"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 2 de março de 2019

Abaixo-assinado relata atraso nos pagamentos dos salários no Mais Médicos

Um abaixo-assinado na Plataforma Change.org intitulado "Ministério da Saúde, pague os médicos do Programa Mais Médicos!" coletou assinaturas através da Web no intuito de pressionar o Ministério da Saúde a cumprir com as obrigações salariais do programa em detrimento dos profissionais atuantes nesta iniciativa do Governo Brasileiro.

Segundo narra o autor da iniciativa desde Dezembro que os pagamentos das bolsas pelo programa vem sofrendo atrasos:

Bom, pra encurtar, a bolsa de dezembro atrasou. No entanto, pagaram na segunda quinzena de janeiro. A de janeiro também atrasou. Contudo, pagaram também na segunda quinzena de fevereiro. Alguns médicos, que como eu, entramos no programa no inicio de dezembro, receberam o primeiro pagamento somente em fevereiro. E há quem ainda não recebeu. Alguns desistiram e outros estão desistindo por conta disso. E isso não é bom para a população, nem para os profissionais!


PROFESSOR DA UNINASSAU-NATAL CRIA VÍDEOS SOBRE METODOLOGIA DA PESQUISA PARA AJUDAR ALUNOS DE TODO O PAÍS



Terror de muitos alunos de graduação, a pesquisa pode se tornar divertida e fácil de compreender com os vídeos do professor Gustavo Santos, da UNINASSAU - Natal-RN.
            
Para auxiliar os estudantes de todo o país, o professor Gustavo Santos, que se especializou em Coaching Acadêmico, criou no mês passado um espaço nas suas mídias sociais (Instagram e Facebook) com conteúdos que propõem explicar métodos e técnicas de pesquisa de uma forma acessível. Além das aulas gratuitas na internet, os alunos podem interagir diretamente com o professor e tirar suas dúvidas.

Gustavo Santos, que é pesquisador da área de Estudos Culturais e Discurso Midiático, graduado em História e Comunicação, mestre em Ciências da Educação e doutorando em Estudos Midiáticos pela Universidade Fernando Pessoa - UFP (Porto-Portugal) com cotutela pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, explica que os vídeos tem duração de no máximo 1 minuto, e a ideia é provocar o aluno e trazer algumas informações relevantes que possam ser discutidas em sala de aula. Assim como também proporcionar a interação com alunos de todo o país, abrindo espaço para a troca de conhecimento.
  
“Esse projeto surgiu em 2018 com o atendimento de alunos de maneira individualizada, desenvolvendo atividades de Coaching Acadêmico. Ao longo do ano, o atendimento começou a ganhar forma e foi ganhando maior proporção até chegar ao seu formato atual”, explicou o professor.
     
“Eu gosto de contar histórias e sempre fui assim. E o legal é que muitas ideias desses vídeos foram dúvidas durante a minha graduação”, disse ele. Para o professor, as mídias sociais é uma excelente plataforma para divulgação por ser acessível para todo mundo. 
        
Entre os temas discutidos nos vídeos estão, técnicas de pesquisa, vida acadêmica, normas da ABNT e experiências do mundo universitário. “Em algum momento eu quero conversar sobre assuntos de pesquisa, mas sem necessariamente explicar um conteúdo. Por exemplo, eu pretendo discutir coisas como a diferença entre Pós-graduação Lato Senso e Stricto Senso ou então dar dicas de como entrar num mestrado de uma Universidade pública”, destacou. 

sexta-feira, 1 de março de 2019

O ‘Green New Deal’: a luta contra a degradação ambiental e o aquecimento global

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

O tempo é curto e o Planeta requer muito mais do que boas intenções e propostas políticas de crescimento econômico verde


Green New Deal

O ‘New Deal’, originalmente, foi o nome dado ao programa de salvação econômica que o presidente dos Estados Unidos, Franklin Delano Roosevelt, implementou entre 1933 e 1937 para combater o desemprego e a pobreza gerados pela grande depressão ocorrida após a quebra da bolsa de Nova Iorque, em 1929. O estadista Roosevelt desafiou o pensamento convencional e os dogmas da ortodoxia econômica para implementar políticas keynesianas, antes mesmo da divulgação da obra magna de John Maynard Keynes, que defendia o crescimento econômico com pleno emprego e justiça social.
Agora, em 2019, surge o “Green New Deal” (New Deal Verde), que é um plano – arquitetado de forma inédita pela ala democrata e progressista do novo Congresso americano – para tentar salvar a vida do Planeta de uma catástrofe sem precedentes que já se vislumbra no horizonte, em função dos efeitos deletérios da degradação ecológica e do aquecimento global.
No dia 07 de fevereiro de 2019, a deputada Alexandria Ocasio-Cortez e o senador Ed Markey, junto com outras lideranças do Partido Democrata, dos Estados Unidos, apresentaram um projeto sobre o “Green New Deal”, delineando um plano ambiental para criar uma economia mais amiga do meio ambiente e de baixo carbono nos EUA, até 2030.
A resolução apresentada propõe ações multissetoriais para o combate à mudança do clima, incluindo uma meta para converter a demanda energética dos EUA em algo próximo de 100% de fontes de energia limpa, renovável e com emissões zero de dióxido de carbono.
A proposta vislumbra um novo modelo econômico que possibilite tirar os Estados Unidos do ranking de países mais poluentes do mundo. A resolução, que pode ser entendida como um projeto de lei, permite que os legisladores que apoiam uma nova visão de mundo, ambientalmente sustentável, divulguem projetos no sentido de promover a transição energética e ambiental.
A proposta foi construída de forma a unir as questões sociais e ecológicas, de acordo com aquilo que os ambientalistas e os movimentos sociais vêm defendendo no sentido de implementar reformas profundas nas políticas sociais e ambientais dos EUA.
O ‘Green New Deal’ propõe realizar 5 objetivos em 10 anos:
  • Zerar as emissões líquidas de gases de efeito estufa através de uma transição justa e correta para todas as comunidades e trabalhadores;
  • Criar milhões de empregos com altos salários, garantindo prosperidade e segurança para toda a população;
  • Investir na infraestrutura e na indústria para enfrentar de forma sustentável os desafios do século 21;
  • Limpar o ar e a água, possibilitar a resiliência climática e comunitária, garantir alimentos saudáveis, acesso à natureza e à um ambiente sustentável para todas as pessoas;
  • Promover a justiça e a equidade, parando as atuais injustiças, evitando as injustiças futuras e reparando a opressão histórica das comunidades fronteiriças e vulneráveis.
O ‘Green New Deal’ também propõe uma mobilização nacional para remodelar a economia dos EUA por meio de 14 projetos industriais e de infraestrutura. Todos os projetos buscarão remover as emissões de gases de efeito estufa e a poluição de todos os setores da economia:
  • Construir os mecanismos necessários para o país criar resiliência contra as mudanças climáticas e os desastres;
  • Reparar e atualizar a infraestrutura dos EUA investindo US$ 4,6 trilhões no mínimo;
  • Atender 100% da demanda de energia por meio de fontes limpas e renováveis;
  • Construir redes inteligentes de distribuição de energia, com eficiência energética e com garantia de acesso universal;
  • Atualizar ou substituir todos os edifícios dos EUA por energia eficiente de última geração;
  • Expandir maciçamente a fabricação de energia limpa (como fábricas de painéis solares, fábricas de turbinas, fabricação de bateria e armazenamento, eficiência energética na fabricação de componentes) e remover a poluição e as emissões de gases de efeito estufa emissões do processo de fabricação;
  • Trabalhar com agricultores e pecuaristas para criar uma agropecuária livre de poluição e de gases de efeito de estufa, garantindo um sistema alimentar que forneça acesso universal a alimentos saudáveis, expandindo a agricultura familiar independente;
  • Reformar totalmente o setor de transporte, expandindo maciçamente a fabricação de veículos elétricos, construir estações de carregamento em todos os lugares, construir trilhos de alta velocidade em uma escala em que as viagens aéreas parem de se tornar necessárias, criar transporte público acessível a todos, com o objetivo de substituir e aposentar todos os veículo com motor de combustão;
  • Mitigar os efeitos de longo prazo na saúde das alterações climáticas e da poluição;
  • Remover os gases de efeito estufa da nossa atmosfera e a poluição pro meio do reflorestamento, preservação e outros métodos de restauração de nossas ecossistemas;
  • Restaurar todos os nossos ecossistemas danificados e ameaçados;
  • Limpar os locais existentes com resíduos perigosos e locais abandonados;
  • Identifique novas fontes de emissão e criar soluções para eliminar essas emissões;
  • Fazer dos EUA o líder do combate às mudanças climáticas e compartilhar as tecnologias os produtos com o resto do mundo para possibilitar um “Green New Deal global”
O ‘Green New Deal’ busca a justiça social e econômica e a segurança através de 15 requisitos:
  • Investimentos federais maciços e assistência às organizações e empresas que participam no novo acordo verde, assegurando um retorno sobre esse investimento;
  • Assegurar que os custos ambientais e sociais das emissões sejam levados em conta;
  • Proporcionar treinamento profissional e educação para todos;
  • Investir em P & D para criar novas tecnologias energéticas limpas e renováveis;
  • Fazer investimentos diretos em comunidades afetadas pela desindustrializadas e que de outra forma seriam prejudicadas pela transição;
  • Utilizar processos democráticos e participativos liderados pelas lideranças das comunidades vulneráveis ​​para implementar projetos de desenvolvimento local;
  • Assegurar que todos os empregos criados sejam trabalhos com direitos sindicais, com contratação local e que paguem salários dignos;
  • Garantir empregos e salários sustentáveis ​​para a família;
  • Proteger o direito de todos os trabalhadores de se sindicalizar e se organizar;
  • Fortalecer e fazer cumprir os direitos à saúde e à segurança no local de trabalho, garantido mecanismos antidiscriminação e os padrões de salário e por hora;
  • Promulgar e aplicar regras comerciais para impedir a transferência de empregos e poluição no exterior e aumentar a fabricação nacional;
  • Assegurar que as terras, águas e oceanos públicos sejam protegidos;
  • Obter consentimento livre, prévio e informado dos povos indígenas;
  • Assegurar um ambiente econômico livre de monopólios e de concorrência injustos;
  • Oferecer assistência médica de alta qualidade, moradia, segurança econômica e limpeza do ar, da água, além de comida saudável e natureza para todos
Evidentemente, não será fácil implementar o ‘Green New Deal’, em primeiro lugar, porque os EUA são um país com baixo nível de poupança e investimento e que estão perdendo espaço para economias mais dinâmicas, como as da Ásia, especialmente a China. Em segundo lugar, é impossível viabilizar um novo projeto verde para os EUA se for baseado no crescimento demoeconômico do país.
Indubitavelmente, a viabilidade do ‘Green New Deal’ requer a adoção da perspectiva do decrescimento das atividades antrópicas, o combate ao consumismo e a defesa dos ecossistemas e da biodiversidade, pois sem ECOlogia não há ECOnomia. Buscar conciliar o lado social com o lado ambiental é uma atitude correta, mas nos últimos dois séculos o enriquecimento humano aconteceu às custas do empobrecimento da natureza.
Como mostraram Martine e Alves (2015), desde que a humanidade ultrapassou os limites da resiliência do Planeta, o tripé da sustentabilidade (crescimento econômico inclusivo, justiça social e sustentabilidade ambiental) virou um trilema e o desenvolvimento sustentável virou um oximoro. Prosseguindo no ritmo dos últimos 200 anos da economia, a Terra pode se tornar um lugar inabitável, como mostra o livro “The Uninhabitable Earth: Life After Warming”(2019), do jornalista David Wallace-Wells. Há diversos indicadores de que o mundo caminha para um colapso ambiental, como mostrou, por exemplo, Luke Kemp na BBC (19/02/2019).
Um “novo acordo ecológico” nos EUA pode ser um passo correto no caminho para se criar um “acordo ecológico global”, que poderia ser um primeiro passo para se evitar um cenário apocalíptico. Neste sentido, as iniciativas da deputada Alexandria Ocasio-Cortez e do senador Ed Markey são bem-vindas. Mas o tempo é curto e o Planeta requer muito mais do que boas intenções e propostas políticas de crescimento econômico verde.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Referência:
Alexandria Ocasio-Cortez; Ed Markey. The Green New Deal, 07/02/2019
Luke Kemp. Are we on the road to civilisation collapse?, BBC, 19/02/2019
David Wallace-Wells. The Uninhabitable Earth: Life After Warming, 2019
MARTINE, G. ALVES, JED. Economia, sociedade e meio ambiente no século 21: tripé ou trilema da sustentabilidade? R. bras. Est. Pop. Rebep, n. 32, v. 3, Rio de Janeiro, 2015 (em português e em inglês)http://www.scielo.br/pdf/rbepop/2015nahead/0102-3098-rbepop-S0102-3098201500000027P.pdf

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 25/02/2019

O sucesso da estratégia de desenvolvimento dos Tigres Asiáticos

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

renda per capita em preços correntes: EUA, UE, ALC e Tigres Asiáticos

A estratégia de desenvolvimento dos Tigres Asiáticos pode ser considerada um caso de sucesso na conquista de melhores condições econômicas e sociais para o conjunto da população e para a soberania nacional. Ao contrário da América Latina e Caribe (ALC) que adotou uma estratégia de “substituição de importações”, o modelo implementado por Hong Kong, Singapura, Taiwan e Coreia do Sul (os 4 Tigres Asiáticos ou NIC: Newly Industrialized Country) se mostrou mais efetivo e mais vitorioso na conquista de alto padrão de vida para seus habitantes.
O gráfico acima, com base em dados do FMI (em poder de paridade de compra – ppp), mostra que em 1980 a renda per capita dos EUA era de US$ 12,7 mil, da União Europeia (UE) era de US$ 9,1 mil, Singapura de US$ 8,9 mil, Hong Kong de US$ 12,7 mil, ALC de US$ 4,6 mil, Taiwan de US$ 3,5 mil e da Coreia do Sul de somente US$ 2,2 mil. A média da renda per capita dos 4 Tigres era de US$ 3,5 mil. Portanto, os Tigres Asiáticos tinham, na média, renda per capita abaixo da renda da ALC e bem abaixo da renda per capita dos EUA e da União Europeia.
Contudo, a situação mudou muito em quatro décadas. Os dados do FMI para 2020 indicam que Singapura com renda per capita de US$ 105,8 mil e Hong Kong com renda de US$ 70,4 mil já ultrapassaram a renda per capita dos EUA (US$ 66,6 mil) e da União Europeia (US$ 46,5 mil). Taiwan (US$ 56,5 mil) atingiu renda pouco abaixo dos EUA e acima da UE. A Coreia do Sul (US$ 45,3 mil) ainda tem renda abaixo daquela dos EUA, mas aproximadamente igual da UE. Já a ALC que estava à frente de Taiwan e Coreia do Sul, atualmente mantém uma distância bastante significativa, mostrando que as opções adotadas pela região não deram resultados positivos. Em 2020, a renda per capita média dos 4 Tigres Asiáticos deve ficar em US$ 54,3 mil contra apenas US$ 17,6 mil da ALC (e um valor ainda menor para a renda per capita do Brasil)
Entre 1980 e 2020, a renda per capita, a preços correntes, se multiplicou por 20,7 vezes na Coreia do Sul, 16,3 vezes em Taiwan, 12 vezes em Singapura e 10,4 vezes em Hong Kong. Os 4 Tigres em conjunto tiveram um aumento de 17,2 vezes na renda per capita. Já os EUA tiveram um aumento de 5,3 vezes e a União Europeia de 5,1 vezes. O pior desempenho foi da ALC com aumento de somente 3,8 vezes no período. O desempenho do Brasil foi muito parecido com a média da ALC, mas o aumento da renda entre 1980 a 2020 foi de 3,6 vezes, um pouco pior do que a média da região.
O desempenho positivo dos Tigres Asiáticos não se limitou ao lado econômico. Em termos demográficos as conquistas foram ainda maiores. A mortalidade infantil, no quinquênio 1950-55, era de 142 por mil no mundo, 136 por mil no Brasil, 138 por mil na Coreia do Sul, 79 por mil em Taiwan, 72 por mil na Europa, 62 por mil em Hong Kong, 61 por mil em Singapura e 30 por mil nos EUA. Ainda em 1950-55, a esperança de vida ao nascer (Eo) era de 47 anos no mundo, 48 anos na Coreia do Sul, 50,8 anos no Brasil, 58,2 anos em Taiwan, 60,2 anos em Singapura, 63,2 anos em Hong Kong, 63,7 anos na Europa e 78,7 anos nos EUA. Portanto, a Europa e os EUA tinham indicadores demográficos melhores do que os Tigres Asiáticos e muito melhores do que o Brasil e o mundo.
Mas no quinquênio 1970-75, conforme mostra o gráfico abaixo, com base em dados da Divisão de População da ONU, os Tigres Asiáticos já tinha mortalidade infantil (entre 15 e 25 por mil) e esperança de vida ao nascer (em torno de 70 anos) próximos dos EUA e da Europa, enquanto o Brasil e a média mundial ainda tinha mortalidade infantil acima de 90 por mil e esperança de vida ao nascer na casa dos 60 anos.
Entre o quinquênio 1970-75 e 2015-20 o salto dos Tigres Asiáticos foi impressionante, especialmente da Coreia do Sul que passou Taiwan, Europa e os EUA tanto nos indicadores de mortalidade infantil quando de esperança de vida. A mortalidade infantil de Hong Kong é a menor do mundo com apenas 1 morte em mil nascimentos. Singapura e Coreia do Sul somente 2 mortes por mil. Taiwan e Europa 4 mortes por mil. EUA 5 por mil. Brasil 13 por mil e o mundo 31 por mil.

mortalidade infantil e esperança de vida: Tigres Asiáticos, Europa e EUA

Em termos de esperança de vida ao nascer, no quinquênio 2015-20, Hong Kong (com 84,2 anos) é a campeã mundial em longevidade. Os outros Tigres possuem esperança de vida ao nascer entre 80,2 e 83,3 anos, enquanto a Europa e os EUA ficam entre 78 e 79 anos. O Brasil com 75,8 anos e o mundo com 72 anos.
Indubitavelmente, os Tigres Asiáticos realizaram conquistas econômicas e sociais de grande monta e superaram, não só o Brasil e a América Latina, mas superaram também a Europa e os Estados Unidos. Os Tigres Asiáticos e, especialmente, Singapura serviram de inspiração e modelo para as reformas de Deng Xiaoping na China, que replicou muitas das medidas adotadas pelos chamados NICs.
Todavia, o modelo adotado pelos Tigres Asiáticos foi motivo de muita crítica por parte da esquerda da América Latina e dos teóricos da dependência na década de 1970 e início da década de 1980. Os críticos diziam mais ou menos o seguinte: “O modelo adotado pelos Tigres Asiáticos não passa de uma plataforma de exportação a serviço das grandes multinacionais ocidentais. Os lucros obtidos pelas indústrias nesses países ocorrem, principalmente, em virtude do exército industrial de reserva, ou seja, grande quantidade de mão de obra barata disponível no mercado, sendo que esse processo ocasiona a desvalorização dos salários pagos pelos detentores do meio de produção. Esse fato é acompanhado por leis trabalhistas frágeis e pouco atuantes, outros fatores que contribuíram para o elevado crescimento foram os incentivos tributários e os baixos custos para a instalação de empresas oriundas de capitais externos aumentando a dependência. A superexploração da mão-de-obra condena estes países ao atraso e ao subdesenvolvimento”.
Porém, a realidade mostrou que os Tigres Asiáticos venceram e superaram não só os países subdesenvolvidos, mas até a maioria dos países desenvolvidos. Os críticos estavam errados e mostraram que não estavam entendendo o que acontecia no leste asiático. O Brasil e a ALC ficaram totalmente atrasados em relação aos Tigres Asiáticos em termos econômicos, demográficos, sociais, de segurança pública e de soberania nacional.
Evidentemente, o sucesso no desenvolvimento humano traz prejuízos no plano ambiental. Mas, por exemplo, Hong Kong e Singapura – que são cidades-estados – possuem indicadores ambientais melhores do que outras cidades do mesmo porte.

De maneira pioneira, há também autores que perceberam as potencialidades do modelo dos NICs e os equívocos do modelo de “substituição de importações”. Fajnzylber (1981) foi um dos economistas pioneiros na percepção das vantagens do modelo adotado pelos Tigres Asiáticos. Outros autores como John Page (1994) e André Nassif (2005) também foram além do simplismo das análises latino-americanas que defendiam o modelo de “substituição de importações”. De modo sintético, podemos resumir os principais pontos que possibilitaram o sucesso dos Tigres Asiáticos:
1) Modelo de crescimento liderado pelas exportações: isto possibilita que a estrutura produtiva consiga uma competitividade externa e interna e que o país possa evitar crises cambiais, pois tem capacidade de geração de divisas;
2) Manutenção de altas taxas de investimento que permitem a renovação e a atualização permanente da estrutura produtiva, de infraestrutura, ao mesmo tempo que eleva a complexidade e a produtividade geral da economia, o que favorece o aumento dos lucros e dos salários;
3) Manutenção de altas taxas de poupança, garantindo os recursos nacionais para manter as altas taxas de investimento e a formação de capital nacional e a capitalização das famílias;
4) Em termos demográficos avançaram rapidamente na transição demográfica (reduzindo as taxas de mortalidade e natalidade) e puderam colher o bônus demográfico em decorrência de uma estrutura etária favorável;
5) Investimento na universalização da educação e na qualidade do ensino, permitindo a formação de capital humano e um grande avanço da ciência e tecnologia;
6) Investimento no pleno emprego e no trabalho decente, aproveitando todo o potencial produtivo da força de trabalho e mantendo o desemprego e o subemprego em níveis baixos, além de baixos níveis de violência;
7) Criação de políticas visando combater as desigualdades sociais e garantindo um baixo índice de Gini de desigualdade de renda. Forte presença do Estado nas políticas públicas, mas sem sufocar a livre iniciativa e a eficiência alocativa do mercado;
8) Estabilidade econômica, com inflação sob controle, baixas taxas de juros, câmbio competitivo e facilidade na organização empresarial, além de sinergia entre as diversas forças do sistema produtivo.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Referências:
Fernando Fajnzylber. “Reflexiones sobre la industrialización exportadora del Sudeste Asiático”, REVISTA DE LA CEPAL N.° 15 / Diciembre de 1981

John Page. The East Asian Miracle: Four Lessons for Development Policy. NBER, Jan 1994

André Nassif. Estratégias de Desenvolvimento em Países de Industrialização Retardatária: Modelos Teóricos, a Experiência do Leste Asiático e Lições para o Brasil, Revista do BNDES, Rio de Janeiro, V. 12, N. 23, P. 135-176, Jun. 2005


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 27/02/2019