"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 8 de setembro de 2018

Votar na chapa certa

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O melhor desta campanha eleitoral são as dentaduras; a odontologia venceu a rapadura preta. Candidato que não mostra os dentes é como jumento banguelo, ninguém compra. Nunca se faturou tanto em publicidade como nesse ano eleitoral; haja projeto de santinho com chapa boa. O Brasil sempre foi um país de banguelos, e sempre houve apreço por uma boa dentadura, ter bons dentes era sinal de prosperidade; protético em cidade do interior ganhava o título de doutor; quando alguém aparecia com dentição branca e perfeita se dizia logo: - isso é dente “mermo” ou é chapa?- A prótese foi técnica primitiva, agora existem duas novas frentes, a odontologia moderna e o photoshop digital, candidato de boca fechada é que não pode.

Nos candidatos a presidente, parece-me que o Bolsonaro tem bruxismo, ou roeu os dentes ou a dentadura, ele tem a boca arreganhada pro lado direito, não sei se foi a chapa que ficou um pouco alta ou alguma trombose; uma candidata a Governadora do RN a mesma coisa, parece que trocou a dentadura para a campanha e a bicha ainda não se adaptou perfeitamente à boca.

Já vi no congresso parlamentar ter problema com chapa três vezes: o dente de Renan Calheiros, presidente do Congresso Nacional caiu numa entrevista coletiva; numa audiência pública o Senador pelo Distrito Federal, Hélio José, se viu obrigado a tentar acertar a dentadura, e como não conseguiu teve que colocá-la no bolso e tanger o discurso no vácuo; o deputado federal Carioca Simão Sessin perdeu os dentes num comunicado em sessão da câmara dos deputados em 2017, a Corega agradece a publicidade.

A rapadura é a força do nordestino e a desgraça dos seus dentes; dor de dente era a maior recordação da infância do sertanejo, tomava de tudo pra passar, água de borralho, água com casca de pau, tudo que fosse possível arrumar, amanhecia de cara inchada, tomando café quente pelo canto do bico. Arrancava tudo com o protético dentista improvisado cru, sem anestesia, um processo de libertação. Sertanejo odiava dente, porcaria só serve pra doer, preferia uma boa prótese, com uma faixa de ouro no dente da frente. Uma vez um caba parou pra beber água numa casa num desses sítios do sertão, cumpriu todo o protocolo: - oi de casa. – ôi de fora. – Dá pra arrumar um coisinha d`água pra mim? – Entre e beba no pote. E matuto não bebia sobejo, fazia um caneco, no Nordeste é macho, caneco e não caneca, como em São Paulo, com a boca cheia de pontas triangulares, só podia ser usado pra tirar a água do pote e colocar num copo de beber. O fato é que quando o camarada meteu o caneco no pote arrastou, como traíra na lama, uma formidável dentadura, que para não endurecer e por praticidade, repousava nas águas frias do pote de barro.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

O mito da estagnação secular

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JOSEPH E. STIGLITZ

No rescaldo da crise financeira de 2008, alguns economistas argumentaram que os Estados Unidos, e talvez a economia global, estavam a sofrer de “estagnação secular”, uma ideia inicialmente concebida no rescaldo da Grande Depressão. As economias sempre recuperaram das recessões. Mas a Grande Depressão teve uma duração sem precedentes. Muitos acreditavam que a economia tinha recuperado apenas por causa dos gastos do governo na II Guerra Mundial, e muitos receavam que, com o fim da guerra, a economia voltaria a estagnar.

Acreditava-se que algo tivesse acontecido e que mesmo com taxas de juro baixas ou zero, a economia fosse definhar. Por razões que agora são bem entendidas, essas terríveis previsões revelaram-se, felizmente, infundadas.

Os responsáveis por gerir a recuperação de 2008 (os mesmos indivíduos, que arcaram com as culpas pela regulação insuficiente da economia nos seus dias pré-crise, a quem  o presidente Barack Obama inexplicavelmente recorreu para corrigir o que tinham ajudado a destruir) acharam atrativa a ideia de estagnação secular, uma vez que explicava as suas falhas para conseguirem uma recuperação rápida e robusta. Então, à medida que a economia definhava, a ideia foi sendo reavivada: Não nos culpem, insinuaram os seus promotores, estamos a fazer o que podemos.

Os eventos do ano passado mostraram a falsidade desta ideia, que nunca pareceu muito plausível. O súbito aumento do défice dos EUA, passou de cerca de 3% para quase 6% do PIB, devido a uma fraca lei fiscal regressiva e a um aumento de despesa bipartidário, impulsionou o crescimento para cerca de 4% e reduziu o desemprego para valores que não se registavam há 18 anos. Estas medidas podem ser mal planejadas, mas mostram que com bastante apoio fiscal, o pleno emprego pode ser alcançado, mesmo com as taxas de juro a subir bem acima de zero.

A administração Obama cometeu um erro crucial em 2009, ao não aplicar um estímulo fiscal maior, mais longo, mais bem estruturado e mais flexível. Se o tivesse feito, a recuperação da economia teria sido mais forte e não teria havido nenhum discurso sobre estagnação secular. Na situação em que se estava, apenas os que faziam parte daquele 1% do topo da pirâmide viram o seu rendimento crescer durante os primeiros três anos da chamada recuperação.

Alguns de nós avisaram, naquela altura, que a crise era susceptível de ser profunda e longa e que o que era necessário era algo mais forte e diferente do que Obama propôs. Desconfio de que o principal obstáculo tenha sido a crença de que a economia só tinha sofrido uma pequena “pancada”, da qual iria recuperar rapidamente. Bastaria colocar os bancos no hospital, dar-lhes carinho (por outras palavras, não responsabilizar nenhum dos banqueiros ​​ou mesmo repreendê-los, mas sim reforçar a sua moral, convidando-os para serem consultores sobre qual o caminho a seguir) e, mais importante, regá-los com dinheiro e logo tudo ficaria bem.

Mas as agruras da economia eram mais profundas do que este diagnóstico sugeria. As consequências da crise financeira foram mais graves e a enorme redistribuição dos rendimentos e da riqueza para o topo da pirâmide enfraqueceu a procura agregada. A economia estava a passar por uma transição da indústria para os serviços e as economias de mercado não gerem bem essas transições por si só.

Era necessário mais do que um resgate financeiro massivo. Os EUA precisavam de uma reforma fundamental do seu sistema financeiro. A lei Dodd-Frank, de 2010, de alguma forma, embora não o suficiente, impediu que os bancos nos prejudicassem; mas pouco fez para garantir que os bancos façam realmente o que devem fazer, centrando-se mais, por exemplo, na concessão de empréstimos a pequenas e médias empresas.

Era necessária uma maior despesa pública, mas também programas de redistribuição e pré-distribuição mais ativos - que enfrentassem o enfraquecimento do poder de negociação dos trabalhadores, a aglomeração de poder de mercado por grandes corporações e os abusos corporativos e financeiros. Da mesma forma, as políticas industriais e laborais ativas podiam ter ajudado as áreas que sofreram as consequências da desindustrialização.

Em vez disso, os governantes não conseguiram fazer o suficiente, nem mesmo impedir que as famílias pobres perdessem as suas casas. As consequências políticas dessas falhas económicas eram previsíveis e foram previstas: era claro que havia um risco de aqueles que foram tão mal tratados recorrerem a um demagogo. Ninguém poderia prever que os EUA arranjassem alguém tão mau como o Donald Trump: um misógino racista empenhado em destruir o Estado de direito, tanto nacional como internacional, e em desacreditar as instituições da América encarregadas de dizer a verdade e de fazer avaliações, inclusive os meios de comunicação.
Um estímulo fiscal tão grande quanto o de dezembro de 2017 e o de janeiro de 2018 (e que a economia não precisava na época) teria sido mais poderoso uma década antes, quando o desemprego era tão alto. A fraca recuperação não foi, portanto, o resultado da “estagnação secular”; o problema foram políticas governamentais inadequadas.

Aqui, surge uma pergunta central: As taxas de crescimento nos próximos anos serão tão fortes como foram no passado? Isso, é claro, depende do ritmo da mudança tecnológica. Os investimentos na investigação e no desenvolvimento, principalmente na investigação básica, são um fator importante, embora com longos desfasamentos; os cortes propostos pela administração Trump não auguram nada de bom.

Mas mesmo assim, há muitas incertezas. As taxas de crescimento per capita têm variado consideravelmente nos últimos 50 anos, entre 2 e 3% por ano na(s) década(s) após a II Guerra Mundial e 0,7% na última década. Mas talvez tenha havido muito fetichismo em relação ao crescimento – sobretudo quando pensamos nos custos ambientais e mais ainda se esse crescimento não consegue trazer muitos benefícios para a grande maioria dos cidadãos.

Há muitas lições a tirar, à medida que refletimos sobre a crise de 2008, mas a mais importante é que o desafio foi – e continua a ser – político e não económico: não há nada que inerentemente impeça a nossa economia de ser executada de forma a garantir o pleno emprego e uma prosperidade partilhada. A estagnação secular foi só uma desculpa para as políticas económicas falhadas. A menos que, e até que, o egoísmo e a miopia que definem a nossa política – especialmente nos Estados Unidos sob a liderança de Trump e dos seus ativadores republicanos – sejam resolvidos, uma economia que serve muitos, em vez de poucos, continuará a ser um sonho impossível. Mesmo que o PIB aumente, os rendimentos da maioria dos cidadãos irão estagnar.


Joseph E. Stiglitz, a Nobel laureate in economics, is University Professor at Columbia University and Chief Economist at the Roosevelt Institute. His most recent book is Globalization and Its Discontents Revisited: Anti-Globalization in the Era of Trump.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

O óbvio relinchante II: Bolsonaro e o Charuto


Charuto era um jumento inteligentíssimo, conseguiu decorar o caminho de ida e volta para o açude; o aprendizado passa por um processo de repetição. Em matéria de candidatos nas eleições brasileiras a fauna é vasta; cada vez mais se faz dificultoso encontrar-se um candidato do mundo real, pragmático, alfabetizado e inteligente; até por que para a política, como lembrava Graciliano Ramos, a preferência é sempre pelos imbecis e gatunos, quem conseguir ser canalha sem receio terá facilidade em conseguir votos. Toda forma a burrice nas campanhas evoluiu, ou involuiu, de forma alvissareira.

Nessa campanha presidencial faz-se admirável a burrice do mais novo ídolo das massas eleitorais patrióticas de geral e de arquibancada; o homem mais adorado pelo eleitorado brasileiro em todos os tempos foi o Lula, se fosse compilar a soma de asneiras e coisas mais do gênero que o Lula falou daria uma enciclopédia, mas o Lula fareja os caminhos da conquista do voto; entre Lula e Bolsonaro a diferença é uma inversão, é que Lula sabe dominar as massas, enquanto que Bolsonaro foi o que deu pra um eleitorado submergente arrumar na liquidação eleitoral. É o seguinte, ascendeu depois de 2013 uma massa de eleitores gigante que se definiu por conceito como contrária à retórica petista e, essa massa precisava de um ídolo, para ser ídolo, ainda mais no confronto com o Lula, foi preciso desenterrar um trambolho acéfalo encafuado no congresso há quase 30 anos para ser  carregado nas costas, feito um jumento que conduz e é conduzido, o tal do Bolsonaro, que pelo que parece, o seu soldo parlamentar não foi usado em matéria de livros. 

Bolsonaro na campanha vestiu-se numa forma de burrice bastante estratégica; não é mais aquele das frases que tanto feriam o politicamente correto dos militantes petistas; ele agora atua por delegação. Na área econômica, 27 anos como deputado, votando o orçamento todo ano, será que lia os relatórios?, nunca aprendeu nada de economia, nem o que seja o tripé macroeconômico, Bolsonaro está no D, os jornalistas perguntam sobre e ele lasca: tem que desburocratizar, desregulamentar, desonerar, talvez caiba desdolarizar, deschinezizar... Parece estratégia de concurseiro, outra desgraça nacional, uma gente que não sai dos limites da decoreba; na hora das considerações finais o insuportável presidente PHD, Patriota, Honesto e que tenha Deus no coração vai repetir as mesmas palavras para uma plateia feita.

O Brasil, felizmente é uma nação predestinada para as comédias, não, como a Argentina, para as tragédias; de forma que mesmo a meia dúzia que coletivos hegemônicos bem organizados nunca conseguiram sobrepor-se aos "costumes", mesmo os piores segundo as ciências sociais, jeitinho e arrumados, etc... Exército, Igreja Católica, Partido Comunista, os três de antes; a igreja teve muita força eleitoral no império, o Exército tomou o poder pra si ou com civil três vezes, mas sempre mesclou, o PC nunca conseguiu apoio popular, o PT, seu substituto, misturou messianismo com doutrina social século XIX e dividiu o cenário eleitoral da 5ª República, mas só conseguiu vencer em alianças com conservadores.

Bolsonaro é originário do jacobinismo militar de Floriano Peixoto e Moreira César, o mesmo de Médici e Costa e Silva, crença na superioridade dos militares sobre os civis, uma grande mentira, já que instituições organizadas sob hierarquias são mais eficientes em roubar, governos pra "colocar ordem", etc... Agora tingiu-se de liberal; um caudilho que já fez isso foi Getúlio Vargas, quando em 1930 candidatou-se a frente da Aliança Liberal e, no poder virou ditador corporativista. Na Venezuela Hugo Chavez prometeu a Terceira Via de Tony Blair e no poder virou cubano. O extremista readptado em novo discurso tanto pode ser uma vantagem, mudou, preferiu optar por uma normalidade segura, ou, apenas mente para ganhar o trono. 

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

A Transição Demográfica nos 200 anos da Independência do Brasil

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves


população e transição demográfica no Brasil

A transição demográfica (TD) é o fenômeno de mudança de comportamento de massa mais expressivo e mais impactante da história da humanidade. Ela mudou uma realidade que parecia inexorável. Desde o surgimento do Homo Sapiens, há pelo menos 200 mil anos, as taxas de mortalidade sempre foram elevadas e a morte precoce era a norma que ceifava vidas.
O número de óbitos infantis era elevadíssimo, assim como a prevalência da mortalidade materna. Mais da metade dos nascimentos não chegavam à idade adulta. Segundo Angus Maddison (2008), a esperança de vida ao nascer da maior parte da população mundial, antes do século XIX, estava abaixo de 25 anos. Para se contrapor às elevadas taxas brutas de mortalidade (TBM), as sociedades se organizavam para manter altas taxas brutas de natalidade (TBN), gerando muitos filhos, para que o número de sobreviventes fosse maior do que o número de pessoas falecidas.
Mas a história mudou com o avanço da modernidade urbano-industrial, o que possibilitou a diminuição da letalidade das doenças, da miséria e das guerras. Com menos mortes precoces, foi possível reduzir o número de nascimentos por casal. Esta conquista é única e excepcional. A TD tem um padrão que se repete, invariavelmente, da mesma forma em todos os países. Não há exceções. Primeiro caem as taxas de mortalidade e, depois de um certo lapso de tempo, caem as taxas de natalidade. Este formato foi observado em todas as nações independentemente da língua, da religião, da localização geográfica ou de qualquer diferenciação cultural. O que varia, são os níveis históricos das taxas, o momento inicial da queda, a velocidade do declínio e os níveis finais após o fenômeno transicional.
O século XX foi o período, por excelência, da transição demográfica. Mas em muitos países o inicio da queda da TBM começou no século XIX, enquanto as quedas mais significativas da mortalidade e da natalidade ocorreram entre 1900 e o ano 2000.
O gráfico acima mostra que a TD no Brasil, em seus aspectos fundamentais, aconteceu nos últimos 150 anos e deve alcançar seus estágios finais por volta das comemorações dos 200 anos da Independência (1822-2022). Nota-se que, nos primeiros 50 anos após o fim dos laços coloniais com Portugal, as taxas brutas de natalidade (47 por mil) e de mortalidade (33 por mil) eram muito altas, especialmente as primeiras, o que propiciava taxas de crescimento vegetativo, na ordem de 14 por mil (1,4% ao ano). Acrescente a este alto crescimento vegetativo o fluxo imigratório que aumentava o ritmo de crescimento demográfico.
Como o Brasil sempre foi um país de dimensões continentais, com uma densidade demográfica muito baixa, o crescimento populacional era visto como um fator positivo para a colonização e a ocupação territorial. Tanto na Colônia, quanto no Império e na República, o lema dos diversos governos brasileiros era: “governar é povoar”. Nas duas últimas décadas do século XIX, começou, inicialmente de forma tímida, a queda da TBM, o que impulsionou o crescimento vegetativo para quase 2% ao ano, facilitando e reforçando a meta do povoamento. Entre 1870 e 1930 a TBM caiu de 33 por mil para 26 por mil, enquanto a TBN variou ligeiramente entre 47 por mil e 45 por mil.
Após a chamada Revolução de 1930, que deu início ao processo induzido de industrialização e urbanização, a TBM acelerou a queda e atingiu o nível de 21 por mil em 1945. Mas a queda maior das taxas de mortalidade aconteceriam depois da Segunda Guerra Mundial, período que propiciou a queda da TBM em todo o mundo, sendo que a TBM ficou abaixo de 10 por mil em 1965 e atingiu o nível mais baixo da história nacional (tanto do passado, quanto do futuro) entre os anos de 2010 e 2012, com o nível mínimo de 6 por mil. A partir de 2013 a TBM brasileira começou a subir em função do fenômeno do envelhecimento populacional e deve ficar em 6,5 por mil no ano de 2022. Portanto, a transição da mortalidade no Brasil já se completou, passando de níveis elevadíssimos, para o nível mais baixo da história e iniciando uma tendência de leve alta em decorrência da transição da estrutura etária do país.
Entre 1900 e 1960 a taxa bruta de natalidade ficou praticamente estável, variando levemente de 46 por mil para 41 por mil. Como a TBM variou de 28 por mil para 12 por mil, houve aceleração do crescimento vegetativo que passou de 1,8% para 2,9% ao ano. Desta forma, as maiores taxas de crescimento demográfico no Brasil aconteceram nas décadas de 1950 e 1960.
Porém, ainda nos anos 60, a TBN começou a cair e acelerou o ritmo de queda nas décadas seguintes. A TBN caiu de 39 por mil em 1965 para 21 por mil no ano 2000 e deve ficar em 12 por mil em 2022. Segundo as projeções populacionais do IBGE (revisão 2013) as taxas brutas de mortalidade e natalidade devem alcançar o equilíbrio em 2042, ambas atingindo o patamar de 9,4 por mil. A partir de 2043 haverá reversão das duas taxas e, consequentemente, a população brasileira entrará em um período de decrescimento populacional. Ainda segundo as projeções do IBGE, a TBN deve ficar em 8 por mil e a TBM em 13 por mil em 2060.
O impacto da TD sobre o volume da população segue o comportamento de uma curva logística, com baixo crescimento no início, uma aceleração do crescimento num segundo momento até um ponto de inflexão que leva à desaceleração do crescimento até a estabilidade e um possível decrescimento.
A população brasileira era de 4,7 milhões de habitantes quando Don Pedro deu o grito do Ipiranga, em 1822. Subiu para 9,9 milhões 50 anos depois, quando houve o primeiro censo brasileiro (em 1872). Chegou a 17,4 milhões de habitantes em 1900, pulou para cerca de 170 milhões de pessoas no ano 2000 e deve ficar em torno de 215 milhões em 2022. Ou seja, a população brasileira cresceu 46 vezes nos 200 anos da Independência. Mas o pico populacional deve ser alcançado em 2042, com um volume de 228,4 milhões de habitantes. A partir de 2043 a população brasileira iniciará uma trajetória de decrescimento, segundo as projeções (revisão 2013) do IBGE, e deve encerrar o século XXI abaixo de 200 milhões.
Os determinantes da queda da mortalidade foram a melhora do padrão nutricional, a melhoria nas condições de higiene e saneamento básico (especialmente água tratada), com o avanço da medicina e do acesso ao sistema de saúde. Os determinantes da queda da natalidade foram o aumento da renda, a elevação do nível educacional, o acesso ao trabalho assalariado com a industrialização e a urbanização, a entrada da mulher no mercado de trabalho, a maior autonomia feminina e a redução das desigualdades de gênero, o aumento e a diversificação do padrão de consumo, a ampliação do sistema previdenciário, a universalização do acesso aos métodos contraceptivos e a conquista dos direitos sexuais e reprodutivos.
A transição demográfica é um fenômeno sincrônico ao desenvolvimento. De modo geral, o desenvolvimento socioeconômico contribui para a queda das taxas de mortalidade e natalidade e, concomitantemente, a transição demográfica contribui para a decolagem do desenvolvimento na medida que gera uma estrutura etária mais favorável ao aumento da demanda agregada. Existe um processo de retroalimentação entre os dois fenômenos. Toda nação rica – com alto Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) – passou pela transição demográfica e pelo bônus demográfico. Aproveitar a janela de oportunidade que surge com a transição da estrutura etária é uma condição para o enriquecimento nacional antes do envelhecimento populacional.
O desafio do Brasil nos próximos anos é aproveitar o bônus demográfico, gerando condições adequadas para se avançar com as condições de saúde da população, o estabelecimento do pleno emprego com trabalho decente e a universalização da educação de qualidade. Tudo isto deve ser feito no escopo de duração da transição demográfica para alavancar o desenvolvimento. Se nada for feito, provavelmente, sobrará heteronomia e entropia.
Como diria o velho Marx (que fez aniversário de 200 anos de nascimento no dia 05 de maio de 2018), o ser humano e os povos fazem a sua própria história, mas não segundo uma suposta livre vontade e, sim, sob as condições materiais e objetivas com que se defrontam cotidianamente.
Os 200 anos da Independência não é o final da linha, mas restará pouco tempo para o Brasil aproveitar a sinergia que existe entre o desenvolvimento e a transição demográfica. A sociedade brasileira e o próximo governo (2019-2022) precisarão fazer um grande esforço para colocar o Brasil no trilho do bem-estar humano e ambiental, enquanto o tempo ainda for favorável e a demografia ainda tiver gás para fornecer à economia e ao progresso populacional.
Referências:
ALVES, JED. A grande cisão: sucesso humano versus fracasso ecológico, Ecodebate, 25/03/2015

ALVES, JED. Brasil 200 milhões de habitantes, Ecodebate, 25/03/2015

Angus Maddison. The West and the Rest in the World Economy: 1000–2030. Maddisonian and Malthusian interpretations, World Economics, 2008

IBGE, Séries Históricas e Estatísticas

IBGE. Projeções. Nota Técnica da Diretoria de Pesquisas, de 13 de maio de 2013


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 05/09/2018

O óbvio relinchante: o funk e a amásia jumenta do Nordeste

Tanto se propagou em matéria de discurso sobre como os pais devem criar e educar aos filhos, coisa que sempre souberam fazer, lei da palmada e coisa e tal, que desaprenderam de vez, agora os senhores genitores incentivam a liberdade, liberdade virou palavra vulgar, natural das crianças pondo-as para “dançarem" funk desde dois ou três anos de idade, afinal, trata-se apenas de inocência... O problema é que o funk nem é música e, muito menos dança, de forma que a única coisa que o funk faz com as pessoas é as ensinarem a, como diz no Ceará, torcerem os quartos e começarem a fazer aberrações com aquilo que uma vez vi um sujeito numa escola chamar de ganha pão. Lembrei que Gilberto Freyre comparava a precoce sexualidade do menino de engenho na zona da mata com a sequidão dos cabras do sertão, tendo contato com mulheres pro volta dos 25; o velho Mestre do Apipucos não esqueceu para com estes da variedade de animais, dentre esta fauna bacanalística o destaque total e absoluto fica com a jumenta, seguida de perto por éguas e burras. Jumenta amásia de cabra nordestino torce “os quartos” quando qualquer ser bípede passa perto do curral. É o mesmo instinto que segue as criaturas treinadas no funk, ou fanque pros patriotas; tem uma funkeira que diz de cara: – “vou logo avisando que não tenho namorado, dim, dim, dim, pode dar em cima de mim”, roxinha não falava mas gesticulava.
Esses funks casaram no Brasil com a mistura terceiro-mundista desgraçadionista de marxismo de pelúcia com rousseaunismo chinelo de couro, pelo menos não pega espinho nos pés, e rendeu aquela coisinha de que evoluir e voltar a ser bicho. Evoluir é transar todo mundo o tempo todo com quem tiver pela frente, nem os animais fazem isso; a AIDS até que é civilizatória. Por falar em AIDS, o psicólogo norte-americano canadense, Steven Pinker, demonstra no seu grande e bom de ser ler livro otimista Os Anjos Bons da Natureza Humana, que a violência explode nos EUA entre a ascensão da doidice woodstockiana e o surgimento da Aids, quando arrefece a sandice animalesca e as estatísticas retornam aos níveis anteriores.
Gosto muito da forma que Graciliano Ramos analisava o Cangaço no Nordeste até próximo da década de 1940; para ele se tratava d equação simples, o Brasil precisa de gente pragmática, vivemos de devaneios, votamos a procura de anjos quando devíamos votar em gente egoísta e inteligente, burro não serve, o egoísmo rende na política, os egoístas precisam mostrar serviços, os bonzinhos agradar a todos e aí junta mundiça; a equação de Graciliano, tinah gente demais no Nordeste pra economia de menos, vinha a desgraça da seca e os bandos de cangaceiros aumentavam; quando arrancaram a cabeça de Lampião anotou o velho Graça, mataram o Virgulino, Lampião continua, aí vemos Lampião feito a mulesta no país inteiro, roubando, matando, traficando, o diabo a quatro.
Agora, a índia tem cerca de 400 milhões de miseráveis, nem de longe as estatísticas de violência da índia se comparam com a do Brasil; como dizia Nelson Rodrigues, a fome da índia tem seis mil anos, já ta conformada. Mas, como dizia o próprio Nelson não se rouba pra comer, quem tem fome pede esmola, ladrão rouba dinheiro, joias, eletrônicos e coisas de luxo. Quando a fome era muito maior que hoje no Brasil tínhamos muito menos ladrões; essa bandidagem de 1980 pra frente é uma mistura de economia muito fraca, durante a transição urbana o Brasil crescia a galope, se favelizava a jato, quando se urbanizou passou a crescer feito liga morta, estica pouquinho e volta o dobro, com canalhice, ser sem vergonha virou moda entre nós; os desgraçados perderam o arrependimento de serem bandidos e aí virou a mulesta.
O desperdício de vigor da juventude para tornar-se um adulto complexo em troca de seguir-se as modinhas da adolescência perpétua faz com que haja uma perda produtiva gigantesca para o Brasil, somos um país de 200 milhões em que o PIB mal dá pra 40 milhões; o geral da população vive com uma renda cuja existência real restringe-se a um ou dois dias. Pouquíssimos fazem o Brasil. Diante do entrevistador de emprego que pergunte: - tem experiência com atendimento ao público?, e a resposta: - não, mas sei fazer o quadradinho.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

O longo caminho da transição energética

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“Devemos deixar o petróleo antes que ele nos deixe”
Faith Birol (Economista chefe da IEA)

Renewables Global Status Report (GSR)”, de 2018

A edição do relatório “Renewables Global Status Report (GSR)”, de 2018, da Renewable Energy Policy Network for the 21st Century (REN21) revela o quanto falta para o mundo percorrer na transição energética. A figura acima, com dados de 2016, mostra que os combustíveis fósseis ainda dominavam a matriz energética mundial e representavam 79,5% do consumo global. A energia nuclear representava 2,2% do total, ficando as renováveis com 18,2% (fontes modernas com 10,4% e fontes tradicionais com 7,8%). Entre as energias modernas, a eólica e a solar somam menos de 1,7%.
Assim, apesar das tendências positivas, o ritmo da transição energética não é suficiente para se atingir os objetivos estabelecidos no Acordo de Paris, visando manter o aumento da temperatura global abaixo de 2 graus Celsius. Sem dúvida, é preciso acelerar a transição energética, com aumento das energias renováveis que aproveitam as grandes reservas de vento e sol.
De fato, a instalação de energias renováveis tem batido todos os recordes. Somente em painéis solares foram instalados quase 100 gigawatts (cerca de sete usinas de Itaipu) em 2017. Em turbinas eólicas o aumento foi de cerca de 55 GW. Em alguns países do mundo, as energias eólica e solar já são responsáveis por um terço à metade da eletricidade consumida. Entre 2012 e 2017, a capacidade instalada em renováveis mais do que dobrou globalmente.
Mas a despeito de todos os avanços, o petróleo, o carvão e o gás natural continuam dominando a matriz energética global e as renováveis (excluindo a lenha e o carvão vegetal) respondem por apenas 10,4% do consumo total de energia da humanidade. O crescimento em relação ao ano de 2016 foi se somente de 0,2%. As chamada “renováveis modernas” incluem as hidrelétricas, que são renováveis, mas causam represamento dos rios, interrupção da mobilidade dos peixes e grandes danos ambientais para as bacias hidrográficas.
O Brasil conta com grande participação das hidrelétricas, mas sofre com a crise hídrica, a falta de chuvas e o baixo investimento nas nascentes dos rios. Na energia eólica o país está entre os 10 maiores produtores. Mas na energia solar – que é a fonte que mais cresce no mundo – o Brasil está muito atrasado e desperdiça o seu potencial solar que poderia, sozinho, abastecer todo o país, acabando com a dependência aos combustíveis fósseis.
Referências:
REN21. 2017. Renewables 2018 Global Status Report (Paris: REN21 Secretariat).


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 03/09/2018

O envelhecimento populacional segundo as novas projeções do IBGE

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves


O IBGE divulgou as novas projeções da população brasileira, no final de julho, com a população estimada em 208,5 milhões de habitantes em 2018, de 233,2 milhões de pessoas em 2047 (pico populacional) e de 228,3 milhões de habitantes em 2060. Portanto, a população brasileira está a caminho da transição do crescimento para o decrescimento demográfico.
Outra transição confirmada pelas novas projeções é da estrutura etária, com a mudança de uma pirâmide populacional de base larga (rejuvenescida) para uma pirâmide de base estreita e de topo ampliado (envelhecida). O envelhecimento populacional é a transformação da estrutura etária que acontece em decorrência do aumento da proporção de idosos no conjunto da população e a consequente diminuição da proporção de jovens. Durante mais de 500 anos, o Brasil teve uma estrutura etária rejuvenescida. Mas isto vai mudar no decorrer do século XXI.
Uma maneira de medir o envelhecimento populacional é por meio do Índice de Envelhecimento (IE), que é a razão entre o número de pessoas idosas sobre os jovens (crianças e adolescentes). Trata-se de uma razão entre os componentes extremos da pirâmide etária. O IE pode ser medido pelo número de pessoas de 60 anos e mais para cada 100 pessoas menores de 15 anos de idade. Uma população é considerada idosa quando o topo da pirâmide é maior do que a sua base, ou seja, quando o Índice de Envelhecimento (IE) é igual ou superior a 100.
Segundo as projeções anteriores do IBGE (revisão 2013), o Brasil se tornaria um país idoso em 2029, quando haveria 39,7 milhões de jovens (0-14 anos) e 40,3 milhões de idosos (60 anos e mais). Nesta data, o IE seria maior do que 100, ou seja, haveria 101,6 idosos para cada 100 jovens (veja a coluna vermelha no gráfico 1).

índice de envelhecimento

Mas com as novas projeções do IBGE (revisão 2018), o envelhecimento vai ocorrer um pouquinho mais tarde, no ano de 2031. No ano 2010, havia 48,1 milhões de jovens de 0 a 14 anos e 20,9 milhões de idosos com 60 anos e mais. O Índice de Envelhecimento (IE) era de 43,4 idosos para cada 100 jovens, conforme mostra o gráfico 2. Em 2018, o número de jovens caiu para 44,5 milhões e o de idosos subiu para 28 milhões, ficando o IE em 63 idosos para cada 100 jovens.
O número de idosos vai ultrapassar o de jovens em 2031, quando haverá 42,3 milhões de jovens (0-14 anos) e 43,3 milhões de idosos (60 anos e mais). Nesta data, pela primeira vez, o IE será maior do que 100, ou seja, haverá 102,3 idosos para cada 100 jovens (veja a coluna vermelha no gráfico). Mas o envelhecimento populacional continuará sua marcha inexorável ao longo do século XXI. No ano de 2055, as projeções do IBGE indicam o montante de 34,8 milhões de jovens (0-14 anos) e de 70,3 milhões de idosos (60 anos e mais). O IE será de 202 idosos para cada 100 jovens. Ou seja, haverá mais do dobro de idosos em relação aos jovens.

índice de envelhecimento

Os gráficos de ambas as projeções não deixam dúvidas quanto à diminuição da população jovem (0 a 14 anos) e do aumento da população idosa (60 anos e mais) ao longo do século XXI. O Brasil jovem está ficando para trás e a partir da década de 2030 será um país com uma estrutura etária idosa e a cada dia mais idosa. E não haverá mais volta.

O futuro do Brasil é ser um país com alta proporção de pessoas idosas.

Referências:
IBGE: Projeção da População das Unidades da Federação por sexo e idade: 2000-2030, revisão 2013http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/projecao_da_populacao/2013/default.shtm
IBGE: Projeção da População (revisão 2018), Rio de Janeiro, 25/07/2018


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 31/08/2018

Brasil precisa diminuir os gastos inúteis e aumentar os investimentos produtivos

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

Economia – O Brasil precisa consertar a casa e seguir os fundamentos básicos da microeconomia, diminuindo os gastos inúteis e aumentando os investimentos produtivos


superavit/deficit nominal: Brasil

O Brasil vive a sua mais longa e mais profunda crise econômica da história e tem também o período de recuperação mais lento e com menor retomada do desemprego e da atividade econômica. Nos últimos anos houve crescimento da pobreza e da extrema pobreza, com o consequente aumento da mortalidade infantil, da mortalidade materna e do número de mortes violentas. Existem algumas pessoas que atribuem todos estes problemas ao austericídio (redução dos gastos públicos).
Contudo, o gráfico acima mostra que as contas públicas brasileiras continuam deficitárias, conforme dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), WEO de abril de 2018. Nota-se que o resultado primário (saldo da arrecadação, menos os gastos do governo, mas sem contabilizar os juros da dívida) foi positivo entre 2003 e 2013, período de maior crescimento econômico do atual século, mas os déficits de 2015 a 2018 são os maiores dos anos 2000 e mostram que o Brasil continua gastando muito e gastando de maneira errada.
Em 2003, o superávit primário foi de R$ 56 bilhões (3,2% do PIB) e passou para R$ 118 bilhões (3,8% do PIB) em 2008. Na recessão de 2009, o governo promoveu políticas fiscais anticíclicas e o superávit primário caiu para R$ 65 bilhões (1,9% do PIB). O superávit voltou a subir até 2011, com R$ 129 bilhões (2,9% do PIB). Porém, o superávit começou a cair, embora tenha sido de R$ 91 bilhões (1,7% do PIB) em 2013. O superávit foi zerado em 2014 e se transformou em déficit a partir de 2015.
Ou seja, o governo teve superávit quando conseguia colocar as contas públicas em relativo controle e garantia o crescimento do emprego e da renda. Foi a perda de controle sobre os gastos públicos que jogou a economia na recessão e a recessão prejudicou ainda mais as contas públicas.
Enquanto o superávit primário se manteve relativamente alto entre 2003 e 2008, o déficit nominal ficou moderadamente controlado abaixo de R$ 100 bilhões, o que representava menos de 3% do PIB. Mas com a recessão, o déficit nominal ultrapassou R$ 100 bilhões em 2009 e chegou a R$ 159 bilhões (-4,2% do PIB), em 2010. Mas o que estava ruim piorou e o déficit nominal chegou a R$ 363 bilhões (-6,5% do PIB) em 2014 e a impressionantes R$ 588 bilhões (-9,8% do PIB) em 2015.
Enquanto houve superávit primário houve também redução da dívida pública bruta (como % do PIB), com redução forte entre 2003 e 2008 e redução moderada até 2013, conforme mostra o gráfico abaixo. Porém, quando o superávit primário se transformou em déficit, elevando o déficit nominal, a dívida pública bruta disparou, chegando a 87% do PIB em 2018 e devendo alcançar 95% do PIB, no ano dos 200 anos da Independência.

dívida pública brasileira (% do PIB)

Portanto, a situação fiscal do Brasil é dramática e é um equívoco pensar que basta aumentar os gastos públicos para voltar a gerar emprego e renda. Na verdade, o Brasil precisa diminuir os gastos inúteis e aumentar os investimentos produtivos e ambientalmente sustentáveis. O debate eleitoral não deveria ser entre ter mais gastos ou ter menos gastos estatais. A questão é a qualidade dos gastos e o retorno social e ambiental das despesas públicas.
Os gastos sociais vem subindo no Brasil desde a Constituição de 1988, que estabeleceu uma série de direitos fundamentais, mas não estabeleceu normas (análise custo/benefício) para o financiamento destes direitos. Fica parecendo que basta fazer uma lei para resolver todos os problemas econômicos. Repetidamente, ativistas dizem que basta vontade política para acabar com os males que assolam o país.
Mas a economia tem seus fundamentos e não há como “fazer omelete sem quebrar os ovos”. Ceteris paribus, não há como aumentar a redistribuição dos excedentes sem aumentar a produtividade do trabalho e dos fatores de produção.
Dizer que as despesas com educação, saúde e previdência “não são gastos, mas sim investimentos” pode ser um bom exercício de retórica, porém, todo investimento requer gasto e só traz retornos econômicos e sociais se for bem-feito e bem implementado. Se o retorno dos investimentos não vier acima dos gastos com estes investimentos a economia vai para o buraco. Por exemplo, os investimentos nas refinarias de Pasadena e no Complexo Petroquímico de Itaboraí foram apenas gastos que endividaram a Petrobras, aumentaram o preço dos combustíveis, geraram a greve dos caminhoneiros de maio de 2018 e a população brasileira já está pagando e vai pagar por muitos anos adiante.
Quando se faz um investimento na construção de uma escola ou na criação de um hospital e as obras ficam no meio do caminho o que se tem é apenas gastos em educação e saúde que nunca vão ter retornos sociais e cujos prejuízos vão ser socializados com toda a população.
Quanto se investe na expansão da educação, mas não se investe na qualidade desta educação o resultado é o aumento das despesas e o não retorno dos investimentos. Quando se investe na educação básica dos jovens, mas não se gera as oportunidades de colocação no mercado de trabalho e se tem mais de 10 milhões de jovens de 15 a 29 anos sem escola e sem trabalho (geração nem-nem) então a educação é apenas gasto sem retorno e não adianta utilizar o truque para dizer que educação é investimento. Pois mesmo que se considere investimento é um investimento que não seria aprovado em uma análise custo/benefício. Por exemplo, o Estado investiu na educação pública do ex-governador Sérgio Cabral e mesmo com educação superior e muito contato com a “inteligência” do Rio de Janeiro, todo este investimento reverteu contra a população ao se transformar em um generalizado esquema de corrupção ampla, geral e irrestrita.
Indubitavelmente, investimento em cidadania e direitos humanos é uma tarefa imprescindível, mas este tipo de investimento só se sustenta no longo prazo se houver retorno econômico para que haja acúmulos ainda maiores nas sucessivas gerações e na ampliação da qualidade de vida.
Outros exemplos são os programas de transferência de renda, que são muito bem-vindos para a redução imediata da extrema pobreza, mas que não devem reproduzir o ciclo intergeracional da pobreza, pois os filhos das famílias beneficiadas deveriam ter educação e emprego para sair do ciclo vicioso da miséria. As políticas universais são necessárias e imprescindíveis.
Enfim, se o próximo governo aumentar o déficit primário (que já é alto) sem melhorar a qualidade do investimento e a produtividade da economia, pode simplesmente propiciar o aumento da inflação e um agravamento ainda maior das contas públicas. Déficit primário elevado, com aumento da dívida pública, pode ser o estopim de uma nova recessão, ainda mais neste momento de crise cambial que se espalha pelo mundo, primeiro com a ida da Argentina ao FMI e depois com a desvalorização da moeda da Turquia.
O fato é que não basta aumentar gastos públicos e aumentar o déficit primário para resolver todos os problemas. Ao contrário, pode agravar tudo.
O Brasil precisa consertar a casa e seguir os fundamentos básicos da microeconomia, diminuindo os gastos inúteis e aumentando os investimentos produtivos, para que haja geração de emprego e de renda para todas as pessoas que desejam trabalhar e não possuem este direito humano fundamental.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 27/08/2018