"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Presidente da Codern revela passivo de cerca de R$ 300 milhões na empresa



Marcado por notícias de apreensões de toneladas de drogas e ameaças de privatização desde o começo do ano, o Porto de Natal passa por mudanças significativas que visam a dar um “choque de gestão” na Companhia Docas do Rio Grande do Norte (Codern), empresa que administra o porto potiguar. Segundo o diretor-presidente da companhia, o almirante Elis Treidler Öberg, o principal objetivo dessa modernização é sanear as contas da empresa, que hoje tem um passivo que gira em torno de R$ 300 milhões.

Ao revelar o número, o almirante disse não querer analisar “decisões e dificuldades” das diretorias passadas, mas ressaltou que hoje a situação da Codern é de um fluxo de caixa negativo. “Há um passivo expressivo que beira R$ 250 milhões a R$ 300 milhões a ser saldado, então isso tudo implica numa melhoria profunda, num choque de gestão na parte de administração e finanças da empresa”, disse o almirante Elis Treidler Ober em entrevista ao Hora Extra da Notícia (91.9 FM) desta terça-feira (21).

Treidler Ober assumiu a presidência da Codern em 22 de fevereiro desse ano. A estimativa dada por ele é que em meados de novembro próximo a empresa consiga atingir o equilíbrio financeiro para começar a investir em ações consideradas necessárias para o porto de Natal.

SCANNER

A respeito do scanner que estaria “encaixotado” no Porto de Natal, conforme revelou o secretário de Agricultura e Pecuária do RN, Guilherme Saldanha, também em entrevista ao Hora Extra da Notícia, o presidente esclarece que o equipamento é “obsoleto”, precisa de reparos e não atende à necessidade de verificação de cargas para a identificação de drogas.

O equipamento, segundo o presidente, não é compatível com uma resolução de 2014, da Receita Federal, que estabelece as especificações que um scanner portuário deve ter.

Apesar disso, o diretor-presidente solicitou à Receita Federal o reparo do scanner para usá-lo no Porto de Natal “como um instrumento de ensino”, para definir com antecedência os procedimentos que serão usados quando a Codern adquirir o scanner definitivo.

“No que tange ao scanner definitivo, é uma aquisição cara, gira em torno de R$ 11 milhões e o que nós estamos fazendo é buscando parcerias com os atores envolvidos nas exportações de cargas, os fruticultores, operadores portuários, os armadores, no sentido de se obter uma parceria que possibilite a obtenção desse scanner adequado para o porto”, pontua o diretor-presidente.

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Diego Campelo
Produtor do Hora Extra da Notícia (91.9 FM)

A Organização de Cooperação de Shangai (OCS) versus o grupo BRICS

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves


Organização de Cooperação de Shangai (OCS)
A guerra comercial entre os Estados Unidos e a China ameaça descambar em uma guerra tecnologia mais ampla e as recentes restrições contra a gigante Huawei mostram que a economia mundial vai ser afetada por este novo tipo de protecionismo. Com certeza este vai ser um tema da 14ª reunião de cúpula do G20, que ocorrerá entre os dias 28 e 29 de junho de 2019, na cidade de Osaka, no Japão. Será uma oportunidade para um encontro pessoal entre Donald Trump e Xi Jinping. Haverá outros encontros paralelos e uma oportunidade para avaliar o peso dos grupos BRICS e OCS.
O grupo BRICS – formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – tem merecido muita atenção como uma forma de articulação de países do “Sul global”, em contrapondo à hegemonia do “Norte global”. Porém, existe uma outra articulação, menos conhecida no Ocidente, que tende a assumir o protagonismo internacional e unificar grande parte da Eurásia, que é a Organização de Cooperação de Shangai (OCS) – formada atualmente por China, Rússia, Índia, Paquistão, Cazaquistão, Quirquistão, Tajiquistão e Uzbequistão.
A ideia do grupo BRIC foi proposta, em 2001, pelo economista Jim O’ Neill, do banco de investimento Goldman Sachs, com o objetivo de orientar as empresas e os investidores mundiais como investir nos grandes países “emergentes” do mundo: Brasil, Rússia, Índia, China. Estes quatro países estão entre aqueles da comunidade internacional com maior território ou maior população. O termo ganhou gosto da mídia, especialmente no período do superciclo das commodities, que possibilitou um crescimento extremamente rápido da economia dos países “emergentes” em relação aos países “avançados”. Mas na ideia original não havia nenhum país da África, o que era geograficamente incorreto. Então foi incluída a África do Sul (South África) e o termo BRIC ganhou uma letra a mais, se transformando em BRICS (que seriam os “tijolos” da nova economia global). Mas como já mostrei em outro artigo (ALVES, 25/07/2018), Brasil e África do Sul são países coadjuvantes e o subgrupo RIC (Rússia, Índia e China) é protagonista.
Os países do RIC também fazem parte da Organização de Cooperação de Shangai (OCS), que é uma aliança política, econômica e de segurança da Eurásia, criada inicialmente por iniciativa de Beijing, agrupando cinco nações originais: China, Rússia, Cazaquistão, Quirquistão, Tajiquistão, o chamado “Shanghai Five Group”, fundado em 26 de abril de 1996. Mas, efetivamente, a OCS foi criada em 15 de junho de 2001 em Shangai, sendo que a Carta da Organização entrou em vigor em 19 de setembro de 2003. Desde então, a organização expandiu seus membros para oito países, sendo que a Índia e o Paquistão se uniram à SCO como membros efetivos em 9 de junho de 2017, em uma cúpula ocorrida em Astana, no Cazaquistão. A OCS é amplamente considerada como a “aliança do Oriente” (ou OTAN do Oriente), devido à sua crescente centralidade na Ásia-Pacífico, e tem sido o principal pilar de segurança da região. É a maior organização regional no mundo na cobertura geográfica e populacional, cobrindo três quintos do continente eurasiano e quase metade da população humana. A SCO é uma das organizações mais poderosas e influentes do mundo e representa uma das alianças militares mais fortes atualmente.
Com a ampliação da organização, seu escopo de cooperação se expandiu para incluir educação, ciência, tecnologia, saúde, proteção ambiental, turismo, mídia, esportes, humanitária e cultura, ao mesmo tempo em que estende seus princípios para incluir governança global e fomentar relações internacionais. A OCS é um dos principais parceiros da ASEAN (Tailândia, Filipinas, Malásia, Singapura, Indonésia, Brunei, Vietnã, Mianmar, Laos, Camboja, Papua-Nova Guiné e Timor-Leste), com ambas as organizações estabelecendo uma cooperação para a paz, estabilidade, desenvolvimento e sustentabilidade do continente asiático, e no campo da segurança, economia, finanças, turismo, cultura e proteção ambiental. São Estados observadores da OCS: Afeganistão, Bielo Rússia, Irã, Mongólia. O Irã já solicitou a sua entrada plena na OCS, mas depende do fim das sanções colocadas pela ONU. A entrada do Irã pode viabilizar a articulação do “quadrante mágico” (RICI), como mostrei em um outro artigo (ALVES, 20/03/2019).
O gráfico abaixo, com dados do FMI (em poder de paridade de compra – ppp) mostra que o conjunto dos 5 países do BRICS tinham uma participação de 17,2% do PIB mundial em 1994, enquanto os 8 países da OCS tinham uma participação de 14,2% na mesma data. Em 2018, a participação do BRICS subiu para 32,7% e da OCS para 31%. Para 2024, a estimativa é do BRICS com 36,8% e a OCS com 35,4% do PIB global. Portanto, o BRICS continua um pouco maior, em termos econômicos, do que a OCS, mas a diferença está se reduzindo e a entrada de novos membros tende a fazer a OCS um grupo cada vez mais forte.
participação do BRICS e da OCS no PIB global

Em termos demográficos, em 1994, o BRICS tinha uma população de 2,46 bilhões de habitantes, enquanto a OCS tinha 2,43 bilhões de pessoas. Em 2018, os dois grupos empataram com 3,14 bilhões de habitantes. Mas, em 2024, a OCS com 3,29 bilhões de habitantes será maior do que o BRICS, com 3,28 bilhões de pessoas. O potencial de crescimento populacional é maior na OCS, especialmente se incorporar países grandes como Irã e Turquia.
população do BRICS e da OCS

Evidentemente, o núcleo duro e dinâmico do BRICS e da OCS são os 3 países da sigla RIC (Rússia, Índia e China), sendo que a China é o país que individualmente tende a assumir a hegemonia mundial e tende a ser o líder global do comércio e da tecnologia. A OCS tende a superar o BRICS em termos econômicos, uma vez que a Ásia é o maior continente em termos territorial, populacional e econômico. A Eurásia é a maior faixa continua de terra do Planeta. O fato é que o grupo RIC – com seus aliados – tende a representar um desafio crescente à hegemonia dos Estados Unidos e do Ocidente. Os países que compõem a Organização de Cooperação de Shangai (OCS) também devem se beneficiar da integração da infraestrutura propiciada pela Iniciativa “Um Cinturão Uma Rota” (BRI).
O 2º Fórum “Belt and Road” (BRF) ocorreu em Beijing, nos dias 25 a 27 de abril de 2019, com a presença de cerca de 5 mil participantes de mais de 150 países e 90 organizações internacionais. Desde que o presidente chinês Xi Jinping propôs a iniciativa em 2013, 126 países e 29 organizações internacionais assinaram documentos de cooperação da BRI com a China, diz o site Xinhua. O presidente russo, Vladimir Putin, parceiro preferencial da iniciativa chinesa, disse: “O objetivo é fornecer uma relação de reforço mútuo com a região da Eurásia”.
No discurso de abertura do BRF, O presidente Xi Jinping disse que a China pretende construir infraestrutura de alta qualidade, sustentável, resistente a riscos, com preço razoável e inclusiva, ajudando os países a utilizar plenamente a riqueza de seus recursos. Ele falou em “crescimento de alta qualidade para todos”. Disse também que a Iniciativa “Um Cinturão Uma Rota” precisa ser ecológica e sustentável. Contudo, os críticos dizem que a China promove uma “diplomacia da dívida” e que os impactos ambientais serão de grande monta.
cinturão uma rota

O fato é que a articulação entre a OCS e a BRI fortalece a centralidade da Eurásia e torna o BRICS um espaço secundário no cenário global. O Brasil, que tem sido um parceiro coadjuvante do BRICS, agora assume um alinhamento prioritário e submisso com os EUA, sem uma estratégia clara de como tratar com a China e a Iniciativa “Um Cinturão Uma Rota”. Acontece que os EUA podem ficar isolados (devido as políticas protecionistas e nacionalistas) diante da integração da Eurásia, onde o grupo RIC, especialmente a China, são protagonistas.
isolamento dos Estados Unidos

A reunião do G20, de 2019, no Japão, deve reforçar a emergência da Ásia e evidenciar o peso dos países orientais na economia internacional. O economista Pedro Luiz Passos, em artigo para a FSP (19/04/2019) disse que na disputa comercial e tecnológica entre EUA e China, o Brasil sequer é coadjuvante. Ele diz: “Nessa briga, o Brasil está entrando num quadro de dependência colonial, dado o atraso em que se encontra”.

José Eustáquio Diniz Alves
Doutor em demografia, link do CV Lattes:

Referências:
ALVES, JED. Brasil e África do Sul são coadjuvantes no grupo B-RIC-S e na nova ordem mundial, Ecodebate, 25/07/2018
ALVES, JED. O “quadrante mágico” (RICI) que desafia os EUA e o Ocidente, Ecodebate, 20/03/2019https://www.ecodebate.com.br/2019/03/20/o-quadrante-magico-rici-que-desafia-os-eua-e-o-ocidente-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/
ALVES, JED. A ascensão da China, a disputa pela Eurásia e a Armadilha de Tucídides. Entrevista especial com José Eustáquio Diniz Alves, IHU, Patricia Fachin, 21 Junho 2018
Revista IHU, nº 528, Ano XVIII
Xinhua. 2nd Belt and Road Forum for International Cooperation, April 2019
IHU. A maior transformação econômica dos últimos 250 anos. China tende a assumir a hegemonia mundial e a liderança do comércio de tecnologia. Entrevista especial com José Eustáquio Alves, por Wagner Fernandes de Azevedo e Patrícia Fachin, 07 Maio 2019

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 22/05/2019

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Scanner para descobrir droga está encaixotado no Porto, diz secretário




A solução para o problema das exportações de drogas pelo Porto de Natal existe e está encaixotada há pelo menos dois anos, segundo revelou nesta terça-feira (14) o secretário de Agricultura e Pecuária (SAPE) do Rio Grande do Norte, Guilherme Saldanha. Conforme o secretário, um scanner vindo do Porto de Suape-PE está guardado na Companhia Docas do Rio Grande do Norte (Codern) há pelo menos dois anos e nunca foi instalado por falta de recursos. O equipamento serve para identificar a droga, mesmo que ela esteja escondida dentro dos contêineres.

“Já tem um scanner no Porto de Natal que veio de Suape, uns dois ou três anos atrás. O que precisa é a gente formar um mutirão, e aí a classe política tem que ajudar muito, a própria Codern, a preocupação da governadora Fátima é essa também, que a gente precisa viabilizar recursos da ordem de 5, 6, 10 milhões de reais, no máximo, para instalar esse scanner”, disse Guilherme Saldanha em entrevista ao Hora Extra da Notícia (91.9 FM) desta terça-feira (14).

Segundo o secretário, embora o equipamento que está guardado não seja dos mais modernos, ele está em plenas condições de atender, inicialmente, à demanda que o Porto de Natal tem atualmente. “Ele não está instalado, está desmontado, encaixotado e guardado. Precisa desencaixotar e instalar”, acrescenta o secretário da SAPE.

Uma nova apreensão de uma tonelada de cocaína foi realizada pela Polícia Federal nesta segunda-feira (13) no Porto de Natal. A droga estava escondida em uma carga de manga e tinha como destino a Holanda.

Só esse ano foram apreendidas mais de 11 toneladas de cocaína, seja diretamente no Porto de Natal ou que tenha passado pelo terminal potiguar e interceptada pela polícia da Holanda.

O secretário Guilherme Saldanha classifica como “uma coisa muito boa” a nova apreensão de drogas desta segunda-feira (13) em Natal, pois significa, segundo ele, que “a questão da segurança que foi planejada pela Codern está funcionando”. No entanto, ele alerta que o que vai causar um transtorno muito maior é se houver uma nova apreensão, na Holanda, de droga enviada pelo Porto de Natal.

Fonte:
Diego Campelo
Produtor do Hora Extra da Notícia (91.9 FM)

terça-feira, 14 de maio de 2019

Bolívia e Venezuela: experiências bolivarianas opostas

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

A Venezuela é a terra natal de Simon Bolívar (1783-1830) e a Bolívia é a nação latino-americana que homenageou o libertador da América Latina dando o seu nome ao país. As duas nações possuem regimes que seguem a linha bolivariana pregada por Hugo Chávez (1954-2013).
Todavia, em termos econômicos, os dois países seguem rumos bem diferentes. No final do século passado, a Venezuela era a nação mais rica da América do Sul e a Bolívia a mais pobre. Mas a partir de 2020 a Venezuela estará mais empobrecida do que a Bolívia e será a nação mais pobre do continente, marcando a maior tragédia econômica que se tem notícia desde a libertação das Américas. Além de tudo, Venezuela e Bolívia perdem, por exemplo, para a expressiva dinâmica do Vietnã.
O gráfico abaixo, com dados do FMI, divulgados em abril de 2019, mostra que a Venezuela tinha, em 1980, uma renda per capita (preços constantes em poder de paridade de compra – ppp) de US$ 18,3 mil, quatro vezes maior do que a renda per capita da Bolívia que era de US$ 4,6 mil. Nesta data, o Vietnã tinha uma renda per capita de somente US$ 1 mil (18 vezes menos do que a Venezuela e 4 vezes menos que a Bolívia)
Entre os dois países da América do Sul, o quadro não tinha mudado muito até 2006, quando Evo Morales assume a presidência da Bolívia, que mantinha uma renda per capita de US$ 4,6 mil e a Venezuela tinha renda de US$ 16,4 mil (3,6 vezes maior). O quadro também não tinha mudado significativamente quando Hugo Chávez morreu, em 2013, pois a Venezuela tinha renda per capita de US$ 17,9 mil e a Bolívia de US$ 5,7 mil (3,1 vezes maior). Durante este período o comunista Vietnã manteve rápido crescimento da renda per capita.

Renda per capita (preços constantes em ppp) da Venezuela, Bolívia e Vietnã: 1908-2024
Renda per capita (preços constantes em ppp) da Venezuela, Bolívia e Vietnã: 1908-2024
Fonte: FMI, WEO, abril/2019 https://www.imf.org/external/datamapper/datasets/WEO


Mas o quadro começou a mudar veloz e significativamente, pois a Venezuela entrou em um período de declínio acelerado após a presidência de Nicolás Maduro, em abril de 2013. A economia da Venezuela apresentou uma situação geral de degradação e descontrole, com a renda per capita caindo pela metade em apenas 5 anos, enquanto a renda da Bolívia continuava crescendo. De tal forma, que em 2020, a renda per capita da Venezuela está prevista para US$ 6,89 mil, abaixo da renda da Bolívia de US$ 6,96 mil e, ambas, abaixo da renda per capita do Vietnã de US$ 7,4 mil. O que estava ruim piorou muito em 2019 na Venezuela, com apagões, fome, emigração em massa, aumento da mortalidade e da pobreza, etc. A estimativa para 2024 é a Venezuela com uma renda de US$ 6,2 mil, cerca de 20% mais baixa do que a renda da Bolívia prevista para US$ 7,6 mil e muito abaixo dos US$ 9,2 mil do Vietnã.
Comparando apenas os dois países latino-americanos, desde 2010, a economia venezuelana só cresceu mais do que a economia boliviana em 2012 e a partir de 2014 o desastre venezuelano foi incomparável. Entre 2010 e 2014 a Bolívia apresentou taxas de crescimento anual do PIB acima de 5% e nos anos seguintes ficou em torno de 4% ao ano. A Venezuela já andava mal das pernas no período da presidência Chávez, mas deu um mergulho para o abismo no período Maduro, sendo que deve apresentar um declínio de 25% em 2019, como mostra o gráfico abaixo (além de uma inflação anual que está na casa de milhões). Não existe exemplo na história de um país, sem estado de guerra, que apresente um declínio tão acentuado quanto no período Maduro.

Taxa de crescimento anual do PIB da Bolívia e da Venezuela: 1980-2024
Taxa de crescimento anual do PIB da Bolívia e da Venezuela: 1980-2024
Fonte: FMI, WEO, abril/2019 https://www.imf.org/external/datamapper/datasets/WEO


O mais incrível é que a Venezuela possui as maiores reservas nacionais registradas de combustíveis fósseis. Contudo, a “maldição do petróleo” tornou a economia da Venezuela altamente dependente de apenas um produto e não conseguiu se diversificar e ampliar a produção para atender a demanda de bens e serviços da população. A incompetência do governo e as políticas equivocadas provocaram o sucateamento da estrutura produtiva, gerando a maior crise social e migratória do país de Simon Bolívar.
A Bolívia também possui grandes reservas de gás e, principalmente, grandes reservas de lítio, que é a matéria prima da industrial de celulares, carros elétricos, etc. Nas 4 décadas entre 1980 e 2020 a renda per capita boliviana subiu apenas 50%, o que é muito pouco quando comparada com a média mundial. O governo Evo Morales, embora compartilhe a mesma ideologia chavista de Maduro, tem apresentado resultados econômicos muito melhores na última década, embora a Bolívia permaneça apresentando elevada taxa de pobreza e um dos piores níveis de renda do continente, agora só igualado e piorado pela Venezuela. A Bolívia é um país pobre que melhora lentamente (o Vietnã, por exemplo, era muito mais pobre que a Bolívia e agora já é muito mais rico). A Venezuela era um país rico que fez um mergulho vertical para a escuridão do fundo do poço.
A jornalista e escritora venezuelana Karina Sainz Borgo, em artigo na Folha de São Paulo (17/04/2019), mostra que o regime chavista prometeu mundos e fundos, mas apenas gerou uma depressão econômica inigualável, restringiu as liberdades democráticas e causou um grande caos socioeconômico. Ela diz: “Algumas semanas atrás entrou em colapso a central hidrelétrica do Guri, que fornece energia aos venezuelanos desde os anos 1970, aqueles anos de riqueza e petróleo do século 20. A falta de investimentos para manter uma represa situada no rio Caroní fez à represa o que o tempo faz com as obras públicas da democracia: a esburacou, a carcomeu, a apodreceu. O país inteiro ficou às escuras. Três dias se passaram, com suas três noites.
Mais de uma centena de doentes morreu nos hospitais. A vida escoou no silêncio das máquinas apagadas. A comida, que já é escassa e custa cinco vezes o valor de um salário médio, estragou. Cada pôr do sol se converteu em um prazo descumprido. Desde então, o fornecimento de eletricidade é intermitente e escasso. Uma noite histórica tomou conta de um país que em certa época teve tudo”.
Reportagem do jornal El País (16/04/2019) mostra que a Venezuela sofre o maior aumento de casos de malária do mundo, sendo que os especialistas estimam que a doença já está afetando um milhão de venezuelanos pelas condições ruins do sistema de saúde e a falta de controle sobre os mosquitos. Com a emigração em massa a malária se espalha por outros países, agravando a situação de saúde especialmente na América Latina.
Simon Bolívar – que era grande admirador das ideias e dos ideais de Alexander von Humboldt (1769-1859) – não imaginaria que o país onde nasceu e o país que leva seu nome estariam entre os dois mais pobres do continente. Especialmente, não suportaria saber que o regime bolivariano, inspirado em seu nome, tornaria a Venezuela um exemplo de fracasso, corrupção, desmando, autoritarismo e palco de um sofrimento inimaginável da maior parte de sua população.

Renda per capita (preços constantes em ppp) da Bolívia e da Venezuela: 1908-2024
Renda per capita (preços constantes em ppp) da Bolívia e da Venezuela: 1908-2024
Fonte: FMI, WEO, abril/2019 https://www.imf.org/external/datamapper/datasets/WEO


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 13/05/2019

segunda-feira, 13 de maio de 2019

A guerra comercial entre os Estados Unidos e a China está prestes a desencadear uma perfeita tempestade de tarifas

La guerra comercial entre Estados Unidos y China está a punto de desatar una tormenta perfecta de aranceles

Victoria Fuentes in Motor Pasión
guerra comercial entre os Estados Unidos e a China já é um pesadeloQuando parece que as negociações podem facilitar a escalada das tarifas, Donald Trump chega e usa sua conta no Twitter como uma arma para repetir que a China é um jogador desleal que quebrou um acordo com os Estados Unidos.
Na verdade, Trump iniciou o processo na sexta-feira para aumentar as tarifas sobre produtos importados da China, incluindo metais, avaliados em 200 bilhões de dólares de 10% para 25%, e deu um ultimato a Pequim: ou aceita seus termos ou aplicará tarifas a todas as suas exportações para a América do Norte.

A China respondeu rapidamente ao ataque assegurando que retaliaria, sem especificar como. Esse colapso nas negociações ocorreu na sexta-feira, quando o principal representante comercial da China, Xi Jinping, e seus colegas norte-americanos em Washington deixaram as negociações sem um acordo.

Quem paga a guerra entre as duas maiores economias do mundo?

ee.uu
Trump, por outro lado, depois de estacar seu principal parceiro comercial, disse que as conversas continuarão no futuro e que essas tarifas podem ou não ser eliminadas, dependendo do resultado das negociações e na tentativa de acalmar os mercados.
A China, que propôs revisões significativas a um esboço de acordo com os Estados Unidos na semana passada, respondeu que não perderá sua soberania nem aceitará um acordo que prejudique seus interesses.
Enquanto isso, a Europa espera que Trump decida sobre um aumento nas tarifas dos carros europeusSe o aumento se tornar efetivo, poderá afetar cerca de 47 bilhões de euros em exportações e componentes, segundo a Automotive News.
Trump
Em retaliação, O bloco dos 28 está preparando tarifas para um total de 20 bilhões de euros para produtos norte-americanos.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) alertou no mês passado que esta guerra poderia afetar seriamente o setor manufatureiro na China e nos Estados Unidos e causar perdas de emprego. Mas isso não afetará apenas os países envolvidos.
Uma desaceleração econômica das duas grandes potências afetará a economia global, porque essa política protecionista afeta diretamente a cadeia de valor, como ocorre no setor automotivo.
Segundo dados da Comissão de Comércio Internacional dos Estados Unidos, os componentes dos automóveis são colocados no décimo lugar da lista de produtos chineses que enfrentam as maiores tarifas, com um valor de 2.300 milhões de dólares. Em primeiro lugar estão os equipamentos de telecomunicações.
Diante dessa escalada de tarifas alfandegárias, é necessário perguntar se o consumidor enfrenta um aumento direto nos preços dos bens de consumo ou se são as empresas que o absorverão, embora Trump assegure que é a China quem paga a guerra.
Especialistas acreditam que haverá um aumento gradual nos preços que o consumidor pagará . No caso improvável de as empresas absorverem as tarifas, isso afetará o consumidor igualmente através de um aumento do desemprego ou de salários mais baixos.
E é que gigantes como a Apple tem a maioria de suas linhas de montagem na China, como com Tesla, que fabrica aqui um dos componentes mais importantes de seus carros : a unidade de controle de piloto automático 3.0. Mas a General Motors, Nissan, Fiat Chrysler, BMW ... muitos fabricantes utilizam componentes importados da China, o maior mercado automotivo do mundo.

Estes são os problemas que a Argentina tem para superar sua crise

Estos son los problemas que tiene Argentina para superar su crisis
por Raúl Jaime Maestre in El Blog Salmón

A Argentina está passando por uma das suas piores crises econômicas: uma alta taxa de inflação e o Banco Central da Argentina não está encontrando a fórmula mágica para estabelecer uma política monetária adequada.
A inflação está acima dos 50% e está sendo alimentada por uma acentuada depreciação do peso argentino em 2018, a inflação está afetando fortemente a atividade econômica e está impulsionando a pobreza na Argentina.
O presidente Mauricio Macri é menos popular entre os eleitores, o que tem plantado dúvidas sobre sua reeleição nas eleições de outubro. Mas o presidente Macri  o líder melhor visto pelos mercados financeiros, e as dúvidas de reeleição estão causando incerteza financeira no país.
Podemos nos perguntar: que problemas a Argentina tem para superar sua crise econômica?

Como a Argentina chegou à situação atual?

A Argentina tem muitos incidentes com a inflação, já que nas últimas décadas (75 anos) a inflação acumulada foi de 119 trilhões por cento.
As continuadas crises financeiras, cambiais e transferências de pagamentos ao longo das décadas fizeram a Argentina perder a confiança do peso e buscar outras moedas refúgio para as suas poupanças, e o dólar americano é a moeda preferida.
Portanto, a economia tornou-se biomonetária na Argentina, e o que afeta o dólar americano está sendo sentido nos preços pagos pelas famílias argentinas. Depois que Macri assumiu seu mandato, ele pressionou por uma redução nos gastos públicos para tentar reverter o grande déficit fiscal da Argentina.
Mas a redução dos subsídios aos serviços públicos, parte do plano de redução, impulsionou os preços desses serviços e aumentou a inflação, ao mesmo tempo em que afetou o consumo reduzindo o poder de compra.

Macri foi ao FMI para financiar a Argentina

A atividade econômica na Argentina, que vem reduzindo o consumo interno, sofreu ainda mais com a elevação da taxa de juros do Banco Central Argentino para conter os preços, com financiamento mais caro para empresas e pessoas físicas.
Isto tem causado mais desconfiança dos mercados no programa financeiro do governo argentino e levou a saídas de capital, bem como a queda do peso em 50,5% no ano passado e 15% durante 2019.
Dada a recusa a emprestar dinheiro a Argentina entidades privadas e da alta volatilidade experimentada pelo peso argentino, Macri tem procurado para dar credibilidade aos mercados por recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI), que concedeu uma linha de crédito de 56.3 bilhões de dólares americanos.
A desconfiança do mercado na Argentina continua apesar do financiamento do FMI. Nas tentativas recentes de conter o dólar e a inflação, o Banco Central argentino fará mudanças que lhe permitirão intervir mais nos mercados cambiais, deixando a política de livre circulação entre as bandas. As intervenções poderiam funcionar a curto prazo, mas não é tão certo que o façam a médio e longo prazo.

Quais são as causas que a Argentina não consegue reerguer sua economia?

Para gerar mais confiança nos mercados, foram feitos esforços para limpar as contas públicas, mas o ajuste feito na economia argentina prolongou a recessão e, ao mesmo tempo, afetou consideravelmente a arrecadação de impostos.
Com a recessão econômica e a pobreza de 32% da população, a popularidade do presidente Macri despencou e Kirchner, que teme os mercados financeiros, é hoje a principal candidata em intenção de voto.
Por medo de um retorno de Kirchner, muitos investidores estão deixando o país, o que está dificultando a recuperação e subtraindo a credibilidade de Macri para vencer a eleição em outubro próximo.
As tímidas tentativas do presidente Macri de regular alguns preços básicos geraram mais desconfiança nos mercados financeiros, o que está afastando mais capital de investimento. Embora o Banco Central da Argentina tenhaatingido os objetivos e tenha ampliado o compromisso com o crescimento 0 no dinheiro que circula até o final de 2019, a melhora na economia não vem.
Em 2019, a taxa de inflação foi de 11,8% , acumulando 54,7% no último ano.

O que se espera da economia argentina?

Espera-se que a volatilidade financeira continue pelo menos até as eleições de outubro, embora haja dúvidas sobre o futuro da economia na Argentina. Cenários podem variar dependendo de quem é o presidente.
Nos mandatos de Kirchner, entre 2007 e 2015, aplicou controles de preços, à taxa de câmbio, ao comércio exterior e desapropriaram a petroleira YPS da Repsol, entre outras medidas. É por isso que os mercados financeiros não querem que eu retorne à presidência.
Outros candidatos, como Roberto Lavagna e Sergio Massa, são mais aceitos pelos mercados financeiros do que Kirchner, mas sua popularidade não é tão alta entre os eleitores argentinos. Espera-se que o próximo governo argentino tenha que renegociar a linha de crédito com o FMI para estabelecer prazos de pagamento.
O país também enfrenta vencimentos de dívida com os credores privados cerca de 20.000 milhões de dólares americanos nos próximos anos e, incapaz de ser financiado pelos mercados financeiros, a situação é preocupante.
A Argentina não terá anulação de pagamentos, o aumento no seguro contra uma falência reflete dúvidas sobre a capacidade da Argentina de cumprir os vencimentos da dívida privada. A situação de falência já era vista pela Argentina em 2002.
Além disso, o peso argentino poderia cair para os 52 centavos por dólar dos 45 que tem agora, e a inflação estará em torno de 40,5% até o final do ano.