"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Câmara Cascudo pela autoestima do Brasil

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Temos errado imensamente quando se trata de intelectualizar nossa nação, refiro-me ao período que compreende os últimos trinta anos. A escrita intelectual envenenada pela crítica simplista nos rendeu um discurso-dialético conduzido ao senso comum do deboche raso e generalizado sobre  a imagem de Brasil. Não fora o início da baixa-estima, quem não viu falar no complexo de vira-latas, imortalizado por Nelson Rodrigues em sua coluna de jornal às vésperas da Copa do Mundo de 1958?, por sinal seria a primeira a ganharmos. O complexo de vira-latas é maior e mais significativo  do que se imagina. No Brasil, tão arraigado na crítica marxista, redundando no simplismo da história como uma mera coexistência entre opressores e oprimidos, sem cultura, saber, artes ou literatura, sentir-se o pior dos países no concerto das nações torna-se o cerne do discurso de qualquer orador de botequim ou de faculdade. Somos incapazes, nada presta, não sabemos fazer nada e os políticos são ruins e ladrões, como se qualquer nação necessitasse de políticos...

“Uma nação que habitualmente pense mal de si mesma acabará por merecer o conceito de si que anteformou. Envenena-se mentalmente.” (Fernando Pessoa)


Sumiram-nos os poetas nacionalmente reconhecidos, não se tem um literato nacional, as crônicas de jornal, patrimônio nosso desde Machado de Assis, murcharam, a música brasileira vive seu momento “se a evolução for certa perderemos nossos ouvidos”. Quanto crescemos nos tempos de Manuel Bandeira, Gilberto Freyre, e Villa-Lobos. Depois veio Drummond, Guimarães Rosa e Pixinguinha.

Mas quero mesmo é falar da obra que foi a minha grande descoberta nos finais da graduação em Direito, ao que já tive a oportunidade de falar num artigo intitulado “O encontro com a obra de Luís da Câmara Cascudo”. Câmara Cascudo era tão brasileiro que seu primeiro livro chama-se Alma Patrícia. Crítica literária em torno de autores da terra natal, o Rio Grande do Norte. Diferentes de nossas pesquisas e Trabalhos de conclusão de curso, com títulos enormes, distante da rua em que se vive e repleto de citações, o modelo de pesquisa cascudiano é o entorno, agregado da erudição clássica.

Existem no Rio Grande do Norte dois castelos construídos por particulares: o Castelo Di Bivar em Carnaúba dos Dantas, e o Castelo Zé dos Montes no município de Sítio Novo. Ambas construções datam de fins do Século XX. Nunca houve castelos no Rio Grande do Norte, como foram na Europa Medieval, unidades de poder e de proteção feudal. Esses construtores de castelos nos sertões do Nordeste apenas deram forma ao imaginário sertanejo, repleto de castelos e princesas e príncipes encantados. A presença do Castelo na cultura medieval europeia transpôs-se para os sertões do Nordeste. Testemunhamos a estória de que a Gruta da Caridade, uma caverna localizada na Zona Rural de Caicó/RN se desencantada fosse tronar-se-ia num Castelo.

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Castelo Di Bivar em Carnaúba dos Dantas/RN
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Castelo Zé dos Montes em Sítio Novo/RN

Interior do Gruta da Caridade em Caicó/RN


Câmara Cascudo descreveu em abundância essa presença simbiótica do milenar no contemporâneo. Das histórias da Cavalaria andante nas estórias dos sertões. Do céu sertanejo concebido nos moldes de Dante Alighieri numa população desprovida da leitura. Narrativas de amores heroicos como a da Princesa Magalona para fazer inspirar e as facécias de Malasartes para alegrar as noites enluaradas do sertão. Um escritor em abundância, desprovido da intenção de justificar concepções de mundos irreais previamente grudadas nos interesses do ser e que se utilizam da argumentação apenas para a autojustificativa. Como muitos acadêmicos, primeiro serviçais de alguma militância, depois se utilizando de toda a sua capacidade intelectual para encontrar justificativas para sua crença e para poder ser um dos governantes da humanidade.

A pesquisa cascudiana ficou ao serviço do Brasil, pela sua autoestima. Não havia intenções de caluniar a nação para finalidades de tiranizá-la. Doou a vida para registrar o imaginário do povo, concluiu uma obra imortal que sempre que se quiser, um estudante ou alguém do século XXII, saber qual a origem do homem brasileiro enquanto indivíduo dotado de cultura e não como uma estatística de governo, poder-se-á folhear as páginas de seus belíssimos volumes e terá, então, o leitor de todas as épocas por vir, um retrato fiel e desinteressado do homem real que construiu essa magnífica nação, tão caluniada, que fala a língua de Camões e conserva na memória os costumes de todos os povos.

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

A corporação Castrista do mal na América Latina

Na Venezuela e na Nicarágua, Cuba tem sob sua supervisão direta os mais altos níveis das Forças Armadas e das forças policiais

El cambio en Argentina supondrá previsiblemente un cambio en las relaciones continentales. En la imagen, Rafael Correa, Evo Morales, Néstor Kirchner, Cristina Fernández, Lula Da Silva, Nicanor Duarte y Hugo Chávez firman el acuerdo para la fundación de Banco del Sur. (CC)
Rafael Correa, Evo Morales, Néstor Kirchner, Cristina Fernández, Lula Da Silva, Nicanor Duarte e Hugo Chávez têm sido filiais do Governo de Habana segundo o autor. (CC)

A principal corporação do mal na América Latina tem uma história superior a 60 anos. Durante esse período, outras corporações ferozes apareceram em diferentes países, como a rede que, na época, constituía as ditaduras do Cone Sul e sua fracassada Operação Condor, mas não lograram permanecer no poder por tempo tão prolongado como o castrismo em Cuba.


Em 1º de janeiro de 1959, não apenas marca o início da criação da maior prisão que nosso continente teve, quase 110.000 quilômetros quadrados, onde cerca de 11,8 milhões de presos políticos sobrevivem, trancados e sujeitos a um sistema de vigilância opressivo; mas também uma era marcada pelos constantes esforços do castrismo para tirar proveito da riqueza, das economias e da fragilidade político-social do resto dos países do continente.

No início deste ano, quando o castrismo celebrou suas seis décadas no poder, os balanços publicados deixaram claro qual era a principal estratégia da corporação: criar mecanismos para coletar lealdades políticas e dólares com base na mentira mais falsa e engordada que foi criada e propagada ao longo do século XX, que em Cuba estava ocorrendo uma revolução, gestora de um novo homem, que se libertaria para sempre da dominação imperialista.

Essa ficção grotesca - reinventada, inventada, disfarçada de defesa dos direitos humanos ou do direito dos povos à sua autonomia - teve extraordinária eficácia e utilidade. Tem servido para que políticos, centros acadêmicos, intelectuais e ONGs criem uma servidão castrista. Foi o mecanismo que fundou e disseminou os movimentos de guerrilha na América Latina; foi o mecanismo para que, durante todos esses anos, "o problema de Cuba" dividisse os países das mais diversas formas. O castrismo, isso deve ser reconhecido, conseguiu ser o cerne do debate político no continente e sempre teve, pelo menos, o apoio de forças internacionais, embora tenham diminuído ao longo do tempo.

Mas, ao longo do curso, a corporação mudou substancialmente. Da fonte de ilusões que existia, principalmente nas décadas de 60 e 70, resultou em uma estrutura criminal considerável, com sede em Havana, de onde as diretrizes são ditadas às duas subsidiárias que, atualmente, controlam de forma direta: Venezuela e Nicarágua.


Ambas são essenciais para o regime cubano. A primeira constitui sua principal fonte de renda. A Venezuela não é apenas uma fornecedora de petróleo subsidiado, malas de dólares e uma quantidade incalculável de negócios que acaba de começar a ser investigada. O caso da Nicarágua, em sua escala, tem semelhanças. Além de importantes negócios, o país sob a ditadura de Ortega e Murillo funciona como um vertedouro e uma passagem para militares, conselheiros, espiões e oficiais que entram e saem de Havana por Manágua sem registros ou controle.


Mas a corporação do mal opera sob outros modelos. Possui franqueados como os governos de Rafael Correa no Equador, Néstor Kirchner e Cristina Fernández de Kirchner na Argentina, Evo Morales na Bolívia, Lula Da Silva e Dilma Rousseff no Brasil. Ela tem cúmplices e lobistas políticos como Manuel López Obrador no México e Tabaré Vázquez no Uruguai. Possui uma entidade especializada em ativismo e propaganda, o Fórum de São Paulo, que demonstrou uma capacidade maligna de persuadir as boas consciências da Europa e de outras partes do mundo. Os tentáculos da corporação, após seis décadas, se espalharam pelo mundo para os lugares mais inesperados, por exemplo, entre algumas correntes do Partido Democrata dos Estados Unidos. Estes são apenas alguns dos elementos do lado A da corporação.

O lado B configura o poder sombrio da corporação cubana: alianças com narcocerrilhas do ELN e as FARC, narcotraficantes, organizações terroristas no Oriente Médio, traficantes de armas e senhores da corrupção que encontram refúgio e proteção naquele país.

Tanto na Venezuela como na Nicarágua, a corporação castrista tem supervisão direta nos níveis mais altos das Forças Armadas e das forças policiais. Eles são diretamente responsáveis ​​por estratégias, elaboração de planos de repressão e tortura, atividades de treinamento e inteligência destinadas às próprias instituições armadas. Aqueles que permitiram esse estado de coisas nos dois países, Hugo Chávez, Nicolás Maduro, Daniel Ortega e Rosario Murillo, traíram as leis, a soberania, os princípios essenciais de suas respectivas pátrias.

O objetivo da corporação do mal é inequívoco: permanecer no poder a qualquer custo. Portanto, ela não hesita quando reprime, tortura e mata dissidentes em seu próprio país, na Nicarágua e na Venezuela, nem se importa com as vidas que podem ser perdidas nas ruas do Equador, depois de ativar o plano de acabar com o governo democrático de Lenin Moreno.

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Nota Editorial: Miguel Henrique Otero é diretor do jornal venezuelano El Nacional.

Brasil é um dos países com menos formados em exatas

TEXTO: Claudia Gasparini; FOTO: Getty/Witthaya Prasongsin

Apenas 17% das matrículas nas faculdades brasileiras são em cursos de tecnologia, engenharia e matemática, aponta um relatório da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). A porcentagem é bem menor do que a registrada em países como China (40%) e Índia (35%). A evasão também é alta: segundo a Associação Brasileira de Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom), a taxa de desistência em graduações de tecnologia chega a 69%. Apesar do baixo interesse, o setor de TI paga 2,8 vezes o salário médio do brasileiro, considerados os benefícios. 

terça-feira, 8 de outubro de 2019

sábado, 28 de setembro de 2019

Os 70 anos da Revolução Comunista na China

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

A revolução não é um convite para um jantar”
Mao Tse-Tung
Xangai - 1987 e 2013
No dia 01 de outubro de 1949, depois de uma longa marcha e do acúmulo de uma série de vitórias parciais, o líder do Exército de Libertação Popular e do Partido Comunista Chinês (PCC), Mao Tse-tung, proclamou, em Pequim, na Praça Tiananmen, a República Popular da China. Em seguida, Chiang Kai-shek, do kuomintang (Partido Nacionalista Chinês) se refugiou em Taiwan e proclamava a República da China.
Os 70 anos da Revolução Comunista na China, grosso modo, podem ser divididos em duas partes: um fracasso nos primeiros 30 anos e um sucesso nos 40 anos seguintes. Entre 1949 e 1979 a China viveu um período de grande turbulência, com muita fome, já que o povo chinês não foi “convidado para um jantar”.
Nas três primeiras décadas o gigante asiático se isolou do mundo, regrediu em termos econômicos e viveu três momentos cruciais: o “Grande salto para a frente”, a “Revolução Cultural” e a “Camarilha dos quatro”.
O “Grande salto para a frente” foi uma política lançada por Mao Tsé-Tung entre 1958 e 1960, que visava transformar a China Comunista em uma nação desenvolvida e socialmente igualitária em “um salto” (curto tempo), acelerando a industrialização urbana. Porém, o processo de industrialização fracassou, consumiu muitos recursos da área rural e provocou uma grande fome e uma das maiores mortalidades da história. As mortes ocorridas neste período são estimadas entre 20 e 50 milhões de óbitos, um número tão grande que provocou uma redução da esperança de vida da população mundial. Segundo a Penn World Table, a renda per capita da China, em poder de paridade de compra, era de US$ 883 em 1953 e caiu para US$ 834 em 1962.
A “Revolução Cultural” ocorreu principalmente na década de 1960 (mas se prolongou até a morte de Mao) e foi uma reação aos críticos da linha adotada pelo comitê do Partido Comunista e aos críticos do “Grande salto para a frente”. Para se manter no controle do Partido e do Estado, Mao Tse-tung incentivou o culto à personalidade e a difusão do “Livro Vermelho”, com citações de Mao. Os alvos da Revolução Cultural foram os membros do partido que mostravam alguma simpatia com o Ocidente ou com a União Soviética, a burocracia estatal, os intelectuais e todo o conhecimento consolidado e as políticas públicas na área de educação, saúde, etc. O sectarismo manteve a China pobre e isolada.
Depois da morte de Mao Tsé-Tung, em 9 de setembro de 1976, a chamada “Camarilha dos Quatro”, composta por Jiang Qing (esposa de Mao Tse-tung), Zhang Chunqiao, Wang Hongwen e Yao Wenyuan, tentaram dar continuidade à Revolução Cultural e ao isolamento do país, mas foram derrotados, abrindo espaço para a ascensão das forças reformistas. Ainda segundo a Penn World Table, a renda per capita da China ficou praticamente estagnada entre 1966 e 1976, passando de US$ 1119 para US$ 1210. Nos primeiros 30 anos da Revolução, a renda per capita chinesa era uma das mais baixas do mundo.
Entre 1976 e 1978 o poder na China mudou de mãos e de orientação. O novo líder, Deng Xiaoping (1904-1997), assumiu as rédeas do PCC e introduziu uma série de reformas, que ficaram conhecidas como a “segunda revolução”, provocando uma completa transformação do país, que abandonou o coletivismo comunista e assumiu uma feição mista, conhecida como “Socialismo de mercado” ou “Capitalismo de Estado”. A partir de 1978 a China dá realmente um grande salto para a frente e se torna a primeira economia mundial (medida em poder de paridade de compra), transformando o experimento dos últimos 40 anos em o maior e mais rápido exemplo de sucesso da história econômica mundial. Em 2016, a renda per capita chinesa ultrapassou a renda per capita brasileira.
O gráfico abaixo, com dados do FMI, mostra como a China saiu de uma situação de irrelevância econômica, cresceu e deslocou os EUA da posição de maior economia do mundo. Em 1980, o PIB dos EUA representava 21,6% do PIB mundial, enquanto o PIB da China representava apenas 2,3% (os EUA tinham uma economia quase 10 vezes maior). O PIB do Brasil representava 4,4% da economia global (o PIB do Brasil era quase 2 vezes maior do que o da China). Mas o quadro mudou totalmente nos últimos 40 anos. Em 2014, a economia chinesa superou a economia americana e em 2020, o FMI estima que o PIB da China representará 19,7% do PIB mundial e o PIB dos EUA apenas 14,8%. Nunca na história um país galgou crescimento tão rápido e expressivo.
participação no PIB Mundial dos EUA e da China
A renda per capita da China (em poder de paridade de compra, a preços constantes), em 1980, segundo dados do FMI, era de US$ 722 contra US$ 790,00 do Burundi, US$ 11,4 mil do Brasil e US$ 29,1 mil dos EUA. A renda per capita da população brasileira era 16 vezes maior do que a da população Chinesa e a americana era 40 vezes maior. Mas em 2020, a renda per capita chinesa (com US$ 18 mil) atinge um nível maior do que a renda per capita brasileira (US$ 14,8 mil), sendo que a dos EUA está em US$ 57,2 mil. Portanto, o chinês médio já ganha mais do que o brasileiro, embora tenha, atualmente, uma renda 3 vezes menor do que a do americano médio.
Em termos demográficos, a população da China era de pouco mais de meio bilhão de pessoas em 1950 e deve atingir o pico de 1,44 bilhão de habitantes em 2029. A partir de 2030 haverá decrescimento populacional e a China deve chegar em 2100 com uma população de pouco mais de 1 bilhão de pessoas. A população em idade ativa que estava em 1 bilhão de potenciais trabalhadores em 2015 já está em declínio e deve se reduzir para a metade até o final do século.
população da China
Quem dita o ritmo de crescimento e de redução populacional é a taxa total de fecundidade (TFT). O gráfico abaixo mostra que a TFT estava em 6 filhos por mulher na época da Revolução Comunista e caiu na década de 1950. Porém, com a alta mortalidade ocorrida na época do “Grande salto para a frente” e com o caos econômico, social e político ocorrido durante a “Revolução Cultural” a TFT voltou a subir e ficou em 6,5 filhos por mulher no quinquênio 1965-70.
Todavia, o alto crescimento demográfico dificultava a luta para a redução da pobreza e, no início dos anos de 1970, ainda na época de Mao Tse-tung, foi lançada a política “Mais Tarde, Mais Tempo e em Menor Número” (em chinês: “Wan, Xi, Shao” e em inglês: laterlongerfewer”) que incentivava as mulheres a terem o primeiro filho em idades mais avançadas, que mantivessem um espaçamento maior entre os filhos e que limitasse o tamanho da prole, adotando um tamanho pequeno de família.
A política “Wan, Xi, Shao” foi um sucesso e a taxa de fecundidade caiu de mais de 6 filhos para menos de 3 filhos em 1980. Tudo indicava que a fecundidade continuaria caindo. Porém, um governo autoritário não costuma respeitar as livres escolhas e os direitos sexuais e reprodutivos. No bojo das reformas implementadas por Deng Xiaoping em dezembro de 1978, foi instituída a “Política de filho único”, a iniciativa controlista mais draconiana da história da humanidade.
Em consequência, mesmo com a maior parte da população vivendo no meio rural, a fecundidade continuou caindo e a TFT ficou abaixo do nível de reposição no quinquênio 1990-95 (com 1,9 filho por mulher) e se manteve ao redor de 1,6 filho por mulher entre 2000 e 2015. Ou seja, depois de cerca de 35 anos de “Política de filho único” a TFT chinesa permanece baixa e o número de nascimentos anuais caiu de pouco mais de 30 milhões no quinquênio 1965-70 para cerca de 17 milhões de bebês na atual década (2011-20).
taxa de fecundidade total da China
Para o demógrafo Baochang Gu, embora tenha havido exceções, especialmente na zona rural e entre minorias étnicas, a regulamentação rigorosa do filho único foi mantida até novembro de 2013, quando se permitiu que um casal tivesse um segundo filho, no caso de algum dos cônjuges fosse filho único. Em outubro de 2015, foi permitido a todos os casais terem o segundo filho. Em 2018 foram eliminadas as restrições ao número de filhos desejados.
Contudo, a baixa taxa de fecundidade veio para ficar, pois a flexibilização não implicou em um surto de nascimentos. Em 2016, imediatamente depois que se permitiu o segundo filho, nasceram 17,9 milhões de crianças, de acordo com a Agência Nacional de Estatísticas. Apenas 1,3 milhão a mais do que em 2015 e metade do que o Governo previa. Já em 2017, o número de nascimentos foi ainda menor, 17,2 milhões de novos bebês, muito abaixo dos 20 milhões estimados pelas autoridades. Em 2018, o número de nascimentos voltou a cair.
O fato é que a China adotou o modelo de baixo crescimento demográfico e alto crescimento econômico, possibilitando o aumento da renda per capita e a retirada de cerca de 1 bilhão de pessoas da extrema pobreza. O crescimento foi tão espetacular que muita gente se refere aos últimos 40 anos como o “milagre chinês”.
Evidentemente, nem tudo são flores. O custo ambiental do sucesso chinês foi dramático. A China é o maior poluidor do Planeta e campeão absoluto da emissão de gases de efeito estufa. A Pegada Ecológica chinesa é muito mais elevada do que a Biocapacidade e o país tem um alto déficit ambiental. Problemas como o da febre suína (um vírus altamente contagioso, sem cura conhecida, e com uma taxa de sobrevivência quase nula para os porcos infectados) aconteceu na África e se espalhou na China, que é a maior produtora e consumidora de carne suína do mundo. O país é responsável por mais da metade da população global de porcos. O Departamento Nacional de Estatística do país diz que a população de porcos caiu em quase 40 milhões, para 375,3 milhões, em relação ao ano anterior, devido ao surto de febre suína. Mas a epidemia pode dizimar cerca de 200 milhões de porcos. Isso teria um impacto negativo sobre a economia chinesa, uma vez que os preços da carne suína contribuem de forma importante para seus níveis de inflação e os preços da carne suína na China poderão subir mais de 70% no segundo semestre deste ano. Isto poderá ser a centelha de muitas manifestações populares e, certamente, vai atrapalhar a festa dos 70 anos da Revolução Chinesa.
Em termos políticos a China é uma ditadura de partido único, com controle da mídia e com grande controle da Internet e das redes sociais. Em 1959, houve a intervenção no Tibete, que restringiu a autonomia local e provocou o exílio do líder espiritual Dalai Lama, há 60 anos. Em 1989, o governo de Pequim reprimiu violentamente as manifestações populares na Praça Tiananmen. Na China não há liberdade religiosa e diversas religiões sofrem com a repressão do Estado. Os povos Uigures, de Xinjian, uma minoria muçulmana que fala um idioma próximo do turco, têm denunciado que um milhão de pessoas estavam sendo tratadas como “inimigos do estado”, sendo vítimas de “aprisionamento em massa” em “centros de contra extremismo”.
Agora em 2019, o PCC ameaça reprimir as manifestações populares em Hong Kong. Quatro meses de espetaculares manifestações na ilha estão atrapalhando os preparativos para a festa dos 70 anos da Revolução. Cerca de 20% da população de Hong Kong (mais de 1,5 milhão de pessoas) foram para as ruas no dia 18 de agosto, pedindo democracia e mostrando que não será fácil esmagar as manifestações democráticas. A situação se agrava especialmente para os honcongueses que não querem ser plenamente chineses. A despeito da riqueza de Hong Kong, tudo está cada vez mais caro na cidade, a desigualdade social aumenta e os jovens sofrem com a falta de mobilidade social ascendente. Acima de tudo, a população de Hong Kong não aceita o modelo autoritário da República Popular da China.
A linha dura de Xi Jinping em relação a Hong Kong acende o alerta para o caso de Taiwan e reduz ainda mais a chance de uma unificação pacífica das duas Chinas. A China continental parece abandonar seus esforços para conquistar corações e mentes em Taiwan e incrementou constantemente suas capacidades militares, gerando medo que possam ser usadas. Isto provocaria uma guerra com os EUA, jogando as duas potências na Armadilha de Tucídides.
Cabe ressaltar, que apesar de todo o progresso econômico – embora com restrição da liberdade individual e ameaça de um conflito internacional – a China ainda é um país de renda média e pode apresentar dificuldade para dar o salto para um país de renda alta. O envelhecimento populacional e o fim do bônus demográfico vão dificultar a continuidade do crescimento econômico nas próximas décadas, enquanto cresce no mundo as resistências contra as políticas mercantilistas do país. O cenário é de dificuldades internas e externas.
Contudo, o governo de Xi Jinping deseja comemorar os 100 anos do PCC em 2021 e tem um plano para fazer da China o país mais avançado do mundo até 2049, quando do aniversário de 100 anos da Revolução Comunista (ver figura abaixo). O plano tem parte de uma realidade que o país já é a fábrica do mundo e a campeã da produção de bens manufaturados. Com a política “Made in China 2025” o país pretende alcançar a produção de bens mais sofisticados e de maior valor agregado, se igualando na liderança da ciência e da tecnologia. Até 2035, a China pretende se destacar entre as grandes economias mundiais. Em 2049, o “Império do Meio” pretende liderar o mundo no conjunto das manufaturas e no que há de mais avançado na ciência e tecnologia.
china's goals
Todavia, o caminho para a hegemonia global não será fácil, pois haverá pressões externas e internas. A guerra comercial e cambial entre os EUA e a China é só uma parte do problema que ocorre com a ascensão da China no cenário do poder mundial. Internamente, existem muitas manifestações contra o autoritarismo e o centralismo do PCC. O desacoplamento da “Chimerica” vai trazer dificuldades. O desequilíbrio na razão de sexo deixou milhões de homens sem parceiras na idade de casar e o envelhecimento populacional será muito rápido e intenso, aumentando a razão de dependência demográfica.
Enfim, os 70 anos da Revolução Chinesa foram marcados por muito sofrimento (de 1949 a 1978) e por muito progresso (entre 1978 a 2019). A China tem mostrado vontade e capacidade para deixar para trás a miséria e o subdesenvolvimento. O país tem demonstrado determinação para realizar grandes obras, como a do novo Aeroporto Internacional de Pequim-Daxing – conhecido como estrela-do-mar, inaugurado uma semana antes da data de aniversário dos 70 anos da Revolução de 1949. Mas o caminho para se tornar uma potência internacional, com alto padrão de vida para a população e com respeito ao meio ambiente não será tranquilo e sem obstáculos.
A China adota o modelo conhecido como “Consenso de Beijing” que se opõe ao modelo liberal conhecido como “Consenso de Washington”. Até recentemente os cientistas políticos consideravam que um país só atinge alto nível de desenvolvimento socioeconômico se adotar os princípios do regime democrático. Porém, a China está prestes a se tornar um país desenvolvido e com liderança tecnológica, mesmo sendo um regime autoritário e com alto grau de controle da mídia e das redes sociais.
O Império Soviético também comemorou 70 anos. Mas caiu logo em seguida. Contudo, o “Império do Meio” Vermelho pensa no longo prazo e já vislumbra um horizonte de sucesso em 2049, nos 100 anos da Revolução Comunista Chinesa. Resta saber se conseguirão chegar aos píncaros sem grandes atritos com a comunidade internacional, sem grandes revoltas no território nacional e sem a destruição da base ecológica, que é a condição necessária para o florescimento de qualquer civilização.
José Eustáquio Diniz Alves
Colunista do EcoDebate.
Doutor em demografia, link do CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382
Referências:
ALVES, JED. A ascensão da China, a disputa pela Eurásia e a Armadilha de Tucídides. Entrevista especial com José Eustáquio Diniz Alves, IHU, Patrícia Fachin, 21 Junho 2018
ALVES, JED. China, nova potência mundial Contradições e lógicas que vêm transformando o país. Revista do Instituto Humanitas Unisinos (IHU), China, nova potência mundial: Contradições e lógicas que vêm transformando o país. São Leopoldo, Nº 528, Ano XVIII, 17/9/2018 pp 51-58
 
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 27/09/2019

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Após sucesso no festival Cine PE, longa Frei Damião - O Santo do Nordeste será exibido ao ar livre em São Miguel

Palco de gravações e de devoção ao capuchinho, cidade receberá a exibição do documentário no dia 30 de setembro, às 20 horas

Em uma das cidades com forte histórico de devoção ao Frei Damião, São Miguel, será realizada a primeira exibição ao ar livre do filme Frei Damião - O Santo do Nordeste, dirigido pela cineasta pernambucana Deby Brennand e roteirizado por Nadezhda Bezerra. O evento, marcado para o dia 30 de setembro, acontecerá em um espaço super especial: no Santuário Frei Damião, que está sendo construído na cidade. 

A escolha do local não foi por acaso. “Além de  contar com um memorial em homenagem ao capuchinho, São Miguel foi palco das gravações do documentário e, também, a cidade do Nordeste mais distante que a equipe do Fábrica Estúdios visitou durante a produção do filme”, explica o produtor e produtor-executivo Gerardo Lopes. 

O evento começa às 17h, quando será feita uma caminhada da Igreja Matriz até o memorial. No Santuário Frei Damião, às 19h, haverá uma missa campal, reunindo os devotos que enxergam no Frei um símbolo de fé e cultura. Às 20h, o documentário será exibido. Um público de quatro a cinco mil pessoas é esperado no evento.

FILME

O longa conta a história de Frei Damião, missionário que dedicou sua vida para evangelizar o Nordeste brasileiro e, atualmente, é venerável pela Igreja Católica. A pé, a cavalo ou de carro, o religioso andou mais de um milhão de quilômetros, levando a mensagem de Deus para os mais diversos lugares da região. 

Desde o dia em que desembarcou no Brasil, em 1930, até o dia em que faleceu - ou seja, durante 66 anos - não interrompeu suas Santas Missões em estados como Rio Grande do Norte, Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Bahia e Ceará. “Ele levava não somente a palavra de Deus, mas representava também um grito pelos excluídos, pelos nordestinos e pela condição de pobreza que encontrava em suas andanças”, ressaltou Jairo Chaves, produtor executivo do filme.

Através de imagens inéditas captadas pelos cineastas Otacílio Cartaxo e Machado Bitencourt, filmagens gravadas em fitas VHS, entrevistas, depoimentos, testemunhos de milagres e reinterpretação de acontecimentos, o documentário procura mostrar que Frei Damião era um ser humano para além de religião. “O filme fala sobre uma pessoa que é muito forte dentro de uma religião, mas que é algo muito mais de fé, sensação e sensibilidade”, comenta Pablo Lopes, produtor e produtor executivo do longa.

CINE PE

Intitulado Hors Concours pela curadoria do Festival CINE PE, a exibição do documentário lotou o Cinema São Luiz com um público muito variado entre fiéis, admiradores e curiosos, na noite de abertura do CINE PE, no dia 29 de julho. O som dos aplausos finais entoados por toda a sala deixou claro que a recepção do público foi bastante positiva. 

O Frei Jociel Gomes, consultor de conteúdo do longa e vice-postulador da causa de canonização do Frei Damião, viu nas telas no Cinema São Luiz um sonho conquistado. “Está se tornando realidade agora e é muito interessante ver a figura de Frei Damião, que é um ícone não só religioso, mas também cultural, representado no cinema”, comentou.

Ficha técnica do documentário Frei Damião - O Santo do Nordeste
Direção - Deby Brennand
Consultoria de Conteúdo - Frei Jociel Gomes
Roteiro - Nadezhda Bezerra
Produção - Gerardo Lopes e Pablo Lopes
Produção Associada - Fátima Cartaxo e Otacílio Cartaxo (in memoriam)
Produção Executiva - Gerardo Lopes, Jairo Chaves e Pablo Lopes
Direção de Produção - Mariana Jacob
Direção de Fotografia - Breno César
Edição de Som e Mixagem - Paulo Umbelino e Pablo Lopes
Montagem - Rodrigo Guilherme
Direção de Arte - Denis Netto
Trilha Sonora Original - Piero Bianchi

Contatos para entrevistas
Gerardo Lopes  - (81) 98822-1147
Deby Brennand - (81) 99661-3565
Frei Jociel - (81) 99949-0510

Assessoria de imprensa
Vera Ogando (DNA Digital) - (81) 99277-6038
Gabriela Araújo (DNA Digital) - (81) 99700-6124

FOTOS

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Filme conta com imagens inéditas captadas pelos cineastas Otacílio Cartaxo e Machado Bitencourt. Foto: Machado Bitencourt.  


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Filme conta com imagens inéditas captadas pelos cineastas Otacílio Cartaxo e Machado Bitencourt. Foto: Machado Bitencourt.  

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Filme conta com depoimento de fé do cantor Fagner. Foto: Reprodução/Frei Damião - O Santo do Nordeste 

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Frei Jociel, consultor de conteúdo do filme e vice-postulador da causa de beatificação do Frei Damião, também dá seu depoimento de fé no longa. Foto: Reprodução/Frei Damião - O Santo do Nordeste 

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Deby Brennand, diretora do longa, no set do filme. Foto: Pablo Lopes/Divulgação


Frei Damião - Luiz Gonzaga

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Em A Mistura do Forró o tema central é a música, mas não pelo viés da ciência musical, e sim pelo lado sócio-cultural da arte música, Música enquanto atributo educacional do e no povo, música como propagação da memória, música como emoção.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Brasil vive outra década perdida

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

O IBGE divulgou no final de agosto que o Produto Interno Bruto (PIB) registrou variação positiva de 0,4% no segundo trimestre de 2019 (comparado ao primeiro), na série com ajuste sazonal. Desta forma, este número evitou que o Brasil entrasse em recessão técnica (queda em dois trimestres consecutivos).
Mesmo assim, a recuperação apresenta fôlego curto e não evitará que a segunda década dos anos 2000 entre para a história como o pior decênio de crescimento econômico dos últimos 120 anos. O gráfico abaixo mostra que a variação trimestral do PIB mantinha um ritmo pouco superior à variação trimestral da população entre 2011 e 2013, mas a recessão iniciada em 2014 fez a renda per capita cair de forma acelerada e a lenta recuperação pós 2016 não foi suficiente para recuperar a renda média dos brasileiros. Considerando o 4º trimestre de 2010 = 100, a população chegou a um índice de 117 no 2º trimestre de 2019, o PIB atingiu um índice de 103,4 e o PIB per capita um índice de 88,3.
variação trimestral acumulada do PIB, da população e do PIB per capita
Estes números contrastam com o fato de que o Brasil foi um país que apresentou crescimento econômico e demográfico de destaque, dentre todas as nações do mundo, na maior parte do século XX. Entre 1901 e 1980, o PIB brasileiro cresceu a uma taxa média anual de 6,2%, enquanto a população cresceu 2,5% ao ano. Em consequência, o PIB per capita cresceu em média 3,6% ao ano e o Brasil deu um salto para entrar no clube dos 10 maiores países do mundo.
Mas o ritmo acelerado do crescimento econômico foi interrompido nos anos 80. O crescimento médio do PIB brasileiro ficou em 1,6% entre 1981 e 1990, enquanto o crescimento demográfico foi de 1,8% ao ano. Consequentemente, houve variação negativa do PIB per capita de -0,2% ao ano. Ou seja, pela primeira vez na história republicana a população brasileira terminou uma década mais pobre do que iniciou. Portanto, os anos 80 constituíram uma “década perdida”.
Nos anos 90 houve uma ligeira recuperação, pois o PIB cresceu 2,5% ao ano, a população cresceu 1,3% ao ano e o PIB per capita cresceu 1,2% ao ano entre 1991 e 2000. Na primeira década dos anos 2000, a recuperação econômica foi um pouco mais elevada, com o PIB crescendo 3,7% ao ano, a população crescendo a 1,1% ao ano e o PIB per capita crescendo a 2,6% ao ano entre 2001 e 2010. Tanto a última década do século XX, quanto a primeira década do século XXI foram de crescimento da renda per capita, mas em ritmo bem menor do que a média histórica.
O gráfico abaixo mostra a variação anual do PIB e a média móvel de dez anos entre 1900 e 2020. Nota-se que as décadas de maior crescimento decenal foram as de 1950 e 1970. A partir do ano de 1981 os decênios passam a ser cada vez menores e, atualmente, os decênios são os menores da série. A atual década deve ter um crescimento do PIB abaixo de 1% ao ano. Evidentemente, o baixo dinamismo econômico reflete no desempenho do mercado de trabalho.
taxas anuais de crescimento do PIB
A crise do mercado de trabalho na presente década significa a perda do futuro do país e do futuro não só da juventude atual (que sofre mais que proporcionalmente com a escassez de oportunidades de trabalho) mas do futuro das gerações que ainda vão nascer e que vão herdar mais problemas do que soluções. O desperdício do bônus demográfico é também o desperdício de uma situação histórica que não vai se repetir no futuro e pode fazer o Brasil ficar preso na armadilha da renda média. Significa também que os idosos serão prejudicados, já que sem uma solidariedade intergeracional não há como garantir boas condições de vida no envelhecimento.
O Brasil está em uma trajetória submergente durante todo o período da Nova República. O passo fundamental para mudar esta triste página da história brasileira é possibilitar que cada pessoa possa ter orgulho de trabalhar para se sustentar e para garantir a sustentabilidade econômica e ambiental do país. O Brasil poderia ter uma população ocupada de 120 milhões, mas ocupa menos de 93 milhões de pessoas, além de ter uma baixa produtividade.
A pesquisa PNADC do IBGE, divulgada dia 30/08/2019, mostra uma realidade tenebrosa. No trimestre encerrado em julho de 2019, havia aproximadamente 12,6 milhões de pessoas desocupadas no Brasil. Já a taxa composta de subutilização da força de trabalho foi estimada em 24,6% no trimestre, sendo que o número de pessoas subutilizadas ficou em 28,1 milhões.
taxa composta de subutilização
Considerando os 5 anos entre o segundo trimestre de 2014 e o segundo trimestre de 2019 a queda média do PIB foi de 0,7% ao ano, enquanto a população total crescia a 0,8% ao ano. Assim, a queda do PIB per capita, na média do período, ficou em torno de 1,5%. Como o número de pessoas ocupadas passou de 91,5 milhões no segundo trimestre de 2014 para 93,5 milhões no segundo trimestre de 2019 (geração de empregos de baixa qualidade), havia mais gente ocupada e menos produto realizado. O crescimento do número de trabalhadores com redução do PIB, significa que a produtividade do trabalho foi reduzida em -1,1% ao ano.
A crise brasileira não decorre da falta de gastos, ao contrário, como mostra o gráfico abaixo as despesas primárias do governo central cresceram muito mais rapidamente do que as receitas. O déficit primário atual é enorme e existe um desequilíbrio muito grande no orçamento fiscal. Os gastos são altos, mas os investimentos são baixos.
receita vs despesa primária do governo central
Sem aumento da taxa de investimento não haverá recuperação da economia e nem dinheiro para defender o meio ambiente. Simplesmente revogar o “Teto de Gastos” pode não resolver o problema da produtividade da economia e a competitividade internacional (o saldo comercial brasileiro está caindo em ritmo acelerado em 2019), como também pode agravar a solvência da dívida pública.
Tudo isto indica que, se nada for feito, o Brasil deve ficar preso na armadilha do baixo crescimento, devendo envelhecer antes de enriquecer, convivendo com muito desemprego e baixa produtividade. Somente um plano de reativação da economia com pleno emprego e trabalho decente – aliado ao avanço da ciência e tecnologia e ao aumento da qualificação e eficiência dos trabalhadores – poderia mudar o quadro atual de crise econômica e social.
Existe uma tendência de baixo crescimento da economia internacional, tendência conhecida como “japonização da economia”. Há também uma estagnação do comércio mundial (tendência conhecida como “slowbalization”). A maioria dos países latino-americanos, nações de renda média, estão experimentando uma “japonização” precoce e perdendo espaço no comércio internacional. O Brasil precisa de um projeto de nação coerente e de escopo de longo prazo para evitar não só uma possível terceira década perdida, mas também um século perdido.


Colunista do EcoDebate.
Doutor em demografia, link do CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 25/09/2019