"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Mercado chinês pode fazer exportação de melão do RN crescer 30% e gerar mais 3 mil empregos


Um sonho antigo da fruticultura potiguar está mais perto de se tornar realidade. A inserção do melão potiguar no mercado chinês está em fase avançada de tratativas e poderá começar já a partir de maio. A expectativa, de acordo com o presidente da Federação da Agricultura, Pecuária e Pesca do Rio Grande do Norte (Sistema Faern/Senar), José Álvares Vieira, é que o acordo bilateral deve gerar inicialmente três mil empregos diretos no Rio Grande do Norte.

 “Conversando preliminarmente com alguns produtores de melão, 30% de imediato se consegue ampliar na produção e isso representa em torno de três mil empregos diretos”, disse Zé Vieira em entrevista ao Hora Extra da Notícia na 91.9 FM nesta terça-feira (09). O presidente da Faern afirmou ainda que as negociações estão agora em fase de análise sanitária e burocrática.

Zé Vieira esteve na semana passada em um jantar em Brasília com a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, e o embaixador da China. De lá trouxe a notícia que a ministra viajará em maio para a China, quando tentará fechar a negociação. “Nós estamos muito esperançosos de que lá ela já consiga assinar essa abertura desse novo mercado juntamente com o Governo Chinês”, disse Zé Vieira.

O acordo com a China, conforme explicou o presidente do Sistema Faern Senar, teve uma contrapartida. Enquanto o Brasil, por meio do Rio Grande do Norte, exportará melão para o continente asiático, a China exportará a pera ao mercado brasileiro.

Em fevereiro passado a ministra Tereza Cristina esteve em Mossoró, quando Zé Viera a entregou um documento contendo algumas demandas da agricultura potiguar, entre elas o auxílio do Governo Federal para a abertura da fruticultura potiguar ao mercado chinês.

Vieira afirmou ainda que o mercado potiguar já está totalmente adequado às exigências do mercado chinês, no entanto precisa melhorar no quesito infraestrutura.

“O nosso produtor está preparado. E a nossa infraestrutura? Temos estrada? Temos porto? O porto de Natal atende ao aumento da nossa demanda? Aí está um ponto de interrogação e de preocupação”, destaca Vieira.

A mudança geoeconômica global

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

participação do G20, G7, União Europeia, G2, Brics, RIC e Chíndia no PIB global

A mudança geoeconômica global

O mundo está passando por uma mudança geoeconômica e geopolítica de grandes proporções. Nos últimos 40 anos, o mapa mundial das principais economias globais e dos blocos regionais e políticos se alterou com surpreendente rapidez. Como mostra o gráfico acima, com dados do FMI, o G20 (que reúne 19 das maiores economias do mundo mais a União Europeia) mantem o percentual acima de 80% do PIB mundial, apesar da ligeira diminuição de 83,7% em 1980, para 80,4% em 2018.
Porém, o G7 – que reúne as principais economias capitalistas do mundo (EUA, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Canadá) – apresentou uma redução relativa muito acentuada, passando de 51% do PIB global em 1980, para 30,1% em 2018. Em 1980, o G7 era mais do dobro do G12 (os países em desenvolvimento, representados nas colunas do gráfico acima) e tinha uma economia mais de 20 vezes superior à economia da China ou 10 vezes superior à Chíndia (China + Índia). Mas o G7 ficou menor do que o G12 em 2009 e deve empatar com a Chíndia em 2020. Para 2023, a estimativa do FMI é que o G7, com 27,1% do PIB global, será menor do que o G12 com 46,7% e menor do que a Chíndia com 30,3%.
A União Europeia (com 28 Estados-membros: Alemanha, Áustria, Bélgica, Bulgária, Croácia, Chipre, República Checa, Dinamarca, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Estônia, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Hungria, Irlanda, Itália, Letônia, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Polônia, Portugal, Romênia, Reino Unido e Suécia), tinha 29,9% do PIB mundial em 1980 e caiu para 16,3% em 2018, ficando abaixo da participação da China (18,7%) e, consequentemente, abaixo da Chíndia, do RIC (Rússia, Índia e China) e do grupo BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Em 2023, a UE, com 14,8% em relação ao PIB global, deve representar a metade do tamanho da Chíndia (com 30,3%) e três vezes menor do que o G12.
Observa-se uma grande inversão do peso das economias avançadas em relação às economias emergentes nas últimas 4 décadas. Considerando as economias avançadas como sendo o G7 mais a “UE – 4” (UE menos a Alemanha, França, Reino Unido e Itália) e o G12 como as economias em desenvolvimento ou emergentes do grupo G20, nota-se que as primeiras (avançadas) representavam 61,7% do PIB global em 1980, quase 3 vezes superior aos 22% das economias emergentes (G12). No ano 2013, pela primeira vez, as economias emergentes ultrapassaram as economias avançadas e em 2018, elas já representavam 42,9% do PIB global, contra 36,9% das economias avançadas. A estimativa do FMI para 2023 indica o G7 + “UE – 4” com 33,5% e o G12 (economias emergentes do G20) com 46,7% do PIB global. Portanto, mudou a correlação de forças entre os países desenvolvidos e os países em desenvolvimento.
Entre os países emergentes, o grande destaque é o grupo BRICS que no ano 2000 representava 18,7% do PIB global e era quase 3 vezes menor do que as economias avançadas com 52,8% do PIB global, conforme sintetizado na tabela abaixo. Contudo, mostrando a inversão geoeconômica global, o BRICS empatou com o G7 + “UE – 4” em 2018 e deve ficar com 35,9% do PIB global contra 33,5% das economias avançadas. Entre os 5 países do grupo BRICS o destaque é o subgrupo RIC (Rússia, Índia e China) que em 2023 deve empatar com o conjunto das economias avançadas, em torno de 33% do PIB global. E no subgrupo RIC, o destaque é a Chíndia (China + Índia) que até 2023 vai ultrapassar o peso do G7 na economia internacional. Evidentemente, entre todos os países, a nação que apresentou o crescimento mais rápido e o maior salto em termos de desenvolvimento socioeconômico é a China que já superou os EUA e também a União Europeia, sendo o país com o maior PIB do Planeta.

participação do G20, G7, União Europeia, G2, Brics, RIC e Chíndia no PIB global

O fato é que as economias emergentes cresceram muito mais rápido que as economias avançadas nas últimas 4 décadas. O motor do crescimento mundial está localizado nas duas nações mais populosas do mundo – China e Índia – que também já foram as grandes potências do passado, antes do início da Revolução Industrial e Energética. Rússia, Índia e China formam o grupo RIC, que tem uma posição fulcral na Eurásia, contam com uma força de trabalho muito ampla e com amplos recursos naturais. O triângulo estratégico deve forjar uma nova ordem global, reconfigurando as relações internacionais e gerando grandes impactos econômicos e políticos sobre as relações estruturais e sobre a governança global.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 10/04/2019

terça-feira, 9 de abril de 2019

O novo espírito do pós-capitalismo

O capitalismo surgiu nos interstícios do feudalismo e Paul Mason encontra uma prefiguração do pós-capitalismo no mundo da vida da cidade européia contemporânea.

por Paul Mason

espírito do pós-capitalismo
Raval, Barcelona, ​​março de 2019. As ruas estão cheias de jovens (e não apenas estudantes) - sentados, tomando drinks, olhando mais para laptops do que para os olhos, conversando sobre política, fazendo arte, parecendo legais.

Um viajante do tempo da juventude de seus avós pode perguntar: quando acaba a hora do almoço? Mas isso nunca acaba porque, para muitas pessoas em rede, isso nunca começa realmente. No mundo desenvolvido, grandes partes da realidade urbana parecem Woodstock em sessão permanente - mas o que está realmente acontecendo é a desvalorização do capital.
Claro, em algum lugar na periferia de uma cidade grande, há sempre um distrito financeiro onde pessoas uniformizadas, uniformemente vestidas, realizam atividades de trabalho freneticamente e, em suas poucas horas de liberdade, acertam as esteiras de ginástica para que a adrenalina nunca pare.
Mas apenas 20 anos após o lançamento das telecomunicações de banda larga e 3G, a informação ressoa em toda parte na vida social: o trabalho e o lazer tornaram-se confusos; a ligação entre trabalho e salários foi afrouxada; a conexão entre a produção de bens e serviços e a acumulação de capital é menos óbvia.
Pergunte a um economista mainstream o que está acontecendo e eles podem responder 'consumo' ou 'tempo de lazer'. A tese do pós-capitalismo repousa na ideia de que há algo mais do que isso. As redes digitais, que os economistas Schumpterianos presumiram que inaugurariam uma era nova e dinâmica do capitalismo, começaram, em vez disso, a quebrar os padrões tradicionais de quatro maneiras identificáveis.
Em primeiro lugar, há o efeito custo zero-marginal, pelo qual o custo de produção de bens informacionais cai, sob condições de livre mercado e concorrência, para zero - e, como resultado, os custos de produção tanto na fabricação quanto nos serviços também caem.
Segundo, o potencial para a automação decisiva do trabalho físico - 47% dos empregos ou 43% das tarefas, dependendo da pesquisa.
O terceiro é o efeito de rede - o que as corporações de tecnologia experimentam como "retornos crescentes de escala". Em larga escala, as redes criam externalidades positivas, onde os direitos de propriedade sobre a utilidade produzida não são pré-determinados por uma divisão de fábrica entre empregador e trabalhador.
Finalmente, há a potencial democratização da informação em si. Uma falha descoberta em um programa de software hoje à noite pode ser corrigida em todas as instâncias desse software até amanhã de manhã; um erro na Wikipedia pode ser visto e corrigido instantaneamente pela sabedoria das multidões.

Um novo tipo de sistema

projeto pós-capitalista baseia-se na crença de que, inerente a esses efeitos tecnológicos, existe um desafio às relações sociais existentes de uma economia de mercado e, a longo prazo, a possibilidade de um novo tipo de sistema que possa funcionar sem o mercado; além da escassez.
Mas durante os últimos 20 anos, como um mecanismo de sobrevivência, o mercado reagiu criando distorções semipermanentes que - de acordo com a economia neoclássica - deveriam ser temporárias.
Em resposta ao efeito colapso dos preços dos bens de informação, os monopólios mais poderosos já vistos foram construídos. Sete das dez maiores corporações globais por capitalização de mercado são monopólios de tecnologia; eles evitam impostos, sufocam a concorrência através da prática de comprar rivais e constroem “jardins muros” de tecnologias interoperáveis ​​para maximizar suas próprias receitas às expensas de fornecedores, clientes e (por meio de evasão fiscal) do Estado.
Como as máquinas de informação podem substituir os seres humanos mais rapidamente do que criam empregos novos e qualificados, foram criados milhões de empregos mal remunerados que não precisam existir. Em vez de concentrar o trabalho em curtos períodos, para maximizar a produtividade, o enevoamento do trabalho e do lazer foi incentivado e as atividades de consumo (reservar um feriado, marcar uma data, enviar mensagens aos amigos) foram toleradas no tempo de trabalho, porque isso maximiza o consumo e o pessoal. Produção de dados.
Em resposta aos efeitos de rede, um novo modelo - o monopólio da plataforma - surgiu, atraindo bilhões em capital offshore que não podem ser investidos de forma produtiva em outros lugares. Todo o modelo de negócios de tais corporações é cobrar aluguéis econômicos e - como nos outros - estrangular a concorrência, que no caso dos aplicativos de passeio é o tradicional negócio de táxi e o governo da cidade.
Em resposta aos efeitos democratizantes da informação, foram criadas vastas e crescentes assimetrias de informação.
Nem a competição nem a regulamentação até agora impediram esse processo de consolidação e esclerose. Características como monopólio, subemprego, busca de renda e assimetria de informação, assumidas pela economia clássica como temporárias, começaram a parecer exigências permanentes para o setor privado do século XXI. Em vez de uma quarta revolução industrial, foi criado um infocapitalismo parasitário e disfuncional, cujos lucros monopolísticos e comportamento anticompetitivo são tão intrínsecos ao sistema que não podem ser desafiados.

Formas embrionárias

Em uma cidade medieval, as formas embrionárias da sociedade burguesa eram efetivamente invisíveis. Se imaginarmos Paris no século 14 na época da revolta de Etienne Marcel, o poder estava nos grandes hotéis dos senhores feudais provinciais, no mosteiro, nas inúmeras igrejas e na universidade. Juntos, eles formaram uma máquina para administrar e validar a riqueza produzida nas propriedades rurais. O sistema bancário transfronteiriço era efetivamente um serviço secreto, dependente de ordens religiosas para depósitos e contratos futuros complexos para contornar a proibição da usura. Mesmo a burguesia real recusou-se a apoiar a tentativa de Marcel de impor o Estado de direito ao rei, tão estranho que o conceito parecesse.
Mas do ponto de vista de saber o que aconteceu com o feudalismo, podemos ver as guildas, os proto-bancos, as redes de comércio transfronteiriço e o pensamento científico dentro da universidade medieval como uma espécie de "capitalismo em embrião".
Se eu retornar à cena em Barcelona, ​​as mudanças microcósmicas na vida cotidiana agora têm um significado diferente. O tempo livre é um produto do subemprego. Para manter as pessoas atendendo ao capital por meio de pagamentos de juros, aplicativos e comércio eletrônico, elas precisam ter um emprego, um cartão de crédito e um celular - não importa o quão pobres sejam. jovem pobre e rico em informação, subempregado, é o avatar do mal-estar e da possibilidade de uma solução.
As pessoas sobrevivem à criação do que David Graeber chama de "besteiras", obscurecendo o trabalho e o lazer e vivendo frugalmente - porque, embora os monopólios acumulem preços altos para seus produtos, o efeito custo zero-marginal permite que se viva mais barato no mercado de noções básicas. A maioria das pessoas está usando software de código aberto ou muito barato, mesmo sem saber. Os monopólios, além disso, distribuem serviços de informação em troca do direito de cultivar nossos dados pessoais. A vida é vivida mergulhando e mergulhando entre os serviços monopolistas que procuram aluguel: Uber, Airbnb, Tinder.
Você pode ver o mesmo tipo de vida em qualquer cidade grande - mas escolhi Barcelona porque, juntamente com Amsterdã e algumas outras auto-descritas "cidades sem medo" sob hegemonia da esquerda, tem, por enquanto, uma liderança política que entende o potencial de uma economia baseada em software de código aberto, simetria de informação e abolição de monopólios e renda econômica.
Sob Ada Colau, que se tornou prefeita após liderar um movimento pelos direitos à moradia, a cidade dedicou 22 funcionários e 16 milhões de euros ao longo de quatro anos para promover a economia social, cooperativa e solidária. Hackers, ativistas imobiliários e ambientalistas ocupam cargos de alto escalão tecnocráticos.
A cidade usou seu orçamento de US $ 1 bilhão por ano em compras para forçar as empresas terceirizadas a aceitar o princípio de que os dados são um bem público, não para serem cultivados a custo zero pelos gigantes da tecnologia. Ao promover conscientemente formas alternativas de propriedade e ao preferir empresas de tecnologia locais e cooperativas às multinacionais, a cidade tem agora mais de 4.800 empresas cooperativas registradas.
Parece tão espetacular e frágil quanto o capitalismo primitivo fez em meio ao esplendor do feudalismo tardio. A tarefa de transformá-lo em algo maior requer, em primeiro lugar, uma revolução na intervenção governamental, em que o Estado molda conscientemente a criação de um setor da economia de fonte aberta, colaborativa e não mercantil. Em segundo lugar, essas formas alternativas de modelo de negócios devem evoluir de maneira escalável - de modo que suas melhores práticas possam ser transformadas em soluções de arrastar e soltar para start-ups. Em terceiro lugar, deve haver acesso ao financiamento, embora de uma forma diferente daquela encontrada no mundo de start-ups de tecnologia. Finalmente, uma revolução nas atitudes humanas é necessária.
Há uma grande passagem em The Protestant Ethic and the Spirit of Capitalism, de Max Weber, onde ele descreve o ponto de partida do capital industrial. Um jovem de uma das famílias que "põe para fora" o comércio têxtil incutiu rigor em seus trabalhadores baseados em casas de campo, buscou economias de escala e cortou todos os intermediários. Como resultado, a vida idílica dos fiandeiros e tecelões rurais entrou em colapso. Weber conclui: "Em geral, não era nesses casos que um fluxo de dinheiro novo era investido na indústria que provocou essa revolução ... mas o novo espírito, o espírito do capitalismo moderno, começou a funcionar".
Se você olhar bem de perto as atitudes dos jovens criados em um mundo totalmente digital, verá um novo espírito em ação.
burguês chamaria isso de ineficiência; as grandes marcas de consumo chamam isso de "pro-sumption". Sente-se em um agachamento, um espaço de trabalho colaborativo ou um laboratório de artes financiado pelo Estado em uma dessas cidades e você pode ver que é, ao contrário, uma determinação de viver "apesar" das suposições implícitas da economia dominante.
Até a década de 2010, embora as economias cooperativa e "solidária" tivessem proliferado como uma contra-cultura nos países ricos, poucos pensaram em defender que o Estado deveria fomentar essa nova forma de vida econômica. Assim como no início do capitalismo industrial, no entanto, isso é exatamente o que é necessário - um projeto para regular o capitalismo de uma forma que apoie, ao invés de estrangular, modelos emergentes de negócios colaborativos, sem fins lucrativos e não financeiros.
Na próxima contribuição, examinarei o que os estados e as cidades começaram a fazer para promover a transição. Eu argumentarei que, como na transição do feudalismo para o capitalismo, o projeto não pode ser meramente legal ou regulatório, mas deve mudar a maneira como pensamos sobre tempo, cultura, escassez e abundância.
Este artigo é uma publicação conjunta da Social Europe do IPS-Journal




Paul Mason é um escritor e locutor britânico líder e autor do pós-capitalismo: um guia para o nosso futuro .



A queda da fecundidade nos EUA

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

A taxa de fecundidade total (TFT) nos Estados Unidos (EUA) estava em torno de 7 filhos por mulher nas primeiras décadas depois da Independência do país (em 1776). Mas ela caiu ao longo do século XIX e chegou ao nível mais baixo da série histórica (em torno de 2 filhos por mulher) durante a grande depressão dos anos de 1930. Com o fim da Segunda Guerra e com o boom econômico que se seguiu a TFT chegou ao redor de 3,5 filhos por mulher entre 1950 e 1965.
Mas a TFT voltou a cair e chegou a 2 filhos por mulher no quinquênio 1970-75 e a 1,77 filho por mulher no quinquênio 1975-80 (menor nível em toda a história americana). Nos anos seguintes houve uma ligeira recuperação e a TFT ficou em torno de 2 filhos por mulher entre 1990 e 2010. Mas com a recessão de 2008/09, a TFT ficou em 1,88 filho por mulher, no quinquênio 2010-15. A Divisão de População da ONU estima que a TFT vai aumentar ligeiramente no restante do século, conforme mostra o gráfico abaixo, permanecendo em torno de 2 filhos por mulher.

taxa de fecundidade total nos EUA

Contudo, o futuro pode não repetir o passado e os EUA podem estar iniciando uma Era de baixa fecundidade. Dados do CDC (Centers for Disease Control and Prevention) mostram que a taxa de fecundidade geral (número de nascimentos por 1000 mulheres de 15-44 anos) dos EUA continua caindo mesmo em 2017 e 2018, que foram anos de grande desempenho econômico. A tabela abaixo mostra que a taxa de fecundidade geral caiu de 62,5 no primeiro quadrimestre de 2016 para 59,8 no segundo quadrimestre de 2018 (o nível mais baixo da história).
As taxas específicas, conforme o gráfico abaixo, mostram que a fecundidade continua caindo nas idades de 15 a 29 anos. Entre as adolescentes (15-19 anos) a taxa caiu de 21,8 no primeiro quadrimestre de 2016 para 18,1 no segundo quadrimestre de 2018. No mesmo período, entre as jovens de 20-24 anos a queda foi de 76,2 para 69,8 e entre as mulheres de 25-29 anos a redução foi de 103,7 para 96,7 nascimentos para cada 1000 mulheres.
No grupo 20-34 anos a queda foi bem menor, passando de 102,0 para 100,1 entre o primeiro quadrimestre de 2016 para o segundo quadrimestre de 2018. Isto quer dizer que a cúspide da fecundidade passou da coorte de 25-29 anos para 30-34 anos. Ou seja, está havendo um envelhecimento da estrutura por idade da fecundidade. Isto fica claro ao verificar que entre as idades de 35 a 44 anos também houve ligeiro aumento da taxa de fecundidade geral.

a queda da fecundidade nos EUA

O gráfico abaixo deixa mais claro o processo de envelhecimento da estrutura etária da fecundidade. Nota-se que no grupo adolescente (15-19 anos) a taxa específica de fecundidade estava acima de 50 por mil em 1990 e caiu para menos de 20 por mil em 2017. Os grupos etários acima de 30 anos apresentaram taxas crescentes, enquanto os grupos etários com menos de 30 anos apresentaram taxas declinantes. No início da década de 1990, as maiores taxas estavam nos grupos 20-24 e 25-29 anos, mas em 2017 a cúspide ficou no grupo 30-34 anos.

taxa geral de fecundidade, por idade da mãe, EUA

Estudos e pesquisas recentes mostram que a fecundidade nos EUA deve continuar diminuindo, pois cresce o número de pessoas que não desejam ter filhos. Artigo de Frejka (2017) mostra que o número de mulheres no final do período reprodutivo sem filho (childless) subiu de cerca de 7% no início da década de 1970 para cerca de 15% na primeira década do século XXI. Pesquisa do Instituto PEW mostra que 71% das pessoas com menos de 50 anos e com filhos nos EUA não querem ter novas crianças e, entre os adultos sem filhos, na mesma faixa etária, 37% dizem que não esperam jamais formar uma prole (serão childlessness).
Tudo indica que a projeção da ONU está superestimada e dificilmente a TFT ficará em torno de 2 filhos por mulher ao longo do século XX. O mais provável é uma fecundidade abaixo de 1,8 filho por mulher nas próximas décadas.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Referências:
Gretchen Livingston and Juliana Menasce Horowitz. Most parents – and many non-parents – don’t expect to have kids in the future, PEW, 02/12/2018

Frejka, T. 2017. Childlessness in the United States. In: Kreyenfeld, M. and Konietzka, D. (eds.). Childlessness in Europe: Contexts, causes, and consequences. Cham: Springer International: p. 159-179. Doi: 10.1007/978-3-319- 44667-7_7.


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 08/04/2019