"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 6 de abril de 2019

Os sete maiores países da África

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves



população dos sete maiores países da África

Os sete maiores países da África, em termos demográficos, no ano de 2018, eram Nigéria (196 milhões de habitantes), Etiópia (108 milhões), Egito (99 milhões), República Democrática do Congo (84 milhões), Tanzânia (59 milhões), África do Sul (57 milhões) e Quênia (51 milhões).
Mas como mostra o gráfico acima, com dados da projeção média da Divisão de População da ONU, esta ordem vai mudar nos próximos 40 anos. A Nigéria continuará sendo o país mais populoso da África e será o terceiro mais populoso do mundo até 2045, quando terá 371 milhões de habitantes. A Etiópia, com 179 milhões em 2045, continuará sendo o segundo país africano em termos populacionais. A República Democrática do Congo alcançará o terceiro lugar (177 milhões) em 2045, ultrapassando o Egito que deverá ficar com 146 milhões (quarto lugar). A Tanzânia com 123 milhões ficará em quinto lugar. O Quênia, com 88 milhões de habitantes em 2045 ficará em sexto lugar e a África do Sul, com 71 milhões, cairá para o sétimo lugar. Em 2015, os 7 países, em conjunto, tinham uma população de 607 milhões e devem saltar para 1,16 bilhão de habitantes em 2045.
Em termos econômicos, segundo dados do FMI, em poder de paridade de compra (ppp), o país que tinha o maior Produto Interno Bruto (PIB) do continente, em 1980, era a África do Sul (US$ 135 bilhões). Em segundo lugar vinha o Egito (US$ 91 bilhões). O FMI não tem dados para a Nigéria na década de 1980 (mas provavelmente ela estava em terceiro lugar). A RD Congo vinha em quarto lugar com US$ 20 bilhões. O Quênia (com US$ 16 bilhões) estava em quinto, a Tanzânia com 11 bilhões estava em sexto e a Etiópia com US$ 10,7 bilhões estava em sétimo lugar. Em 1990 esta ordem não tinha mudado.
Mas em 2020, o FMI aponta o Egito em primeiro lugar, com PIB de US$ 1,5 trilhão, a Nigéria em segundo (US$ 1,3 trilhão) e a África do Sul, com US$ 857 bilhões em terceiro lugar. Em quarto lugar, com PIB de US$ 271 bilhões, aparece a Etiópia (que em 1980 estava em sétimo lugar). A Etiópia é, ao longo dos anos 2000, o país com maior crescimento econômico do continente africano e pode ultrapassar a África do Sul nos próximos 20 anos. Em quinto lugar a Tanzânia (US$ 209 bilhões), em sexto o Quênia com PIB de US$ 206 bilhões e em sétimo a RD do Congo com somente US$ 82 bilhões. No conjunto, os sete maiores países da África terão um PIB de US$ 4,4 trilhões em 2020 (equivalente ao PIB da Indonésia).

PIB dos sete maiores países da África

O país com a maior renda per capita é a África do Sul, que manteve um nível acima de US$ 10 mil durante quase todo o período entre 1980 e 2020, mas teve uma renda praticamente estagnada e deve ser ultrapassada pelo Egito em 2020, com renda pouco acima de US$ 12 mil (o Brasil deve ter uma renda per capita de US$ 15 mil em 2020). Em terceiro lugar vem a Nigéria, com renda entre US$ 6 mil e US$ 5 mil na última década (mas com viés de baixa). Em quarto e quinto lugares aparecem o Quênia (US$ 3,5 mil) e a Tanzânia (US$ 3,4 mil), em 2020. Em sexto lugar está a Etiópia com renda per capita de US$ 2,4 mil, em 2020 (embora seja o país que apresenta o maior crescimento da renda per capita). Por último, aparece a República Democrática do Congo com somente US$ 741 mil, em 2020.
Em geral, os países com maiores taxas de crescimento demográfico são os que apresentam menor crescimento da renda per capita, com exceção da África do Sul, que apresenta as menores taxas de crescimento, tanto da população, quanto da economia. O melhor desempenho nas duas últimas décadas é da Etiópia, que é chamada a “China da África”. A República Democrática do Congo tem o pior desempenho e é claramente um país preso na armadilha da extrema pobreza. Quênia e Tanzânia também são países presos à armadilha da pobreza e a Nigéria é o país com o maior número absoluto de pessoas em situação de pobreza e de extrema pobreza.

renda per capita dos sete maiores países da África

Dos sete maiores países da África, nota-se uma tendência de alto crescimento demográfico (com exceção da África do Sul) e de baixo crescimento econômico (com exceção da Etiópia nas duas últimas décadas). A população destes sete países vai, praticamente, dobrar até 2045, trazendo sérios desafios para a redução da pobreza e para a conservação do meio ambiente. A África do Sul e o Egito lutam para atingir o estágio de renda média, enquanto os demais países lutam para sair da pobreza e a República Democrática do Congo luta para abandonar a situação de extrema pobreza.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 05/04/2019

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Memória, mito e 'pós verdade'

Na era da "pós-verdade", a história não é mais o que costumava ser - o que torna a solução dos problemas do presente muito mais difícil.

por Peter Verovšek

pós-verdade
Peter Verovšek
A memória coletiva sempre foi um campo de batalha político simbólico. Historiadores e políticos há muito estão cientes de que as representações compartilhadas do passado restringem as escolhas políticas no presente moldando os horizontes comunais de expectativa do futuro. A ligação entre memória e identidade ajuda a explicar a importância das crônicas oficiais da história, bem como as tentativas de esquecer os acontecimentos através das práticas ativas da damnatio memoriae (apagamento de figuras antigas da história), que remontam ao mundo antigo.
política da memória desempenhou um papel especialmente importante na construção e manutenção da Europa do pós-guerra. Após a Segunda Guerra Mundial, o " medo de uma recaída política" do fascismo e os horrores do Holocausto precipitaram uma ruptura que forçou os europeus a ter uma visão reflexiva de sua história. Em vez de reprimir essas dolorosas experiências, comunidades de todo o continente se engajaram em práticas ativas de memória coletiva, tratando o passado recente como um imperativo moral e político de mudança. Em contraste com o modo de lembrança tradicional, baseado em histórias de glórias compartilhadas, depois de 1945 a Europa procurou unificar suas divisões históricas recusando-se a silenciar ou esquecer as experiências de sua era de guerra total.
Resumindo essa política de "nunca mais" e a abordagem européia do pós-guerra à lembrança mais generalizada, Norbert Lammert, o ex-presidente do Bundestag alemão, observou em 2007 que o passado não poderia ser superado - que era "um pré-requisito para o presente" e lidar com a história… é uma responsabilidade política, isto é, compartilhada ”. Nesse sentido, a UE e a ordem jurídica e política européia do pós-guerra se baseiam na compreensão de que preservar a memória é vital para a democracia .

Legislando por um passado glorioso

Nos últimos anos, no entanto, essa abordagem reflexiva da história do continente está cada vez mais sob ataqueEntre suas outras conseqüências, o retorno do populismo resultou na disseminação da legislação que reforça imagens positivas do glorioso passado nacional.
Mais notavelmente, em 2018 o parlamento polonês aprovou uma lei de memória que impõe uma sentença de prisão de até três anos a qualquer um que 'acuse publicamente e contra os fatos, a nação polonesa, ou o estado polonês, de ser responsável ou cúmplice de crimes nazistas cometidos pelo Terceiro Reich alemão ... ou quaisquer outros crimes de guerra, crimes contra a humanidade ou crimes contra a paz ". O presidente, Andrzej Duda, afirmou que o projeto de lei - que proíbe o uso de frases como "campos de extermínio poloneses" - procurou garantir a "dignidade e a verdade histórica" ​​da Polônia.
Voltando a um modelo heroico de história e identidade, tais tentativas de legislar a história militarizam o passadoAo espalhar histórias míticas de uma "idade de ouro" que foi traída, essas leis glorificam a "verdadeira nação" ao retratar seus oponentes domésticos como traidores antipatrióticos. Externamente, essas narrativas de vitimização são usadas para culpar os problemas contemporâneos da União Européia e seus ' valores universais de dignidade humana, liberdade, igualdade e solidariedade'.
The National Avowal ' contida na nova constituição da Hungria de abril de 2011 é um bom exemplo. Referindo-se às ações míticas de Santo Estêvão e expressando orgulho pelo fato de que o povo húngaro defendeu a Europa em uma série de lutas contra o império otomano, termina com um apelo para "promover e salvaguardar nossa herança", prometendo "tornar a Hungria grande novamente".
Rejeitando o quadro europeu de memória e enfatizando a suposta "virtude do nacionalismo", tais dispositivos desafiam o sistema transnacional de integração européia, argumentando por um retorno ao Estado-nação e às práticas tradicionais de recordação.

Política da 'pós verdade

A lei de memória da Polônia, a constituição da Hungria e legislação similar para proibir referências ao genocídio armênio na Turquia são parte do movimento mais amplo em direção a uma política de pós-verdadeEnquanto essas medidas fetichizam o passado, não é o passado real que é fetichizado. Por exemplo, a pesquisa histórica estabeleceu, sem sombra de dúvida, que os "homens comuns" poloneses desempenharam um papel fundamental no Holocausto e que a "realocação" do governo turco de suas populações armênias qualificou-se como genocídio avant la lettreAo alegar preservar a "verdade histórica", portanto, eles são, na verdade, parte de um ataque mais amplo à realidade por parte de líderes que usam os chamados " fatos alternativos ".
O uso da legislação para minar os entendimentos compartilhados do passado é mais perigoso do que parece. Além de sua divisão política imediata no país e no exterior, essas "histórias inventadas" subvertem o que Hannah Arendt chamou de "mundo comum" - a base factual compartilhada e os pressupostos de que uma comunidade precisa se engajar no debate político. Sem uma compreensão compartilhada da realidade, as discussões políticas na esfera pública são substituídas por desconfiança e raiva. Ao incorporar essas narrativas históricas na lei, os populistas de hoje procuram usar a educação pública e as instituições do Estado para difundir falsas narrativas da história.
Essa é uma técnica muito poderosa, porque, como observou Arendt , “o que convence as massas não são fatos, nem mesmo fatos inventados, mas apenas a consistência do sistema do qual supostamente fazem parte. Repetição ... só é importante porque os convence da consistência no tempo. Ao destruir a base factual do debate político, as abordagens da história pós-verdade aprofundam as divisões internas e fortalecem as bolhas da mídia, garantindo que diferentes grupos dentro da sociedade não compartilhem mais da mesma história. Ao fazê-lo, eles ameaçam reacender ressentimentos históricos em nível internacional, destruindo a base comum européia do debate histórico e da solução de problemas.

'Ação em concerto'

A ordem européia do pós-guerra e o projeto de integração buscaram trazer paz e segurança para o continente, criando uma abordagem reflexiva da memória baseada nas " demandas morais da memória" contidas nas atrocidades do passado. Embora essa estrutura compartilhada não apagasse as formas locais de recordação, mediava o passado por meio de uma arena supranacional, na qual entendimentos divergentes do passado poderiam ser resolvidos pacificamente por meio do diálogo. Ao enfatizar essa pluralidade - a condição fundamental para a política, segundo Arendt -, essa abordagem procurou criar as condições para a "ação em conjunto" no nível europeu.
Ao ameaçar o sistema político supranacional, essa abordagem do passado tornou possível essas recentes tentativas de legislar o passado minando a paz, bem como a capacidade do continente de enfrentar os problemas globais mais urgentes da atualidade. Da migração à mudança climática ao poder crescente dos mercados financeiros internacionais, todas as crises do presente requerem cooperação além do estado-nação . Agora é a hora para uma maior reflexividade e abordagens mais pós-nacionais do passado - não um retorno às histórias nacionais de glória, divisivas e tradicionais promovidas pelas leis da memória.

Peter J Verovšek é professor assistente de política / relações internacionais na Universidade de Sheffield. O seu trabalho centra-se no pensamento político continental do século XX, na teoria crítica, na memória colectiva e na política europeia.

Banco Mundial: fragilidade econômica afeta indicadores sociais na América Latina e Caribe

Segundo novo estudo, neste ano, expectativa de crescimento lento para região deverá continuar influenciando as taxas de pobreza e desemprego; 

O Banco Mundial divulgou nesta quinta-feira, em Washington, a previsão de crescimento de 2,2% para a economia brasileira em 2019. O percentual é maior que o 1,1% obtido em 2018, mas a instituição ainda define como lenta a recuperação econômica do país após a recessão de 2015.
A fragilidade econômica na Argentina, no Brasil e no México estão entre os motivos que explicam o crescimento lento na região, by Divulgação / Prefeitura de Santos














Os dados vêm do relatório semestral do economista-chefe para a América Latina e o Caribe, Carlos Végh. Segundo o documento, a região teve crescimento de 0,7%, o que foi menor que o esperado em 2018.
Para este ano, a previsão é de 0,9%. Entre os motivos que explicam esse desempenho está a fragilidade econômica na Argentina, no Brasil e no México. Além disso, a forte queda no preço do petróleo, do cobre e de outras matérias-primas importantes para a região no fim de 2018.

Pobreza e Dezemprego

Como mostram alguns números coletados nos últimos anos, tais fatores impactam os indicadores de pobreza e desemprego da região.
O Brasil tem um peso especial. Entre 2014 e 2017, por exemplo, foi um período de desaceleração e recessão e o país teve aumento de 3 pontos percentuais na pobreza monetária. Essa medida leva em conta a quantidade de pessoas vivendo com menos de US$ 5,50 por dia.
O resultado elevou ligeiramente as taxas de pobreza para a América Latina e o Caribe no período.
Quando o contexto econômico é difícil, as políticas de proteção social e redistribuição de renda se tornam ainda mais importantes. Por isso, o estudo recomenda expandi-las.
Essas políticas são comuns em países desenvolvidos, mas ainda pouco difundidas na América Latina e Caribe. Em 2018, por exemplo, de 15 países da região, apenas 6 tinham seguro-desemprego como parte do sistema de seguridade social.

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Golpe de 64 pra idiotas

Resultado de imagem para ditadura militar

O idiota mor da República há algum tempo afirma que não houve golpe em 1964 no Brasil por ter sido cassado o mandato de João Goulart. Isso se deve ao fato de a legislação da época ser similar à atual, na Carta de 1946 o mandato presidencial durava 5 anos, em vagando o cargo presidencial depois de decorrida a metade do período a eleição seria indireta, feita pelo Congresso. 

Jango era o vice que havia assumido em decorrência da renúncia de Jânio Quadros em 1961, quando ele fugiu de Brasília e da presidência na madrugada de 31 de março para 1º de abril o cargo máximo da nação fora declarado vago pelo presidente do Congresso Nacional, o senador Auro de Moura Andrade, tendo sido dada a posse do presidente da Câmara dos deputados, Raniere Mazzilli.



Provisoriamente na presidência Mazzilli convocou a eleição indireta em que concorreram três militares, o General Castelo Branco, o General e ex-presidente Eurico Gaspar Dutra e Juarez Távora, que havia participado da Coluna Prestes. Eleito, Castelo promete deixar o poder a 31 de janeiro de 1966, a data da Constituição de 1946, ou seja, tudo fora feito para afastar Jango, mas manter intacta o regime então em vigor. 



Seriam realizadas eleições em 1965 onde despontava como favorito para retornar ao cargo o ex-presidente Juscelino Kubitschek , que já possuía até slogam de campanha: JK 65, outro nome seria o de Carlos Lacerda, então governador do estado da Guanabara.

Carlos Lacerda e JK apoiaram o movimento que se operacionalizara a partir da Operação Popeye, liderada pelo General Mourão, outro, não o atual vice presidente, evidentemente.

O núcleo político civil apoiador da expulsão de Jango seria traída por Castelo que não entregou o cargo na data constitucional atrapalhando os planos dos pretendente ao Planalto, um espécie de "Golpe dentro do golpe", em referência ao golpe dado por Getúlio em 1937 que instituíra o Estado Novo.

Isso propiciou em 1968 um fato inacreditável para a política da época, isso foi a União de Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek e João Goulart pela volta das eleições, a chamada Frente Ampla. Lacerda que tentara impedir a posse de JK em 56 e que fora decisivo na derrubada de Jango se unia aos inimigos ao ser traído pelos militares.



A Ditadura decorrente do Golpe de 64 tentou o tempo todo manter um simulacro de legalidade, por isso que o líder militar da "revolução" só assumiu depois de feita a eleição indireta. Auro de Moura declarou a presidência vaga por ser aliado do movimento. Foi uma tomada sem resistência e não foi um regime totalitário, um regime cínico, as arbitrariedades procuravam ser encobertas, um regime também de roubos, inclusive nas frentes de trabalho no nordeste, favorecimentos de políticos e empresários.


Sombra — uma parábola, de Edgar Allan Poe

Resultado de imagem para Edgar Allan Poe

Sim! Embora eu caminhe pelo vale da Sombra.
Salmo de Davi
 
Vocês, que me leem, estão ainda entre os vivos, mas eu, que escrevo, desde há muito ingressei no reino das sombras. Pois, em verdade, coisas estranhas acontecerão, e coisas secretas serão reveladas, e muitos séculos decorrerão antes de os homens terem conhecimento destas memórias. E, quando o tiverem, mostrarão uns descrença, outros dúvida; poucos hão de achar sobre que refletir nas palavras aqui traçadas com pena de ferro.


Foi um ano de terror, e de sentimentos mais intensos que o terror. Sentimentos para os quais até hoje não se achou nome apropriado. Muitos prodígios e sinais haviam ocorrido; em toda parte, sobre mar e terra, a pestilência estendera suas asas negras. Para aqueles versados nos astros, não passara despercebido o aspecto mórbido dos céus. Para mim, Oinos, o grego, assim como para outros, era óbvio que ocorrera a alteração do ano 794 quando, à entrada de Áries, o planeta Júpiter põe-se em conjunção com o rubro anel do terrível Saturno. O espírito peculiar dos céus, se não me engano demais, evidenciava-se não só na órbita física da Terra, como também nas almas, nas imaginações, nas meditações da humanidade.


Ao redor de algumas garrafas de rubro vinho de Quios, entre as quatro paredes de um nobre vestíbulo numa cidade sombria chamada Ptolemais, estávamos sentados, um grupo de sete, à noite. Para nossa câmara não havia outra entrada além de alta porta de bronze, trabalhada pelo artífice Corinos. Fruto de hábil artesanato, fora aferrolhada por dentro. Cortinas negras ocultavam-nos a vista da lua, das estrelas lúridas, das ruas despovoadas, embora não excluíssem o pressentimento e a lembrança do flagelo. Havia coisas à nossa volta das quais não posso dar fiel testemunho — coisas materiais e espirituais — a atmosfera pesada — a sensação de sufocamento — ansiedade — e, sobretudo, aquela terrível condição de existência experimentada pelas pessoas nervosas, quando os sentidos estão vividamente aguçados e o poder de reflexão jaz adormecido. Um peso morto acabrunhava-nos. Oprimia nossos ombros, o mobiliário da sala, as taças de que bebíamos. Todas as coisas estavam opressas e prostradas; todas as coisas, exceto as sete lâmpadas de ferro a iluminar nossa orgia. Elevando-se em filetes de luz, queimavam pálidas e imóveis. No espelho que seu brilho formava sobre a mesa redonda de ébano, cada um de nós revia a palidez do próprio rosto, e um brilho inquieto nos olhos baixos dos demais. Mesmo assim, ríamos e nos alegrávamos de modo histérico; cantávamos as doidas canções de Anacreonte; bebíamos generosamente, embora o vinho nos recordasse o sangue. Pois, além de nós, havia outra pessoa na sala — o jovem Zoilo. Morto, deitado de comprido, ali jazia amortalhado — o gênio e o demônio da cena. Mas, ai, não participava de nossa alegria, salvo pela face, retorcida pela doença, e pelos olhos, nos quais a morte extinguira apenas a meio o fogo da pestilência, e que pareciam, face e olhos, ter por nossa diversão o mesmo interesse que têm os mortos pelas diversões dos prestes a morrer. Embora eu, Oinos, percebesse estarem os olhos do cadáver fixos em mim, ainda assim tentava ignorar-lhes a amargura e, contemplando firmemente as profundezas do espelho de ébano, cantava em voz alta e sonora as canções do filho de Teios. Aos poucos, porém, acabaram-se minhas canções, e os ecos, perdendo-se por entre os negros reposteiros da sala, enfraqueceram, tornaram-se indistintos, calaram-se de todo. Mas, ai, dos mesmos reposteiros por onde se perderam os ecos das canções, emergiu uma sombra escura e indefinível — a mesma sombra que a lua, quando baixa nos céus, desenharia de um homem sobre o chão. Aquela, porém, não era sombra de homem, nem de Deus, nem de coisa alguma conhecida. Tremulando um instante nos reposteiros do quarto, estendeu-se em seguida sobre a superfície da porta de bronze. Mas a sombra era vaga, e sem forma, e indefinida, não era sombra de homem nem de Deus — nem do Deus da Grécia, nem do Deus da Caldeia, nem de qualquer Deus egípcio. E a sombra jazia sobre o brônzeo portal, sob a cornija arqueada, e não se movia, nem dizia palavra: permanecia imóvel e muda. E a porta sobre a qual jazia a sombra, se bem me lembro, estava encostada aos pés do jovem Zoilo amortalhado. E nós, os sete ali reunidos, tendo visto a sombra sair de entre os reposteiros, não ousávamos encará-la; desviávamos os olhos, mirávamos fixamente as profundezas do espelho de ébano. Por fim, eu, Oinos, articulando algumas palavras surdas, indaguei da sombra qual era seu nome e morada. E a sombra respondeu:


— Eu sou a sombra. Minha morada fica perto das catacumbas de Ptolemais, junto daquelas sombrias planícies de Helusion que bordejam o canal sujo de Caronte.


E então nós, os sete, erguemo-nos de nossas cadeiras, horrorizados, trêmulos, enregelados, espavoridos. Porque o tom de voz da sombra não era o tom de voz de nenhum ser individual, mas de uma multidão de seres, e, variando de cadência, de sílaba para sílaba, ecoou confusamente aos nossos ouvidos, com os acentos familiares e inesquecíveis das vozes de milhares de amigos mortos.
 

“Shadow — A parable”, 1835

O mundo não é plano: convergência e divergência de renda entre as regiões

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

renda per capita por nível de desenvolvimento

O livro “O Mundo é Plano: Uma História Breve do Século XXI”, de Thomas Friedman, de 2005, considera que o mundo é “plano” no sentido em que as condições de competição entre os países desenvolvidos e os países em desenvolvimento estão ficando mais nivelados, o que abre a oportunidade para uma convergência da renda per capita entre os países e as regiões, evidenciando o lado bom da globalização.
Segundo o professor e prêmio Nobel de economia, Michael Spence (2012), antes de 1750, por milhares de anos, o crescimento econômico era insignificante em todo o mundo. A maioria da população mundial era pobre (havia algumas elites ricas) e em alguns lugares havia uma pequena classe média orientada para o comércio. Mas por volta de 1750, a Inglaterra começou uma nova trajetória, a da Revolução Industrial. Os níveis de renda per capita começaram a melhorar. O crescimento acelerou e, pela primeira vez na história recente, o desenvolvimento se tornou duradouro. Durante o século XIX, o padrão se espalhou rapidamente para a Europa continental e depois para os Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia. A Revolução Industrial se expandiu por dois séculos, até a Segunda Guerra Mundial, e provocou um processo de divergência da renda, isto é, alguns países ficaram muito mais ricos do que o resto do mundo. A mudança drástica no modelo de crescimento, entre 1750 e 1950, limitou-se ao que hoje entendemos como países avançados ou industrializados (ou, às vezes, maduros). Isso afetou a vida de quase 15% da população do planeta.
Após a Segunda Guerra Mundial, o modelo começou a mudar novamente, embora no início fosse difícil perceber que era realmente uma megatendência. Os países do mundo em desenvolvimento começaram a crescer. No início muito lentamente e apenas em algumas áreas isoladas. Então o avanço começou a se espalhar e acelerar. Quando, a partir da década de 1980, a China e a Índia (os dois países mais populosos do mundo) iniciaram uma fase de rápido crescimento econômico, a convergência da renda, em nível internacional, passou a ficar clara. É o que Michael Spence chama de nova convergência.
Considerando o gráfico acima, nota-se que houve, de fato, um processo de convergência entre a renda per capita (em poder de paridade de compra – ppp) dos países desenvolvidos (economias avançadas) e dos países em desenvolvimento (economias emergentes) nas últimas 4 décadas. A renda per capita dos primeiros era de US$ 23,7 mil em 1980, passou para US$ 45,8 mil em 2018 e deve chegar a US$ 48,9 mil em 2023, segundo as estimativas do FMI. Já a renda per capita dos segundos era de US$ 3,6 mil em 1980, passou para US$ 11,1 mil em 2018 e deve chegar a US$ 13,4 mil em 2023. A renda per capita das economias avançadas era 6,5 vezes maior do que a das economias emergentes em 1980 e deve cair para 3,7 vezes em 2023. Portanto, a despeito das desigualdades, a diferença de renda diminuiu entre 1980 e 2023, o que mostra um processo de convergência.
Todavia, este processo de convergência não acontece em todas as regiões do mundo em desenvolvimento. O gráfico abaixo mostra que a Europa emergente (que reúne 12 países: Albânia, Bósnia e Herzegovina, Bulgária, Croácia, Hungria, Kosovo, Macedônia, Montenegro, Polônia, Romênia, Servia e Turquia) tinha uma renda per capita de US$ 10,1 mil em 1980 e deve chegar a US$ 28,1 mil em 2023, crescendo 2,8 vezes (mais do que o crescimento de 2,1 vezes das economias avançadas). Já a Ásia emergente ou em desenvolvimento que reúne 30 países (Bangladesh, Butão, Brunei, Camboja, China, Fiji, Índia, Indonésia, Kiribati, Laos, Malásia, Maldivas, Ilhas Marshall, Micronésia, Mongólia, Mianmar, Nauru, Nepal, Palau, Papua-Nova Guiné, Filipinas, Samoa, Ilhas Salomão, Sri Lanka, Tailândia, Timor-Leste, Tonga, Tuvalu, Vanuatu e Vietnã) tinha uma renda per capita de somente R$ 1,3 mil em 1980 e deve chegar a US$ 14,4 mil em 2023, um crescimento de 11 vezes no período. Estas duas regiões estão em processo de convergência com os países ricos e desenvolvidos.

renda per capita por regiões em desenvolvimento

A Comunidade dos Estados Independentes (CIS na sigla em inglês) que reúne 11 Repúblicas da ex-URSS (Armênia, Azerbaijão, Bielorrússia, Cazaquistão, Quirguistão, Moldávia, Rússia, Tajiquistão, Turcomenistão, Ucrânia, Uzbequistão) tinha uma renda per capita de US$ 12 mil em 1992 e deve chegar a US$ 20,1 mil em 2023, apresentando um crescimento próximo do crescimento das economias avançadas. Neste caso, houve estabilidade, ou seja, nem convergência ou divergência.
A América Latina e Caribe (ALC) tinha uma renda per capita de US$ 10,7 mil em 1980 e deve chegar a US$ 15,9 mil em 2023, um aumento de 1,5 vezes (menor do que os 2,1 vezes das economias avançadas). Neste caso, há divergência, pois o crescimento da renda per capita da ALC acontece em ritmo inferior às economias desenvolvidas.
As outras duas regiões também apresentam divergência no processo de crescimento da renda. Os países do Oriente Médio e do Norte da África (MENA) tinham uma renda per capita de US$ 15,2 mil em 1980 e deve chegar a R$ 18,5 mil, um aumento de 1,5 vezes. A África Subsaariana – que tinha uma renda per capita maior do que da Ásia emergente, passou de US$ 2,7 mil em 1980 e deve chegar a US$ 3,9 mil em 2023, um aumento de 1,4 vezes.
Portanto, a ALC, a MENA e a África Subsaariana estão aumentando a distância em relação às economias mais ricas (vivem um processo de divergência de renda na globalização). A CIS mantém aproximadamente a mesma distância em relação às economias mais ricas. E a Europa emergente, mas principalmente a Ásia emergente, estão em processo de convergência com as economias mais ricas.
O gráfico abaixo mostra a percentagem da renda per capita (preços constantes em ppp) das diversas regiões em relação à renda per capita das economias desenvolvidas. Nota-se que as regiões com linhas cheias tiveram ganhos no período 1980 a 2023 e as regiões com linhas pontilhadas tiveram perdas. A Europa emergente tinha 43% da renda das economia avançadas em 1980 e deve chegar a 57,4% em 2023.

percentagem da renda per capita das regiões em relação às economias avançadas

A Ásia emergente tinha somente 5,5% da renda das economias avançadas em 1980 e deve chegar a 29,5% em 2023. As Repúblicas da ex-URSS (CIS) tiveram uma estabilidade, pois tinham 38,6% da renda das economias avançadas em 1992 e devem chegar a 41,2% em 2023. Estas são as verdadeiras economias emergentes, pois estão ganhando terreno em relação às economias mais avançadas num processo de convergência.
Mas as demais regiões estão apresentando um processo de divergência e submergência. Os países do Oriente Médio e do Norte da África (MENA) tinham uma renda per capita que representava 64,4% da renda das economias avançadas em 1980 e deve ter apenas 37,8% em 2023. A América Latina e Caribe (ALC) tinha uma renda per capita que representava 45,3% da renda das economias avançadas em 1980 e deve ter apenas 32,4% em 2023. E a África Subsaariana que tinha uma renda per capita que representava 11,6% da renda das economias avançadas em 1980, deve ter apenas 7,9% em 2023. Portanto, estas 3 regiões estão se empobrecendo em termos relativos e aumentando a distância em relação as economias mais ricas do mundo.
O contraste entre as regiões em desenvolvimento é maior entre a Ásia emergente e a África Subsaariana. A primeira tem quase a metade da população mundial, mas está avançada na transição demográfica. Assim, a Ásia emergente terá uma população em decrescimento relativo e uma economia em crescimento absoluto e relativo e pode convergir com as economias avançadas ao longo do século XXI. Já a África Subsaariana tem uma renda per capita em declínio relativo e uma população em acelerado crescimento. Isto quer dizer que a Ásia emergente deve reduzir a pobreza, enquanto a África Subsaariana pode ficar presa à “armadilha da pobreza”. A renda estagnada num quadro de crescimento demográfico é uma receita para um grande desastre.
O fato é que a globalização não trouxe benefícios generalizados. A Ásia emergente conseguiu ganhos significativos na medida em que construiu uma inserção soberana no processo de globalização e conquistou um ritmo de aumento da renda per capita que converge para o nível das economias mais ricas e avançadas do mundo. Já a América Latina e a África são continentes em que a renda diverge dos países desenvolvidos e são regiões, com baixo grau de complexidade da estrutura produtiva, que estão em um processo submergente.
Isto quer dizer que o mundo não é totalmente plano e nem convergente. Existem regiões que estão ficando mais pobres em termos relativos. A ALC deve ficar presa na “armadilha da renda média” e pode ficar cada vez mais distante da Ásia emergente. O caso mais grave é da África Subsaariana que deve chegar em 2100 com cerca de 4 bilhões de habitantes (quase 40% da população mundial) e uma renda per capita cada vez mais distante daquela da América do Norte, da Europa, da Oceania e da Ásia emergente.
Um contingente tão grande de pessoas presas na “armadilha da pobreza” pode ser uma bomba relógio que sinalize para uma erupção de uma grande crise social.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Referências:
Friedman,Thomas. O mundo é plano: uma história breve do século XXI, Companhia das Letras, 2005 https://pt.slideshare.net/lrasquilha/o-mundo-plano-thomas-friedman

Spence, Michael. The Next Convergence: The Future of Economic Growth in a Multispeed World, Farrar, Straus and Giroux, 2012


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 03/04/2019

quarta-feira, 3 de abril de 2019

A Austrália cresce há 30 anos e tem o 3º IDH, grande contraste com o Brasil

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

A Austrália e o Brasil são dois países continentais, mas com grandes contrastes demográficos e econômicos. A Austrália tem um território de 7,7 milhões de km2 e apresentava uma população de 25 milhões de habitantes em 2018. O Brasil tem um território de 8,6 milhões de km2 e uma população de 208 milhões de habitantes em 2018. A densidade demográfica da Austrália é de apenas 3,2 hab/km2 e do Brasil de 25,2 hab/km2.
Em termos econômicos, a Austrália tem cerca de 30 anos de crescimento relativamente alto e contínuo do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto o Brasil apresentou 5 anos de recessão e um crescimento baixo do PIB, entre 1990 e 2020, segundo dados do FMI. O gráfico abaixo mostra que a Austrália só vivenciou uma recessão (moderada) em 1991. Na média, a Austrália cresceu a 3,1% ao ano durante 30 anos, enquanto o Brasil cresceu em média apenas 2,3% ao ano, no mesmo período.

variação anual do PIB da Austrália e do Brasil

Em termos de renda per capita o contraste é ainda maior. O gráfico abaixo mostra que o Brasil é um país de renda per capita média e que apresentou um crescimento pequeno entre 1990 e 2010 e uma estagnação entre 2010 e 2020. Já a Austrália já era um país de renda alta em 1990 e manteve o crescimento nos 30 anos seguintes.
A renda per capita da Austrália era de US$ 29,1 mil (em poder de paridade de troca – ppp na sigla em inglês) em 1990 e passou para US$ 46,5 mil em 2018, devendo chegar a US$ 47,8 mil em 2020. No Brasil, a renda per capita era de US$ 10,5 mil em 1990, passou para US$ 14,4 mil em 2018 e deve chegar a US$ 14,9 mil em 2020. A Austrália tinha uma renda per capita 2,7 vezes a Brasileira em 1990 e deve acançar 3,2 vezes em 2020. O Brasil ficou mais pobre, relativamente, quando comparado com a Austrália no espaço de três décadas.

renda per capita da Austrália e do Brasil

A Austrália parece desmentir a máxima que diz que as recessões periódicas são inevitáveis, semelhante ao sol que nasce e se põe, ou como as marés num indo e vindo infinito. Em geral a economia se expande por cerca de uma década e depois se contrai. Mas no maior país da Oceania, a atual expansão do país está chegando próximo ao aniversário de 30 anos e tem sido a expansão mais longa da história moderna, levando alguns comentaristas a falar em “economia milagrosa”.
Na verdade a Austrália contou com estabilidade econômico-política, localização geográfica e com políticas públicas capazes de enfrentar os ciclos econômicos como a crise asiática do final da década de 1990 e a grande recessão mundial gerada a partir da quebra do banco Lehman Brothers, em 2008.
A primeira característica é que a Austrália sempre teve inflação baixa e não passou por uma situação de endividamento das famílias e nem crise séria do setor imobiliário (suprime). Combateu corretamente as recessões com políticas fiscais e monetárias adequadas. Apesar de ter uma população pequena e taxas de fecundidade abaixo do nível de reposição, o país se abriu à imigração e mais de um quarto dos australianos nasceram no exterior, o dobro da taxa nos Estados Unidos ou na França. A Austrália também se beneficiou de estar em uma região geográfica de rápido desenvolvimento, próximo ao Vietnã, Indonésia, Filipinas e especialmente da China. O comércio entre a China e a Austrália aumentou dez vezes nos anos 2000, além de contar com investimentos chineses de alto vulto. Por fim, a Austrália investiu muito em educação e saúde e possui o 3º maior IDH do mundo (0,939 em 2017).
Já o Brasil optou por enfrentar a crise de 2008/09 com políticas de estímulo fiscal expansionistas sem criar as bases de sustentação da dívida e sem garantir investimentos adequados em termos de custo/benefício. Tendo baixas taxas de poupança e investimento, o Brasil não conseguiu incrementar a produtividade dos fatores de produção e gerou um desequilíbrio fiscal que só se agravou com a mais profunda e longa recessão da história tupiniquim (2014-2016).
O Brasil vive a sua segunda década perdida e está preso na armadilha da renda média. Tudo indica que a distância entre a Austrália e o Brasil vai aumentar ainda mais nas próximas décadas.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 01/04/2019

Os países em desenvolvimento são o motor da economia internacional

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves


economias avançadas versus economias em desenvolvimento

Os países desenvolvidos (ou economias avançadas na terminologia do FMI) representavam quase dois terços da economia global, enquanto os países em desenvolvimento ficavam com pouco mais de um terço do PIB global, no passado recente.
As economias avançadas (representadas por 39 países: Alemanha, Austrália, Áustria, Bélgica, Canada, Coreia do Sul, Chipre, República Checa, Dinamarca, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Estônia, EUA, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Hong Kong, Irlanda, Islândia, Israel, Itália, Letônia, Lituânia, Luxemburgo, Japão, Macau, Malta, Nova Zelândia, Noruega, Porto Rico, Portugal, Romênia, Reino Unido, Singapura, Suécia, Suíça e Taiwan) respondiam por 63,3% do PIB global e o resto do mundo (as economias em desenvolvimento) representavam 33,7% do PIB global, em 1980.
O subconjunto das economias avançadas – o G7 (EUA, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Canadá) respondia por 50,1% do PIB global em 1980, enquanto a Ásia emergente ou em desenvolvimento (30 países: Bangladesh, Butão, Brunei, Camboja, China, Fiji, Índia, Indonésia, Kiribati, Laos, Malásia, Maldivas, Ilhas Marshall, Micronésia, Mongólia, Mianmar, Nauru, Nepal, Palau, Papua-Nova Guiné, Filipinas, Samoa, Ilhas Salomão, Sri Lanka, Tailândia, Timor-Leste, Tonga, Tuvalu, Vanuatu e Vietnã) respondia somente por 8,9% do PIB global no mesmo ano.
Mas a configuração internacional mudou rapidamente nas décadas seguintes. Em 2001, as economias em desenvolvimento, com 43,5% do PIB mundial, ultrapassaram o peso do G7 que tinha 43,4%. Em 2008, as economias em desenvolvimento alcançaram 51,2% do PIB mundial, ultrapassando os 48,8% das economias avançadas. Em 2016, as economias da Ásia emergente atingiram 31,5% do PIB global e ultrapassaram o G7 que tinha 31%. Segundo as estimativas do FMI, em 2023, as economias da Ásia emergente representarão 37,7% do PIB global e ultrapassarão as economias avançadas com 37% do PIB global. O peso da Ásia será indiscutível, pois o Japão e os Tigres Asiáticos (Coreia do Sul, Taiwan, Hong Kong e Singapura) fazem parte dos países desenvolvidos e não da Ásia emergente.
O gráfico abaixo mostra que entre todas as economias em desenvolvimento ou emergentes do mundo, as que ganham participação no PIB global são exatamente aquelas da Ásia emergente, que em 1980 respondia por 8,9% da economia internacional e deve alcançar 35% em 2020. Todas as demais regiões tiveram declínio. Nas 4 décadas entre 1980 e 2020, a América Latina e Caribe (ALC) passou de 12,1% para 7,4% do PIB global. O Oriente Médio e o Norte da África (MENA), mais o Afeganistão e o Paquistão passaram de 9,1% para 7,5% no mesmo período. Os países emergentes da Europa respondiam por 4,1% do PIB global em 1980 e devem ficar com 3,6% em 2020. Os países da Comunidade dos Estados Independentes (Repúblicas da ex-URSS) respondiam por 7% do PIB global em 1992 e devem ficar com 4,3% em 2020. A África Subsaariana deve crescer levemente a participação, passando de 2,4% em 1980 para 3% em 2020.

economias emergentes por região

Todos estes dados mostram que os países em desenvolvimento estão respondendo por uma porção cada vez maior do bolo da produção mundial de bens e serviços, já ultrapassaram os países desenvolvidos desde 2008 e caminham para abocanhar dois terços do PIB global na próxima década. Mas o destaque dos países em desenvolvimento são os países que compõem a Ásia emergente, particularmente a China, a Índia e a Indonésia.
O Leste cresce muito mais rápido do que o Oeste. É por isto que se diz que o século XXI será o século da Ásia. O mundo passa por uma mudança geoeconômica global sem precedentes, com o centro da economia internacional caminhando para a região do sol nascente.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 26/03/2019