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| Andre Borges/Agência Brasília |
Reli, depois de dez anos, O Tempo e Eu, esse curioso espelho em que Luís da Câmara Cascudo se observa pelos outros — como se a própria vida só pudesse ser contada pelas sombras que deixou nos caminhos alheios.
Numa dessas passagens, o velho mestre evoca um arborista — desses homens silenciosos que conversam com o tempo através das folhas — responsável por semear sombras em Natal. Árvores que não eram apenas árvores, mas promessas: de frescor, de repouso, de infância futura. Plantar uma árvore é sempre um ato de fé naquilo que não veremos inteiro.
Mas o destino das árvores, no Brasil, parece seguir o mesmo calendário das promessas eleitorais: brotam na esperança, tombam na gestão. Vieram outros prefeitos, outras urgências, outros projetos — e as árvores foram suprimidas, palavra asséptica para um gesto brutal. Não se corta mais: suprime-se. Como se a linguagem pudesse absolver o machado.
Cascudo, com sua erudição brincalhona, nomeia o mal: “dendrofobia” prefeitural. O termo tem gosto de diagnóstico antigo, desses que misturam ciência e ironia. Dendrofobia: medo de árvores. E que medo curioso é esse, que leva administradores de cidades tropicais — onde o sol é quase uma entidade política — a declarar guerra à sombra?
Talvez seja uma doença de gabinete. A árvore não cabe no papel milimetrado do planejamento urbano. Suas raízes desobedecem à geometria, levantam calçadas, insinuam vida onde se queria apenas concreto. A árvore é, no fundo, um gesto de desordem. E todo poder teme o que não controla.
Há também um ressentimento silencioso. A árvore cresce sem licitação, não inaugura com placa, não rende fotografia de campanha. Trabalha em silêncio, distribuindo benefícios que não podem ser capitalizados em quatro anos. A política, que vive de prazos curtos, desconfia do que exige décadas.
E assim seguimos, país que se chama Brasil — brasa —, insistindo em apagar as poucas sombras que ainda nos restam. Nas cidades, o calor sobe do chão como uma lembrança incômoda de nossas escolhas. E o cidadão, esse ser adaptável, aprende a caminhar rápido, a evitar o meio-dia, a procurar abrigo onde já houve árvores.
A dendrofobia prefeitural não é apenas um medo de árvores; é, talvez, um medo do tempo longo, daquilo que escapa ao mandato, daquilo que não pode ser inaugurado com fita e discurso. É o medo de tudo que cresce sem pedir licença.
E, no entanto, basta uma árvore para desmentir uma cidade inteira. Basta uma sombra para ensinar paciência. Talvez por isso a cortem. Talvez por isso a temam.



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