Cuba, que planos tens para o Ano Novo?

Apesar dos planeamentos, continua a ser impossível aos cubanos criarem os seus projetos vitais, pois precisam de modificá-los, refazê-los ou esquecê-los, de acordo com o que lhes vai chegando a cada momento das alturas da decisão política. Por Leonardo Padura
Cayo Hueso, Havana. Foto de Miguel Navaza
Depois de três décadas de socialismo supostamente planificado (1960-1990), ao longo das quais o que as estruturas do governo e do Estado “planificavam” era cumprido muitas vezes a meias, perdia-se no esquecimento por falta de controle ou de realismo, ou no melhor dos casos era executado de qualquer forma só para cumprir o plano, nós cubanos acostumámo-nos a viver à espera (ou sem esperar) de que a direção política, financiada pelos potentes subsídios soviéticos, criasse um novo “planejamento”.
Esta reorganização ou projeto entrava nas nossas vidas como uma tromba, mesmo que depois pudesse desaparecer com a velocidade e a consistência do fumo.
Aquele planeamento idealista teve, no entanto, um resultado: as pessoas acostumaram-se a receber ordens e orientações nas quais a sua decisão individual tinha pouco ou nenhum peso. Se tinhas um telefone era porque o Estado to concedia; se viajavas, era porque te permitia…e assim até o infinito.
Nos anos superduros
Os anos mais duros da crise e as carências que se seguiram ao desaparecimento da União Soviética e as suas subvenções, demonstraram quão pouco preparado estava o país para se cuidar de si mesmo, pois tantos planejamentos socialistas mal tinham conseguido dotar a economia nacional de uma estrutura capaz de se sustentar sem apoios externos.
Nos últimos seis, sete anos, o Estado-governo-Partido único, dirigido pelo general Raúl Castro depois da saída do poder efetivo do até então máximo líder Fidel Castro, tentou pôr ordem na estrutura econômica e social com um planeamento mais realista, e referendou-o com a elaboração de umas Linhas Gerais da Política Econômica e Social, aprovadas como instrumento programático no Congresso do Partido Comunista de 2011.
Amparada nessas orientações, a direção tem introduzido numerosos e importantes mudanças na vida econômica e social da nação. Mas entre o programa e a vida real, quotidiana, individual dos moradores desta ilha das Caraíbas, há uma distância stressante que é a do desconhecimento de como, quando, e em que ordem serão concretizadas as “atualizações” planificadas…
Por ocultas razões
Explico-me em duas palavras: apesar dos planejamentos, continua a ser impossível aos cubanos criarem os seus projetos vitais, pois precisam de modificá-los, refazê-los ou esquecê-los, de acordo com o que lhes vai chegando a cada momento das alturas da decisão política, com a forma e a intensidade que os autores da atualização decidam, com a sua visão macroeconômica ou macrossocial, esses planejamentos ou variações que muitas vezes chegam sem que os cidadãos tenham a possibilidade de fazer as suas próprias atualizações e replanificações.
Agora mesmo, os cubanos, que por uma ou outra via conseguiram juntar algum dinheiro, têm muito pouca certeza do que será o futuro monetário do país, pois haverá uma unificação das moedas circulantes, mas sem uma ideia precisa de como nem quando irá ser posta em prática, que valor terá o dinheiro, etc.
Os ainda mais afortunados que, por exemplo, aspiravam a adquirir um automóvel novo ou de segunda mão vendido pelo Estado, agora também não sabem se alguma vez, e como, poderão aceder a esse sonho que, por ocultas razões, continua a ser controlado, limitado ou negado pelo Estado, ainda que a venda de um automóvel em Cuba seja um dos mais lucrativos negócios com que possa sonhar qualquer vendedor do universo (os carros novos estão, ou estavam, sujeitos a 100 por cento de impostos, ou seja, custavam o dobro do seu preço de mercado).
Mas esses afortunados são, como é fácil concluir num país empobrecido, uma percentagem ínfima da população.
Malabarismo e economia doméstica
O maior número de cidadãos vive o quotidiano (ou mais atrás), a fazer malabarismos em economias domésticas de subsistência que se veem alteradas constantemente por um processo de inflação desencadeado na década de 1990 e que não tem feito outra coisa senão aumentar numa proporção inalcançável para os salários recebidos pelos empregados públicos, que são cerca de 80 por cento dos que trabalham em Cuba.
Os artigos de primeira necessidade (alimentos, higiene), além da eletricidade, o transporte e outros serviços ficam constantemente mais caros, segundo o planificado centralmente, e mandam à vida o planeamento com a que a duras penas se foram arranjando centenas de milhares de famílias, milhões de indivíduos.
À medida que se aproxima outro fim de ano, a maioria dos cubanos sabe que nem as crípticas e poéticas previsões que a cada mês de janeiro são tornadas públicas pelos sacerdotes de Ifá (a religião animista e divinatória de origem africana mais praticada em Cuba) lhes poderão dar uma verdadeira luz a respeito do seu futuro mais imediato, aquele que cada um precisa de planificar para viver a sua vida pessoal, a única que a biologia (ou talvez algum deus), lhe concedeu.
Como será o próximo ano para os 11 milhões de cubanos? Acho que nem o oráculo de Ifá o sabe de ciência certa.
12 dezembro, 2013
Leonardo Padura,escritor e jornalista cubano, galardoado com o Prémio Nacional de Literatura 2012. Os seus romances foram traduzidos em mais de 15 idiomas. A sua obra mais conhecida, “O Homem que Gostava de Cães”, tem como personagens centrais Leon Trotsky e o seu assassino Ramón Mercader.
Publicado pela IPS. Retirado do blog café fuerte
Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

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