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domingo, 5 de abril de 2026

Brasil constrói escudo energético com biocombustíveis e tecnologia e ganha posição singular na transição energética

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil


Décadas de inovação tecnológica combinadas à força do agronegócio brasileiro transformaram o país em um caso singular no cenário global da energia. Apoiado na produção de biocombustíveis e na capacidade interna de refino de petróleo, o Brasil conseguiu criar um “escudo” parcial contra choques internacionais nos preços dos combustíveis fósseis, ampliando sua segurança energética em um momento de crescente instabilidade global.


Enquanto consumidores de diversos países enfrentaram aumentos expressivos nos preços da energia, a gasolina no Brasil registrou alta moderada de apenas 5,5% em março, reflexo de um sistema energético diversificado que reduz a dependência externa.


Origem na crise do petróleo


As bases desse modelo remontam a 1975, quando o governo brasileiro lançou o Programa Nacional do Álcool (Proálcool), em resposta à crise mundial do petróleo. O que começou como uma política de substituição de importações evoluiu, ao longo de cinco décadas, para uma estratégia estrutural de segurança energética.


O investimento inicial na produção de etanol a partir da cana-de-açúcar consolidou uma cadeia produtiva robusta, que ganhou novo impulso na última década com a expansão do etanol de milho, resultado de avanços tecnológicos e novos investimentos no setor agroindustrial.


Hoje, a tecnologia flex fuel tornou-se um dos principais diferenciais do mercado brasileiro. A possibilidade de o consumidor escolher entre gasolina e etanol conforme a variação de preços cria um mecanismo automático de equilíbrio do mercado interno.


“O Brasil tem uma oferta bastante elástica de etanol, que reduz a dependência de importações e ajuda a estabilizar o mercado interno”, afirmou à agência Lusa o presidente da InterB Consultoria de Negócios, Claudio Frischtak. Segundo ele, essa flexibilidade coloca o país em vantagem em relação a economias emergentes como Índia e Indonésia, mais dependentes de combustíveis fósseis.


Combustível do Futuro amplia mistura renovável


O avanço mais recente dessa estratégia veio com a aprovação da lei do Combustível do Futuro, sancionada em 2024, que estabelece a ampliação gradual da participação de biocombustíveis na matriz energética.


Em 2025, a mistura obrigatória de etanol na gasolina passou de 27% para 30%, enquanto o biodiesel no diesel aumentou de 14% para 15%. O vice-presidente Geraldo Alckmin, responsável pela articulação da política industrial e energética, destacou recentemente que o Brasil é atualmente o único país do mundo com esse nível de mistura de etanol aliado a uma ampla frota flex.


Biodiesel reduz vulnerabilidade externa


Apesar dos avanços, o país ainda importa entre 25% e 30% do diesel consumido, o que mantém certa exposição às oscilações internacionais.


Segundo Donizete Tokarski, diretor da União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio), a capacidade produtiva nacional — próxima de 16 bilhões de litros anuais — permite ampliar a mistura obrigatória e reduzir a dependência externa.


“Temos capacidade instalada suficiente para avançar na mistura e reduzir a vulnerabilidade externa”, afirmou. Em cenários de volatilidade internacional, o biodiesel pode inclusive tornar-se mais competitivo que o diesel fóssil, contribuindo para maior estabilidade de preços.


Durante a COP30 realizada no Brasil, o setor de biocombustíveis assumiu o compromisso de quadruplicar a produção de combustíveis sustentáveis até 2035, em acordo firmado com associações industriais e fabricantes de veículos.


Desafios tecnológicos e regulatórios


Ao contrário do etanol, cuja adaptação automotiva já está consolidada, o aumento da mistura de biodiesel enfrenta desafios técnicos maiores. Motores a diesel, amplamente utilizados no transporte de cargas, exigem testes rigorosos para evitar danos mecânicos.


Por esse motivo, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) adota postura cautelosa quanto à ampliação das misturas, exigindo validações técnicas detalhadas.


Frischtak defende o fortalecimento institucional da agência reguladora para acelerar os testes e permitir que o país aproveite o atual contexto internacional como oportunidade estratégica para ampliar sua segurança energética.


Proteção parcial diante de crises globais


Mesmo com os avanços, especialistas alertam que o Brasil não está totalmente imune às turbulências externas. O país ainda depende da importação de diesel e fertilizantes, cujos preços são diretamente impactados por crises geopolíticas.


“O Brasil consegue amortecer os impactos, mas não eliminá-los completamente”, afirmou o economista.


Ainda assim, a combinação entre produção nacional de petróleo — liderada pela Petrobras —, forte indústria de biocombustíveis e base tecnológica consolidada coloca o país em posição privilegiada. Em um mundo marcado por tensões energéticas e pela transição para fontes mais limpas, o Brasil surge como uma das poucas economias capazes de equilibrar segurança energética, competitividade econômica e descarbonização.


Com ferramentas que poucos países possuem simultaneamente, o país transforma sua vocação agrícola e sua trajetória tecnológica em vantagem estratégica diante das incertezas do cenário internacional.


Informações da Agência Lusa

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