"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 29 de dezembro de 2018

Natureza vs. Infraestrutura

O século XXI será um período de expansão de infra-estrutura sem precedentes, e serão gastos impressionantes US $ 90 trilhões nos próximos 15 anos para construir ou substituir barragens, usinas de energia e outras instalações. A única maneira de evitar projetos ambientalmente imprudentes é reconhecer o verdadeiro valor da natureza.

MAXWELL GOMERA


Em novembro de 2017, cientistas que trabalhavam em Sumatra, na Indonésia, fizeram um anúncio emocionante: descobriram uma nova espécie de orangotango, elevando para sete o número de espécies de grandes primatas no mundo.

Mas um ano depois, a única casa dos 800 orangotangos selvagens de Tapanuli está sendo liberada para uma usina hidrelétrica de US $ 1,6 bilhão. Embora o projeto contribua com menos de 1% da capacidade de geração planejada do país, os cientistas dizem que isso levará à extinção dessa espécie rara. Isso levanta, mais uma vez, uma questão fundamental: o que vale a natureza?

A Indonésia não está sozinha em fazer concessões prejudiciais ao meio ambiente. O século XXI será um período de expansão de infra-estrutura sem precedentes, e serão gastos impressionantes US $ 90 trilhões nos próximos 15 anos para construir ou substituir barragens, usinas de energia e outras instalações. Na verdade, mais infra-estrutura será construída na próxima década e meia do que existe atualmente. Naturalmente, os habitats serão interrompidos no processo.

E, no entanto, o crescimento ambientalmente imprudente não é predeterminado; é possível fazer escolhas inteligentes e sustentáveis. Para isso, precisamos reconhecer o verdadeiro valor da natureza e fazer das análises de ética ambiental e custo-benefício parte de cada projeto.

No momento, isso não está acontecendo; a maior parte da infraestrutura é planejada e construída com base em avaliações de mercado que não levam em conta a natureza. Como resultado, o mundo está enfrentando uma crise crescente: o enfraquecimento dos serviços ecossistêmicos - como água limpa, defesa contra enchentes e polinização das abelhas - que protegem a biodiversidade e formam a base da qual depende o bem-estar humano.

Para mudar o status quo, devemos fazer uma escolha ética para não expor os habitats críticos e o “capital natural” a um perigo maior - independentemente dos possíveis retornos econômicos. Assim como a maioria do mundo rejeitou o uso de trabalho escravo ou infantil, a destruição permanente da natureza deve ser repudiada.

Alguns economistas reconheceram isso construindo custos ambientais em seus argumentos; a floresta amazônica é um exemplo disso. Lá, o desmatamento reduziu a produção de nuvens de vapor que são essenciais para o transporte de chuva na América do Sul. Acredita-se que a seca que sediou São Paulo entre 2014 e 2017 foi causada, pelo menos em parte, pela ausência desses “rios voadores”. Como observou o cientista climático brasileiro Antonio Nobre, se essas bombas de água estão permanentemente ligadas off, uma área que representa 70% do produto nacional bruto da América do Sul seria transformada em deserto.

É claro que identificar capital natural crítico é um desafio, especialmente em escalas menores. Embora muitos possam concordar com a importância de proteger a Amazônia, é mais difícil demonstrar o valor da preservação de orangotangos na Indonésia. Mas, com o tempo, a perda do habitat do orangotango Tapanuli mudaria profundamente a composição da floresta tropical e prejudicaria seus serviços ecológicos. Ao mesmo tempo, a eliminação de uma espécie de grande macaco - nossos parentes mais próximos - apagaria uma oportunidade de entender melhor nossa própria evolução e genética.

No mundo desenvolvido, alguns governos e empresas estão fazendo a escolha ética aplicando o “princípio da precaução” ao crescimento. Adotado em 1992 como parte da Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, o princípio consubstancia a conclusão de que é mais sábio - e, em última instância, mais barato - evitar a degradação ambiental em primeiro lugar.

O verdadeiro desafio é incutir esse espírito nas economias em desenvolvimento, onde a maior parte dos gastos futuros com infraestrutura ocorrerá. Considere o desenvolvimento de rodovias. Até 2050, haverá 15,5 milhões de milhas de novas estradas pavimentadas, o suficiente para circundar a Terra mais de 600 vezes. Mais de 90% deste pavimento fresco será colocado em países em desenvolvimento, que já enfrentam uma enorme pressão ambiental. Na região amazônica, por exemplo, existem quase 53.000 arrendamentos de mineração, abrangendo 21% da massa terrestre da bacia. Na Guiné, uma represa apoiada pelo Banco Mundial está ameaçando um importante santuário de chimpanzés. E na Tanzânia, o governo aprovou uma represa e usina hidrelétrica na Reserva de Caça Selous, um Patrimônio Mundial da UNESCO.

Com as necessidades humanas aumentando à medida que as populações e as rendas crescem, há razões legítimas para construir mais infra-estrutura. Mas, se as tendências atuais continuarem, os interesses de curto prazo eliminarão os ativos naturais dos quais toda a vida depende. Para planejar um desenvolvimento inteligente, governos e empresas devem reconhecer o papel da natureza no apoio à atividade econômica e na garantia da saúde humana e ecológica. Afinal de contas, nós não - e não podemos - viver em um mundo onde a natureza não tem valor.




Maxwell Gomera, um membro do Aspen New Voices de 2018, é diretor da Divisão de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.

Cresce a presença de mulheres chefes de família entre os idosos no Brasil

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

O Brasil passou por uma mudança significativa na relação de poder no seio das famílias nos primeiros 15 anos do século XXI. Enquanto o total de famílias brasileiras aumentou 39% em 15 anos, passando de 51,5 milhões em 2001 para 71,3 milhões em 2015, as famílias chefiadas por mulheres dobrou em termos absolutos, subindo de 14,1 milhões em 2001 para 28,9 milhões em 2015, um aumento relativo de 105%. Em termos percentuais, as famílias chefiadas por homens diminuiu de 72,6% em 2001 para 59.5% em 2015, enquanto o percentual de famílias chefiadas por mulheres subiu de 27,4% para 40,5%, no mesmo período.
Mas este aumento não foi uniforme entre os diversos grupos etários. A distribuição por idade das mulheres chefes de família tem a forma de um “U”, ou seja, as percentagens são mais altas nos extremos das idades e mais baixas no meio, como pode ser observado no gráfico abaixo. Em 2001, este formato era mais acentuado e a percentagem de chefias femininas era mais elevada entre as adolescentes e as idosas. Em 2015, houve um aumento nos grupos etários intermediários, diminuindo bastante a envergadura da forma em “U”.
No grupo etário de 15 a 19 anos o percentual de mulheres chefiando as famílias era de 55,6% em 2001 e passou para 57,6% em 2015. Isto acontece porque muitas dessas mulheres são adolescentes com filhos que não possuem cônjuge e moram com os pais, fruto das altas taxas de fecundidade na adolescência, que apesar da diminuição na última década, apresenta um nível elevado e incompatível com a baixa taxa de fecundidade total. Nos grupos etários entre 25 e 59 anos a percentagem fica abaixo de 40%.

distribuição relativa das famílias chefiadas por mulheres

Entre as idosas (60 anos e mais), ao longo do curso de vida, o percentual de mulheres chefes de família volta a ficar acima da média para o conjunto das idades. Isto ocorre porque cresce novamente o percentual de famílias monoparentais femininas em decorrência de separações ou viuvez e o percentual de mulheres vivendo sozinhas. O fato é que, depois de adultas, a chefia feminina cresce com a idade e, entre os idosos brasileiros, há quase paridade (50%/50%) entre as chefias entre homens e mulheres.
A tabela abaixo mostra que o percentual de mulheres chefes de família na população como um todo, em 2001, era de 27,4% e entre a população idosa era de 37,8%. Em 2015, estes percentuais subiram para 40,5% e 45,5%. Devido ao processo de envelhecimento populacional, o percentual de chefias idosas aumentou entre 2001 e 2015, com os homens idosos chefes passando de 16,9% para 24,2% e as mulheres chefes idosas passando de 27,2% para 29,6%.

distribuição absoluta e relativa de chefes de família entre idosos

Em 2001, havia 6,3 milhões de homens idosos chefes de família, número que passou para 10,3 milhões em 2015, um aumento de 62,7% em 15 anos. Já as chefias femininas entre os idosos passou de 3,8 milhões em 2001 para 8,6 milhões em 2015, um aumento de 123,6%.
O perfil dos chefes de família, por sexo, foi descrito no livro “Mulheres Chefes de Família no Brasil: Avanços e Desafios”, dos autores Suzana Cavenaghi e José Eustáquio Alves e publicado pela Escola Nacional de Seguros, no Dia Internacional da Mulher, 08 de março de 2018. O estudo (que pode ser acesso livremente), indicou que o grande crescimento da chefia feminina entre 2001 e 2015 não se deve apenas aos fatores clássicos de empoderamento feminino – como a educação e o emprego – mas também aos indicadores de maior envolvimento com as responsabilidades domésticas.
Indubitavelmente, o Brasil passa por um reordenamento da estrutura de poder no seio das famílias. Quer seja por oportunidades, fatalidades ou conveniências diversas, há uma tendência para uma maior equidade entre homens e mulheres nos arranjos familiares no país. E o interessante é que a maior equidade de gênero ocorre com mais força entre a população idosa.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Referência:
CAVENAGHI, S., ALVES, JED. Mulheres Chefes de Família no Brasil: Avanços e Desafios, Rio de Janeiro, ENS-CPES, 2018. http://www.funenseg.org.br/arquivos/mulheres-chefes-de-familia-no-brasil-estudo-sobre-seguro-edicao-32_1.pdf


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 28/12/2018

Dessalinizar os cérebros



Artigo de Roberto Malvezzi (Gogó)

A técnica de dessalinização em pequenas unidades está espalhada pelo Semiárido Brasileiro. Marina Silva, quando ministra do Meio Ambiente do governo Lula, criou o programa “Água Doce”, exatamente utilizando essa técnica.
A dessalinização é complicada porque gera de 40% a 60% de rejeitos altamente salinizados que é de difícil descarte. Uma das possibilidades utilizadas pelos técnicos brasileiros foi o reaproveitamento como alimento de plantas e animais. Em muitos lugares a técnica funciona.
O que mudou o Semiárido Brasileiro nos últimos anos foi a captação da água de chuva em cisternas para beber e produzir. O Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC) e Uma Terra e Duas Águas (P1+2) replicaram mais de 1 milhão de vezes tecnologias apropriadas para essa finalidade, principalmente as cisternas de placas. Basta fazer um gráfico da implantação dessas políticas públicas, comparando-as com a elevação do IDH da região que a tendência de alta coincide com exatidão. Claro, junto vieram as políticas de energia, telefonia, internet, outras adutoras, elevação do salário mínimo, Minha Casa Minha Vida e o Bolsa Família. Aqui reside a política que nenhum governo anterior jamais fez.
O presidente eleito desse país diz que vai trazer a técnica de dessalinização em um programa conjunto com Israel. Os técnicos e cientistas da Embrapa Semiárido e universidades nordestinas há décadas fazem intercâmbio com Israel. Portanto, não é novidade.
Além do mais, o Semiárido Brasileiro tem 1 milhão de Km2, enquanto Israel tem pouco mais de 20 mil km2, portanto, cabem 50 Israel dentro de nosso Semiárido. Para completar, nosso Semiárido é o mais chuvoso do planeta com uma precipitação anual em torno de 700 mm, enquanto Israel mal chega a 100 mm anualmente. Por isso, nas últimas décadas foi desenvolvido o paradigma da “Convivência com o Semiárido”, inspirado em Celso Furtado no seu discurso inaugural da Sudene em 1959, mas tirado do papel e ganhado carne com iniciativas da sociedade civil.
Junto com a captação da água de chuva a sociedade civil nordestina defendeu a distribuição da água acumulada por adutoras simples. Prevaleceu a grande obra da Transposição, que tem problema sérios de operacionalização, impacto no rio São Francisco, mas que aumentou a oferta de água na Paraíba.
Há décadas sabemos que a seca é um fenômeno natural, assim como o gelo nas regiões frias. Não se combate a seca, mas se convive com o ambiente que é semiárido. Só os ultrapassados em conhecimento e em história ainda falam em combater a seca.
O Brasil já tem o conhecimento e as técnicas para resolver todos os problemas do Semiárido. Bastaria continuar implantando os programas de Convivência com o Semiárido e, se necessário, criar outros. Portanto, é uma questão política. Mas, parece ser mais fácil dessalinizar toda água do mar que certos cérebros que estão no comando desse país.

Roberto Malvezzi (Gogó)*, Articulista do Portal EcoDebate, possui formação em Filosofia, Teologia e Estudos Sociais. Atua na Equipe CPP/CPT do São Francisco. Membro da Equipe de Assessoria da REPAM (Rede Eclesial Pan Amazônica)


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 28/12/2018

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Economia do Brasil pode crescer 2% em 2019, revela relatório regional

Média da expansão na América Latina e o Caribe será de 1,7%; Cepal prevê maior crescimento entre os países para ilha de Dominica, com 9%; projeções para Venezuela, Nicarágua e Argentina apontam para contração no próximo ano.

A Comissão Econômica da América Latina e do Caribe, Cepal, projeta um crescimento de 2% na economia do Brasil. Na outra grande economia da região, o México, a expectativa é de 2,1% de expansão.
O Balanço Preliminar das Economias da América Latina e do Caribe, lançado recentemente em Santiago, Chile, projeta uma dinâmica de crescimento com intensidades distintas entre países e sub-regiões.

Consumo e investimento

Essa situação se deve aos impactos diferenciados do contexto internacional em cada economia e à dinâmica dos componentes dos gastos, principalmente o consumo e o investimento que seguem padrões distintos entre as economias do norte e as do sul.
Em nível sub-regional, a América Central deve crescer 3,3% em 2019. A América do Sul, 1,4% e o Caribe, 2,1%.  
A maior expansão entre os países seria na ilha de Dominica, com 9%. A seguir estariam a República Dominicana com 5,7%, o Panamá com 5,6%, a Antígua e Barbuda com 4,7% e a Guiana com 4,6%.
A expectativa é de que a economia da Venezuela registre uma contração de 10%, a Nicarágua de 2% e a Argentina de 1,8%.

Crescimento

A comissão da ONU revela que no ano de 2019 as incertezas econômicas mundiais serão maiores e provenientes de diferentes áreas. O impacto será sentido na expansão da economia da América Latina e do Caribe que, em média, deve crescer 1,7%. A previsão inicial de crescimento em 2019 anunciada em outubro passado era de 1,8%.
A secretária-executiva da Cepal, Alicia Bárcena, disse que é preciso contar com políticas públicas para reforçar as fontes de crescimento e fazer frente ao panorama de incerteza em nível global.
Para a chefe da Cepal é necessário fortalecer o papel ativo da política fiscal da região em relação às receitas e aos gastos. A recomendação é reduzir a economia ilegal, a evasão fiscal e os fluxos financeiros ilícitos. Ao mesmo tempo “é preciso fortalecer os impostos diretos e os impostos do tipo verdes.”
Segundo o estudo, a região da América Latina e do Caribe enfrentará um cenário econômico mundial complexo nos próximos anos com a previsão de uma redução da dinâmica do crescimento, tanto dos países desenvolvidos como das economias emergentes.
Foto: Meridith Kohut/Irin/ Expectativa é de que a economia da Venezuela registre uma contração de 10%
Mercados
Essa situação deve ser acompanhada pelo aumento na fragilidade dos mercados financeiros internacionais, pelo enfraquecimento estrutural do comércio internacional e pelas tensões comerciais entre os Estados Unidos e a China.
O maior risco em termos do desempenho na economia em nível regional para 2019 é a piora repentina das condições financeiras para as economias emergentes.
Em 2018, mercados emergentes como a América Latina foram marcados pela redução nos fluxos de financiamento externo por causa do aumento de risco soberano e da perda de valor das moedas em relação ao dólar.
Segundo a Cepal não podem ser descartados novos episódios de piora nas condições financeiras futuras.  Também não podem ser desconsiderados os efeitos sobre os países que dependerão da exposição destes em termos de suas necessidades e perfis de financiamento externo.
*Com reportagem da ONU Brasil