"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

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Orwell - A política e a língua inglesa

George Orwell
Tradução de Desidério Murcho - Crítica

As pessoas que dão alguma importância à questão admitiriam, na sua maior parte, que a língua inglesa vai mal, mas presume-se geralmente que nada há que se possa fazer em termos de ação consciente. A nossa civilização está decadente, e a nossa língua — segundo este argumento — tem inevitavelmente de partilhar o colapso geral. Segue-se que qualquer luta contra os abusos de linguagem é um arcaísmo sentimental, como preferir velas à luz elétrica ou cabriolés a aviões. Subjacente a isto está a crença semiconsciente de que a língua é uma coisa natural e não um instrumento a que damos forma em função dos nossos propósitos.

Ora, é claro que o declínio de uma língua tem de ter, em última análise, causas políticas e econômicas; não se deve apenas à má influência deste ou daquele autor. Mas um efeito pode tornar-se uma causa, reforçando a causa original e produzindo o mesmo efeito de forma intensificada, e assim por diante sem fim. Um homem pode entregar-se à bebida porque sente que é um falhado, e depois ser um falhado mais completo porque bebe. É precisamente a mesma coisa que está a acontecer à língua inglesa. Torna-se feia e imprecisa porque os nossos pensamentos são tolos, mas o desmazelo da nossa língua permite que mais facilmente tenhamos pensamentos tolos. O que importa é que se pode inverter o processo. O inglês moderno, especialmente o escrito, está cheio de maus hábitos que se espalham por imitação e que podem ser evitados se quisermos dar-nos a esse incômodo. Se nos livrarmos destes hábitos, podemos pensar mais claramente, e pensar mais claramente é um primeiro passo necessário em direção à regeneração política; de modo que lutar contra o mau inglês não é frívolo e não interessa exclusivamente a escritores profissionais. Voltarei a este aspecto, e espero que nessa altura o significado do que aqui afirmei se tenha tornado mais claro. Entretanto, eis cinco espécimes da língua inglesa tal como é hoje habitualmente escrita.

As cinco passagens não foram escolhidas por serem especialmente más — poderia citar casos muito piores se o quisesse — mas porque ilustram vários vícios mentais que temos hoje. São amostras ligeiramente abaixo da média, mas razoavelmente representativas. Vou numerá-las para depois poder referi-las quando for necessário:
  1. "Não estou, de facto, certo se não se pode dizer que o Milton que já foi visto como não estando muito longe de um Shelley do séc. XVII não se tornou, em função de uma experiência mais amarga a cada ano que passa, mais alheio [sic] ao fundador dessa facção jesuíta que nada o poderia fazer tolerar." (Professor Harold Laski, ensaio emFreedom of Expression.) 
  1. "Acima de tudo, não podemos jogar às sete pedrinhas com uma bateria de expressões que prescrevem colocações egrégias de vocábulos como o básico carregar uma cruz em vez de aguentar ou ficar perdido em vez de confundido". (Professor Lancelot Hogben,Interglossa.) 
  1. "Por um lado, temos a personalidade livre: por definição, não é neurótica, pois não tem conflito nem sonho. Os seus desejos, que não são grande coisa, são transparentes, pois são apenas o que a aprovação institucional mantém na primeira linha da consciência; outro padrão institucional alteraria o seu número e intensidade; pouco há neles que seja natural, irredutível ou culturalmente perigoso. Mas, por outro lado, o próprio vínculo social nada é senão o reflexo destas integridades auto-asseguradas. Recorde-se a definição de amor. Não é isto a imagem exacta de um pequeno académico? Onde há lugar, nesta casa de espelhos, para a personalidade ou a para fraternidade?" (Ensaio sobre psicologia em Politics, Nova Iorque.) 
  1. "Os "mais distintos" dos clubes de cavalheiros, e os frenéticos capitães fascistas, unidos no ódio comum ao Socialismo e no horror bestial da crescente maré do movimento revolucionário de massas, voltaram-se para atos de provocação, afirmações incendiárias baixas, lendas medievais de poços envenenados, para legalizar a sua própria destruição das organizações proletárias, e incitar a agitada pequena burguesia ao fervor chauvinista em nome da luta contra o modo revolucionário de resolver a crise." (Panfleto comunista) 
  1. "Para que um espírito novo seja infundido neste velho país, há uma reforma espinhosa e contenciosa que tem de se enfrentar, a saber, a humanização e galvanização da BBC. A timidez será aqui sinal de gangrena e atrofia da alma. O coração da Grã-Bretanha pode ser sólido e bater com força, por exemplo, mas o rugido do leão britânico é hoje como o de Bottom no Sonho de uma Noite de Verão, de Shakespeare — tão gentil quanto o de qualquer pomba de mama. Uma Grã-Bretanha viril não pode continuar indefinidamente a ser caluniada aos olhos, ou melhor, ouvidos, do mundo pelos caducos langores de Langham Place, mascarando-se desavergonhadamente de "inglês canônico". Quando a Voz da Grã-Bretanha é ouvida às nove horas, é muito melhor e infinitamente menos grotesco ouvir agás honestamente pronunciados do que os actuais pedantes, empolados e inibidos zurros afectados de mestre-escola de inocentes e tímidas donzelas choramingas!" (Carta no Tribune)
Cada uma destas passagens tem faltas próprias mas, à parte a escusada fealdade, há duas qualidades comuns a todas. A primeira é o bafio das imagens; a outra é a falta de precisão. O autor ou quer dizer algo e não consegue exprimi-lo, ou diz inadvertidamente outra coisa, ou é quase indiferente à questão de saber se as suas palavras querem ou não dizer alguma coisa. Esta mistura de vagueza e pura incompetência é a característica mais marcante da prosa inglesa moderna, e em especial de qualquer tipo de escrito político. Mal se levantam certos tópicos, o concreto dissolve-se no abstrato e ninguém parece capaz de pensar em expressões que não sejam estereotípicas; a prosa consiste cada vez menos em palavras escolhidas em função do seu significado, e cada vez mais em expressões pregadas umas às outras como secções de um galinheiro pré-fabricado. Apresento de seguida a lista, com notas e exemplos, de vários truques por meio dos quais se evita habitualmente o trabalho de construção de prosa.
Metáforas agonizantes
Uma metáfora acabada de inventar ajuda o pensamento ao invocar uma imagem visual, ao passo que, por outro lado, uma metáfora tecnicamente "morta" (comoresolução de ferro) voltou de facto a ser uma palavra comum, podendo geralmente ser usada sem perda de vivacidade. Mas entre estas duas classes há um imenso terreno baldio de metáforas gastas que perderam qualquer poder evocativo, sendo usadas apenas porque poupam às pessoas o trabalho de inventar expressões. Eis alguns exemplos: tocar os sinos da mudança, empunhar a clava, pôr-se na linha, espezinhar os outros, marchar em uníssono, ser um joguete, não ter confraria, levar água ao moinho, pescar em águas turvas, tapar o Sol com a peneira, estar na ordem do dia, calcanhar de Aquiles, canto do cisne, antro. Muitas destas metáforas são usadas sem conhecimento do que significam (o que quer dizer clava, por exemplo?), e misturam-se frequentemente metáforas incompatíveis — um sinal seguro de que o autor não está interessado no que está a dizer. O significado de algumas metáforas hoje em dia correntes foi distorcido relativamente ao seu significado original sem que quem as usa tenha sequer consciência disso. Por exemplo, toe the line [pôr-se na linha] surge por vezes escrito como tow the line [favorecer]. Outro exemplo é o martelo e a bigorna, hoje em dia usado sempre com a implicação de que a bigorna é que fica na pior situação. Na realidade, é sempre a bigorna que parte o martelo, e nunca o contrário; um autor que parasse para pensar no que está a dizer teria consciência disto, e evitaria perverter a expressão original.

Operadores, ou muletas verbais
Estes poupam o trabalho de escolher verbos e substantivos apropriados, ao mesmo tempo que almofadam cada frase com mais sílabas, dando-lhe uma aparência de simetria. Algumas expressões características são as seguintes: torna inoperativo, milita contra, mostra ser inaceitável, entra em contacto com, está sujeito a, dá origem a, dá fundamentos para, tem o efeito de, desempenha um papel de relevo em, faz-se sentir, entra em vigor, exibe uma tendência para, serve o propósito de, etc., etc. A tónica dominante é a eliminação de verbos simples. Em vez de ser uma única palavra, como interromper, parar, arruinar, corrigir, matar,um verbo torna-se uma expressão, feita de um substantivo ou adjectivo acoplado a um verbo genérico como provar, servir, formar, desempenhar, tornar. Além disso, a voz passiva é sempre que possível usada de preferência à ativa, e usam-se construções substantivadas em vez de gerúndios (por exame de em vez de examinando). A diversidade de verbos é ainda mais restringida por meio das formações -ize e de-, e dá-se uma aparência de profundidade a afirmações banais por meio da formação not un-.1 As conjunções simples e as preposições são substituídas por expressões como com respeito a, tendo atenção a, o facto de que, à força de, em vista de, no interesse de, na hipótese de que; e os fins das frases são poupados ao anticlímax usando lugares-comuns sonantes como deixa muito a desejar, não se pode esquecer, um desenvolvimento a esperar num futuro próximo, merecedor de séria consideração, conduzido a uma conclusão satisfatória, e assim por diante.

Dicção pretensiosa
Palavras como fenômeno, elemento, indivíduo, objectivo, categórico, eficaz, virtual, básico, primário, promover, constituir, exibir, explorar, utilizar, eliminar, liquidar, são usadas para engravatar afirmações simples e dar um ar de imparcialidade científica a juízos tendenciosos. Adjetivos como marcante, épico, histórico, inesquecível, triunfante, longevo, inevitável, inexorável, vero, são usados para dignificar os processos sórdidos da política internacional, ao passo que a escrita que tem por objectivo glorificar a guerra assume geralmente um ar arcaico, sendo as seguintes as suas palavras características: reino, trono, quadriga, força couraçada, tridente, espada, escudo, broquel, estandarte, bota militar, clarim. Palavras estrangeiras e expressões como cul de sac, ancien régime, deux ex machina, mutatis mutandis, status quo, gleichschaltung, weltanschauung, são usadas para dar um ar de cultura e elegância. Excepto no caso das abreviaturas habituais, i.e., e.g. e etc., não é realmente necessário usar as centenas de expressões estrangeiras hoje correntes em inglês. Os maus autores, e em especial os autores de ciência, política e sociologia, são quase sempre assombrados pela noção de que as palavras latinas ou gregas são mais grandiloquentes do que as saxónicas, e palavras desnecessárias como expedite, amelirate, predict, extraneous, deracinated, clandestine, subaqueous e centenas de outras ganham constantemente terreno relativamente às suas equivalentes anglo-saxónicas.2 A gíria peculiar dos escritos marxistas (hiena, torcionário, canibal, burgueszinho, essa gente, lacaio, criado, cão raivoso, Guarda Branca, etc.) consiste na sua maior parte em palavras e expressões traduzidas do russo, alemão e francês; mas a maneira normal de introduzir uma palavra nova é usar uma raiz latina ou grega com o afixo apropriado e, quando necessário, a formação -ize. Muitas vezes é mais fácil criar palavras deste tipo (desregionalizar, impermissível, extramarital, não-fragmentário e assim por diante) do que pensar em palavras inglesas que abarquem o que queremos dizer. O resultado, em geral, é um aumento de desmazelo e vagueza.

Palavras sem significado
Em certos tipos de escrita, em particular na crítica de arte e na crítica literária, é normal encontrar longas passagens quase totalmente sem significado.3 Palavras como romântico, plástico, valores, humano, morto, sentimental, natural, vitalidade, tal como são usadas na crítica de arte, são rigorosamente destituídas de significado, no sentido em que não só não apontam para qualquer objecto que se possa descobrir, como nem sequer o leitor espera tal coisa. Quando um crítico escreve "A característica marcante da obra do Sr. X é a sua vitalidade", ao passo que outro escreve "O que é imediatamente óbvio na obra do Sr. X é a sua peculiar letargia", o leitor aceita isto como uma simples diferença de opinião. Se palavras como preto e branco estivessem envolvidas, em vez das palavras de gíriavitalidade e letargia, o leitor veria imediatamente que a língua estava a ser usada de modo impróprio. Abusa-se de modo semelhante de muitas palavras políticas. A palavra fascismo não tem agora significado, a não ser "algo indesejável". Cada uma das palavras democracia, socialismo, liberdade, patriótico, realista, justiça,tem múltiplos significados diferentes irreconciliáveis entre si. No caso de uma palavra como democracia, não só não há qualquer definição com a qual todos concordem, como todos resistem à tentativa de a definir. Há o sentimento quase universal de que ao chamar democrático a um país estamos a elogiá-lo; consequentemente, os defensores de todo o tipo de regimes defendem que é uma democracia, e receiam que talvez tenham de deixar de usar a palavra se ficar ligada a um significado qualquer. As palavras deste género são muitas vezes usadas de uma forma conscientemente desonesta. Ou seja, a pessoa que as usa tem a sua própria definição privada, mas permite que o seu interlocutor pense que ele quer dizer uma coisa muito diferente. Afirmações como Marshal Pétain era um verdadeiro patriota, A imprensa soviética é a mais livre do mundo, A Igreja Católica opõe-se à perseguição, são quase sempre usadas com a intenção de enganar. Outras palavras, usadas na maior parte dos casos com significados variáveis mais ou menos desonestamente são as seguintes: classe, totalitário, ciência, progressista, reaccionário, burguês, igualdade.
Feito o catálogo destas falcatruas e perversões, vou dar outro exemplo do tipo de escrita a que dão origem. Desta vez tem de ser um exemplo imaginário. Vou traduzir uma passagem de bom inglês para inglês do pior género. Eis um bem conhecido verso do Eclesiastes:
"Regressei e vi debaixo do Sol que a corrida não é para os ágeis, nem a batalha para os bravos, nem o pão para os prudentes, nem a riqueza para os doutos, nem o favor para os sábios: a todos acontece o tempo e o acaso."
Aqui está em inglês moderno:
"A consideração objectiva dos fenómenos contemporâneos compelem à conclusão de que o sucesso ou fracasso em actividades competitivas não exibe qualquer tendência para ser congruente com a capacidade inata, mas antes que um elemento considerável de imprevisível tem invariavelmente de ser tido em consideração."
Isto é uma paródia, mas não muito grosseira. O exemplo 3, acima, por exemplo, contém vários trechos do mesmo tipo de inglês. Veremos que não fiz uma tradução completa. O princípio e o fim da frase seguem o significado original bastante de perto, mas no meio as ilustrações concretas — corrida, batalha, pão — dissolvem-se na expressão vaga "sucesso ou fracasso em actividades competitivas". Tinha de ser assim porque nenhum autor moderno do tipo que estou a discutir — alguém disposto a usar expressões como "consideração objectiva dos fenómenos contemporâneos" — iria alguma vez dispor os seus pensamentos dessa forma precisa e pormenorizada. A tendência da prosa moderna é afastar-se do concreto. Analise-se agora estas duas frases mais de perto. A primeira contém 47 palavras mas apenas 75 sílabas, e todas as palavras usadas são da vida quotidiana. A segunda contém 44 palavras e 110 sílabas; 18 das suas palavras [da versão original] têm raiz latina e uma grega. A primeira frase contém seis imagens vívidas, e só uma expressão que se pode considerar vaga ("o tempo e o acaso"). A segunda não contém uma única expressão viçosa e atraente, e apesar das suas 110 sílabas apresenta apenas uma versão abreviada do significado contido na primeira. Contudo, é sem qualquer dúvida o segundo tipo de frase que está a ganhar terreno no inglês moderno. Não quero exagerar. Este tipo de escrita ainda não é universal, e ocorrerão aqui e ali ilhas de simplicidade na mais mal escrita das páginas. Contudo, se nos dissessem, ao leitor ou a mim, para escrever algumas linhas sobre a incerteza dos destinos humanos, ficaríamos provavelmente muito mais próximos da minha frase imaginária do que da retirada do Eclesiastes.

Como tentei mostrar, a escrita moderna no seu pior não consiste em escolher palavras por causa do seu significado e inventar imagens para tornar o significado mais claro. Consiste em colar longas filas de palavras que já foram ordenadas por outras pessoas, e em tornar os resultados apresentáveis por pura mistificação. A atracção deste modo de escrever é ser fácil. É mais fácil — e até mais rápido, uma vez adquirido o hábito — dizer Na minha opinião, não é um pressuposto injustificável que do que dizer Penso.Quando se usa expressões pré-fabricadas não só não é necessário procurar palavras, como não é necessário preocuparmo-nos com os ritmos das nossas frases, dado que estas expressões são construídas de tal modo que são mais ou menos eufónicas. Quando se compõe um texto à pressa — quando se dita a um estenógrafo, por exemplo, ou quando se discursa em público — é natural cair num estilo pretensioso e latinizado. Estribilhos como uma consideração que devemos ter em conta ou uma conclusão com a qual todos concordaríamos imediatamente salva muitas frases de cair com estrondo. Ao usar metáforas, símiles e expressões idiomáticas insípidas poupa-se muito esforço mental à custa de se deixar o significado vago, não apenas para o leitor mas também para o próprio autor. É este o significado das metáforas mistas. O único objectivo de uma metáfora é chamar uma imagem visual. Quando estas imagens entram em conflito — como em O polvo Fascista cantou o canto do cisne, atira-se a bota militar para o cadinho — pode-se ter a certeza de que o autor não está a ver uma imagem mental dos objetos que está a nomear; por outras palavras, não está realmente a pensar. Veja-se novamente os exemplos que dei no princípio deste ensaio. O Professor Laski (1) usa cinco negativas em 53 palavras [na versão original]. Uma é supérflua, tornando absurda toda a passagem, a que acresce o lapso de usaralheio [alien] em vez de próximo [akin], provocando mais um absurdo, e vários casos de inépcia que aumentam a vagueza geral. O Professor Hogben (2) joga às pedrinhas com uma bateria que é capaz de escrever prescrições e, apesar de desaprovar a expressão corrente carregar uma cruz, não quer consultar um dicionário para ver o que significa egrégio. 3, se não formos caridosos, é pura e simplesmente destituído de sentido; talvez se conseguisse chegar ao significado pretendido lendo todo o artigo em que ocorre. Em 4, o autor sabe mais ou menos o que quer dizer, mas uma acumulação de expressões estereotípicas sufocam-no como folhas de chá que entopem uma pia. Em 5, as palavras e significados quase ficaram de costas voltadas. As pessoas que escrevem desta maneira têm habitualmente um significado emocional geral — não gostam de uma coisa e querem expressar solidariedade com outra — mas não estão interessadas no pormenor do que estão a dizer. Um autor escrupuloso, em cada frase que escreve, faz a si próprio pelo menos quatro perguntas:

O que estou a tentar dizer? 
Que palavras o exprimem? 
Que imagem ou expressão idiomática o torna mais claro? 
Terá esta imagem suficiente frescura para ter efeito?
E fará provavelmente ainda mais duas:

Posso dizê-lo em menos palavras? 
Disse alguma coisa feia que se possa evitar?
Mas não precisamos de dar-nos a todo este incômodo. Podemos evitá-lo limitando-nos a deixar a cabeça vazia e a deixar que as expressões pré-fabricadas a encham. Essas expressões irão criar as frases por nós — irão até pensar por nós, de certo modo — e, consoante for necessário, prestam-nos o importante serviço de esconder parcialmente o significado até de nós próprios. É neste ponto que a conexão especial entre a política e a degradação da língua se torna clara.

No nosso tempo, é em grande medida verdade que a escrita política é má escrita. Nos casos em que isto não é verdade descobre-se geralmente que o autor é uma espécie de rebelde, exprimindo as suas opiniões privadas e não uma "linha partidária". A ortodoxia, de qualquer cor, parece exigir um estilo sem vida e imitativo. Os dialectos políticos que se encontram em panfletos, artigos de opinião, manifestos, relatórios e discursos de subsecretários variam, é claro, de partido para partido, mas são todos semelhantes nisto: quase nunca se encontra neles uma expressão viçosa, vívida, original. Quando se vê um amanuense cansado no pódio, repetindo mecanicamente as expressões do costume — atrocidades brutais, bota de ferro, tirania manchada de sangue, povos livres do mundo, estar na mesma trincheira — fica-se muitas vezes com a sensação curiosa de que não estamos a ver um ser humano vivo mas antes uma espécie de boneco; sensação que subitamente se torna mais forte nos momentos em que a luz se reflete nos óculos do orador, transformando-os em discos vazios que parecem não ter olhos por detrás. E isto não é completamente fantasioso. Um orador que usa este tipo de fraseologia está a caminho de se tornar uma máquina. Os ruídos apropriados saem da sua laringe, mas o seu cérebro não está envolvido no processo, como teria de estar se estivesse a escolher as palavras que usa. Se está habituado a proferir aquele mesmo discurso repetidas vezes, pode quase não ter consciência do que está a dizer, como quem murmura responsos na igreja. E este estado de reduzida consciência, se não é indispensável, é em qualquer caso favorável ao conformismo político.

No nosso tempo, o discurso e a escrita política são em grande medida a defesa do indefensável. Coisas como a continuidade do domínio britânico na Índia, as purgas e deportações russas, o bombardeamento atômico do Japão, podem realmente ser defendidas, mas apenas com argumentos que são demasiado brutais para que a maior parte das pessoas os assuma, e que não combina bem com os objetivos professados dos partidos políticos. Assim, a linguagem política tem de consistir em grande medida em eufemismo, petição de princípio e pura vagueza turva. Povoações indefesas são bombardeadas por aviões, os habitantes expulsos para o campo, o gado varrido a metralhadora, as cabanas postas a arder com balas incendiárias: a isto chama-se pacificação. Rouba-se as quintas a milhões de camponeses que são obrigados a caminhar penosamente pelas estradas com não mais do que o que conseguem carregar: a isto chama-se transferência da população ou retificação das fronteiras. As pessoas são presas durante anos sem julgamento, ou levam tiros na nuca, ou são enviadas para morrer de escorbuto em explorações florestais no Árctico: a isto chama-se eliminação de elementos instáveis. Esta fraseologia é necessária quando se quer dar nome às coisas sem chamar as imagens mentais que lhes correspondem. Considere-se, por exemplo, um confortável professor inglês que defende o totalitarismo russo. Ele não pode dizer diretamente "Defendo que se deve matar os oponentes quando se consegue com isso bons resultados". Logo, dirá provavelmente algo do seguinte gênero:
"Apesar de conceder de bom grado que o regime soviético exibe certas características que o humanitário pode sentir-se inclinado a deplorar, temos, penso, de concordar que uma certa limitação do direito a fazer oposição política é um concomitante inevitável de períodos de transição, e que os rigores que o povo russo foi chamado a suportar foram amplamente justificados na esfera do que concretamente se alcançou."
O próprio estilo inflamado é uma espécie de eufemismo. Uma massa de palavras latinas desce sobre os factos como neve macia, confundindo os contornos e apagando os pormenores. O grande inimigo da linguagem clara é a insinceridade. Quando há um hiato entre os nossos verdadeiros objectivos e os objectivos declarados, voltamo-nos como que instintivamente para as palavras longas e para as expressões gastas, como um choco a largar tinta. No nosso tempo, "não entrar na política" é coisa que não existe. Todas as questões são questões políticas, e a própria política é uma massa de mentiras, fugas, tolices, ódio e esquizofrenia. Quando a atmosfera geral é má, a linguagem tem de sofrer. Presumo — isto é algo que não tenho conhecimento suficiente para verificar — que as línguas alemã, russa e italiana se deterioraram nos últimos dez ou quinze anos, em resultado da ditadura.

Mas se o pensamento corrompe a língua, a língua pode também corromper o pensamento. Um mau uso pode espalhar-se por tradição e imitação, mesmo entre quem devia saber das coisas e até sabe. A língua adulterada que tenho estado a discutir é, em alguns aspectos, muito conveniente. Expressões como um pressuposto que não é injustificável, deixa muito a desejar, não serviria qualquer propósito de valor, uma consideração que é boa ideia não perder de vista, são tentações constantes, um pacote de aspirinas sempre à mão. Releia-se este ensaio e é certo que se verá que cometi uma e outra vez as próprias faltas contra as quais estou a protestar. No correio desta manhã recebi um panfleto sobre as condições na Alemanha. O autor diz-me que se "sentiu impelido" a escrevê-lo. Abro-o ao acaso, e eis quase a primeira frase que encontro: "(Os Aliados) têm uma oportunidade não apenas para alcançar uma transformação radical da estrutura social e política alemã de maneira a evitar uma reação nacionalista na própria Alemanha, mas ao mesmo tempo para lançar as fundações de uma Europa cooperativa e unida." Como se vê, o autor "sente-se impelido" a escrever — sente, presumivelmente, que tem algo de novo a dizer — e, no entanto, as suas palavras, como cavalos militares a toque de corneta, agrupam-se automaticamente segundo o lúgubre padrão do costume. Esta invasão do nosso espírito por expressões pré-fabricadas (lançar as fundações, alcançar uma transformação radical) só pode ser evitada se estivermos constantemente precavidos contra elas, e cada uma delas anestesia uma porção do nosso cérebro.

Disse que a decadência da nossa língua é provavelmente curável. Quem o negar argumentará, se chegar a fazê-lo, que a língua se limita a refletir as condições sociais existentes, e que não podemos influenciar o seu desenvolvimento através de qualquer conserto direto de palavras e construções. No que respeita ao tom geral ou espírito de uma língua, isto pode ser verdade, mas não é verdade no pormenor. Palavras e expressões tolas desapareceram muitas vezes, não através de qualquer processo evolutivo, mas graças ao esforço consciente de uma minoria. Dois exemplos recentes foram explorar todas as avenidas e não deixar pedra alguma por virar, que foram mortas pelo escárnio de alguns jornalistas. Há uma longa lista de metáforas apodrecidas de que poderíamos analogamente livrar-nos se um número suficiente de pessoas tivesse interesse nisso; e seria também possível eliminar pela gargalhada a formação not un-,4 reduzir a quantidade de latim e grego na frase média, eliminar expressões estrangeiras e palavras científicas extraviadas, e, em geral, tornar o pretensiosismo deselegante. Mas tudo isto são aspectos menores. A defesa da língua inglesa exige mais e talvez seja melhor começar por dizer o que não exige.

Para começar, não tem a ver com arcaísmo, com a salvação de palavras e expressões obsoletas, nem com o estabelecimento de um "inglês canônico" do qual nunca devemos afastar-nos. Pelo contrário, trata-se em especial de eliminar toda a palavra ou expressão idiomática que já não é útil. Não tem a ver com a correção gramatical e sintáctica, que não são importantes desde que o que queremos dizer seja claro, nem com evitar americanismos, nem com o que se chama "bom estilo de prosa". Por outro lado, não tem a ver com a simplicidade falsa nem com a tentativa de tornar coloquial o inglês escrito. Nem sequer significa que em todos os casos se deva preferir a palavra saxônica à latina, apesar de significar que se deve usar o menor número possível de palavras o mais curtas possível que abarquem o que queremos dizer. O que é acima de tudo necessário é deixar o significado escolher a palavra, e não o contrário. Na prosa, a pior coisa que se pode fazer com as palavras é rendermo-nos a elas. Quando se pensa num objecto concreto, pensa-se sem palavras, e depois, se queremos descrever a coisa que visualizamos, procuramos até encontrarmos as palavras exactas que parecem ajustar-se-lhe. Quando se pensa em algo abstrato há maior inclinação para usar palavras desde o princípio, e a menos que se faça um esforço consciente para o evitar, o dialecto pré-existente apressa-se a intervir e a fazer o trabalho por nós, à custa de obscurecer ou até mudar o que se queria dizer. Provavelmente, é melhor adiar tanto quanto possível o uso das palavras e tornar o que queremos dizer o mais claro que conseguirmos através de imagens ou sensações. Depois podemos escolher — e não apenas aceitar — as expressões que melhor abrangem o significado, e depois invertemos as coisas e decidimos que impressão é provável que as nossas palavras tenham nos outros. Este último esforço mental elimina as imagens estereotípicas ou baralhadas, as expressões pré-fabricadas, repetições desnecessárias e a treta e a vagueza em geral. Mas podemos muitas vezes ter dúvidas sobre o efeito de uma palavra ou expressão, e precisamos de regras nas quais nos possamos apoiar quando o instinto falha. Penso que as regras seguintes abrangem a maior parte dos casos:
  1. Nunca use uma metáfora, símile ou outra figura de estilo que esteja habituado a ler.
  2. Nunca use uma palavra grande quando uma pequena servir.
  3. Se for possível cortar uma palavra, corte-a sempre.
  4. Nunca use a voz passiva quando pode usar a voz activa.
  5. Nunca use uma expressão estrangeira, uma palavra científica ou uma palavra de gíria se conseguir pensar num equivalente inglês corrente.
  6. Viole qualquer destas regras de preferência a dizer algo obviamente bárbaro.
Estas regras parecem elementares, e são, mas exigem uma mudança de atitude profunda em qualquer pessoa que se tenha habituado a escrever no estilo agora em moda. É possível observar estas regras e mesmo assim escrever mau inglês, mas não o tipo de coisas de que dei cinco exemplos no princípio deste artigo.

Não tive aqui em consideração o uso literário da linguagem, mas unicamente a linguagem como instrumento para expressar o pensamento e não para o esconder ou impedir. Stuart Chase e outros chegam quase a afirmar que todas as palavras abstractas são destituídas de sentido, e têm usado isto como pretexto para advogar uma espécie de quietismo político. Dado que não sabemos o que é o fascismo, como podemos lutar contra ele? Não precisamos de engolir absurdos destes, mas devemos reconhecer que o presente caos político está ligado ao declínio da linguagem, e que podemos provavelmente trazer algumas melhorias começando pelo lado verbal. Se simplificarmos o inglês, libertamo-nos das piores tolices da ortodoxia. Não seremos capazes de falar os dialectos necessários, e quando fizermos um comentário estúpido a sua estupidez será óbvia, até para nós próprios. A linguagem política — e com algumas variações isto aplica-se a todos os partidos políticos, dos conservadores aos anarquistas — foi concebida para fazer as mentiras parecer verdades e o assassínio respeitável, e para dar uma aparência de solidez ao puro vento. Não se pode mudar isto de um momento para o outro, mas podemos ao menos mudar os nossos próprios hábitos e, de tempos a tempos, se troçarmos suficientemente alto, até podemos deitar uma ou outra expressão gasta e inútil — bota militar, calcanhar de Aquiles, antro, caldeirão cultural, teste de tornesol, vero inferno ou outro monte de entulho verbal — para o cesto dos papéis, que é onde está bem.
George Orwell

Notas

  1. Em mau português a substantivação abusiva dá um ar de falsa profundidade: usa-se o Outro para falar das outras pessoas, ou o saber, o ser, o existir, para falar respectivamente do conhecimento, da existência e da existência outra vez. Em mau português importa-se o prefixo inglês un- pensando que não- é um prefixo e escreve-senão-temporal em vez de intemporal ou não-moral em vez de amoral, ignorando os prefixos portugueses genuínos, in- a-. (N. do T.)
  2. Uma ilustração interessante disto é o modo como os nomes ingleses das flores, que até muito recentemente estavam em uso, estão a ser eliminados a favor dos gregos: boca-de-leão torna-se antirrinonão-me-esqueças torna-se miosótis, etc. É difícil ver qualquer razão prática para esta mudança de moda; deve-se provavelmente a um afastamento instintivo da palavra mais modesta e a uma vaga sensação de que a palavra grega é científica.
  3. Por exemplo: "O conforto da catolicidade da percepção e da imagem, de alcance estranhamente whitmaniano, quase o exacto oposto em compulsão estética, continua a invocar aquele sugerir trémulo, atmosférico e acumulativo de uma cruel, serena intemporalidade [...] Wrey Gardiner marca pontos ao procurar alvos simples com precisão. Só que não são assim tão simples, e esta tristeza satisfeita é atravessada por mais do que a superfície amargo-doce da resignação." (Poetry Quarterly)
  4. Podemos curar-nos da formação not un- memorizando esta frase: A not unblack dog was chasing a not unsmall rabbit accross a not ungreen field. [Um cão que não era não-preto perseguia um coelho que não era não-pequeno através de um campo que não era não-verde.]

Publicado originalmente em Horizon (Abril de 1946). Tradução portuguesa publicada em Por Que Escrevo e Outros Ensaios (Lisboa: Antígona, 2008)



Manifesto pela renovação da História


Os progressos nas ciências naturais, como o estudo do DNA, conferiram nova atualidade a uma história evolucionista da humanidade, sem que os historiadores tenham se dado conta disso.É hora, portanto, de se restabelecer a coalizão dos que querem ver na história uma pesquisa racional sobre o curso das transformações humanas, contra os que a deformam com fins políticos e os relativistas e pós-modernos que se recusam a admitir que ela oferece essa possibilidade


por Eric Hobsbawm

"Até aqui, os filósofos só interpretaram o mundo; trata-se de mudá-lo". Os dois enunciados da famosa Thèse Feuerbach, de Karl Marx, inspiraram os historiadores marxistas. A maioria dos intelectuais que abraçaram o marxismo a partir dos anos 1880 - dentre os quais, os historiadores marxistas - o fez porque queria mudar o mundo em colaboração com os movimentos operário e socialista; movimentos que iriam tornar-se, em grande parte sob influência do marxismo, forças políticas de massa. De modo muito natural, essa cooperação orientou os historiadores que queriam mudar o mundo para certos campos de estudo - em particular para a história do povo ou da população operária - os quais, se atraíam naturalmente as pessoas de esquerda, não tinham, na origem, nenhuma relação especial com uma interpretação marxista. Inversamente, quando, a partir dos anos 1890, deixaram de ser revolucionários sociais, com freqüência esses intelectuais deixaram também de ser marxistas.

A Revolução Soviética de outubro de 1917 reavivou esse engajamento. Lembremo-nos de que o marxismo só foi formalmente abandonado pelos principais partidos social-democratas da Europa continental na década de 1950 ou mesmo mais tarde. Ela engendrou, igualmente, o que se poderia chamar de uma historiografia marxista obrigatória na URSS e nos Estados colocados, em seguida, sob regime comunista. A motivação militante fortaleceu-se durante o período do antifascismo. A partir da década de 50, ela se embotou nos países desenvolvidos - mas não no Terceiro Mundo -, embora o considerável desenvolvimento do ensino universitário e a agitação estudantil tenham dado origem na década de 60, no interior da universidade, a um novo e importante contingente de pessoas decididas a mudar o mundo. Entretanto, se eram radicais, muitos deles não eram mais francamente marxistas e alguns, absolutamente, não eram mais marxistas.

Esse ressurgimento culminou na década de 70, pouco antes de começar uma reação em massa contra o marxismo - ainda uma vez, por razões essencialmente políticas. Essa reação teve por efeito principal aniquilar, exceto entre os liberais que ainda aderem a ela, a idéia de que se possa predizer, com o apoio da análise histórica, o êxito de um modo particular de organizar a sociedade humana. A história se dissociou da teleologia1.

Perspectivas incertas

O impacto mais conhecido das idéias marxistas - a importância atribuída aos fatores econômicos e sociais - não era especificamente marxista

Dadas as perspectivas incertas que se oferecem aos movimentos social-democratas e revolucionários sociais, é improvável que se assista a uma nova corrida politicamente motivada rumo ao marxismo. Mas evitemos um centrismo ocidental excessivo. A julgar pela demanda de que são objeto minhas próprias obras de história, constato que esta se desenvolveu na Coréia do Sul e em Taiwan desde a década de 80, na Turquia desde a década de 90, e há indícios de que, no momento atual, está progredindo no mundo de língua árabe.

O que aconteceu com a dimensão "interpretação do mundo" do marxismo? A história é um pouco diferente, mas também corre em paralelo. Ela diz respeito ao crescimento do que se pode chamar de reação anti-Ranke2, da qual o marxismo constituiu um elemento importante sem, contudo, ter sido sempre reconhecido. Essencialmente, ocorreu um duplo movimento.

De um lado, esse movimento contestava a idéia positivista de que a estrutura objetiva da realidade era, por assim dizer, evidente: bastava aplicar a ela a metodologia da ciência, explicar porque as coisas aconteceram como aconteceram e descobrir "wie es eigentlich gewesen" [como isso é, realmente]? Para todos os historiadores, a historiografia continuou, e continua, ancorada numa realidade objetiva, a saber, a realidade do que se produziu no passado; entretanto, ela não parte de fatos mas de problemas e exige que se pesquise a fim de se compreender porque e como esses problemas - paradigmas e conceitos - são formulados como o são em tradições históricas e em ambientes sócio-culturais diferentes.

De outro lado, esse movimento tentava aproximar as ciências sociais da história e, por conseqüência, englobá-la numa disciplina geral capaz de explicar as transformações da sociedade humana. Segundo a fórmula de Lawrence Stone3, o objeto da história deveria ser "colocar as grandes questões do ?porquê?". Essa "virada social" não veio da historiografia mas das ciências sociais, algumas nascentes enquanto tais, que se afirmavam então como disciplinas evolucionistas, isto é, históricas.

Pai da sociologia do conhecimento

Marx influenciou a história principalmente por meio da interpretação de historiadores e pesquisadores em ciência social que retomaram as questões por ele colocadas

À medida que Marx pode ser considerado o pai da sociologia do conhecimento, o marxismo, embora o tenham denunciado - erroneamente - em nome de uma suposta objetividade cega, certamente contribuiu para o primeiro aspecto desse movimento. Além disso, o impacto mais conhecido das idéias marxistas - a importância atribuída aos fatores econômicos e sociais - não era especificamente marxista, ainda que a análise marxista tenha influenciado fortemente essa orientação. Esta se inscrevia num movimento historiográfico geral, visível a partir dos anos 1890 e que culminou nas décadas de 50 e 60, em benefício de minha geração de historiadores que teve a chance de transformar a disciplina.

Essa corrente sócio-econômica superava o marxismo. A criação de revistas e de instituições de história econômico-social foi, às vezes, como na Alemanha, obra de socialdemocratas marxistas, como a revista Vierteljahrschrift em 1893. Não foi o que se deu na Grã-Bretanha, nem na França ou nos Estados Unidos. E mesmo na Alemanha, a escola de economia fortemente histórica nada tinha de marxiano. Somente no Terceiro Mundo do século XIX (a Rússia e os Bálcãs) e no do século XX é que a história econômica assumiu uma orientação antes de tudo social revolucionária, como toda "ciência social". E, por conseqüência, pôde ser fortemente atraída por Marx. Em todos os casos, o interesse histórico dos historiadores marxistas não se voltou tanto para a "base" (a infra-estrutura econômica) quanto para as relações entre a base e a supra-estrutura. Os historiadores claramente marxistas sempre foram relativamente pouco numerosos.

Fertilização e crise

A historiografia marxista avançou graças à sua fertilização por outras disciplinas (em especial a antropologia social) e por pensadores que o completaram, como Max Weber

Marx influenciou a história principalmente por meio da interpretação de historiadores e pesquisadores em ciência social que retomaram as questões por ele colocadas - tenham ou não dado a elas outras respostas. Por sua vez, a historiografia marxista avançou muito em relação ao que era na época de Karl Kautsky e de Georgi Plekhanov4, graças, em grande parte, à sua fertilização por outras disciplinas (em especial a antropologia social) e por pensadores influenciados por Marx e que vinham completá-lo, como Max Weber5.

Se enfatizo o caráter geral dessa corrente historiográfica, não é por querer subestimar as divergências que ela recobre ou que existiam no seio de seus componentes. Os modernizadores da história se colocaram as mesmas questões e se consideraram engajados nas mesmas lutas intelectuais, quer buscassem inspiração na geografia humana, na sociologia durkheimiana6 e nas estatísticas, como na França (ao mesmo tempo, a Escola dos Anais e Labrousse), ou na sociologia weberiana, como a Historische Sozialwissenschaft na Alemanha Federal, ou ainda no marxismo dos historiadores do Partido Comunista, que foram os vetores da modernização da história na Grã-Bretanha ou, pelo menos, fundaram sua principal revista.

Uns e outros consideravam-se aliados contra o conservadorismo em história, mesmo quando suas posições políticas ou ideológicas eram antagônicas, como Michael Postan7 e seus alunos marxistas britânicos. Essa coalizão do progresso encontrou uma expressão exemplar na revista Past & Present, fundada em 1952 e que se impôs como referência no mundo dos historiadores. Essa revista deveu seu sucesso ao fato de que os jovens marxistas que a fundaram recusaram deliberadamente a exclusividade ideológica e de que os jovens modernizadores, vindos de outros horizontes ideológicos, estavam prestes a se juntar a eles porque sabiam que as diferenças ideológicas e políticas não eram um obstáculo para uma colaboração. Essa frente do progresso avançou de maneira espetacular entre o fim da II Guerra Mundial e a década de 70, naquilo que Lawrence Stone chama de "amplo conjunto de comoções na natureza do discurso histórico". E isso até a crise de 1985, que vive a passagem dos estudos quantitativos aos estudos qualitativos, da macro à micro-história, das análises estruturais aos textos, do social aos temas culturais... Desde então, a coalizão modernizadora está na defensiva, e é o caso mesmo de seus componentes não marxistas, como a história econômica e social.

Bloqueio metodológico

No plano metodológico, há recusa em admitir que existe uma realidade, objetiva, e não construída pelo observador para fins diferentes e cambiantes

Na década de 70, a corrente dominante em história havia sofrido tal transformação, especialmente sob a influência das "grandes questões" colocadas à moda de Marx, que eu escrevia o seguinte: "Com freqüência, é impossível saber se uma obra foi redigida por um marxista ou por um não-marxista, a menos que o autor anuncie sua posição ideológica... Espero com impaciência o dia em que ninguém perguntará se os autores são marxistas ou não". Mas, como eu também mostrava, estávamos longe de tal utopia. Depois, ao contrário, a insistência em salientar o que o marxismo pode aportar à historiografia se fez maior e é, hoje, mais forte que nunca. Ao mesmo tempo porque a história precisa ser defendida contra aqueles que negam sua capacidade de nos ajudar a compreender o mundo e porque novos desenvolvimentos nas ciências perturbaram o calendário historiográfico.

No plano metodológico, o fenômeno negativo mais importante foi a construção de um conjunto de barreiras entre o que se passou ou o que se passa em história e nossa capacidade para observar esses fatos e para compreendê-los. Tais bloqueios são devidos à recusa em admitir que existe uma realidade, objetiva, e não construída pelo observador para fins diferentes e cambiantes, ou ao fato de se afirmar que nunca podemos ir além dos limites da linguagem, isto é, dos conceitos que são a única maneira através da qual podemos falar sobre o mundo, inclusive sobre o passado.

Essa visão elimina a questão de saber se existem esquemas e regularidades no passado, a partir dos quais o historiador pode formular proposições significativas. Entretanto, razões menos teóricas levam igualmente a tal recusa: desse modo, se argumentará que o curso do passado é demasiado contingente, isto é, que as generalizações estão excluídas porque qualquer coisa, praticamente, poderia acontecer ou teria podido acontecer. Implicitamente, são argumentos que visam a todas as ciências. Deixemos de lado as tentativas mais fúteis de voltar a velhas concepções: atribuir o curso da história a tomadores de decisões políticas ou a militares de altas patentes, ou à onipotência das idéias ou "valores", reduzir a erudição histórica à busca, importante mas insuficiente em si, de uma empatia com o passado.

Perigo político

O primeiro perigo político imediato que ameaça a historiografia é o antiuniversalismo: "minha verdade é tão válida quanto a sua, quaisquer que sejam os fatos"

O primeiro perigo político imediato que ameaça a historiografia atual é o "antiuniversalismo" - "minha verdade é tão válida quanto a sua, quaisquer que sejam os fatos". Esse antiuniversalismo seduz naturalmente a história dos grupos identitários em suas diferentes formas, para quem o objeto essencial da história não é o que se passou mas, sim, em quê o que se passou diz respeito aos membros de um grupo particular. De modo geral, o que conta para esse tipo de história não é a explicação racional, mas a "significação"; não o que se produziu, mas como os membros de uma coletividade que se define contra os outros - em termos de religião, de etnia, de nação, de sexo, de modo de vida etc. - sentem o que se passou.

A atração do relativismo se exerce sobre a história dos grupos identitários. Por diferentes razões, a invenção de massa de contraverdades históricas e de mitos, que são tantas outras deformações ditadas pela emoção, conheceu uma verdadeira idade de ouro ao longo desses últimos trinta anos. Alguns desses mitos constituem um perigo público - em países como a Índia na época do governo hinduísta8, nos Estados Unidos e na Itália de Silvio Berlusconi, para mencionar apenas alguns dos novos nacionalismos, sejam eles acompanhados ou não de uma pressão do integrismo religioso.

Contudo, se esse fenômeno gerou conversas fiadas e inépcias sem fim nas margens mais afastadas da história de grupos particulares - nacionalistas, feministas, gays, negros e outros -, também deu origem a desenvolvimentos históricos inéditos e extremamente interessantes no domínio dos estudos culturais, como o "boom da memória nos estudos históricos contemporâneos", como o chama Jay Winter9. Les Lieux de mémoire10 coordenados por Pierre Nora são um bom exemplo disso.

O restabelecimento do evolucionismo

Alguns desses mitos oriundos do relativismo constituem um perigo público - em países como a Índia na época do governo hinduísta, nos EUA e na Itália de Berlusconi

Diante de todas essas derivas, é hora de se restabelecer a coalizão dos que querem ver na história uma pesquisa racional sobre o curso das transformações humanas, ao mesmo tempo contra os que a deformam sistematicamente com fins políticos e, de modo geral, contra os relativistas e os pós-modernos que se recusam a admitir que a história oferece essa possibilidade. Como alguns se consideram de esquerda entre esses relativistas e outros pós-modernos, clivagens políticas inesperadas ameaçam dividir os historiadores. A abordagem marxista, como nas décadas de 50 e 60, revela-se, no entanto, um elemento necessário na reconstrução da frente da razão (Un siècle d?histoire marxiste). De fato, a contribuição marxista é provavelmente ainda mais pertinente hoje, considerando-se que os outros componentes da coalizão de então abdicaram, tal como a Escola dos Anais de depois de Fernand Braudel, e a "antropologia social estrutural-funcional" cuja influência entre os historiadores foi tão grande. Esta disciplina foi particularmente perturbada pela corrida rumo à subjetividade pós-moderna.

Entretanto, enquanto os pós-modernos negavam a possibilidade de uma compreensão histórica, os progressos nas ciências naturais novamente conferiam atualidade a uma história evolucionista da humanidade, sem que os historiadores realmente se dessem conta do fato. E isso de duas maneiras.

Em primeiro lugar, a análise do DNA estabeleceu uma cronologia mais sólida do desenvolvimento desde a aparição do homo sapiens enquanto espécie, em especial a cronologia da expansão, no resto do mundo, dessa espécie originária da África e dos desenvolvimentos que se seguiram antes do aparecimento de fontes escritas. Ao mesmo tempo, isso revelou a espantosa brevidade da história humana - segundo critérios geológicos e paleontológicos - e eliminou a solução reducionista da sociobiologia darwiniana11. As transformações da vida humana, coletiva e individual, no decorrer dos últimos dez mil anos, e singularmente ao longo das dez últimas gerações, são consideráveis demais para se explicarem por um mecanismo de evolução inteiramente darwiniano, pelos genes. Elas correspondem a uma aceleração da transmissão das características adquiridas por mecanismos culturais e não genéticos - seria possível dizer que se trata da revanche de Lamarck12 contra Darwin pelo viés da história humana. E não adianta muito travestir o fenômeno sob metáforas biológicas falando de "mèmes13" ao invés de "genes". Os patrimônios cultural e biológico não funcionam da mesma forma.

A revolução do DNA

A evolução do DNA invoca um método particular, histórico, de estudo da evolução da espécie humana e um quadro racional para uma história do mundo

Para resumir, a revolução do DNA invoca um método particular, histórico, de estudo da evolução da espécie humana. Oferece, igualmente, diga-se de passagem, um quadro racional para uma história do mundo. Uma história que tome o planeta em toda a sua complexidade como unidade dos estudos históricos e não como um meio ambiente particular ou uma região dada. Em outros termos, a história é a continuação da evolução biológica do homo sapiens por outros meios.

Em segundo lugar, a nova biologia evolucionista elimina a distinção estrita entre história e ciências naturais, já em grande parte atenuada pela "historicização" sistemática dessas ciências nas últimas décadas. Luigi Luca Cavalli-Sforza, um dos pioneiros multidisciplinares da revolução DNA, fala do "prazer intelectual em encontrar tantas similaridades entre campos de estudo díspares, dos quais alguns pertencem, tradicionalmente, aos dois pólos opostos da cultura: a ciência e as humanidades". Em poucas palavras, essa nova biologia nos liberta do falso debate sobre a questão de saber se a história é ou não uma ciência.

Em terceiro lugar, ela nos traz inevitavelmente à abordagem de base da evolução humana adotada pelos arqueólogos e pelos pré-historiadores, a qual consiste em estudar os modos de interação entre nossa espécie e seu meio ambiente, assim como o controle crescente que ela exerce sobre ele. Isto significa colocar essencialmente as questões que se colocava Karl Marx. Os "modos de produção" (qualquer que seja o nome que se lhes dê) baseados em inovações maiores de tecnologia produtiva, de comunicações e de organização social - mas também de poder militar - estão no cerne da evolução humana. Essas inovações, e Marx tinha consciência disso, não se deram, e não se dão, por elas mesmas. As forças materiais e culturais e as relações de produção não são separáveis. Elas são as atividades de homens e de mulheres fazendo sua própria história, mas não no "vazio", não fora da vida material.

Do neolítico à era nuclear

Conseqüentemente, as novas perspectivas para a história devem também nos trazer a esse objetivo essencial dos que estudam o passado - ainda que ele nunca seja inteiramente realizável: "a história total", não "a história de tudo", mas a história como tela indivisível na qual todas as atividades humanas são interconectadas. Os marxistas não são os únicos que tiveram esse objetivo - Fernand Braudel também o fez - mas foram os que, com mais tenacidade, procuraram atingi-lo, como esclarecia um deles, Pierre Vilar14.

Entre as questões importantes suscitadas por essas novas perspectivas, a que nos traz à evolução histórica do homem é a essencial. Trata-se do conflito entre, de um lado, as forças responsáveis pela transformação do homo sapiens, da humanidade neolítica à humanidade nuclear, e, de outro, as forças que mantêm imutáveis a reprodução e a estabilidade das coletividades humanas ou dos ambientes sociais e que, na maior parte da história, as neutralizaram eficazmente. Essa questão teórica é central. O equilíbrio das forças pende de maneira decisiva para uma direção. E esse desequilíbrio, que talvez supere a capacidade de compreensão dos humanos, supera certamente a capacidade de controle das instituições sociais e políticas humanas. Os historiadores marxistas, que não compreenderam as conseqüências involuntárias e indesejáveis dos projetos coletivos humanos do século XX, talvez possam agora, com base em sua experiência prática, ajudar a compreender como chegamos até aqui.

(Trad. Iraci D. Poleti)

1 - Teleologia: doutrina que se baseia na idéia de finalidade. 
2 - Reação contra Leopold von Ranke (1795-1886), considerado o pai da escola dominante da historiografia universitária, antes de 1914. Autor de várias obras, destacando-se Histoire des peuples romans et germains de 1494 à 1535 (1824) e de Histoire du monde (Weltgeschichte), (1881-1888 -inacabada). 
3 - Lawrence Stone (1920 - 1999), uma das personalidades mais eminentes e mais influentes da história social. Autor de várias obras, dentre as quais se destacam: The Causes of the English Revolution, 1529-1642 (1972), The Family, Sex and Marriage in England 1500-1800 (1977). 
4 - Respectivamente, dirigente da social-democracia alemã e dirigente da social-democracia russa no início do século XIX. 
5 - Max Weber (1864-1920), sociólogo alemão. 
6 - De Emile Durkheim (1858-1917), que fundou Les règles de la méthode sociologique (1895) e que é considerado, portanto, um dos pais da sociologia moderna. Dentre suas obras, destacam-se: De la division du travail social (1893) e Le suicide (1897). 
7 - Michael Postan é titular da cadeira de História Econômica na Universidade de Cambridge desde 1937. Com Fernand Braudel, inspirou a Associação Internacional de História Econômica. 
8 - O Partido Bharatiya Janata (BJP) dirigiu o governo indiano de 1999 a maio de 2004. 
9 - Professor na Universidade Columbia (Nova York). Um dos grandes especialistas de história das guerras do século XX e, principalmente, dos lugares de memória. 
10 - Les lieux de mémoire, Gallimard, 3 volumes.

Eric Hobsbawm (1917-2012) foi historiador e autor de, entre outros livros, A era dos extremos: o breve século XX (São Paulo, Cia das Letras, 1995).

Bauman: "O capitalismo é essencialmente um sistema parasita"

Com o recente "tsunami financeiro" demonstrou-se a milhões de pessoas que acreditavam nos mercados capitalistas e na Banca capitalista  como métodos evidentes para a resolução exitosa de problemas, que o capitalismo é especializado na criação de problemas, não na sua resolução.
"Nos han impuesto que eres más feliz cuanto más consumes y más compites"  Zygmunt Bauman
Como o sistema dos números naturais do famoso Teorema de Kurt Gödel, o capitalismo não pode ser ao mesmo tempo coerente e completo. Se é consistente com os seus próprios princípios, surgem problemas que não pode abordar; e se ele tenta resolvê-los, ele pode fazê-lo sem cair na falta de coerência com suas próprias instalações. Muito antes de Gödel escrever seu teorema, Rosa Luxemburgo lançou seu estudo sobre a "acumulação capitalista", que sugeriu que o capitalismo não pode sobreviver sem economias  "não-capitalistas";  pode proceder de acordo com seus princípios sempre quando há "Território virgem" aberto para expansão e exploração, mesmo que, quando ele conquistou-os para exploração, o capitalismo priva-os de sua virgindade pré-capitalista e, portanto, esgota as reservas que alimentá-os. É como uma cobra que devora a cauda: em primeiro lugar, a comida é abundante, mas logo se torna cada vez mais difícil de engolir e logo em seguida não tem nada pra comer nem o que comer...

O capitalismo é essencialmente um sistema parasita. Como todos os parasitas, ele pode prosperar uma vez que encontra o organismo ainda inexplorado, do qual pode alimentar-se, mas não pode fazê-lo sem danos para o anfitrião ou sem destruir cedo ou tarde as condições de sua prosperidade, ou até mesmo sua própria sobrevivência.

Rosa Luxemburgo, que escreveu em uma era de imperialismo desenfreado e conquista territorial, não poderia ter previsto que a terra pré-moderna dos continentes exóticos não eram os únicos possíveis "anfitriões" de que o capitalismo poderia se alimentar para prolongar a sua vida e começar os sucessivos ciclos de prosperidade. O Capitalismo revelou desde então sua engenhosidade incrível para pesquisar e encontrar novas espécies de hospedeiros cada vez que as espécies exploradas com anterioridade estavam enfraquecendo. Uma vez que ele anexou todas as terras virgens 'precapitalistas', o capitalismo inventou a "virgindade secundária". Milhões de homens e mulheres que se dedicaram à economia, ao invés de viverem do crédito foram transformados com astúcia em uma daquelas terras de deserto ainda não explorados.

A introdução de cartões de crédito foi a indicação do que estava por vir. Cartões de crédito fizeram a irrupção no mercado com um slogan eloqüente e sedutor: "elimine a espera para concretizar o desejo". Você quer algo mas não tem o suficiente pagar por isso? Bem, em tempos antigos, que felizmente já se passaram, tinha que adiar as satisfações (o adiamento, de acordo com Max Weber, um dos pais da sociologia moderna, foi o princípio que tornou possível o advento do capitalismo moderno): aperte o cinto, recusando-se outros prazeres, maneira prudente e frugal para gastar e poupar dinheiro que poderia ser anulada na esperança de que, com os devidos cuidados e paciência, reunirá-se-ia tempo suficiente para realizar os sonhos.

Graças a Deus e a benevolência dos bancos, já não é assim. Com um cartão de crédito, essa ordem pode ser invertida: Aproveite agora, pague depois! O Cartão de crédito nos dá a liberdade para gerenciar as próprias satisfações, fazer as coisas quando queremos, não quando as ganhamos e podemos pagar.

Para efeitos de evitar para reduzir o efeito dos cartões de crédito e do crédito fácil para apenas um ganho extraordinário para quem empresta, a dívida tinha (e fê-lo muito rapidamente!) que se tornar um ativo permanente de geração de lucro. Você não pode pagar a sua dívida? Não se preocupe: em contraste com o velhos credores, ansiosos para recuperar o que tinha sido pago no prazo fixado antecipadamente, nós, os credores modernos e amigáveis, não pedimos para devolver nosso dinheiro, mas oferecemos-lhes para dar ainda mais crédito para retornar a dívida anterior e manter o dinheiro adicional (ou seja, dívida) para pagar por novos prazeres. Nós somos os bancos que gostam de dizer 'Sim'. Bancos amigáveis. Bancos, sorrindo, como afirmou um dos comerciais mais criativos.

A armadilha do crédito

O que nenhum dos comerciais declarou abertamente foi que os bancos não queriam que seus devedores reembolsassem os empréstimos. Se os devedores pagarem em tempo hábil o empréstimo, já não estariam em dívida. E sua dívida (juros mensais que são pagos sobre ele)  o que os amigáveis credores modernos (e de uma notável sagacidade) decidiram e conseguiram reformular como a principal fonte de seu lucro ininterrupto. Os clientes que retornam rapidamente o dinheiro que eles pediram são a perdição dos credores. As pessoas que se recusam a gastar dinheiro que não ganharam e que se abstém de perguntar o que emprestou não são úteis para os credores, bem como as pessoas (motivadas por precaução ou com um desatualizado senso de honra) correm para pagar suas dívidas a tempo. Para seu benefício e de seus acionistas, bancos e provedores de cartão de crédito agora dependem de ininterrupto "serviço" da dívida e não rápido reembolso do mesmo. Até onde eles estão em causa, um ideal de "devedor" é que ele nunca reembolsa o crédito completamente. As multas são pagass se quiser pagar um empréstimo de hipoteca, antes do prazo acordado todas... Até a recente "crise de crédito", os bancos e administradoras de cartões de crédito estavam mais do que dispostos a oferecer novos empréstimos a tomadores insolventes para cobrir os interesses não remunerados de créditos anteriores. Uma das principais empresas de cartões de crédito da Grã-Bretanha recusou-se recentemente a renovar os cartões dos clientes que pagaram toda sua dívida a cada mês e, portanto, não efetuadas em qualquer interesse punitivo.

Para resumir, a "crise do crédito" não era um resultado da falha dos bancos. Em vez disso, foi um resultado completamente esperado, se bem inesperadamente, o fruto do seu notável sucesso: sucesso no que se refere a transformar a grande maioria dos homens e mulheres, velhos e jovens, em um exército de devedores. Eles têm o que eles queriam alcançar: um exército de devedores eternos, a auto perpetuação da situação de "empréstimo", enquanto eles procuram mais dívida como o corpo apenas realista de poupança da dívida já constituída.

Entrar para esta situação se fez  mais fácil do que nunca na história da humanidade, enquanto deixar o mesmo nunca foi tão difícil. Já seduzido, seduzido e em dívida para com todos aqueles que poderiam tornar-se devedores, bem como milhões de outros que não poderiam ou deveriam encorajar empréstimos.
Como em todas as mutações anteriores do capitalismo, desta vez o Estado assistiu a criação do novo terreno fértil para a exploração capitalista: foi por iniciativa do Presidente Clinton que foram introduzidos nos Estados Unidos as hipotecas subprime patrocinadas pelo governo para fornecer crédito para a compra de casas para pessoas que não tinham nenhum para reembolsar os credores, assim, transformaram em devedores setores da população que, até agora, tinham sido inacessíveis à exploração através do crédito...

No entanto, assim como o desaparecimento de pessoas descalças significa problemas para a indústria de calçado, o desaparecimento de pessoas endividadas não anuncia um desastre para o setor de crédito. A predição de Rosa Luxemburgo   foi cumprida mais uma vez: o  capitalismo estava perigosamente perto do suicídio, a esgotar a reserva de novas terras  desertas para exploração...

Até agora, a reação à "crise do crédito", mais impressionante e revolucionário que pode parecer uma vez processadas nas manchetes e declarações de políticos, foi mais do mesmo, na esperança vã de que possibilidades revigorantes para o lucro e o consumo deste período ainda não tornem-se esgotadas por completo: uma tentativa de recapitalizar os emprestadores de dinheiro e fazer que se tornem novamente seus devedores  credíveis, de modo tal que o negócio de emprestar e tomar emprestado, endividar-se e permanecer assim,  possa voltar ao "normal".

O estado de bem-estar social para os ricos (que, ao contrário de seu xará para os pobres, nunca viu questionada sua racionalidade e muito menos interrompidas suas operações) retornou para as salas de exposições, após deixar as unidades de serviço que  tinha sido relegado seus escritórios e temporariamente para evitar comparações invejosas.

O que os bancos não podiam obter - através de suas táticas usuais de tentação e sedução, o estado através da aplicação de capacidade coercitiva, fez, forçando a população coletivamente, a incorrer em dívidas de proporções  sem precedentes: tributação / hipotecar o nível de vida das gerações que ainda não nasceram...
Os músculos do estado, que há muito tempo  não era usado para essa finalidade,  voltaram a flexionarem-se em público, desta vez por causa da continuação do jogo cujos participantes que fazem que essa flexão se considere ultrajante, mas inevitável; um jogo que, curiosamente, não pode suportar que o estado exercite seus músculos, mas não pode sobreviver sem eles.

Agora, centenas de anos depois de Rosa Luxemburgo deu a conhecer o seu pensamento, sabemos que a força do capitalismo reside na sua assombrosa criatividade para pesquisar e encontrar novas espécies de hospedeiros cada vez que as espécies que se apossou antes se tornaram muito fracas ou morreram, bem como expedição virulenta e velocidade com que adapta para as idiossincrasias de seus novos pastos. Na edição de novembro de 2008, do The New York Review of Books (no artigo "a crise e o que fazer sobre"), o analista inteligente e um mestre da arte de George Soros de marketing apresentaram o itinerário das empresas capitalistas como uma sucessão de "bolhas" de dimensões que excedendo sua capacidade e explodiu rapidamente uma vez que você atingiu o limite de sua resistência.

A "crise do crédito" não marca o fim do capitalismo; Só o esgotamento de um dos seus pastos sucessivos... A busca por um novo prado vai começar em breve, como no passado, incentivado pelo Estado capitalista com a compulsiva mobilização de recursos públicos (através de impostos, e não através de uma sedução do mercado que está temporariamente fora de operações). Novas "Terras virgens" serão pesquisadas e  caberá à direita ou esquerda, abrir-lhes a exploração até que suas possibilidades de aumentarem os lucros dos acionistas e  bonificações de diretores fique esgotada, por sua vez.

Como sempre (como também aprendi no século XX, através de uma longa série de descobertas matemáticas de Henri Poincaré até Edward Lorenz) um mínimo passo ao precipício pode levar a um penhasco e à extremidade de uma catástrofe. Mesmo pequenos avanços podem desencadear inundações e extremidade acima na inundação...

Os anúncios de outro descobrimento de uma  ilha desconhecida atraem hordas de aventureiros que excedem as dimensões do território virgem, multidões que muito em um piscar de um olho teria que ir correndo para seus barcos para fugir do desastre iminente, esperando contra toda a esperança que os navios ainda estejam lá, intactos, protegidos...

A grande questão é em que ponto se esgotará a lista de terras disponíveis para uma secundária "virginização", e as explorações, por mais frenéticas e inteligentes que sejam, deixarão de gerar suspiros temporários. Os mercados, que são dominados pela "mentalidade caçadora que substituiu a atitude de guarda-bosques pré-moderna de jardineiro, seguramente não se vão incomodar em levantar esta questão, dado que vivem de uma alegre  escapada de una caça á outra como mais uma oportunidade de prosperar, não importa o quão brevemente ou a que preço o tempo quando a verdade for detectada.

Ainda não começamos a pensar seriamente sobre a sustentabilidade da nossa sociedade impulsionada à crédito e consumo. "O retorno à normalidade" prevê um retorno às estradas ruins e sempre perigosas. A intenção é alarmante: indica que nem as pessoas que dirigem as instituições financeiras, nem os nossos governos, atingirão o fundo do problema com seus diagnósticos e muito menos com seus atos.

Parafraseando Héctor Sants, o diretor da autoridade de serviços financeiros, que recentemente confessou a existência de "empresas de modelos mal equipado para sobreviver ao stress (...), algo que lamentamos", Simon Jenkins, analista do The Guardian de extraordinária nitidez, observou que "foi como se um piloto protestasse porque seu avião voa bem com exceção de motores".


Autor: Zygmunt Bauman



Pierre Bourdieu - As duas faces do Estado


É possível falar em nome do bem público, do que é o bem público, e, ao mesmo tempo, apropriar-se dele. Esse é o princípio do “efeito Janus”: há pessoas que possuem acesso ao privilégio do universal, mas não é possível ter o universal sem ao mesmo tempo monopolizar o universal

por Pierre Bourdieu - Le Monde Diplomatique


Descrever a gênese do Estado é descrever a gênese de um campo social, de um microcosmo social relativamente autônomo no interior de um mundo social abarcador, onde se joga um jogo particular, o jogo político legítimo. Um exemplo é a invenção do Parlamento, lugar onde os problemas que opõem grupos de interesses conflitantes são alvo de debates públicos realizados segundo formatos e regras específicas. Marx analisou apenas os bastidores: o recurso à metáfora do teatro, à teatralização do consenso, mascara o fato de que existem pessoas que manipulam os cordéis das marionetes, e que as verdadeiras apostas, os poderes de fato, estão em outro lugar. Retomar a gênese do Estado é retomar a gênese do campo onde a política se desenrola, se simboliza, se dramatiza em suas formas características.

Entrar nesse jogo do político legítimo, com suas regras, é ter acesso à fonte progressivamente acumulada do “universal”, à palavra universal, às posições universais a partir das quais é possível falar em nome de todos, do universum, da totalidade de um grupo. É possível falar em nome do bem público, do que é o bem público, e, ao mesmo tempo, apropriar-se dele. Esse é o princípio do “efeito Janus”: há pessoas que possuem acesso ao privilégio do universal, mas não é possível ter o universal sem ao mesmo tempo monopolizar o universal. Há um capital do universal. O processo constitutivo dessa instância de gestão do universal é inseparável do processo de constituição de uma categoria de agentes que se apropriam desse universal.

Tomo um exemplo do âmbito da cultura. A gênese do Estado é um processo ao longo do qual se dá uma série de concentrações de diferentes formas e recursos: concentração da informação (relatórios, estatísticas com base em pesquisas), de capital linguístico (oficialização de uma língua como idioma dominante, de forma que as outras línguas de um território nacional passem a figurar como formas depravadas, desviadas ou inferiores à dominante). Esse processo de concentração se dá junto ao processo de desapropriação: constituir uma cidade como capital, como local onde se concentram todas as formas do capital,1 é relegar o Estado e o resto do país à desapropriação do capital; constituir uma língua legítima é relegar todas as outras à condição de patoás.2

A cultura legítima é a cultura garantida pelo Estado, garantida por essa instituição que garante os títulos de cultura, que entrega diplomas cuja função é validar a possessão de uma cultura garantida. Os programas escolares são questão de Estado; modificar um programa é modificar a estrutura de distribuição do capital, é definhar certas formas de capital. Por exemplo, suprimir o latim e o grego do ensino é devolver ao poujadismo toda uma categoria de pequenos portadores de capital linguístico. Eu mesmo, em todos os meus trabalhos anteriores sobre a escola, nunca deixei de lado completamente o fato de que a cultura legítima é a cultura do Estado...

Essa concentração é, ao mesmo tempo, uma unificação e uma forma de universalização. Onde havia o diferente, o disperso, o local, passa a figurar o único. Com Germaine Tillion, comparamos as unidades de medida em diferentes povoados cabilas em um raio de 30 quilômetros: as variações correspondiam ao próprio número de vilarejos, cada um com suas particularidades. A criação de unidades de medida nacionais e estatais é um progresso em direção à universalização: o sistema métrico é um padrão universal que supõe consenso, do latim consensus, “concordância” ou “conformidade”. Esse processo de concentração, de unificação, de integração é acompanhado de um processo de desapropriação, porque todos os saberes e competências associados ao local passam a ser desqualificados.
Dito de outra forma, o próprio processo pelo qual se constitui a universalidade vem acompanhado da concentração da universalidade. Há aqueles que querem o sistema métrico (os matemáticos) e aqueles que remetem ao local. O próprio processo de constituição de padrões comuns é inseparável da conversão desses padrões comuns em capital monopolizado por aqueles que possuem o monopólio da luta pelo monopólio do universal. Todo esse processo – constituição de um campo, autonomização do campo em relação a outras necessidades; constituição de uma necessidade específica em relação à necessidade econômica e doméstica; constituição de uma reprodução específica de tipo burocrática, específica em relação à reprodução doméstica, familiar; constituição de uma necessidade específica em relação à necessidade religiosa – é inseparável do processo de concentração e constituição de uma nova forma de recursos que passam a fazer parte do universal, ou de um grau de universalização superior aos que existiam antes. Passou-se do pequeno mercado local ao mercado nacional, seja no aspecto econômico ou simbólico. A gênese do Estado é, em suma, inseparável da constituição do monopólio do universal, e o exemplo por excelência desse processo é a cultura.

Todos os meus trabalhos anteriores podem ser resumidos da seguinte forma: essa cultura é legítima porque se apresenta como universal, oferecida a todos porque, em nome dessa universalidade, podemos eliminar sem medo aqueles que não estão nela inseridos. Essa cultura, que aparentemente une, mas em realidade divide, é um dos grandes instrumentos de dominação porque pressupõe monopólio, monopólio terrível porque não podemos acusá-la de privada (pois é universal). A cultura científica leva esse paradoxo ao extremo. As condições da constituição desse universal, de sua acumulação, são inseparáveis da condição de existência de uma casta, de uma nobreza estatal, de “monopolizadores” do universal. A partir dessa análise, fala-se em universalizar as condições de acesso ao universal. Está por definir-se, contudo, como levar adiante esse projeto: é necessário desapropriar os “monopolizadores”? Não é exatamente por esse lado que se deve buscar a resposta.

Termino com uma parábola para ilustrar o que disse sobre método e conteúdo. Há trinta anos, em uma noite de Natal, fui a um pequeno vilarejo nos confins de Béarn para assistir a um pequeno baile camponês.3 Alguns dançavam, outros não; algumas pessoas, mais velhas que outras, com estilo camponês, não dançavam, conversavam entre elas e se entretinham para justificar o fato de estar ali sem participar do baile, para justificar a presença insólita. Deveriam ser casados, porque quando se é casado, não se dança mais. O baile é um desses lugares de intercâmbio matrimonial: é o mercado dos bens simbólicos matrimoniais. Havia um alto índice de homens solteiros: 50% dos que tinham entre 25 e 35 anos.
Tentei encontrar um sistema explicativo para esse fenômeno: é que antes havia um mercado local protegido, não unificado. Quando o chamado Estado se constitui, ocorre a unificação do mercado econômico ao qual o Estado contribui com sua política e a unificação do mercado de trocas simbólicas, ou seja, o mercado das posturas, das maneiras, das vestimentas, da pessoa, da identidade, da apresentação. Essas pessoas tinham um mercado protegido, local, sobre o qual tinham controle, o que permitia certa endogamia organizada pelas famílias. Os produtos do modo de reprodução camponês tinham lugar nesse mercado: eram vendáveis e tinham equivalentes, pares.

Na lógica do modelo que evoquei, o que aconteceu no baile é resultado da unificação do mercado de trocas simbólicas: o paraquedismo da pequena cidade vizinha que ganhava espaço no cenário regional era um produto desqualificante, pois aumentava a concorrência com o camponês. Dito de outra forma, a unificação do mercado, que pode ser apresentada como um progresso, de todos os modos para as pessoas que imigram – as mulheres e todos os dominados –, pode ter um efeito libertador. A escola transmite uma postura corporal diferente, outras formas de se vestir, de se comportar etc.; e o estudante tem um valor matrimonial nesse novo mercado unificado, enquanto o camponês é visto como desclassificado. A ambiguidade do processo de universalização está concentrada ali. Do ponto de vista das camponesas do vilarejo – que se casam com um “futuro” –, o matrimônio pode ser a porta de acesso ao universal.

Mas esse grau de universalização superior é inseparável do efeito de dominação. Recentemente, publiquei um artigo, espécie de releitura de minha análise sobre o celibato em Béarn na época, cujo título, algo jocoso, é “Reprodução proibida”.4 Demonstro que a unificação do mercado tem por efeito a interdição da reprodução biológica e social de toda uma categoria de pessoas. Na mesma época, trabalhei sobre um material encontrado por acaso: o registro das deliberações comunitárias de um pequeno vilarejo de duzentos habitantes durante a Revolução Francesa. Nessa região, os homens votavam por unanimidade. Mas chegaram decretos impondo o voto por maioria simples. Eles deliberaram, houve resistência e o vilarejo se dividiu em um campo e outro campo. Pouco a pouco, a maioria se impôs: ela teve por trás o universal.

Houve grandes discussões ao redor desse problema suscitado por Tocqueville em relação à continuidade/descontinuidade da Revolução. Mas a questão permanece um verdadeiro problema histórico: qual é a força específica do universal? Os processos políticos desses camponeses de tradições milenares e coerentes foram abalados pela força do universal, como se eles tivessem de se inclinar a uma lógica mais forte: a da cidade, com seus discursos explícitos, metódicos e não práticos. Os camponeses tornaram-se, então, provincianos, locais. As deliberações passam a outras instâncias e aparecem fórmulas como “O prefeito decidiu que...”, “O conselho municipal se reuniu e...”. A universalização tem como efeito reverso a desapropriação e a monopolização. A gênese do Estado é a gênese do lugar da gestão do universal e ao mesmo tempo do monopólio do universal e de um conjunto de agentes que participa do monopólio de uma coisa que, por definição, é da ordem do universal.


1 Essa relação entre o capital e a capital foi posteriormente desenvolvida por Pierre Bourdieu em “Effets de lieu” [Efeitos de lugar], La misère du monde [A miséria do mundo], Seuil, Paris, 1993, p.159-167.
2 Sobre a língua legítima e o processo correlativo da desapropriação, ver a primeira parte de Pierre Bourdieu, Langage et pouvoir symbolique [Linguagem e poder simbólico], Seuil, Paris, 2001, p.59-131.
3 Ver a descrição dessa “cena inicial” no início de Pierre Bourdieu, Le bal des célibataires. Crise de la société paysanne en Béarn [O baile dos solteiros.Crise da sociedade camponesa em Béarn], Seuil, Paris, 2002, p.7-14.
4 Pierre Bourdieu, “Reproduction interdite. La dimension symbolique de la domination économique” [Reprodução proibida. A dimensão simbólica da dominação econômica], Études Rurales, n.113-114, 1989, p.15-36, retomada em Le bal des célibataires, op.cit., p.211-247.


A LIBERDADE DA CIDADE

David Harvey

A cidade, tal como descrita pelo notável sociólogo urbano Robert Park, é: A mais consistente e, no geral, a mais bem sucedida tentativa do homem de refazer o mundo onde vive de acordo com o desejo de seu coração. Porém, se a cidade é o mundo que o homem criou, então é nesse mundo que de agora em diante ele está condenado a viver. Assim, indiretamente, e sem nenhuma idéia clara da natureza de sua tarefa, ao fazer a cidade, o homem refez a si mesmo¹.

A cidade pode ser julgada e entendida apenas em relação àquilo que eu, você, nós e (para que não nos esqueçamos) “eles” desejamos. Se a cidade não se encontra alinhada a esses direitos, então ela precisa ser mudada. O direito à cidade “não pode ser concebido como um simples direito de visita a ou um retorno às cidades tradicionais”. Ao contrário, “ele pode apenas ser formulado como um renovado e transformado direito à vida urbana”². A liberdade da cidade é, portanto, muito mais que um direito de acesso àquilo que já existe: é o direito de mudar a cidade mais de acordo com o desejo de nossos corações. Mas se Park está certo – ao refazer a cidade nos refazemos a nós mesmos – então precisamos avaliar continuamente o que poderemos estar a fazer de nós mesmos, assim como dos outros, no decorrer do processo urbano. Se descobrirmos nossas vidas se tornaram muito estressantes, alienantes, simplesmente desconfortáveis ou desmotivantes, então temos o direito de mudar de rumo e de buscar refazer nossas vidas segundo uma outra imagem e através da construção de um tipo de cidade qualitativamente diferente. A questão do tipo de cidade que desejamos é inseparável da questão do tipo de pessoas que desejamos nos tornar. A liberdade de fazer e refazer a nós mesmos e a nossas cidades dessa maneira é, sustento, um dos mais preciosos de todos os direitos humanos.

Mas existem numerosas forças que militam contra o livre exercício de tais direitos, que querem mesmo impedir que reconheçamos pensemos sobre ou ajamos em relação a tais direitos. Para começar, o extraordinário ritmo e escala da urbanização ao longo dos últimos cem anos (que fez a população urbana crescer de menos de 10% até quase 50%) tornou difícil a reflexão sobre esse tema. O próprio ritmo das mudanças históricas e geográficas solapam nossas capacidades de conceber, e como coloca Park, até mesmo “esclarece” nossa tarefa. Temos, em resumo, sido refeitos muita vezes sem sabermos como ou porque. Será que isso contribuiu para o bem estar e felicidade humanos? Isso nos fez pessoas melhores ou nos deixou em um mundo de anomia e alienação, raiva e frustração?

Além do mais, vivemos, na maioria, em cidades divididas, fragmentadas e tendentes ao conflito. A maneira pela qual vemos nosso mundo e a maneira pela qual definimos suas possibilidades quase sempre estão associadas ao lado da cerca onde nos encontramos. A globalização e guinada em direção ao neoliberalismo enfatizaram, ao invés de diminuir, as desigualdades sociais. O poder de classe foi restaurado às elites ricas³. Os resultados foram indelevelmente gravados nas formas espaciais de nossa cidades, que mais e mais tornam-se cidades “de fragmentos fortificados”. A maioria dos relatos agora aponta para um desenvolvimento geológico desigual ao longo dos últimos trinta anos de reestruturação neoliberal, tanto dentro quanto entre as cidades. A cidade, particularmente no mundo em desenvolvimento:

"Está rachando em diversas partes separadas, com a aparente formação de “microestados”. Os bairros ricos são atendidos por toda sorte de serviços, tais como escolas caras, campos de golfe, quadras de tênis e a policia particular a patrulhar a área 24 horas por dia, que se emaranham em ocupações ilegais onde a água encontra-se disponível somente em fontes públicas, onde nenhum sistema sanitário existe, onde a eletricidade é privilégio de poucos, onde as ruas se tornam lama quando chove e onde o compartilhamento, atendo-se firmemente àquilo que foi possível agarrar na luta diária pela sobrevivência[4]."

A chamadas cidades “globais” do capitalismo avançado são divididas socialmente entre as elites financeiras e as grandes porções de trabalhadores de baixa remuneração que por sua vez se funde aos marginalizados e desempregados. Na cidade de Nova Iorque, durante o boom da década de 1990, o salário médio de Manhattan subiu à substancial taxa de 12% mas nos bairros vizinhos caiu de 2 a 4%. As cidades sempre foram lugares de desenvolvimento geográficos desiguais (às vezes de um tipo totalmente benevolente e entusiasmante), mas as diferenças agora proliferam e se intensificam de maneiras negativas, mesmo patológicas, que inevitavelmente semeiam tensão civil. A luta contemporânea de absorver a mais-valia durante a fase frenética de construção da cidade (basta observar o horizonte das cidades de Xangai, Mumbai, São Paulo, Cidade do México) contrasta drasticamente com o desenvolvimento de um planeta onde favelas proliferam[5].

Tais desenvolvimentos urbanos desiguais desenham o cenário para o conflito social. As cidades nunca foram, é verdade, lugares de harmoniosos, sem confusão, conflito ou violência. Basta lembrar das histórias da Comuna de Paris de 1871, ou das revoltas de 1964 contra o alistamento, para vermos o quão longe chegamos. Mas basta igualmente pensar violência urbana que mais recentemente consumiu Belfast, que destruiu Beirute e Sarajeva, que fez Bombaim e Ahmedabad tremerem e que fez ruínas da Palestina. Nem mesmo Los Angeles – a cidade dos anjos – foi poupada. A única pergunta interessante é se os resultados são criativos ou destrutivos. Normalmente são ambos: a cidade tem sido por muito tempo um epicentro de criatividades destrutiva.

Fluxos migratórios em toda parte: elites empresariais em movimento; acadêmicos e consultores na estrada; diásporas (muitas vezes clandestinamente) tecendo redes através de fronteiras; ilegais e sem-papéis; os despossuídos que dormem nos portais e mendigam nas ruas, rodeados de grande afluência; as limpezas étnicas e religiosas; as estranhas misturas e confrontos improváveis – tudo isso é parte integral do turbilhão da cena urbana, tornando as questões de cidadania e dos direitos daí derivados mais e mais difíceis de definir, no exaro momento em que eles se tornam mais vitais de estabelecer frente às forças hostis de mercado e progressiva vigilância estatal. Por um lado, tais diferenciações podem gerar novas e maravilhosas fusões do tipo que vemos nas tradições musicais de Nova Orleans , Joanesburgo e no East End londrino. Concluímos daí que o direito à diferença é um dos mais preciosos direitos dos citadinos. A cidade sempre foi um lugar de encontro, de diferença e de interação criativa, um lugar onde as desordem tem seus usos e onde visões, formas culturais e desejos individuais concorrentes se chocam[6].

Mas a diferença também pode resultar em intolerância e divisões, marginalizações e exclusões, por vezes fervendo em violentas confrontações. Em todo lugar encontramos diferentes noções de direitos afirmados e buscados. Os combatentes da Comuna pensavam que era seu direito tomar Paris à burguesia em 1871 para reconstruí-la de acordo com o desejo de seus corações. Os monarquistas que vieram para matá-los pensavam que era seu direito tomar a cidade de volta em nome de Deus e da propriedade privada. Ambos os católicos e protestantes julgavam-se certos em Belfast ao procurarem limpar seu espaço de qualquer vestígio da existência do outro. Assim fez Shiv Sena em Bombaim (um lugar eles preferem chamar de Mumbai), quando lançou em 1993 uma violenta operação de limpeza contra os muçulmanos em nome do nacionalismo Maharastri. Não estariam todos exercitando da mesma formas seu direito à cidade? Se for assim, como Marx famosamente escreveu, entre tais direitos iguais apenas a força pode decidir[7].

Então é a isso que o direito à cidade se resume? Mendigar de meu vizinho ou ser alvo de mendicância dele? Então, o que eu e outros devemos fazer se determinarmos que a cidade não se conforma aos nossos desejos? Se determinarmos, por exemplo, que estamos nos refazendo de maneira sustentável, emancipatória ou mesmo “civilizada”? Como, em resumo, poderia o direito à cidade ser exercido pela mudança da vida urbana? A resposta de Lefebvre é simples em essência: através da mobilização social e da luta política/social[8]. Mas qual visão eu ou os movimentos sociais construímos para nos guiar em nossa luta? De maneira a assegurar resultados positivos em vez de cair numa violência sem fim? Uma coisa é clara: não podemos deixar que o medo desta última nos acorvade e nos faça estagnar em uma passividade sem sentido. Evitar o conflito não é a resposta: retornar a tal estado é se descolar do sentido do processo de urbanização e assim perder qualquer prospecto de exercitar qualquer direito à cidade.

Existe um interessante paralelo entre o argumento de Park e as formulações de Marx. Podemos nos transformar apenas pela transformação do mundo e vice-versa, afirma Marx. Essa relação dialética está na raiz do significado do trabalho humano. Há um papel crucial aqui, diz Marx, para a imaginação de desejo. O que separa o pior dos arquitetos das melhores abelhas é que o arquiteto erige uma estrutura na imaginação antes de materializá-lo no solo[9]. É a metáfora mais do que a profissão do arquiteto que deveria chamar nossa atenção. A implicação é que nós, individualmente e coletivamente, fazemos nossa cidade através de nossas ações diárias e de nossos engajamentos políticos, intelectuais e econômicos. Todos, somos, de um jeito ou de outro, arquitetos de nossos futuros urbanos. O direito à mudança da cidade não é um direito abstrato, mas sim um direito inerente às nossas práticas diárias, quer estejamos cientes quer não. Esse é um ponto profundo: o pivô sobre o qual grande parte de meu argumento revolve.

Mas, ao contrário – e é aqui que a dialética retorna para nos assombrar – a cidade nos faz sob circunstâncias urbanas que não escolhemos. Como poderia desejar um mundo alternativo possível, ou mesmo imaginar seus contornos, seus enigmas e charmes, quando estou profundamente imerso na experiência que já existe? Como posso viver em Los Angeles sem me tornar um motorista de tal maneira frustrado que voto sempre pela construção de mais e mais super rodovias? Ao abrir a porta da imaginação humana, Marx, ainda que tenha procurado negá-lo, cria um movimento utópico dentro do qual nossas imaginações podem vagar e pensar possíveis alternativas de mundos urbanos. Poderíamos nos dar ao luxo de não sermos utópicos? Poderá a consideração de uma tradição utópica revelar um caminho visionário para informar nossas perspectivas de possibilidades e chamar os movimentos sociais para alguma alternativa e para diferentes visões de cidade? Uma cidade sem super rodovias, por exemplo?

O direito à cidade não pode ser concebido simplesmente como um direito individual. Ele demanda esforço coletivo e a formação de direitos políticos coletivos ao redor de solidariedade sociais. No entanto, o neoliberalismo transformou as regras do jogo político. A governança substituiu o governo, os direitos e liberdades têm prioridades sobre a democracia, a lei e parceiras público-privadas sem transparência substituíram as instituições democráticas, a anarquia do mercado e do empreendedorismo competitivo substituíram as capacidades deliberativas baseadas em solidariedade sociais. Culturas oposicionistas tiveram que se adaptar a essas novas regras e encontrar novas maneiras de desafiar a hegemonia da ordem existente. Elas podem ter aprendido a inserir-se em estruturas de governança, por vezes com poderosos efeitos (tal como em numerosas questões ambientais). Em anos recentes, toda sorte de inovações e experimentações com formas coletivas de governança democrática e de decisão comunal têm emergido na cena urbana[10]. Falamos de experiências que vão desde o orçamento participativo de Porto Alegre e de muitos outros municípios que levaram a sério os ideais da Agenda 21 (de cidades sustentáveis formuladas nos acordos ambientais do Rio de Janeiro), passando por comitês de vizinhos e associações voluntárias que progressivamente põem-se a cargo de espaço públicos e comunitários, até as heterotópicas ilhas de diferença que excluem poderes corporativos (tais como Wal-Mart) e que constroem sistemas locais de troca econômica ou comunidades sustentáveis... o âmbito de experimentação é vasto. A descentralização do poder que o neoliberalismo demanda abriu espaços de toda sorte para que florescessem uma variedade de iniciativas locais, de maneira que são muito mais consistentes com uma imagem de socialismo descentralizado ou de um socialismo anarquista do que de um planejamento e controle centralizados e estritos. As inovações já existem lá fora. O problema é como reuni-las de maneira a construir uma alternativa viável ao neoliberalismo de mercado.

A criação de novos espaços urbanos comuns (commons), de uma esfera pública de participação democrática, requer um desfazer da enorme onda privatizante que tem servido de mantra ao neoliberalismo destrutivo dos últimos anos. Temos que imaginar uma cidade mais inclusiva, mesmo se continuamente fracionada, baseada não apenas em uma ordenação diferente de direitos mas sim em práticas político-econômicas. Direitos individualizados, tais como de ser tratado com dignidade devida a todo ser humano e as liberdades de expressão são por demais preciosas para ser postos de lado, mas a estes devemos adicionar o direito de todos adequadas chances de vida, direito ao suporte material elementar, à inclusão e à diferença. A tarefa, como sugeriu Polanyi, é expandir as esferas da liberdade e dos direitos além do confinamento estreito ao qual o neoliberalismo o reduz. O direito à cidade, como comecei a dizer, não é apenas um direito condicional de acesso àquilo que já existe, mas sim um direito ativo de fazer a cidade diferente, de formá-la mais de acordo com nossas necessidades coletivas (por assim dizer), definir uma maneira alternativa de simplesmente ser humano. Se nosso mundo urbano foi imaginado e feito, então ele pode ser re-imaginado e refeito.

Mas é aqui que a concepção à cidade toma novo viés. Foi nas ruas que os tchecos se libertaram em 1989 de opressivas formas de governança, foi na Praça de Paz Celestial que o movimento estudantil chinês buscou estabelecer uma definição alternativa de direitos, foi através de comícios de massa que a guerra de Vietnã foi forçada a terminar, e foi nas ruas que milhões protestaram contra o prospecto de uma intervenção imperialista americana no Iraque a 15 de fevereiro de 2003. Foi nas ruas de Seattle, Gênova, Melbourne, Quebec e Bangkok que os direitos inalienáveis À propriedade privada e da taxa de lucro foram desafiados. “Se”, afirma Mitchell,. “o direito à cidade é um grito e uma demanda que tem força apenas na medida em que existe um espaço a partir do qual e dentro do qual esse grito e demanda são visíveis. No espaço público – nas esquinas ou nos parques, nas ruas durante revoltas e comícios – as organizações políticas podem representar a si mesmas para uma população maior, e através dessa representação imprimir alguma força a seus gritos e demandas, Ao reclamar o espaço público, ao criar espaços públicos, os próprios grupos sociais tornam-se públicos”[11]. O direito inalienável à cidade repousa sobre a capacidade de forçar a abertura de modo que o caldeirão da vida urbana possa se tornar o lugar catalítico de onde novas concepções e configurações da vida urbana podem ser pensadas e da qual novas e menos danosas concepções de direitos possam ser construídas. O direito à cidade não é um presente. Ele tem que ser tomado pelo movimento político.

A luta pelo direito à cidade merece ser realizada. Deve ser considerada inalienável. A liberdade da cidade precisa ser todavia alcançada. A tarefa é difícil e pode tomar muitos anos de luta. Mas, como escreveu Bertolt Brecht:

Muitas coisas são necessárias para mudar o mundo:
Raiva e tenacidade. Ciência e indignação.
A iniciativa rápida, a reflexão longa,
A paciência fria e a infinita perseverança,
A compreensão do caso particular e a compreensão do conjunto,
Apenas as lições da realidade podem nos ensinar como transformar a realidade[12].

NOTAS:
[1] Robert Park, On Social Control and Colletive Behavior, Chicago University, 1967, p.3
[2] Henri Lefebvre, Writing on Cities. Oxford: Blackwell, 1996, p. 158
[3] David Harvey, A Brief History of Neoliberalism. Oxford: Oxford University Press, 2005
[4] Marcello Balbo, citado em Cities Transformed: Demographic Change and Its Implications
in the Developing Word. Washington, D.C.: The National Academies Press, 2003. p. 379
[5] Ver Mike Davis, Planeta Favela. São Paulo: Boitempo Editorial, 2006 [N. da E.].
[6] Jeremy Seabrook, In the Cities of the South: Scenes from a Developing Word. Londres:
Verso, 1996.
[7] Karl Marx, O Capital, Volume 1. Civilização brasileira: Rio de Janeiro, 1980.
[8] Henri Lefebvre, A revolução urbana. Belo Horizonte: UFMG, 1999.
[9] Karl Marx, O Capital, Volume 1, op. Cit.
[10] National Research Council, op. Cit, cap. 9; Healey, P., Cameron, S., Davoudi, S., Graham,
S, and Madani-Pour, A., Managing Cities: the New Urban context. Nova Iorque: Wiley, 1995.
[11] Don Mitchell, The Right to the City. Minneapolis: Minnesota University Press, 2003. p. 12
[12] Retirado de Bertolt Breacht, “Erkentniss” citado em David Harvey, Justice, Nature and the
Geography of Difference. Oxford: Blackwell, 1996. p. 439


Complexidade e Liberdade

 Edgar Morin

A complexidade nos convoca para uma verdadeira reforma do pensamento, semelhante à produzida no passado peloparadigma copernicano. Mas essa nova abordagem e compreensão do mundo, de um mundo que se "autoproduz", confere também um novo sentido à ação: trata-se de fazer nossas apostas, o que vale dizer que com a complexidade ganhamos a liberdade.

A grande descoberta do século é que a ciência não é o reino da certeza. Ela se baseia, seguramente, numa série de certezas local e espacialmente situadas. A rotação da Terra em torno do sol, por exemplo, nos parece certa; mas seria possível dizer isso, tanto 100 milhões de anos antes de nossa era quanto depois, sabendo-se que o Universo está submetido a flutuações e perturbações, às quais hoje chamamos de movimento caótico? A ciência é de fato um domínio de múltiplas certezas, e não o da certeza absoluta no plano teórico. A obra de Popper se tornou indispensável para a compreensão de que uma teoria científica não existe como tal, a não ser que, na medida em que aceita ser falível, submete-se ao jogo da "falsificabilidade" e, portanto, aceita sua biodegradabilidade.

Ordem, Separabilidade e Lógica: os Pilares da Ciência Clássica

A ciência clássica se apóia nos três pilares da certeza, que são a ordem, a separabilidade e a lógica. Para ela, esses eram os fundamentos absolutos. A ordem do Universo, tal como entendida por Descartes e Newton, era o produto da perfeição divina. Com Laplace, a hipótese de Deus é descartada: a ordem funciona sozinha, é "autoconsolidada". A idéia de determinismo absoluto tornou-se objeto de uma crença quase religiosa entre os cientistas, que por isso se esqueceram de que ela não pode, de modo algum, ser demonstrada. 

A segunda idéia-chave era a separabilidade. Conhecer é separar: face a um problema complicado, dizia Descartes, é preciso dividi-lo em pequenos fragmentos e trabalhá-los um após o outro. Assim, as disciplinas científicas são desenvolvidas a partir da divisão do interior das grandes ciências, a física, a biologia etc., o que dá origem a compartimentos sempre novos. No limite, pode-se dizer que a separação entre ciência e filosofia e, mais amplamente, entre ciência e cultura humanista — filosofia, literatura, poesia etc. —, está instituída em nosso século como uma necessidade legítima. 

Nas ciências, a separação entre o observador e sua observação, ou seja, entre nós, humanos, que consideramos os fenômenos, e estes (os objetos de conhecimento), tinha valor de certeza absoluta. O conhecimento científico, objetivo, implicava a eliminação do indivíduo e da subjetividade. Se existisse um sujeito, ele causaria perturbação — seria um ruído. 

Terceiro pilar: a lógica, a indução . Com base em um número importante e variado de observações, podia-se tirar delas leis gerais. Quanto à dedução, era um meio implacável de conduzir à verdade. Os princípios aristotélicos da identidade, da não-contradição e do terceiro excluído, permitiam eliminar toda confusão, equívoco e contradição. 

A lógica, a separabilidade e a ordem levaram para a ciência clássica essa certeza absoluta, na qual ela se baseia. E os resultados têm sido tão brilhantes que acabaram, paradoxalmente, colocando em xeque os princípios fundamentadores da separação. Foi a ordem, isto é, o determinismo (tudo o que escapa ao acaso, às perturbações e à imprevisão), que entrou primeiro em crise. Com efeito, a termodinâmica introduziu a desordem molecular no fenômeno chamado calor. Sabemos hoje que nosso Universo tem uma origem calorífica, surgiu de um fenômeno térmico inicial, uma espécie de explosão seguida de enorme agitação. 

A presença da desordem universal se revela em todos os níveis: microscópico, cosmofísico e também histórico, humano. Em relação a este, lembramos que a história não se reduz a processos determinísticos: é também feita de bifurcações, acasos, crises, daquilo que Shakespeare chamou de " o som e a fúria". Isso não quer dizer, no entanto, que a desordem tomou o lugar da ordem. Um Universo assim seria tão insensato e impossível como aquele em que reinasse a ordem pura. 

No reinado da ordem pura não há criação, não há possibilidade de nada novo. Se só existisse a desordem, agitação, a álea, o Universo seria simplesmente inviável.

É preciso, portanto, que desde o começo um certo número de princípios, considerados como de ordem, provoquem, sob certas condições, alguns encontros nessa agitação de partículas. O princípio de interação forte ligará e formará núcleos; o princípio de interação eletromagnética impelirá os elétrons, para que eles se coloquem em volta do núcleo e formem os átomos; enfim, o princípio gravitacional atua no plano da formação dos astros, das galáxias... 

Em outros termos, estamos diante deste paradoxo: as noções de ordem e desordem se repelem mutuamente. O Universo é um coquetel de ambas, uma mistura muito diferente segundo os casos, as condições, os lugares, os momentos... De acordo com o ângulo de observação, um dado fenômeno pode ao mesmo tempo se inclinar para um lado ou para o outro. Os átomos de carbono, por exemplo, são formados nos sóis anteriores ao nosso, pela reunião instantânea de três núcleos de hélio. No interior dessas fantásticas forjas que são os astros, as interações são inumeráveis e o encontro, no mesmo momento, de três núcleos de hélio, é tão raro quanto aleatório. Entretanto, uma vez ocorrido, uma lei entra em jogo: a do carbono que vai ser produzido. 

É no encontro da ordem e da desordem que se produz a organização . Quando os três núcleos de hélio se reúnem, nasce uma delas, a do átomo de carbono. Essas organizações criam, no seu próprio interior, uma ordem que lhes é própria. O mundo dos seres vivos obedece a todas as leis da física e da química; sua ordem é baseada na autoprodução, na regeneração etc. 

Quanto á separabilidade, percebeu-se que ela leva à divisão das partes constituintes dos conjuntos organizados em sistemas, o que proporciona um conhecimento insuficiente, mutilado. Pode-se extrair um corpo de seu meio natural, colocá-lo num contexto experimental, controlado pelas variações que sobre ele atuam. Não é possível conhecer, numa única avaliação, a relação profunda que existe entre o corpo e seu ambiente. Os seres vivos não são nada sem o seu meio. As experiências realizadas em cativeiro, para investigar a inteligência de seres sociais como os chimpanzés, não nos têm permitido saber o que eles aprenderam depois delas. Com efeito, no curso de observações pacientes desses animais, em seu meio natural e em suas sociedades, pôde-se constatar que os indivíduos são diferenciados e que existem relações muito complexas entre eles. O chimpanzé adulto, por exemplo, não pratica o incesto. 

A separabilidade perdeu seu valor absoluto . Uma das peculiaridades de um conjunto organizado em sistema decorre do fato de que, ao existir, essa organização produz qualidades novas, chamadas "emergências". Estas retroagem sobre o todo, e não podem ser identificadas quando se tomam os elementos isoladamente. Desse modo, a organização viva gera um certo número de qualidades, como autoprodução, autonutrição e auto-reparação. Tais qualidades não se encontram nas partes, mas as beneficiam. Da mesma forma, uma sociedade produz emergências culturais, como a linguagem, que retroage sobre os indivíduos e lhes permite, por sua aquisição (que é também conhecimento), tornarem-se plenamente humanos. 

Consumou-se hoje, nas ciências, uma segunda transformação . A primeira aconteceu na física, no começo deste século, e destronou a ordem. A outra começou na segunda metade do século, com as ciências ditas sistêmicas, que lidam com os sistemas ecológicos espontâneos, que nascem das interações entre as plantas, os animais, o terreno geofísico, o clima. Todas essas interações produzem um conjunto mais ou menos auto-regulado, submetido a perturbações. Dessa maneira, a partir dos anos 80, a ecologia começou a levar em conta, além dos ecossistemas, o sistema ainda mais complexo e mais ou menos regulado que é a biosfera. Isso permitiu acrescentar os seres humanos e sua civilização técnica, e prever com alguma certeza os riscos possíveis da desregulação. 

A partir da descoberta da tectônica das placas, nos anos 60, as ciências da Terra (sismologia, vulcanologia, geologia),que não se comunicavam entre si, hoje são articuladas umas às outras. Essa circunstância tem permitido compreender o planeta como um conjunto articulado e complexo. O ecologista, por exemplo, não conhece todos os dados da zoologia, botânica, física, geografia; tem um conhecimento parcial de cada uma, "um pouco de tudo", como dizia Pascal. No entanto, ao apelar para as competências dessas diferentes especialidades, ele dá um sentido a seus conhecimentos e os articula entre si. Infelizmente, a sociologia não fez essa revolução. A biologia também não. 

A cosmofísica, na realidade, tornou-se inseparável da cosmologia, que é um ensaio de compreensão do mundo. A revolução da ressurreição do cosmos (durante um século, o espaço-tempo — uma espécie de infinito — havia tomado o seu lugar) começou logo que se constatou o afastamento das galáxias. Num determinado momento, supunha-se que elas eram muito próximas umas das outras e que havia existido um núcleo inicial. Hoje sabemos que o cosmos tem uma história e que ela sofreu transformações. O cosmólogo foi levado a refletir sobre o mundo, sua origem, seu propósito ou sentido, se é que existe um. Ele retoma assim a relação filosófica, reinventa uma filosofia em estado selvagem. Com efeito, por falta de interesse dos filósofos, os cientistas são obrigados a refletir sobre o sentido de suas descobertas. 

A questão: "O que é o real?", que parecia tão evidente, reapareceu . O que é o Universo onde — para seguir d'Espagnat — as coisas obviamente separadas são, num certo nível, inseparáveis, a partir do momento em que interagem?Trata-se de falar de inseparabilidade na separabilidade. O grande desafio do conhecimento repousa sobre esseparadoxo: para uma mesma realidade, depara-se ao mesmo tempo com o contínuo e com o descontínuo. As célebres experiências sobre a onda e o corpúsculo, relativas à natureza da partícula, mostraram que ela se comporta tanto como ondulação quanto como grânulo. Ou seja: ora de modo contínuo, ora de forma descontínua — o que é contraditório do ponto de vista lógico. Reencontramos os mesmos problemas no que se refere à sociedade: se a consideramos de modo global, trata-se de um continuum. Os indivíduos nela se dissolvem, como ainda imaginam numerosos sociólogos. Ou então, pode-se considerar que tanto os indivíduos quando a sociedade se diluem, o que permite a certos autores dizer que esta não existe, e que só contam as interações entre as pessoas. No caso da espécie e do indivíduo é a mesma coisa: não existem senão indivíduos. Contudo, quando se leva em conta um longo espaço de tempo, eles se dissolvem e surge a noção contínua de espécie. 

Eis o paradoxo do separável e do inseparável . Pascal não só já o havia colocado, mas tinha também indicado o caminho a seguir para avançar no conhecimento. Que dizia ele? Que "sendo todas as coisas ajudadas e ajudantes, causadas e causadoras, estando tudo unido por uma ligação natural e insensível, acho impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, e impossível conhecer o todo sem conhecer cada uma das partes". Nessa frase, de uma densidade e clareza extraordinárias, ele formula — no mesmo momento em que Descartes, triunfante, introduz o princípio da separação absoluta — o programa do conhecimento contemporâneo, que ainda não se conseguiu pôr em prática.

No que concerne à lógica, o umbral foi transposto no momento em que certos teóricos, ou pensadores, mostraram oslimites da indução. Segundo o célebre exemplo de Popper, a regra geral que diz que "todos os cisnes são brancos" já não é una, porque não se pode pressupor que não existam, em algum lugar, cisnes negros. A indução não é certeza absoluta; significa, em muitos casos, a existência de fortes possibilidades, de quase-certezas. Essa "derrapagem", que ocorre também na dedução, foi assinalada pelos gregos. É o "paradoxo de Creta", segundo o qual todos os cretenses são mentirosos. Se um deles disser a verdade será, portanto, um mentiroso, porque todos os demais o são. 

Esse paradoxo foi retomado por Russell, que tentou superá-lo. Ele nos conduz ao teorema de Gödel, cujo sentido é múltiplo, desde que queiramos investigá-lo além de seus limites matemáticos. É um problema de lógica fundamental, que nos ensina que nenhum sistema tem a capacidade de dar a si próprio a prova de sua consistência, atribuir-se uma certeza suficiente a partir de suas próprias fontes. Conseqüência metalógica: nenhum ser humano pode se autoconhecer por completo. O mesmo acontece com a Humanidade. Eis uma abertura reveladora da inconclusibilidade do conhecimento— e da lógica. 

A partir daí, a ciência clássica se defrontou com a contradição e começou a temer o erro. Niels Bohr teve a coragem de afrontar a aporia da onda e do corpúsculo sem poder ultrapassá-la, o que significa reconhecer que se trata de dois termos contraditórios e complementares. Admite-se hoje que é possível chegar, por meios racionais e empíricos, a essas contradições. De resto, Kant já havia mostrado que no horizonte da razão havia um certo número de impasses fundamentais.

Pode-se enfrentar esse problema não sonhando entrar numa nova lógica, que nos permita integrar as contradições, mas mostrando que é possível promover um incessante jogo de circularidade entre nossa lógica tradicional e as transgressões necessárias ao progresso de uma racionalidade aberta. Esse propósito pode ser ilustrado tomando oaforismo de Heráclito: "Viver de morte, morrer de vida". Eis uma proposição extravagante. No entanto, sabemos hoje que os seres vivos — nosso organismo, por exemplo — ao funcionar degradam sua energia, isto é, as moléculas de suas células. Estas morrem e são substituídas por outras. Dizendo de outra forma, nossa vida continua graças à morte celular, porque o organismo é dotado de um poder de regeneração contínua. Cada batimento do coração, cada movimento respiratório, é uma obra de regeneração. O oxigênio é um detoxificante. 

Do mesmo modo, uma sociedade vive da morte de seus indivíduos. Faz isso passando às novas gerações a cultura que começa a se decompor nos cérebros mais senis. É como viver da morte. Essa contradição lógica fundamental pode ser explicada, etapa por etapa, de modo segmentar, sem sair do caminho lógico (as células têm a capacidade de se reproduzir). Entretanto, para compreender esse fenômeno básico necessitamos do paradoxo (que vale também para os ecossistemas) chamado circularidade trófica, que ilustra a recursividade da vida: o ciclo vital, que é também de morte. São duas faces da mesma realidade. Morrer de vida: esse é o nosso processo de rejuvenescimento contínuo. É "mortificante" remoçar, eis a trágica lição da vida. 

Estas formulações nos permitem unir o que o pensamento clássico não conseguiu. Continua sendo verdade que o maior inimigo da vida é a morte, e que o maior desafio ao fenômeno da decomposição é o renascimento da vida. O pensamento deve ser capaz de confrontar os antagonismos, poder enxergar as aporias, sem que para tanto precise renegar o valor da lógica, a dedução ou a indução.

O Pensamento Complexo

Desses três desafios — a relação entre a ordem, a desordem e a organização; a questão da separabilidade ou a distinção entre separabilidade e não-separação; e o problema da lógica — podem ser tiradas as três vertentes do pensamento complexo. 

Discutir sem dividir : a palavra complexus retira daí seu primeiro sentido, ou seja, "o que é tecido junto". Pensar a complexidade é respeitar a tessitura comum, o complexo que ela forma para além de suas partes.
A segunda linha fundamental é a imprevisibilidade. Um pensamento complexo deve ser capaz de não apenas religar, mas de adotar uma postura em relação à incerteza. As ciências físicas, que descobriram a incerteza, encontraram estratégias para lidar com ela, utilizando a estatística, por exemplo. A eletrônica permite alcançar resultados de grande precisão, em termos de conhecimento desse mundo flutuante. O pensamento capaz de lidar com a incerteza existe no domínio das ciências, mas não nos âmbitos social, econômico, psicológico e histórico.

O terceiro ponto é a oposição da racionalização fechada à racionalidade aberta. A primeira pensa que é a razão que está a serviço da lógica, enquanto a segunda imagina o inverso. Racionalizar significa acreditar que, se um determinado sistema é coerente, é portanto perfeito e por isso não precisa ser verificado. Vivemos sob o império de idéias racionalizadoras, que não conseguem se dar conta do que acontece e privilegiam os sistemas fechados, coerentes e consistentes. A ciência econômica contemporânea — formalizada e matemática — é um magnífico exemplo de racionalização. É inteiramente fechada, não consegue perceber as paixões, a vida, a carne dos seres humanos. Por isso, é incapaz de fazer previsões quando surgem eventos inesperados. Mais ainda que no século de Moliére, os Disfoirus triunfam.

O desafio é hoje generalizado: falar da incerteza é falar do caos. Emprego esse termo em seu sentido original, e não no derivado das teorias sobre o tema. Trata-se, como no pensamento grego, da idéia de que o cosmos, ou universo ordenado, nasce do caos, isto é, que forças genésicas extremamente violentas, comportando potencialmente a ordem e a desordem indiferenciadas, podem se exprimir num determinado momento. Os gregos pensavam que a origem do organizado, ou racional, é a loucura. É o que sustenta Platão, quando diz que diké, a justiça, é filha de hubris, o delírio. O caos é um pouco daquilo que corresponde à palavra physis, isto é, o mundo no qual estamos e do qual as coisas nascem. Está continuamente presente sob o cosmos, ou — pouco importa — no interior dele. O Universo é caos. Isso quer dizer que forças de desordem, ordem e organização brotam continuamente do seu seio, o que dá origem à constituição de novas estrelas, a colisões de galáxias e, em nossa Terra, ao conflito de impulsos de barbárie e associação.

De acordo com a teoria do caos, processos deterministas por natureza conduzem, com grande rapidez, a estados imprevisíveis e aparentemente desordenados. Por quê? Porque as interações são incontroláveis e o conhecimento total e absoluto dos estados iniciais não nos é permitido. É uma maneira de dizer que, mesmo na ocorrência de um determinismo inicial, há imprevisibilidade e desordem aparentes. O que compreendeu Henri Atlan, o termodinâmico de origem austríaca, quando disse que a vida existe à temperatura de sua própria destruição? Segundo o seu belo livro Entre le Cristal et la Fumée [Entre o Cristal e a Fumaça], é preciso entender que não somos nem fumaça nem cristal. Não somos seres fluidos nem sólidos. Somos híbridos que vivem à temperatura de sua combustão e destruição.

No desafio da complexidade, certos filósofos podem nos ajudar: Heráclito, com o enfrentamento das contradições; Sócrates com a dialética, cujo jogo de oposições faz progredir o conhecimento; Nicolás de Cusa, no plano místico; João da Cruz; Jacob Boehme; Pascal, em cuja obra não se reconheceu o papel central que desempenham as contradições; Hegel, evidentemente; Nietzsche, até certo ponto.

A Emergência dos Sistemas

Entretanto, para que adquiríssemos os meios intelectuais e conceituais necessários à entrada no universo da complexidade, foi preciso esperar pelos anos 50, quando surgiram três teorias novas.

A primeira foi a cibernética de Norbert Wiener, que é ao mesmo tempo engenheiro e pensador. A ele devemos a idéia deretroação e circularidade, que estava latente desde a obra de Marx, na qual a superestrutura retroage sobre a infra-estrutura. Essa idéia de ciclos retroativos, que quebram a causalidade linear, mostra que os fatos podem, eles próprios, tornar-se causadores, ao retroagir sobre a causa, como Pascal já havia assinalado. Essa recursividade tem dois aspectos: um, regulador, que impede que os desvios destruam os sistemas; e outro potencialmente destruidor, chamado de feedback positivo, que os fazem explodir.

Nos anos 60, outro pensador, o nipo-americano Magoroh Maruyama, fez a seguinte proposição: não se pode ter criação, a não ser por meio dos feedbacks positivos. Em outros termos, quando um sistema se desregula, há um desvio que se amplifica. Nesse caso, o sistema - sobretudo se é complexo (social ou humano) - em vez de se desgovernar pode transformar-se. A criação não é possível senão pela desregulação.

O segundo aporte conceitual é a teoria dos sistemas, que propõe que o todo é maior que a soma de suas partes, mas também que é menor que ela; assim, a totalidade pode oprimir as partes e impedir que estas dêem o melhor de si mesmas. Isso tem conseqüências político-sociais indiretas. Um grande império não é melhor porque é um todo: sua bancarrota pode ser salutar, ao liberar as potencialidades das partes dominadas.

A idéia capital aqui é a de emergência. As qualidades que aparecem podem ser induzidas, mas não podem, em contrapartida, ser deduzidas logicamente. As emergências estão em qualquer espécie de flor. A evolução biológica levou, num determinado momento, a uma verdadeira explosão floral - mas persiste a questão de saber por que as flores têm necessidade de mostrar o seu sexo, de serem exibicionistas!

O terceiro aporte é a teoria da informação, de Shannon e Weaver. É um instrumento capaz de lidar com a incerteza, com o inesperado. Extrai-se do mundo do ruído algo de novo e muitas vezes surpreendente. A noção de informação, ao mesmo tempo física e semântica, nos introduz num mundo onde o novo pode aparecer, ser reconhecido, assinalado... Captamos o novo nessa relação permanente de ordem e redundância, na integração do conhecido e na ordem do ruído.

Essas três teorias formam uma espécie de "rés-do-chão". No primeiro estágio, pode-se colocar a contribuição de Von Foerster e Von Neumann. Este, refletindo sobre a diferença entre as máquinas artificiais - as que produzimos a partir de elementos fabricados e confiáveis - e as máquinas naturais, cujos elementos são pouco confiáveis (essas moléculas que se degradam por um nada!), perguntou-se: por que as primeiras, logo que começam a funcionar, iniciam seus processos de usura e degradação, enquanto que as segundas - os seres vivos - podem progredir, evoluir? A resposta é que os viventes têm o poder da auto-reparação, da auto-reforma.

A segunda idéia, de Von Foerster, é a "ordem a partir do ruído". Seu jogo experimental era o seguinte: tomava de uma caixa, dentro da qual colocava cubos com determinados lados imantados. Em seguida provocava agitação, isto é, introduzia na caixa uma energia não-direcional e, portanto, a desordem. Apesar disso, a presença de um princípio de ordem - os ímãs - permitia que os cubos chegassem a uma arquitetura bem organizada. Eis o fenômeno da auto-organização.

O segundo estágio é o que se poderia chamar de auto-eco-organização. Um ser vivo precisa nutrir-se para regenerar sua energia. Para ser autônomo, tem necessidade do meio ambiente, de onde retira não energia bruta, mas já organizada. Do mesmo modo, temos gravada em nossa organização uma ordem cósmica, a alternância do dia e da noite. Essa ordem (por uma espécie de mecanismo cíclico, que pode se tornar independente da luz e da obscuridade, como mostraram experiências em cavernas sem luz) nos permite alternar a vigília e o sono...

Tudo isso para dizer que a separação entre o conhecedor e o conhecido não pode ser alcançada. Sabe-se, depois deKant, que para conhecer o mundo projetamos nele nossas categorias, nossos a priori espaciais e temporais.

Por uma Convivência Solidária 

Essa circunstância pode ser ainda confirmada pelo funcionamento do cérebro humano: isolado no interior de uma caixa fechada, ele todavia se comunica com o Universo pela mediação de terminais sensoriais. Os estímulos visuais, por exemplo, são transformados num código binário, que tecido cerebral retrabalha e transforma em percepção ou representação. O conhecimento não é senão uma tradução, uma reconstrução. Não conhecemos a essência das coisas exteriores. Sabemos das coisas objetivas, que podemos confirmar, mas não há conhecimento sem integração do conhecido. Essa circunstância vale também para os fenômenos sociais e humanos. O sociólogo e o economista são parte da sociedade, e a totalidade desta - ou seja, a cultura, a linguagem - está também neles.

Num estágio superior, vejo a necessidade de uma reforma paradigmática dos conceitos dominantes e de suas relações lógicas, que controlam, inconsciente e incorrigivelmente, todo o nosso conhecimento. O paradigma sob o qual vivemos é o da disjunção e da redução: e ele nos torna cegos, nesta era de globalidade e mundialização.

Não podemos produzir por decreto a reforma necessária, porque ela está inscrita no próprio curso da história; pensemos napassagem do paradigma ptolomaico ao copernicano. Tal reforma consiste em passar para um paradigma de religação, conjunção, implicação mútua e distinção. Ela pressupõe uma mudança no ensino, que por sua vez implica uma transformação do pensamento. É um círculo vicioso, do qual precisamos sair um dia... Um conhecimento pertinente é aquele que é capaz de contextualizar, isto é, religar, globalizar. A ação adquire um novo sentido: fazer as apostas.Pascal - novamente ele - apostava em Deus. Nós apostamos em valores que não podem ser fundamentados. Assim como o mundo, a ética se autoproduz.

Conhecer é também uma estratégia, que pode se modificar em relação ao programa inicial, que é flexível e leva em conta o que chamo de ecologia da ação. Sabe-se hoje que uma ação, lançada ao mundo, entra num turbilhão de interações e retroações, que podem se voltar contra a intenção inicial.

Por fim, uma última idéia: o sentimento de uma comunidade de destino profundo, que liga as idéias de solidariedade e fraternidade. O laço entre complexidade e solidariedade não é mecânico. Uma sociedade muito complexa proporciona muitas liberdades de jogo a seus indivíduos e grupos. Permite-lhes ser criativos, algumas vezes delinqüentes. A complexidade tem, assim, seus riscos. Ao atingir o extremo da complexidade a sociedade se desintegra. Para impedi-lo, pode-se recorrer a medidas autoritárias; entretanto, supondo que desejemos o mínimo possível de coerção, o único cimento que nos resta é a solidariedade vivida.

EDGAR MORIN é diretor emérito do Centre National de la Recherche Scientifique, em Paris, e presidente da Association pour la Pensée Complexe, também sediada em Paris.


BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS –  DEMOCRACIA OU CAPITALISMO?


No início do terceiro milênio, a esquerda está dividida entre dois desafios principais: a relação entre democracia e capitalismo, e o crescimento econômico sem fim (capitalista ou socialista) como um indicador básico do desenvolvimento e do progresso. Neste artigo vou me concentrar no primeiro desafio.
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Ao contrário do que o senso comum dos últimos cinquenta anos, pode fazer-nos pensar,  a relação entre democracia e capitalismo foi sempre uma relação tensa, mesmo contradição. O foicertamente nos países periféricos do sistema mundial, no que foi chamado de Terceiro Mundo por muito tempo e hoje é conhecido como do Sul global. Mas também nos países centrais ou desenvolvidos a mesma tensão e contradição estiveram sempre presentes. Basta lembrar os longos anos do nazismo e do fascismo.

Uma análise mais aprofundada da relação entre capitalismo e democracia exigiria distinguir entre diferentes tipos de capitalismo e seu domínio em diferentes períodos e regiões e entre diferentes tipos e graus de intensidade da democracia. Nestas linhas concebo o capitalismo sob o seu modo de produção geral e me refiro ao tipo que dominou nas últimas décadas: o capitalismo financeiro. No que diz respeito à democracia, eu me concentro em democracia representativa como foi teorizado pelo liberalismo.

O capitalismo só se sente seguro se  é governado por quem tem capital ou se identifica com suas "necessidades", enquanto a democracia é idealmente o governo da maioria que não têm o capital e não há razão para identificar-se com as "necessidades" do capitalismo, mas sim o oposto. O conflito é, no fundo, um conflito de classes porque as classes são identificadas com as necessidades do capitalismo (basicamente, a burguesia) são uma minoria em relação às classes que têm outros interesses, cuja satisfação se choca com as necessidades do capitalismo (classes médias, os trabalhadores e as classes populares em geral). Sendo um conflito de classes é apresentado como um social e politicamente distributivo conflito: em primeiro lugar, o impulso para a acumulação e concentração de riqueza por parte dos capitalista, e por outro lado, a demanda por redistribuição da riqueza gerada o em grande parte por trabalhadores e suas famílias. A burguesia sempre teve medo de que a maioria pobre tomem o poder e tem usado o poder político concedido às revoluções do século XIX para evitar que isso aconteça. Ele concebeu a democracia liberal como a forma de garantir que as mesmas medidas através de que mudaram ao longo do tempo, mas manteve o seu objetivo: restrições ao sufrágio, primazia absoluta dos direitos de propriedade individuais, sistema político e eleitoral com várias válvulas de segurança, a repressão violenta da política política fora das instituições, a corrupção política, a legalização do lobby... E sempre que a democracia se mostrou disfuncional, manteve aberta a possibilidade de recorrer a ditadura, algo que aconteceu muitas vezes.

Após a Segunda Guerra Mundial, muito poucos países tinham democracia, vastas regiões do mundo foram submetidas ao colonialismo europeu, que serviu para fortalecer o capitalismo euro-americano, a Europa foi assolada por uma guerra que tinha sido causada pela supremacia alemã, e no Leste o regime comunista, que aparecia como alternativa ao capitalismo e à democracia liberal. Neste contexto surgiu na Europa mais desenvolvida o chamado capitalismo democrático, um sistema de economia política baseada na ideia de que, para ser compatível com a democracia, o capitalismo deve ser fortemente regulado, o que significou a nacionalização de setores-chave da economia, tributação progressiva, imposição de negociação coletiva e até mesmo, como na Alemanha Ocidental da época, a participação dos trabalhadores na gestão das empresas. Em termos científicos, Keynes representava então a ortodoxia econômica e Hayek, a dissidência. No plano político, os direitos econômicos e sociais (direito ao trabalho, educação, saúde e seguridade social, garantido pelos Estado) havia sido o principal instrumento para estabilizar as expectativas dos cidadãos e para enfrentar as flutuações constantes e imprevisíveis dos "sinais do mercado". Essa mudança alterou os termos do conflito distributivo, mas não eliminou-o. Pelo contrário, tinha todas as condições para instigá-lo depois que o crescimento econômico de três décadas atenuara-se. E assim aconteceu.

Desde 1970, os Estados centrais têm manejado o conflito entre as demandas dos cidadãos e das exigências do capital através do uso de um conjunto de soluções que foram gradualmente dando mais poder ao capital. Primeiro foi a inflação (1970-1980), depois a luta contra a inflação, acompanhado pelo aumento do desemprego e o ataque ao poder dos sindicatos (1980), uma medida complementada pelo endividamento do Estado, como resultado da luta do capital contra os impostos, da estagnação econômica e do aumento dos  gastos sociais decorrentes aumento do desemprego (desde meados de 1980), e em seguida, com o endividamento das famílias, atraídos pelas facilidades de crédito concedidas pelo setor financeiro, finalmente livre de legislação estadual, a fim de evitar o colapso das expectativas do consumidor, educação e habitação ( meados de 1990).

Até que a engenharia das soluções fictícias chegou a seu fim com a crise de 2008 e se tornar claro quem havia vencido no conflito distributivo: o capital. O teste foi a conversão de dívida privada em dívida pública, aumento das desigualdades sociais e do ataque final às expectativas de uma vida digna da maioria (trabalhadores, aposentados, desempregados, imigrantes, jovens que procuram emprego) para garantir o retorno esperado da minoria (capital financeiro e seus agentes). A Democracia perdeu a batalha e só evitará ser derrotada em uma guerra, se a maioria perder o medo, se rebelem dentro e fora das instituições e forçar o capital a voltar ter  medo, como era 60 anos atrás.

Nos países do Sul global que dispõem de recursos naturais, a situação agora é diferente. Em alguns casos, por exemplo, em vários países da América Latina, pode-se mesmo dizer que a democracia está prevalecendo no duelo com o capitalismo, e não é por acaso que, em países como Venezuela e Equador começaram a discutir a questão do socialismo do século XXI, mas a realidade está longe dos discursos. Há muitas razões por trás disso, mas talvez o maior tem sido a conversão da China ao neoliberalismo, o que levou, especialmente a partir da primeira década do século, uma nova corrida por recursos naturais. O capital financeiro lá e encontrou ali na especulação com produtos alimentares uma extraordinária fonte de rentabilidade. Isto permitiu que os governos progressistas -chegados ao poder, como resultado de lutas e movimentos sociais das décadas anteriores - puderam desenvolver uma redistribuição significativa de riqueza e, em alguns países, sem precedentes. Dessa forma, a democracia ganhou nova legitimidade no imaginário popular. No entanto, por sua própria natureza, a redistribuição da riqueza não coloca em questão o modelo de acumulação baseado na exploração intensiva dos recursos naturais e, ao contrário, intensifica-a. Esta foi a origem de conflitos, que foram piorando, com os grupos sociais ligados à terra e aos territórios onde os recursos naturais, os povos indígenas e os camponeses.

Nos países do Sul global, com recursos naturais, mas sem uma democracia digna desse nome, o boom de recursos não trouxe impulso para a democracia, embora as condições teoricamente mais favoráveis ​​para uma resolução do conflito distributivo deva facilitar a solução democrática e vice-versa. A verdade é que o capitalismo extrativista obtém melhor rentabilidade em sistemas políticos ditatoriais ou democracias de baixa intensidade (sistemas quase de partido único), onde é mais fácil corromper as elites, através do seu envolvimento no processo de privatização de concessões e rendimentos de extrativismo. Não é de esperar nenhuma profissão de fé na democracia pelo capitalismo extrativista, mesmo porque, sendo global, não reconhece problemas de legitimidade política. Enquanto isso, a demanda para a redistribuição da riqueza pela maioria não chega a ser ouvida por falta de canais democráticos e não conta com a solidariedade das pequenas classes médias urbanas que recebem migalhas do rendimento extrativista. As populações mais afetadas pelo extrativismo são os indígenas e os camponeses em cujas terras estão os estabelecimentos de mineração ou onde se deseja instalar a nova economia agroindustrial. São expulsos de suas terras e sujeitos a exílio interno. Sempre que eles resistem são violentamente reprimidos  e sua resistência é tratada como uma questão de polícia. Nesses países, o conflito distributivo nem sequer veio a existir como um problema político.

Desta análise se conclui que o atual questionamento do futuro da democracia no Sul da Europa é a manifestação de um problema muito maior que está surgindo em diferentes formas em várias regiões do mundo. Mas, assim formulado, o problema pode esconder uma maior incerteza do que expressa. Não é apenas questionar o futuro da democracia. Se trata também de questionar a Democracia do futuro. A democracia liberal foi historicamente derrotada pelo capitalismo e parece que a derrota é reversível. Por isso não há que ter esperança de que o capitalismo volte a ter medo da democracia liberal, se ele já teve. A democracia liberal vai sobreviver na medida em que o capitalismo global se possa servir dela. A luta dos que vêem a derrota da democracia liberal a emergência de um mundo injusto e repugnantemente incontrolavelmente violento deve se concentrar em encontrar uma concepção mais robusta da democracia, cuja marca genética é o anti-capitalismo. Após um século de lutas populares que trouxeram o ideal democrático no imaginário da emancipação social, seria um grave erro político desperdiçar essa experiência e assumir que a luta anti-capitalista deve ser também uma luta anti-democrática. Pelo contrário, é preciso converter o ideal democrático em uma realidade radical que não se renda ante o capitalismo. E, como o capitalismo não exerce seu domínio senão servindo-se de outras formas de opressão, principalmente o colonialismo e o patriarcado, essa democracia radical, além de anti-capitalista, anti-colonialista  também deve ser anti-patriarcal. Pode chamar-se revolução democrática ou democracia revolucionária - o nome não importa - mas deve necessariamente ser uma democracia pós-liberal, que não pode perder os seus atributos para atender às exigências do capitalismo. Pelo contrário, deve ser baseada em dois princípios: o aprofundamento da democracia só é possível à custa do capitalismo, e em caso de conflito entre capitalismo e democracia, a democracia real deve prevalecer.


Artigo por Boaventura de Sousa Santos, publicado em  blogs.publico.es


José Saramago: O Fator Deus

Em algum lugar na Índia. Uma fileira de peças de artilharia em posição. Anexado à boca de cada um deles há um homem. No primeiro plano da imagem, um oficial britânico ergue a espada e vai dar ordem para atirar. Não há imagens de efeito dos disparos, mas até mesmo a imaginação mais obtusa pode "ver " cabeças e troncos dispersos pelo tiro, restos ensanguentados, vísceras, membros amputados. Os homens eram rebeldes. Em algum lugar de Angola. Dois soldados portugueses levantam pelos braços um negro que talvez não esteja morto, outro soldado empunhando um facão  se prepara para separar a cabeça do corpo. Esta é a primeira foto. Na segunda, desta vez há uma segunda fotografia, a cabeça foi cortada, está em uma vara, e os soldados podem rir. O negro era um guerrilheiro. Em algum lugar em Israel. Enquanto alguns soldados israelitas imobilizam um palestino, outro militar vai lhe parte a marteladas os ossos da mão direita. O palestino tinha atirado pedras.  Estados Unidos da América do Norte, cidade de Nova York. Dois aviões comerciais norte-americanos sequestrados por terroristas ligados ao fundamentalismo islâmico, são lançados contra as torres do World Trade Center e  as derruba. Pelo mesmo procedimento um terceiro avião causa danos enormes ao Pentágono, sede do poder militar dos Estados Unidos. Os mortos, enterrados nos escombros, reduzidos a migalhas, volatilizados, na casa dos milhares .

Imagens da Índia, Angola e Israel nos lança o horror que enfrentamos, as vítimas se nos mostram no momento da tortura, a agonia da expectativa, a morte abjeta. Em Nova York, tudo parecia irreal num primeiro momento, um episódio de repetição sem novidade uma catástrofe mais cinematográfica verdadeiramente arrebatadora pelo grau de ilusão conseguido pela técnica de efeitos especiais, mas limpas de estertores, jorros de sangue, carne esmagada, ossos esmagados, merda. O horror, escondido como um animal imundo, esperou que saíssemos de estupefação para saltar para a garganta. O horror disse pela primeira vez "eu estou aqui" quando aquele vácuo é liberado como se tivessem acabado de escolher uma morte que fosse sua. Agora o horror aparecerá a cada instante ao remover uma pedra, um pedaço de parede, uma chapa de alumínio retorcida, e é uma cabeça irreconhecível, um braço, uma perna, um abdômen quebrado, tórax esmagado. Mas mesmo isso é muito repetitivo e monótono, de modo conhecido pelas imagens que nos chegaram de Ruanda -de- un-milhão-de-mortos, daquele Vietnã cozido ao napalm, essas execuções em estádios cheios de gente, esses linchamentos e espancamentos daqueles soldados iraquianos sepultados vivos debaixo de toneladas de areia, daquelas bombas atômicas que devastaram Hiroshima e Nagasaki, daqueles crematórios nazistas a vomitar cinzas daqueles caminhões para remover corpos como se fossem lixo. Nós sempre temos que morrer de alguma coisa, mas, desde então, perdeu a conta dos mortos das piores maneiras que seres humanos foram capazes de inventar. Uma delas, a mais criminosa, a mais absurda, a que mais ofende a simples razão é que, desde o início dos tempos e civilizações, mande matar em nome de Deus. Já foi dito que as religiões, todas elas, sem exceção, nunca serviram para aproximar e congraçar os homens, enquanto que, pelo contrário, foram e continuam a causar um sofrimento indizível, de massacres, de violência física e espiritual monstruosa que constituem um dos capítulos mai sombrios da miserável história da humanidade​​. Pelo menos um sinal de respeito à vida, deve ter a coragem de proclamar em todas as circunstâncias esta verdade evidente e demonstrável, mas a maioria dos crentes de qualquer religião não só fingem ignorá-lo, mas se erguem irritados e intolerantes contra aqueles para que Deus é apenas um nome, nada mais que um nome, o nome que por medo da morte nós colocamos um dia e que iria dificultar o nosso caminho para uma humanização real. Em troca, prometeu paraísos e ameaçaram-nos com o inferno, tão falsa uns quanto outros, insultos descarados a uma inteligência e senso comum que nós trabalhamos tão duro para conseguir. Nietzsche diz que tudo seria permitido se Deus não existisse, e eu respondo que é precisamente por causa do nome de Deus  que é permitido e justificado tudo, principalmente o pior, mais terrível e principalmente cruel. Durante séculos, a Inquisição foi , também, como hoje os talibãs, uma organização terrorista dedicada a interpretar perversamente textos sagrados que deveriam merecer o respeito de quem reivindicou a acreditar neles, um conluio monstruosa acordado entre a religião e o Estado contra a liberdade de consciência e contra os direitos humanos: o direito a dizer não, o direito à heresia, o direito de escolher o contrário, que é exatamente o que a palavra heresia significa.

E, no entanto, Deus está inocente. Inocente como algo que não existe, nunca existiu e nunca existirá, culpado de ter criado um universo inteiro para colocar nele seres capazes de cometer grandes crimes e justificá-los dizendo que são celebrações do seu poder e glória, enquanto os mortos vão se acumulando, essas torres gêmeas de Nova York, e todos aqueles que, em nome de um Deus tornado assassino pela vontade e  ação dos homens, cobriram e insistem em cobrir de horror as páginas da história. Os deuses, acho eu, só existem no cérebro humano, prosperam ou deterioram-se no mesmo universo que inventou, mas o "fator Deus", que está presente na vida como se ela fosse de fato seu amo e senhor. Não é um deus, mas o "Fator Deus", que é exibido nas notas de dólar e exibidas em cartazes chamando para a América (os EUA, não a outra...) a bênção divina. E foi o "fator Deus" em que o deus islâmico se transformou que lançou contra as torres do World Trade Center os aviões da revolta contra os desprezos e da vingança contra a humilhação. Será dito que um deus dedicou-se a semear ventos e que outro deus responde agora com tempestades. É possível, e talvez seja verdade. Mas não foram eles, pobres deuses sem culpa, foi o "fator Deus , que é terrivelmente igual em todos os seres humanos onde quer que estejam e seja qual for a religião que professam, que envenenou o pensamento e aberto as portas para os intolerâncias mais sórdidas, mas que não respeita o que eles são ordenados a crer, que após  gabar-se de ter feito da besta um homem, finalmente, torna o homem uma besta .

O leitor crente (de qualquer crença...) que tenha conseguido suportar a  repugnância que estas palavras provavelmente lhes tenha inspirado, não lhe peço para obter o ateísmo de quem as escreveu. Simplesmente peço que você entenda, com sentimento, se não pode ser com a razão para que, se há Deus, há um só Deus, e que seu relacionamento com ele, o menos importante é o nome que lhe tenham ensinado a dar-lhe. E muito cuidado com o "fator Deus'. Não faltam inimigos do espírito humano, mas este é um dos mais persistentes e corrosivos. Como foi demonstrado, e infelizmente continuará demonstrando.


José Saramago



ZYGMUNT BAUMAN: A CULTURA NA ERA DO CONSUMO

Zygmunt Bauman analisa como a economia e o mercado transformaram os bens culturais em objetos de compra e venda. Sobre a base de estudos realizados na Gram Bretanha, Chile, Hungria, Israel e Holanda, uma equipe de treze membros dirigido pelo respeitado sociólogo de Oxford John Goldthorpe chegou à conclusão de que já não é possível diferenciar facilmente a elite cultural de outros níveis mais baixos na correspondente hierarquia mediante os signos que outrora eram eficazes: a assistência regular a  ópera e a concertos, o entusiasmo por tudo o que em algum momento se considere “arte elevada” e o hábito de contemplar com desprezo “lo comum, desde as cancões pop até a televisão comercial". Isso não equivale a dizer que já não existam pessoas consideradas - em grande medida por elas mesmas- integrantes de uma elite cultural: verdadeiros amantes da arte, gente que sabe melhor que seus pares não tão cultivados de que se trata a cultura, em que consiste e que se julga comme il faut ou comme il ne faut pas -apropriado ou inapropriado- para um homem ou uma mulher de cultura. Exceto que, a diferença de aquelas elites culturais da modernidade, já não são “connoisseurs” no sentido estrito de menosprezar o gosto do homem comum ou o mal gosto dos ignorantes. Pelo contrário, hoje resulta mai apropriado qualificá-los de “omnívoros”, recorrendo ao termo proferido por Richard A. Peterson, da Vanderbilt University: em seu repertório de consumo cultural há espaço para a ópera e também para o heavy metal, o punk, para a “arte elevada” e também para a televisão comercial, para Samuel Beckett y também para Terry Pratchett. Um Mordisquito disto, um bocado de aquilo, hoje uma coisa, amanhã outra. Uma miscelânia. De acordo com Stephen Fry, autoridade em tendências da moda expert da mais exclusivs sociedade londrinense (assim como estrela de exitosos programas televisivos). Fry admite publicamente:


Uma pessoa pode ser fanática pelo digital a outra vez ler livros; pode ir à ópera, assistir a uma partida de criquet e reservar entradas para um recital de Led Zeppelin sem partir-se em pedaços. Você gosta da comida tailandesa? O que tem de mal à italiana? Epa, calma. Gosto das duas. Sim, se pode. Eu posso gostar de rugby, de futebol o de  musicais de Stephen Sondheim. O gótico victoriano e d as instalações de Damien Hirst. Herb Alpert & The Tijuana Brass e as obras para piano de Hindemith. Os hinos ingleses e Richard Dawkins. As edições originais de Norman Douglas, e ademais os iPods, o billar inglês, os dardos e o balet.

Então, tal como  enunciou Peterson em 2005 sintetizando vinte anos de investigação: “Observamos um deslizamento na política dos grupos de elite, desde aquela intelectualidade esnobe que desdenha toda la cultura baixa, vulgar ou popular de massas [.] até a intelectualidade omnívora que consume um amplio espectro de formas artísticas populares assim como cultas”. Em outras palavras, nenhuma obra da cultura me é estranha: não me identifico com nenhuma cem por cento, de maneira total e absoluta, e menos ainda o preço de negar-me outros prazeres. Em todas as partes me sinto como em casa, apesar de que (ou quem sabe porque) não há nenhum lugar que possa considerar minha casa. Não se trata tanto da confrontação entre um gosto (refinado) e outro (vulgar), como do omnívoro contra o unívoro, a disposição a consumi-lo todo contra a seletividade melindrosa. A elite cultural está viva e rabeando: hoje está mais ativa e ávida que nunca. porém está tão ocupada seguindo hits e outros eventos culturais célebres que não tem tempo para formular cânones de fé o converter a outros.


Aparte do princípio de “não ser meticuloso, não ser exigente” e “consumir mais”, não tem nada que dizer à multidão unívora que está na base da hierarquia cultural.


E no entanto , como se ler em una obra de Pierre Bourdieu de  apenas umas décadas, houve um tempo em que cada oferta artística estava dirigida a uma classe social específica, e somente a essa classe, em tanto que era aceitada unicamente -ou primordialmente- por essa classe. O triplo efeito de aquelas ofertas artísticas -definição de classe, segregação de classe e manifestação de pertencimento a uma classe- era, de acordo com Bourdieu, se essencial razão de ser, a mais importante de suas funções sociais, quem sabe inclusive seu objetivo oculto, se não declarado.


Segundo Bourdieu, as obras de arte destinadas ao consumo estético indicavam, assinalavam e protegiam as divisões entre classes, demarcando e fortificando legivelmente as fronteiras que separava, umas de outras. A fim de traçar fronteiras inequívocas e protegê-las com eficácia, todos os objets d’art, ou ao menos uma significativa maioria, deviam estar destinados a conjuntos mutuamente excludentes, cujos conteúdos não correspondia mesclar nem aprovar ou possuir de forma simultânea. O que contava não eram tanto seus conteúdos ou qualidades inatas como suas diferenças, sua intolerância mutua e la proibição de conciliá-las, características erroneamente apresentadas como manifestação de sua resistência inata e imanente às relações morganáticas. Havia gostos das elites - "alta cultura" por natureza-, gostos medíocres ou “filisteus” típicos da classe média e gostos “vulgares”, venerados pelas classes baixas: e mesclar esses gostos era mais difícil que mesclar água com fogo. Talvez a natureza abominara do vazio, porém o induvidoso era que a cultura não tolerava uma mélange. Na distinção, Bourdieu disse que a cultura se manifestava antes de tudo como um instrumento útil concebido na consciência para marcar diferenças de classe e salvaguardá-las: como uma tecnologia inventada para a criação e a proteção de divisões de classe e hierarquias sociais.


Em resumo, a cultura se manifestava tal como a havia descrito Oscar Wilde um século antes: “Quem encontram significados belos nas coisas belas são espíritos cultivados [.]. São os eleitos, e para eles as coisas belas somente significam beleza”. “Os eleitos”, digo, os que cantam louvores e aqueles valores que eles mesmos mantém, ao tempo que se asseguram o triunfo no concurso de canções. É inevitável que encontrem significados belos na beleza, já que são eles quem decidem o que é a beleza; inclusive antes de que começara a busca da beleza, quem se não os eleitos decidiram onde buscá=la (na ópera e não na music hall ou em um posto de férias; n as galerias e não n as paredes da cidade ou n as reproduções baratas que decoram as casas obreiras e campesinas; em volumes com tampas de couro e não na gráfica do periódico ou em outras publicações que se adquirem por centavos). Os eleitos não são eleitos na virtude de sua  percepção do belo, sim mais bem em virtude de que la asserção “isto es belo” é vinculante precisamente porque tem-na pronunciado elos e tem confirmado com sus ações.


Sigmund Freud creia que o saber estético busca em vão a essência, a natureza e as fontes da beleza, suas qualidades imanentes, por assim dizer, e geralmente oculta sua ignorância em uma torrente de pronunciamentos pomposos, presuntuosos e em última instância vazios. “A beleza não tem uma utilidade evidente -decreta Freud-, nem é manifesta sua necessidade cultural, e sem embargo a cultura não poderia viver sem ela.”


Porém por outra parte, tal como sugere Bourdieu, a beleza tem seus benefícios e há uma necessidade de que exista. Ainda que,  os benefícios não são “desinteressados”, como asseverava Kant, são benefícios de todos os  modos, e  a necessidade não é necessariamente cultural, é social; e é muito provável que tanto os benefícios como a necessidade de distinguir entre beleza e feiura, ou entre delicadeza e vulgaridade, perdurem embora existam a necessidade e o desejo de distinguir a alta sociedade da baixa sociedade, assim como o perito de gostos refinados de quem tem mau gosto, das vulgares massas, da plebe e da gentalha…

Em consequência de considerar atentamente estas descrições e interpretações, fica claro que a “cultura” (um conjunto de preferências sugeridas, recomendadas e impostas em virtude de sua correção, excelência ou beleza) era para os autores citados, em primeiro lugar e em definitiva, uma força “socialmente conservadora”. A fim de demostrar sua eficácia nesta função, a cultura tinha que por em prática, com igual tensão, dos atos de subterfúgio aparentemente contraditórios. Tinha que ser tão enfática, severa e inflexível em suas avaliações como em suas censuras, em outorgar como em negar entradas, em autorizar documentos de identidade como em negar direitos de cidadania. Ademais de identificar que era desejável e recomendável por ser “como deve ser” - familiar e acolhedor-, a cultura necessitava significantes para indicar que coisas mereciam desconfiança e deviam ser evitadas a causa de sua baixeza e sua ameaça encoberta; letreiros que advertiram, como mais adiante dos confins de Roma nos mapas antigos, que hic sunt leones: aqui têm  leões. A cultura devia assemelhar-se ao náufrago de aquela parábola inglesa aparentemente irônica porém de intenção moralizante, que a fim de sentir-se como em casa, é dizer, de adquirir una identidade e defendê-la com eficácia, teve que construir três moradas na ilha deserta onde havia naufragado seu barco: a primeira era sua vivenda, a segunda era o clube que frequentava todos os sábados e a terceira cumpria a única função de ser o lugar cujo umbral o náufrago não devia cruzar, e em consequência evitou cruzar assiduamente em todos os largos anos que passou na ilha.


Quando foi publicado há mais de trinta anos, a distinção de Bourdieu pôs patas acima o conceito original de “cultura” nascido com a Ilustração e logo transmitido de geração em geração. O significado de cultura que descobria, definia y documentava Bourdieu estava a uma distância remota do conceito de “cultura” tal como o havia moldado e introduzido na linguagem corrente durante o terceiro quarto do  século XVIII, quase ao mesmo tempo que o conceito inglês de refinement e o alemão de Bildung.


De acordo com seu conceito original, a “cultura” não devia ser uma preservação do statu quo sim um agente de mudança; mais precisamente, um instrumento de navegação para guiar a evolução social tinha uma condição humana universal. O propósito original do conceito de “cultura” não era servir como um registro de descrições, inventários e codificações da situação imperante, sim melhor fixar uma meta e uma direção para as iniciativas futuras. O nome “cultura” foi assimilado à uma missão proselitista que se havia planejado e empreendido como uma série de tentativas cujo objeto era educar as massas e refinar seus costumes, para melhorar assim a sociedade e conduzir o “povo” - é dizer, a quem provinham das “profundidades da sociedade - Tinha suas mais altas cúpulas. A “cultura” se associava a um “raio de luz” que passava “embaixo dos beirais” para ingressar nas moradas do campo e da cidade, Chegando aos escuros esconderijos do prejuízo e da superstição que, como tantos outros vampiros (se creia), não sobreviveriam à luz do dia. De acordo com o apaixonado pronunciamento de Matthew Arnold em seu influente livro com o sugestivo título Cultura e anarquia (1869), a “cultura” “procura suprimir as classes sociais, difundir em todas as partes o melhor que se tenha pensado ou conhecido no mundo, lograr que todos os homens vivam em uma atmosfera de beleza e inteligência”; ademais, de acordo com outra opinião expressada por Arnold em sua introdução à Literature and Dogma (1873), a cultura é a combinação dos sonhos e dos desejos humanos com o esforço de quem quer e pode satisfazê-los: “A cultura é a paixão pela beleza e a inteligência, e (mais ainda) a paixão por fazê-las prevalecer”.


A palavra “cultura” ingressou no vocabulário moderno como uma declaração de intenções, como o nome de uma missão que ainda era preciso empreender. O conceito era tanto um slogan como um chamado à ação. Igual ao conceito que proporcionou a metáfora para descrever esta intenção (o conceito de “agricultura”, que associava os agricultores com os campos que cultivavam), exortava ao lavrador e ao semeador a que araram e semeavam o solo árido para enriquecer a colheita mediante o cultivo (inclusive Cicerón usou esta metáfora ao descrever a educação dos jovens com o término da cultura animi). O conceito suponha uma divisão entre os educadores chamados a cultivar as almas, relativamente escassos, e os numerosos sujeitos que haviam de ser cultivados; os guardiães e os guardados, os supervisores e os supervisados, os educadores e os educandos, os produtores e seus produtos, sujeitos e objetos, assim como o encontro que devia ter lugar entre eles.


Da palavra “cultura” se inferia um acordo planejado e esperado entre quem possuíam  o conhecimento (ou ao menos estavam seguros de possuí-lo) o os incultos (chamados assim por suas entusiastas aspirantes a educadores); um contrato, vale aclarar, previsto de uma só firma, endossado de forma unilateral e posto em marcha baixo a exclusiva direção da flamante “classe instruída”, que reivindicava seu direito a moldear a ordem “nova e melhor” sobre as cinzas do Ancien Régime. A intenção expressa desta nova classe era a educação, a ilustração, a elevação e o enobrecimento do povo, de quem recentemente havian sido investidos no rol de citoyens nos novos état-nations, o aparecimento de uma nação recém formada que se elevava à existência de Estado soberano com o  novo Estado que aspirava a desempenhar o papel de fideicomissário, defensor e guardião da nação.


O “projeto de ilustração” outorgava à cultura (entendida como atividade semelhante ao cultivo da terra) o status de ferramenta básica para a construção de uma nação, um Estado e um Estado nação, uma vez que confiava essa ferramenta às mãos da classe instruída. Entre ambições políticas e deliberações filosóficas, pronto cristalizaram duas metas gêmeas da empresa de ilustração (já se as anunciava abertamente ou se as supusera de forma tácita) o dobre postulado da obediência dos súditos e a solidaridade entre compatriotas.

O crescimento da "população" aumentava a confiança do Estado-nação em formação, pois se acreditava que o aumento do número de potenciais trabalhadores-soldados aumentaria seu poder e garantiria sua segurança. No entanto, uma vez que o esforço conjunto da construção  nacional e o crescimento econômico também resultava em um excedente cada vez maior de indivíduos (em essência, era necessário descartar categorias inteiras da população para levar adiante e fortalecer a ordem desejada e acelerar a criação de riqueza), o novo estado-nação logo enfrentou a necessidade urgente de encontrar novos territórios além de suas fronteiras: territórios com  capacidade de absorver o excesso de população que já não encontrava lugar dentro dos limites do seu.


A perspectiva de colonizar áreas distantes demonstrou ser um poderoso estímulo para a noção iluminista de cultura e dotou a missão proselitista de uma dimensão completamente nova que abarcava em potência o mundo inteiro. Em reflexo exato da ideia de "esclarecimento das pessoas" foi forjado o conceito de "missão homem branco", que constituía-se em "salvar o Selvagem de sua barbárie." Logo esses conceitos seriam dotados de um comentário teórico na forma de uma teoria evolucionista da cultura, o que elevou o mundo "desenvolvido" ao status de perfeição inquestionável, que viria a ser imitado ou desejado pelo resto do planeta. Por causa dessa meta era necessário ajudar ativamente  o resto do mundo, coagindo-o no caso de colocar  resistência. A teoria evolucionista da cultura dava a função à sociedade "desenvolvida" de converter todos os habitantes do planeta. Todas  seus futuros empreendimentos e iniciativas foram reduzidos ao papel que estava destinada a desempenhar a elite educada da metrópole colonial contra a sua própria "população" metropolitana.


Bourdieu concebeu sua investigação, coletou os dados e os interpretou no preciso momento em que estas iniciativas começavam a perder seu ímpeto e seu sentido de direção, e em termos gerais já estavam sem vida, pelo menos n as metrópoles onde se tramavam as visões do futuro esperado e postulado, embora não tanto nas periferias do império, de onde as forças expedicionárias eram chamadas a voltar muito antes de que tivessem logrado elevar a vida dos nativos aos padrões adotados as metrópoles. Em quanto a estas últimas, a já bicentenária declaração de intenções havia logrado estabelecer nelas uma ampla rede de instituições executivas, financiadas e administradas principalmente pelo Estado, com suficiente vigor como para apoiar-se no seu próprio ímpeto, sua rotina arraigada e sua inércia burocrática. Já se havia moldeado o produto desejado (um “populacho” transformado em um corpo cívico) e se havia assegurado a posição das classes educadoras na nova ordem, ou ao menos se havia logrado que fossem aceitas como tais. Longe daquela audaz e arriscada tentativa, cruzada a missão de ano passado, a cultura se assemelhava agora a um mecanismo homeostático: uma espécie de giroscópio que protegia o Estado nação dos ventos de mudança e das contracorrentes, uma vez que o ajudava, apesar das tempestades e os caprichos do tempo instável, a “manter o barco em seu rumo correto” (o ao menos, como diria Talcott Parsons mediante sua expressão até  então em voga, permitir que o “sistema” “recobre seu próprio equilíbrio”).


Em resumo, a “cultura” deixava de ser um estimulante para transformar-se em tranquilizante, deixava de ser o arsenal de uma revolução moderna para transformar-se em um depósito de produtos conservantes. A “cultura” passou a ser o nome das funções adjudicadas a estabilizadores, homeostatos o giroscópios. Quando Bourdieu a captou, imobilizou, registrou y analisou à maneira de uma instantânea na distinção, a cultura se encontrava em pleno cumprimento destas funções (que pronto se revelariam como efêmeras). Bourdieu não logrou separar ao destino da proverbial coruja de Minerva, essa deusa de toda sabedoria: observava uma paisagem iluminada pelo sol poente, cujos contornos haviam adquirido uma nitidez momentânea que pronto se fundiria no iminente crepúsculo. O que captou em sua análise foi a cultura em sua etapa homeostática: a cultura ao serviço do statu quo, da reprodução monótona da sociedade e o mantimento dol equilíbrio do sistema, justo antes da inevitável perda de sua posição, que se aproximava a passo redobrado.


Essa perda de posição foi o resultado de uma série de processos que estavam transformando a modernidade, levando-a de sua fase “sólida” a sus fase “líquida”. Uso aqui o termo “modernidade líquida” para a forma atual da condição moderna, que outros autores denominam “pós-modernidade”, “modernidade tardia”, “segunda” o “hiper” modernidade. Esta modernidade se torna “líquida” no transcurso de uma “modernização” obsessiva e compulsiva que se propulsa e intensifica a si mesma, como resultado da qual, à maneira do líquido - daí a eleição do termo-, nenhuma das etapas consecutivas da vida social pode manter sua forma durante um tempo prolongado. A “dissolução de todo  sólido” ha sido a característica inata e definidora da forma moderna de vida desde o começo, porém hoje, diferente de antes, as formas dissolvidas não hão de ser substituídas -nem são substituídas- por outras sólidas às que se julgue “melhoradas”, no sentido de ser mais sólidas e “permanentes” que as anteriores, e em consequência ainda mais resistentes à dissolução. Em lugar das formas em processo de dissolução, e portanto não permanentes, vem outras que não são menos -si é que não são mais- suscetíveis à dissolução e  igualmente desprovidas de permanência.

Ao menos nessa parte do planeta onde se formulam, se difundem, se leem com fruição y se debatem apaixonadamente as apelações em favor da cultura (a que, recordemos, se havia elevado antes de seu rol de assistente das nações, os Estados e as hierarquias sociais em processo de autodeterminação e auto-confirmação),esta perde rapidamente sua função de serva de uma hierarquia social que se reproduz a si mesma. As tarefas até então encomendadas à cultura foram caindo uma por uma, caíram abandonadas ou passaram a ser cumpridas por outros meios e com diferentes ferramentas. Liberada das obrigações que lhe haviam imposto seus criadores e operadores -obrigações consequentes com o rol primeiro missionário e logo homeostático que cumpria na sociedade -, a cultura pode agora concentrar-se na satisfação e a solução de necessidades e problemas individuais, em pugna com os desafios e as tribulações das vidas pessoais.

Pode-se dizer que a cultura da modernidade líquida (e mais em particular, ainda não de forma exclusiva, sua esfera artística) se corresponde bem com a liberdade individual de eleição, e que sua função consiste em assegurar que a eleição seja e continue sendo uma necessidade e um dever inevitável da vida, em tanto que a responsabilidade pela escolha e suas consequências está onde fica situada a condição humana da modernidade líquida: sobre os ombros dol individuo, agora designado gerente general e único executor de sua “política de vida”.


Não falamos aqui de uma mudança de paradigma nem de sua modificação: resulta mais apropriado falar do começo de uma era “pós-paradigmática” na história da cultura (e não só da cultura). Embora o termo “paradigma” ainda não haja desaparecido do vocabulário cotidiano, se tem adicionado à família das “categorias zumbis” (como dirua Ulrich Beck), que cresce a passo acelerado: categorias que devem ser usadas sous rature [em rascunho] se, em ausência de substitutos adequados, todavia não estamos em condições de renunciar a elas (como preferia dizer Jacques Derrida). A modernidade líquida é uma arena onde se libra uma constante batalha de morte contra todo tipo de paradigmas, e com efeito contra todos os dispositivos homeostáticos que servem à rotina e ao conformismo, é dizer que impõem a monotonia e mantém a previsibilidade. Ele se aplica tanto ao conceito paradigmático herdado de cultura como à cultura em sentido amplo (é dizer, a soma total dos produtos artificiais ou o “excedente da naturaleza” feito pelo ser humano), que aquele conceito intentou captar, assimilar intelectualmente e fazer inteligível.


Hoje a cultura não consiste em proibições sim em ofertas, não consiste em normas sim em propostas. Tal como assinalou antes Bourdieu, a cultura hoje se ocupa de oferecer tentações e estabelecer atrações, com sedução e iscas em lugar de regulamentos, com relações públicas em lugar de supervisão policial: produzindo, semeando e plantando novos desejos e necessidades em lugar de impor o dever. Se há algo em relação com o qual a cultura de hoje cumpre a função de um homeostato, não é a conservação do estado presente se a abrumadora demanda de mudança constante (ainda quando, a diferença da fase iluminista, se trata de uma mudança sem direção, ou bem em uma direção que não se estabelece de antemão). Poderia dizer-se que serve não tanto às estratificações e divisões da sociedade como ao mercado de consumo orientado pela renovação de existências.


A nossa é uma  sociedade de consumo: nela a cultura, da mesma forma que o resto do mundo experimentado pelos consumidores, se manifesta como um depósito de bens concebidos para o consumo, todos eles em competência pela atenção insuportavelmente fugaz e distraída dos potenciais clientes, empenhando-se em captar essa atenção além da palpitação. Tal como assinalamos no  início, a eliminação das normas rígidas e excessivamente meticulosas, a aceitação de todos os gostos com imparcialidade e sem preferência inequívoca, a “flexibilidade” de preferências (no atual nome politicamente correto para o carácter irresoluto), assim como as eleições transitórias e inconsequentes, constituem a estratégia que se recomenda agora como a mais sensata y correta. Hoje a insígnia de pertencimento a uma elite cultural é a máxima tolerância e a  mínima picuinhas. O esnobismo cultural consiste em negar ostentosamente o esnobismo. O princípio do elitismo cultural é a qualidade onívora: sentir-se como em casa em todo entorno cultural, sem considerar nenhum como o próprio, e muito menos o único próprio. Um crítico e crítico de TV da imprensa intelectual britânica elogiou um programa do ano novo 2007-2008 por sua promessa de “brindar um conjunto de entretenimentos musicais para satisfazer o apetite de todos”. “O bom -explicou- é que seu atrativo universal permite a um entrar e sair do show segundo a preferência.” É uma qualidade  digna de elogio e em si admirável d oferta cultural em uma sociedade onde as redes substituem as estruturas, enquanto que um jogo ininterrompido de conexão e desconexão dessas redes, assim como a interminável sequência de conexões y desconexões, substituem à determinação, a fidelidade e a adesão.


Há outro aspecto a destacar nas tendências aqui descritas: uma das consequências de que a arte se remova de cima a carga de cumprir uma função de peso é também a distância, frequentemente irônica ou cínica, que adotam com respeito  tanto a seus criadores como a seus receptores. Hoje o discurso sobre a arte rara vez adquire o tom cerimonioso ou reverencial tão comum no passado. Já não se chega às mãos. Não se levantam barricadas. Não há flashes de punhais. Se se diz algo em relação com a superioridade de uma forma de arte sobre outra, se o expressa sem paixão e sem brio; por outra parte, as visões condenatórias e a difamação são menos frequentes que nunca. Diante deste estado de coisas se esconde uma sensação de vergonha, uma falta de confiança em si mesmo, una sorte de desorientação: se os artistas já não têm a seu cargo tarefas grandiosas e transcendentes, se suas criações não servem a outro propósito que brindar fama e fortuna a uns poucos eleitos, ademais de entreter e comprazer pessoalmente a seus receptores, Como hão de ser julgados se não é pelo sensacionalismo que acaso recebem em um momento dado? Tal como sintetizou habilmente Marshall McLuhan esta situação, “a arte é qualquer coisa que permita a um sair com a sua”. Ou tal como Damien Hirst -atual menino mimado das mais elegantes galerias londrinas e de quem podem dar-se ao luxo de ser seus clientes- admitiu candidamente ao receber o Premio Turner, prestigioso prêmio britânico de arte: “É assombroso o muito que se pode fazer com  um nível médio escolar regular em artes, uma imaginação retorcida e uma serra”.


A forças que impulsam a transformação gradual do concepto de “cultura” em sua encarnação moderna líquida são as mesmas que contribuem a liberar os mercados de suas limitações não econômicas: principalmente sociais, políticas e étnicas. A economia da modernidade líquida, orientada ao consumo, se baseia no excedente e o rápido envelhecimento de suas ofertas, cujos poderes de sedução se murcham de forma prematura. Posto que resulta impossível saber de antemão quais dos bens oferecidos lograrão tentar aos consumidores, e assim despertar seu desejo, só se pode separar a realidade das ilusões multiplicando os intentos e cometendo erros custosos. O fornecimento perpétuo de ofertas sempre novas é imperativo para incrementar a renovação das mercadorias, encurtando os intervalos entre a aquisição e o desejo a fm de substituí-las por bens “novos e melhores”. E também é imperativo para evitar que os reiterados desencantos de bens específicos levem a desencantar por completo essa vida pintada com as cores do frenesi consumista sobre o lenço das redes comerciais.


A cultura se assemelha hoje a uma seção a mais da gigantesca tenda de departamentos em que se há transformado o mundo, com produtos que se oferecem a pessoas que tem sido convertidas em clientes. Tal como ocorre nas outras secções desta megatenda, os estandes repletos de atrações que  mudam  diariamente, e os mostradores estão enfeitados com as últimas promoções, que se  desaparecem de forma instantânea como as novidades envelhecidas que publicitam. Os bens exibidos nos estandes, assim como os anúncios de los mostradores, estão calculados para despertar desejos irreprimíveis, mas momentâneos por natureza (tal como o enunciou George Steiner, “feitos para o máximo impacto e a obsolescência instantânea”). Tanto os comerciantes de bens como os autores de anúncios combinam a arte da sedução com o desejo irreprimível sentido pelos clientes em potencial para despertar a admiração de seus pares e desfrutar de um sentimento de superioridade.


Para resumir, a modernidade de cultura líquida já não tem uma "multidão" que ilustrar e enobrecer, mas clientes para seduzir. Em contraste com a ilustração e o enobrecimento, a sedução não é uma tarefa única, que é realizada de uma vez por todas, mas uma atividade que se prolonga indefinidamente. O papel da cultura não é satisfazer as necessidades existentes, mas  criar novas necessidades, mantendo as já entrincheiradas ou permanentemente insatisfeitas. O principal objetivo da cultura é evitar o sentimento de satisfação em seus antigos súditos e alunos, hoje transformados em clientes, em particular contrariar a sua perfeita, completa e definitiva gratificação, que não deixariam espaços para novos desejos e necessidades que satisfazer.


A cultura no mundo da modernidade líquidaZygmunt Bauman


David Harvey - Estamos realmente diante do fim do Neoliberalismo? A crise e a consolidação do poder das classes dominantes



Marca esta crise o fim do neoliberalismo? Acho que depende do que se entende como liberalismo. Na minha interpretação, o neoliberalismo foi um projeto de classe camuflado sob uma proteica retórica  sobre a liberdade individual, o alvedrio, a responsabilidade pessoal, a privatização e o livre mercado.Mas essa retórica não é senão um meio para a restauração e a consolidação do poder de classe e neste sentido, o projeto neoliberal tem sido um sucesso.

Um dos princípios básicos que foram sentados na década de 1970 foi que o poder do estado tinha que proteger as instituições financeiras,  custe o que custa. Este princípio foi colocado por obra da crise de Nova York da década de 1970 e internacionalmente foi definido pela primeira vez quando o espectro da falência pairou sobre o México, em 1982. Isso teria destruído os bancos de investimento de Nova York, para que o FMI e o tesouro dos EUA agiram juntos no resgate do México. Mas, ao fazê-lo, impuseram um programa de austeridade à população mexicana. Em outras palavras, eles protegeram os bancos e destruíram as pessoas; outra  não tem sido a prática regular do FMI desde então. Este resgate é a mesma velha história, mais uma vez, só que numa escala ciclópica.

O que aconteceu nos Estados Unidos foi que 8 homens nos deram um documento de 3 páginas por meio de arma apontando-na a todos: "Dê-nos US$ 700 bilhões e não se fala mais nisso". Para mim isso foi uma espécie de golpe financeiro contra o Estado  e contra o povo americano. O que significa que você não vai sair desta crise com a crise da classe capitalista; se sairá dela com uma consolidação ainda maior dessa classe. Terminará havendo 4 ou 5 grandes instituições financeiras nos Estados Unidos, não mais. Muitos em Wall Street já estão prosperando agora. Lazard´s, às custas de sua especialização em fusões e aquisições, por causa de sua experiência em fusões e aquisições, está ganhando dinheiro em cestas. Alguns não vão escapar a queima, mas haverá uma consolidação do poder financeiro. Andrew Mellon - banqueiro americano, Secretário do tesouro em 1921-32- deixou estupendamente dito que em uma crise de ativos sempre acabam retornando aos seus legítimos proprietários. Uma crise financeira é uma maneira de racionalizar o que é irracional: por exemplo, a imensa queda asiática de 1997-8 resultou em um novo modelo de desenvolvimento capitalista. Grandes alterações levam a uma reconfiguração, uma nova forma de poder de classe. Isso poderia dar errado, politicamente falando. O resgate do banco tem sido resistido no Senado e em outros lugares, então é possível que a classe política não seja tão facilmente alinhada: pode colocar obstáculos no caminho, mas, até agora, eles tem engolido e não tem nacionalizado  os bancos.

No entanto, isto poderia  levar a uma maior luta política: uma vigorosa resistência é percebida para dar mais poder aos que nos meteram nesta confusão. A eleição da equipe econômica de Obama está sendo desafiado; por exemplo, a de Larry Summers, que foi secretário do tesouro no momento chave em que as coisas começaram a ir realmente mal, no final da administração Clinton. Porque dar encargos para tantas pessoas favoráveis para Wall Street, o capital financeiro, que reintroduziu a dominância do capital financeiro? Isso não significa que eles não irão redesenhar a arquitetura financeira, porque eles sabem que seu redesenho é inevitável, mas a pergunta é: por que redesenharam isso? As pessoas estão muito infelizes com a equipe econômica de Obama; também o grosso da imprensa.

Requer-se uma nova forma de arquitetura financeira. Não acho que  devam ser abolidas todas as instituições existentes; Não,desde logo, O Banco Internacional de Pagos (BIS, pela sigla em inglês), nem sequer o FMI. Acho que precisamos destas instituições, mas elas têm que se transformar radicalmente.A grande questão é: quem vai controlá-lzs e qual será a sua arquitetura. Precisamos de pessoas, especialistas com alguma inteligência na forma em que essas instituições operam e podem operar. E isso é muito perigoso, porque como podemos ver já agora, quando o estado pede para alguém que entenda o que está acontecendo, você costuma olhar para Wall Street.

Um movimento trabalhista enorme: até aqui temos chegado
Que possamos sair desta  crise por outros meios, depende e muito do equilíbrio de poder entre as classes sociais. Depende em que medida a população diz: "aqui estamos; precisa mudar o sistema!". Agora mesmo, quando você olhar em retrospectiva o que aconteceu aos trabalhadores nos últimos 50 anos, é que  não tem praticamente nada deste sistema. Mas eles não se rebelaram. Nos últimos 7 ou 8 anos nos Estados Unidos, se deteriorou a condição das classes trabalhadoras em geral, e um movimento de resistência não foi dado. Capitalismo financeiro pode sobreviver à crise, mas isso depende completamente de que se produza uma revolta popular contra o que está acontecendo, e que existe uma real investida visando reconfigurar o modo de funcionamento da economia.

Um dos maiores obstáculos para ser atravessado no caminho da acumulação de capital foi, nos anos 60 e começo dos 70, o fator de trabalho. Havia escassez de trabalho, tanto na Europa como nos Estados Unidos, e o mundo do trabalho estava bem organizado, com influência política. De modo, pois, que um grande problema para a acumulação de capital nesse período foi: como pode lograr o capital ter acesso a mão-de-obra mais barata e mais dócil? Tinha várias respostas. Uma passava por estimular a imigração. Nos Estados Unidos foram revistos leis de imigração, em 1965, permitindo-lhes acesso ao excedente populacional do mundo (antes disso, só erar favorecido migratoriamente brancos e europeus). No final da década de 1960, o governo francês subsidiou a importação de mão de obra do Magrebe, os alemães trouxeram  turcos, os suecos importaram iugoslavos e os britânicos tiravam de seu império. Então apareceu uma política pró-imigração, que era uma maneira de lidar com o problema.

Outra maneira foi a rápida evolução tecnológica, que verifica as pessoas que trabalham, e se isso falhar, havia pessoas como Reagan, Thatcher e Pinochet para esmagar o trabalho organizado. Finalmente e através da deslocalização, os movimentos de capitais para onde há trabalho excedente. Isso foi facilitado por duas coisas. Primeiro, os sistemas técnicos de reorganização do transporte: uma das maiores revoluções que ocorreram durante esse período foi o do recipientes, permitindo a fabricação de auto peças no Brasil e enviá-las para Detroit, ou onde o baixo custo para fora. Em segundo lugar, os novos sistemas de comunicação permitiu uma organização mais apertada no momento da cadeia de produção de mercadorias através do espaço global.

Todas essas rotas destinam-se a resolver para o capital o problema da escassez de trabalho, de modo que que até 1985 o capital tinha deixado de ter problemas a respeito. Poderia ter problemas específicos em determinadas áreas, mas, no geral, tinha trabalho disponível abundante; o subitâneo colapso da União Soviética e a transformação de grande parte da China veio adicionar para perto de 2 bilhões de pessoas ao proletariado global no pequeno espaço de 20 anos. Assim, a disponibilidade de trabalho hoje não representa nenhum problema, e o resultado disso é que  o mundo do trabalho tem ido a uma  situação de indefensa nos últimos 30 anos. Mas quando o trabalho está desarmado, recebem salários baixos, e se insistir em atrasar salários limita os mercados. Então o capital começou a ter problemas com seus mercados. E duas coisas aconteceram.

A primeiro: o crescente hiato entre o rendimento do trabalho e o que os trabalhadores gastavam começou a ser salvo através da ascensão da indústria de cartão de crédito e o crescente endividamento das famílias. Então, nos Estados Unidos em 1980, temos que a média de dívida doméstica foi em torno de US$40.000 , enquanto agora é cerca de US$130.000 por agregado familiar [constante], incluindo hipotecas. A dívida doméstica subiu, e isso leva-nos para o financeirização, que tem a ver com as instituições financeiras lançadas para sustentar as dívidas das famílias de trabalhadores, cujos ganhos pararam de crescer. E começa pela classe trabalhadora respeitável, mas mais ou menos por 2000 você começa a encontrar já com hipoteca subprime em circulação. Busca criar um mercado. De modo que as instituições financeiras se apressam  a sustentar o financiamento da dívida de pessoas praticamente sem renda. Mas, caso contrário, o que ocorreria com os promotores imobiliários que constroem moradias? Assim, se fez, e se buscou  estabilizar o mercado pelo financiamento da dívida.

A crise dos valores de ativos
A segunda coisa que aconteceu foi que, desde 1980, os ricos foram ficando cada vez mais ricos devido a supressão do salário. A história que nos é contada é que eles vão investir em novas atividades, mas não fizeram; a maior parte dos ricos começou a investir em ativos, ou seja, colocar seu dinheiro no mercado acionário. Assim, as bolhas foram geradas nos mercados acionários. É um sistema semelhante da esquema Ponzi, mas sem necessidade de que o organize um Madoff. Os ricos puxam por valores de ativos, incluindo ações, imóveis e propriedades de lazer, bem como no mercado de arte.Estes investimentos trazem financeirização. Mas, à medida que você oferece valores de ativos, isso repercute no conjunto da economia, de modo que  viver em Manhattan tornou-se absolutamente impossível, a menos que endivide-se incrivelmente, e todo mundo está envolto nesta inflação dos valores de ativos, incluindo a classe trabalhadora, cujo rendimento não cresce. E o que temos agora é um colapso de valores de ativos; o mercado imobiliário entrou em colapso, o mercado acionário despencou.

Sempre tem havido o problema da relação entre representação e realidade. A dívida tem a ver com o valor futuro que se supõe a bens e serviços, de modo que se supõe que a economia continuará a crescer nos próximos 20 ou 30 anos. Envolve sempre um palpite, uma conjectura de Tácito, que em seguida se reflete na taxa de juros, com desconto futuro. Esse crescimento na área financeira, depois dos anos 70 tem muito a ver com o que eu acho que é o problema-chave: o que eu chamaria o problema da absorção do excedente capitalista. Como  nos ensina a teoria do excedente, os capitalistas produzem um excedente do qual logo têm que fazer com uma parte, recapitalizá-la e reinvesti-la em expansão. O que significa que eles sempre têm de encontrar algo em que expandir. Em um artigo que escrevi para o New Left Review, "O direito à cidade", apontava que nos últimos 30 anos um imenso volume de capital excedentário foi absorvido pela urbanização: reestruturação urbana, expansão e especulação. Cada um das cidades que visitei são enormes canteiros adequados para a absorção do excedente capitalista. Agora, escusado será dizer, muitos desses projetos foram semi-cozido.

Esse modode absorver o capital excedentário tem se tornando cada vez mais problemática com o tempo. Em 1750, o valor de todos os bens e serviços produzidos era cerca de 135 bilhões de dólares (constante). Em 1950, foi de US$ 4 trilhões. Em 2000, se aproximou de 40 bilhões. Agora volta a 50 trilhões. E se erra não, Gordon Brown,  dobrará nos próximos 20 anos, até chegar a 100 bilhões em 2030.

Ao longo da história do capitalismo, a taxa de crescimento global média tem pairado o 2,5% anual, sobre base composta. Isso significa que em 2030 teria de encontrar soluções rentáveis para US $ 2,5 trilhões. É uma ordem de magnitude muito alta. Eu acredito que houve um problema sério, particularmente desde 1970, com o modo de absorver mais grandes volumes de excedente na produção real. Uma fração menor do que já entra em produção real e cada vez mais grande parte destina-se à especulação sobre valores de ativos, que explica a frequência e a profundidade, aumentando a crise financeira que estamos vendo desde 1975, mais ou menos. Elas são todos crise de valores de ativos.

Eu diria que, se saíssemos desta crise agora mesmo, e se houver uma acumulação de capital, com uma taxa de crescimento anual de 3%, nos encontraríamos com  um monte de problemas endemoniados. O capitalismo enfrenta graves limitações ambientais e restrições de mercado e rentabilidade. A mudança recente para financeirização é uma inversão de marcha forçada pela necessidade de lidar com um problema de absorção do excedente; um problema, no entanto, que não se pode abordar sem exposição a desvalorizações periódicas. É o que está acontecendo agora, com a perda de muitos trilhões de dólares em valores de ativos.

O termo "resgate nacional" é, portanto, inadequado, porque eles não estão salvando o conjunto do sistema financeiro existente; estão a salvar os bancos, a classe capitalista, perdoando-lhes as dívidas e transgressões. E só estão salvando a eles. O dinheiro flui para os bancos, mas não para as famílias que estão sendo hipotecariamente executadas, o que está começando a provocar raiva. E os bancos estão usando esse dinheiro, não para emprestá-lo, mas para comprar outros bancos. Eles estão consolidando o seu poder de classe.

O colapso do crédito
O colapso do crédito para classe trabalhadora coloca  fim à financeirização como uma solução da crise do mercado. Conseqüentemente, nós veremos uma crise de grande desemprego, bem como o colapso de muitas indústrias, a menos que tomemos medidas eficazes para mudar o rumo das coisas. E isto é onde a discussão sobre o retorno a um modelo econômico Keynesiano agora se desenvolve. O programa econômico de Obama consiste em investir maciçamente em grandes obras públicas e tecnologias verdes, retornando em um sentido para o tipo de solução do New Deal. Eu sou cético quanto a sua capacidade de ter sucesso.

Para entender a situação presente, precisamos ir além do que acontece no processo de trabalho e produção, temos de introduzir o complexo das relações em torno do estado e das finanças. Precisamos entender a maneira em que o sistema de crédito e débito nacional tem sido, desde o começo, veículos fundamentais para acumulação primitiva, ou o que eu chamo acumulação por desapossamento (como pode ser visto no setor da construção). Em 'O direito à cidade'  eu observava a maneira que havia sido revitalizado o capitalismo na Paris do segundo Império: o Estado, juntamente com os banqueiros, pôs por obra de um novo vínculo Estado-capital financeiro, a fim de reconstruir a Paris. Que gerou o pleno emprego e os bulevares, executando sistemas de abastecimento de água e transporte de resíduos, bem como novos sistemas de encanamento; Graças a este tipo de mecanismos também foi construído o Canal de Suez. Uma boa parte do que foi financiada com dívida. Agora, esse link Estado-finanças está passando por uma enorme transformação desde 1970: tornou-se mais internacional, está aberto a todos os tipos de inovações financeiras, incluindo os mercados de derivativos e mercados especulativos, etc.Ele criou uma nova arquitetura financeira.

O que creio que está acontecendo agora é que eles estão olhando para uma nova forma de regime financeiro que pode resolver o problema, não para as pessoas que trabalham, mas para a classe capitalista. Na minha opinião, estão no processo de encontrar uma solução para a classe capitalista, e se o resto de nós sofrem as conseqüências, pois que  vá fazer! A única coisa que nos preocupa é que levantemos em rebelião. E enquanto esperamos pelo rebelde, eles tentam projetar um sistema de acordo com seus próprios interesses de classe. Eu não sei como será a nova arquitetura financeira. Se você olhar com cuidado o que aconteceu durante a crise fiscal em Nova York, será que os banqueiros e financistas não sabia o que fazer; o que eles acabaram fazendo era uma espécie de bricolagem à tintas, parte aqui, parte ali; Então eles reuniram as peças de uma forma nova e terminaram com uma nova construção de planta. Mas, qualquer que seja a solução para chegar, ela virá-los sob medida, a menos que nós mesmos plantemos e começemos a dizer que queremos algo à nossa medida. Pessoas como nós podem desempenhar um papel crucial quando se trata de fazer perguntas e desafiar a legitimidade das decisões que estão sendo tomadas agora. Também, obviamente, quando se trata de uma análise muito clara da verdadeira natureza do problema e as possíveis saídas oferecidas a ele.

Alternativas
Precisamos começar a exercer o nosso direito à cidade de verdade. Temos de perguntar o que é mais importante, o valor dos bancos ou o valor da humanidade. O sistema bancário deve servir ao povo, não viver à custa do povo. E a única maneira em que seremos capazes de exercer o direito à cidade será tomando as rédeas do problema da absorção do excedente capitalista. Precisamos socializar o capital excedente e escapar para sempre do problema de 3% de acumulação. Agora estamos em um momento em que continuar indefinidamente com uma taxa de crescimento de 3% chegará a gerar  tremendos custos ambientais e uma  pressão sobre as situações sociais tão tremenda, que estaremos condenados a uma crise financeira após outra.

O problema central é como se pode absorver os excedentes capitalistas de forma produtiva e rentável.Na minha opinião, os movimentos sociais tem que se organizar em torno da ideia de alcançar maior controle sobre o produto. E embora eu não suporte um retorno para o tipo de modelo keynesiano que tivemos na década de 1960, parece fora de dúvida que então tinha um controle social e político muito maior na produção, o uso e a distribuição do excedente. O excedente circulante derivava para a construção de escolas, hospitais e infra-estrutura. Isso é o que trouxe de suas caixas para a classe dominante e causou um contador no final da década de 1960: não tinha suficiente controle sobre o excedente. No entanto, se você assistir os dados disponíveis, é que a proporção de excedente absorvido pelo Estado não mudou muito desde 1970; o que ele fez, assim, a classe capitalista foi parar com a socialização do excedente. Também eles conseguiram transformar a palavra 'Governo' na palavra 'governança', fazendo porosas as atividades governamentais, permitindo situações que temos no Iraque, onde contratistas privados muniram implacavelmente úberes de lucro fácil.

Acho que estamos por trás de uma crise de legitimidade. Nos últimos trinta anos, se há repetido uma e outra vez  a ocorrência de Margaret Thatcher, segundo a qual "não há alternativa" para um mercado livre neoliberal, um mundo privatizado, e se não formos bem sucedidos neste mundo, é nossa culpa. Acho que é muito difícil dizer que, diante de uma crise de despejos de encerramento e imobiliário, ajuda os bancos, mas não para as pessoas que perdem a sua habitação. Você pode acusar os doentes terminais de irresponsabilidade e nos Estados Unidos tem um componente fortemente racista, em que acusação. Quando a primeira onda de arrestos atingiu áreas tais como Cleveland e Ohio, foi devastadora para as comunidades negras, mas a reação de alguns foi um pouco mais ou menos isto: "pois o que esperava? Os negros são pessoas irresponsáveis".  As explicações da crise diletas da direita são em termos de ganância pessoal, tanto no que fazem a Wall Street, como o que ele fazem  para as pessoas que pediram emprestado para comprar uma casa. O que estão fazendo é carregar a culpa pela crise para suas vítimas. Uma de nossas tarefas é para dizer: "não, não se pode fazer isso em absoluto" e tratar logo de oferecer uma explicação cogente desta crise como um fenômeno de classe: uma estrutura particular de exploração foi afundada e está em vias de ser deslocada por outra ainda mais profunda estrutura de exploração. É muito importante que esta explicação alternativa da crise seja apresentada e discutida publicamente.

Uma das grandes configurações ideológicas que está em processo de formação tem a ver com o papel que vai ter  no futuro a posse da habitação, uma vez começar a dizer as coisas como você tem que conviver muito do parque habitacional, já desde os anos 30, tivemos enormes pressões a favor da habitação individualizado como forma de garantir os direitos e a posição das pessoas. Temos que socializar e recapitalizar a educação e a assistência sanitária públicas, além da prestação de habitação.Esses  setores da economia precisam ser socializados, juntamente com a banca.

Uma política radical, além das divisões  de classe
Há um outro ponto que nós deve reconsiderar: o trabalho e, em particular, o trabalho organizado é apenas uma pequena parte deste conjunto de problemas e só joga um papel parcial no que está acontecendo. E isso por uma razão muito simples, que vai voltar para as limitações de Marx ao implementar a coisa. Se dizemos que a formação do complexo Estado-finanças é absolutamente crucial para a dinâmica do capitalismo (e obviamente é), e se nós nos perguntamos  que forças sociais atuam no ponto para neutralizar e promover essas formações institucionais, deve reconhecer que o trabalho nunca esteve na vanguarda desta luta. O Trabalho tem estado na vanguarda no mercado de trabalho e no processo de trabalho e ambos são momentos vitais no processo de circulação, mas a maior parte das lutas que têm sido desenvolvidas em torno do vínculo Estado-finanças  tem sido lutas populistas, em que o trabalho só parcialmente tem estado presente.

Por exemplo, nos Estados Unidos na década de 1930, havia um montão de populistas que apoiaram os assaltantes de bancos Bonnie e Clyde. E atualmente, muitas das lutas em curso na América Latina têm uma direção mais populista do que obreira. O trabalho sempre teve um papel muito importante a desempenhar, mas não acredito que estamos agora numa situação em que a visão convencional do proletariado como a vanguarda da luta é muito útil, quando a arquitetura do vínculo Estado-finanças (sistema nervoso central da acumulação de capital) é a questão fundamental. Pode haver momentos e lugares onde os proletários movimentos resultem de grande importância, por exemplo, na China, onde eu prevejo um papel criticamente decisivo que, por outro lado, não vejo em nosso país. O interessante é que os trabalhadores da indústria automobilística e companhias do automóvel agora são aliados frente ao nexo Estado-finanças, portanto a grande divisão de classe que sempre houve em Detroit não se dá agora, ou não na mesma maneira. O que está em andamento é uma política nova, completamente diferente, do tipo de classe, e algumas das maneiras convencionais marxistas de ver  estas coisas se atravessam no caminho de uma política verdadeiramente radical.

Também é um grande problema para a esquerda que muitos pensem que a conquista do poder do estado não deve desempenhar qualquer papel nas transformações políticas. Eu acho que eles são loucos. O estado é um poder incrível e não se pode prescindir dele, como se não fosse importante.Estou profundamente cético em relação a crença, segundo o qual as ONGs e organizações da sociedade civil estão em processo de transformação do mundo; Não que as ONG não possam fazer nada, mas porque ele requer um outro tipo de concepção e movimento político, se queremos fazer algo à crise principal que está em andamento. Nos EUA, o instinto político é muito anarquista, e embora eu simpatize muito com pontos de vista bastante anarquistas, seus protestos de longa data contra o estado e a sua negativa em fazer com o controle do mesmo outro obstáculo atravessado no caminho.

Não acho que estamos em uma posição que nos permita determinar quem serão os agentes da mudança da conjuntura atual, e é óbvio que eles serão diferentes em diferentes partes do mundo. Agora, nos EUA, há sinais de que a classe dos executivos e gerentes de negócios, que tem vivido todos estes anos, das receitas de capital financeiro estão irritados e podem radicalizar um pouco. Muitas pessoas foram despedidas de serviços financeiros, e em alguns casos,  viram executadas suas hipotecas.Produtores culturais estão tomando consciência da natureza dos problemas que enfrentamos, e da mesma maneira que na década de 1960 as escolas de arte se converteram em centros de radicalismo político, não se deve descartar o reaparecimento de algo análogo. Vimos o surgimento de organizações transnacionais, à medida que as  reduções de remessas de dinheiro estendam a crise para lugares como o México ou a Kerala rural.

Os movimentos sociais têm que definir estratégias e políticas que querem desenvolver. Nós, acadêmicos, não deveríamos ver-nos jamais no papel de missionários nos movimentos sociais; o que se deve fazer é entrar na conversa e falar sobre como você vê a natureza do problema.

Dito isso, eu gostaria de propor algumas idéias. Uma idéia interessante nos Estados Unidos agora é que os governos municipais aprovara, portarias anti-demissão. Acho que existem muitos lugares em França onde se tem feito isso. Então poderíamos montar uma empresa municipal de habitação que tomasse hipotecas e retornasse para o banco a dívida principal, renegociando os interesses, porque os bancos têm recebido um monte de dinheiro, supostamente para lidar com isso, mas não o fizerem.

Outra questão fundamental é a de cidadania e dos direitos. Acredito que os direitos à cidade devem garantir por residência, independentemente de qual cidadania ou nacionalidade se tenha. Atualmente, se está negando a pessoas todo direito politico à  cidade, a menos que tenham a cidadania. Se você é imigrante, falta-lhe os direitos. Acho que se tem que jogar lutas sobre direitos de cidade. A Constituição brasileira tem uma cláusula de "direito à cidade" que lida com os direitos dos procedimentos orçamentais, consulta e participação. Eu acho que de tudo isso poderia ser uma política.

Reconfiguração do estado

Há nos  E.U.A chances de ação a nível local, com uma longa tradição em questões ambientais e nos últimos quinze ou vinte anos  os governos municipais foram frequentemente mais progressistas do que o governo federal. Neste momento há uma crise nas finanças municipais, e provavelmente haverá protestos e pressão sobre Obama para que ajude a recapitalizar os governos municipais (o que já figura no pacote de estímulo). Obama disse que esta é uma das coisas que te interessam mais, especialmente porque muito do que está acontecendo tem lugar a nível local; por exemplo, a crise das hipotecas do subprime. Como eu tenho uma participação, as execuções hipotecárias e despejos são entendidos como crise urbana, não como uma crise financeira: é uma crise financeira de urbanização.

Outra questão importante é pensar politicamente sobre a forma de converter em um componente estratégico de algum tipo de aliança entre a economia social e o mundo do trabalho e os movimentos urbanos como o direito à cidade. Isso tem a ver com a questão do desenvolvimento tecnológico. Por exemplo: não vejo razão para não ter um sistema municipal para apoiar o desenvolvimento de sistemas de produção, tais como energia solar, a fim de criar dispositivos e possibilidades mais descentralizadas  de emprego.

Se eu tivesse que desenvolver um sistema ideal, agora, eu diria que devemos criar um banco nacional de reabilitação dos 700 bilhões aprovados, alocar 500.000 para que esse banco  trabalhasse com municípios para ajudar os moradores atingidos pela onda de despejos nos Estados Unidos. Porque despejos têm sido uma espécie de Katrina financeira de muitas maneiras: devastaram comunidades inteiras, geralmente pobres negros ou hispânicos. Pois bem;  entra por aqueles bairros e devolve ao povo que morava lá e lhes realocava em um outro tipo de base, com os direitos de residência e com um tipo diferente de financiamento. E tem que ser verdes estes bairros, criando oportunidades de emprego local.

Pode, portanto, imaginar uma reconfiguração da urbanização. Para fazer alguma coisa em termos de aquecimento global, precisamos reconfigurar completamente o funcionamento das cidades americanas;Pensar em pautas completamente novas de urbanização, em novas formas de vida e de trabalho.Existem muitas possibilidades que a esquerda deve prestar atenção; Temos oportunidades reais. E aqui é onde eu tenho um problema com alguns marxistas que parecem pensar: "Sim, senhor! É uma crise, e as contradições do capitalismo vão acabar resolvidas agora, de uma forma ou de outra! ". Não é este momento de triunfalismos, é hora de fazer perguntas e levantar questões. De fato, creio que o modo em que Marx levantou as coisas não é isento de dificuldades. Os Marxistas não entendem muito bem o complexo Estado-finanças da urbanização, são terrivelmente torpes, quando se trata de entender isso.Mas agora nós temos que repensar nossa posição teórica e nossas possibilidades políticas.

Então, tanto como ação prática, se precisa voltar a pensar teoricamente muitas coisas.


David Harvey é um geógrafo, sociólogo urbano e historiador social marxista de reputação acadêmica internacional. 

Retirado de Sin Permisso

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