"Em cada casa velha de taipa abandonada há um grito de fome dentro dela"

Gostamos demais de fazer comparações com os Estados Unidos, e não é que elas sejam impossíveis de serem feitas, até são bem-vindas sendo miragens para aprendizado, mas o processo histórico brasileiro é completamente distinto. O que é o povo brasileiro, existe de fato? Esta foi a grande preocupação de intelectuais brasileiros ao longo do século XX, e já alguns o fizeram no século XIX.

Como o território onde tudo que se planta dá iria alcançar o progresso, o desenvolvimento  econômico e social? Passou-se de teses raciais, dando conta de que devia se "esbranquiçar" a nação trazendo imigrantes europeus, é o que defende personagem Amleto de Viva o Povo Brasileiro de João Ubaldo Ribeiro; até a obra de Gilberto Freyre em defesa da miscigenação, obra esta que tem uma representatividade muito grande contra as teorias racistas.

Mas aí vemos movimentos sociais, de afirmação política. Aliás, o personagem Amleto defende que o Brasil deve ter como povo uma aristocracia de origem europeia:

"O nosso povo é um de nós, ou seja, um como os próprios europeus. As classes trabalhadoras não podem passar disso, não serão jamais povo. Povo é raça, é cultura, civilização, é afirmação, é nacionalidade, não é o rebotalho dessa mesma nacionalidade." (Personagem Amleto de Viva o Povo Brasileiro - João Ubaldo Ribeiro)

As artes populares brasileiras trataram de tornar publicizadas todo o drama do povo brasileiro, não o povo de Amleto, mas o povo que ele nega como povo. Temos Patativa do Assaré, que vai além do sofrimento com a seca, que aliás Amleto via como forma de despossessão, a críticas de condições de trabalho; João do Vale e sua Sina do Caboclo. enfim, uma produção gigante que caracterizava para as pessoas vivendo aquela situação tudo que eles eram.

Os Estados Unidos não viveram a fome como o resto da América Latina, sabe-se lá por sorte, competência ou diferença colonizatória, não importa julgar a história. A fome foi o maior drama social brasileiro, a história brasileira é uma história de fome e não por inaptidão para o trabalho, mas sim por se trabalhar demais e não se ter direito a nada; hoje tendemos a analisar tudo pelos cálculos econométricos, mas como diz o compositor "em cada casa velha de taipa abandonada há um grito de fome dentro dela".

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