"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

O Que A Crise Da Itália Significa Para A Europa

por Lucrezia Reichlin

Como o populista Movimento Cinco Estrelas e a Liga de direita conquistaram uma maioria parlamentar combinada nas eleições de 4 de março na Itália, a política italiana está em um impasse, com as duas partes lutando para formar um governo. Mas agora, com o Presidente Sergio Mattarella tendo rejeitado uma proposta do M5S / Liga para nomear o economista eurocéptico Paolo Savona como Ministro de Economia e Finanças, a situação tomou um rumo dramático.
Em vez de explorar alternativas mais moderadas, a coalizão inicialmente abandonou as negociações e pediu uma nova eleição. Uma tentativa de formar uma administração tecnocrática provisória escolhida por Mattarella foi seguida por um choque com os populistas, o que poderia ter levado a uma crise constitucional e assustado os mercados. Agora a situação parece ter mudado de novo, e um governo de coalizão está de volta à mesa. Mas a situação permanece altamente fluida - e volátil.
Esta é a primeira vez na história do pós-guerra da Itália que uma coalizão de partidos dos extremos políticos tentou formar um governo sem qualquer contribuição das forças centristas. Por sua vez, o M5S e a Liga representam dois grupos diferentes, mas possivelmente sobrepostos. Enquanto a fortaleza do M5S está no sul mais pobre da Itália, a da Liga fica no norte próspero do país, onde uma grande comunidade de pequenos negócios nutre temores de imigração, globalização e altos impostos.
Nenhuma das partes representa os italianos que querem mudanças, mas ainda apóiam a adesão da Itália à União Monetária Européia (UEM). A voz desses eleitores foi relativamente moderada, mas agora Mattarella está canalizando-a tenazmente.

Euro Ou Não?

Uma nova eleição poderia ocorrer assim neste outono, ou no início de 2019. De qualquer maneira, será agora essencialmente um referendo sobre o euro. A campanha será amarga e divisiva, e o resultado não gerará maior certeza sobre o futuro. As eleições para o Parlamento Europeu serão realizadas em maio de 2019, e a situação na Itália mobilizará, sem dúvida, partidos nacionalistas e eurocépticos que desejam mudar o equilíbrio político da União Européia.
Dado que a Itália é um Estado-membro fundador da UE com uma longa tradição pró-europeia, vale a pena perguntar como chegamos a este ponto e como a UE deve responder.
Os problemas econômicos da Itália estão enraizados em baixa produtividade, demografia desfavorável e governança deficiente em muitas partes do país - todos pré-datam a introdução do euro em 1999. Enquanto os principais líderes políticos da Itália esperavam que a participação na zona do euro criasse reforma económica de longo alcance, o euro privou a Itália dos meios para se envolver numa desvalorização competitiva.
Com exceção da Grécia, a Itália tem se saído pior do que qualquer outro país-membro desde a crise financeira de 2008. Mas não adianta jogar o jogo da culpa. A responsabilidade recai em parte com a UE e suas regras políticas pró-cíclicas, mas principalmente com os líderes anteriores da Itália, os quais não conseguiram resolver seus problemas estruturais.
A história italiana é diferente da narrativa de boom-busto irlandesa, espanhola e portuguesa dos últimos anos. A Itália não experimentou nem um boom alimentado pelo crédito durante sua primeira década de adesão ao euro, nem um fracasso tradicional. Os problemas do país são estruturais e exigirão um programa de reformas criativas que aborde as causas profundas de seu sombrio desempenho econômico nos últimos 20 anos ou mais. Infelizmente, nem a disciplina fiscal recomendada pela UE nem a desoneração fiscal ao estilo populista resolverão esse problema fundamental.
Em vez disso, a Itália precisa de uma ação agressiva para ajudar as partes realmente produtivas da economia a crescer mais rapidamente e explorar a demanda externa potencial. Em vez de desenhar políticas industriais para subsidiar os perdedores, a Itália deveria oferecer oportunidades para novos entrantes no mercado, para reverter a alta taxa de emigração de jovens qualificados. A Itália também precisa de mais investimentos públicos em infra-estrutura e educação, o que exigirá a abordagem da corrupção, processos judiciais ineficientes e instituições locais ineficientes - problemas que têm perseguido o sul da Itália, em particular.

Reforma Da UE

Além dessa agenda doméstica, a Itália também precisa buscar reformas  em relação  à UE, começando com um relaxamento das restrições aos gastos públicos para investimentos em crescimento e novas parcerias. Mais investimento exigirá espaço fiscal adicional. Mas, mais importante, a Itália e a UE precisam de novas idéias e mais confiança de cada lado.
É claro, se a UE se envolveria em tal discussão, na ausência de uma liderança italiana confiável, permanece uma questão em aberto. As regras da UE não podem acomodar facilmente os problemas de um país incapaz de consolidar sua dívida como resultado de um crescimento estruturalmente fraco - mesmo que tenha acumulado grandes superávits primários por anos.
Em termos mais amplos, enquanto a discussão sobre a reforma da governança econômica da zona do euro há muito se concentra no aprimoramento de mecanismos de compartilhamento de riscos para fortalecer a resiliência contra choques econômicos e crises financeiras, essa ênfase é um pouco incalculável no caso da Itália, porque não oferece cura para a fraqueza estrutural. Abordar este último exigirá uma cooperação mais profunda a nível da UE numa agenda de crescimento, o que pressupõe um acordo formal sobre o calendário e o calendário da consolidação orçamental.
A agenda econômica proposta pelos partidos populistas da Itália é fantasiosa e pouco convincente. Mas isso não é desculpa para a UE manter o  status quo . É hora de os líderes da UE começarem a pensar fora da área para formular uma estratégia de crescimento para o quarto maior estado membro do bloco. Neste ponto, a Itália se parece mais com o Japão do que com a Espanha ou Portugal, e as políticas precisam refletir esse fato.
A Itália e a UE estão em um ponto de inflexão. Na ausência de uma ação concertada, podemos estar sonambulando com outra crise do euro - uma que seria muito mais difícil de superar do que a anterior e que poderia ameaçar a atual composição da própria UE.
Nesta história em rápida mudança,  Cinco Estrelas e a Liga concordaram na noite de quinta-feira em formar um governo e ganharam a aprovação presidencial (veja aqui )
Lucrezia Reichlin
Lucrezia Reichlin, ex-diretora de pesquisa do Banco Central Europeu, é professora de economia na London Business School.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

O ENCONTRO COM A OBRA DE LUÍS DA CÂMARA CASCUDO

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Luiz Rodrigues

RESUMO

Reina nos cursos das ciências sociais no Brasil uma simplificação explicativa da origem do país, um “des”-projeto de sociologia, simplificando relações sociais, deixando de lado as tradições culturais e não se voltando para origens comuns dos povos. A obra da Luís da Câmara Cascudo é o oposto, fundamenta todas as bases reais da constituição do povo brasileiro.

Palavras-chave: Luís da Câmara Cascudo, sociologia, Brasil.

“O essencial e lógico em doutrina científica é excluir o exclusivo”.


(Luís da Câmara Cascudo)

1. INTRODUÇÃO

No Brasil tentamos nos “educar” evitando ler, é uma alquimia digna dos intentos laboratoriais do Fausto de Goethe. O ler é uma das formas mais insubstituíveis de propagação da poesia da vida; Hölderlin dizia que “poeticamente o homem habita...”[1]. O não ler aliado à “plasticidade” da vida urbana moderna, distante desta poesia causa danos grandiosos à sociedade nossa. Devemos lamentar o desprezo pelas obras dos nossos grandes escritores, muito mais quando esse escritor dedica sua vida a catalogar e narrar as tradições de seu povo, longe nos sertões brasileiros.
Sobre os grandes ícones literários paira normalmente a fama decorrente do prestígio obtido e pelo simples fato de que fazemos parte da civilização humana e, portanto, as letras são um fator inarredável. A fama do escritor, seu exemplo, constituem a cultura dos povos; no Brasil isso não é diferente, quando nos tornamos nação, já na modernidade madura, concebemos uma literatura de altíssimo nível, as gerações do romantismo no Século XIX e a sociologia do Século XX se unem pelo elo comum da busca de nossas origens e o responder da pergunta sobre o que somos; depois de segunda metade deste último século esses assuntos ganharam uma conotação meramente economicista.
Relacionado a tudo isso persiste um drama histórico nesta modernidade, a leitura. Em 1876 a pena certeira de Machado de Assis (1994) asseverava:

– A nação não sabe ler. Há 30% dos indivíduos residentes neste país que podem ler; desses uns 9% não lêem letra de mão. 70% jazem em profunda ignorância. Não saber ler é ignorar o Sr. Meireles Queles: é não saber o que ele vale, o que ele pensa, o que ele quer; nem se realmente pode querer ou pensar. 70% dos cidadãos votam do mesmo modo que respiram: sem saber por que nem o quê. Votam como vão à festa da Penha, – por divertimento. A constituição é para eles uma coisa inteiramente desconhecida. Estão prontos para tudo: uma revolução ou um golpe de Estado.

Passados 140 anos o país se agigantou economicamente, industrialização, interiorização, até universalização do ensino público, difusão das universidades por todo o território nacional.  Por outro lado a vontade, a santa vontade, de ler lega a capacidade de uma comparação; uma pesquisa feita por Fecomércio RJ/Ipsos em 2015 demonstrou que menos de 30% de nossa população tem o hábito de ler[2].
A falta de leitura que é a causa da degeneração social e mergulho em profunda criminalidade; de problemas com o voto, que persistem; metamorfoseara-se em discursos de violência; se antes não se lia livros se lia a vida, a natureza e o respeito às tradições, os contos tradicionais do Brasil catalogados por Cascudo eram elementos inestimáveis de educação. A violência brasileira é dialética, primeiro o linguajar agressivo, depois os atos, os tiros, os assaltos...
Machado se voltava para a questão da cidadania, dentro dos fundamentos da modernidade; é preciso universalizar a cidadania na busca do projeto de autonomia política dos indivíduos e da sociedade, o recebimento da instrução passa a ser encarado como essencial para o brotar do cidadão. É diferente das sociedades tradicionais, onde, a ignorância das massas era considerado fundamento da “ordem”.

“Para que a sociedade seja feliz e o povo tranquilo nas circunstâncias mais adversas, é necessário que grande parte dele seja ignorante e pobre. O conhecimento não só amplia como multiplica nossos desejos [...]”. (MANDEVILLE in THOMPSON, 1998)

Num cenário assim cabe questionar sobre a importância dos grandes escritores para a cultura nacional. Qual o “nível” de memória legada aos grandes senhores das letras. Quando morreram, recentemente, João Ubaldo Ribeiro e Ariano Suassuna, lembramos de termos visto matérias de jornais de televisão, uma profusão de postagens nas redes sociais, muitas delas por “carona”; arrisco a dizer que a morte do cantor americano Michael Jackson causou mais “comoção” do que a morte dos referidos escritores.
Luís da Câmara Cascudo suportou o preço de ser provinciano, como se considerava; nem mesmo partiu para os grandes centros brasileiros, hesitou em ficar num estado pobre e periférico do país, o que não lhe impedira de produzir uma obra magistral; agora, não resta dúvidas de que isso causa “pré-juízos” inúmeros. Como você, mesmo se for potiguar, descobriu Cascudo?
Dizem as más línguas nos chamar mais atenção o ponto de vista de um autor estrangeiro; sem pregar qualquer xenofobia literária, já que a escrita é um atributo humano, não tem fronteiras; sobre o mesmo ponto com o mesmo teor desperta mais interesse; tratar-se-ia de um complexo de inferioridade nem ao menos reprimida...Mas esses são temas de longa data dos cronistas impecáveis nossos...De Machado a mais recentemente João Ubaldo Ribeiro e tantos outros.


2. UM ENCONTRO AO ACASO

A primeira obra que este autor leu de Cascudo, Civilização e cultura, há bem pouco tempo antes da escrita deste artigo, fora escolhida por uma curiosidade nascida para solucionar a questão de quem, de fato, é o tal folclorista; uma busca no sistema eletrônico de bibliotecas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e um título sugestivo propiciaram um encontro e uma confirmação.  Civilização e cultura é de deixar admirado quem conhece Cascudo apenas por um ouvir falar. Uma obra de etnografia geral, demonstrando a capacidade do provinciano de escrever um livro de envergadura universal. Nós do Rio Grande do Norte ouvimos muito falar e poucos leem, formam-se suposições vazias; a grande maneira de homenagear um escritor é lendo seus livros, muito mais do que nomeando ruas e praças...
Segundo o autor descreve, Civilização e cultura foi uma obra que sofreu contratempos, adiando sua publicação, os originais foram perdidos sendo achados tempos depois, e que texto magnífico! Uma etnografia bem trabalhada, repleta de variantes conceituais e temas filosófico-culturais, sempre dando um jeito de adentrar no cotidiano potiguar tão próximo da vida do autor.
O tema mais caro da obra cascudiana está presente: as culturas não morrem, mantêm-se nos costumes num imaginário popular “inconsciente”. Cascudo narra o costume de “roubar” a porta da casa do devedor vivenciado na capital do Rio Grande do Norte e depois encontrado em pesquisas como costume comum na Europa Central de 300 anos antes.

Nenhuma civilização desaparece completamente no mundo. Sobrevivem resíduos transmitidos às civilizações circunjacentes ou influenciadas distintamente, aglutinadas pela atração material dos semelhantes e gravitando nos sistemas idênticos e locais. (CASCUDO, 2004, p.161)


Há um humanismo por cima dos nacionalismos...Um recado de que cada cultura contribui para a história da civilização humana e de que cada sociedade lega às demais traços de sua cultura.

A cultura compreende o patrimônio tradicional de normas, doutrinas, hábitos, acúmulo de material herdado e acrescido pelas aportações inventivas de cada geração. (CASCUDO, 2004, p. 39)


O valor das raízes:

Imaginemos o quanto a obra de Cervantes é cara à Espanha, Shakespeare à Inglaterra e Homero à civilização Ocidental? Todos acima referidos, logicamente, trilharam o caminho da literatura, do romance e da poesia; mas o catalogar das tradições do nosso povo, os contos, as lendas, os mitos e as tradições fornecem as raízes de nossa formação e o espírito que nos movera enquanto povo.
Neste momento nossa educação (o educar) tem sido distorcido em programas vingativos, que olham para o passado como se fosse possível julgar cada época e os seus atos, desprezando, sobre pré-juízos tolos, todo um encontro de culturas. A política não pode definir o que se lê, mas sim a literatura que alimenta a política.
Dentre as obras mais brasileiras da produção no campo das ciências sociais e humanas estão, sem dúvida, os escritos de Gilberto Freyre e Câmara Cascudo pelo fato de, justamente, não se resignarem com a história, souberam apreciar os frutos positivos de um grande encontro. Por isso mesmo, principalmente sobre a obra do sociólogo pernambucano, paira um “barramento político” impedindo as devidas reflexões literárias. Parecendo e querendo fazer parecer que esses autores serem favoráveis à escravidão, ao latifúndio, aos massacres indígenas por não quererem vingar o passado.
O preconceito sobre a obra de Gilberto Freyre, o manto da “democracia racial”. Impede de se prestigiar uma louvável defesa à miscigenação, o desprezo a qualquer tentativa de supremacia racial. Todos os povos produzem cultura, todos compartilham de uma origem comum repassada inconscientemente nas tradições.
A importância da leitura no seio da sociedade é uma determinante cultural, um hábito, um gosto; variando do âmbito coletivo ao desejo individual. Em sendo nossa propensão à leitura restringido por questões “culturais” ou problemas de ordem social (má educação formal) os ícones literários sofrem o drama do esquecimento (o não ser lido), o ser desconsiderado.
O que faz da obra de Cascudo fundamental para a interpretação do Brasil é o encontro do escritor acadêmico com o mundo popular, ou o Brasil oficial com o Brasil como dizia Machado de Assis; uma junção sem verticalidade, um encontro mágico. Os contos, as lendas, os costumes alimentares, o malandro Pedro Malazarte, depois interpretado por Roberto DaMatta (1997) numa antropologia mais ligada a uma crítica de ordem sócio-política.


4. CONCLUSÕES

Grandes escritores são fundamentais no processo educacional de uma nação; a educação da Grécia antiga se dividia em duas fases: uma homérica e outra da época dos filósofos no século V antes da idade usada no calendário gregoriano. Portanto, esse desprezo pelas grandes obras, mesmo de um escritor tão próximo, o desconhecimento, um lembrar apenas por uma fama corrente que não leva à leitura são caóticos. Assim ficaremos incapazes de resgatar uma produção literária decente, não há segredo, não se precisa de resumo, leia o livro.
Usamos a obra de Luís da Câmara Cascudo por sentirmos no Rio Grande do Norte uma incapacidade de leitura de alguém com uma obra tão expressiva a nível nacional e até universal, seja em um complexo de vira-latas, seja por uma preguiça de leitura; mesmo a Universidade Federal despreza essa obra, sucumbindo seus programas de ciências sociais a questões meramente de rebanho, forma-se para seguir e não para produzir nada, forma um discurso sem futuro.
As sociedades modernas se fundamental na informação e a informação essencial continua a ser as obras dos grandes escritores, não se substituirá o cérebro humano; literários ou científicos, o individual e o coletivo se encontra num “processo” filosófico de estar consigo mesmo (no diálogo platônico Teeteto a origem do conhecimento). O texto literário é indispensável por pertencer ao refletir individual e por se conjugar à toda produção que o autor encontre para ao máximo fundamentar sua obra, sem nunca conseguir preencher todas as lacunas sempre propiciando novas reflexões e a infinitude da literatura.
Uma nação moderna que não ler, nem mesmo aos seus grandes referenciais locais a uma morte de insignificância, sem brilhantismo da busca da imortalidade se perderá nos tempos. Por que o Brasil não fez acompanhar o seu progredir econômico com o cultural, registrando pelo contrário uma decadência deste último quesito; algo que não conseguimos explicar deixando-nos apenas estarrecidos mediante tamanha hipocrisia; nem compor uma música mais conseguimos; claro...não queremos nem saber quem somos...

REFERÊNCIAS

ARENDT, Hannah.  Responsabilidade e julgamento. São Paulo: Companhia das letras, 2004.
ASSIS, Machado. Analfabetismo. In: Crônicas Escolhidas. São Paulo: Editora Ática S.A, 1994.
CASCUDO, Luís da Câmara. Civilização e cultura: pesquisas e notas de etnografia geral. São Paulo: Global editora, 2004.
______. Contos tradicionais do Brasil. São Paulo: Global editora, 2004.
______, Superstição no Brasil. São Paulo: Global editora, 2002.
______, História da alimentação no Brasil. São Paulo: Cia. Ed. Nacional, 1967.
______, Lendas brasileiras. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.
______, O tempo e eu: confidências e proposições. Natal: Imprensa universitária, 1968.
DAMATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.
FREYRE, Gilberto. Uma cultura ameaçada e outros ensaios. São Paulo: É realizações, 2010.
HÖLDERLIN, Friedrich. Hinos tardios. Tradução: Maria Teresa Dias Furtado. Lisboa: Assírio & Alvim, 2000.
LÉVY, Pierre. A inteligencia coletiva: por uma antropologia do ciberespaço. São Paulo: Loyola, 2011.
TOURAINE, Alain. Crítica da modernidade. Petrópolis/RJ: Vozes, 1995.
THOMPSON, E.P. Costumes em Comum: Estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.





EL ENCUENTRO COM LA OBRA DE LUÍS DA CÂMARA CASCUDO

ABSTRACT
Reina en los cursos de las ciencias sociales en Brasil una simplificación explicativa de la origen del país, un "des"-Proyecto de sociología, simplificando las relaciones sociales, dejando de lado las tradiciones culturales y no dedicándose a la origen común de los pueblos. La obra de Luis da Cascudo es lo contrario, fundamenta las bases reales de la constitución del pueblo brasileño.
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Keywords: Luís da Câmara Cascudo, sociologia, Brasil.



[1] No Ameno Azul... - Friedrich Hölderlin

"Cheio de mérito, mas poeticamente, vive o homem sobre esta Terra"

No ameno azul floresce, com o seu telhado de metal, o campanário. À sua volta paira a gritaria das andorinhas, rodeia-o o azul mais comovente. O sol ergue-se, alto, sobre ele, e dá cor à chapa metálica, mas é no seu cimo que, ao vento, suavemente, canta o catavento. Quando alguém então desce para o patamar do sino, por aqueles degraus, há uma vida silenciosa, pois quando a sua figura está assim tão isolada, sobressai a plasticidade do homem. As janelas em que os sinos tocam são como arcos de beleza. Pois os arcos ainda imitam a Natureza, são semelhantes às árvores da floresta. E o que é puro também é belo. No interior, da diversidade surge um espírito sério. E as imagens são tão simples, tão santas, que muitas vezes verdadeiramente se teme descrevê-las. Porém os Celestiais, que são sempre bondosos, uma vez que tudo têm, como os ricos, possuem a virtude e a alegria. O homem pode imitá-los. Mas poderá o homem, quando toda a sua vida está cheia de trabalhos, erguer o olhar e dizer: assim quero eu ser também? Sim. Enquanto a amabilidade pura habitar no seu coração não será uma atitude infeliz o homem medir-se pela divindade. Será Deus desconhecido? Será manifesto como o Céu? Antes isto creio. É a medida do homem. Cheio de mérito, mas poeticamente, vive o homem sobre esta Terra. E no entanto a sombra da noite e as estrelas não são, se é que posso dizê-lo, mais puras do que o homem, como imagem que é da divindade. Haverá na Terra uma medida? Não, não há. É que os mundos do Criador jamais inibem o curso do trovão. Também uma flor é bela porque floresce sobre o sol. O olhar encontra muitas vezes ao longo da vida seres que seriam mais belos de nomear que as flores. Oh, como o sei bem! Pois agradará a Deus que a figura e o coração sangrem e que se deixe completamente de existir? Mas a alma, tal como penso, deve permanecer pura, pois assim chega ao que é poderoso sobre as asas de águias como um cântico de louvor e com a voz de muitas aves. (HÖLDERLIN, 200)
[2] http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/cultura/literatura/noticia/2015/04/08/queda-no-habito-de-leitura-revela-dificuldade-de-formar-leitores-no-brasil-175698.php

Crescimento Simbólico e Salários Estagnados

por Sergio Focardi

Por décadas, os governos ocidentais (e suas economias) vêm proporcionando crescimento real e bem-estar econômico a seus cidadãos. Mas mudanças que ocorreram desde a década de 1980 tornaram cada vez mais difícil distinguir crescimento real de crescimento nominal, enquanto o bem-estar da maioria dos cidadãos não conseguiu melhorar.

No início do século XX, a grande maioria da população naquilo que hoje chamamos de países desenvolvidos era capaz de satisfazer apenas suas necessidades básicas de alimentos, roupas e moradia; apenas uma pequena porcentagem desfrutou de um nível significativo, ainda limitado pela tecnologia disponível na época.

A revolução do consumo começou nos EUA. Obras de infraestrutura e a difusão de carros, trens, casa própria e eletrodomésticos, telefones, televisão, calefação e ar condicionado, ofereceram um caminho natural para o crescimento. A Grande Depressão abrandou mas não parou este processo. O sonho americano era o sonho de uma nação onde qualquer um que tivesse a disposição de trabalhar seriamente poderia melhorar sua situação e desfrutar de um nível cada vez maior de material de bem-estar.

A Europa experimentaria um desenvolvimento similar após a Segunda Guerra Mundial, quando uma combinação do colapso de antigos impérios e a necessidade de reconstrução após a Guerra concentrou a atenção nas economias domésticas. Seguindo os passos americanos, a Europa descobriu o consumismo. Embora certamente não idílica, com a Guerra Fria, as cicatrizes dos regimes totalitários e os choques culturais entre a esquerda e a direita, esse foi um período de crescimento econômico natural, quantidades crescentes. A educação universal de qualidade produziu um rápido aumento nas habilidades da força de trabalho.

Tanto na Europa como nos EUA, a maior parte do crescimento econômico deveu-se à produção doméstica. A importação-exportação como porcentagem do PIB mundial foi de apenas 10% a 12% em 1960; seu nível atual é de cerca de 30%.

Desigualdade abaixo ... e acima

Como o período do pós-guerra, de 1950 a 1980, trouxe prosperidade crescente às nações ocidentais com uma classe média crescente, a desigualdade de renda estava em sua baixa histórica. Nos EUA: a participação dos 10% principais ficou na faixa de 33 a 34%; na Europa, a parcela do decil superior (os 10% com maior renda) caiu de 32% em 1950 para 29% em 1980.

Duas mudanças críticas ocorreram depois disso. Primeiro, o poder de barganha dos assalariados foi reduzido. A globalização e a mudança do clima político e cultural levaram a uma mudança no equilíbrio de poder entre capital e trabalho. Os salários mais baixos ajudaram a alimentar os lucros corporativos, transferindo o poder de compra do trabalho para o capital. A relação preço/lucro das empresas do índice Standard & Poor's 500 (um índice de ações emitidas por 500 grandes empresas norte-americanas com capitalização de mercado de pelo menos US $ 6,1 bilhões) foi 65% a 70% maior no período pós-1995 durante o período 1935-1995; As margens das empresas S&P 500 aumentaram cerca de 30% em comparação com o período anterior a 1997. A parcela da renda total (antes dos impostos) do decil superior nos EUA disparou de menos de 35% na década de 1970 para 47% em 2014 (World Inequality Database). Tendências semelhantes ocorreram na Europa.

A mudança na distribuição de renda é refletida no mercado. Na década de 1960, o preço dos carros nos EUA variava de US $ 1.300 para um Ford básico ou Chevrolet a US $ 14.000 para um Cadillac Eldorado, então o mais caro. Hoje, o preço varia de US$ 8.000 para compactos básicos a mais de US$ 1 milhão. A faixa de preço passou de um fator de 10 para um fator de 100, em paralelo ao crescente diferencial de riqueza.

Para manter seu estilo de vida, os 90% mais pobres da população reduziram as economias e aumentaram os empréstimos. Dados do Federal Reserve Bank de Saint Louis mostram que a parcela da dívida assumida pelas empresas diminuiu progressivamente de cerca de 45% na década de 1950 para uma baixa de 15% em 2010, enquanto o público em geral ficou cada vez mais endividado. Da mesma forma, a parcela de consumo financiada pelos salários de nove países do G20 (Austrália, Canadá, Alemanha, França, Itália, Japão, Espanha, Reino Unido e Estados Unidos) declinou em mais de 65% no início dos anos 1970 para 56% 2012. (OCDE. A parte trabalhista nas economias do G20. 2015.)
Dívida aumenta

O aumento do endividamento dos consumidores na forma de dívidas bancárias/de crédito cria dinheiro que circula na economia. Esse dinheiro de crédito permitiu que os lucros monetários corporativos aumentassem enquanto os salários estagnavam. Este fato em si é uma importante fonte de instabilidade, uma vez que os assalariados têm que pagar uma dívida cada vez maior com a renda estagnada. Em um mundo altamente alavancado, com produtos financeiros complexos vendidos por um sistema bancário paralelo não regulamentado, um número crescente de insolvências pode levar a uma crise financeira e econômica.

Mas outro fator se tornou importante: nas economias ocidentais, um caminho natural para o crescimento diminuiu. Consideremos novamente o setor automotivo, onde o número de veículos per capita nos EUA cresceu quase linearmente de 300 por 1000 pessoas em 1950 para quase 800 por 1000 em 1990 e, em seguida, permaneceu essencialmente estável. O crescimento industrial está sendo liderado agora, não pelo aumento da produção, mas pela adição de novos recursos e mais desempenho, ou seja, inovação por meio de maior complexidade. A inovação também é alimentada pelo consumo simbólico. Produtos e serviços são desejáveis ​​e comprados não apenas por suas características intrínsecas, mas também por seu valor simbólico.
O crescimento é tudo sobre dinheiro

A inovação, seja tecnológica ou puramente simbólica, torna difícil definir e medir a inflação, a taxa na qual o nível geral de preços de produtos e serviços similares aumenta. Mas se os produtos mudam, física ou simbolicamente, é impossível definir a mudança no preço de produtos similares. Como conseqüência, a distinção entre quantidades nominais e reais é borrada: o crescimento é cada vez mais um fenômeno monetário.

O crescimento de hoje está concentrado em pequenos setores da população que consomem produtos e serviços inovadores e/ou de luxo. Este não é um fenômeno insignificante. Nos EUA, a capitalização de mercado da Apple - a quantidade de dinheiro necessária para comprar toda a corporação - está se aproximando de US$ 1 trilhão; a da General Motors está abaixo de US$ 55 bilhões. Na França, o setor de luxo é o maior por capitalização. Com € 156 bilhões em capitalização de mercado, o grupo LVMH é maior do que a principal empresa francesa de energia Total, que tem uma capitalização de mercado de € 144 bilhões. A capitalização conjunta das duas maiores marcas de luxo, LVMH e Hermès, equivale à capitalização dos três maiores bancos do país, o BNP Paribas, o Société Générale e o Crédit Agricole.

Embora tradicionalmente associado a aumentos nas quantidades produzidas e vendidas, o crescimento é cada vez mais devido à adição de complexidade através de inovação e simbolismo tecnológico. Com os crescentes fluxos de dinheiro gerados pelo crédito, o crescimento pode se transformar em crescimento monetário sem exibir quaisquer sinais inflacionários. As economias reais são enfraquecidas em termos de capacidades de produção e conjuntos de habilidades.

Para renovar com o crescimento e o bem-estar de seus cidadãos, os governos ocidentais precisam se concentrar mais uma vez em suas economias domésticas, aumentando a parcela do consumo que é financiada pelos salários. Uma mudança no equilíbrio de poder será necessária para devolver o poder de compra à classe média. Talvez uma mudança cultural que domasse o poder do consumo simbólico também seria bem-vinda.


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Sergio M. Focardi é professor de Finanças na Universidade Léonard De Vinci, Paris-La Défense e autor de Money: O que é, como é criado, quem o obtém e por que é importante (London: Routledge).

O fim fóssil do pacto político e econômico da Nova República

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“Todas as pessoas reconhecem o direito de revolução, isto é, o direito de
recusar lealdade ao governo, e opor-lhe resistência, quando sua
tirania ou sua ineficiência tornam-se insuportáveis”
Henry Thoreau (Desobediência Civil, 1849)


A Nova República (1985-2018) morreu. Ou melhor, o pacto político e econômico da Nova República está em coma irreversível, quase sem atividade cerebral e só continua respirando graças aos aparelhos (políticos partidários e corporativistas) e à inércia da sociedade civil que insiste em manter a vida cotidiana apesar de todos os percalços e à falta de esperança. A crise dos combustíveis fósseis é apenas a centelha que evidencia a insustentabilidade do modelo implantado após o fim do regime militar. Em pouco mais de 30 anos, a Nova República se tornou um regime fossilizado (em todos os sentidos).
Desde as descobertas das jazidas abissais do pré-sal, o Brasil apostou todas as suas fichas energéticas nos poluidores hidrocarbonetos. O sonho doce do etanol foi para a cucuia. Entre os anos de 2007 a 2010, 76 usinas de cana-de-açúcar foram construídas no Brasil e foi levantada a bandeira do etanol como uma commodity “made in Brazil”. Mas, em 2011 e 2012, 27 unidades produtoras fecharam as portas ou entraram em recuperação judicial. Estimativas atuais mostram que há 52 unidades em recuperação judicial e 27 em falência num total de 444 unidade no Brasil. Ou seja, o Brasil retrocedeu na produção de biocombustíveis, se absteve de produzir biodiesel e não avançou suficientemente rápido na produção de energias renováveis.
As manifestações de junho de 2013 – que de certa forma repetiram a espontaneidade de maio de 1968, mas que, ao fim e ao cabo, derrubaram os índices de aprovação da presidenta Dilma Rousseff e contribuíram para a sua queda – começaram contra um aumento de R$ 0,20 (vinte centavos) nas passagens de ônibus movidos à combustível fóssil. A greve dos caminhoneiros, de maio de 2018, também teve como fagulha do protesto o aumento do custo do diesel e a absurda política de preços da Petrobras, que promove aumentos diários dos combustíveis fósseis. Não há como transferir para a população os custos do desgoverno, do monopólio e da ineficiência da Petrobras. O povo brasileiro não tem como pagar os altos custos da energia fóssil, muito menos diante da possibilidade, cada vez mais presente, do “Pico do Petróleo”.
O que junho de 2013 e maio de 2018 tem em comum é a luta contra a carestia e a “rebelião tributária”, num quadro descontentamento sobre os rumos do país. A história está cheia de exemplos de governos ineficientes e corruptos que são derrubados por protestos contra o empobrecimento e o aumento de impostos. A Independência dos Estados Unidos, em 1776, começou com a “revolta do chá” contra os impostos cobrados pela Coroa Britânica. A Revolução Francesa, de 1789, começou quando o Rei convocou os Estados Gerais para aumentar os impostos e transferir para o conjunto da população francesa a redução do déficit fiscal e a conta dos gastos excessivos da Monarquia e das despesas de guerra. A Inconfidência Mineira, também de 1789, começou quando a Corte Portuguesa aplicou a Derrama (imposto), exigindo um quinto (20%) da produção de ouro.
A Nova República aumentou a carga tributária brasileira de cerca de 24% do Produto Interno Bruto (PIB), na década de 1980, para mais de 34% na atual década. Mas não contente com o aumento dos impostos escorchantes e dos serviços minguantes, o governo brasileiro tem um déficit público (nominal) de mais de 6% do PIB. Portanto, a sociedade tem que repassar cerca de 40% do PIB para as mãos egoístas e nada limpas do Estado. O cidadão brasileiro de 2018, paga, em média, duas vezes mais impostos do que o cidadão de Vila Rica (MG), no tempo de Tiradentes.
O pacto econômico da Nova República, configurado na “Constituição cidadã” de 1988, fez do Brasil um país submergente e só tem se sustentado, no decorrer destes 30 anos, devido ao aumento do gasto público com políticas sociais, como educação, saúde (SUS), programas de transferência de renda (PBF) e aposentadorias e pensões (incluindo Benefícios de Prestação Continuada, BPC, e aposentadoria rural). O problema é que o gasto social cresce, mas o investimento produtivo não cresce e a produtividade dos fatores de produção permanece estagnada nas últimas 3 décadas. É óbvio que existe um limite de tempo para o gasto social crescer mais do que o PIB, pois um dia a parte se tornaria maior do que o todo. Como já mostramos em outros artigos (Alves, 16/05/2018 e 23/05/2018), a economia brasileira tem crescido menos do que a economia internacional nas últimas 4 décadas e, atualmente (2011-20) vamos ter a segunda década perdida, com estagnação da renda per capita. Invariavelmente, quando o gasto social se torna competitivo com o investimento produtivo a economia não cresce e o déficit fiscal se agrava.
Como mostrou o economista Marcos Lisboa (atual presidente do Insper e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda entre 2003 e 2005, no governo Lula), a Nova República tem um gigantesco problema fiscal pela frente:
“O Brasil tem hoje um problema contratado para o futuro e outro presente. O contratado para o futuro é a previdência. Os gastos vão crescer seis pontos do Produto Interno Bruto (PIB) nas próximas décadas, porque a população em idade de aposentadoria cresce 3,5% a 4% ao ano. Já a população que trabalha aumenta cerca de 0,8% e, daqui a pouco, esse número vai diminuir ainda mais. Se nada for feito, a despesa com a previdência vai passar de 13% do PIB a 19%. Esse aumento equivale a 350 bilhões de reais. A reforma é para evitar esse colapso. Para além disso, temos um déficit de 140 bilhões de reais, quando deveríamos ter um superávit, no mínimo, de 200 bilhões para não deixar a dívida crescer. Isso é, com os gastos públicos como estão, estamos numa trajetória de endividamento crescente que não é sustentável” (Lisboa, 23/07/2017).
Portanto, o pacto econômico da Nova República já chegou aos seus limites e é impossível manter o crescimento das despesas públicas num quadro de “armadilha do baixo crescimento”. Nos últimos 30 anos, o Brasil aumentou a carga tributária e elevou o gasto público, mas só resolveu parcialmente os problemas sociais. É certo que houve redução da pobreza, aumento das matrículas escolares, aumento da esperança de vida ao nascer, etc. Mas é impressionante o tanto que se deixou de cumprir.
Sucessivos governos fazem propaganda de suas políticas sociais, mas não há nada mais injusto e antissocial do que a existência de 27,7 milhões de trabalhadores desocupados e/ou desalentados, que não possuem o mais básico dos direitos humanos que é o direito ao trabalho e a ter um meio de vida próprio, sem depender das migalhas e da caridade estatal. O Brasil de 2018 tem cerca de 3 milhões de postos de trabalho com carteira assinada a menos do que na época das últimas eleições presidenciais (estelionato eleitoral) de 2014. O IBGE anunciou dia 29/05, que taxa de desemprego aberto no trimestre encerrado em abril deste ano, foi de 12,9%, atingindo 13,4 milhões de brasileiros e, provavelmente, vai aumentar em maio e junho com a paralisação do país. Cada vez mais os trabalhadores brasileiros estão dependentes das transferências estatais de renda. Como dizia Luiz Gonzaga: “Mas doutô uma esmola a um homem qui é são, Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão”.
O desemprego aberto entre os jovens já ultrapassou 30%. O Brasil tinha 48,5 milhões de pessoas com idade entre 15 e 29 anos e 11,1 milhões (jovens Nem-Nem) não trabalhavam e não estavam matriculadas em uma escola, faculdade, curso técnico de nível médio ou de qualificação profissional. Não se pode esperar muito de uma geração do futuro que está sendo excluída no presente! São exatamente os jovens pobres, negros e das periferias urbanas que são as principais vítimas dos mais de 60 mil homicídios anuais (ao contrário da noção do “brasileiro alegre e cordial”, o país é um dos lugares mais violentos do mundo). Além do alto número de estupros, também há a Exploração Sexual Infantil, sendo comum meninas de 12 anos de idade, frequentarem “fluxos” (bailes funk de rua) para sejam submetidas a maratonas de penetrações e abusos sexuais (com o consequente aumento da gravidez indesejada entre crianças e adolescentes).
Houve aumento da mortalidade infantil brasileira no período recente da recessão, crescimento das epidemias de febre amarela, dengue, zika e chicungunha e estagnação das taxas de analfabetismo (uma das mais altas do mundo entre países de renda média). Cerca de 50% dos domicílios brasileiros não tem acesso ao saneamento básico e a carência de moradia é um problema crônico, pois os trabalhadores são empurrados para as periferias das grandes metrópoles e sofrem com a falta de serviços públicos e a precariedade do transporte público, além de ter que enfrentar os enormes engarrafamentos e a poluição do ar provocada pela queima de combustíveis fósseis utilizados no transporte de gente e de carga.
O incêndio que levou ao desabamento do edifício Wilton Paes de Almeida, no largo do Paissandu (um prédio de 24 andares invadido no centro de São Paulo) mostra a precariedade da política habitacional na maior cidade do país e também mostra como os moradores pobres podem ser explorados por pretensos movimentos sociais, “nas barbas” da administração municipal.
A intervenção militar no Rio de Janeiro, além de muito cara e ineficiente, não evitou a morte de Marielle Franco e Anderson Gomes e nem colocou ordem na “Cidade Maravilhosa”. A crescente militarização da vida brasileira e os apelos para a volta dos militares (presentes inclusive em setores da greve dos caminhoneiros) é um saudosismo sem sentido, mas não ocorre no vácuo político, pois é o resultado da incapacidade da democracia brasileira de construir um projeto de país com mobilidade social ascendente e uma decente segurança pública. A democracia brasileira, assim como as forças armadas estão em frangalhos, com fraca capacidade operacional e parecem não estar à altura dos problemas brasileiros atuais.
Tudo isto mostra que o pacto social da Nova República está em dívida com boa parte do povo “pobre e oprimido” e que o alto volume de recursos gastos com a dita verba social favoreceu apenas uma pequena parte da população brasileira. O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo (um dos maiores índices de Gini de concentração de renda). Os altos impostos não são direcionados para as parcelas desfavorecidas e nem para a melhoria da infraestrutura socioeconômica. O elevado desemprego, a renda per capita brasileira estagnada e a manutenção do privilégio de poucos, torna o conflito social parecido com um barril de pólvora. Surpreendentemente, só o governo desconhecia esta situação e foi atropelado pela greve dos caminhoneiros.
Mas não é somente o pacto econômico da Nova República que está moribundo, também o pacto político está em seus estertores. O arranjo institucional que foi concebido na Constituição de 1988 buscava o equilíbrio entre um Executivo ativo, um Congresso poderoso e um Judiciário com fortes prerrogativas. O Executivo, via Presidência da República eleita pelo voto direto seria a instância máxima a administrar o país, organizar a economia e até propor leis ordinárias. Mas a Presidência só se mantém viva pelo “presidencialismo de coalisão”, que na prática foi se transformando em presidencialismo de cooptação e de corrupção. Nos últimos 30 anos, dos quatro presidentes eleitos (Collor, FHC, Lula e Dilma) dois foram impedidos e um está preso. A Presidência da República virou uma ocupação forte por um lado e fraca por outro. A desvalorização ocorreu devido à maneira como pacto político tem sido rompido em relação aos outros dois poderes e à falta de legitimidade popular (em função do baixo desempenho econômico e da falta de solução para os problemas sociais).
Fica quase impossível sustentar o presidencialismo de coalizão quando a Presidência da República não tem uma base parlamentar sólida e fica refém de compromissos partidários que representam grupos específicos e privilegiados da sociedade. O Congresso Nacional virou a Casa da Mãe Joana. Com o aumento do número de partidos (atualmente, o Brasil tem 35 partidos registrados no TSE e mais 73 em formação) os governos precisam de mais agremiações para formar a maioria simples e a maioria de dois terços do parlamento. Quanto maior a base de alianças, menos política e ideologicamente ela é consistente. As alianças muito amplas abrem espaço para as negociatas e o aparelhamento partidário do Estado e das empresas públicas, via o fisiologismo e a divisão de cargos e recursos, distantes dos interesses republicanos. A hiperfragmentação partidária torna o processo legislativo um jogo de barganhas privadas que se distanciam cada vez mais do interesse público. Pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostra que somente 12% da população confia no Congresso Nacional e 6% nos partidos políticos.
O terceiro elemento do pacto político da Nova República é o Judiciário e, particularmente, o Supremo Tribunal Federal (STF), que teve suas prerrogativas fortalecidas pela Constituição de 1988 que ainda ampliou os poderes legitimados para propor ADINs, além de fortalecer o seu papel de corte revisora e de foro especial. O STF e o Judiciário saíram fortalecidos e passam a ter um ativismo judiciário inaceitável, mas que é cada vez mais forte na medida em que a Presidência da República e o Congresso Nacional não se entendem e se enfraquecem politicamente. O STF conseguiu aumentar as suas prerrogativas ao longo do período 1988-2018 preenchendo o vácuo político e, também, pelo estrelismo e personalismo de seus membros. Já houve brigas na Corte que viraram sensação nas rodas de fofoca nacionais. Em março de 2018, houve uma troca de acusações entre os ministros Luiz Roberto Barroso e Gilmar Mendes. O segundo disse: “Claro que continua a haver graves problemas. […] É preciso que a gente denuncie isso! Que a gente anteveja esse tipo de manobra. Porque não se pode fazer isso com o Supremo Tribunal Federal. ‘Ah, agora, eu vou dar uma de esperto e vou conseguir a decisão do aborto, de preferência na turma com três ministros. E aí a gente faz um 2 a 1”. Em seguida, Barroso se insurgiu contra o pronunciamento do colega: “Me deixa de fora desse seu mau sentimento, você é uma pessoa horrível, uma mistura do mal com atraso e pitadas de psicopatia. Isso não tem nada a ver com o que está sendo julgado. É um absurdo vossa excelência vir aqui fazer um comício cheio de ofensas, grosserias. Vossa excelência não consegue articular um argumento, fica procurando, já ofendeu a presidente, já ofendeu o ministro Fux, agora chegou a mim. A vida para vossa excelência é ofender as pessoas, não tem nenhuma ideia, nenhuma, nenhuma, só ofende as pessoas”. Esta é a Corte que pretende equilibrar e moderar as inconsistências dos dois outros poderes.
Enquanto os indivíduos “do andar de cima” brigam e não se entendem, os “do andar de baixo” tentam se organizar e se defender como podem. Atualmente, não existe nenhum projeto nacional, os partidos políticos tentam consolidar os seus feudos e a economia brasileira se afunda enquanto os países líderes avançam na 4ª Revolução Industrial e promovem a transição para uma matriz energética renovável, a informatização da sociedade do conhecimento (inclusive com Inteligência Artificial) e uma grande mudança do setor de transporte para o uso de veículos elétricos e o fim dos motores à combustão interna.
Na direção oposta, o Brasil do pré-sal e das tecnologias do século XX está cada vez mais atrasado em relação à nova configuração produtiva global do século XXI. A greve dos caminhoneiros – organizada a partir dos grupos do WhatsApp – lançou um alerta para a alta dependência do país dos combustíveis fósseis, a alta dependência do transporte rodoviário, a falta de investimentos na malha ferroviária, hidroviária e metroviária, a falta de apoio ao desenvolvimento local e à produção familiar de alimentos, a alta dependência ao agronegócio e ao sistema de concessões de rodovias, etc. Enfim, a greve mostrou as fragilidades da economia brasileira que passou pela mais longa e mais profunda recessão do período republicano e está vivendo a pior e mais lenta recuperação da história. As promessas de crescimento do PIB em 2018 já foram para o saco.
É significativo o fato de que a Petrobras, na primeira semana da greve dos caminhoneiros, tenha tido o seu valor de mercado reduzido em mais de R$ 120 bilhões e que tenha perdido o primeiro lugar no ranking das empresas mais valiosas da Bolsa de Valores para a AMBEV (valor de R$ 310 bilhões). O valor de mercado da Petrobras caiu para menos de R$ 250 bilhões no dia 28 de maio, o que equivale a cerca de US$ 70 bilhões. Enquanto isto, entre as 10 maiores empresas do mundo (Google, Apple, Amazon, Microsoft, Tencent, Facebook, Visa, McDonald’s, Alibaba e AT&T), todas valendo algumas centenas de bilhões de dólares, não existe nenhuma petroleira.
Enquanto os EUA e a China disputam pela liderança das megaempresas de tecnologia, a maior empresa brasileira da Nova República é uma fabricante de cerveja, que, inclusive, vai ter muito lucro com o megaevento midiático da Copa do Mundo da Rússia. Na Roma antiga, o povo era controlado com “pão e circo”. No Brasil atual, os governantes oferecem “churrasco, cerveja e futebol”, tudo isto energizado pelos combustíveis fósseis.
O ciclo se repete. Enquanto os governos passados promoviam a “Copa das Copas”, em 2014, e as “Olimpíadas do século”, em 2016, para manter as massas iludidas com uma suposta grandeza nacional (que se transformou em um triste legado de obras inconclusas e caras), na realidade a economia brasileira aprofundava a “especialização regressiva” e o processo de desindustrialização precoce, que fez o Brasil voltar a ser uma economia primário-exportadora altamente dependente da exportação de commodities e da exploração mineral e da produção do agronegócio tocado à base dos defensivos agrícolas e dos agrotóxicos. O Brasil perdeu competitividade internacional e não consegue ter uma economia capaz de responder aos anseios da população.
Não é a primeira vez que o país vive o desabastecimento e a falta de gêneros alimentícios. Isto também aconteceu pouco antes das eleições de 1986, no governo Sarney, do PMDB. O Plano Cruzado foi um grande estelionato eleitoral que possibilitou ao PMDB ganhar os governos de todos os Estados (menos Sergipe) e se tornar o maior partido da Nova República. Em 2018, com Michel Temer, a greve dos caminhoneiros confirmou que o PMDB não tem qualquer proposta coerente para administrar o país e o abastecimento atual é mais de governo e de políticas públicas. Os malfeitos de Temer está sendo pior do que os malfeitos do Sarney. A chamada “Bolsa Diesel” não elimina o déficit de credibilidade do governo, que ziguezagueou várias vezes, ficou sem rumo e foi derrotado pelos caminhoneiros. Um colapso eleitoral do PMDB, ou MDB, em outubro é uma condição para a renovação política nacional.
O fato é que, no geral, os partidos brasileiros não estiveram à altura do momento histórico nacional. Por exemplo, o PT, numa atitude completamente sem noção, fez o lançamento da candidatura Lula à Presidência da República, no dia 27 de maio, quando todo o país estava parado e com graves problemas de abastecimento. Demonstrando insensibilidade para a gravidade do momento, a senadora Gleisi Hoffmann, fez um balanço sobre os esvaziados lançamentos do domingo, 27 de maio no sítio digital do PT: “Os atos por Lula aconteceram em todo o Brasil. Isso mostra a vitalidade de nossa militância”. Mas não dá para ignorar a realidade e ter uma atitude de avestruz que não tem nada a ver com tudo isto que está aí. Seria hora dos partidos de esquerda mobilizarem a sociedade civil para criar alternativas ao desgoverno Temer. Todavia, só falta a extrema direita capitalizar os efeitos de uma greve geral que travou o país!
O certo é que a greve dos caminhoneiros parou tudo e deixou as forças políticas de direita, centro e esquerda perplexos e sem saber o que fazer. Não adianta culpar o locaute. Existe também a revolta do “precariado” e a revolta dos trabalhadores autônomos do transporte. Diante do movimento dos caminhoneiros, houve perplexidade tanto das instituições do Estado, quanto das lideranças dos três poderes. Na incapacidade governamental de oferecer uma rápida solução, os efeitos econômicos são devastadores, com destruição de alimentos, mais de 70 milhões de aves mortas na primeira semana da greve, o recuo na produção de proteína animal que vai aumentar os preços nos próximos meses, leite jogado fora, desaparecimento das hortaliças e piora da nutrição, aumento geral da inflação, paralisação de hospitais, escolas sem aulas, queda nas exportações, ameaça de uma nova recessão em 2018 e aumento do déficit público com agravamento da crise fiscal.
Assim, enquanto outros outubros não surgem e o Brasil segue a sua trajetória de declínio relativo, a Nova República está entre um estado vegetativo e um coma irreversível. Há falência múltipla dos órgãos. O pior é que as candidaturas para as eleições presidenciais de 2018, em miopia profunda, fingem não ver a condição do doente e ignoram a crise macroeconômica e microeconômica do país. Agem como o Barão de Münchausen que tentou sair do pântano puxando o próprio cabelo! Enquanto os partidos insistem em apresentar propostas milagrosas de retomada do crescimento econômico, para dar uma sobrevida ao pacto de 1988, os sinais de desagregação do tecido social brasileiro se avolumam. O país flerta com o caos. Talvez a próxima grande mobilização nacional seja pelo direito à eutanásia, não das pessoas, mas das instituições que estão apodrecendo e são verdadeiros mortos-vivos.
Para terminar com um toque final de esperança, vale lembrar as palavras de Steve Jobs: “A morte é muito provavelmente a principal invenção da vida. É o agente de mudança da vida. Ela limpa o velho para abrir caminho para o novo”.
Referências:
ALVES, JED. O déficit orçamentário e a dívida pública que o próximo governo (2019-2022) vai herdar, Ecodebate, 23/05/2018

ALVES, JED. Brasil: quatro décadas de baixo crescimento econômico, sendo duas décadas perdidas, Ecodebate, 16/05/2018

ALVES, JED. Brasil: país submergente, Ecodebate, 15/07/2015

Marcos Lisboa. Para resolver crise, teremos que rever direitos adquiridos. El País, 23/07/2017


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/05/2018