Poemas

Os Dois Horizontes


Dois horizontes fecham nossa vida:
Um horizonte, — a saudade 
Do que não há de voltar; 
Outro horizonte, — a esperança 
Dos tempos que hão de chegar; 
No presente, — sempre escuro,— 
Vive a alma ambiciosa 
Na ilusão voluptuosa 
Do passado e do futuro.
Os doces brincos da infância 
Sob as asas maternais, 
O vôo das andorinhas, 
A onda viva e os rosais; 
O gozo do amor, sonhado 
Num olhar profundo e ardente, 
Tal é na hora presente 
O horizonte do passado.
Ou ambição de grandeza 
Que no espírito calou, 
Desejo de amor sincero 
Que o coração não gozou; 
Ou um viver calmo e puro 
À alma convalescente, 
Tal é na hora presente 
O horizonte do futuro.
No breve correr dos dias 
Sob o azul do céu, — tais são 
Limites no mar da vida: 
Saudade ou aspiração; 
Ao nosso espírito ardente, 
Na avidez do bem sonhado, 
Nunca o presente é passado, 
Nunca o futuro é presente.
Que cismas, homem? – Perdido 
No mar das recordações, 
Escuto um eco sentido 
Das passadas ilusões. 
Que buscas, homem? – Procuro, 
Através da imensidade, 
Ler a doce realidade 
Das ilusões do futuro.
Dois horizontes fecham nossa vida.


Machado de Assis


Idades da vida

Oh, urbes do Eufrates!
Oh, ruas de Palmira!
Oh, bosques de colunas sobre o pranto deserto!
O que sóis?
De vossas coroas,
ao haver traspassado os limites
de aqueles que respiram,
pelo fumo dos deuses
e de seu fogo fostes despojadas;
porém sentado agora baixo nuvens (cada
qual repousando em sua própria quietude)
baixo carvalhos hospitaleiros, na sombra onde pastam os corços,
estranhas e mortas se me fazem
as almas venturosas.


Hölderlin


No Ameno Azul

Friedrich Hölderlin
"Cheio de mérito, mas poeticamente, vive o homem sobre esta Terra"
No ameno azul floresce, com o seu telhado de metal, o campanário. À sua volta paira a gritaria das andorinhas, rodeia-o o azul mais comovente. O sol ergue-se, alto, sobre ele, e dá cor à chapa metálica, mas é no seu cimo que, ao vento, suavemente, canta o catavento. Quando alguém então desce para o patamar do sino, por aqueles degraus, há uma vida silenciosa, pois quando a sua figura está assim tão isolada, sobressai a plasticidade do homem. As janelas em que os sinos tocam são como arcos de beleza. Pois os arcos ainda imitam a Natureza, são semelhantes às árvores da floresta. E o que é puro também é belo. No interior, da diversidade surge um espírito sério. E as imagens são tão simples, tão santas, que muitas vezes verdadeiramente se teme descrevê-las. Porém os Celestiais, que são sempre bondosos, uma vez que tudo têm, como os ricos, possuem a virtude e a alegria. O homem pode imitá-los. Mas poderá o homem, quando toda a sua vida está cheia de trabalhos, erguer o olhar e dizer: assim quero eu ser também? Sim. Enquanto a amabilidade pura habitar no seu coração não será uma atitude infeliz o homem medir-se pela divindade. Será Deus desconhecido? Será manifesto como o Céu? Antes isto creio. É a medida do homem. Cheio de mérito, mas poeticamente, vive o homem sobre esta Terra. E no entanto a sombra da noite e as estrelas não são, se é que posso dizê-lo, mais puras do que o homem, como imagem que é da divindade. Haverá na Terra uma medida? Não, não há. É que os mundos do Criador jamais inibem o curso do trovão. Também uma flor é bela porque floresce sobre o sol. O olhar encontra muitas vezes ao longo da vida seres que seriam mais belos de nomear que as flores. Oh, como o sei bem! Pois agradará a Deus que a figura e o coração sangrem e que se deixe completamente de existir? Mas a alma, tal como penso, deve permanecer pura, pois assim chega ao que é poderoso sobre as asas de águias como um cântico de louvor e com a voz de muitas aves.
In Hinos Tardios, Assírio &Alvim, Lisboa, 2000


O consenso público


Não é mais bela a vida de meu coração
quando amo? Por quê me distinguias mais
quando eu era mais arrogante e arisco,

mais loquaz e mais vazio?



¡Ah! a multidão prefere o que se cotiza,

as almas servis só respeitam o violento.

unicamente creem no divino

aqueles que também o são.




Hölderlin


GRÉCIA

Tanto vale o homem e tanto vale o esplendor da vida,
Os homens ao menos são amos da natureza,
Para eles a terra formosa não está escondida,

Mas sim que com doçura se desnuda pela manhã e à tarde.



Os campos abertos são como os dias da colheita,
Ao redor se estende espiritual a velha Lenda,
Uma vida nova volta sempre à nossa humanidade,
E o ano se inclina mais uma vez silenciosamente.

(Hölderlin)


O ESPÍRITO DO TEMPO



A vida é a tarefa do homem neste mundo,

E assim como os anos passam, assim como os tempos até o mais alto avançam,
Assim como a mudança existe, assim
No passar dos anos se alcança a permanência;
A perfeição se logra nesta vida
Acomodando-se a ela a nobre ambição dos homens.

Hölderlin


O CAVALEIRO POBRE

Aleksandr Pushkin (1799-1837)


Era um pobre cavaleiro
silencioso, simples,
de rosto severo e pálido,
de alma ousada e franca.
Teve uma visão,
uma visão maravilhosa
que gravou em seu coração
uma impressão profunda.
Desde então lhe ardia o coração;
afastava seus olhos das mulheres,
e até ao túmulo
não voltou a falar com nenhuma.
Pôs um rosário no pescoço,
como uma insígnia,
e jamais levantou ante nada
a viseira de seu capacete de aço.
Cheio de um puro amor,
fiel a sua doce visão, escreveu com seu sangue
A.M.D. sobre seu escudo.
e nos desertos da Palestina,
mesmo que entre as rochas
os paladinos corriam ao combate
invocando o nome de sua dama,
ele gritava com exaltação feroz:
Lumen coeli, santa Rosa!
e como o raio, seu ímpeto
fulminava aos muçulmanos.
De regresso a seu castelo longínquo,
viveu severamente como um recluso,
sempre silencioso, sempre triste,
morrendo por fim demente.

AMIZADE



Quando conhece-se os homens por seu valor interno

Podem com alegria chamar-se amigos,
Pois a vida é algo já tão sabido para eles
Que só no Espírito mais alta encontrá-la podem.
O Espírito nobre não é à amizade alheio,
os homens gostam das harmonias
E à confiança se sentem inclinados, vivendo para conhecer.
Também à Humanidade isto lhe fora outorgado. 


(Hölderlin)


LA PRIMAVERA

De distantes alturas descende o novo dia,
Desperta de entre as sombras a manhã,
À humanidade sorri, enfeitada e alegre,
De gozo está a humanidade suavemente penetrada.
Nova vida deseja ao porvir abrir-se,
Com flores, sinal de alegres dias,
Cobrir parece a terra e o grande vale,
levando a Primavera todo signo doloroso.

Holderlin

Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, 
Muda-se o ser, muda-se a confiança: 
Todo o mundo é composto de mudança, 
Tomando sempre novas qualidades. 

Continuamente vemos novidades, 
Diferentes em tudo da esperança: 
Do mal ficam as mágoas na lembrança, 
E do bem (se algum houve) as saudades. 

O tempo cobre o chão de verde manto, 
Que já coberto foi de neve fria, 
E em mim converte em choro o doce canto. 

E afora este mudar-se cada dia, 
Outra mudança faz de mor espanto, 
Que não se muda já como soía. 



Luís Vaz de Camões,


Não Digas Nada!


Não digas nada! 
Nem mesmo a verdade 
Há tanta suavidade em nada se dizer 
E tudo se entender — 
Tudo metade De sentir e de ver... 
Não digas nada Deixa esquecer 
Talvez que amanhã

Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz
Não digas nada.

Fernando Pessoa


Remédio para o Pessimismo

Queixas-te porque não encontras nada a teu gosto?
São então sempre os teus velhos caprichos
Ouço-te praguejar, gritar e escarrar...
Estou esgotado, o meu coração despedaça-se.
Ouve, meu caro, decide-te livremente.
A engolir um sapinho bem gordinho,
De uma só vez e sem olhar.

É remédio soberano para a dispepsia. 



Friedrich Nietzsche


Sabedoria do Mundo

Não fiques em terreno plano. Não subas muito alto. O mais belo olhar sobre o mundo Está a meia encosta. 
Friedrich Nietzsche


No Coração, Talvez

No coração, talvez, ou diga antes: 
Uma ferida rasgada de navalha, 
Por onde vai a vida, tão mal gasta. 
Na total consciência nos retalha. 
O desejar, o querer, o não bastar, 
Enganada procura da razão 
Que o acaso de sermos justifique, 
Eis o que dói, talvez no coração. 


José Saramago







Não me Peçam Razões...

Não me peçam razões, que não as tenho, 

Ou darei quantas queiram: bem sabemos 

Que razões são palavras, todas nascem 

Da mansa hipocrisia que aprendemos. 



Não me peçam razões por que se entenda 

A força de maré que me enche o peito, 

Este estar mal no mundo e nesta lei: 
Não fiz a lei e o mundo não aceito. 

Não me peçam razões, ou que as desculpe, 
Deste modo de amar e destruir: 
Quando a noite é de mais é que amanhece 
A cor de primavera que há-de vir. 

José Saramago

Saudades

Saudades! Sim.. talvez.. e por que não?... 
Se o sonho foi tão alto e forte 
Que pensara vê-lo até à morte 
Deslumbrar-me de luz o coração! 

Esquecer! Para quê?... Ah, como é vão! 
Que tudo isso, Amor, nos não importe. 
Se ele deixou beleza que conforte 
Deve-nos ser sagrado como o pão. 

Quantas vezes, Amor, já te esqueci, 
Para mais doidamente me lembrar 
Mais decididamente me lembrar de ti! 

E quem dera que fosse sempre assim: 
Quanto menos quisesse recordar 
Mais saudade andasse presa a mim! 

Florbela Espanca



O guardador de rebanhos


Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),

É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz

E corre um silêncio pela erva fora.

Fernando Pessoa

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