"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 19 de julho de 2014

Insana oligarquia

O mais insano oligarquismo abatera-se sobre nós, o que sobrevive na adulação, o que se aproveita da fraqueza cultural permeada pelo jeitinho, amofinam a máquina estatal moderna na desgraça social. Dê ao mendigo o suficiente para enganar a fome e ele lhe agradece, temos a consciência de mendigos. Os aduladores do povo, que somente adula o povo, para fazer o contrário ao que este povo necessita e manter seu "sucesso" impedindo que a cidadania se erga.

Em um ambiente assim a política não floresce, o povo não cuida da coisa pública, o jovem se torna insano. O mais fácil da Administração pública: operar a burocracia encontra-se ineficaz no RN, haja vista o que disse a interventora na FUNDAC, Kalina Leite, que teve que desonerar algo em torno de 60 cargos comissionados da instituição; uma administração loteada de aduladores e, ainda disse que a instituição havia sido criada de maneira errada, com remanejamentos de "pessoas" de outras áreas, ou seja, apadrinhados. Os serviços públicos modernos não encontram a mínima eficiência por que a Administração é um objeto usado por uma massa que não adquiriu espírito público.

Escola só faz sentido para a vida pública; quando ela abriga quem não tem mais nenhuma bem-querença para com o público não há como exercer seu papel: colocar pessoas criativas na cena social. Essa escola forma maus mestres-professores, desligados da essência artística-cultural, a escola fica sem força, sem brilho, é um quarto de despejo de conteúdos desligados daquela rua de terra.

Os BRICS e a fábrica de mitos

O modelo neoliberal baseado na necessidade de manter salários competitivos continua a ser a espinha dorsal das diretrizes da política econômica nos BRICS. Os resultados da cimeira do grupo no Brasil não devem enganar. A globalização neoliberal não será desafiada por um grupo de líderes de países nos quais o neoliberalismo se mantém triunfante. 

Por Alejandro Nadal  em La Jornada.





No primeiro ano deste século inventou-se o acrônimo BRIC. A abreviatura compunha-se das iniciais de quatro países cujas economias eram consideradas potências emergentes: Brasil, Rússia, Índia e China.
Em 2003, o Goldman Sachs prognosticava que, em quarenta anos, os países do BRIC teriam um papel preponderante nas finanças, comércio, indústria, ciência e tecnologia à escala mundial. O seu produto interno bruto excederia o do G6 para esses anos (Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Inglaterra e Itália). De acordo com essas projeções, cada membro do BRIC ultrapassaria as economias do G-6, salvo a dos Estados Unidos (que só seria superada pela China).
Entre 2003 e 2008, o prognóstico parecia ir no bom caminho. As quatro economias mantiveram altas taxas de crescimento e os seus sinais vitais em matéria de estabilidade e contas externas pareciam saudáveis. Em abril de 2010, o Brasil foi o anfitrião de uma reunião dos quatro países e, nessa ocasião, a África do Sul foi convidada a unir-se ao grupo. O acrônimo passou a ser BRICS.
A série de crises financeiras dos anos noventa e as assimetrias crescentes na economia mundial mostraram sem ambiguidades as funestas consequências de aplicar as receitas do consenso de Washington. O surgimento do BRICS gerou expectativas sobre possíveis reformas no sistema monetário internacional e mudanças de orientação nas políticas do Fundo Monetário Internacional e Organização Mundial do Comércio. Ao estourar a crise global em 2008 a esperança em alguns círculos sobre o potencial do BRICS para alterar o rumo da globalização neoliberal reavivou-se.
Hoje tem lugar no Brasil a sexta cimeira dos líderes dos países integrantes do BRICS. Mas as economias do grupo não estão em boas condições de saúde e distam muito de se terem desmarcado da globalização neoliberal.
Em cada uma destas economias os problemas são diferentes. Mas em todas elas a taxa de crescimento tem diminuído: este ano, o crescimento no Brasil e Rússia mal será de 3 por cento; na Índia será de 4 por cento e na África do Sul o resultado será um medíocre 2 por cento. A China, a estrela do grupo, poderá atingir uma taxa de 7 por cento. E as contas externas do grupo deterioraram-se. Brasil, Índia e África do Sul mantêm fortes défices de conta corrente e isso requer financiamento externo. Cada vez mais, o financiamento faz-se com créditos de curto prazo e com maior endividamento em divisas estrangeiras e não em moeda local. Além disso, todos os BRICS têm avultados défices fiscais (Brasil 2.4, África do Sul 3.7 e a Índia 8.2). Tudo isso agrava asua vulnerabilidade num contexto em que as condições de financiamento externo são desfavoráveis.
A crise na União Europeia e nos Estados Unidos acabou por travar os BRICS. É normal porque a fase crescente do ciclo expansivo no mercado mundial de produtos básicos não podia durar eternamente e ainda menos num meio recessivo. Quem sabe o mais importante é que graças à crise esses países têm apostado mais no endividamento interno para manter os seus ritmos de crescimento. Por outra parte, em três membros do BRICS as obras faraônicas derivadas de competições desportivas mundiais têm sido ao mesmo tempo uma fonte de despesa e um motor (conjuntural) de crescimento: as Olimpíadas de inverno em Sochi (51bilhões de dólares), as Olimpíadas de Beijing (40 bilhões de dólares) e o Mundial de Futebol no Brasil (19 bilhões de dólares). A ressaca financeira após esses eventos não é precisamente uma fonte de dinamismo econômico.
As notícias sobre um novo banco do BRICS e a possível criação de um esquema de intercâmbios comerciais em moedas destes países devem ver-se com ceticismo. Este bloco é mais um clube de países com interesses políticos e comerciais comuns do que com uma agenda de mudança na economia internacional. À China convém a estabilidade na África do Sul porque aí estão algumas fontes de matérias primas de importância estratégica. À Rússia interessa-lhe o apoio do grupo para enfrentar as sanções dos Estados Unidos pela crise na Ucrânia. Ao Brasil inquieta-lhe uma redução na taxa de crescimento da China porque depende em muito desse mercado para produtos primários. E a todos os líderes dos BRICS preocupa-lhes o seu desprestígio e a falta de credibilidade política internamente.
O modelo neoliberal baseado na necessidade de manter salários competitivos continua a ser a espinha dorsal das diretrizes da política econômica nos BRICS. Desde as brutais condições de exploração nas minas na África do Sul, até às práticas das máfias na Rússia, passando pelos abusos sobre os povos nativos na Índia e a exploração dos camponeses sem terra no Brasil, o neoliberalismo mantém-se nos BRICS. Os resultados da cimeira do grupo no Brasil não devem enganar. A globalização neoliberal não será desafiada por um grupo de líderes de países nos quais o neoliberalismo se mantém triunfante.
Artigo publicado no La Jornada
Tradução de Mariana Carneiro para o Esquerda.net

Sobre o/a autor(a)

         Alejandro Nadal
         Economista, professor em El Colegio do México.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Alimentos desperdiçados na América Latina são suficientes para nutrir 47 milhões de pessoas

Na América Latina e Caribe se perdem e desperdiçam mais alimentos do que os que são necessários para satisfazer as necessidades nutricionais das 47 milhões de pessoas que ainda sofrem de fome na região, assinalou a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO). O informe “Perdas e desperdícios de alimentos na América Latina e Caribe”, do Escritório Regional da FAO, destaca que 6% das perdas globais de alimentos se dão na região.

A reportagem foi publicada por Adital.

“A cada ano, a região perde ou desperdiça ao redor de 15% de seus alimentos disponíveis, o que impacta a sustentabilidade dos sistemas alimentares, reduz a disponibilidade local e mundial de comida, geram menores rendas para os produtores e aumentam os preços para os consumidores”, explicou o representante regional da FAO, Raúl Benítez.

Benítez acrescentou que as perdas e desperdícios também têm um efeito negativo sobre o meio ambiente devido à utilização não sustentável dos recursos naturais. “Enfrentar essa problemática é fundamental para avançar na luta contra a fome e deve converter-se em uma prioridade para os governos da América Latina e Caribe”, salientou Benítez.

O que são e onde ocorrem as perdas e desperdícios?

Segundo a FAO, as perdas se referem à diminuição da massa disponível de alimentos para o consumo humano nas fases de produção, pós-colheita, armazenamento e transporte. O desperdício de alimentos se refere às perdas derivadas da decisão de descartar alimentos que ainda têm valor nutricional, e se associa principalmente ao comportamento dos vendedores de atacado e varejo, serviços de venda de comida e aos consumidores.

As perdas e desperdícios ocorrem ao longo da cadeia alimentar: na região, 28% ocorrem em nível do consumidor; 28% em nível de produção; 17% no mercado e distribuição; 22% durante o manejo e armazenamento; e 6% restantes em nível de processamento.

Perdas na venda no varejo

Com os alimentos que se perdem na região só em nível da venda no varejo – ou seja, em supermercados, feiras livres, armazéns e demais postos de venda no retalho – se poderia alimentar mais de 30 milhões de pessoas, ou seja, 64% dos que sofrem fome na região.

Os alimentos que perdidos nesse nível nas Bahamas, Jamaica, Trinidad e Tobago, Belize, Colômbia são equivalentes aos que se necessitariam para alimentar todos que sofrem com a fome em tais países.

Antígua e Barbuda, Bahamas, Jamaica, São Cristóvão e Névis, Trinidad e Tobago, Belize, Bolívia, Colômbia, Equador, El Salvador, Suriname e Uruguai poderiam dispor de alimentos equivalentes ao necessário para alcançar o primeiro Objetivo de Desenvolvimento do Milênio, se reduzissem apenas esse tipo de perdas.

“É importante assinalar que os países da região dispõem de calorias mais que suficientes para alimentar todos os seus cidadãos, a enorme quantidade de alimentos perdidos ou que acabam no cesto de lixo é francamente inaceitável, enquanto a fome continue afetando quase 8% da população regional”, explicou Raúl Benítez.

Como acabar com as perdas/desperdícios?

Existem formas de evitar as perdas e desperdícios em todos os níveis da cadeia, principalmente mediante investimentos em infraestrutura e capital físico, melhorando a eficiência dos sistemas alimentares e a governança sobre o tema, por meio de marcos normativos, investimento, incentivos e alianças estratégicas entre o setor público e privado.

Um exemplo são os bancos de alimentos, que reúnem comida, que por diversas razões seria descartada, para sua redistribuição, e que já existem na Costa Rica, Chile, Guatemala, Argentina, República Dominicana, Brasil e México. A Associação de Bancos de Alimentos do México, por exemplo, resgatou 56 mil toneladas de alimentos só em 2013.


A sensibilização pública também é chave, e é possível realizá-la através de campanhas dirigidas a cada um dos atores da cadeia alimentar, como faz a Iniciativa global SAVE FOOD, uma aliança entre a FAO, PNUMA e a companhia alemã Messe Düsseldorf. A SAVE FOOD reúne 250 sócios, organizações e empresas públicas e privadas, e leva a cabo campanhas em todas as regiões do mundo.

A decadência em tudo no RN

Nossa "perda" do "referencial" cultural católico-lusitano, ou melhor dizendo, a sua mistura com a modernidade e agora com a chamada "sociedade global de massas" tornou nossa decadência ainda mais perigosa, porque sempre estivemos à margem da cidadania, no reino do analfabetismo, da dominação política, mas a arte existia. O fator que talvez seja o mais notável é a recente concretização da urbanização de forma brusca e sem um processo adequado de formação cultural-cidadã para a urbanidade. Na verdade a educação fracassada nos joga escada abaixo. Veja o desespero e a falta de capacidade política: No Brasil sempre surgem propostas de criar disciplinas nas grades da educação básica, a mais colocada em pauta é cidadania; o que só faz dividir  o currículo sem servir de nada, como aprender cidadania quando a grande maioria dos alunos sequer aprende a ler? Não há ensino da matemática. Como ensinar cidadania em uma escola vazia de arte?

A nossa escola é aberrante. A superdivisão de tudo não propicia a libertação do ímpeto criativo. Acrescentar disciplinas não adianta. Os que governam não sentem vergonha desse estado da "educação", sem sequer carreira de professor. O RN não tem as discussões que precisa, estamos na lama, na miséria cultural, sem educação para a arte elevada. Nossa juventude morre em motocicletas por que não encontram arte para a vida, se jogam ao asfalto da morte por que foram enfraquecidos na cultura do lixo. A sexualidade é tornada escárnio, o ceticismo depravado invade o mundo. Rir-se de quem trabalha com a terra. Rir-se de quem faz política. Sente-se vergonha da música e faz-se da música um vazio que torna o ser rastejante.

O RN se tornou tão homicida devido à fraqueza cultural que não superou o catolicismo cultural, fez uma mistura com a "cultura de massas" e tornou as pessoas vazias de espírito.

Perdemos nossa juventude para a decadência de um Mundo desorientado de razão artística, para quê vida. Comprar coisas? Não é só isso. Não preenche o vazio da construção política, do espírito forte da cidade, da alegria de produzir arte.

Estamos em meio a uma selva, tornamo-nos loucos, inimigos de nós mesmos.

Mia Couto: “há quem tenha medo que o medo acabe”

Proferido em 2011, durante a Conferência do Estoril daquele ano. Em uma conversa sobre segurança.

Murar o Medo


O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demônios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem. Os anjos atuavam como uma espécie de agentes de segurança privada das almas.
Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada, não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambiente que reconhecemos.
Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura e do meu território. O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte, vislumbravam-se mais muros do que estradas.
Nessa altura algo me sugeria o seguinte: que há, neste mundo, mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas.
No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável castinginternacional. Os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência e um ateu barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo.
Os chineses abriram restaurantes à nossa porta, os ditos terroristas são hoje governantes respeitáveis e Carl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência. O preço dessa construção de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo, cometeram-se as mais indizíveis barbaridades.
Em nome da segurança mundial, foram colocados e conservados no poder alguns dos ditadores mais sanguinários de toda a história. A mais grave dessa longa herança de intervenção externa é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos.
A Guerra Fria esfriou, mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo: a Oriente e a Ocidente e, por que se trata de entidades demoníacas, não bastam os seculares meios de governação. Precisamos de intervenção com legitimidade divina.
O que era ideologia passou a ser crença. O que era política, tornou-se religião. O que era religião, passou a ser estratégia de poder.
Para fabricar armas, é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos, é imperioso sustentar fantasmas.
A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas, precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Para enfrentarmos as ameaças globais, precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania.
Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho poderia começar, por exemplo, pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e de outro lado, aprendemos a chamar de “eles”. Aos adversários políticos e militares juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade, imprevisível.
Vivemos como cidadãos, e como espécie, em permanente situação de emergência. Como em qualquer outro estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa. Todas essas restrições servem para que não sejam feitas perguntas, como por exemplo, estas: por que motivo a crise financeira não atingiu a indústria do armamento? Por que motivo se gastou, apenas no ano passado, um trilhão e meio de dólares em armamento militar? Por que razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia são exatamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadafi? Por que motivo se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça? Se queremos resolver e não apenas discutir a segurança mundial, teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes.
Há uma arma de destruição massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que seja preciso o pretexto da guerra.
Essa arma chama-se fome.
Em pleno século XXI, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fração muito pequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo.
Mencionarei ainda uma outra silenciada violência: em todo o mundo, uma em cada três mulheres foi — ou será — vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida. É verdade que, sobre uma grande parte do nosso planeta, pesa uma condenação antecipada pelo fato simples de serem mulheres.
A nossa indignação, porém, é bem menor que o medo. Sem darmos conta, fomos convertidos em soldados de um exército sem nome e, como militares sem farda, deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e discutir razões. As questões de ética são esquecidas, porque está provada a barbaridade dos outros e, porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência, nem de ética nem de legalidade.
É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha. A Grande Muralha foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente morreram mais chineses construindo a muralha do que vítimas das invasões que realmente aconteceram. Diz-se que alguns trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção.
Esses corpos convertidos em muro e pedra são uma metáfora do quanto o medo nos pode aprisionar.
Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos, mas não há hoje, no mundo um muro, que separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, do sul e do norte, do ocidente e do oriente. Citarei Eduardo Galiano acerca disto, que é o medo global, e dizer:
“Os que trabalham têm medo de perder o trabalho; os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho; quando não têm medo da fome têm medo da comida; os civis têm medo dos militares; os militares têm medo da falta de armas e as armas têm medo da falta de guerras.
E, se calhar, acrescento agora eu: há quem tenha medo que o medo acabe.
Muito obrigado.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Em dez anos, o Brasil fechou, em média, oito escolas rurais por dia

Mobilizações de comunidades rural e da sociedade civil, além do ensino contextualizado, são caminhos de resistência a essa prática que traz graves consequências para a população do campo
Verônica Pragana - Asacom
15/07/2014
As salas de aula no meio rural têm ficado cada vez mais raras | Foto: Fred Jordão/Arquivo Asacom

Há vários anos, os movimentos sociais - a exemplo do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra com sua campanha "Fechar escolas é crime"- vêm denunciando um fenômeno que traz grandes prejuízos para a sua população e para a agricultura familiar: o fechamento de milhares de escolas. De 2003 a 2013, 32,5 mil unidades deixaram de funcionar. A cada dia, em média, são oito instituições a menos no campo. Os dados são do Censo Escolar reunidos pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e Ministério da Educação e Cultura (MEC). 


No intervalo de sete anos – de 2002 a 2009 – o número de matrículas no campo reduziu 15,6%. O percentual se traduz em mais de 1 milhão e 200 mil alunos que estão sem escola ou foram obrigados a estudar na cidade. Frequentar a sala de aula na sede do município significa se deslocar muitos quilômetros. Dados do Ibope (2010) apontam que 10% dos estudantes nas áreas rurais levam mais de uma hora para chegar nas escolas.



Fazendo um recorte regional, nestes sete anos, 22,5% das escolas rurais fechadas estão no Nordeste, que ficou com menos 14 mil instituições. O maior índice de todas as regiões do país. Vale ressaltar também um dado histórico que demonstra a ausência de políticas públicas eficazes na área de educação para a população nordestina: essa região concentra o dobro (18,7%) da média de analfabetos do país (9,7%).



A maioria das escolas fechadas pertence à rede municipal, responsável pelo ensino fundamental (1º ao 9º ano) e o argumento mais utilizado para justificar a ação é que não tem mais alunos para frequentar as escolas. O que é rebatido com vigor por Vera Carneiro, coordenadora de educação rural do Movimento de Organização Comunitária (MOC), organização que faz parte da ASA Bahia e tem atuação no território sisaleiro.



“A educação não pode ser vista apenas do ponto de vista de números. É um direito subjetivo. Não é só espaço de sala de aula que se está fechando. Fecham espaços pra expressão da cidadania, da organização da comunidade, de expressão da cultura e própria identidade. [A escola] é um dos poucos serviços públicos que chegam na comunidade rural”, assegura Vera.



Para o coordenador executivo da ASA pelo estado do Piauí, Carlos Humberto Campos, a diminuição das escolas na zona rural agrava a situação de abandono das unidades rurais, que não têm água e são desprovidas de estrutura de lazer. “A escola não pode ser vista como gasto, custo. É um investimento. A situação atual demonstra todo um descuidado do Estado com a população mais empobrecida e excluída historicamente não só do campo, mas também da área urbana”, diz, chamando a atenção também para os gastos desnecessários que passam a ser gerados com transporte escolar, que na maioria das vezes não é seguro, expondo os alunos a situações de vulnerabilidade.



Outro elemento problematizado por Carlos é a violência simbólica que as crianças e jovens sofrem ao estudar numa escola com referências urbanas. “Quando as crianças e os jovens vão para cidade, é reforçado no seu imaginário a ilusão de que o espaço urbano oferece melhores condições de realização em detrimento do seu lugar de origem. Isso provoca um movimento interno de negação da vida no meio rural e, consequentemente, de esvaziamento do campo. Assim se abre a perspectiva de que o campo não é mais para a agricultura familiar, dando lugar para os projetos dos grandes latifúndios”, problematiza.



Lei Federal - Para tentar conter essa avalanche de escolas desativadas, foi aprovada em março passado uma lei que traz a exigência da consulta aos órgãos normativos do sistema de ensino, os Conselhos Municipais de Educação, antes da prefeitura decidir encerrar as atividades de uma instituição de ensino. Na Lei 3534/12, o Conselho deve basear sua recomendação na análise da justificativa apresentada pela Secretaria de Educação, no diagnóstico do impacto de ação e na manifestação da comunidade escolar.


Vera Carneiro: "Se tem uma instituição que debata os problemas da comunidade, que é bem atuante, aquela comunidade não vai permitir que a escola feche.” | Foto: Acervo pessoal

Na avaliação de Vera Carneiro, esta é uma lei que tenta impedir, mas não proíbe a intenção. “A ação tem que ser mais enérgica”, assegura. Ela defende a criação de políticas municipais de educação no campo não só para garantir a manutenção da unidade, mas para que os seus equipamentos e ensino sejam qualificados, oferecendo condições de funcionamento com laboratórios de ciências e de informática, quadras esportivas, espaços para expressão da cultura, entre outros.


“Se tem uma lei municipal, o Ministério Público e a sociedade civil organizada e mobilizada têm instrumentos para garantir que a escola não seja fechada. Se tem uma instituição que debata os problemas da comunidade, que é bem atuante, aquela comunidade não vai permitir que a escola feche”, declara Vera, que acompanha o trabalho que o MOC desenvolve junto a 21 municípios, dos quais nove estão com leis municipais de educação no campo aprovadas e 12 estão com a legislação em trâmite.



Portas reabertas – No sertão de Sergipe, no município de Poço Redondo, a comunidade rural de Queimadas se orgulha por sua resistência. Fábio Santos Silva, ex-presidente da Associação Comunitária de Queimadas, estima que no município foram fechadas cerca de oito escolas. Uma delas, que ficou desativada por dois ou três anos, voltou a funcionar por mérito e mobilização da comunidade, que teve a assessoria do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e do Coletivo da Juventude.



A escola Nossa Senhora dos Passos, a mais antiga da comunidade, foi reaberta depois que a comunidade se organizou para exigir não só esse pleito como também para discutir e acompanhar o projeto político-pedagógico da unidade. Hoje, a instituição atende a cerca de 300 alunos que estudam do 1º ao 9º ano e moram em comunidades vizinhas, no máximo, a 6 km de distância. “Quando a escola foi fechada, alguns estudantes precisavam se deslocar 17, 20 quilômetros pra estudar na rua [sede do município]”, conta Fábio.



Ele atribui a esta vitória o envolvimento da comunidade na reivindicação para trazer uma universidade pública para o Sertão sergipano, a primeira fora da capital. Em Poço Redondo, 15 mil pessoas foram às ruas numa caminhada de cinco quilômetros. O resultado disto é a Universidade Nossa Senhora da Glória, que está sendo construída no Assentamento Queimada Grande.



Trazendo as práticas rurais para a escola - Quando os conteúdos trabalhados na escola dialogam com a realidade dos alunos, a instituição também entra na vida comunitária e atrai a presença constante dos pais. Isso foi experimentado pela professora Maria de Fátima Pereira da Costa quando a escola Maria Cardoso de Almeida reabriu após 10 anos desativada. 



A instituição fica na comunidade Riacho dos Currais, no município de São Bentinho, na Paraíba, onde mora a professora Fátima, que antes fazia parte do grupo de docentes de uma instituição da sede da cidade. Desde que teve a oportunidade de ensinar às crianças de sua localidade, Fátima incluiu nos planos de aula elementos e práticas da convivência com o Semiárido, que teve acesso através da ASA.



Desde maio de 2013, a professora, junto a seus alunos e com apoio ativo dos pais, está revolucionando a escola. Eles desenvolvem um projeto que transformou o quintal da escola em um espaço com um canteiro econômico – o segundo já está com a construção encomendada – pomar, farmácia viva com 18 plantas, jardim, viveiro de mudas, minibanco de sementes. O que colhem na horta, parte vira merenda e a outra é vendida na comunidade. O recurso que entra é investido no projeto.



“As crianças estão amando porque elas vivem aquilo nas suas casas e os seus pais também vivenciam isso quando participam das formações do P1MC e do P1+2”, comenta a professora com empolgação, completando: “Como a comunidade recebe muitas visitas [intercâmbios do P1+2], ela leva os alunos para participar também e isso tem dado muito certo.”



Entrevista com Vera Carneiro



O que significa fechar uma escola?


Fechar escola é um dos direitos neglicenciados. Quando se fecha as portas, já se fecharam muitos direitos antes. O direito a ter uma educação que trabalhe com o conteúdo da vida das pessoas, de não ser uma escola que transfira, transmita conteúdos, mas que construa conhecimentos para mudar a realidade. O direito de ter uma educação contextualizada, problematizadora, que os problemas da comunidade sirvam de conteúdo curricular na escola para ajudar a encontrar soluções, exercendo seu papel mobilizador para transformar a história daquela comunidade.


Quando a escola apenas repassa os conteúdos e, muitas vezes, os mesmos conteúdos trabalhados nos grandes centros urbanos, ela desconsidera a identidade dos sujeitos, e está violando o direito da identidade do sujeito do campo, das especificidades do campo, se torna desinteressante e acontece a evasão escolar, o êxodo. Quando não oferece condições físicas, não tem água, alimentação de qualidade, ela está negligenciando esses direitos...


Me fale de uma experiência interessante com relação à educação que aconteceu num dos municípios que o MOC acompanha?

Em Riachão do Jacuípe, a partir desta experiência de educação contextualizada que desenvolvem, a avaliação do Ideb [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica], da Prova Brasil, foi melhor do que as crianças que estudavam na sede, que não tinham a metodologia de educação contextualizada. Com isso, o município investiu mais, as crianças estão ganhando computador, espaços para brinquedos educativos. As crianças não podem ficar de fora das tecnologias, da informação. A educação contextualizada também não é só ficar ali, mas parte dali [da comunidade]. Não se pode neglicenciar os direitos do acesso à informação, da comunicação.


A lei está na Câmara de Vereadores, ainda não foi aprovada, mas houve todo processo de mobilização do município para aprovação. Eles já vêm efetivando a lei na prática até mais que os municípios que já aprovaram.


Como é desenvolvido o trabalho do MOC para estimular a construção da política pública de educação no campo municipal?

O MOC já vinha no debate de políticas públicas havia anos, mas para efetivar mesmo fizemos vários seminários - 4 seminários regionais de 3 dias em 2011 - com representantes da sociedade civil, educadores, coordenadores, para elaborar uma minuta de lei. Depois, cada município fez uma lei a partir de suas especificações, a partir de elementos da própria realidade do município.


A partir de 2012, seguimos no processo de mobilização dos municípios, fase que estamos até hoje. É um trabalho longo que depende da realidade, principalmente do envolvimento da sociedade civil e movimentos sociais de cada município.

As empresas transnacionais são uma fonte constante de violação de direitos humanos

É imprescindível criar normas que acabem com a 'arquitetura da impunidade' de que se beneficiam. Para contribuir para isso, movimentos sociais, ativistas e juristas impulsionaram um Tratado dos povos para o controle destas megaempresas. Artigo de Pedro Ramiro e Juan Hernández Zubizarreta, El Diário.es.

"Criar um grupo de trabalho intergovernamental com o mandato de elaborar um instrumento internacional juridicamente vinculativo para regular, de acordo com o Direito Internacional dos Direitos Humanos, as atividades de empresas transnacionais." Com esta resolução do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, aprovada na sua 26 ª sessão, em Genebra, o debate sobre a necessidade de padrões internacionais para forçar as empresas multinacionais a respeitar os direitos humanos volta a tornar-se atual.
Agora, depois da crise global e tragédias como o desabamento na Praça Rana em Bangladesh no ano passado, ressurge novamente uma discussão que tem vindo a desenvolver-se há quatro décadas. Na década de setenta, a ONU chegou a definir entre as suas prioridades o desenvolvimento de um código de conduta internacional para grandes corporações, bem como lançou a Comissão e o Centro de Empresas Transnacionais. Mas a oposição das grandes potências e lobbies corporativos levou a que, anos depois, ambos os casos fossem desmantelados e que a legislação nunca chegasse a ser concretizada. No seu lugar, no final dos anos noventa, surgiram a Responsabilidade Social Corporativa (RSC) e o Global Compact, símbolos de como o discurso oficial da ONU evoluiu da lógica da obrigatoriedade para a filosofia da voluntariedade.
Em 2005, ignorando os projetos de normas de Empresas Transnacionais e outras empresas privadas adotadas pela Subcomissão para a Promoção e Proteção dos Direitos Humanos das Nações Unidas dois anos antes, o secretário-geral da ONU nomeou um representante especial sobre a questão dos direitos humanos e empresas transnacionais. O cargo foi assumido por John Ruggie, o precursor do Global Compact cujo mandato terminou em 2011 com a publicação de um relatório que apelou para a implementação do quadro de "proteger, respeitar e remediar". Estes Princípios Orientadores sobre empresas e direitos humanos promovidos por Ruggie foram aprovados naquele mesmo ano pelo Conselho de Direitos Humanos; o relatório final do secretário-geral da ONU, publicado em 2012, assumiu que destes princípios orientadores "não deriva nenhuma nova obrigação legal".
Um dos maiores obstáculos para erradicar violações de direitos humanos cometidos por empresas transnacionais consiste precisamente na fato de não se apostar na criação de novas obrigações no Direito Internacional.
No entanto, um dos maiores obstáculos para erradicar violações de direitos humanos cometidos por empresas transnacionais consiste precisamente na facto de não se apostar na criação de novas obrigações no Direito Internacional. Embora pareça um certo avanço, a realidade é que o marco Ruggie reproduz a lógica seguida nas últimas décadas: são meras orientações que não têm caráter vinculativo, tanto para os Estados como para as empresas, de modo que podem não ser cumpridas. Também mantém o compromisso de voluntarismo, sustentando que só há violação dos direitos humanos por empresas quando surge a responsabilidade do Estado e não aceita que as empresas transnacionais – como todas as pessoas privadas – tenham a obrigação de respeitar a lei e que se não o fizerem, devam sofrer penalidades civis e criminais, também a nível internacional.
Em todo o caso, não é possível contrariar o enorme poder político, económico e jurídico das empresas transnacionais e a força da lex mercatoria, toda essa "arquitetura da impunidade" construída nos últimos 40 anos por grandes corporações e Estados que as apoiam através de intermináveis acordos comerciais ​e acordos de proteção de investimentos, milhares de regras da OMC, do FMI e do Banco Mundial, os tribunais internacionais e mecanismos de arbitragem para a resolução de disputas entre investidores e o Estado... se não se inverter a pirâmide normativa e colocar no vértice os direitos das maiorias sociais e não os interesses privados da classe político-empresarial governa.
Assim, neste contexto, as organizações que fazem parte da campanha global “Desmantelando o poder corporativo” defendem há anos a necessidade de estabelecer mecanismos eficazes para o controlo das empresas transnacionais. Porque pensamos que, juntamente com o fortalecimento dos processos de resistência às companhias multinacionais, é essencial promover mecanismos eficazes de redistribuição social e controlo das grandes corporações, que permitam, a médio prazo, caminhar para a mudança do paradigma socioeconómico. Noutras palavras: enquanto avançamos na construção de outros modelos de economia e sociedade que não tenham como base o que Polanyi definiu – referindo-se às origens do capitalismo global - como "motivação do lucro", que pelo menos os direitos das pessoas e dos povos não estejam subordinados à "segurança jurídica" das grandes corporações.
Com o propósito de criar ferramentas para o exercício de um controlo efetivo sobre as operações dessas companhias, diferentes movimentos sociais, povos nativos, sindicalistas, juristas, ativistas e vítimas das práticas das multinacionais, elaboraram o Tratado internacional dos povos para o controlo das corporações transnacionais. A ideia é que todo o trabalho coletivo que levou a este tratado recolha a experiência acumulada na última década, a partir das diferentes lutas contra as empresas transnacionais e as instituições estatais e internacionais que lhes dão suporte.
Assim, colocamos à disposição do recém criado grupo de trabalho intergovernamental sobre as transnacionais e os direitos humanos as várias propostas e alternativas que centenas de organizações sociais propuseram neste Tratados internacional dos povos. Além disso, pensamos que uma normativa internacional que tenha vinculação legal para regular as atividades das empresas transnacionais deve abordar pelo menos três grandes questões.
Primeiro, estabelecer novos pressupostos gerais relacionados com as responsabilidades das empresas transnacionais. Assim, as normas nacionais e internacionais devem ser consideradas obrigatórias para as pessoas físicas e jurídicas; as empresas transnacionais são pessoas jurídicas e, como tal, sujeito e objeto de lei. Portanto, deve ser regulada sua responsabilidade civil e criminal em dupla imputação: por um lado é imputável a pessoa jurídica – a empresa – e, por outro, as pessoas físicas – dirigentes da entidade – que tomaram a decisão incriminada. Além disso, deve regular-se a responsabilidade solidária das empresas transnacionais a partir das atividades das suas subsidiárias, de facto ou de direito, assim como os seus fornecedores e subcontratados que violam os direitos humanos.
Ao mesmo tempo, deve regular-se as obrigações específicas das empresas transnacionais como, entre outras, a proibição de patenteamento de formas de vida, o pagamento de preços justos e razoáveis ​​para fornecedores e subcontratados, controlo de pessoal de segurança a serviço de multinacionais e o respeito por todas as normas que proíbem a discriminação. Propomos também, em terceiro lugar, que sejam criadas instâncias como um centro público para o controlo das grandes corporações e um tribunal mundial sobre empresas transnacionais e direitos humanos, que se encarregue de julgar as multinacionais e os seus diretores por violações dos direitos das pessoas e da natureza.
Por fim, como diz a proposta do Tratado internacional dos povos que foi apresentado esta semana em Genebra, aspiramos "oferecer um marco para o intercâmbio e a criação de alianças entre comunidades e os movimentos sociais para reivindicar o espaço público, agora ocupado pelos poderes corporativos ".
Texto publicado no sítio El Diário.es e traduzido por Pedro Paulo Bocca para o Brasil de Fato

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Tanta reforma penal pra nada

O que faz o Brasil passar por 155 reformas nas leis penais desde 1940, o número de assassinato de lá para cá só cresceu e ainda dizem a torto e a direito que no Brasil não tem leis?

Primeiro que isso é parte da tradição judaico-cristã da maneira de lidar com o sofrimento: encontrar um culpado. No nosso tradicionalismo decadente temos uma primeira pessoa que sempre se esconda: A culpa e dos políticos, o Brasil não vai pra frente e nos tornamos rancorosos da mudança sem mudar nada em nós mesmos.

A outra maneira de lidar com o sofrimento é a maneira trágica, resgatada por Nietzsche, do sofrimento temos que ser fortes e retirar potência. Isso passa longe da nossa depravação, gostamos de espernear, até quando um parente morre bêbado em acidente de moto se procura um culpado, nem que seja o próprio defunto.

A luta é contra esse espírito decadente, no Brasil todos querem que a lei lasque aos outros, claro, enquanto forem outros, estiverem distante. Perguntem a alguém do IBAMA que queira fazer um trabalho sério se ele não é pressionado com babões e seus vereadores para aliviar os trabalhos feitos. Vereador no Brasil é justamente para isso, servir esmolas; quando um parente é preso se diz: "procure o vereador ou o deputado tal...

A questão todo não envolve lei, poderíamos abolir a lei penal toda, se existisse trabalho de elucidação e punição eficaz não se precisaria de nenhuma lei a mais.

Noam Chomsky - O bombardeio de Gaza: "Isto é um assassinato"

"Isso é assassinato!" "A incursão e bombardeio de Gaza não é para destruir o Hamas. Não é parar o disparo de foguetes contra Israel, não é para a paz"

A decisão israelense de fazer chover morte e destruição em Gaza, o uso de armas letais de campo de batalha moderno contra uma população civil indefesa, é a fase final de uma campanha de décadas para limpeza étnica dos palestinos décadas. 

Israel usa aviões de ataque sofisticados e navios de guerra para bombardear densamente lotados campos de refugiados, escolas, edifícios de apartamentos, mesquitas e favelas para atacar uma população que não tem força aérea, nem defesa aérea, sem marinha, sem armas pesadas, nenhuma unidade de artilharia, nenhuma armadura mecanizada, nenhum comando no controle, nenhum exército ... e chama-lhe uma guerra. Não é uma guerra, é um assassinato. 

"Quando os israelenses nos territórios ocupados agora afirmam que eles têm para se defender, eles defendem-se no sentido de que qualquer ocupante militar tem de se defender contra a população que estão esmagando. 

Não se pode defender-se quando você está ocupando militarmente terra estrangeira. Isso não é defesa. Chame-se como queira, não é de defesa "


Julguem vocês mesmos as imagens que não mostrará a  imprensa ocidental.


Noam Chomsky sobre el genocidio sionista de Israel en Gaza 2 Noam Chomsky   El bombardeo de Gaza: Esto es un asesinato”

Noam Chomsky sobre el genocidio sionista de Israel en Gaza 3 Noam Chomsky   El bombardeo de Gaza: Esto es un asesinato”

Noam Chomsky sobre el genocidio sionista de Israel en Gaza 4 Noam Chomsky   El bombardeo de Gaza: Esto es un asesinato”

Noam Chomsky sobre el genocidio sionista de Israel en Gaza 5 Noam Chomsky   El bombardeo de Gaza: Esto es un asesinato”

Noam Chomsky sobre el genocidio sionista de Israel en Gaza 6 Noam Chomsky   El bombardeo de Gaza: Esto es un asesinato”

Noam Chomsky sobre el genocidio sionista de Israel en Gaza Noam Chomsky   El bombardeo de Gaza: Esto es un asesinato”

Artigo de opinión de Noam Chomsky en tercerainformacion.es

terça-feira, 15 de julho de 2014

Sobre o decreto 8.243

O Decreto presidencial que institui os conselhos populares ou que visa a regulamentar a política de participação popular gerou polêmica mas logo houve a divisão, quem se diz de esquerda tende a ser favorável; e outra parte se diz preocupada com os poderes do congresso; na lógica de que conselhos fazem uma quebra da democracia representativa, na medida em que destrói a ideia de divisão entre o legislativo e a sociedade civil.

Lenin criou o totalitarismo ao absorver as forças dos sovietes e usá-las para fazer a fusão do partido Bolchevique no próprio Estado, no caso um Estado Burocrático.. Quando chega o momento em que o Monstro já dominava todos os setores os sovietes somente podem operar "aparelhados" pela força do totalitarismo burocrático.

É isso que leva Noam Chonsky a afirmar que Lenin e Trotsky são os maiores inimigos do socialismo, justamente, por esse fato de matar a autonomia e a liberdade naquilo de seria o germe da organização social socialista. A "Democracia Popular" apenas disfarça uma vontade popular que já está por trás dominada pelo totalitarismo de um partido, ou seja, não poderia haver decisão alguma.

Os argumentos dos que tratam o decreto como ditatorial, como o Professor Yves Gandra Martins, é no sentido de manter essa força aparelhada de conselhos.

Agora, o que seria Democracia para além da representatividade, é possível? Ou somente conduziria à totalitarismos? Habermas descreve a racionalidade do sistema na sua forma de obter  sínteses e deixando a oportunidade de quem é minoria em um momento passar a obter a maioria em outro.

O fenômeno da Ditadura acontece ao sabor da normalidade, por que a vida não é impecável,. Por outro lado, Democracia é um termo que sempre pode ser usado em proveito próprio, não tem uma resposta simples e uniforme. 

Não há como dizer que a intenção seja ditatorial, mas ditaduras se formam; para alguns é o perigo eleitoral do PT. Por outro lado abusa do sistema um decreto presidencial tratar de tal assunto? Questão jurídica. Por outro o Congresso brasileiro é praticamente inútil e alvo de desconfiança quase absoluta, a própria representatividade passa a ser desacreditada no Mundo todo; no entanto, foi o sistema que mais liberdade garantiu, apesar de não ser o fim último da história. A questão é como evoluir na liberdade democrática e cidadã além da representatividade sem destruir a liberdade de atuar?

Manuel Castells – Deus sobe, a Igreja cai na América Latina

O principal fator do declive do catolicismo na América Latina há sido que a Igreja se identificara com as élites políticas e econômicas.
papa francisco Manuel Castells   Dios sube, la Iglesia baja en Latinoamérica
O sentimento religioso é uma dimensão essencial da experiência humana. Seu conteúdo emocional sobreviveu aos horrores e manipulações cometidos em seu nome. Porque a nossa vida é marcada pelo sofrimento e decepção e precisa de consolo e refúgio que vá além da família, porque esta nem sempre funciona. E além da vida para superar a angústia da nossa única certeza: temos data de expiração. 

É nessa necessidade de conforto nesta vida e projetamos em outra mais justa onde anidam as crenças religiosas, na diversidade na qual Deus se manifesta. 

Assim. contrastando com uma percepção distorcida pelo secularismo europeu, a proporção de pessoas religiosas aumentou de 83% da população mundial em 1980 para 89% em 2010. 

No entanto, nem todas as religiões estão igualmente envolvidas nesta espiritualidade crescente. Há uma exceção: a Igreja Católica. A porcentagem de católicos no religioso caiu de 22% em 1980 para 17% em 2010 e sua participação na população mundial de 19% para 15%. 

A religião com mais fiéis é a muçulmana, e também a que mais cresce, aumentando  4% entre 1980 e 2010, enquanto os católicos desceram 2,1%. O Hinduísmo também aumentou, de 2,5%, e "outros cristãos", especialmente pentecostais,  1,1%, enquanto os budistas e judeus são estáveis​​. 

É significativo que a categoria que mais decresce é a de  não-religiosos, com queda de 4,2% em três décadas. Esta diminuição dos incrédulos é particularmente acentuada na Europa, com a qual a crença eurocêntrica no laicismo é um dado obsoleto extrapolado pelos intelectuais aspirantes a tornarem-se sacerdotes racionalistas  das massas intelectuais supersticiosas. Mas há um fenômeno inverso na América do Norte, o único lugar onde o "outro cristão" (protestante) diminuiu 10%, o mesmo percentual de aumento dos não-religiosos. 

América do Norte experimentou uma ascensão do secularismo quando ele começa a diminuir na Europa. Mas recuam os católicos nos Estados Unidos. Da mesma forma, há um aumento de 5% em não-religiosos na América Latina. 

O declínio do catolicismo não é devido à demografia, porque a América Latina, a principal região católica, mantém o crescimento da população, mas registrou uma queda de 15% de católicos, enquanto "outros cristãos"  aumentaram em 14%. O movimento evangélico dos católicos é particularmente forte no Brasil, o maior país católico, enquanto que no Chile, Argentina e México o laicismo é outro fator de declínio da influência da Igreja Católica, especialmente entre os jovens. 

Em Espanha não há declínio significativo na filiação católica porque há pouca concorrência para a Igreja Católica, mas aqui a crise manifesta-se por um declínio significativo na prática religiosa: 15%, a mais alta do mundo, também superior ao do Brasil, onde o prática religiosa (que não seja de adesão) caiu em 10%. 

A única região em que a Igreja aumenta sua influência, embora apenas 3%, é a África. Talvez pela permanência de um espírito missionário e instituições distantes em um ambiente geralmente hostil. 

A que se deve o declínio do catolicismo, particularmente na América Latina, reserva histórica da Igreja? Estudos apontam vários fatores que contribuem. A incapacidade da Igreja para reconhecer os direitos das mulheres dentro dela, mantendo o veto ao sacerdócio e mostrando-se intransigente no direito da mulher sobre seu corpo. 

A posição totalmente insustentável em relação à sexualidade, que ainda está ligada à reprodução, em flagrante contradição com a prática da juventude que assim vivem permanentemente em pecado. O véu que sempre foi executado sobre pedofilia na Igreja, mesmo em seus altos escalões. Indo para consentir com o abuso sexual por anos do pederasta padre Maciel, fundador e patriarca dos Legionários de Cristo. A resistência da Igreja, até recentemente, a reconhecer a freqüência de pedofilia dentro dela causou um descontentamento enorme em países como os Estados Unidos. 

Mas o fator mais prejudicial para a Igreja tem sido a sua identificação na América Latina, mas também em Espanha e Itália, com as elites econômicas e políticas. 

Seu profundo envolvimento com as instituições do poder a tem distanciado dos problemas do cotidiano dos pobres, principalmente na América Latina, que vêem a Igreja como a Igreja dos ricos e poderosos, apesar dos inúmeros exemplos de heroísmo individual dos sacerdotes, freiras e leigos nas favelas e entre os marginalizados, como exemplificado pela Comunidade de Santo Egídio. 

Esse vácuo do catolicismo entre os pobres foi preenchido em parte por cultos evangélicos, embora muitos, muitas vezes explorem seus paroquianos, retirando-lhes o  pouco que têm em troca de um contrato de salvação garantida. 

As atribulações da Igreja Católica não deveriam deixar indiferentes aos que não se sentem parte dela. Porque em uma situação de crise e de redes de vulnerabilidade necessária de solidariedade e de esperança para manter a fé na vida e em outras. 

E, em nossa cultura, a crise de confiança na Igreja é fator de desamparo agravante da crise. 

Daí a importância do esforço evangelizador Papa Francisco convocando os bispos para estarem com as pessoas, dando um exemplo de modéstia e graça em sua vida, limpando as finanças do Vaticano de conexões com a máfia, denunciando o abuso sexual e pedindo perdão. 

Se o seu ministério  fracassa perderemos, depois e haver perdido a confiança nas instituições políticas, um outro elemento essencial da convivência humana. Apesar de sempre ser Deus, não depende de burocracias.
Artículo de Manuel Castells en La vanguardia.

OMM: Número de desastres climáticos está subindo rapidamente

Atlas aponta que entre 1971 e 1980 foram 753 eventos extremos, já entre 2001 e 2010 aconteceram 3.496; nos últimos quarenta anos, essas tragédias resultaram em 1,94 milhão de mortes e US$ 2,4 trilhões em prejuízos

Autor: Fabiano Ávila   -   Fonte: Instituto CarbonoBrasil

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) divulgou nesta segunda-feira (14) o Atlas de Mortalidade e Perdas Econômicas do Tempo, Clima e Extremos Hídricos 1970-2012 (Atlas of Mortality and Economic Losses from Weather, Climate and Water Extremes 1970-2012), que serve como um choque de realidade para todos nós.

De acordo com o documento, desde 1970 aconteceram 8.835 desastres climáticos, com 1,94 milhão de mortes e US$ 2,4 trilhão em prejuízos. 

O Atlas mostra como a cada década o número de eventos extremos foi aumentando. Entre 1971 e 1980 foram 753, entre 1981 e 1990, 1.534, entre 1991 e 2000, 2.386, e entre 2001-2010, 3.496.

“Desastres causados pelo clima e relacionados com a água estão aumentando por todo o mundo. Tanto países industrializados quanto não industrializados estão sofrendo com cheias repetidas, secas, temperaturas extremas e tempestades (...) As variabilidades naturais estão agora exacerbadas pelas mudanças climáticas induzidas pela humanidade”, afirmou Michel Jarraud, secretário-geral da OMM.

Tempestades e enchentes somam 79% do total de desastres relacionados ao clima, e causaram 55% das perdas de vidas e 86% dos prejuízos entre 1970 e 2012. Por sua vez, as secas provocaram 35% das mortes.

Os eventos com mais fatalidades foram a seca na Etiópia em 1983 e o ciclone Bhola em Bangladesh em 1970, com 300 mil mortes cada um. 

Já o furacão Katrina nos Estados Unidos em 2005 foi o que trouxe mais prejuízos, US$ 146 bilhões. Os norte-americanos também sofreram com o segundo maior evento em perdas econômicas, a super tempestade Sandy, em 2012, US$ 50 bilhões.

Na América do Sul ocorreram 696 eventos extremos entre 1970 e 2012, resultando nas mortes de 54 mil pessoas e em US$ 71,8 bilhões em perdas. O pior desastre foi a enchente em 1999 na Venezuela, que tirou 30 mil vidas.

No Brasil, a enchente e os deslizamentos de terra em 2011 no Rio de Janeiro, com 900 mortes, foram o evento mais letal. O que trouxe mais prejuízo foi a seca de 1978, resultando em perdas de US$ 8,1 bilhões.


A OMM estima que os números reais devem ser bem piores, já que pelo menos 50% das informações sobre um determinado evento se perdem antes de serem coletadas. 

Assim, o Atlas salienta a importância do monitoramento e da coleta de dados, que servem para direcionar recursos de forma mais eficiente para as regiões mais necessitadas.

“Coletar dados globais é um grande desafio. Agências climáticas e meteorológicas estão trabalhando com pesquisadores para superar essa dificuldade. Essa parceria produz análises que ajudam na tomada de decisões que reduzem as perdas de vidas, como o investimento de sistemas de alerta nas comunidades mais vulneráveis”, afirmou Debarati Sapir, diretora do Centro de Pesquisas de Desastres da Universidade de Louvain, que trabalhou na elaboração do Atlas.

A OMM pede ainda que a comunidade internacional invista cada vez mais na prevenção de desastres, na gestão de riscos e na transferência de tecnologias para os países mais pobres.

“Melhores sistemas de alerta e gestão estão ajudando a prevenir perdas de vidas. Mas os impactos socioeconômicos dos desastres estão aumentando por causa da sua maior frequência e intensidade e pela crescente vulnerabilidade das sociedades humanas”, concluiu Jarraud.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Crença na utopia é ainda a melhor forma de questionar a exclusão social

Slavoj Zizek


Eleger a internet como exemplo democrático é esconder diferenças sociais, institucionais e psicológicas entre as vidas “real” e “virtual”

Um dos grafites mais conhecidos dos muros de Paris em 1968 era: “As estruturas não andam pelas ruas!”. Isto é, não se podem explicar as grandes manifestações de estudantes e trabalhadores do Maio de 68 como determinadas pelas mudanças estruturais na sociedade.

Mas, segundo [o psicanalista] Jacques Lacan, foi exatamente isso o que aconteceu em 1968: as estruturas saíram às ruas. Os eventos explosivos visíveis foram, em última instância, o resultado de um desequilíbrio estrutural -a passagem de uma forma de dominação para outra; nos termos de Lacan, do discurso do mestre para o discurso da universidade.

Os protestos anticapitalistas dos anos 60 suplementaram a crítica padrão da exploração socioeconômica pelos temas da crítica social: a alienação da vida cotidiana, a “mercadorização” do consumo, a inautenticidade de uma sociedade de massa em que “usamos máscaras” e sofremos opressão sexual e outras etc.

Prazer extremo

Mas o novo espírito do capitalismo recuperou triunfalmente a retórica anti-hierárquica de 1968, apresentando-se como bem-sucedida revolta libertária contra as organizações sociais opressivas do capitalismo corporativo e do socialismo “realmente existente”. O que sobreviveu da libertação sexual dos anos 1960 foi o hedonismo tolerante, facilmente incorporado a nossa ideologia hegemônica: hoje o prazer sexual não apenas é permitido, é ordenado - os indivíduos se sentem culpados quando não podem desfrutá-lo. A tendência às formas radicais de prazer (por meio de experiências sexuais e drogas ou outros meios de indução ao transe) surge em um momento político preciso: quando o “espírito de 68″ esgota seus potenciais políticos. Nesse ponto crítico (meados dos anos 70), a única opção restante foi um direto e brutal empurrão para o real, que assumiu três formas principais: a busca por formas extremas de prazer sexual, a opção pelo real de uma experiência interior (misticismo oriental) e, finalmente, o terrorismo político de esquerda (Fração do Exército Vermelho na Alemanha, Brigadas Vermelhas na Itália etc.).

O que todas essas opções compartilham é um recuo do engajamento sociopolítico concreto para um contato direto com o real. Lembremos aqui o desafio de Lacan aos estudantes que protestavam: “Como revolucionários, vocês são histéricos que exigem um novo mestre. Vocês vão ganhar um”. E o ganhamos, sob o disfarce do mestre “permissivo” pós-moderno cuja dominação é mais forte por ser menos visível.

Sem dúvida, muitas mudanças positivas acompanharam essa passagem -basta citar as novas liberdades das mulheres e seu acesso a cargos de poder.

Entretanto essa passagem para um outro “espírito do capitalismo” foi realmente tudo o que aconteceu nos eventos do Maio de 68, de modo que todo o entusiasmo ébrio de liberdade foi apenas um meio de substituir uma forma de dominação por outra? Muitos sinais indicam que as coisas não são tão simples. Se examinarmos nossa situação com os olhos de 1968, devemos lembrar o verdadeiro legado desse ano: seu núcleo foi uma rejeição ao sistema liberal-capitalista.

É fácil zombar da idéia do “fim da história” de Francis Fukuyama, mas hoje a maioria é fukuyamista: o capitalismo liberal-democrático é aceito como a fórmula finalmente encontrada da melhor sociedade possível, e tudo o que se pode fazer é torná-la mais justa, tolerante etc.

Ecologia e apartheid

Hoje a única verdadeira questão é: nós endossamos essa naturalização do capitalismo ou o capitalismo global de hoje contém antagonismos fortes o suficiente para impedir sua infinita reprodução?

Há (pelo menos) quatro desses antagonismos: a sombria ameaça da catástrofe ecológica, a inadequação da propriedade privada para a chamada “propriedade intelectual”, as implicações socioéticas dos novos avanços tecnocientíficos (especialmente em biogenética) e as novas formas de apartheid, os novos muros e favelas. Os primeiros três antagonismos se referem aos domínios do que Michael Hardt e Toni Negri chamam de “comuns”.

Há os “comuns de natureza externa” ameaçados pela poluição e a exploração (do petróleo a florestas e o próprio habitat natural), os “comuns de natureza interna” (o legado biogenético da humanidade) e os “comuns de cultura”, as formas imediatamente socializadas de capital “cognitivo”, basicamente a língua, nosso meio de educação e comunicação.

A referência a “comuns” justifica a ressurreição da ideia de comunismo: nos permite ver o envolvimento progressivo dos comuns como um processo de proletarização daqueles que são assim excluídos de sua própria substância.

No entanto é apenas o antagonismo entre os “incluídos” e os “excluídos” que realmente justifica o termo comunismo. Em diferentes formas de favelas ao redor do mundo, presenciamos o rápido crescimento da população sem o controle do Estado, vivendo em condições meio fora-da-lei, em terrível carência de formas mínimas de auto-organização.

Se a principal tarefa da política emancipatória do século 19 foi romper o monopólio dos liberais burgueses por meio da politização da classe trabalhadora, e se a tarefa do século 20 foi despertar politicamente a imensa população rural da Ásia e da África, a principal tarefa do século 21 é politizar - organizar e disciplinar - as “massas desestruturadas” dos que vivem nas favelas.

Se ignorarmos esse problema dos excluídos, todos os outros antagonismos perdem seu viés subversivo. A ecologia se transforma em um problema de desenvolvimento sustentável, a propriedade intelectual em um complexo desafio jurídico, a biogenética em uma questão ética.

“Sejamos realistas”

Sem o antagonismo entre incluídos e excluídos, poderemos nos encontrar em um mundo em que Bill Gates é o principal humanista, lutando contra a pobreza e as doenças, e Rupert Murdoch o maior ambientalista, mobilizando milhões de pessoas por meio de seu império da mídia.

O verdadeiro legado de 1968 é melhor resumido na fórmula “soyons realistes, demandons l’impossible!” *sejamos realistas, exijamos o impossível!].

A verdadeira utopia é a crença em que o sistema global existente pode se reproduzir indefinidamente. A única maneira de ser verdadeiramente realista é imaginar o que, dentro das coordenadas desse sistema, só pode parecer impossível.

SLAVOJ ZIZEK é filósofo esloveno e autor de “Um Mapa da Ideologia” (Contraponto). Ele escreve na seção “Autores”, do Mais!.