"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Essas são as medidas econômicas que o Bolsonaro quer aplicar no Brasil

Estas son las medidas económicas que quiere aplicar Bolsonaro en Brasil


O Brasil quebrou uma série de 16 anos de eleição de candidatos do Partido dos Trabalhadores para o seu governo e com 55% dos votos, Jair Bolsonaro do Partido Social Liberal (PSL) venceu o candidato esquerdista Fernando Haddad.

Bolsonaro chega ao poder graças a uma atmosfera pública de desespero em relação ao fracasso econômico, à corrupção e ao aumento do crime que colocou o governo anterior no centro das atenções. Esses fatores pesaram mais do que os insultos continuados a mulheres, negros e homossexuais ou até mesmo um passatempo retórico à ditadura que foi pregado.

A situação turbulenta no Brasil

Para entender como Bolsonaro foi eleito presidente do Brasil, devemos olhar para a evolução do país nos últimos anos.

O Brasil tem sido uma das economias emergentes com menor momento econômico nos últimos anos. Sua economia entre 2003 e 2017 cresceu em média 2,4%, enquanto a maioria das economias latino-americanas cresceu pelo menos 4% e as economias emergentes como um todo cresceram cerca de 6%.

O Brasil entrou na pior recessão de sua história em 2015 (-3,8% do PIB) e 2016 (-3,6%). Esta crise econômica deveu-se à queda no preço das matérias-primas e à queda no consumo e no investimento. Em 2017, a economia iniciou a recuperação e o PIB registrou baixo crescimento de 0,7%.


Crecimiento

Na crise e o baixo crescimento do Brasil é gerado pela confluência de vários fatores:


  • A queda nos preços mundiais das commodities.
  • Desaceleração econômica na China, que é o maior mercado exportador do Brasil (19% das exportações).
  • Imposto corporativo de 34% e dificuldades burocráticas para impulsionar um negócio.
  • Naufrágio do real devido à forte valorização do dólar que levou a altas taxas de inflação devido ao aumento das importações.
  • Aumento das taxas de juros durante a crise para conter a inflação, que se aproximou de 11% em 2015.
Infla


As contas públicas têm sido historicamente desequilibradas. Embora as receitas sejam cíclicas e tenham diminuído durante a recessão, os gastos públicos são estruturais e impulsionados por compromissos sociais garantidos pela Constituição, particularmente nos benefícios do sistema de pensões. Os juros da dívida vêm aumentando e atualmente estão próximos a 7% do PIB.

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Ao mesmo tempo, desde 2014, o Brasil está envolvido em um escândalo de corrupção nacional que começou com a estatal Petrobras, mas se espalhou por várias ramificações empresariais. Um escândalo envolvendo milhões de dólares em subornos e mais de 80 políticos e membros proeminentes da elite empresarial.

Três anos após o início da investigação, Lula da Silva, presidente do Brasil de 2003 a 2010, foi condenado pela primeira das cinco acusações contra ele a 12 anos de prisão. Ele começou sua sentença em 7 de abril de 2018, quando os juízes decidiram que ele não deveria ser livre durante o processo de apelação.

Além disso, os números do crime do país estão disparando. Se olharmos para os números publicados pelo "Anuário Brasileiro Segurança Pública" mortes violentas intencionais em 63.880 ascenderon em 2017 (175 mortes / dia), um aumento de 2,9% em relação ao ano anterior e oferece uma taxa de 30, 8 por 100.000 habitantes. E somente em 2017 houve 82.684 desaparecimentos.

Mortalidad

Bolsonaro e o programa liberal que o acompanha

Apesar de um conhecimento limitado da economia, a verdade é que Jair Bolsonaro ganhou o favor de investidores com amplas propostas liberais para o seu país. Seu programa econômico é projetado principalmente pelo economista liberal Paulo Guedes, um de seus conselheiros mais próximos, a quem ele promete atribuir o "super ministério" da economia.

Para resolver os problemas da crescente dívida pública do país - maior em países emergentes - com déficit de 7,8% em 2017, seu programa propõe reduzir o volume da dívida em 20%, privatizando um grande parte de empresas públicas brasileiras. Também está pensando em redesenhar os ministérios, com o objetivo final de reduzir o peso do Estado, cuja despesa pública cobre 38% do PIB.

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Embora dentro da extrema direita seja costume projetar programas protecionistas cheios de tarifas, a verdade é que esse programa econômico vai na direção oposta, com o objetivo de desenvolver ainda mais a abertura do Brasil ao comércio internacional. Propõe a redução de muitos tipos de importações e barreiras não-tarifárias, paralelamente ao estabelecimento de novos acordos bilaterais.

No sistema previdenciário brasileiro, devemos fazer uma menção especial, os custos estão aumentando mais rapidamente do que as receitas devido ao envelhecimento da força de trabalho no Brasil, a estrutura do sistema previdenciário e a desaceleração econômica no Brasil.

Em média, a idade de aposentadoria das pessoas que entram no sistema é de 55 anos e recebem o equivalente a 70% do último salário. As mulheres que começaram a contribuir quando tinham 15 anos podem se aposentar aos 45 anos.

Essas regras negligentes são, em parte, responsáveis ​​por um sistema público de pensões que compreende mais de 50% de todos os gastos federais, uma vez que as transferências para os estados são descontadas, deslocando outros serviços públicos. Seus pagamentos são o triplo do que eram há trinta anos e devem acelerar ainda mais.

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No centro do problema está a diminuição do número de trabalhadores ativos em relação aos aposentados no Brasil. Especificamente, a razão entre trabalhadores ativos e beneficiários de pensões para o estado médio brasileiro caiu para 1,58 em 2012 de 2,19 em 2006.

Para resolver este problema, pretende-se alcançar um sistema de capitalização como sistema de Administradores de Fundos de Pensão (AFP) no Chile. No entanto, não foi explicado como alterar, pois há muitos trabalhadores que contribuíram na época para a Previdência Social e apenas os mais jovens puderam ver os benefícios.

Os mercados aplaudem Bolsonaro

As ações do Brasil bateram um recorde na segunda-feira (a Bovespa chegou a 88.377 pontos), e o real tocou uma alta de cinco meses apesar de um dólar mais forte depois do candidato presidencial favorito do mercado, Jair Bolsonaro, alcançar uma vitória.

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No entanto, mais tarde eles acabaram corrigindo o aumento inicial. E é que as expectativas já foram muito descontadas por um tempo ... Tanto a moeda e o índice de ações ganharam mais de 15% desde meados de setembro, quando as pesquisas começaram a favorecer Bolsonaro.

Seu compromisso de estabilizar as contas do país tem sido o verdadeiro catalisador para as melhores expectativas dos investidores. O risco país também vem caindo nos últimos meses. Se o CDS marcar uma probabilidade de inadimplência de 42% no final de agosto, hoje a probabilidade de inadimplência do país caiu para 34%.

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terça-feira, 30 de outubro de 2018

O papel do Estado na provisão de serviços públicos e no desenvolvimento econômico

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Autor: Samuel Pessoa - Revista Conjuntura Acadêmica, Vol. 72 nº 10  OUTUBRO  2018 - Ponto de Vista

O papel do Estado na economia pode, de maneira simplificada, ser organizado em duas dimensões. Na primeira, temos o Estado que dá maior segurança aos cidadãos e procura reduzir a desigualdade de oportunidades por meio da oferta de serviços públicos como saúde, educação, programas de assistência social etc.
 
Na segunda, está o grau de intervenção direta do poder público sobre o funcionamento dos mercados: papel e extensão das empresas estatais, marcos regulatórios setoriais, concessão de crédito subsidiado para incentivar alguns setores da economia em detrimento de outros, grau de fechamento da economia ao comércio internacional etc. 
 
Um exemplo ajuda na distinção das duas dimensões: Estado de bem-estar social e Estado interventor. É possível haver um amplo e generoso programa público de seguro-desemprego, como ocorre, por exemplo, nos países nórdicos, e, por outro lado, haver grande liberdade contratual entre o trabalho e o capital, também situação vigente entre os escandinavos. 
 
Pode-se afirmar que a escolha social entre haver ou não um Estado de bem-estar social amplo e abrangente tem natureza normativa, ou seja, é tomada em função de um juízo de valor que a sociedade expressa. Não há tamanho certo ou errado do Estado. Diferentemente, a forma e a dimensão da intervenção e regulação do poder público no funcionamento direto dos mercados têm natureza positiva, no sentido de que funcionam, ou não, para produzir desenvolvimento econômico sustentado (no contexto específico de cada país). 
 
Há no Brasil visão contrária à oferta privada de serviços de utilidade pública e de setores básicos, também conhecidos por setores estratégicos, como, por exemplo, energia e petróleo. Essa tese não tem respaldo factual. Existe farta evidência empírica de que não há justificativa para o Estado ser produtor direto de serviços que poderiam ser ofertados de forma mais eficiente e, logo, a um menor custo para os consumidores, pelo setor privado. Por exemplo, o historiador William Summerhill estudou as concessões de ferrovias no Brasil entre 1854 e 1913 e documentou que as empresas privadas apresentaram lucros positivos e que os retornos sociais de suas atividades foram sempre maiores do que esses lucros. Segundo o estudo, essas empresas foram importantíssimas para o desenvolvimento brasileiro naquela época, superando o impacto das ferrovias no desenvolvimento norte-americano no mesmo período.
 
Marcelo Jourdan (2006) estudou todos os balanços da empresa Light, entre 1898 até a estatização total da empresa em 1978, e não encontrou nenhum sinal de lucros exagerados. Ao longo desses 81 anos de operação no Brasil, o retorno da empresa, em dólares americanos constantes, foi de 3,6% ao ano. Há sinais, por outro lado, de que o controle tarifário a partir do Estado Novo iniciou um longo processo de estatização dos setores de energia elétrica, telefonia e transportes urbanos, o que levou à contínua degradação da oferta desses serviços que tiveram que ser estatizados, com ônus para o Tesouro.
 
É importante lembrar ainda que, no início da década de 1990, um telefone fixo no Brasil era bem de luxo. A privatização levou a um boom no acesso a serviços de telecomunicação e à maior concorrência entre empresas, com nítidos benefícios para o Estado e para os consumidores.
 
Outro exemplo interessante é a campanha “O petróleo é nosso!”. Forte mobilização, praticamente unânime da sociedade. Naquela oportunidade, meados dos anos 50, uma parcela de sete em cada dez crianças de sete a 14 anos estava fora da escola. E o Brasil construía Brasília e a Petrobras. Não há dúvida de que as prioridades foram invertidas. Nossos preconceitos, nossas ideologias e nossa dificuldade com os números e as contas nos jogam no desastre das escolhas erradas e do desperdício de recursos públicos.
 
Recentemente, nova rodada de intervencionismo nos legou pesado fardo. Com dificuldade, estamos saindo da maior perda de produto, e a mais extensa no tempo, dos últimos 120 anos. Uma das agendas que produziu o desastre tem claro conteúdo ideológico. A forte inflexão intervencionista na política econômica gerou um hospital de empresas quebradas e muito prejuízo para o Tesouro Nacional. Os repasses do Tesouro Nacional ao BNDES – cerca de R$ 500 bilhões ao longo de sete anos – representam mais do que o gasto, em valores de hoje, do governo norte-americano com todo o plano Marshall.
 
Recente estudo de Ricardo Barboza e Gabriel Vasconcelos documenta que cada R$ 1 emprestado pelo ­BNDES gerou R$ 0,5 de investimento. Qualquer avaliação de custo e benefício das atividades do BNDES no período começa com um desperdício de 50%. Para que a perda não seja inaceitável, nos outros 50% o ganho social do investimento, em excesso ao ganho privado, teria que ser surpreendentemente elevado, sem o que as ações do banco entram na lista das imensas dilapidações de recursos da década passada.
 
Outro enorme desperdício foi a alteração do marco regulatório do petróleo em 2010. A descoberta do pré-sal e a nova configuração geológica demandavam no máximo um decreto presidencial e, provavelmente, a adição de um parágrafo à Lei do Petróleo de 1997. O decreto estabeleceria novos parâmetros para a Participação Especial (PE), o imposto sobre a receita líquida da produção de óleo, que tem a mesma base tributária da partilha no novo sistema. O novo artigo na legislação estabeleceria que o lance do leilão de novos blocos de exploração e produção poderia ser sobre os termos da PE, em vez de ser sobre o bônus de assinatura. Daria na mesma em termos das receitas apropriadas pelo governo brasileiro. Por ideologia perdemos a melhor janela de preços internacionais do petróleo. A sociedade não desfrutou de todos os benefícios que poderia ter colhido da riqueza mineral.
 
Também tentamos reconstruir a indústria naval, pela terceira vez em 60 anos. Não temos aprendido com os erros das decisões passadas. Não à toa, repetimos o fracasso da indústria naval dos anos 50 nos anos 70 e agora nos anos 2000. Em todos os casos, os resultados foram muitos estaleiros quebrados e pesada conta para os contribuintes.
 
A conclusão é que nossa expe­riência, tanto nos casos bem-sucedidos quanto nos desastres, é farta em mostrar que, em termos de oferta de serviços de utilidade pública e de bens e insumos estratégicos, devemos ser pragmáticos. Não somos uma sociedade rica ou com enorme capacidade de poupança como, por exemplo, é o caso dos países de industrialização recente da Ásia, e, mais recentemente, da China continental.
 
Nossa sociedade tem dado seguidas demonstrações de que deseja a construção de um eficiente Estado de bem-estar social que a atenda e que encaminhe nossos problemas seculares de elevada desigualdade e heterogeneidade social. Nossa taxa de poupança é baixa e, consequentemente, os juros são elevados, além de convivermos com permanente pressão inflacionária. Ou seja, somos uma sociedade que não pode se dar ao luxo do desperdício. Mais do que em qualquer outro país, temos que ser rigorosos com o emprego dos recursos públicos.
 
Países que optam por uma ampla rede de bem-estar social não têm espaço orçamentário para que o Estado seja muito ativo na intervenção direta na economia por meio de empresas estatais e/ou oferta de crédito subsidiado, como foi a nossa experiência recente. As intervenções no setor elétrico e de petróleo e gás criaram passivos na casa de muitos bilhões de reais, que levarão décadas para serem pagos.
 
Em resumo, os dois Estados, o de bem-estar e o intervencionista, não cabem no orçamento do Tesouro Nacional. Temos que saber priorizar. Para continuar priorizando o social, não há como o Estado gastar recursos orçamentários preciosos para pagar a ineficiência de serviços que hoje estão sob a sua responsabilidade direta. 

Energia renovável deve responder por 50% da eletricidade mundial até 2050

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“Assim como a Idade da Pedra não acabou por falta de pedras,
a Era do Petróleo chegará ao fim, não por falta de óleo”
(Sheikh Ahmed-Zaki Yamani, 2000)

matriz energética global

O novo relatório da Bloomberg New Energy Finance (BNEF) – New Energy Outlook (NEO) para 2018 – traz boas notícias para a indústria de energia renovável, com previsão de que a energia eólica e solar aumente sua participação na matriz energética global para cerca de 50% até 2050. No mesmo período, o carvão deve encolher para 11% da geração global de eletricidade e as baterias para aumentar em popularidade como os preços despencam.
O relatório NEO-2018 traz, além das boas novas para as indústrias eólica e solar, destaca o impacto promissor da queda dos custos da bateria e o impacto tem sobre o mix de eletricidade ao longo das próximas décadas. Especificamente, a BNEF prevê que os preços das baterias de lítio-íon, que já despencaram 80% por megawatt-hora (MWh) desde 2010 – continuarão a cair à medida que o setor de veículos elétricos mantenha o crescimento projetado.
A BNEF estima que US$ 548 bilhões serão investidos em capacidade de armazenamento de energia em baterias, até 2050. Considerando que o armazenamento barato por meio de baterias significará a viabilidade para a utilização de eletricidade a partir do vento e da energia solar, contornando os problemas da intermitência do fornecimento destas fontes que são sujeitas à falta de sol ou de vento. O resultado será o crescimento das energias renováveis e o abandono progressivo do carvão, petróleo, gás e energia nuclear.
Para a indústria solar em particular, a BNEF está prevendo um aumento de 17 vezes na capacidade global e o custo nivelado da eletricidade (LCoE) cairá mais 71% até 2050, já tendo caído 77% entre 2009 e 2018. A indústria eólica vai beneficiar de um aumento de seis vezes na capacidade e ver a sua própria LCoE cair mais 58%, face ao decréscimo de 41% observado na década anterior.
Além disso, a BNEF prevê que o setor elétrico global aumentará suas emissões de 2017 até um pico em 2027. Em seguida, as emissões devem cair até 2050. Infelizmente, isso ainda significa que o setor elétrico não cumprirá sua parte esforço para manter os níveis globais de CO2 abaixo de 450 partes por milhão (ppm), o nível equivalente a um aumento nas temperaturas globais de apenas 2 graus Celsius, conforme estabelecido no Acordo de Paris.
Porém, mesmo que fosse possível desativar todas as usinas de carvão do mundo até 2035, o setor de energia ainda não estaria trilhando o caminho acima de uma trajetória de segurança climática. O último relatório do IPCC mostra que a humanidade só tem 12 anos para reverter as emissões de gases de efeito estufa.
Ou seja, a transição energética é fundamental para a segurança climática, mas no ritmo atual – mesmo sendo o mais rápido de todos os tempos – o aumento da temperatura do Planeta poderá, ainda assim, chegar em um nível que os custos serão muito maiores do que os benefícios.
Se este processo de transição não for acelerado o mundo pode perder o controle sobre o clima devido aos efeitos de retroalimentação e pode assistir a um colapso ambiental de grandes proporções já na metade do século XXI.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Referência:
Bloomberg New Energy Finance (BNEF) – New Energy Outlook (NEO), 2018


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 29/10/2018

BRASIL: A ESQUERDA MERECEU PERDER

A imagem pode conter: 4 pessoas, pessoas sorrindo, multidão


por CarlosFino

Aquilo que há ainda poucos meses parecia impossível tornou-se realidade – Jair Bolsonaro é o novo presidente eleito do Brasil.

Capitão do Exército na reforma, com folha de serviços controversa e medíocre, deputado sem expressão há dezenas de anos, homem do baixo clero pouco considerado entre os próprios pares, Bolsonaro conseguiu, com meia dúzia de frases rasas, em que perpassa intolerância social e política, polarizar uma onda de apoio que agora o guindou à chefia do Estado.

O que se passou para que o Brasil chegasse aqui e esteja prestes a perder a graça?

O intenso ódio ao PT de Lula da Silva gerado pela corrupção em larga escala desvelada pela Lava Jato é, certamente, uma primeira resposta.

Não foi o PT que inaugurou a corrupção política no Brasil – o financiamento ilegal das campanhas tem sido a regra desde sempre; mas o Partido dos Trabalhadores lutara contra isso durante anos e anos e, quando ganhou pela primeira vez, em 2003, recebeu uma missão de mudança ética, que depois traiu.
Na altura, a esperança venceu o medo, mas depois a corrupção derrotou a esperança.

Desde então, o PT perdeu o apoio das classes médias que – com a ajuda dos setores progressistas da Igreja Católica – conseguira angariar e, a partir daí, ficou reduzido à militância. A popularidade remanescente de Lula ainda lhe garante, por enquanto, um terço do eleitorado – mas isso não chega para ganhar uma eleição presidencial.

A própria expressão visual dos seus comícios é significativa: o PT ficou-se praticamente só pelo vermelho, tendo deixado que a Oposição lhe roubasse o verde e o amarelo, cores da bandeira nacional.

Assim reduzidos à sua própria base, recusando-se a fazer qualquer autocrítica, num discurso cada vez mais virado para dentro, desconfiado ou mesmo intolerante para com os próprios potenciais aliados, os petistas não foram capazes de forjar as alianças que seriam necessárias para formar uma frente unida contra o que se desenha como uma perigosa deriva de extrema direita, que já provocou dezenas de agressões um pouco por todo o país e ameaça agora traduzir-se em medidas xenófobas e antidemocráticas.

Pode lamentar-se a pusilanimidade de Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, que recusou uma palavra de apoio, e o mesmo se pode dizer de Ciro Gomes, do PDT, sempre verrinoso e incerto, que no último momento, depois de insinuar um possível apoio a Haddad, acabou por dizer: “com o PT, nunca mais!”. Pode lamentar-se tudo isso, mas a verdade é que o próprio PT é responsável pelo seu isolamento. Basta olhar para a escolha em relação ao vice: se tivesse havido um esforço no sentido do alargamento e do diálogo, o candidato a vice não podia ser, como foi, da extrema esquerda.

Não foram, entretanto, só os erros do PT que conduziram o Brasil à situação atual. Como vem acontecendo um pouco por todo o mundo, também no Brasil há um cansaço do politicamente correto e dos seus exageros; um cansaço em relação a políticas que vão muitas vezes contra convicções profundas das populações sem que estas sejam, primeiro, conquistadas para essas posições. A par, também, de muitas medidas que – invocando direitos legítimos – acabam por traduzir-se em privilégios de grupos.

Tudo isso somado à incapacidade do sistema dar resposta aos anseios de milhões de pessoas que permanecem à margem, enquanto perante elas se desenrola o teatro cínico da política ou dos tribunais, dando sempre prioridade aos interesses instalados.

Mas a vitória que o eleitorado concedeu a Bolsonaro foi limitada. Apesar de tudo, mesmo isolado, Haddad conseguiu conter a onda e evitar uma derrota humilhante. Além disso, muitos votos que foram para a direita são mais anti-PT/Lula do que propriamente outra coisa, podendo ser reversíveis. É o caso, por exemplo, dos eleitores do PSDB, que foram na sua maioria para Bolsonaro, mas não são votos de extrema direita.

Agora, resta esperar que o PT e a esquerda de uma forma geral aprendam com a derrota e que o sistema democrático consiga conter os impulsos extremistas de direita que rodeiam o candidato vencedor. Como se sabe, dado que o Diabo não corta as unhas, alguém tem que lhas cortar por ele. Essa é a primeira condição para que o Brasil não perca definitivamente a graça e a esperança possa renascer.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

A classe média é maioria no mundo pela primeira vez na história

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

O aumento da renda tem ocorrido com base em um crescimento do modelo de produção e consumo insustentável


a classe média é maioria no mundo

O capitalismo é o sistema econômico que mais gerou riqueza na história mundial, fato sem paralelo desde o surgimento do Homo sapiens. Mas também é o modo de produção que gerou os maiores níveis de desigualdade social e de degradação ambiental.
Mesmo com todo o sucesso na geração de riqueza, o capitalismo pode sucumbir devido ao agravamento dos conflitos distributivos, por um lado, e, principalmente, devido ao colapso ambiental que pode se transformar em um apocalipse civilizacional. O capitalismo pode ser vítima de seu próprio “sucesso” antropocêntrico.
Mas o objetivo deste artigo é comentar a mais recente conquista capitalista e apresentar os dados do World Data Lab, com sede em Viena, que mostram o crescimento da classe média mundial e o fato de que este segmento intermediário da população passou a ser, pela primeira vez na história, maioria dos habitantes globais, conforme mostra o gráfico acima.
Pelos cálculos do World Data Lab, a partir de setembro de 2018, pouco mais de 50% da população mundial, ou cerca de 3,8 bilhões de pessoas, vivem em domicílios com gastos discricionários suficientes para serem considerados “classe média” ou “ricos”. Outros 3,8 bilhões de pessoas vivendo em lares pobres ou vulneráveis à pobreza. Setembro de 2018 marca um ponto de inflexão global.
Segundo a classificação adotada, os domicílios na extrema pobreza são aqueles com renda menor do que US$ 1,90 por pessoa ao dia (em poder de paridade de compra – ppp). As famílias pobres (ou em situação de vulnerabilidade) são aquela com renda acima de US$ 1,90 ao dia e menos de US$ 11 ao dia. A classe média foi definida como aquelas famílias com renda pessoal entre US$ 11 e US$ 110 ao dia. Os ricos são aqueles com renda acima de US$ 110 (em ppp).
O grande crescimento da classe média ocorreu na Ásia, especialmente na China e na Índia. O World Data Lab calcula que, entre 2018 e 2030, o número de pessoas na extrema pobreza vai cair de 630 milhões para 450 milhões, o número de pessoas na pobreza (mais de US$ 1,90 a menos de US$ 11) vai se reduzir de 3,16 bilhões para 2,3 bilhões. Já a classe média com 3,59 bilhões de pessoas (47,3% do total de 7,6 bilhões de habitantes globais em 2018) vai passar para 5,3 bilhões de pessoas (63% da população de 8,4 bilhões de habitantes globais em 2030). Os ricos devem passar de 200 milhões de pessoas em 2018 (2,7% do total) para 300 milhões em 2030 (3,6% do total). Ou seja, a classe média e os ricos devem representar 2/3 da população mundial em 2030, conforme o gráfico abaixo.

o predomínio da classe média em 2030

A redução da pobreza e o aumento do número de pessoas na chamada classe média é uma notícia boa do ponto de vista do padrão de vida da população mundial. Contudo, o aumento da renda tem ocorrido com base em um crescimento do modelo de produção e consumo insustentável, que extrai recursos dos ecossistemas e devolve poluição e resíduos sólidos.
O crescimento exponencial demoeconômico tem lesado o meio ambiente. O genocídio climático pode eliminar milhões de pessoas nas próximas décadas. Se este processo não for revertido, o sucesso da geração de riqueza pode se transformar em um colapso ambiental que pode resultar no fim do progresso civilizacional.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Referências:
Homi Kharas; Kristofer Hamel. A global tipping point: Half the world is now middle class or wealthier, 27/09/2018

World Data Lab http://www.worlddata.io/

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 26/10/2018

Os países mais religiosos são os mais pobres e os menos religiosos os mais ricos

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

Religião e Economia – O século passado foi um século de uma potência religiosa (EUA) e o século atual será o século dominado por um país ateu (China)


Americans are far more religious than adults in other wealthy nations

Rezar diariamente não faz bem para a economia! Fé demais parece que é um empecilho ao desenvolvimento econômico, ao bem-estar e à qualidade de vida.
Isto é uma conclusão que se pode tirar do gráfico acima, apresentado pela pesquisa “Americans are far more religious than adults in other wealthy nations”, do Instituto PEW (31/07/2018). Em todos os países que possuem renda per capita superior a US$ 30 mil (em poder de paridade de compra – ppp) há menos de 50% da população rezando diariamente. E, em todos os países onde mais de 50% da população reza diariamente, a renda per capita é menor do que US$ 30 mil, com exceção dos EUA.
Os EUA permanecem sendo um país fortemente religioso e o mais devoto entre todas as ricas democracias ocidentais. Como se diz, os EUA são um ponto fora da curva. Uma exceção que confirma a regra. Por exemplo, mais da metade dos adultos americanos (55%) diz rezar diariamente, em comparação com 25% no Canadá, 18% na Austrália e 6% na Grã-Bretanha. Na verdade, quando se trata de seus hábitos de oração, os americanos se parecem mais com pessoas em muitos países pobres, incluindo África do Sul (52%), Bangladesh (57%) e Bolívia (56).
A China é o destaque contrário, pois é o país menos religioso de toda a comunidade internacional. Os chineses são o povo que menos reza e são o país com maior taxa de crescimento econômico dos últimos 40 anos. A China atualmente é um país de renda média e predominantemente ateu. No futuro será um país rico e ateu.
Estados Unidos e China são as duas potências econômicas que lutam pela hegemonia e a predominância no processo de globalização e de influência internacional. Vários autores consideram que assim como o século XX pode ser classificado como “século americano”, o século XXI será redefinido como “século chinês”.
Pelo gráfico acima, podemos dizer que o século passado foi um século de uma potência religiosa e o século atual será o século dominado por um país ateu (e que não respeita o Estado laico). Se isto se tornar realidade, será a primeira vez na história que uma nação não religiosa assumirá a liderança econômica, científica e tecnológica dos destinos da humanidade.
Referência:
DALIA FAHMY. Americans are far more religious than adults in other wealthy nations, PEW, JULY 31, 2018http://www.pewresearch.org/fact-tank/2018/07/31/americans-are-far-more-religious-than-adults-in-other-wealthy-nations/


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 24/10/2018