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quarta-feira, 10 de junho de 2026

O Pasquim São Paulo, finalmente digitalizado

Semanário que circulou entre julho de 1986 e agosto de 1987 pode agora ser acessado na íntegra; foi um ano em que o Brasil redemocratizava, debatia e ainda ia às bancas comprar jornal 

Crédito: Alice Markun


*Paulo Markun 


Em meados de 1986, o cartunista Jaguar me fez uma proposta que parecia impossível recusar: comandar uma franquia paulista de O Pasquim. A sugestão vinha de Fernando Gasparian, meu ex-chefe no Opinião. Para quem crescera lendo o histórico tabloide carioca, dizer não estava fora de cogitação.


Assim nasceu o Pasquim São Paulo, tendo Dante Mattiussi, então chefe na TV Record e meu sócio numa produtora a bordo também. Na prática, quem tocou o jornal no dia a dia foi o jornalista gaúcho Manoel Canabarro, meu cunhado, porque Dante e eu seguimos em nossos empregos. O semanário circulou por 56 semanas, entre 3 de julho de 1986 e 6 de agosto de 1987.


O jornal nasceu num instante raro. O governo Sarney vivia o auge do Plano Cruzado, o Brasil se preparava para eleger a Assembleia Nacional Constituinte e respirava os primeiros ares da redemocratização após 21 anos de ditadura. Não criamos uma "patota" coesa como a do original carioca, mas garimpamos elenco de respeito: Alberto Dines, Augusto Nunes, Fernando Morais, Mino Carta, Audálio Dantas, os cartunistas Angeli, Laerte e Jaguar, o compositor Aldir Blanc, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo e o músico Roger do Ultraje a Rigor, entre muitos outros.


A capa premonitória 


A edição número 4, de 24 a 31 de julho de 1986, foi das mais marcantes. A capa era de Laerte — que à época ainda não havia iniciado sua transição de gênero. O cartum mostrava um galo de calça comprida segurando um pintinho na palma da mão: "Meu pinto, meu tesouro." A manchete anunciava "Omem sem H", e a dupla central trazia o Manifesto Masculinista, apresentado como obra da fictícia "Movimentação Masculinista Nordestina", mas criação da própria Laerte. O texto propunha o "Masculinismo" como crítica aos modelos rígidos de masculinidade, com reivindicações avançadas para 1986: licença-paternidade, "liberação da lágrima masculina", igualdade nas tarefas domésticas. Releio aquele texto hoje e não consigo deixar de vê-lo como duplamente premonitório — pela pauta que antecipava e pela trajetória de quem o escreveu.



A guerra e o fim 


O incidente mais ruidoso foi a briga entre Alberto Dines e Fernando Morais em torno das eleições para governador. Dines apoiava Ermírio de Moraes; Morais, Quércia. A troca de farpas escalou até o ponto em que decidimos não publicar nova réplica — e registramos no editorial, sem ironia: "Censura no Pasquim". Dines nos processou. Ganhamos.


Comercialmente, o balanço foi agridoce. A Dinap chegou a nos informar que superávamos a Veja nas bancas em certas semanas. Mesmo assim, não alcançamos o ponto de equilíbrio. Uma festa de aniversário na danceteria da moda Avenida Club e a venda de uma edição encadernada com os exemplares de 1986 permitiram encerrar as contas sem grande estrago.


A última edição trazia uma única palavra na capa, em letras garrafais vermelhas: "ADEUS!". No balão do mascote Sig: "O Pasquim São Paulo para por aqui. No Pasquim não tem acordo com o FMI." 


Quase quatro décadas depois, o acervo digitalizado devolve à memória um Brasil que redemocratizava, elegia sua Constituinte, enfrentava a inflação — e ainda ia às bancas comprar jornal de humor e opinião.


 


* Paulo Markun é jornalista, escritor e documentarista, tendo atuado nos principais veículos e entidades da imprensa nacional. Entre 1986 e 87, foi diretor da franquia paulista d’O Pasquim 

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