação ao dólar dos EUA, cerca de 15 por cento até agora em 2018, onde o governo argentino aprovou um novo imposto sobre os investidores internacionais.

Este mês, o peso chegou a cotar acima de 23 pesos por dólar americano diante do olhar atento da sociedade argentina, que é sensível ao seu preço e tem parte de suas economias nesta moeda.

O governo argentino, por sua vez, culpa a desvalorização do peso com a força do dólar americano e o aumento das taxas de juros nos Estados Unidos. Por parte da Argentina, há também uma preocupação com um projeto de lei de oposição para reverter os aumentos de tarifa dos serviços públicos promovidos pelo governo.

O aumento das tarifas de eletricidade, água e gás é um dos principais pilares do plano econômico do governo para reduzir o número negativo de contas públicas na Argentina.

A redução do déficit anunciado pelo governo, através da redução de gastos com infraestrutura e aumento da renda via impostos, também tem sido usada como ferramenta para tranquilizar os investidores estrangeiros, que poderiam começar a se preocupar e prejudicar a dívida da Argentina no mercado.

Na última semana, antes de optar por estabelecer um aumento nas taxas de juros, o Banco Central da Argentina (BCRA) tentou conter a desvalorização do peso através de intervenções no mercado de câmbio.

O Banco Central da Argentina alocou cerca de 7.7 bilhões de dólares para apoiar o valor do peso. Uma decisão que diminuiu suas reservas nacionais, que são cerca de 60 bilhões de dólares norte-americanos.

O peso já está acostumado a ser espancado

O peso como a moeda nacional da Argentina, o peso argentino, o peso austral, em seguida, o peso conversível e, finalmente, o peso dos nossos dias, o peso. As mudanças de sua denominação também marcaram as diferentes crises que vêm ocorrendo desde os anos 70.

No início dos anos 80, quando a ditadura estava morrendo e os militares perderam o controle da economia, um argentino poderia ter em seu bolso uma conta de 1.000.000 de pesos.

Depois que a democracia foi recuperada, a crise não desapareceu na Argentina. O presidente Raúl Alfonsín tirou quatro zeros e converteu-o em cem pesos argentinos. Depois pegou mais três e chamou-a austral, aos apressados ​​cofres argentinos, tanto que, por um tempo, os jornais antigos circulavam com um selo com a nova denominação.

Depois da hiperinflação do final dos anos 1980, que terminou com Alfonsín, Carlos Menem tirou outros quatro zeros e os argentinos foram dolarizados: um peso valia um dólar.

O peso que hoje em dia sofre uma nova taxa de câmbio é o da década de 90, que em 2002 abandonou a paridade com o dólar e se desvalorizou pouco a pouco até atingir 23 pesos por dólar. Desde 1970, o peso argentino perdeu 13 zeros, um recorde.

Mobilidade econômica entre gerações estagnou nos últimos 30 anos, diz Banco Mundial

Novo relatório examina Brasil e mais cinco economias em desenvolvimento, sob os prismas da renda e da educação.
Estudo lançado pelo Banco Mundial nesta quarta-feira, em Washington, revela que a mobilidade econômica entre gerações estagnou nos últimos 30 anos. Ele se baseia em um novo banco de dados sobre 148 países, onde vivem 96% da população mundial.
O documento analisa as pessoas nascidas entre 1940 e 1980 e constata que 46 dos 50 países com as menores taxas de mobilidade de baixo para cima estão no mundo em desenvolvimento. Nesses países, milhões de pessoas estão presas em um ciclo de pobreza determinado por suas circunstâncias ao nascer e não conseguem avançar porque as oportunidades são desiguais.

Educação

Seis grandes países em desenvolvimento são examinados: Brasil, China, Egito, Índia, Indonésia e Nigéria. Neles, a mobilidade econômica aumentou das décadas de 1940 a 1980, embora em graus variados.
Além da renda, a principal métrica usada para observar a mobilidade entre gerações é a da educação. Os pesquisadores analisaram, entre outros temas, em quais países os filhos têm mais estudo do que os pais. Um deles é o Brasil, como conta Francisco Ferreira, conselheiro sênior para pobreza e desigualdade no Banco Mundial: "na coorte nascida em 1940, 50% das pessoas alcançavam um nível educacional maior que o dos pais. Na coorte de 1980, em comparação, 80% chegam a essa marca de ultrapassar o nível de escolaridade dos pais."
ITU/A.Mhadhbi
Em um futuro não muito distante, a parcela de mulheres com mais educação do que seus pais será maior que a dos homens.

Gênero

Outra questão importante da análise é a de gênero. Globalmente, em um futuro não muito distante, a parcela de mulheres com mais educação do que seus pais será maior que a dos homens. No Brasil, já há mais mulheres que homens concluindo o ensino superior, algo bem diferente do registrado na década de 1940. Francisco Ferreira explique que "de lá para cá, as mulheres têm dominado e hoje têm vários pontos percentuais acima dos homens. O que é ótimo para as mulheres, mas uma fonte de preocupação para os meninos, porque essa trajetória começa na infância. Então, no Brasil, nós temos um problema de gênero ao revés, em que nós temos de nos preocupar, em termos de políticas públicas, com o que está afastando os nossos meninos da escola."
Ao discutir a experiência de alguns países, o relatório mostra que, com vontade política e com as iniciativas certas, é possível oferecer melhores oportunidades às novas gerações. O estudo recomenda investir na primeira infância e melhorar as condições para a criação de empregos, por exemplo.

ONU News

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Revolução de Veludo da Armênia

Em 1978, Vaclav Havel escreveu O poder dos sem poder, no qual argumentou contra o regime comunista, afirmando que isso forçava as pessoas a "viverem em uma mentira". Para Havel, a resistência contra a mentira era começar a viver a verdade e desafiar a própria impotência através do reconhecimento da agência. Avançando quarenta anos, estamos agora a assistir a uma nova revolução de veludo na Arménia pós-socialista, um país que proclamou a sua independência do domínio soviético em 1991, mas que há muito tem lutado para criar uma democracia. Mais do que qualquer outra coisa, esta é uma revolução sobre valores. Trata-se dos valores da sociedade armênia e de suas realidades domésticas, socioeconômicas e políticas. A revolução não é sobre geopolítica ou relações externas.

Desde meados de abril, cidadãos armênios, liderados e inspirados pelo membro do parlamento Nikol Pashinyan da Aliança Yelk (Way Out), começaram a viver a verdade ao reconhecer sua agência, voz e poder. O que começou com a ação “Take a Step” de Pashinyan, transformou-se em um movimento nacional, alguns diriam até internacional, onde cidadãos armênios e armênios que vivem na diáspora se uniram para desafiar e rejeitar Serzh Sargsyan (ex-presidente de 2008-2018, e ex-primeiro-ministro em 2018) e seu Partido Republicano da Armênia (RPA). Levando às ruas e praças em Yerevan, Gyumri, Vanadzor e cidades menores e aldeias em todo o país, assim como em Los Angeles, Bruxelas e Londres, eles se reuniram para expressar sua raiva e descontentamento com o moralmente falido e cleptocrático, oligárquico regime do RPA que governou o país por duas décadas.

Através dessas ações, os cidadãos da Armênia, que alguns descreveram como apáticos, fatalistas e desmoralizados, começaram a questionar o poder do regime e sua legitimidade para governar. Hoje, segundo estatísticas oficiais, mais de um terço dos armênios vivem na pobreza e a população do país caiu abaixo de 3 milhões devido à emigração e à taxa de natalidade em declínio. Por um lado, há um desejo de se livrar do sistema oligárquico de governança e implementar um sistema mais democrático e justo de governança que reconheça e respeite o estado de direito e os direitos humanos dos cidadãos da Armênia. Por outro lado, existe o desejo de viver em uma sociedade mais justa, onde os cidadãos vivam com dignidade e onde o nepotismo e a corrupção não levem a extremos de desigualdade social e de renda e pobreza.

Os manifestantes estão rejeitando o RPA e suas práticas e valores desacreditados, que incluem ganância, corrupção, nepotismo, subserviência, violência e intolerância, e em seu lugar eles estão defendendo novos valores como liberdade, dignidade, tolerância, amor, coragem e justiça. Esses ideais elevados surgiram na euforia revolucionária que tomou o país, mas o período revolucionário é transitório. Resta ver como as coisas se desenvolverão depois, mas, por enquanto, esses ideais e valores informam, inspiram e motivam as pessoas a agir.

Amor e tolerância

Como muitos já observaram, esses protestos são extraídos de todos os segmentos da sociedade armênia. Pessoas de todas as classes, classes sociais e convicções políticas e ideológicas se uniram em sua rejeição ao regime. As pessoas seguram faixas proclamando a revolução como uma de “amor e tolerância”, ao invés de ódio e vingança. As pessoas nas ruas e praças começaram a se tratar com mais gentileza, tolerância e cortesia.

Mais e mais mulheres, jovens e pessoas com deficiência estão envolvidos nesses protestos. Ao lado de Pashinyan, Zaruhi Batoyan, um ativista deficiente e membro da Aliança Yelk do Conselho de Anciãos de Yerevan, falou com eloqüência do estrado que mobilizou as pessoas para agir. Batoyan também foi fundamental na organização da ação de "panelas e frigideiras", que agora se tornou um evento quase noturno, quando as pessoas batem panelas e frigideiras juntas das 23h às 23h15 como uma forma de protesto. A ação destina-se a permitir que aqueles que, por qualquer razão, não possam deixar suas casas para assistir aos protestos na praça, expressem seu descontentamento dessa maneira.


Inclusão e tolerância são novos valores para a sociedade armênia, onde não apenas pessoas com deficiência, mas também pessoas que se identificam como LGBT têm enfrentado discriminação, marginalização e até mesmo violência. De fato, a velha guarda da RPA usou a presença de feministas e ativistas LGBT envolvidos no movimento para atacar Pashinyan como promotor de "valores ocidentais". E com certeza, as antigas divisões podem voltar depois que a euforia revolucionária passar, mas por enquanto, médicos e advogados de terno se reúnem e marcham ao lado de jovens descolados tatuados, velhos de barba grisalha e jovens feministas vocais, numa atmosfera caracterizada pela paz. alegria e tolerância.

Responsabilidade

Um dos principais slogans dessa revolução, ao lado de “Rejeitar Serzh” e “Com coragem” (dukhov), é “Nós somos os donos de nosso país”. Ao contrário dos dois anteriores, o último slogan existe há quase uma década e foi adotado por diferentes movimentos, desde o movimento Occupy Mashtots Park liderado por jovens em 2012 até o grupo Sasna Dzrer liderado por veteranos armados do conflito de Karabakh que capturaram e mantiveram uma delegacia de polícia em Yerevan em 2016. Nesse contexto, ser o proprietário do país significa que as pessoas se tornam sujeitos ativos, em vez de passantes e silenciosos na sociedade.

Em vez de reclamarem em particular do status quo, eles começam a tomar ações públicas para mudar suas vidas e sua sociedade. Em meio a essa revolução de veludo, as pessoas estão reconhecendo seu poder e agência. Isso pode ser observado não apenas através dos atos de desobediência civil de greves e bloqueios de estradas, mas também de ações menores, como pessoas tomando as ruas após as manifestações com vassouras e sacos de lixo para limpar as ruas dos destroços da demonstração da noite anterior. Essa responsabilidade não é apenas sobre as próprias ações, mas também um senso de responsabilidade para com os outros na sociedade e para o futuro do país.

Coragem, liberdade e justiça

"Com coragem" (dukhov) tornou-se um grito de guerra quando os manifestantes rejeitaram a tentativa do regime de dominar por intimidação e fomentação de medo, bem como a corrupção e políticas nepotistas que se tornaram endêmicas nos poucos anos em que indivíduos e seus clãs conquistou o poder político e acumulou enormes fortunas que estavam escondidas em contas no exterior. Querem viver sem medo, intimidação e num país onde o Estado de direito e a justiça são respeitados.

Nas últimas duas décadas, o regime oligárquico, ao apoderar-se dos setores político e econômico, usou a força bruta e a repressão econômica para ampliar e consolidar seu poder. Os políticos oligarcas, como o parlamentar Samvel Aleksanyan (Lfik Samo) e o ex-primeiro-ministro Hovik (o camundongo) Abrahamyan, são figuras muito difamadas na sociedade armênia. Como parte do governo liderado pela RPA, eles têm operado com impunidade, intimidação e violência, propagando uma política de medo.

Há muitos casos de oligarcas e políticos da RPA agindo com violência e impunidade, mas um incidente muito recente se destaca como um exemplo brilhante de seu desrespeito pelas dificuldades enfrentadas pela população. Em dezembro de 2017, no período que antecedeu as festas de fim de ano, os preços dos alimentos aumentaram acentuadamente. Em resposta à crescente insatisfação do público com os preços exagerados, MP RPA e Presidente do Comitê Parlamentar Permanente de Saúde e Bem-Estar Social, Hakob Hakobyan disse aos jornalistas: “Os aumentos de preços não afetarão os pobres, porque eles não têm dinheiro e essencialmente eles não podem comprar nada. Eles não compram produtos caros, como manteiga ou carne, porque eles não têm [dinheiro] ”.

Em apoio ao seu colega da RPA, o deputado e presidente do Comitê Parlamentar Permanente da Economia, Khosrov Harutyunyan, acrescentou: “As pessoas pobres não têm dinheiro, por isso não compram nada. Que diferença faz se a carne é cara ou barata ”, acrescentando que“ os comedores de batata não comem carne ”. Esse incidente ilustra a desconexão dos políticos da RPA da sociedade e mostra seu cinismo e falta de responsabilidade como funcionários públicos para melhorar os meios de subsistência e bem-estar daqueles que foram eleitos para servir.

Onde as coisas estão no momento

Eventos estão se desenvolvendo rapidamente e prever onde eles vão liderar é uma tarefa tola. Enquanto Sargsyan renunciou ao cargo de primeiro-ministro em 23 de abril, agora ficou claro que ele está operando das sombras e nem ele nem seu partido estão prontos para soltar as rédeas do poder. Muitos na Armênia argumentam que quem chega ao poder deve ter a aprovação tácita de Moscou. Por essa razão, Pashinyan, ao mesmo tempo em que defende a mudança de regime, continua a proclamar publicamente que não mudará a posição da política externa do país, especialmente no que diz respeito à sua relação com seu poderoso vizinho do norte.

Depois de o Parlamento não ter elegido Pashinyan para o cargo de primeiro-ministro em 1 de Maio, foi anunciado em 2 de Maio que uma nova votação terá lugar no Parlamento em 8 de Maio. O candidato que receber um terço dos votos se tornará o novo primeiro-ministro. Embora a RPA tenha dito que não nomeará um candidato, muitos desconfiam do partido e temem que ele mais uma vez implemente suas táticas tradicionais de intimidação para moldar o resultado eleitoral em seu favor. Mas tais táticas podem ser bem sucedidas, uma vez que centenas de milhares de armênios já encontraram sua voz, seu poder e agora se vêem como historiadores e donos de seu país? Enquanto a revolução continua viva, teremos que esperar e ver.


Este post apareceu originalmente no blog European Politics and Policy (LSE).


Armine Ishkanian

Armine Ishkanian é Professora Associada do Departamento de Política Social da LSE e Diretora do Programa de Mestrado em Políticas Sociais e Desenvolvimento (Correntes do Estado e ONGs).