"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

O recorde do desemprego e da subutilização da força de trabalho no Brasil

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“Todo ser humano tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições
justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego”
Artigo 23 da Declaração Universal dos Direitos Humanos (10/12/1948)

taxa comporta de subutilização da força de trabalho

O Brasil coleciona notícias ruins na criação de oportunidades de emprego e na área do direito ao trabalho. A PNAD Contínua (PNADC) do IBGE mostra que o desemprego e a subutilização da força de trabalho no Brasil bateram recorde no trimestre que vai de dezembro de 2018 a fevereiro de 2019. O Presidente da República, em vez de reconhecer o problema, preferiu criticar a metodologia utilizada pelo IBGE.
É claro que nenhum governo gosta de notícias ruins. Não é a primeira vez que os números do emprego e do desemprego são questionados para favorecer os governantes de plantão. O presidente Jair Bolsonaro poderia até dizer que herdou a crise do mercado de trabalho e que está tomando medidas para aumentar os índices de ocupação, mas preferiu revelar ignorância ao criticar uma metodologia que é antiga e reconhecida internacionalmente.
A verdade sobre o desemprego e o subemprego dói para os ocupantes do Palácio do Planalto, mas dói muito mais para quem não tem como ganhar a vida honestamente com o suor do próprio rosto.
Segundo a PNADC a taxa de desocupação (pessoas que não estavam trabalhando, mas estavam procurando emprego) foi de 12,4% no trimestre móvel encerrado em fevereiro de 2019, subiu 0,9 ponto percentual em relação ao trimestre de setembro a novembro de 2018 (11,6%). Esta subida ocorreu em função de fatores sazonais, pois no início de cada ano a ocupação é, geralmente, menor do que no final do ano. Em relação ao trimestre móvel de dezembro de 2017 a fevereiro de 2018, quando a taxa foi estimada em 12,6%, o quadro foi de estabilidade. Mas é uma estabilidade perversa, pois significa 13 milhões de pessoas que desejam trabalhar, mas não conseguem vagas no mercado de trabalho.
Contudo, este quadro terrível de desemprego não retrata um problema mais grave do mercado de trabalho brasileiro. A PNADC mostra uma realidade mais tenebrosa, quando aplica a metodologia da taxa composta de subutilização da força de trabalho (que mede o percentual de pessoas desocupadas, subocupadas por insuficiência de horas trabalhadas e na força de trabalho potencial). Por este indicador o desemprego e o subemprego foi de 24,6% no trimestre compreendido entre dezembro de 2018 e fevereiro de 2019, com altas de 0,8% em relação ao trimestre de setembro a novembro de 2018 (23,9%) e de 0,4% no confronto com o trimestre móvel de dezembro de 2017 a fevereiro de 2018 (23,2%).
Isto significa que, no trimestre de dezembro de 2018 a fevereiro de 2019, havia aproximadamente 27,9 milhões de pessoas subutilizadas no Brasil, o maior contingente da série histórica. Ou seja, depois de dois anos de grande recessão (2015 e 2016) e depois de dois anos de lenta recuperação (2017 e 2018) a subutilização da força de trabalho, ao invés de diminuir, alcançou o seu nível mais alto, mostrando que o Brasil está em uma rota insustentável e está desperdiçando os melhores momentos do bônus demográfico.
A PNADC detalhe este desperdício, mostrando que contingente de pessoas subocupadas por insuficiência de horas trabalhadas (6,7 milhões) teve redução de -4,8% em relação ao trimestre anterior (-341 mil pessoas) e subiu 7,9% (mais 491 mil pessoas) em relação ao trimestre de dezembro de 2017 a fevereiro de 2018.
O contingente fora da força de trabalho (65,7 milhões) subiu em 595 mil pessoas (0,9%) comparado ao trimestre de setembro a novembro de 2018 e foi o maior da série histórica. Frente ao trimestre de dezembro de 2017 a fevereiro de 2018, o indicador subiu 1,2% (mais 754 mil pessoas).
A população desalentada (4,9 milhões) ficou estável em relação ao trimestre setembro a novembro de 2018 e subiu 6,0% em relação ao trimestre de dezembro de 2017 a fevereiro de 2018 (4,6 milhões). Esse contingente atingiu seu maior nível na série histórica.
O percentual de pessoas desalentadas em relação à população na força de trabalho ou desalentada(4,4%) se manteve no recorde da série histórica, ficando estável em relação ao trimestre anterior e subindo 0,2 ponto percentual contra trimestre de dezembro de 2017 a fevereiro de 2018 (4,2%).
A força de trabalho (pessoas ocupadas e desocupadas), foi de 105,2 milhões de pessoas e ficou estável em relação ao trimestre anterior. Frente ao trimestre de dezembro de 2017 a fevereiro de 2018, houve alta de 1,0% (mais 1,0 milhão de pessoas).
O número de pessoas ocupadas (92,1 milhões) teve queda (-1,1%) em relação ao trimestre anterior (menos 1,062 milhão de pessoas). Em relação ao trimestre de dezembro de 2017 a fevereiro de 2018, houve alta de 1,1% (mais 1,036 milhão de pessoas).
O nível da ocupação (percentual de pessoas ocupadas na população em idade de trabalhar) foi de 53,9% no trimestre encerrado em fevereiro, com queda de -0,8 p.p frente ao trimestre anterior (54,7%). Em relação ao trimestre de dezembro de 2017 a fevereiro de 2018, houve estabilidade.
Na série da PNADC que começou em 2012, o recorde de pessoas ocupadas foi de 92,9 milhões de pessoas no quarto trimestre de 2014. De lá para cá, este número caiu, chegou a 92,1 milhões no último 12/2018 a 02/2019. Esta queda no número da força de trabalho ocupada é ainda mais preocupante quando se considera que a população total do país passou de 199,2 milhões de habitantes em 2012 para 209,2 milhões em 2018. Assim, a taxa de ocupação que chegou ao pico de 57% em 2014 caiu para cerca de 54%.
Portanto, a taxa de ocupação diminuiu no país em um momento de estagnação da produtividade, queda da renda e aumento da pobreza. Sem trabalho, o Brasil não tem futuro. Nunca houve tantas pessoas em idade de trabalhar no país. Mas o desperdício representado pelo alto nível de desemprego, subemprego e baixa taxa de ocupação é o mesmo que jogar fora a janela de oportunidade que a mudança na estrutura etária gerou e que vai se fechar em pouco tempo. Não existe exemplos históricos de nações que enriqueceram depois de envelhecer. O Brasil está desprezando os melhores anos de uma relação intergeracional favorável à decolagem do desenvolvimento.
São 27,9 milhões de brasileiros e brasileiras sem o direito humano básico ao trabalho decente. A continuar desta forma, a economia brasileira vai ficar eternamente presa na armadilha da renda média e vai dar adeus ao sonho de ser uma nação desenvolvida, não só como os parceiros mais ricos da OCDE, mas mesmo em relação às nações que são “rabos de elefante”, como Portugal e Grécia. Deixaremos de ser país “em desenvolvimento” para assumir, talvez para o resto da vida, o carimbo de nação subdesenvolvida e submergente.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Referência:
IBGE. PNAD Contínua: taxa de desocupação é de 12,4% e taxa de subutilização é de 24,6% no trimestre encerrado em fevereiro de 2019, Agencia de Notícias, abril de 2019


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 24/04/2019

terça-feira, 23 de abril de 2019

O populismo e o abraço da complexidade

Os populistas podem frequentemente prosperar com narrativas simples. Mas Sheri Berman adverte que simples explicações do populismo em si não serão aprovadas.

por Sheri Berman

populistasCompreender a ascensão do populismo está entre as tarefas mais urgentes que os cientistas sociais e os cidadãos preocupados enfrentam atualmente. Com pressa de entender, muitos anseiam por respostas simples e diretas. Se quisermos entender o populismo, no entanto, tal preferência pela parcimônia nos desencaminhará.
Na maioria das vezes, as explicações do populismo se concentram em queixas econômicas ou sociais que supostamente levam alguns cidadãos a votar em partidos populistas.
As contas baseadas em queixas econômicas são populares entre os economistas que argumentam que a globalização, a estagnação da renda, o declínio de empregos bem remunerados, o aumento da desigualdade e o aprofundamento das divisões entre regiões metropolitanas dinâmicas e estagnação de cidades de tamanho médio e áreas rurais geraram número crescente de eleitores que se sentem "deixados para trás". crise financeira acelerou essas tendências, levando ainda mais eleitores aos extremos.
Cientistas sociais, especialmente aqueles que se concentram nos Estados Unidos, em contraste, favorecem relatos baseados em queixas sociais que argumentam que a imigração e a mobilização de mulheres e grupos minoritários têm desafiado as hierarquias étnicas e de gênero, gerando uma contra-reação, particularmente entre homens brancos. A "crise dos refugiados" na Europa e a eleição do primeiro presidente afro-americano nos EUA levaram ainda mais eleitores a se sentirem ressentidos e ameaçados, nessa perspectiva, e dispostos a votar em populistas que prometem proteger seus interesses.

Interações

Contas focadas em queixas sociais ou econômicas fornecem insights importantes sobre o populismo, mas no mundo real ambos são importantes e interagem de formas complexas. Por exemplo, a tendência de bode expiatório a imigrantes e minorias aumenta em tempos econômicos difíceis, quando os cidadãos de baixa renda, em particular, estão preocupados com o desemprego e preocupados com a competição por recursos públicos escassos, como moradia ou benefícios sociais.
Além disso, os valores e preferências sociais dos indivíduos são moldados por sua posição e contexto econômicos. Não é de surpreender que os "novos" eleitores de classe média que vivem em diversas cidades e trabalhem em empregos onde interagem regularmente com outras pessoas altamente educadas de várias origens sejam socialmente progressistas, enquanto os eleitores da classe trabalhadora são mais socialmente conservadores e podem tornaram-se ainda mais quando as identidades de classe 'possibilitadas por empregos sindicalizados e baseados na fábrica na velha economia desapareceram [e] outras identidades - muitas vezes associadas à política conservadora de linha dura - preencheram o vazio'.
E enquanto a causa imediata do populismo pode ser uma “reação cultural” contra a mudança social, baseada na análise de décadas de dados do World Values ​​Survey, Pippa Norris e Ronald Inglehart argumentam que é impossível entender por que os eleitores se tornaram suscetíveis à xenofobia e socialmente reacionários sem prestar atenção ao impacto da insegurança econômica.

Lado da oferta

No entanto, por mais amplas que sejam, as explicações que se concentram apenas nas queixas sociais, econômicas e outras - o "lado da demanda" da política - podem nos levar apenas até certo ponto. As queixas, como atitudes e preferências em geral, não são simplesmente ou diretamente traduzidas em resultados políticos. Em vez disso, eles só se tornam politicamente salientes ou poderosos quando mobilizados e organizados por políticos e partidos. A compreensão do populismo, em outras palavras, também requer atenção ao "lado da oferta" da política: a natureza e o comportamento de políticos, partidos e outros atores políticos importantes.
O lugar óbvio para começar é com os próprios partidos populistas. Sua capacidade de mobilizar queixas e atrair eleitores depende de como eles se apresentam ao público. Muitos partidos populistas começaram ou tiveram suas raízes em movimentos neofascistas ou anti-democráticos. Mas os partidos com tais recursos foram consistentemente rejeitados pelo eleitorado.
Foi só depois de moderar suas posições - tornando-se xenofóbico, em vez de neofascista e aceitando, na verdade, em alguns casos, reivindicando ser defensores da democracia - que as ações de voto dos partidos de extrema direita aumentaram. A capacidade ou disposição dos populistas de direita em oferecer respostas simples e claras a problemas complexos, como a imigração, em oposição à tendência da esquerda a oferecer "idéias intelectuais abstratas" e narrativas complexas, provavelmente também contribuiu para seu sucesso. E os partidos populistas com organizações internas mais desenvolvidas, menos facciosismo, líderes mais fortes e ativistas comprometidos e experientes são mais capazes de atrair e mobilizar eleitores a longo prazo.
Mas um foco apenas em partidos populistas também não é suficiente: seu sucesso é condicionado pelo comportamento de outras partes, assim como pelo seu próprio. Alguns argumentam que se os partidos tradicionais adotam um caráter desdenhoso (ignorando), acomodativo (adaptando seus próprios perfis de política) ou contraditório (rejeitando francamente) as posições em relação aos assuntos dos assuntos dos peticionários dos partidos populistas.
Mais significativo, no entanto, para determinar o sucesso do populismo, parece ser o perfil de política dos partidos tradicionais, ou melhor, a relação entre eles. Em particular, os estudiosos acham que os populistas prosperam quando as plataformas dos partidos de centro-esquerda e centro-direita convergem ; Grandes coalizões entre o centro-esquerda e o centro-direita também parecem impulsionar as fortunas eleitorais do populismo.

Uma esquerda menos distintiva

À medida que os partidos de centro-esquerda avançaram em direção ao centro economicamente durante as últimas décadas do século XX, seu domínio sobre a classe trabalhadora enfraqueceu e partidos populistas de direita, a maioria dos quais começou sua existência adotando políticas econômicas conservadoras ou neoliberais, se moveram para a esquerda economicamente para capturar esses eleitores .
Além disso, à medida que o perfil econômico da centro-esquerda se tornava menos distinto, a tendência de enfatizar questões sociais, em vez de econômicas, aumentou. Como um grupo de estudiosos concluiu, onde partidos de esquerda abraçavam reformas neoliberais pró-mercado, os políticos não podiam polarizar a competição eleitoral em torno de questões econômicas e foram consequentemente incentivados a construir "uma única divisão sociocultural poderosa na qual exibir diferenças programáticas significativas". e empregar aqueles para atrair eleitores. Da mesma forma, outro estudo transnacional Os perfis econômicos mutantes dos partidos descobriram que à medida que as partes se tornavam cada vez mais semelhantes em termos de política econômica, uma atraente "estratégia de sobrevivência" estava politizando questões não econômicas: "A estratégia de deslocar a concorrência para um novo domínio permite que os partidos se distingam melhor de um." outro e, assim, evitar perder os eleitores à indiferença ”.
O problema para a esquerda tradicional, é claro, é que quando a competição política se concentra em questões sociais como identidade nacional, imigração, multiculturalismo e assim por diante, os principais beneficiários são partidos de esquerda nova, como os verdes e populistas de extrema direita. —Porque essas questões são mais associadas a elas e seus principais constituintes (respectivamente, profissionais progressistas, altamente qualificados e eleitores trabalhadores e da classe média baixa) estão unidos por eles.
Albert Einstein disse uma vez que "a política é mais difícil que a física". Einstein estava se referindo à dificuldade de encontrar soluções para problemas políticos prementes, mas seu gracejo é igualmente aplicável à mera compreensão dos fenômenos políticos. Enquanto a parcimônia é intelectualmente e psicologicamente satisfatória, compreender o populismo requer abraçar a complexidade e reunir idéias de uma variedade de perspectivas.
Este artigo é uma publicação conjunta da Social Europe e do IPS-Journal

Sheri Berman é professora de ciência política na Barnard College e autora de Democracy and Dictatorship na Europa. Do Antigo Regime ao Dia Atual (Oxford University Press).

As fontes renováveis atingiram um terço da capacidade global de energia em 2018

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“A idade da pedra não acabou por falta de pedras”
“Devemos deixar o petróleo antes que ele nos deixe”
Faith Birol (Economista chefe da IEA)

capacidade de geração de energia renovável e transição energética

No dia 22 de abril se comemora o Dia da Terra. O documentário da BBC (Climate Change – The Facts) mostra que o crescimento das atividades antrópicas, impulsionadas pelo uso generalizado de combustíveis fósseis, está gerando um aquecimento global sem precedentes no Holoceno (últimos 12 mil anos), com consequências catastróficas para a vida no Planeta. No vídeo, o grande ambientalista, Sir David Attenborough, entrevista alguns dos principais cientistas climáticos do mundo e aponta possíveis soluções para essa ameaça global. Uma das soluções imprescindíveis é a mudança da matriz energética global.
Uma boa notícia é que as fontes renováveis de energia responderam por cerca de um terço de toda a capacidade de energia global em 2018, segundo relatório divulgado no início de abril de 2019 pela Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA). As renováveis foram responsáveis por 63% da capacidade líquida instalada em 2018.
A IRENA mostrou que foram adicionados 171 GW de nova capacidade de energia renovável em 2018, um aumento anual de 7,9%. Este aumento foi impulsionado principalmente pelas novas adições de capacidade eólica e solar. Isso eleva a capacidade total de geração de energia renovável para um total de 2.351 GW no final de 2018, representando cerca de um terço da capacidade instalada total de eletricidade do mundo.
Como mostra o gráfico abaixo, a energia hidrelétrica continua sendo a maior fonte de energia renovável baseada na capacidade instalada, com 1.172 GW, seguida pela energia eólica com 564 GW e energia solar com 480 GW. O grande destaque da nova capacidade instalada em 2018 foi da energia solar, com acréscimo de impressionantes 94 GW. A energia eólica adicionou cerca de 50GW, a hidrelétrica adicionou 20 GW e a bioenergia e a geotérmica com acréscimos modestos.

energia hidrelétrica continua sendo a maior fonte de energia renovável baseada na capacidade instalada

A IRENA também mostrou que houve crescimento de energia renovável em todas as regiões do mundo, embora em níveis variados. A Ásia respondeu por 61% da nova capacidade em 2018 (ligeiramente abaixo do ano passado) e resultou em 1,024 Terawatt de capacidade renovável (44% do total global). Ásia e Oceania também foram as regiões de maior crescimento, com expansão de 11,4% e 17,7%, respectivamente. A Europa cresceu no mesmo período do ano passado (+24 GW ou variação de 4,6%, ficando com 23% da participação global). A expansão na América do Norte se recuperou ligeiramente, com um aumento de 19 GW (mais 5,4%) e participação global de 16%. A África acrescentou 3,6 GW (mais 8,4%), mas com participação de somente 2% na capacidade global. A América do Sul aumentou 9,4 GW (mais 4,7%), representando 9% da capacidade global.

capacidade de geração renovável em nível regional

O crescimento das energias renováveis (especialmente solar e eólica) é, indubitavelmente, uma boa notícia, tanto no sentido de cumprir as metas climáticas do Acordo de Paris (de 2015), quanto as metas do Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Os países que aproveitam ao máximo o potencial de renováveis se apropriam de uma série de benefícios socioeconômicos, além de descarbonizar suas economias.
Além disto, as energias renováveis são a alternativa diante da iminência do Pico do Petróleo. Artigo do site The Beam, mostra que, sem novos investimentos, a produção global de petróleo – todas as fontes não convencionais – cairá em 50% até 2025, conforme a figura abaixo. A produção anual global de petróleo pode diminuir em aproximadamente seis milhões de barris por dia a partir de 2020. Alguns países produtores de combustíveis fósseis (e não somente a Venezuela) já convivem com a queda da produção.

sem novos investimentos, a produção global de petróleo - todas as fontes não convencionais - cairá em 50% até 2025

Desta forma, mesmo diante do avanço da produção de energia renovável, os desafios são cada vez mais urgentes. O ritmo da transição energética tem se mostrado lento diante da gravidade dos desafios ecológicos e da inevitabilidade do Pico de Hubbert. Como a população e a economia mundial continuam crescendo em volume, aumentam, em consequência, a extração de recursos do meio ambiente, elevam as emissões de gases de efeito estufa (GEE), acelerando o aquecimento global, o que aumenta a Pegada Ecológica do Planeta e reduz a biocapacidade e a biodiversidade (ver o vídeo da BBC: Climate Change – The Facts).
Artigo de Nafeez Ahmed (Motherboard, 27/08/2018) mostra que os cientistas alertam a ONU sobre a possibilidade do fim iminente do capitalismo, pois um abandono dos combustíveis fósseis, necessário para deter as mudanças climáticas, significa que a economia mundial fundamentalmente precisará mudar. O capitalismo emissor de CO2, como o conhecemos, acabou e não oferece respostas para os desafios do século XXI.
Assim, o processo de transição energética e o fim do uso dos combustíveis fósseis, a despeito dos avanços, pode chegar tarde e não ser suficiente para evitar um colapso ambiental. Se o Planeta se transformar em uma estufa e ficar inabitável, não haverá mais Dia da Terra, pois o colapso ecológico será também um colapso civilizacional. Será o verdadeiro fim da história humana e os únicos culpados serão os próprios seres humanos.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Referências:
The Beam The Largely Ignored Problem Of Global Peak Oil Will Seriously Hit In A Few Years.
April 18th, 2019

IRENA, Renewable capacity highlights, 31 March 2019

Nafeez Ahmed. Scientists Warn the UN of Capitalism’s Imminent Demise, Motherboard, 27/08/2018 https://motherboard.vice.com/en_us/article/43pek3/scientists-warn-the-un-of-capitalisms-imminent-demise
BBC. Climate Change – The Facts https://www.youtube.com/watch?v=0ypaUH57MO4

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 22/04/2019