Por Guilherme Henrique de Paula Cardim, doutorando pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP
Na visão clássica da geopolítica brasileira, fortemente baseada nas teses de Halford Mackinder a respeito do Poder Terrestre e desenvolvida a partir das obras do general Mário Travassos, tem-se a Bolívia como a centralidade da América do Sul, sendo ela o coração continental, onde se cruzam quatro “influências” condicionadas pelo relevo e pela hidrografia, sendo elas: amazônica, platina, atlântica e pacífica.
Com base nessas “influências”, uma série de geopolitólogos realizaram projetos de regionalização da América do Sul, estando entre as mais influentes a proposta de Golbery do Couto e Silva, que classificou quase toda porção norte do continente como Área Amazônica.
Entretanto, a classificação dos países fixados às margens do Mar do Caribe não deveria acompanhar exatamente essa perspectiva, pois estariam eles submetidos mais à “influência” atlântica do que à amazônica. Com base nos escritos de Alfred Mahan e na sua tese sobre o Poder Marítimo, a geopolítica estadunidense compreendeu que deveria ser concebida uma espécie de “Mare Nostrum” em torno do Mar das Antilhas, tal como era o Mar Mediterrâneo para o Império Romano. Assim, o Caribe se tornaria uma região de alta presença norte-americana, tendo a função estratégica de proteção para essa potência.
Diante do fato de que há poucos assentamentos antrópicos na porção amazônica da Colômbia e da Venezuela, seria muito difícil sustentar que nessas nações há prevalência da “influência” amazônica. A grande maioria da população de ambos os países se fixa no litoral e na bacia de rios que correm para o Mar das Antilhas, tais como o rio Magdalena e o rio Orinoco. Quando há alguma ocupação territorial para além dos Andes e do litoral caribenho, normalmente, sedimentam-se cidades e fazendas em zonas, onde a vegetação presente são as savanas. Desse modo, restam poucas ocupações humanas inseridas nas florestas equatoriais, especialmente na bacia do rio Amazonas.
Desse modo, a densa ocupação costeira e de rios que seguem para o norte possibilita a formação de redes de comunicação, cultura e comércio com as nações residentes no Mar do Caribe em detrimento das relações com os demais países sul-americanos. Veja-se, por exemplo, que a Colômbia praticamente não possui estradas pavimentadas e ferrovias na sua porção amazônica e na selva venezuelana também não há estradas de ferro, baseando a infraestrutura de transportes terrestres basicamente conexão viária asfaltada com o Brasil. Entre a Venezuela e a Guiana não há rodovias e estradas de ferro, de modo que os dois países caribenhos acabam por ter ligação com o resto da América do Sul por uma rede de estradas de rodagem entre a Colômbia e o Equador.
Em contrapartida, a presença econômica e militar dos Estados Unidos no Caribe sul-americano é intensa. Essa questão já era apontada pelo próprio Travassos em sua “magnum opus”, Projeção Continental do Brasil, por meio da qual observava o avanço norte-americano para o sul a partir do Mar das Antilhas. Essa perspectiva do clássico geopolitólogo é significativa ainda nos dias hodiernos, pois os Estados Unidos são de longe o maior parceiro comercial da Colômbia, responsável por mais de 25% da pauta de exportação e importação desse país, conforme dados apresentados pelo sítio eletrônico TradingEconomics. Há também que se ressaltar que em 2012 entrou em vigor o Acordo Bilateral de Livre-Comércio entre as duas nações, o que permitiu manter o sucesso da atuação estadunidense no que se concerne ao comércio exterior colombiano.
A presença militar já se demonstra pelo acordo entre os Estados Unidos e a Colômbia de 2009 e, antes dele, pelo Plan Colômbia. Sob fundamentos de que enfrentariam o narcotráfico, ambos os acordos foram formas para intensificar a influência bélica norte-americana na América do Sul. Não se pode deixar de lado ainda as instalações militares do Panamá, desativadas apenas em 2000, bem como os agrupamentos aeronáuticos estadunidenses fixados nos aeroportos internacionais de Hato e Reina Beatrix, respectivamente em Curaçao e Aruba, ambas ilhas holandesas que distam pouquíssimas milhas da América do Sul. Cabe ainda mencionar, as ameaças sofridas pela Venezuela a partir dos Estados Unidos, o qual utiliza estrategicamente as localidades em que possuem contingentes militares para persuadir a nação caribenha.
Nesse sentido, a geopolítica tradicional, excessivamente marcada pelo pensamento de Mackinder, moderadamente ignorou importantes visões relacionadas ao Poder Marítimo, de maneira que seria preciso realizar uma regionalização na qual se observasse a “influência” atlântica sobre a face norte da América do Sul é superior à amazônica.
Dessa forma, a geopolítica brasileira conseguiria compreender melhor as peculiaridades que há nessa importante porção do continente que, porém, possuí poucos vínculos com o restante. A partir disso, seria possível traçar uma projeção continental do Brasil mais efetiva, tomando estratégias mais firmes de integração da América do Sul.



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