"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 22 de março de 2014

O Seridó e as cercas: de pedra e de arame

O  Seridó é uma região do Rio Grande do Norte e da Paraíba, de clima semiárido e predominância da caatinga como vegetação, sua colonização efetiva é muito recente datando do século XVIII principalmente em virtude da criação de gado adentrando para o interior em virtude de proibição de criação do gado no litoral: “Há divergências quanto à origem do topônimo Seridó, segundo o folclorista e historiador Luís da Câmara Cascudo, vem do linguajar dos tapuias transcrito como "ceri-toh" e que quer dizer "pouca folhagem e pouca sombra", em referência as características da região. No entanto, existe o fato de que os colonizadores eram cristãos-novos, descendentes de judeus, os termos "sarid" e "serid", seriam oriundos do hebraico, que significaria "sobrevivente" ou "o que escapou". Ou ainda "she'erit" no sentido de "refúgio Dele" ou "refúgio de Deus".” (Wikipédia)

Já tinha visto assim? Caatinga verde no período de Chuvas. Zona Rural de Caicó-RN

No Seridó há a divisão da propriedade feita de uma maneira tão extremada, é esta uma pergunta que virá à cabeça de um observador atento que vir nesta Região. Existem cercas de pedras datadas do início da colonização e que se constituem em verdadeiras miniaturas da muralha da China, estão por toda parte, com altura de pouco mais de 1 metro, para gado bovino, e feitas com as pedras calcárias comuns na região.

Cerca de Pedra em Caicó

Hoje predominam as cercas de arame, evidente, em virtude da facilidade de fabricação, também em virtude da introdução de ovinos e caprinos, animais que transpassam facilmente as cercas de pedra. Como a propriedade é em sua maioria minifundiária, as cercas cortam toda a região.

A economia rural da região desde o início, portanto, se baseia na pecuária e na agricultura, as condições de distribuição e da prática econômica fomentaram uma divisão de propriedade, quando o colonizador chegava neste território ocupado por indígenas simplesmente demarcava sua posse. As cercas mostram, apesar da intensa solidariedade do povo da região, um instinto de privatizar áreas.

Andando por algumas propriedades no município de Caicó chega-se a ter que ultrapassar diversas cercas em áreas reduzidas, até dentro de propriedade de mesmo dono. Na região houve uma “reforma agrária natural”, a partir da década de 1960 agricultores se tornam proprietários e com a divisão entre famílias numerosas reduzira-se ainda mais o tamanho das terras.

Existem conflitos em decorrência da intrusão de animais em terra alheia, o homem a partir das relações econômicas idealiza a divisão da terra como algo absoluto. Interessante, que o soridoense é um povo altamente solidário, mas se alguém adentra propriedade alheia para colher frutas será considerado infame.

Hoje a região mantém a maior parcela de sua população vivendo em áreas urbanas de suas cidades e passou a enfrentar no início deste século problemas graves de criminalidade urbana, a migração do campo foi intensa, mesmo assim a região é uma das mais prósperas e alegres do Nordeste.

Tariq Ali: "Com a separação da Escócia, o Estado britânico desmantela-se"

Tariq Ali fala sobre a independência da Escócia e a ascensão da direita anti-imigração em Inglaterra. A entrevista de James Foley para a revista digital Bella Caledonia.
Foto Octavio Nava/Secretaria Cultura Cidade do México
Os políticos trabalhistas escoceses alegam falar em prol do internacionalismo, e com frequência acusam os partidários da independência de provincianismo e nacionalismo mesquinho. Como um internacionalista que vive em Londres, por que apoia a independência?
Porque não aceito quando os New Labour ou suas coligações semelhantes proclamam que eles são os internacionalistas. O seu internacionalismo, no essencial, significa subordinar por completo o Estado britânico aos interesses dos Estados Unidos. Eles fizeram da Inglaterra um Estado vassalo: no Iraque, no Afeganistão, em muitas outras coisas. Isso tampouco é um grande segredo.
Dessa forma, desafiaria sem questionar qualquer ideia que diga que os governos do Estado britânico foram internacionalistas. Eles não foram, e já estão assim há muito tempo. Isso é algo que precisa ser tirado da cabeça.
Em segundo lugar: uma Escócia independente, um Estado pequeno, abriga muito mais possibilidades de um internacionalismo real e genuíno. Isso significa estabelecer vínculos diretos com muitos países e pessoas no mundo. Os noruegueses, por exemplo, tanto nos seus meios de comunicação como na sua cultura, estão compenetrados com países de todo mundo. Na semana passada, estava na Noruega numa convenção sobre o Médio Oriente, presidida por uma diplomata norueguesa. Ela disse que acabara de voltar após passar dois anos na cidade palestina de Ramallah, e sabia tudo sobre o assunto. Por isso, o fato de ser pequeno não significa que será provinciano. Pelo contrário, pode-se supor inclusive exatamente o contrário.
Muitos políticos trabalhistas também acusarão o Partido Nacionalista Escocês como populista e neoliberal, contrário à classe trabalhadora, e tudo o mais. Como vê o nacionalismo escocês?
O Partido Nacionalista Escocês transformou-se. Quando foi criado, era um partido conservador com “c” maiúsculo, e um pouco arcaico. Mas isso mudou com o grupo de 79. Embora muitos dos seus membros tenham sido a princípio expulsos, incluindo Alex Salmond, agora eles estão no governo. Além disso, o Partido Nacionalista Escocês recrutou muita gente, incluindo partidos trabalhistas e os primeiros membros de grupos de extrema esquerda. Pessoalmente, não estou de acordo com seu programa social e económico, que creio ser muito fraco. Noutros aspetos, também tenho alguns receios.
No entanto, acredito que definitivamente apoiaria o voto ao “sim” simplesmente pelo facto de que as pessoas da Escócia têm o direito democrático à autodeterminação do seu próprio futuro. Esta é a primeira vez em que lhes é pedido de facto para votar sobre essa questão. A União que se desenvolveu através do oportunismo, da corrupção e do suborno em 1707 não foi o resultado de um voto democrático, como todos sabemos. Essa é a razão pela qual tiveram que lutar na batalha de Culloden. Esse foi um episódio decisivo da história escocesa, porque essa derrota em Culloden impôs a União tal como a conhecemos, algo totalmente controlado pela Inglaterra.
O Partido Nacionalista Escocês agora tenta romper com essa tradição assim, de maneira efetiva, e pede às pessoas da Escócia que declarem a independência que uma vez tiveram. E creio que seria muito melhor para a Escócia, bem como o seria para a Inglaterra. Sob meu ponto de vista, o New Labour está totalmente corrupto em todas as suas frentes – social, política e económica. O New Labour é o novo Tartan Tories*.
Isso não significa que não se deva discutir com o Partido Nacionalista Escocês, que não se deva debater, e estou convencido de que as pessoas o farão. E a aliança pela Independência Radical desempenha um papel principal nisso tudo. Fui convidado para participar de um encontro a favor do “Sim” organizado pelo Partido Nacionalista Escocês em Kirkcaldy em junho – e estarei lá.
Sou totalmente a favor da independência da Escócia, e sempre fui, apesar dos desencontros com o Partido Nacionalista Escocês. A ideia de que alguém não pode estar em desacordo com o Partido Nacionalista Escocês e apoiar a independência é absurda.
Quais as potenciais implicações globais de uma ruptura com a Inglaterra?
Acredito que, concretamente, seria muito positivo para a Inglaterra, que sempre foi o fator dominante da União. Abriria um novo espaço político. Pode ser que, no começo, não beneficie os progressistas, mas ao menos permitirá discutir sobre política sem os pesos do passado. Isto vem primeiro: será bom para a democracia inglesa, que se encontra num estado bastante triste.
O segundo é que, inclusive, ajudará os unionistas mais fanáticos de Inglaterra a compreender que o jogo acabou, e que precisam, de alguma forma, abandonar as pretensões imperialistas. Essas pretensões persistem, apesar de serem uma grande bobagem no sistema, e só lideram por cortesia dos EUA. E quem sabe? Talvez abrirá um espaço para a independência britânica outra vez. Quero dizer uma independência britânica real, algo que não ocorre desde 1956.
Veremos o que ocorrerá, mas duvido muito de que os efeitos sejam negativos. Também acredito que uma Escócia independente, que desempenhe um papel independente na política mundial e na Europa, terá seu impacto na Inglaterra.
Outra coisa que vale a pena dizer é que isso só pode ser feito com o consentimento dos escoceses. Ninguém pode forçá-los. Desse modo, não pode haver nenhuma discussão sobre coações. Se houver, que seja apenas a campanha do medo e da intimidação que Londres está brandindo e que é absolutamente patética – e espero que os escoceses lutem contra isso.
Eu me lembro de quando Tony Blair veio para sua última tournée na Escócia, e disse: “se vocês votarem pela independência, todas as famílias perderão 5 mil libras por ano”. Quem inventou esse número? Algum burocrata em Whitehall que queria alguma coisa para assustar os escoceses. Eu li há poucos dias que Danny Alexander [liberal escocês e atual secretário do Tesouro do governo Cameron] está a repetir essas mesmas cifras absurdas. Fazem isso porque querem assustar as pessoas, dizendo que os seus padrões de vida cairão. Mas não há motivo para que caiam se a economia for conduzida de forma adequada.
Acredita que as elites britânicas estão preocupadas com a perspectiva da independência?
Algumas áreas talvez não estejam, pois veem-na como uma bofetada nas pretensões britânicas. Mas acredito que possa bem existir uma parte da elite que diga: “bem, poupar-nos-ão dinheiro, pararão os subsídios etc.” e a Escócia não produz muita riqueza de todas as formas. Essa é a parte da elite que acredita que a única maneira de sair à frente é efetivamente vender a economia britânica e as cidades do sul aos ricos, a oligarcas de várias nacionalidades: Ucrânia, Rússia, Arábia etc., que dominam extensas partes dos mercados financeiros de Londres hoje em dia. Essa parte da elite, que considera que esse é o futuro, não se importará com nada, apesar do que as pessoas lhes disserem.
E acha que os unionistas estão a fazer bluff sobre a questão da união da moeda?
Creio que estão dando um grande bluff. No entanto, acredito que Alex Salmond mostrará suas cartas: “Se vai se comportar de uma maneira tão mesquinha e ruim, então, a Escócia não terá outra opção senão criar a sua própria moeda. De facto, a moeda escocesa já é diferente da inglesa. A Escócia imprime essa moeda. E imprimiremos a nossa própria moeda, e se vocês nos tirarem a influência, buscaremos outros caminhos”. Acredito que Salmond deva atuar com muita cautela nesse assunto, e mostrar suas cartas. Não deveria ter medo.
Posso lhe perguntar sobre o elemento histórico em tudo isso? Por que acredita que a contrarrevolução neoliberal teve tanto êxito na Inglaterra?
Bem, não chegaria a dizer que foi um êxito. Ou, se foi um êxito, é em grande parte graças ao facto de que os sindicatos e o partido trabalhista não assumiram nenhuma luta ou enfrentamento contra isso. Se você olhar para a América do Sul, inclusive os pequenos países desse continente que enfrentaram o neoliberalismo e que se separaram dele em vários níveis, eles fizeram-no graças a enormes movimentos sociais. Desgraçadamente, o movimento sindical britânico viu-se tão derrotado após a greve mineira, que simplesmente abandonaram. Não enfrentaram, não lutaram, e depois o partido trabalhista efetivamente assassinou-se a si mesmo ao converter-se em New Labour. Então, Tony Blair converteu-se no núcleo duro da liderança Thatcherista. E continuou na mesma e velha direção Thatcherista.
Dessa forma, em termos de oferecer alguma alternativa a essas pessoas, o New Labour e os conservadores colaboraram ao dizer que não havia alternativa alguma. E não é que as pessoas os apoiem, especialmente após a quebra de Wall Street em 2008. O que ocorre, de facto, é que eles não apresentaram alternativas.
Se a Escócia conseguir a independência, e os seus líderes tiverem coragem, seria possível romper com o neoliberalismo. Na Inglaterra, não havia nenhuma força desde baixo para enfrentá-lo. As pessoas sentiram-se derrotadas, desmoralizadas, e sentiram que aqueles em que haviam confiado durante muito tempo os haviam traído. Dessa forma, a maneira como as pessoas enfrentaram é pela direita. Concretamente, o apoio ao Partido pela Independência do Reino Unido (UKIP) é uma forma de se opor aos jogos levados a cabo pela elite. É uma asneira, pois Farage e companhia não estão a oferecer nada, mas essa é a escala do desespero. E não existe nada na esquerda para enfrentar isso. Noutras partes da Europa, existem enfrentamentos por parte da esquerda. Mas não na Inglaterra. Não diria que as pessoas os estejam aceitando. Diria que não lhes fora mostrada qualquer alternativa por parte de nenhum grupo ou pessoas.
Nesta semana irá falar sobre “desmantelar” o Estado britânico. Algumas pessoas perguntam o que quer dizer com isso.
Quero dizer que o Estado britânico, criado pela União no século XVIII, nunca foi efetivamente posto na encruzilhada. O único escrito da constituição britânica é o Tratado da União de 1707. Agora, aquilo pelo qual os escoceses vão votar – se, como eu espero, disserem “sim” – pressuporá desmantelar o Estado britânico tal como é agora, e ponto. Como vai continuar depois é algo que teremos que ver. Mas, certamente, com a separação da Escócia, o Estado britânico desmantela-se.
Muitos socialistas negariam que existe algo especialmente tóxico sobre o Estado britânico, e diriam que todos os estados capitalistas são maus. É claro que sabemos que rivais como França, Alemanha e Itália também têm os seus problemas. Acredita que o Estado britânico tem alguma característica distinta? Isso significa que temos que enfrentá-lo de uma maneira diferente?
Por um lado, pode-se dizer que a economia capitalista desses Estados é mais ou menos a mesma. Mas esses Estados têm suas peculiaridades. No caso da Inglaterra, como observou meu velho amigo Tom Nairn, essas peculiaridades vivem no âmbito da sátira. A preservação de uma coroa, mantida por meio do internacionalismo monárquico da Casa de Hannover, que encontrou dirigentes para a Inglaterra quando acabaram os naturais. Criar e manter essa monarquia é uma farsa. A Câmara dos Lordes é também absolutamente antidemocrática. Tudo isso confere ao Estado britânico um caráter arcaico. O facto de a absurda novela de Downtown Abbey ser incrivelmente popular é um sinal do que isso significa. Tudo isso criou na Inglaterra uma deferência ao governante, uma tirada de chapéu e tudo o mais, o que se transfere à Escócia da mesma forma, no sentido de que a mesma família Real tem uma casa em Balmoral quando se fala da Escócia e demais.
Isso tornou-se um obstáculo à modernização da Inglaterra. O Estado britânico tem as suas características. E acredito que é algo que precisa acabar. Mas tem sido impossível acabar de outra maneira, de modo que a independência escocesa seria um bom começo. Por certo, quando os noruegueses decidiram separar-se da Suécia em 1905, fizeram-no por razões muito semelhantes: queriam o seu próprio país e estavam fartos de serem dominados por Estocolmo. E ocorreu de forma relativamente amistosa. Assim, essas coisas podem acontecer.
Certamente se poderia argumentar que, uma vez que o capitalismo domina em todos os lugares, então não se deveria fazer nada. Mas isso representaria uma marcha para trás em direção à passividade total e ao fatalismo.
A Grã-Bretanha perdeu o seu império há gerações, mas a Inglaterra ainda é imperialista?
Bem, trata-se de um subimperialismo, combinado com o único império existente hoje, os Estados Unidos da América. No entanto, outros países ainda carregam pretensões imperialistas. Alguns tratam de reviver o seu passado, como o que Putin está fazendo na Ucrânia. Outros fingem, e de facto carregam mais do que podem, porque estão atados ao renome de um império inexistente. Se olharem para os impérios que um dia foram, os japoneses, alemães, franceses, britânicos... onde estão agora? Agora estão atados aos EUA. Não podem fazer absolutamente nada sem a permissão de Washington. Os EUA são, atualmente, o único império.
Mencionou o pobre Estado em que se encontra a democracia inglesa. É preocupante o auge das políticas populistas de direita na Inglaterra? A que se deve o seu êxito?
Bem, eles têm êxito porque não existe mais nada. Efetivamente, as duas questões sobre as quais versam as campanhas do UKIP são a União Europeia e a imigração. Elas estão vinculadas, pois a imigração que atacam, em grande medida, é a que provém da União Europeia. Infelizmente, estas são reivindicações populares em toda a Europa neste momento devido à crise económica.
Além disso, em minha opinião, a esquerda tem sido muito frágil ao não se adiantar com fortes críticas à União Europeia e à forma como está a operar, porque têm medo de serem considerados antieuropeus. Mas não é antieuropeu dizer que a União Europeia está totalmente corrupta, é burocrática, antidemocrática, dirigida pelas elites e que é, efetivamente, uma união de banqueiros. Isso é um facto. Mas a esquerda não está a fazer campanha diante de tudo isso – exceto na França, certamente.
Assim, tem-se uma situação na qual um partido emerge das entranhas do velho Tory Party e aparece com todas essas coisas; e os grupos fascistas que começam a se apresentar converteram-se numa força política cujo principal propósito é pressionar os Conservadores e separá-los da Europa. Por certo, tiveram êxito ao empurrar todos os partidos em Westminster à direita em matéria de imigração. Daí o facto de estarem no auge.
No entanto, acredito que haja um problema mais profundo, argumentado por Peter Mair, um bom politólogo, no seu livro póstumo, Ruling the Void. Ele argumenta – em minha opinião, corretamente – que o que temos agora no mundo capitalista avançado é uma situação na qual a classe política não representa as necessidades ou os pontos de vista da população. Isso leva a uma crescente alienação da política como tal. Como consequência, o déficit democrático na Inglaterra é muito forte. É enorme. E essa é também uma das razões pelas quais os escoceses deveriam agarrar essa oportunidade e fugir da prisão em que a Inglaterra se converteu, desenvolver as suas próprias políticas e discutir abertamente a maneira de seguir em frente. Não deveriam aspirar a uma versão menor do neoliberalismo inglês.
Muita gente está preocupada com as implicações, se a Escócia sair, em relação ao futuro dos governos da centro-esquerda trabalhista na Inglaterra restante. No contexto do UKIP, do crescente populismo, das revisões de Collins e demais, qual é o futuro da social-democracia na Inglaterra?
Eu expressei abertamente a minha opinião sobre esse ponto desde a aparição do New Labour. Aceita-se de forma generalizada que não existe nenhuma diferença fundamental entre a centro-esquerda e a centro-direita na política britânica; tampouco na francesa ou na alemã.
Efetivamente, o que temos é um extremo-centro. “Extremo” porque respalda guerras e ocupações. “Extremo” porque declara guerras contra sua própria gente, tenta culpar as vítimas pelos crimes cometidos pela elite. “Extremo” porque se prepara para desmantelar direitos democráticos fundamentais com a finalidade de prevenir dissenções nas discussões sobre o estado secreto.
Esse extremo-centro se aproxima tanto da centro-esquerda como da centro-direita. Fazem algum barulho quando estão na oposição, mas no longo prazo, quando estão no poder, fazem o mesmo. Até hoje, a primeira bancada do New Labour nem sequer foi capaz de dizer que se separarão das políticas fundamentais da coligação em matéria de economia. Não podem dizê-lo porque elas são as suas políticas. Não são diferentes.
Daí que toda essa conversa sobre a debilidade das forças de esquerda no que sobrará do Reino Unido é uma cortina de fumo. Uma cortina para quê? Para nada. Não tem qualquer relação com a realidade. Os sindicatos são frágeis, a última greve geral foi convocada em 1926, de modo que a noção de que alguém está, de alguma forma, traindo a unidade da classe trabalhadora escocesa e inglesa não tem sentido. Em qualquer caso, essa unidade pode ser exercida desde atrás, de fronteiras independentes. Os socialistas sempre costumaram defender a unidade de uma classe trabalhadora internacional, até que a primeira guerra mostrou a força do nacionalismo do tipo retrógrado, que também reuniu os trabalhadores.
Com isso, nenhuma dessas ideias são sérias, em minha opinião. O núcleo duro unionista tem um forte argumento ao dizer que Deus, a igreja e a monarquia são os fatores que reúnem a União, e que assim o é desde 1707, e que não deveríamos romper com eles, e que os escoceses que quiserem fazê-lo serão castigados. Isso é, pelo menos, uma perspectiva consistente, mas completamente anacrónica.
Algumas pessoas também argumentam que a Escócia e a Inglaterra se vão afogar após a independência. Também falam de impostos sobre empresas e outros. Acredita que as coisas realmente vão melhorar se a Escócia conseguir a independência?
Bem, acredito que se assentaram as bases para que as coisas melhorem. Se melhoram ou não, depende dos factos, se os líderes do Partido Nacionalista Escocês estão preparados para ir além em termos de criar uma social-democracia escocesa ou não. Espero, por Deus, que estejam. Em segundo lugar, e mais importante, depende se, numa Escócia independente, haverá o desejo das pessoas de participar de maneira mais ativa na política em todos os níveis. Não apenas através das instituições já existentes, mas também da criação de instituições que supervisionem e observem a nova democracia escocesa. Precisam participar disso, e falar alto e claro quando as coisas não estejam indo bem. Num país menor, é muito mais fácil fazê-lo. Acredito que, com certeza, esse será o efeito. A esquerda na Escócia deve desempenhar o seu papel.
Qual a sua opinião sobre o modelo nórdico e de outras variantes do capitalismo? A Escócia pode basear-se nessas ideias?
Bem, falamos sobre um período em que o sistema capitalista triunfou, e as ideias sobre o socialismo sofreram uma enorme derrota global. Vivemos hoje num estranho período de transição, que bem pode durar até o final do século. Não deveríamos excluir essa possibilidade. De modo que é preciso trabalhar com o que existe e ver como o capital nos seus piores aspectos pode se regular, como um Estado pode se regular de maneira que trabalhe em benefício dos trabalhadores... quero dizer, este era o propósito do Labour de 1945, e esse programa era bom, certamente. Realmente mudou as condições de vida das pessoas, e inclusive hoje. Eu não vivo na Escócia, mas as pessoas dizem-me que o sistema educacional na Escócia é melhor, sob esse ponto de vista, do que o sistema educacional inglês.
Aqui é onde uma Escócia independente poderia fazer a diferença. Se conduzir bem sua economia, seu petróleo, a lição que deve aprender é a norueguesa, que investiram a riqueza de seu petróleo de maneira muito sábia. Como resultado, goza de um estado de bem-estar social-democrático, que é o objetivo de praticamente todo o mundo. Quando estava lá, o meu amigo norueguês me disse: “Não vou te ver até outubro, porque estarei fora por seis meses”. E eu disse: “Seis meses! Por quê? O que aconteceu?”. Ele me respondeu: “Minha mulher terá um filho, e a lei norueguesa permite a ambos do casal uma ausência de seis meses”. Eu fiquei surpreso porque sabia que havia algo assim, mas não conhecia os detalhes.
Dessa forma, as pessoas sentem, de alguma maneira, que eles vivem melhor sob governos social-democratas, ou sob consenso que aceitam que certas reformas não têm preço.
E são os programas de privatização da elite britânica que derrubaram o país. Agora, vendem o serviço de saúde. O New Labour deveria lembrar-se. Houve um artigo do anterior secretário de saúde, Alan Milburn, no Financial Times da semana passada, em que discutiu sobre o caso da saúde privada, com a pretensão de que esta é uma maneira de salvaguardar a Segurança Social. Isso é o que gerou a raiva na Inglaterra e na Escócia. São os New Labour que fizeram isso. E alguém precisa decididamente romper com essas políticas e criar uma sociedade melhor.
Esta não será a sociedade socialista com a qual muitos socialistas sonharam. Mas abriria um espaço em que, ao menos, tais coisas pudessem ser debatidas, e as reformas podem ser implementadas de tal forma que melhorem as condições de vida na Escócia.
Não há absolutamente qualquer razão para que uma Escócia independente não possa se reindustrializar, e construir uma grande indústria de navios com a ajuda de países de fora da Europa, que estão preparados para ir. É bobagem pensar no o futuro da Escócia apenas em relação à Inglaterra, ou inclusive ao resto da Europa. Se você for criativo, pode ir muito mais longe.
A maior preocupação de muita gente é que a Escócia se verá cada vez mais isolada após a independência. Como poderia a Escócia prevenir isso e que tipo de alianças deveria construir?
Mas a Escócia não está isolada agora? Eu diria que a Escócia está isolada agora por ser uma parte da Inglaterra. A Inglaterra não está, mas a Escócia certamente sim. Então, essa ideia de que ficará sozinha após a independência está equivocada. O conjunto de alianças que deveria construir? Para começar, o objetivo deveria ser construir alianças com o bloco escandinavo, particularmente com Noruega e Suécia. Creio que seriam recebidos com os braços abertos, para fazer negócios financeiros, turismos, tratados políticos etc. O bloco escandinavo é uma possibilidade.
No seio da União Europeia, deveria lutar pelo direito de Estados menores se expressarem. A Escócia deveria construir vínculos com repúblicas menores no seio da União Europeia, ou inclusive nessas áreas do interior da UE que ainda não são independentes, como a Catalunha.
Isso para não mencionar o mundo como um todo. Por que a Escócia deveria ser dependente da Inglaterra para mediar suas relações com países da Ásia ou África? Então, acredito que os escoceses têm que olhar mais adiante. A principal instituição que deveria ser criada, entre as outras novas, seria um Ministério de Negócios Estrangeiros, um comércio ultramarino, isso é muito importante.

*Tartan Tories era o nome depreciativo com que os trabalhistas apelidavam os membros do Partido Nacionalista Escocês. 

Escritor e investigador paquistanês residente em Londres, Tariq Ali é membro do conselho editorial do site Sin Permiso e editor da publicação New Left Review. 

A farsa com Deus pela Família

A Marcha com Deus pela Família não tem nada nem de Deus e nem de Família, é na verdade uma tentativa de colocar como questões políticas temas culturais e assim blindá-los, tornando-os indissolúveis. A tragédia ocorreu há exatos 50 anos na cidade de São Paulo e serviu como motivação final para o Golpe Militar de 1964 e a Farsa ocorre na tarde deste sábado.

Depois das Jornadas de Junho de 2013 era até imaginável que essa farsa se pusesse em cena, tratando de apontar os bodes expiatórios de "comunistas" e generalizando, fazendo uma mistura de tudo. 

Desde que o pastor Marco Feliciano assumira a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados e que o pastar Malafaia realizou um ato em Brasília, claramente se percebeu que estava aí o interesse em politizar a questão cultural, fazendo do cristianismo uma ferramenta de politizar conservadoramente a população.

Vamos ver quais os resultados, o Brasil mudara muito nos costumes de lá para cá, a família hoje não é mais em regra pai, mãe e filhos, o divórcio foi estabelecido e tabus foram quebrados.

Em programa da TV Cultura semana passada organizadores se diziam contra o MST, do perigo comunista, de uma forma bem tacanha. Há até a história de uma intervenção militar, ora o exército nem de longe é a mais aquele órgão exclusivo de ascensão social de membros das classes pobres e que entrou na cena política do país depois da Guerra do Paraguai, um país com inúmeras universidades aceitaria ser governado pelo exército? Ainda dizem que na Ditadura não havia corrupção, e a manutenção dos governadores biônicos das oligarquias nos estados, a Indústria da seca no Nordeste, as grandes obras? Sem nenhuma transparência, dá para confiar?

sexta-feira, 21 de março de 2014

O Titanic Global e a possibilidade de um pensamento do Sul

Edgar Morin

Sem dúvida, vivemos em um mundo de mudanças apressadas, onde as dinâmicas sócio-culturais, econômica, tecnológica e política aceleraram como nunca antes na história da humanidade, e exigem de nós elevar nossos níveis de compreensão.

Ortega y Gasset dizia "não sabemos o que acontece e isso é precisamente o que acontece", e, aparentemente, nunca teve tanta razão: Há sempre um atraso de consciência em relação aos acontecimentos imediatos, e esse descompasso como aprofunda a globalização provoca uma aceleração de todas as dinâmicas (econômicas, sociais, demográficas, políticas, ideológicas, religiosas...) e uma multiplicação de inúmeras interações entre esses processos muito diferentes.

A partir, sobretudo, na segunda metade do século passado, o modelo de fragmentação da ciência começa a mostrar sinais de esgotamento e esclerose. Torna-se incapaz de compreender e lidar com os problemas de todos os tipos, cuja complexidade desafia o conhecimento compartimentado. Os princípios da ordem, segurança e previsibilidade, que foi baseado na ciência clássica tornaram-se inoperantes diante da incerteza de uma sociedade-mundo confrontada, em todo momento, com o inesperado, imprevisível. A torre de controle de conhecimento começa a estragar. O especialista está perdido no meio de um jogo de quebra-cabeça que ainda não aprendeu a montar. Então, hoje, se as sociedades parecem incapazes de resolver os problemas globais críticos (ambiente, geopolítica, direitos humanos...) , é porque a falta de inteligibilidade aparece claramente em um mundo onde todos os tipos de interdependências aumentam, induzindo um processo de rápida obsolescência dos nossos quadros de pensamento e nossa experiência, as nossas instituições e dos nossos métodos de gestão.

Caracterizado pela especialização, o conhecimento se aprofunda no registo do parcial e parcelado enquanto se afirma uma imperiosa necessidade de globalidade para responder às numerosas emergências sociais que são local e global ao mesmo tempo. A validade deste conhecimento parece questionável se, em seguida, ignora a compreensão da complexidade humana e social e suas múltiplas dimensões.

É dizer,  que  ética para qual conhecimento?

Podemos compreender os problemas globais do Planeta, enquanto ainda estamos com um conhecimento em disciplinas divididas?

Não seria necessário reformar o nosso pensamento para que possamos conceber os problemas fundamentais e entrecruzados que o nosso conhecimento atual reduz em migalhas?

Neste sentido, a globalização requer pensamento como fenômeno fundamentalmente complexo: A globalização tem definitivamente um lado positivo, por meio do fortalecimento da solidariedade internacional, uma melhor compreensão do nosso destino comum, as dinâmicas de simbioses e miscigenação cultural, mas suas degradações não só  equilibram um balanço, mas representam ameaças mortais para a espécie humana. Na perspectiva de Morin, essa ideia  unificou boa parte do mundo por décadas, e continua, apesar da crise de 2008, que o crescimento indefinido  - deve ser abandonado absolutamente, porque equiparado a uma "loucura coletiva que não foi diagnosticada ainda."

Aqui, um tríptico de metáforas recorrentes podem sintetizar suas contribuições cardeais sobre os desafios do período moderno:

* Titanic Planetário
* quatro motores
* Double-hélice

Em torno deste tríptico conceitual a revisão morineana é organizada contra o conceito tradicional de desenvolvimento e progresso que exageram o papel da ciência, da economia e apenas caminhos legítimos e possíveis para o desenvolvimento humano.

Já em 1999 no ensaio "Nós estamos em um Titanic" tinha levantado muitas das bases que estruturam a sua produção intelectual dos anos de 2010: A metáfora do quad, junto com a metáfora da dupla hélice, são apresentados como pilares a partir dos quais  é relatado essa concepção de desenvolvimento que pretende resumir e diluir toda a aventura do progresso humano.

A este respeito diz: "Podemos dizer que estamos em um Titanic planetário com o seu "quadrimotor" técnico, científico, econômico e de benefícios, mas ética e politicamente não controlado. Onde encontrar possibilidades destes regulamentos e controles éticos e políticos?"

O que está acontecendo na Ucrânia? Sua relevância para a eurozona

Artigo de Vicenç Navarro em revista digital SISTEMA, 21 de marzo de 2014

A imagem mais generalizada soque o que está acontecendo na Ucrânia é a de que um movimento popular se espalhou, depondo um governo autoritário e corrupto que já não tinha o apoio da população, como resultado de uma série de decisões, incluindo a sua falta de entusiasmo pela futura integração na UE e a conseqüente aproximação com a Rússia como um parceiro preferencial. A maioria da população que se levantou contra o governo queria que o partido no poder ficasse mais próximo à oeste do que à leste.
Até aí  a percepção generalizada , que tem muitos elementos  consistentes com a realidade. Mas não todos. E alguns são claramente insuficientes. Esta imagem que se  apresenta ignora outros interesses, porque, embora muito tenha sido falado dos interesses da Rússia na Ucrânia , e mais especialmente na Criméia, quase não se falou dos interesses da UE no país.
Mas vamos começar por algumas notas explicativas da situação real . Uma delas é que esta revolta, genuinamente popular, está sendo manipulada por uma aliança que tem muito pouca sensibilidade ou razões democráticas. Na verdade, o movimento Svoboda nazista de extrema-direita, caracterizado pelo seu ultra-nacionalismo, está dominando a direção desse movimento, uma coalizão liderada pela ex-presidente, Yulia Timoshenko, que havia sido condenada pela Justiça por abuso de poder.
As forças que apoiaram esta transferência de liderança têm sido precisamente a UE e os EUA (muito mais o primeiro do que o segundo). Por quê? Há tantas teorias como analistas. Mas,uma que parece ser mais consistente é que a economia está em apuros. O governo eleito que foi derrubado,ia obter emprestado 15 bilhões do governo russo. A retirada deste apoio cria um sério problema para a Ucrânia. Daí a Troika (olhe onde se olhe, está em toda parte), que favorece o afastamento da Ucrânia da Rússia e Ucrânia e sua aproximação com a UE , considera a possibilidade de da esta "ajuda econômica", desde que as mudanças previsíveis mostradas forem feitas em políticas de austeridade já implementadas em outros países. A Troika já apresentou a Letônia como um exemplo a seguir. Naquele país, as políticas de austeridade forçaram a emigração de 10% da força de trabalho, um dos países do Oriente, onde um maior número de suicídios e homicídios ocorridos nos anos de reforma.
A Troika sabe que as políticas de austeridade exigem mão dural, do que são conscientes os novos líderes da revolta, com brincadeiras e um certo humor negro, se apresentaram como voluntários para governar por um período curto, sabendo da enorme impopularidade de tomar medidas para não permitir a continuidade de um sistema eleitoral democrático. Assim se definem como "suicídio político do governo", consciente de sua próxima impopularidade .
Não seria, portanto, de estranhar que a ilusão da população da UE irá desaparecer em breve, quando eles descobrirem que, em sua própria pele, o que representa o custo de adesão à UE. A Ucrânia vai provavelmente ao que aconteceu em Espanha: o sonho europeu , foi transformado em pesadelo europeu. Integração europeia vai significar a abertura de capital da Ucrânia, predominantemente financeira, a especular, como aconteceu na Espanha, com a terra e outros recursos nacionais, que em breve deixará de ser nacional para se tornar estrangeira. Esta é certamente a experiência dos países da Europa Oriental. Sujeito a especulação financeira, por um lado, e mão de obra barata para as empresas europeias e, mais notavelmente, alemão, logo para substituir as empresas nacionais, por outro. Esta tem sido a situação na Letônia , Eslovênia, Romênia, Hungria e outros países, um após outro, foram integrados na União Europeia.
E tudo isso aparece como uma nova encarnação da Guerra Fria. Rússia vai substituir a União Soviética como o possível novo inimigo do Ocidente. Para diluir os laços históricos entre a Ucrânia e a Rússia, uma das primeiras ações do novo governo foi abolir a lei que protege o uso de línguas minoritárias, incluindo russo, falado principalmente na parte oriental do país, e para proibir o Partido Comunista, que teve o seu maior apoio nestas partes da Ucrânia, todos os movimentos que geraram uma resposta militar russa (para salvar a sua base militar naval na Criméia). Para mais extensão, leia o meu artigo  “Lo que no se está diciendo sobre Ucrania” (Público, 18.03.14).

Vicenç Navarro foi professor de Economia Aplicada na Universidade de Barcelona. Atualmente é professor de Ciências Políticas e Sociais da Universidade Pompeu Fabra (Barcelona, Espanha). Ele também é professor de Políticas Públicas da Universidade Johns Hopkins (Baltimore, EUA), onde lecionou por 35 anos. Dirige o Programa em Políticas Públicas e Sociais patrocinado conjuntamente pela Universidade Pompeu Fabra e da Universidade Johns Hopkins. Também dirige o Observatório Social de Espanha.

Manifesto pela II República

A sociedade brasileira tem sido uma mistura de moralismo com trapaça; por isso que é depravada, apesar de ter constituído uma “nação” sobre um vasto território com um povo único e sem problemas étnicos, claro, com conflitos internos, mas muito mais relacionados a questões de distribuição desigual das riquezas, e muito desigual. Pregadores de moral bendizem “regras” de boa conduta para roubarem o povo em seguida; o povo só ocasionalmente se rebela. É preciso ser forte, natural, anti-decadencial para expurgar as rupturas sociais.

Aqui a direita é moralista, um moralismo nefasto, e a esquerda vive de lenga-lenga, um moralismo de momento.
                
O país acumulou riquezas, não distribui, explodiu em violência e agora não sabe o que fazer, mas é exatamente da dúvida que nasce as soluções históricas. É este o momento de por para fora toda a rebeldia escondida e fundar uma nova República.
                
Uma Republica que seja um rompimento, temos aí uma constituição sobre uma gênese golpista, extensa e sem nenhuma praticidade.  Que se inicie com um programa eficiente e claro de resolução das maiores barreiras sociais. Resolução da questão agrária, dividindo entre o que o país pode exportar e manter uma população rural sobrevivendo da pequena propriedade produtiva. Formular um plano de metas eficientes e detalhadas para a educação. Fazer uma limpeza completa da Administração Pública, afastar os apadrinhados, estabelecer metas certas a serem cumpridas pelos órgãos. Reformular o sistema penal, inclusive a questão das polícias. Tudo sobre uma Assembleia Constituinte exclusiva, sem financiamento privado.
            
É claro que do ponto de vista social as coisas não se resolvem em passes de mágica, mas se resolvem com a mobilização das massas, as conquistas sociais necessárias não partirão das esferas de poder desta República, muito menos de intervenção militar como de forma estúpida apontam alguns. O Exército brasileiro entra na vida política do país após a Guerra do Paraguai, foi um instrumento de ascensão social no país e de elitização, portanto, identificado com o imobilismo popular. Assim foi o Golpe que pôs fim à Monarquia e o Golpe de 1964, essa elite militar buscando estabelecer seu domínio. Em seguida  aos primeiros mandatos do novo regime se passa o cargo de presidente para uma elite letrada e jurídica, sem manter-se o exército por fora. As Diretas Já e o PT foram um momento de participação popular, principalmente no Sudeste, mais intenso; mas se fez a “transição” dentro do golpismo.

Agora é a vez do povo do país inteiro criar sua República. Em Junho de 2013 do Norte ao Sul do país, em grandes e pequenas cidades o povo saiu nas ruas sabendo que era de um país que tem problemas políticos e sociais sem condições de terem resposta, ali se definia que  o todo se reunia para ser o todo. Um povo se constrói em cima de suas causas, não podemos imaginar sermos dirigidos por militares, oligarcas ou religiosos, o essencial é, exatamente, romper.

As massas nesse momento não têm e nem precisam de líderes, os símbolos serão forjados em meio aos levantes, de uma situação nova e democrática.

Entrevista a Pierre Bourdieu: A transgressão gay

Para desqualificar a homossexualidade é denunciada como uma prática contrária à natureza. Você ressaltar que a natureza não tem nada a ver com isso.

Certamente que não. Trata-se em principio de uma construção social e histórica: a divisão estreita entre heterossexuais e homossexuais se cristalizou recentemente, depois de 1945. Antes disso, os heterossexuais poderiam, eventualmente, ter práticas homossexuais. Mas, em nosso sistema simbólico, o contato sexual ativo segue  sendo o único em conformidade com a "natureza" do homem, já que a sexualidade passiva aparece como tipicamente feminino. A oposição ativo/passivo, penetrador/penetrou-a, identifica o contato sexual com uma lógica de dominação (o penetrador é o que domina). Deste modo, o homossexual se feminiza por participar de uma relação sexual só se aplica a uma mulher. Neste sentido, vai contra à natureza. Transgride esse limite que os romanos conheciam muito bem: se bem que a homossexualidade ativa com um escravo era tolerável, enquanto que a relação passiva era, evidentemente, monstruoso. Na realidade, "contra a natureza" significa apenas: contra a hierarquia social. Assim, enquanto o dominador é conduzido como tal, está tudo bem. Mas se você adotar as práticas pelas quais é provável tornar-se dominado, então nada está bem.

Nos casais homossexuais encontramos a mesma lógica. Se pode ser homossexual ativo, mas não passivo. Alguns homens e mulheres gays ireproduzem no casal hierarquia masculino / feminino.

Em que condições, então, reconhecer os casais homossexuais como uma alternativa ao modelo dominante?

É muito complicado, porque essa reivindicação é ambígua: ao mesmo tempo o mais subversivo e mais conformista que se possa imaginar. É muito conformista, pois incentiva os homossexuais a entrar na ordem e agir como todo mundo, mas uma parte delas é hostil a esta normalização social. Não há outra padronização reconhecida do Estado. Um homem muito culto, sem o reconhecimento de escola, sempre vai questionar a sua cultura. Da mesma forma, um casal gay em união civil não é socialmente reconhecido, com plenitude, os direitos elementares (proteção social, herança, etc.) que o correspondem.

Como o casamento é essa coisa sagrada que conhecemos investido valores simbólicos extremamente vigorosos, o direito de reclamar, como homossexuais,  o direito à união pública reconhecida oficialmente, legalmente sancionada, dinamita todas as representações simbólicas consolidadas.

Por que você está comprometido com o movimento lésbico-gay?

O ponto de partida foi uma carta que recebi de um homossexual que trabalhava na Air France: "Se meus colegas heterossexuais recebem descontos quando saem de férias com seus companheiros – protestava - por que eu deveria pagar tarifa cheia, quando viajando com o meu parceiro?" Os homossexuais são, de fato, cidadãos de segundo nível. Então, quando alguém “joga” a ameaça do "comunitarismo" para rejeitar suas demandas, mal posso vê-lo mais do que apenas uma verdadeira má-fé, produto de uma relíquia católica, muitas vezes inconsciente e mal tomadas e permite uma forma de discriminação . Não há para mim equívoco algum. É como se os homossexuais fora negado frequentar a escola. É algo da mesma ordem.

A última frase do seu livro masculinos homossexuais dominação abertamente convida para se juntar "a vanguarda dos movimentos políticos científicos subversivos". O que isso significa?

O essencial era dizer: não se mantenham isolados. Dado por razões sociológicas, o homossexuais (pelo menos os seus líderes) têm um capital cultural significativo, podendo desempenhar um papel no trabalho de subversão simbólica essencial para o progresso social. “ Act up”* é prodigiosamente inventivo. Os movimentos sociais poderão se beneficiar deste inventividade, porque ainda que saibam como organizar eventos, e fazer banners e slogans e canções, de modo ritual, são, na verdade pouco criativos... Para ser criativo, você precisa possuir capital cultural . A ideia das petições foi inventada por intelectuais; quando os médicos se manifestam geralmente são imaginativos e; finalmente, porque havia imaginação entre os líderes do movimento dos desempregados na França, gente com forte capital cultural, estes se atreveram a ocupar locais simbólicos, como a Escola Normal Superior.

Há algo mais que a marcha do orgulho gay, o subversivo para os homossexuais iria participar nos movimentos sociais?

Exato. A parada do orgulho gay é subversivo na ordem simbólica pura. Mas isso não é suficiente. Os gays e os desempregados, por exemplo, não se comunicam facilmente uns com os outros. O movimento gay está organizado em torno de demandas que são consideradas privadas, e parece suspeito a uma tradição sindical que é construído contra o particular, o pessoal, o território privado da qual tenta desprender o militante.

1. Um sistema de organização social e política que reconhece a existência de comunidades étnicas, religiosa ou sexual, com direitos específicos, em princípio, o que contradiz a definição de um cidadão abstrato sobre a qual se funda a República Francesa.

2. Act up (Ação para desencadeia o poder, a ação para liberar o poder). Movimento radical de origem nova yorkino, cuja variante francesa também se ocupa dos direitos e demandas das minorias sexuais e, particularmente, as pessoas com HIV positivo.


*Act up (Action to Unleash Power, acción para desatar el poder). Movimiento radical de origem neoyorkino, cuja variante francesa se ocupa também dos direitos e demandas das minorias sexuais e em particular das pessoas portadoras de HIV.

Pode a violência urbana do Brasil ter um potencial revolucionário?

Pode sim, mas também um papel conservador e antirrevolucionário, e é para este último lado que temos tido mais progressão.

Uma população não vai ficar sossegada enquanto sentir-se que perde aquilo que poderia ter proporcionado pela sociedade, é uma bolha que em um momento vai explodir. Marchas pela paz são atos já nesta direção, só que tímidos, precisa haver uma organização que denuncie temas mais profundos e organizacionais, que oriente a população para que lado deve ir.

Precisa tocar na questão das polícias, da impunidade de interesse da oligarquia dirigente, estimular a rebeldia de comunidades pobres vítimas de repressão.

Por toda parte havendo assaltos não há como não haver uma conturbação. É uma ferida da sociedade brasileira é que agora, depois das jornadas de Junho, têm que ser tomadas com outros pontos de vistas. O noticiário policial já disseminou lixo demais nesse sentido, é hora da esquerda formular planos práticos, por duas frentes, bater nas exclusões e repressões e como reduzir a criminalidade dentro de um plano de aplicação rápida, sem violar direitos humanos. 

Escravos por hora ou como vive a classe operária dos Estados Unidos

Se para pagar um apartamento de um quarto nos Estados Unidos deve-se ganhar $8,89 por hora, como é que sobrevivem os que ganham cinco ou seis?
Protesta Chicaco comida rápida
Há pessoas que se levanta de manhã, vai trabalhar em um meio mais ou menos adequado de transporte e após um  tediosa jornada mais ou menos longa, vai para casa sabendo que fez um trabalho que vai proporcionar um salário  mais ou menos digno no final do mês. Do outro lado estão todos os outros.

Essa lacuna é a que entre 1998 e 1999, a famosa jornalista norte-americana Barbara Ehrenreich decidiu investigar. Ehrenreich se perguntou como seria a vida daqueles que trabalham por um salário mínimo por hora nos Estados Unidos. Se a estimativa inicial para uma pessoa pagar um apartamento de um quarto nos EUA é que  deve ganhar a partir de 8,89 dólares por hora, como vive alguém que ganha  cinco ou seis? E o que dizer de pais solteiros? E aqueles que ficam doentes? Será que eles vivem ou sobrevivem?

Para responder a essas perguntas, Ehrenreich decidiu se empregar como garçonete, empregada doméstica e assistente em diferentes partes do país. A única condição que não colocara-se era a que colocasse em risco sua vida, e começou uma jornada que a levaria para a Flórida, Maine e Minnesota, onde trabalhou dia e noite, e escreveu sobre o que estava acontecendo quando  podia.
 por cuatro duros
O resultado foi Por cuatro duros: cómo no apañárselas en Estados Unidos uma crônica abrangente, em primeira pessoa, na tradição de outros livros de pesquisa como Cabeça de turco de Günter Wallraff, que agora começa a publicar Captain Swing. O seu impacto nos EUA foi incalculável, pois descobriu algo que a maioria dos americanos não estavam cientes: o trabalho de salário mínimo implica uma escravidão do corpo, da mente e do futuro. 


O trabalhador da miséria dos EUA é um servo comum - atinge 30% da população, quando a autora fez o livro - a quem são negados os direitos mais básicos e que, à medida sua jornada avança como um empregado, deve renunciar a qualquer ideia de mobilidade social que jamais alcançará alcance. O mito do americano que pode obter tudo o que  propõe é quebrado em um trabalho que, entre outras coisas, confirma:

  • Não és nada. Quando você trabalha em uma tarefa considerada menos qualificada embora isso seja altamente discutível, para o nível de cuidado, esforço e habilidade exigida por todas estas obras - você não tem uma identidade reconhecível. Se você é uma camareira és "amor", "bonita" ou "bebê". Como funcionária, você é o link só para reclamar, e como uma dona de casa, a máquina de que se dispões.
  • A mobilidade é reduzida e os custos aumentam. Trabalhar barato significa, necessariamente, encontrar um lugar para viver que se encaixa no preço que você pode pagar. Consequentemente, a cronista é imediatamente forçadas a optar por um apartamento de um quarto, um trailer em um estacionamento ou, se você não pode pagar o depósito das duas primeiras opções, um quarto de motel. Para ser capaz de suportar uma destas três coisas devem ser localizado a 45 minutos ou mais para carro do seu local de trabalho.
  • A pobreza é um peixe que morde a cauda no sistema. Considerando-se o custo da gasolina e habitação, 80% do salário que você ganha vai para pagar essas despesas.
  • Falta de tempo e espaço significa que você não pode economizar em cozinhar e comprar alimento nutritivo e barato. Se você não tem seguro de saúde, também pelo tipo de trabalho que você acaba tendo problemas de saúde que custam dinheiro.
  • A saúde sofre. A obra investiga esta espiral desesperada que continua. Se você não ganhar dinheiro suficiente com um emprego e é evidente que ninguém ganha cobrando US$ 120 por semana - , você deve ter ambos. E ter dois, fadiga, problemas nas articulações, a respiração, o sedentarismo, a obesidade surge...
  • A falta de conhecimento é a chave. Isto também perturba a cronista, e com ela o leitor. Porque alguns de seus colegas não procuram um trabalho melhor pagar e pode obtê-lo? Por que as pessoas não se organizam e reclamam quando não deixam mais de cinco minutos para comerem? Por que não optam por uma refeição mais nutritiva que custa o mesmo se você comer? Simplesmente porque eles não sabem. É simples e aterrorizante. Eu não sei. E que os chefes que os contratam, gestores que forçá-los a trabalhar sem uma pausa e empresas que vendem produtos que consomem presas , e que inclui hipotecas subprime .
  • Traição é incentivada. No trabalho salário mínimo, Ehrenreich descobre que a companhia é confundida com rebelião marxista. Para provar questionários para apresentar a qualquer momento ser um balconista ou garçom em um bar. "Delatarias ao ver um companheiro se ele fizer algo inapropriado?". "E aqueles que usam substâncias ilegais?". O controle do trabalho envolve o corpo e a mente através da exigência mais comum que testes de personalidade, as amostras de urina e questionários , menos duvidoso .
  • Direitos básicos não existem. Os trabalhadores do Wallmart se encerram para que eles não possam sair quando acaba seu turno, se se decide que tem que fazer horas extras não pagas. Esta imagem resume uma fração da conclusão óbvia do livro. Se nenhuma autoridade pública dispostos a garantir a proteção mínima aos cidadãos , nada permanece. Nem o direito à saúde e ao trabalho decente e à moradia adequada , ou a informação , nem o protesto.
  • Por quatro duros: como não se defender na América é leitura obrigatória em muitas universidades americanas, com as habituais queixas de grupos de estudantes conservadores e legisladores locais. Agora sabemos o porquê.
Artigo de Lucía Lijtmaer, visto en eldiario.es

Bolha financeira da China rebentou

Existe uma situação de alta tensão na China e o rebentamento das suas bolhas creditícia e imobiliária encontram-se em pleno desenvolvimento. A desaceleração da China pode gerar uma nova recessão global. Por Marco Antonio Moreno

As bolhas são uma crua manifestação da loucura humana e uma prova disso é que no esplendor da bolha imobiliária japonesa os jardins do Palácio Imperial de Tóquio foram cotados a um valor superior a todo o Estado da Califórnia. Agora, como na China proliferam os multimilionários e as modas exóticas, um promotor imobiliário comprou um cachorro por 2 milhões de dólares. O cão em questão é um mastim tibetano, como indica Market Watch, um dos cães mais caros do mundo. Isto dá conta de como a loucura assentou na China, e como esta loucura se traduziu na criação de uma gigantesca bolha que está a viver os seus momentos finais, ainda que os seguintes gráficos mostrem que na realidade o rebentamento da bolha Chinesa já aconteceu e encontra-se em pleno desenvolvimento.

O primeiro gráfico é do preço da habitação, que desde meados de 2012 cresceu mais de 20 por cento para começar a cair em finais do ano passado. Os anos 2012 e 2013 foram de intensas subidas nos preços das casas nas principais cidades do país. Parte deste crescimento foi impulsionado pela especulação imobiliária que nunca se detém e promete sempre que os bens imobiliários são o investimento mais seguro dado que “os preços nunca cairão”… até que começam a cair.
A especulação imobiliária foi impulsionada pela taxa de crescimento da oferta monetária (M1) e a sua forma mais ampla de dinheiro que é M2. Tanto M1 como M2 diminuíram a níveis não vistos nos últimos 15 anos e tudo indica que permanecerão por um longo tempo nesta zona. A China converteu-se num dos países mais endividados do mundo e a sua dívida pública supera os 200 por cento do PIB, mais de 15 biliões de dólares.
Isto é confirmado pela queda sistemática do índice da bolsa de Xangai, que cumpriu três anos de descidas pelo impacto que a queda na procura mundial começa a provocar no seu setor industrial, mais ainda na indústria exportadora. Se a Alemanha viu cair a criação de empresas para os níveis do ano 2003, a onda que espera a China pode superá-la dado que este país potenciou a sua indústria exportadora.
Além disso, durante o período da bolha (e em plena crise mundial), a China não soube aplicar os travões e duplicou a sua produção de aço depois da crise de 2008. Isto estimulou a procura mundial de matérias primas e ajudou a inflacionar os preços das commodities fazendo crer que a China poderia tomar o papel do comando económico mundial. Isto favoreceu os países emergentes e a bonança gerou novas bolhas que também rebentarão e provocarão uma aterragem forçada. No período já decorrido de 2014 viu-se uma forte tendência para a baixa no preço das commodities e especialmente dos minerais. O ouro, a prata e o cobre caíram mais de 30 por cento desde os seus máximos e esta tendência pode continuar. Para os países que desenvolveram os seus modelos produtivos com base nas exportações o horizonte é complexo.
Depois de produzir mais de 70 milhões de toneladas de aço por mês, as aciarias do gigante asiático entrarão numa recessão prolongada, dado que a bolha imobiliária chinesa sofrerá uma forte travagem ao estilo espanhol. Recordemos que num artigo de 2011 assinalávamos que a bolha imobiliária chinesa eclipsava todas as outras bolhas. As cidades fantasma, ao estilo dos Estados Unidos (Califórnia) e de Espanha, emergirão como verdadeiros monumentos ao esbanjamento coletivo. O vídeo abaixo mostra algumas dessas cidades fantasma que não pouparão em despesas.
Como se isto fosse pouco, o yuan chinês começou a desvalorizar-se em relação ao dólar e nos últimos 30 dias deslizou quase 3 por cento, tornando-se na maior queda trimestral desde o quarto trimestre de 1993. Voltará a guerra de divisas à primeiro frente de ataque dos países? Veremos. Mas essa artilharia já demonstrou ser potencialmente autodestrutiva,
Como conclusão transitória, podemos dizer que existe uma situação de alta tensão na China e que o rebentamento das suas bolhas creditícia e imobiliária encontram-se em pleno desenvolvimento. Daí que as palavras de Marc Faber sejam para tomar em conta: a desaceleração da China pode muito bem gerar uma nova recessão global e gerar a tão temida situação de incumprimentos financeiros que golpearia fortemente a Europa e os Estados Unidos.
Artigo de Marco Antonio Moreno, publicado a 20 de março de 2014 em El Blog Salmón, tradução de Carlos Santos para esquerda.net

quinta-feira, 20 de março de 2014

A tentativa de idiotizar o Mundo das revistas pró establishment

Uma reportagem da Revista Época de agosto de 2011 intitulada "Reino Desunido" (Leia aqui) é uma clara tentativa de fazer as pessoas de idiotas. A matéria tratava dos levantes ocorridos em Londres naquele ano, movimentos contra a supressão do estado de bem-estar, mas a intenção não é analisar os distúrbios e sim uma reação desencadeada na internet por um jovem que diante dos tumultos resolveu criar na internet um chamado para contra os atos ficarem em casa e tomar chá.

A matéria diz isso "Significa que a utopia de coesão social, sonhada e celebrada nas últimas décadas, chegou ao fim."

Ora, o que ocorrera nas últimas décadas fora exatamente a virada neoliberal desencadeada no Governo de Margaret Thatcher e incrementada com as políticas de austeridade adotadas após a crise de 2008.

Um dos mais importantes intelectuais da atualidade o polonês que vive na Inglaterra, Zigmunt Bauman, escreve em livros e afirma em entrevistas e artigos sobre o drama do desaparecimento do seguro coletivo e da criação do que chama  de Modernidade Líquida, onde predomina um mundo de laços sociais frágeis. Outro nome é o do geógrafo britânico David Harvey profundo estudioso do neoliberalismo e que discute muitos esses levantes em seu livro cidades rebeldes, pera ele esses movimentos podem ser o ponto decisivo para a transformação da vida urbana.

A matéria foca nas depredações, atos de "vandalismo, ocorridos nos protestos e que agora em 2013, por coincindência ou não, desencadearam ao longo do segundo semestre desse ano no Brasil.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Mapas e Gráficos para compreender a crise da Ucrânia

Qual a posição dos diferentes países no que respeita à anexação da Crimeia por parte da Rússia, dados sobre a percentagem de gás russo utilizado por cada país europeu ou o tamanho da economia da Crimeia por região. Estas são algumas das informações disponibilizadas neste artigo. Por Alberto Sicília de Simferopol, Crimeia, publicado no blogue Principia Marsupia.


Geograficamente, a Crimeia é uma península situada entre a Rússia e a Ucrânia. Neste mapa pode ver também a localização das suas principais cidades.





Por sua vez, a Ucrânia é um país situado entre a zona de influência da União Europeia e a da Rússia. A vermelho, os países membros da UE.

As regiões do este e sul da Ucrânia utilizam maioritariamente o russo como primeira língua. No centro e o este, a primeira língua é o ucraniano.


Esta divisão também pode verificar-se nas eleições. Aqui é reproduzido um mapa com o resultado das últimas presidenciais. (A laranja escuro as regiões que votaram maioritariamente por Yanoukovich, a laranja claro as que votaram por Tymoshenko).


A zona este do país (junto à capital Kiev) é também a mais rica e industrializada. Aqui um mapa com os salários médios.


Esta divisão económica este/oeste pode apreciar-se melhor neste outro gráfico: tamanho da economia por região. À esquerda as regiões do oeste, à direita as regiões do este.


Na recente crise da Crimeia, será certo que ouviu falar muito da “questão tártara”. De que se trata? Antes de a Crimeia passar a ser parte do Império Russo em 1783, os tártaros constituíam o maior grupo étnico da península. Durante a Segunda Guerra Mundial, alguns tártaros colaboraram com o Exército Nazi. Estaline acusou o povo tártaro de “colaboracionismo” e deportou-o para o Uzbequistão. Desde a queda da União Soviética, alguns têm regressado.

Evolução histórica da população da Crimeia. (Verde = Tártaros, Vermelho = Russos, Amarelo = Ucranianos)

Por que razão a crise da Ucrânia se converteu num assunto de “geopolítica mundial? Além da importância estratégica da Crimeia pelas bases militares, grande parte do gás russo que chega à Europa passa pela Ucrânia.

Aqui um mapa da percentagem de gás russo utilizado por cada país europeu. (Com este mapa é fácil compreender por que razão o Reino Unido quer uma “resposta dura” contra Putin enquanto a Alemanha prefere que “o conflito se atenue”).


Devido aos laços históricos, a maioria dos cidadãos russos consideram a Crimeia como parte do seu país. Aliás a popularidade de Putin na Rússia tem subido depois da intervenção:



Podes vê-lo neste outro mapa. (Azul escuro = Países que criticam a anexação, Azul claro = Países que defendem que a Crimeia continue na Ucrânia, Amarelo = Países que têm expressado o desejo de que a crise se resolva pacificamente, Roxo = Países que apoiam a ação da Rússia).







Tradução de Mariana Carneiro para o esquerda.net