"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 19 de maio de 2018

Em quem os bandidos votam?

O número de assaltantes e homicidas é gigantesco no Brasil, o país registra cerca de 60 mil homicídios por ano e o número de roubos e furtos é incalculável; num ano eleitoral cabe indagar sobre como se comportam a profusão de criminosos da contemporaneidade nacional: estes se alistam?, fazem parte parte das abstenções? Há mais bandido candidato ou simplesmente votante? Os bandidos condenados no Brasil perdem os direitos políticos, os foragidos da justiça não devem comparecer as filas de votação, será que ainda sobra?

O Brasil é um país de Rousseau. O bom selvagem de Rousseau é uma lenda, Rousseau queria animais, não humanos. Condenou o pensamento, com ele a civilização. Marx debochou de Rousseau, mas não deixa de ser rousseanista, crente no fim da desigualdade e apologista da purificação da natureza humana tirando a propriedade de quem a tem e dando-a a uma burocracia materialista. Freud mudou o rumo dessa prosa, para ele não era a sociedade a grande inimiga do homem, e sim o contrário: "o indivíduo é o pior inimigo da civilização". Culturalista, tradicionalista, Freud acreditava no exemplo dos grandes homens.

Os dois principais atributos da sociedade é a vida e a propriedade. Da primeira nada precisa falar, sem a segunda o homem seria animal, Rousseau estava certo. Mas sapatos são bons para evitar espinhos nos pés. Se possuo sapatos eles são meus para que use até quando queira, mantendo, assim, em boa qualidade o couro dos pés. Bandidos se fazem em cima desses dois atributos, ou ofendem a vida ou a propriedade, se uma sociedade deixa de punir bandidos ela passa a agredir a si mesma, trama contra sua existência.

Nem só de pão vive o homem, mas o bucho seco não deixa ninguém criativo. Quando a produção econômica é insuficiente e desorganizada os bandidos se multiplicam. São animais, só se educam e se organizam se houver boia para todos. O bandido não pode deixar de ser punido pelo fato de uma sociedade possuir grandes e graves problemas sociais, seria incentivo e torcer pelo fracasso, mas em uma sociedade que tem muitos bandidos esta não pode se isentar de responsabilidades.

Os bandidos se candidatam, diria-vos que até a maioria dos candidatos na letra fria da lei, os que ficam bem aquecidos perante a lei, são bandidos, os partidos agremiações para fraudar leis que os membros desses mesmos partidos criam; existe cá entre nós um exibicionismo legal, existe lei de toda natureza, como a confundir a cabeça de quem precisar aplicá-las ou para render livros aos doutores da doutrina jurídica, talvez não. Acham que aprovar leis mesmo não cumprindo as já existentes causará revoluções no país, talvez nem pensem nada disso e fazem-nas por pura burrice mesmo.

A maioria absoluta do eleitorado é gente honesta, um grande percentual não entende o funcionamento do regime de poder; muitos esperam homens  que sejam representante do próprio Deus na terra, outros votam por desfastio e creem que é tudo bandido e quem se candidatar bandido será. Bom número aproveita o período eleitoral para botar pneus na moto ou no carro, cortar o cabelo e fazer um puxado em casa. Durante a campanha tudo mudará, não se sabe pra onde, as coisas são tão fáceis de serem resolvidas que chegamos a pensar que estávamos todos bêbados e ninguém se levantava pra ligar a máquina.

Economia brasileira em 2018: estagnação e o recorde de 27,7 milhões de desocupados

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“Todo ser humano tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições
justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego”
Artigo 23 da Declaração Universal dos Direitos Humanos (10/12/1948)

taxa composta de subutilização da força de trabalho (%)

Os economistas do mercado financeiro começaram o ano de 2018 tentando vender um cenário otimista para a economia brasileira, representado por baixa taxa de inflação, baixa taxa de juros, retomada da renda e do emprego e alto crescimento econômico (considerando que hoje em dia o voo da galinha de 3% de aumento do PIB é comemorado como um “milagre”).
Mas o pacote dourado de produtos otimistas que o mercado tentou vender não resistiu à realidade do primeiro trimestre do ano. As notícias que vieram a público nesta semana de 13 a 19 de maio traçam um quadro muito desanimador para a realidade nacional, neste ano eleitoral, sem muitas perspectivas pela frente.
Com a economia na UTI e uma quantidade enorme de desempregados no país, era de se esperar uma taxa de inflação baixa, como é estabelecido pela famosa “Curva de Phillips”, que relaciona alto desemprego à baixa inflação. Contudo, os preços tendem a subir no Brasil devido ao aumento do preço do petróleo (que chegou a US$ 80 o barril Brent, esta semana), à nova política de preços de combustíveis da Petrobras (o Brasil tem uma das gasolinas mais caras do mundo) e à desvalorização cambial que está impactando o Brasil (o dólar oficial atingiu R$ 3,7 e ultrapassou R$ 4 no mercado paralelo), a Argentina e diversos outros países ditos em desenvolvimento.
Com a possibilidade de aumento da inflação, o Banco Central, no dia 16/05, resolveu manter a taxa de juros Selic em 6,5% ao ano, que é a mais baixa em termos nominais, mas é muito alta em termos reais, considerando o estado anêmico da economia brasileira.
O Banco Central também divulgou (dia 16/05) o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), que registrou uma baixa de 0,13% no acumulado do primeiro trimestre de 2018 na comparação com o trimestre anterior (outubro a dezembro de 2017), pela série ajustada. Isto significa que a economia brasileira está estagnada e será incapaz de crescer 3% no corrente ano, mesmo que houvesse um grande milagre.
Na quinta-feira, dia 17/05/2018, o IBGE divulgou a taxa composta de subutilização da força de trabalho que agrega os desempregados, os subocupados por insuficiência de horas e a força de trabalho potencial. O desalento, que faz parte da força de trabalho potencial, engloba as pessoas que estavam fora da força de trabalho por uma das seguintes razões: não conseguiam trabalho, ou não tinham experiência, ou eram muito jovens ou idosas, ou não encontraram trabalho na localidade – e que, se tivessem conseguido trabalho, estariam disponíveis para assumir a vaga.
Segundo a PNAD Contínua do IBGE, a subutilização da força de trabalho chegou à impressionante taxa de 24,7% no 1º trimestre de 2018, o que representa ¼ da força de trabalho brasileira. Ou seja, 1 em cada 4 brasileiros estão sem o direito humano básico ao emprego, como estabelece a Declaração Universal dos Direitos Humanos (de 10/12/1948).
No total, são 27,7 milhões de pessoas “jogadas na rua da amargura do desemprego”. Esta é a taxa (24,7%) e o número (27,7 milhões) mais alto da série da PNADC, iniciada em 2012. Em alguns estados a taxa de subutilização da força de trabalho chega a 40% (como na Bahia). Isto mostra que o Brasil viveu a sua maior e mais profunda recessão da história e que está tendo a pior e mais desalentadora recuperação de todos os tempos. Pelo menos 3 milhões de brasileiros procuram emprego há 2 anos e nada encontram.
Na verdade, todos estes dados acima sobre inflação, juros, desemprego, baixo crescimento, etc. apenas confirmam que a economia brasileira está em um “beco sem saída” e o povo brasileiro já não sabe mais o que é “Ordem e Progresso”, lema que foi inscrito na bandeira nacional pela influência dos positivistas quando da Proclamação da República e que foi apropriado como lema requentado do atual governo federal.
A situação da economia brasileira é, indubitavelmente, critica. O país tem uma grande crise fiscal, uma dívida pública que está saindo totalmente do controle, baixa taxa de poupança e investimento e baixíssima produtividade dos fatores de produção. Mesmo a ótima notícia de que o Brasil vive o seu melhor momento demográfico da história e que tem uma janela de oportunidade única para dar um salto no desenvolvimento humano, não vale de nada, pois o estado da economia está jogando fora o bônus demográfico ao desperdiçar o potencial de 27,7 milhões de potenciais trabalhadores.
Para complicar ainda mais o que já está complicado, matéria do site Bloomberg (17/05/2018), com base em estudos da economista da Universidade de Harvard, Carmen Reinhart, mostra que os chamados “mercados emergentes” estão em pior situação hoje em dia do que durante a crise financeira global de 2008.
Ao invés do otimismo dos BRICS, termo inventado pelo economista Jim O’ Neill, do banco de investimento Goldman Sachs, em 2001, a moda agora é falar de “Os 5 fracos” (“the Fragile Five”), que incluem Brasil, Índia, África do Sul, Turquia e Indonésia. Sendo que a Argentina é Hors concours. Uma crise internacional neste momento só agravaria a crise brasileira.
O Brasil está em rota de declínio, possui um governo corrupto, ilegítimo e paralisado, um Congresso corrupto, caro e ineficiente, um ativismo judicial inaceitável e tem uma oposição perdida e que não sabe o que apresentar para tirar o Brasil do buraco, a não ser velhas propostas que já se comprovaram repetidamente inadequadas e insuficientes. Ou seja, a fila do desemprego vai continuar crescendo e cada vez mais pessoas vão procurar trabalho por mais tempo e o país terá mais gente insatisfeita o tempo todo.
Referências:
IBGE. 27,7 milhões de pessoas estão subutilizadas na força de trabalho do país, 17/05/2017

Enda Curran and Cormac Mullen. Worse Than 2008? Here’s What the Emerging Market Numbers Show, Bloomberg, 17 de maio de 2018


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 18/05/2018

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Política Fiscal Permanece na Idade da Pedra

por Simon Wren-Lewis

Ou talvez a idade média, mas certamente não é nada mais recente que a década de 1920. Keynes defendeu o uso da expansão fiscal no que ele chamou de armadilha da liquidez nos anos 1930. Hoje em dia usamos uma terminologia diferente e falamos sobre a necessidade de expansão fiscal quando as taxas de juros nominais estão presas no Limite Inferior Zero ou Limite Inferior Eficaz. (Prefiro um pouco a última terminologia porque cabe aos bancos centrais decidir em que ponto reduzir as taxas de juros nominais ainda seria arriscado ou contraproducente). A lógica era a mesma de hoje em dia, na década de 1930. Quando a política monetária perde seu instrumento confiável e eficaz para administrar a economia, você precisa trazer o próximo instrumento mais confiável e eficaz: a política fiscal.

A Zona Euro como um todo está atualmente no limite inferior efetivo. As taxas estão um pouco abaixo de zero e o BCE está criando dinheiro para compras de ativos em larga escala: um instrumento de política monetária cujo impacto é muito mais incerto que mudanças na taxa de juros ou mudanças na política fiscal (mas certamente melhores que nada). A razão pela qual a política monetária está no nível máximo de estímulo é que o núcleo da inflação na zona do euro parece estar em 1% ou abaixo. É claro que é hora da política fiscal começar a ajudar com algum estímulo fiscal.

No entanto, o objetivo do novo ministro das Finanças alemão, dos social-democratas supostamente esquerdistas, é alcançar um superávit orçamentário de 1%. Para isso, ele está cortando investimentos públicos de 37,9 bilhões de euros no ano que vem, para 33,5 bilhões de euros até 2020. No entanto, a infraestrutura alemã, antes renomada mundialmente, está desmoronando. Sua conectividade de banda larga pode ser muito melhorada.

O argumento macroeconômico para uma política fiscal alemã mais expansionista é esmagador. A Alemanha tem um superávit em conta corrente de cerca de 8% do PIB. Existem algumas razões estruturais pelas quais você pode esperar algum superávit em conta corrente na Alemanha, mas o FMI estima que esses fatores estruturais representem menos da metade do superávit atual. Estima-se que um terço do excedente excedente seja resultado de uma política fiscal excessivamente restritiva. Como Guntram Wolff aponta, a principal contrapartida do excedente é a poupança do setor corporativo. Talvez mais investimento público possa encorajar investimentos privados adicionais.

Mas este não é outro artigo sobre como a Alemanha precisa se expandir para ajudar o resto da zona do euro. O problema, como Matthew Klein aponta, é que toda a zona do euro está fazendo o mesmo. Na área como um todo, a posição fiscal é tão apertada quanto no boom pré-crise. O desemprego na zona do euro ainda é muito alto. E a razão pela qual a política fiscal é muito restrita é que os principais formuladores de políticas da zona do euro acham que é a coisa certa a fazer. "O déficit certo é zero", diz o ministro francês das Finanças. Ele continua: "Como a França não está em uma crise econômica, precisamos ter um orçamento equilibrado, para que possamos ter um déficit em tempos mais difíceis". Você ouve o mesmo na Alemanha: a economia está crescendo, então precisamos ter orçamento excedentes.

Uma economia em expansão não é aquela que está crescendo rapidamente, mas é aquela em que o nível de produção e emprego está acima do nível compatível com a permanência na meta de inflação. As medidas do hiato do produto são apenas estimativas do que é esse nível: a inflação subjacente é o melhor guia. O núcleo da inflação está bem abaixo da meta neste momento, razão pela qual as taxas de juros estão em seu limite inferior efetivo. É por isso que as ações e a retórica da maioria dos ministros das finanças europeus (e do Reino Unido) estão simplesmente erradas.

Você poderia pensar que causar uma segunda recessão após a que se seguiu ao GFC teria sido um alerta para os ministros das finanças europeus aprenderem alguma macroeconomia. (Sim, sei que as taxas de elevação do BCE em 2011 não ajudaram, mas espero que a maioria dos modelos macro lhe diga que a contração fiscal coletiva causou a maior parte dos danos.) Mas o pouco aprendizado que houve foi não cometer grandes erros, mas apenas grandes: devemos equilibrar o orçamento quando não há crise.

Esta não é uma disputa entre esquerda e direita, como é agora no Reino Unido, mas um problema com o consenso político na Europa. O que estamos vendo, suspeito, é uma potente combinação de duas forças: uma obsessão alemã em equilibrar o orçamento que tem raízes na ideologia ordoliberal / neoliberal atualmente dominante, e homens práticos famosos de Keynes: conselheiros que aprenderam o que eles têm em uma era de a grande moderação em que o pior problema econômico que tivemos foi um viés de déficit relativamente benigno. Lutando contra a última guerra e tudo mais.

Este artigo apareceu originalmente no Mainly Macro

Simon Wren-Lewis

Simon Wren-Lewis é professor de economia na Universidade de Oxford.

Por que o setor de tecnologia pode ser o grande perdedor da guerra comercial entre Trump e China

Por qué el sector tecnológico puede ser el gran perdedor de la guerra comercial entre Trump y China


"As guerras se sabe como começam, mas não como terminam." Esta é uma daquelas frases do repertório da sabedoria popular que são mostradas repetidas vezes mais do que verdadeiras. E muitas vezes faz isso no golpe de um obus. Mas a frase não é apenas aplicável a guerras convencionais, também podemos dizer o mesmo sobre uma guerra comercial moderna como aquela que o governo Trump declarou à China.

Esta guerra começou em um campo de batalha que limitou os Estados Unidos, e pode acabar se mudando para outros campos totalmente diferentes e cheios de lama. Na verdade, em parte isso já aconteceu, mas a lama mais viscosa que pode acabar combatendo a China e os EUA é se a guerra acabar ultrapassando o setor de tecnologia. E o dano causado seria para os dois lutadores que agora estão brincando na poça de lama, mas também pode afetar significativamente todas as economias do resto do planeta.

A guerra comercial em larga escala que poderia ocorrer

Por Que El Sector Tecnologico Puede Ser El Gran Perdedor De La Guerra Comercial Entre Trump Y China 2

Os Estados Unidos são a primeira economia do planeta. A China é a segunda. Se olharmos na equação de possíveis guerras comerciais entre dois países em larga escala, obviamente a maior guerra comercial que poderíamos testemunhar é precisamente entre as duas maiores economias do mundo. E isso aconteceu.

Alguns veem essa guerra comercial à distância, curiosos para ver o resultado e se o presidente Trump conseguirá o que quer, e outros o veem mesmo com a paixão de alguém que assiste a um espetáculo de entretenimento armado com uma boa porção de pipoca. Mas aqueles de nós que seguem este conflito desarmado entre as duas maiores superpotências do prisma mais econômico, não podem deixar de sentir uma profunda preocupação.

As razões do risco para as outras economias do planeta

Por Que El Sector Tecnologico Puede Ser El Gran Perdedor De La Guerra Comercial Entre Trump Y China 3
Para começar, o primeiro risco para os participantes das arquibancadas para essa luta comercial é que o presidente Trump não apenas tenha declarado a guerra comercial exclusivamente à China. Como em todas as trocas de artilharia, os obuses trocados entre os EUA e a China podem acabar impactando outros países. Embora seja verdade que a maioria das medidas e as novas tarifas de Trump destinam-se a prejudicar as importações do gigante asiático, não podemos esquecer que existem tarifas, como impostos sobre o aço, que também afetam outros países, inclusive a Europa.

Portanto, não acho que estamos seguros no castelo europeu, eu tenho medo que Trump tem capacidade suficiente (e vontade) para distribuir tarifas para todos. De fato, há um certo pânico no Velho Continente sobre a possibilidade certa de que uma guerra comercial entre a UE e os EUA também seja aberta, uma vez que o motor europeu que é a Alemanha se mostra muito exposto e depende muito dele. Em Berlim, eles estão desesperados para evitar a todo custo um conflito que prejudicaria seriamente seus interesses e sua economia.

O segundo risco que afetaria terceiros seria que a guerra comercial entre as duas superpotências se degeneraria em um conflito legal em massa em grande escala. Este ponto não é de todo descartável, e na verdade nós já o levamos em primeiro plano quando analisamos o possível impacto do Brexit para a Espanha. O risco é o mesmo para o caso que nos preocupa hoje, e para materializar em seu maior esplendor afetaria plenamente os tribunais que estão encarregados de condenar as disputas econômicas internacionais, com o cenário mais do que provável de um colapso.

Por isso (e por algum outro motivo) existe um medo que circula pelos mercados, que vê que o conflito comercial entre os EUA e a China é um risco que pode levar ao colapso do sistema de comércio mundial como um todo. A verdade é que estamos imersos em um retorno aos tempos da tarifa feliz cujo protecionismo econômico tão desastrosas consequências acabou trazendo com a Grande Depressão.

Esse colapso significaria que uma grande (se não total) incerteza legal ocorreria no nível global para todo o comércio mundial, uma vez que praticamente todos os julgamentos em relação ao comércio internacional seriam paralisados. Não só veríamos que a avalanche de disputas entre os EUA e a China é impossível de resolver, mas qualquer outra disputa entre, por exemplo, a UE e o Japão, não poderia ter cobertura legal, com tudo o que isso implica. O que foi dito, incerteza jurídica e potencial paralisia de boa parte do comércio internacional.

O terceiro risco é o conflito se degenerar em uma guerra comercial generalizada, mas especialmente em um determinado setor estratégico ...

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De fato, o impacto da guerra do aço para a Europa é um mal menor se começarmos a analisar um pouco o risco potencial ao qual um conflito como o que está sendo aberto pode nos levar. As possíveis frentes adicionais de batalha que podem ser abertas entre o gigante americano e o gigante vermelho são múltiplas, incluindo algumas o uso de "armas não convencionais". Com isso, o cenário final que pode acabar trazendo esses riscos é bastante imprevisível. E não, as conseqüências não são poucas nem são apenas danos colaterais. Muito pelo contrário: poderiam ser danos estruturais que afetam a construção da própria ONU (devido à globalização).

Mas há uma dessas possíveis frentes de novas batalhas que é especialmente perigosa para o resto do mundo e também para as duas grandes da economia mundial. É o setor tecnológico, cavalo de batalha comercial em um plano não belicoso por anos por sua natureza estratégica em face da socioeconomia do futuro, e que agora poderia se tornar um burro de batalha do conflito "pelos bravos". Efetivamente até agora os jogadores tentaram conquistar o mundo fazendo um buraco no cenário tecnológico disruptivo, e agora eles podem usar o setor de tecnologia como uma arma de guerra a mais.

O caso é que o setor de tecnologia tem sido um dos mais intensos (e até mesmo líderes) que abraçou a globalização, e através dos vasos de comunicação estabelecidos por este setor, as socioeconomias do planeta acabaram sendo profundamente imbricadas entre si. A China e os EUA não são uma exceção, e seus laços econômicos no mundo da tecnologia são muitos e muito estreitos. Os grandes tecnólogos americanos compram inúmeros componentes chineses, fabricam e montam seus produtos finais lá, vendem em seu mercado colossal, etc. Passar a guerra comercial para o nível tecnológico pode ser muito prejudicial para todos, mas especialmente para os EUA e a China.

Há muitas vozes nos Estados Unidos que mostram sua capacidade tecnológica e domínio empresarial nos domínios da Nasdaq. Eles estão absolutamente certos de que, se a guerra comercial com a China passar para o terreno tecnológico, serão apenas os chineses que serão muito afetados. Essa crença a priori é bem fundamentada, já que o equilíbrio tecnológico entre os dois poderes parece mostrar que existem muitas empresas de tecnologia americanas que têm sua produção realocada para a China. E não devemos esquecer que o presidente Trump já declarou abertamente ao mundo tecnológico a necessidade de repatriar empregos no setor para o território norte-americano.

E não se pode esquecer que alguns impostos recentemente impostos por Trump, nas primeiras incursões antiaéreas do início da guerra comercial com a China, caíram diretamente em produtos de tecnologias como robótica, eletrônica, computadores, telecomunicações e aeroespacial. Alguns dos primeiros ataques foram ataques balísticos de alcance intercontinental e com objetivos claramente tecnológicos. Mas eles não foram concebidos de livre arbítrio; em vez disso, pelo contrário, foram estrategicamente desenhados pela administração Trump com um algoritmo de computador para infligir o máximo dano possível às exportações chinesas, mas projetados ao mesmo tempo para tentar tornar o dano muito limitado para os consumidores americanos.

Mas tudo que brilha não é americano, e a China também é um grande líder em tecnologia

Por Que El Sector Tecnologico Puede Ser El Gran Perdedor De La Guerra Comercial Entre Trump Y China 5

Mas não importa quantos algoritmos eles projetem nos EUA, não importa o quanto a liderança dos EUA tenha em tecnologia, muito GAFA (Google, Apple, Facebook, Amazon) que é "Made in the USA", o fato é que a globalização envolveu um emaranhado indecifrável das relações econômicas, incluindo principalmente o setor tecnológico. A realidade é que medir o impacto total de qualquer ataque comercial até as conseqüências finais certamente se tornou impossível. As relações socioeconômicas entre os EUA e a China (e o resto do mundo) tornaram-se tão complexas que o campo de batalha tecnológico é tão imprevisível quanto o tabuleiro oculto de um clássico jogo de caça-minas.

Ao contrário do que algumas pessoas pensam, e em parte contrário ao elo anterior da CNBC, o campo de batalha tecnológico no qual a China e os EUA podem lutar não se limita a um cenário com um líder tecnológico dos Estados Unidos, que limitado a terceirizar a produção e montagem de eletrônicos a baixo custo para uma China dependente. Nada está mais longe da realidade. A verdade é que a China e seus cidadãos estão muito avançados tecnologicamente e, em muitos planos, dão mesmo vários retornos aos países desenvolvidos.

Do link anterior à análise da PIMCO, alguns dados sobre o assunto que chamam a atenção mostram como, por exemplo, a China monopoliza o número esmagador de mais de 40% de todas as transações de comércio eletrônico em todo o mundo; Uma década atrás, seu pedaço deste bolo foi inferior a 1%. Também em 2016 a economia digital da gigante vermelha ficou com um peso específico de 30% do PIB nacional, alcançando cerca de 3,4 trilhões de dólares, com os quais a China se classifica como a segunda maior economia digital do mundo por importância apenas atrás dos Estados Unidos.

Outros indicadores tecnológicos significativos revelam como o valor total de todas as transações móveis na China é 11 vezes maior do que o dos EUA, como os cidadãos chineses totalizam 49 horas por mês de uso de smartphone em comparação com 45 para os americanos ou como 19% Os usuários de internet chineses são usuários exclusivamente móveis, em comparação com 5% do país norte-americano. Isso sem mencionar o posicionamento que eles estão adotando do país "ditapitalista" em tecnologias revolucionárias e futuras, como Inteligência Artificial ou Big Data, que só podem acabar dando-lhes ainda mais receitas de liderança tecnológica e ... enfim também socioeconômico. Tudo isso mostra como a China não é apenas um fornecedor de produtos tecnológicos, mas também um mercado de TI colossal, que altera significativamente as marés da guerra tecnológica na direção diametralmente oposta.

Você vê então como a batalha na arena tecnológica não é tão desequilibrada em favor dos EUA como a priori você poderia pensar. De fato, a realidade é que ela é razoavelmente equilibrada, e o dano pode ser enorme e mutuamente infligido entre os dois oponentes. No campo tecnológico, a China não pode viver (pelo menos sem danos insuportáveis) sem os Estados Unidos, mas temo que, como os Estados Unidos, não consiga viver sem a China. Isso sem mencionar o impacto que uma guerra tecnológica entre os dois países poderia implicar para o resto do mundo: imagine por um momento o que aconteceria globalmente se a Apple deixasse de ser capaz de colocar smartphones no mercado, ou pior, se a Amazon Web Services sofresse interrupção no provisionamento de servidores para seus serviços em nuvem onipresentes. Vamos, um técnico de Armageddon de pleno direito. E não considero o cenário de um conflito tecnológico tão improvável, é antes o oposto: na verdade, escaramuças já dispersas estão começando a ocorrer no setor, que a qualquer momento pode se transformar em um conflito tecnológico geral.

Por Que El Sector Tecnologico Puede Ser El Gran Perdedor De La Guerra Comercial Entre Trump Y China 6

Em um nível mais exclusivamente político, existem estratégias de Trump que (aparentemente) estão valendo a pena, como por exemplo com a Coréia do Norte, que atualmente vive o melhor momento nas relações com sua irmã Coréia do Sul e com a Estados Unidos há muitas décadas. Vamos ver o que acontece com o Irã. E vamos ver com a Rússia. E com a China com mais motivos para a análise de hoje.

Visto de uma perspectiva mais geral, no mundo turbulento de nossos dias, mais do que um conflito comercial limitado apenas aos EUA e à China, o panorama global parece uma guerra de guerrilha gritando "Todos contra um e um contra todos". Ou devemos quase dizer, de uma perspectiva ainda mais ampla, que a coisa já passou para "Todos contra todos" (ou talvez ... até mesmo para "Salvar quem pode").

Realmente levar a guerra comercial ao terreno tecnológico não interessa em boa lógica nenhuma das duas superpotências, mas uma vez entrados em uma violenta espiral de agressão-reação, quem disse que nas guerras sempre prevalece a lógica? Não seria a primeira vez que vemos alguém colocar em prática o de "morrer morto".

Brasil: quatro décadas de baixo crescimento econômico, sendo duas décadas perdidas

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

crescimento do PIB para o mundo e o Brasil

O Brasil apresentou um crescimento do PIB mais rápido do que a média mundial na maior parte do século XX. Entre 1950 e 1980 o PIB brasileiro cresceu 7,1% ao ano, quase o dobro do ritmo do PIB global. Mas a realidade mudou nas últimas quatro décadas e o Brasil passou a crescer menos do que a média mundial.
O gráfico acima mostra que a velocidade do crescimento do PIB brasileiro foi menor do que a velocidade do incremento global nos últimos 40 anos, sendo duas décadas perdidas. Entre 1981 e 1990, enquanto o PIB mundial cresceu 38,4%, o PIB brasileiro cresceu apenas 16,6% na década, ou 1,55% ao ano. Mas como a população cresceu 19,2% na década (1,77% aa), houve decréscimo da renda per capita. Por isto se diz que foi uma década perdida, pois o brasileiro médio ficou mais pobre no período.
Entre 1991 e 2000, o PIB mundial acumulou um crescimento de 37,6%, contra 29,3% do Brasil. O crescimento médio anual foi de 3,24% no mundo e de 2,6% no Brasil. Ou seja, os anos de 1990 foram de maior crescimento do que a década anterior no Brasil, mas também em ritmo abaixo do desempenho da economia global. A primeira década do atual século foi mais dinâmica do que as duas últimas do século passado, tendo um crescimento total de 46,7% no mundo (3,9% aa) e 43,5% no Brasil (3,7% aa). O superciclo das commodities impulsionou o crescimento na maioria dos países.
A atual década (2011-20), com base nos dados das projeções do FMI, deve apresentar um crescimento global de 43,7% (3,7% aa) e de somente 10,6% no Brasil (1% aa). Como a população brasileira deve crescer 7,5% (0,7% aa), o crescimento da renda per capita foi mínimo, caracterizando uma situação de estagnação e uma segunda década perdida. A década de 1981-90 foi a pior em termos de renda per capita e a década de 2011-20 será a pior em crescimento do PIB.
Evidentemente, não se pode esperar que o Brasil cresça mais do que a China e a Índia, que são os dois motores da economia internacional. Mas o gráfico abaixo mostra que, na atual década, o Brasil está tendo um desempenho pior do que os países em desenvolvimento, mas também pior do que os países desenvolvidos. Enquanto a Ásia emergente deve crescer 93% na década e a África Subsaariana deve crescer 45,7%, o Brasil crescerá somente 10,6%, um ritmo menor do que o apresentado pelos Estados Unidos (24,5%) e a União Europeia (18,5%). Este baixo crescimento do Brasil não pode ser atribuído há uma suposta crise internacional, mas aos problemas criados internamente. Como já mostrei em outros artigos, a média do período 2011-18 (governos Dilma e Temer) foi o pior octênio do período republicano brasileiro.

crescimento do PIB do Brasil, EUA e regiões do mundo

Como consequência do menor crescimento econômico, o PIB brasileiro perde participação no PIB mundial. O Brasil representava 4,3% do PIB mundial em 1980 e deve ficar com menos de 2,5% do PIB mundial em 2020.

participação do PIB brasileiro no PIB mundial

Como o Brasil está em rota submergente e se empobrecendo em termos relativos, a renda per capita brasileira cresce menos do que a renda per capita mundial. Em 1980, a renda per capita brasileira era de US$ 4,8 mil, 62% maior do que a renda per capita mundial de US$ 3 mil. Em 2014, o Brasil ainda tinha uma renda per capita (US$ 16,3 mil) superior a renda mundial (US$ 15,1 mil). Mas a partir de 2016, o cidadão brasileiro médio ficou mais pobre do que o cidadão médio global. O FMI estima uma renda per capita de US$ 17,4 mil para o Brasil e de US$ 19,6 mil para o mundo. O Brasil passou para o grupo do lado inferior da renda média mundial.

evolução da renda per capita do mundo e do Brasil

Portanto, o Brasil apresentou crescimento da renda entre 1980 e 2020, mas um crescimento menor do que a média mundial. Em termos relativos, é como andar para trás. O tamanho do Brasil está menor na comparação internacional. Isto não teria problemas caso a distribuição de renda fosse bem distribuída e houvesse progresso e solidariedade social no país. Mas o que tem passado é uma falta de perspectiva e agravamento do desemprego, da insegurança, das condições de moradia e da violência.
Provavelmente, todos as candidaturas à Presidência vão falar da necessidade de crescimento econômico. Mas o que o Brasil precisa é de um crescimento qualitativo e com melhor distribuição de renda e não simplesmente quantitativo, com base na exploração de recursos naturais e na exportação de commodities.
O velho Brasil está em crise e o novo ainda não foi gestado e está difícil de se ver uma boa alternativa à frente.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/05/2018

quarta-feira, 16 de maio de 2018

A Venezuela está colapsando e os venezuelanos estão fugindo

Venezuela está colapsando y los venezolanos huyen


A Venezuela está mostrando como um país pode colapsar economicamente ao vivo diante de nossos olhos. Se não fosse um grande desastre humanitário, seria um experimento econômico direto muito interessante. Porque a Venezuela está criando uma crise humanitária nos outros países da fronteira. De fato, mais e mais países estão limitando a entrada de venezuelanos em seu país.

Além disso, enquanto a situação atual continuar, não parece que o buraco no qual eles estão enterrados vai parar de ser escavado. É verdade que a Venezuela ainda tem ativos importantes que podem ser vendidos pouco a pouco até se tornarem marionetes da China, mas não acredito que seja esse o destino que os venezuelanos querem.

Por que a Venezuela está em colapso?

Os tempos sob Hugo Chávez e o regime bolivariano não foram todos ruins. Os venezuelanos mais abastados foram às compras em Miami, o resto ganhou dinheiro graças ao Cadivi. O presidente teve um programa colorido na televisão em que ele respondeu animadamente aos seus cidadãos ao vivo.

Mas é que a Venezuela tinha um recurso que não parava de subir de preço, petróleo. De fato, lembre-se que um acordo foi assinado entre a Espanha e a Venezuela de 10.000 barris de petróleo por dia a 100 dólares por barril por 100 anos. Naquela época, até pensei que fosse um bom acordo. As críticas que poderiam ser feitas contra a Venezuela foram consideradas ataques de direita.

Mas algo aconteceu com o que não foi contado em Caracas, o preço do petróleo sobe e desce, não ia ficar para sempre. O lógico é que, por parte da Venezuela, foi feita uma tentativa de desenvolver uma indústria alternativa ao petróleo.

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Por exemplo, criar infra-estruturas (aeroportos), que permitiria atrair turistas americanos para suas praias caribenhas e parques naturais, promovendo a agricultura e indústria de alimentos, a criação de zonas francas, alcançando acordos comerciais com os países vizinhos chave (Colômbia, Brasil, México, EUA, Peru...) para vender produtos fora de suas fronteiras. Explorar o desenvolvimento de produtos e serviços relacionados à experiência do país em petróleo (consultoria, geotecnia, ferramentas de extração...). Isto é, poderia ter avançado (e muito) em sua economia, enquanto os preços do petróleo estavam altos.

Nós também temos que acrescentar que a má gestão da PDVSA (Petroleos de Venezuela SA, conhecido como "PEDEVESA") e, geralmente, o resto da administração pública. Se você tem um único recurso como o petróleo, o gerenciamento dele tem que ser espetacularmente bom e eficiente. Em vez disso, foi decidido que a PDVSA se tornaria uma fonte na ficha para os adeptos ao regime, como com a administração paralela que estava colocando adeptos do regime Bolivariano.

Para isto é preciso acrescentar que a indústria do petróleo exige muito investimento, que foi ignorada a partir do regime de Chávez, deixando-se obsoleta e envelhecida a infra-estrutura técnica da PDVSA à custa de tirar mais dinheiro com isso, o cocktail perfeito para o país em face de uma queda nos preços do petróleo, seria duramente atingido.

Além disso, o governo passou décadas cavando mais fundo nas políticas que estão levando à crise, por exemplo, recentemente interveio no Banesco, a segunda instituição financeira no país, e um dos maiores bancos do Caribe (no entanto, notificado que o dinheiro dos depositantes em bancos com a marca Banesco e NCG Banco de Venezuela em perigo de cair nas mãos de Maduro, anos atrás, a propriedade depende de uma empresa com sede em Madrid).

O governo vem falando há anos de uma "guerra econômica" que provoca a escassez de suas lojas, como forma de esconder sua inutilidade e incompetência para administrar. A Venezuela tem menos liberdade econômica do que Cuba.

Naquela guerra eles não têm mais aliados, porque até Cuba, que era aliada do regime de Chávez, procedeu ao embargo às propriedades venezuelanas em Cuba, como no caso de uma refinaria. Todas as empresas estrangeiras que contratam o governo Maduro também estão tendo problemas. Por exemplo, a companhia aérea espanhola Wamos impediu recentemente que alugassem um Boeing 747 para a companhia aérea estatal Conviasa, que ligou Caracas a Madri e Buenos Aires por falta de pagamento. Depois desses problemas, a recém-criada companhia aérea espanhola Plus Ultra enfrentou esses problemas. Hoje em dia, contratar com o governo de Maduro ou suas empresas parece uma garantia de que você vai perder dinheiro.

Mais que dados macro


Um problema que temos com a Venezuela é que os dados macroeconômicos são escassos e pouco confiáveis. Neste caso, achamos que estima-se que durante 2017 a inflação na Venezuela cresceu entre 652,7% e 2400%, o PIB caiu 12%, depois de ter caído 16,5% em 2016 e 6, 2% em 2015. O PIB per capita também sofreu, em 2017 foi estimado em 12.400 dólares, em 2016 foi estimado em 14.300 dólares e em 2015 em 17.300 dólares. Ou seja, a cada ano é muito pior, até 2018 a inflação deverá ultrapassar 13.000%, e não é incomum que os venezuelanos fujam.

Embora um PIB per capita desse nível signifique que a Venezuela esteja na seção de países de renda média, acontece que outras estatísticas mais preocupantes, que normalmente não são levadas em consideração, estão surgindo. Por exemplo, 90% dos venezuelanos afirmaram que não podem comprar comida suficiente e 61% dormiram com fome. De fato se fala da "dieta Maduro", mais de 60% dos venezuelanos perderam 11 quilos em 2017, sendo estes dados oficiais do governo venezuelano.

Além da escassez de alimentos, há problemas com medicamentos, muitos deles não são fáceis de encontrar ou seu preço é extraordinariamente alto. Mas é que produzir na Venezuela está se tornando uma odisseia. Por exemplo, a Ford parou de fabricar veículos na Venezuela em janeiro devido à falta de peças. No ano passado, ela só conseguiu fabricar 1% da capacidade de produção da fábrica. No ano passado, a fábrica da General Motors foi expropriada pelo governo venezuelano. Se a exprópiese de Hugo Chávez ia criar uma escola.

O governo disse que a solução para a crise é a criptomoeda "Petro", que segundo Maduro é apoiada por reservas de petróleo (não extraídas) do país. Como um analista diz, não é uma criptomoeda, mas uma futura venda de petróleo na melhor das hipóteses. No entanto, para adquirir Petros fazer dólares em falta, embora eu não tenha visto alguém que concorda em ser pago em "Petros" (e, pessoalmente, recomendo a fugir desta criptodivisa, no final do dia em que é emitido por um banco central que não faz nada, mas causa hiperinflação).

Venezuelanos fogem

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No início, comentei que a Venezuela está conseguindo que seus cidadãos fujam do país. Dezenas de milhares de venezuelanos saem do país todos os dias, seja para não retornar ou com a intenção de não fazê-lo até que a situação melhore. Atualmente, 1,6 milhão de venezuelanos vivem no exterior, ou seja, um em cada vinte. Um milhão eram em 2015. O crime alto e crescente não ajuda, na Venezuela havia 26,616 assassinatos em 2017 na Espanha, com mais 50% de população e dezenas de milhões de turistas, que passou anos em cerca de 300 por ano.

O país que mais se nota é a Colômbia, ao longo de seus 2.200 quilômetros na fronteira com a Venezuela, teve que implantar 3.000 agentes adicionais. É verdade que muitas das pessoas que cruzam a fronteira o fazem com a intenção de comprar comida, mas cada vez mais com a intenção de ficar. Em fevereiro, mais de 550 mil venezuelanos haviam chegado à Colômbia com a intenção de ficar, estima-se que até julho deste ano tenham sido um milhão. Cerca de 25.000 venezuelanos atravessam a fronteira entre os dois países a pé todos os dias. Também devemos ter em mente que muitos venezuelanos simplesmente vão à Colômbia para fazer compra. A situação no Brasil não é tão desesperadora, mas alguns estimam que pode ser pior nos próximos meses. Há também dezenas de milhares no Peru, no Chile ou no Panamá. A emigração venezuelana está se tornando uma fonte de preocupação nos países da área.

No início, os mais ricos emigraram para Miami, Panamá ou Madri, depois que o nível econômico caiu e alguns demoram oito dias por terra para chegar ao Chile. Na Espanha já existem mais de 210.000 venezuelanos (o terceiro maior país, depois da Colômbia e dos EUA).

Naturalmente, a alta necessidade de passaportes está causando corrupção na concessão do mesmo, já que se converteram em produto de desejo por parte dos venezuelanos. Claro, obviamente, os passaportes são necessários para qualquer processo de imigração que seja feito. Mesmo para aqueles que têm dupla cidadania, a lei exige que eles usem o passaporte venezuelano para entrar e sair do país.

De fato, algo que acho incrível é que existem canais no YouTube e blogs venezuelanos que explicam como migrar para diferentes países e cidades. Para a Espanha ou para o Chile.

Em suma, se alguma vez quiséssemos um exemplo do que um país está colapsando, a Venezuela nos dá. Escassez de produtos básicos (incluindo alimentos), a inflação subindo a tal nível que há uma falta de notas, o crime está crescendo, o PIB está caindo e centenas de milhares de pessoas estão deixando suas fronteiras. É difícil saber quanto tempo essa espiral continuará, mas é fácil ver como, pouco a pouco, o país está saindo. Ele também nos dá como exemplo que o petróleo e, em geral, os recursos naturais não são muito relevantes para a riqueza de um país, mas essa é outra questão a ser abordada em outro momento.

O duplo padrão da política comercial da China na América

por Dani Rodrik 

Uma delegação comercial de alto nível dos Estados Unidos parece ter retornado de mãos vazias de sua missão na China. O resultado dificilmente é uma surpresa, dada a escala e a natureza unilateral das demandas dos EUA. Os americanos pressionaram por uma reformulação maciça das políticas industriais e regras de propriedade intelectual da China, enquanto pediam ao governo da China que se abstenha de qualquer ação contra as tarifas unilaterais propostas por Trump contra as exportações chinesas.

Esta não é a primeira briga comercial com a China e não será a última. A ordem comercial global da última geração - desde a criação da Organização Mundial do Comércio em 1995 - baseou-se na suposição de que os regimes regulatórios em todo o mundo convergiriam. A China, em particular, se tornaria mais “ocidental” na maneira de administrar sua economia. Em vez disso, a contínua divergência de sistemas econômicos tem sido uma fonte fértil de atrito comercial.

Há boas razões para a China - e outras economias - resistirem à pressão de se conformarem a um molde imposto pelos lobbies de exportação dos EUA. Afinal, o fenomenal sucesso da globalização na China deve-se tanto às políticas industriais heterodoxas e criativas do regime quanto à liberalização econômica. Proteção seletiva, subsídios de crédito, empresas estatais, regras de conteúdo nacional e requisitos de transferência de tecnologia desempenharam um papel importante na transformação da China na potência industrial. A atual estratégia da China, a iniciativa “Made in China 2025”, visa aproveitar essas conquistas para levar o país ao status de economia avançada.

O fato de muitas das políticas chinesas violarem as regras da OMC é bastante claro. Mas aqueles que ironicamente chamam a China de "trapaça comercial" deveriam ponderar se a China teria sido capaz de diversificar sua economia e crescer tão rapidamente se tivesse se tornado membro da OMC antes de 2001, ou se tivesse aplicado as regras da OMC desde então. A ironia é que muitos desses mesmos comentaristas não hesitam em apontar a China como o garoto-propaganda do lado positivo da globalização - esquecendo convenientemente, nessas ocasiões, até que ponto a China desrespeitou as regras contemporâneas da economia global.

A China joga o jogo da globalização com o que poderíamos chamar de regras de Bretton Woods, depois do regime muito mais permissivo que governou a economia mundial no período inicial do pós-guerra. Como uma funcionária chinesa me explicou uma vez, a estratégia é abrir a janela, mas colocar uma tela nela. Eles obtêm o ar fresco (investimento estrangeiro e tecnologia) enquanto mantêm fora os elementos prejudiciais (fluxos voláteis de capital e importações disruptivas).

De fato, as práticas da China não são muito diferentes do que todos os países avançados fizeram historicamente quando estavam se aproximando dos outros. Uma das principais queixas dos EUA contra a China é que os chineses violam sistematicamente os direitos de propriedade intelectual para roubar segredos tecnológicos. Mas no século XIX, os EUA estavam na mesma posição em relação ao líder tecnológico da época, a Grã-Bretanha, como a China é hoje vis-à-vis os EUA. E os EUA tinham tanto respeito pelos segredos comerciais dos industriais britânicos quanto a China tem hoje pelos direitos de propriedade intelectual dos EUA.

As novas fábricas têxteis da Nova Inglaterra estavam desesperadas por tecnologia e fizeram o possível para roubar desenhos britânicos e contrabandear artesãos britânicos experientes. Os EUA tinham leis de patentes, mas protegiam apenas cidadãos dos EUA. Como disse um historiador das empresas norte-americanas, os americanos “também eram piratas”.

Qualquer regime sensato de comércio internacional deve partir do reconhecimento de que não é viável nem desejável restringir o espaço político que os países têm para desenhar seus próprios modelos econômicos e sociais. Os níveis de desenvolvimento, valores e trajetórias históricas diferem muito para que os países sejam incluídos em um modelo específico de capitalismo. Às vezes, as políticas domésticas vão sair pela culatra e manter os investidores estrangeiros de fora e a economia doméstica empobrecida. Em outras ocasiões, impulsionarão a transformação econômica e a redução da pobreza, como fizeram em grande escala na China, gerando ganhos não apenas para a economia doméstica, mas também para os consumidores em todo o mundo.

Não se pode esperar que as regras do comércio internacional, que são o resultado de negociações minuciosas entre diversos interesses - incluindo, principalmente, corporações e seus lobbies - discriminem confiavelmente entre esses dois conjuntos de circunstâncias. Os países que buscam políticas prejudiciais que prejudicam suas perspectivas de desenvolvimento estão causando o maior dano a si mesmos. Quando as estratégias domésticas dão errado, outros países podem ser feridos; mas é a economia doméstica que paga o maior preço - o que é incentivo suficiente para os governos não seguirem o tipo errado de políticas. Governos que se preocupam com a transferência de know-how tecnológico crítico para estrangeiros são, por sua vez, livres para promulgar regras proibindo suas empresas de investir no exterior ou restringir as aquisições estrangeiras em casa.

Muitos comentaristas liberais nos EUA acham que Trump está certo em ir atrás da China. Sua objeção é para seus métodos agressivos e unilateralistas. No entanto, o fato é que a agenda comercial de Trump é impulsionada por um mercantilismo restrito que privilegia os interesses das corporações americanas em relação a outras partes interessadas. Ele mostra pouco interesse em políticas que melhorem o comércio global para todos. Tais políticas devem começar com a Regra de Ouro do regime de comércio: não impor a outros países restrições que você não aceitaria se confrontadas com suas circunstâncias.

Dani Rodrik
Dani Rodrik é o professor de economia política internacional da Fundação Ford na Harvard Kennedy School.

terça-feira, 15 de maio de 2018

As energias renováveis já empregam 10,3 milhões de pessoas no mundo

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

emprego no setor de energias renováveis, por tipo de tecnologia: mundo 2017

[EcoDebate] As energias renováveis são a alternativa para descarbonizar a economia e garantir o fim da hegemonia dos combustíveis fósseis, etapa essencial do processo de redução das emissões de CO2 e da mitigação dos efeitos do aquecimento global. Como se diz: o futuro será das energias renováveis, ou não haverá futuro para a humanidade.
Outro lado positivo das energias renováveis é a geração de “empregos verdes” e a possibilidade de capacitar os trabalhadores a conseguir renda e autonomia financeira em atividades mais sustentáveis e mais amigáveis ao meio ambiente. A Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA), divulgou o balanço para 2017, e mostrou que a indústria de energia renovável já emprega mais de 10 milhões de pessoas globalmente, adicionando mais de 500 mil empregos só no ano passado, um aumento de 5,3% em relação a 2016.
A indústria solar é responsável pela maior parcela de empregos, com a absorção de cerca de 3,4 milhões de pessoas empregadas em pesquisa, produção, instalação e manutenção de painéis solares, um aumento de 9% em relação a 2016. O setor solar é seguido por biocombustíveis líquidos, que emprega 1,9 milhão de empregos e a energia das grandes hidrelétricas, com 1,5 milhão. O relatório da IRENA constata que o emprego na indústria eólica global diminuiu ligeiramente de 2016 para 2017, diminuindo para 1,15 milhão. Os outros dados podem ser vistos no gráfico acima.
O gráfico abaixo mostra que a China lidera a geração de “empregos verdes”, com cerca de 3,9 milhões de trabalhadores ocupados na indústria de energias renováveis. Em segundo lugar, vem a União Europeia com 1,3 milhão. Os EUA estão bem abaixo da China e empregam somente 786 mil trabalhadores no setor.
O Brasil vem em terceiro lugar com 893 mil empregos. Contudo, a maioria dos empregos da indústria de energia renovável no Brasil estão no setor de biocombustíveis líquidos e grandes hidrelétricas. Houve declínio do emprego na produção de etanol. A IRENA calcula 33,7 mil empregos na energia eólica e 42 mil na energia solar (27,5 mil na manufatura e 14,5 mil na instalação).

empregos na indústria da energia renovável - países selecionados: 2017

A indústria de energia solar fotovoltaica é a recordista de geração de “empregos verdes”. Em 2017, foram adicionados quase 100 GW de novas instalações fotovoltaicas e o volume de emprego chegou a 3,4 milhões de trabalhadores, um aumento de 8,7% em relação a 2016. A China é a campeã disparada na geração de emprego na energia solar, com cerca de dois terços dos empregos do mundo. Em distantes segundo e terceiro lugares, vem Japão e EUA. Em seguida aparecem Índia, Bangladesh, Malásia, Alemanha, Filipinas, Turquia, Taiwan, Reino Unido, México e Itália, conforme o gráfico abaixo.
Nota-se que o Brasil não aparece na lista, o que reflete o atraso do país na produção de energia solar e, consequentemente, a geração de emprego é pífia. O Brasil possui um grande território e, por estar nos trópicos, tem uma insolação extremamente favorável à geração de energia solar. Por ter uma das 10 maiores economias do mundo já deveria produzir maior quantidade de energia solar, contudo, perde para países muito menores como Malásia, Filipinas e o Chile aqui na América do Sul. Neste momento que existem tantos trabalhadores desempregados, a energia solar poderia ser uma alternativa brilhante para o país, mas infelizmente os governos passados preferiram investir nas caras jazidas abissais do pré-sal.

países líderes na geração de emprego em energia solar fotovoltaica

Os dois primeiros artigos que escrevi para o Ecodebate foram sobre “empregos verdes” e “energias renováveis”, em janeiro de 2010. Em outro artigo (Alves, 23/04/2018) mostrei que as energias renováveis já estão crescendo em ritmo mais veloz do que as fontes fósseis e os investimentos em usinas eólicas e solares já superam a quantidade investida anualmente em petróleo, gás e carvão. Mas, seguindo as tendências atuais e os planos aprovados pelos diversos governos do mundo, as emissões não seriam reduzidas o suficiente para cumprir as metas do Acordo de Paris. Na trajetória de hoje, a despeito do forte crescimento da energia renovável, o planeta exauriria seu “orçamento de carbono”, permitido no cenário de 2º C, em apenas 20 anos (ou seja, 2037).
Ou seja, a energia solar tem crescido de forma muito rápida, mas seria necessário acelerar ainda mais a capacidade instalada para reduzir as emissões de CO2 e também para gerar maior volume de emprego. Isto é válido para o mundo todo, mas especialmente para o Brasil. Se houvesse mais investimentos haveria mais energia para o desenvolvimento e mais pessoas empregadas. Isto é especialmente válido neste momento de aumento do preço do petróleo no mundo.
Todo o Planeta ganharia com o avanço da energia renovável. Só falta consciência da urgência da solução solar e determinação política para a sua rápida expansão.
Referência:
ALVES, JED. Empregos verdes, Ecodebate, RJ, 25/01/2010

ALVES, JED. Energia renovável: um salto na evolução? Ecodebate, RJ, 29/01/2010

ALVES, JED. As energias renováveis avançam, mas em ritmo insuficiente para descarbonizar a economia, Ecodebate, 23/04/2018


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 14/05/2018