Não há peste mais democrática que a dos golpes: alastra-se, iguala os homens e penetra em todas as repartições da vida. Já tivemos golpes de Estado, e até os de teatro — esses que se fazem com espada e fanfarra, para logo se converterem em palácios e medalhas. Mas agora, senhor leitor, vivemos sob a tirania de um golpe mais modesto, porém mais íntimo: o golpe eletrônico.
Todos os dias — repito: todos — recebo notícias inquietantes sobre minha carteira de habilitação. "Será suspensa!" dizem-me com espanto digital. É pena que não a possuo. Há também encomendas misteriosas, retidas na alfândega como damas sequestradas por mouros, clamando por resgate — conquanto eu, pobre de mim, não tenha comprado nem uma caixa de fósforos.
No INSS, urdiram-se tramas que fariam corar o próprio Fouché. Associações de fachada, travestidas de defensoras do povo, surrupiam tostões dos velhos lavradores. E os bancos, com sua já tradicional habilidade aritmética, multiplicam empréstimos que o cliente jamais pediu, mas que lhe chegam como se fosse desejo antigo.
Na rua, no lar, no leito e até no confessionário, tocam o telefone. E quem é? Um golpista, ora. Mas um golpista gentil, estudado, vocalizado, desses que sabiam Latim se vivessem em Roma. Prometem prêmios, contas trancadas, dívidas ocultas — e tudo com tamanha polidez que o diabo, ouvindo, tomaria notas.
Mas, dir-me-á o leitor, de onde vem tanta esperteza? Vem de longe. Vem do “jeitinho”, essa flor tropical que brota nos desvãos da alma brasileira. Não é ele que ensina o homem a furar fila com sorriso? A vender o voto com promessa? A estacionar na vaga do aleijado dizendo que é só um instantinho? Pois o golpe é apenas a flor madura desse pé de mandracaria moral.
No fim, senhor leitor, é preciso dizer com franqueza: o país tornou-se um grande romance policial, mas escrito sem detetive, sem desfecho — e com todos os personagens disfarçados de vítimas.



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